Saturday, September 23, 2017

House - Life is Pain


Diós, como esse vídeo é bonito. Como o brilho das estrelas que nos chega muitos anos depois de elas estarem mortas, a vida de House me chegou com delay, em relação a seus fãs de primeira hora. mas veio pra ficar. Sua história chegou ao fim, pra mim, nesta semana, mas isto pra viajar novamente em um outro éter independente das coações biofágicas do efêmero, o espaço sagrado das lembranças mais preciosas, essas que nos dão, quando irrompem, uma nova modalidade de razão de seguir adiante, embora, como diz o ranzinza genial do Princeton Plainsboro, viver seja tão doloroso e, acrescento eu, budisticamente tão absurdo. Love you, doutor House.
-Unzuhause- 

Thursday, August 03, 2017

Friday, June 02, 2017

Wednesday, May 24, 2017

Wednesday, May 17, 2017

no vôlei da vida


Reparem que, num jogo de vôlei, o time se cumprimenta não só quando faz, mas também ao tomar um ponto. Assim devemos ser nos tempos do revés: saudando e energizando e reagrupando as partes num todo motivado para a próxima bola.

a melodia da melancolia


Tuesday, May 16, 2017

nascer e morrer


Uma das cenas inesquecíveis da terceira temporada de House. Nem com toda a couraça ranzinza costumeira ele resistiu à ternura dessa mãozinha que vinha do ventre do ser lhe saudar e pedir socorro, num momento crítico, entre a vida e a morte, da mãe e do rebento. não foi nem mesmo o dia do nascimento, ao menos do "oficial", pois ele voltou pro ventre curado para aguardar pelos outros nascimentos, o oficial e o que nos aguarda a cada nova provação ao longo da existência. Pois, como diria Erich Fromm:
"O nascimento não é um ato; é um processo. A meta da vida é nascer plenamente, embora sua tragédia consista em que a maioria dos homens morre antes de haver nascido assim. Viver é nascer a cada minuto. A morte ocorre quando cessa o nascimento; psicologicamente, porém, a maioria dentre nós cessa de nascer num determinado ponto. Alguns são totalmente natimortos; continuam a viver fisiologicamente , mas mentalmente anseiam regressar ao ventre, à terra, à treva; à morte; são loucos, quase. Muitos outros seguem mais adiante no caminho da vida. Entretanto, por assim dizer, não conseguem cortar de todo o cordão umbilical; continuam simbioticamente apegados à mãe, ao pai, à família, à raça, ao Estado, ao status, ao dinheiro, aos deuses etc; jamais surgem completos, como eles mesmos e, assim, jamais nascem plenamente."

Sunday, May 14, 2017

Friday, May 12, 2017

Thursday, April 20, 2017

o país 171


Diálogo de House com a jovem estuprada 'lubrificou meus olhos', no episódio que assisti às 3h50 desta madrugada (sim, sou desses). Pra secá-las, vejo que o mesmo canal anuncia pra domingo estreia de série nacional sobre um tiozinho safado q adora roubar parentes e amigos e q, afastado por eles, está voltando para enganá-los de novo, possível metáfora do "Lula 2018". Título certeiro: 171. Como produzir aqui algo da grandeza de House sem soar a cópia dublada e vagabunda de idéias fora de lugar?

Saturday, April 15, 2017

Páscoa: Ladainha de todos os santos

Selfie de Cristo para a Morte e o Diabo





Wednesday, April 12, 2017

Tuesday, April 11, 2017

aqueles dias, aquele eu


SURREAL topar, quase vinte anos depois, com uma gravação integral daquela que foi minha primeira e maior aventura como estudante de teatro, no papel do imperador louco da peça "Calígula", a obra-prima de Albert Camus :D Sempre difícil conservar a vitalidade e o impacto de um espetáculo teatral na transposição para o vídeo, fazendo jus ao jogo das luzes, aos sons, ao frisson de comunhão e tensão dos atores entre si (com uma tensão adicional naquela trupe pelos choques de vaidade, dada a natural cobiça pelo papel principal) e com a plateia. 
Mas ao menos se pode ter uma ideia, e, no meu caso, morrer de saudade daqueles dias e daquele "eu" .
 Que bom, entre tantas perdas inevitáveis na torrente do tempo, desfrutar ainda da amizade intelectual de Camus, e com ele poder me engajar em sempre novas aventuras existenciais (são elas que me importam, mais que tudo)  na procura ativa e na espera não-passiva da graça da criação.

Tuesday, April 04, 2017

a revolta dos dândis




A Revolta dos Dândis (1987), dos saudosos Engenheiros do Hawaii, faz alusão O Homem Revoltado de Albert Camus -uma de suas seções mais interessantes empresta o nome ao álbum da banda gaúcha e a duas de suas músicas, ambas de forte tom camusiano. A Revolta 1 fala da condição do "estrangeiro", evocando o romance mais famoso do escritor franco-argelino. E como em a Revolta 2, Humberto Gessinger traduz em música o desalento de O Homem Revoltado com a comédia de horrores encenada por esquerda e direita no Ocidente contemporâneo, ambas distantes das raízes mais profundas da vida humana, ambas cúmplices de uma mesma lógica safada, predatória, assassina, useira e vezeira em cagar para o povo, como na última desculpa da diarreica e cropófoga "guerreira do povo brasileiro "que ousamos suportar que fosse nossa dirigente por tempo demasiado, pesadelo ainda não encerrado, vide o vice medíocre que nos legou.
À diferença do mimado histérico que despeja suas afetações em caricaturas estéreis de um mundo melhor, mas também a anos-luz dos conformistas e dos parasitas da ordem mentirosa e opressiva, o revoltado em Camus, transitando pelo absurdo do mundo com a leveza dos dândis de Baudelaire e Byron, encara de frente a falência farsante das velhas dicotomias ideológicas, ao mesmo tempo que faz suas as ambiguidades efetivas da vida, perseguindo, ou se deixando tocar pela sabedoria do Caminho do Meio já antevisto pelo Tatagatha da Índia, que tanto relembra, em certos aspectos, o projeto de  "pensamento mediterrâneo" em que O Homem Revoltado  culmina.
Atentem para esse trecho da música A Revolta dos Dândis II: 

Esquerda & direita, direitos & deveres,
Os 3 patetas, os 3 poderes
Ascensão & queda, são dois lados da mesma moeda
Tudo é igual quando se pensa
Em como tudo poderia ser
Há tão pouca diferença e há tanta coisa a fazer
Nossos sonhos são os mesmos há muito tempo
Mas não há mais muito tempo pra sonhar

Pensei que houvesse um muro
Entre o lado claro e o lado escuro
Pensei que houvesse diferença
Entre gritos e sussurros
Mas foi um engano, foi tudo em vão
Já não há mais diferença entre a raiva e a razão

Monday, March 20, 2017

Bird York, In The Deep


Thought you had
All the answers
To rest your heart upon
But something happens
Don't see it coming, now
You can't stop yourself
Now you're out there swimming...
In the deep
In the deep

Life keeps tumbling your heart in circles
Till you... Let go
Till you shed your pride, and you climb to heaven
And you throw yourself off
Now you're out there spinning...
In the deep
In the deep
In the deep
In the deep

And now you're out there spinning...
And now you're out there spinning...
In the deep
In the deep
In the deep

In the silence
All your secrets
Raise their weary heads
And you can't pin yourself
Back together
With who you thought you were
Now you're out there livin'...
In the deep
In the deep
In the deep

In the deep...

Now you're out there spinning...
Now you're out there swimming...
Now you're out there spinning...
In the deep
In the deep
In the deep
In the deep...

Tuesday, March 07, 2017

o Espírito na sarjeta

Flagrei este ato de desprezo à vida do Espírito no domingo (05/03). Resisti até hoje a postar, até porque vinha me relacionando com essa imagem no nível subjetivo, que é o método que empregamos (que Jung ensinou) ao interpretar as pessoas e fatos de um sonho como reflexos de nós mesmos. 
Ou seja, vi nessa cena deprimente um alerta do quanto eu mesmo, com meus próprios recursos e potenciais, posso derrapar em condutas desleixadas como a do cara q fez isso com esses exemplares da obra de Jung. A obra em si não é atingida, claro. Quem sofre são esses exemplares -o que me dói como machucarem um bebê ou um cachorrinho- e a alma estreita que os trata desse jeito. O Espírito é assim: caluniado, nunca atingido, porque no fundo é espelho: quem o agride se agride, confessando seu estágio de baixeza.

Parecia ser a porta daquele sebo na entrada da Paulista (via metrô Paraíso). sebo fechado, por ser domingo,.. havia uma brecha na parede, algo parecido com um espaço de acesso exíguo. 
A pessoa que estava próxima não parecia dona, mas tinha algo a ver com o sebo, e por estar lá me inibiu maiores arroubos de "compaixão" (pra não dizer descida do Espírito Santo, o brasileiro) em mim. 
Sol dos infernos, eu puto com uma decepção amorosa. 
Tudo com muita cara de sonho, até pela importância estrutural que esses livros têm na mina vida, nas minhas alegrias e até nas minhas revoltas, vontades de jogar tudo pelos ares pelo mundo não ser tão significativo quanto eu, quanto Jung, gostaria.

Monday, March 06, 2017

o sanatório da Terra

A pessoa lúcida caminha nessa terra como um visitante de sanatório de retardados.

30 por 13

Edições diretas do russo viraram um fetiche no Brasil. Mas cuidado. Mesmo o ótimo Paulo Bezerra incide em erros bobos, mas graves, como  trocar 30 (o certo) por 13, ao traduzir o número de anos entre os fatos tratados em Os Irmãos Karamazov e a decisão do narrador de contá-los.

Saturday, February 25, 2017

o flautista da febre


O Flautista de Hamelin é um conto folclórico, reescrito pela primeira vez pelos Irmãos Grimm e que narra um desastre incomum acontecido na cidade de Hamelin, na Alemanha, em 26 de junho de 1284[1][2].
Em 1284[3], a cidade de Hamelin estava sofrendo com uma infestação de ratos. Um dia, chega à cidade um homem que reivindica ser um "caçador de ratos" dizendo ter a solução para o problema. Prometeram-lhe um bom pagamento em troca dos ratos - uma moeda pela cabeça de cada um. O homem aceitou o acordo, pegou uma flauta e hipnotizou os ratos, afogando-os no Rio Weser.
Apesar de obter sucesso, o povo da cidade abjurou a promessa feita e recusou-se a pagar o "caçador de ratos", afirmando que ele não havia apresentado as cabeças. O homem deixou a cidade, mas retornou várias semanas depois e, enquanto os habitantes estavam na igreja, tocou novamente sua flauta, atraindo desta vez as crianças de Hamelin. Cento e trinta meninos e meninas seguiram-no para fora da cidade, onde foram enfeitiçados e trancados em uma caverna. Na cidade, só ficaram opulentos habitantes e repletos celeiros e bem cheias despensas, protegidas por sólidas muralhas e um imenso manto de silêncio e tristeza.
E foi isso que se sucedeu há muitos, muitos anos, na deserta e vazia cidade de Hamelin, onde, por mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma criança.
(Wikipedia)
-x-
No clipe acima, para música que descobri no filme "Os Agentes do Destino" (veja post de ontem), o Flautista faz aflorar, rapta e abduz a Criança interior do povo que então troca a peste do pavor e da rotina pela explosão (fever) da alegria irreverente. E de quebra liberta a princesa e o seu próprio coração prisioneiros para o amor.

-x-

Febre
Nunca se sabe o quanto eu te amo
Nunca se sabe o quanto eu me importo
Quando você coloca seus braços em volta de mim
Recebo uma febre que é tão difícil de suportar
Você me dá febre (você me dá febre) quando você me beija
Febre quando você me abraça forte (você me dá febre)
Febre ... na "manhã
Febre durante toda a noite

Luzes sol até o dia
Lua ilumina a noite
Eu me ilumino quando você chama meu nome
Porque eu sei que você vai me tratar bem
Você me dá febre (você me dá febre) quando você me beija
Febre quando você me abraça forte (você me dá febre)
Febre ... na "manhã
Febre durante toda a noite (WOW!!)
Todo mundo tem a febre
Que é alguma coisa que todos sabem
Febre não é uma coisa tão nova
Febre começou há muito tempo
(Você me dá febre)
Baby, por sua vez em sua luz do amor (yeah, yeah)
Deixá-lo brilhar em mim (yeah, yeah)
Bem, baby, ligue a sua luz de amor (yeah, yeah)
E deixá-lo brilhar em mim (yeah, yeah)
Bem, um pouco maior (yeah, yeah)
E apenas um pouco mais brilhante, baby (yeah, yeah)
Você me dá febre (yeah, yeah, yeah, yeah)
Você me dá febre (yeah, yeah, yeah, yeah)
Você me dá febre (yeah, yeah, yeah, yeah)
Você me dá febre.

declaração de amor


Alisa Zinov'yevna Rosenbaum: menina russa que viu a família ir à ruína com a ascensão dos saqueadores bolcheviques na Revolução que este ano "comemora" o centenário. Nascida em 1905, emigrou pra América aos 21 anos. Lá, assim que chegou, o primeiro livro que comprou foi "Assim Falou Zaratustra", de Nietzsche, uma das influências decisivas da escritora e filósofa que já a menina tinha dentro de si, e que se consagrou com o pseudônimo Ayn Rand. 
 Em romances como "A Nascente" e "A Revolta de Atlas", Rand reaviva e combate, como Orwell, Koestler e outros grandes nomes do século 20, o pesadelo comunista denunciado agora como uma ameaça real no próprio coração da civilização liberal, os EUA.
Com uma prosa envolvente, de forte teor alegórico, mostra como a decadência apodrece o Ocidente através dos bacilos do coletivismo, do medo à liberdade (como diria, mais à esquerda, Erich Fromm), da repressão à minoria mais injustiçada pelas sociedades de massa, o indivíduo, o "Eu", que na novela distópica "Cântico" é uma palavra terminantemente proibida, numa sociedade em que até as amizades espontâneas são causa de cadeia porque vistas como "crime de preferência".
A notoriedade propiciada pelas obras literárias cresceu ainda mais quando Rand se voltou para um trabalho de sistematização de sua filosofia, que designou de "Objetivismo", para enfatizar sua discordância de uma das tendências mais nefastas do pensamento moderno, a recusa da percepção objetiva do real em nome das quimeras do capricho pessoal de cada "pensador", ou melhor, ideólogo. O real merece respeito, devemos sempre partir da (e voltar à) constatação sensata do que "é", sem a qual o "dever ser", o reino dos valores, se perde no delírio e na barbárie.
 Ao projetar valores heroicos em profissões como a de arquiteto ("A Nascente"), e engenheiros, cientistas e empresários ("A Revolta de Atlas"), Rand enfatizava outro aspecto muito desvalorizado pela mentalidade dos ideológos das assim chamadas "humanas": a conexão com a materialidade da vida, em sua lógica dura. Mas não se trata de "materialismo", e sim exaltação do gênio humano no que ele tem de mais notável, a capacidade racional de intervir nas implacáveis leis e recursos da natureza e os aproveitar para propósitos que ela não tinha nem podia ter, na medida em que propósitos "devem ser" e não são, como obras do nosso intelecto e vontade.
Pelo elogio enfático ao capitalismo laissez-faire e denúncia do comunismo que conheceu pelo estômago, por assim dizer, Ayn virou uma espécie de diva da direita americana. Mas pela recusa inflexível da crença religiosa, e valorização positiva que dá à noção de egoísmo, não deixou de causar perplexidade nos meios conservadores, e de despertar furor, a favor ou contra, mesmo depois da morte, em 1982, e até os dias de hoje. .
Ayn, paradoxal. Ayn, urgente. Ayn, meu amor.

Friday, February 24, 2017

o combate com o Obscuro


Matt Damon, que DOM de topar filmes e personagens que eu curto, que me ressoam. Revi ontem seu "Agentes do Destino", alegoria incrível da melhor reverência possível que uma pessoa forte pode oferecer ao poderoso Obscuro (meu jeito de falar do "oposto" do Encardido) e a seus caprichos incompreensíveis: confrontá-lo. Isso não é heresia, ou teríamos que considerar herético o nome de Israel, "aquele que lutou contra Deus", ou a luta de Jacó contra o Anjo; e é contra os "anjos" do CEO do céu que, na história baseada em conto de Philip K. Dick, o personagem de Matt, jovem candidato ao Senado nos EUA, tem que se defrontar e insistir em reescrever o livro do seu destino para que o amor disruptivo (pela bela Elise, nome da musa de Beethoven em célebre composição) pudesse caber nas suas páginas tingidas, até então, pela monotonia das fingidas regras do sucesso no poder.

Friday, February 17, 2017

carta de von Mises a Ayn Rand


Prezada Sra. Rand:
Eu não sou um crítico profissional e não me sinto capaz de julgar os méritos desse livro.  Portanto, eu não quero retê-la aqui com a informação que gostei muito de ler A Revolta de Atlas e que fiquei extremamente admirado com a magistral maneira como a senhora construiu o enredo.
Porém, A Revolta de Atlas não é simplesmente uma novela. É também (e principalmente) uma análise persuasiva dos males que assolam nossa sociedade, uma rejeição embasada da ideologia dos nossos pretensos "intelectuais" e um impiedoso desmascaramento da insinceridade das políticas adotadas pelos governantes e políticos.
É uma exposição devastadora dos "canibais da moral", dos "gigolôs da ciência" e da "tagarelice acadêmica" desses criadores da "revolução anti-industrial".  A senhora teve a coragem de dizer para as massas aquilo que nenhum político jamais teve: vocês não seriam nada sem os capitalistas, e todas as melhorias nas suas condições de vida, tudo aquilo que vocês simplesmente assumem como coisa corriqueira, como fato consumado, vocês devem unicamente aos esforços de homens que são melhores do que vocês.
Se isto é arrogância, como muitos de seus críticos disseram, ainda assim é a verdade que precisava ser dita nesta era de assistencialismo estatal.
Eu sinceramente lhe congratulo e aguardo com grande expectativa seu próximo livro.
Ludwig von Mises
(carta por ocasião do lançamento de A Revolta de Atlas nos EUA, em 1957)

Monday, February 06, 2017

amor e individuação



Depois daquele momento inicial de encantamento apaixonado, em que o outro parece "tudo de bom", vem a fase árdua dos desgastes e defeitos, isto é, do que se desvia de nossas expectativas e necessidades, do que o outro tem de menos e demais ou de estagnado. A crise pode rumar para uma incompatibilidade total, ou você pode manter por mais ou menos tempo a expectativa de "corrigir" o outro. Muita chance dessa segunda opção apenas atrasar a amarga desilusão e ruptura.
Não que sejamos imutáveis. Somos não só temporários (efêmeros, impermanentes), como "temporais", seres históricos, se reinventando nas escolhas e conjunturas de cada instante. Um relacionamento pode ser fator de catalisação desse "temporal" em nós, em todos os sentidos. Mas que seja de maneira virtuosa, se é que amor, para além do bem e do mal, com a natureza, pode combinar com "virtude".
Que o campo de forças e influência recíproca não se estruture na base de uma vontade autocrática de um parceiro se impondo ao outro. Os atritos e desafios de uma relação com entrega e respeito vão certamente abalar estruturas, mexendo com o nosso daqui por diante mas também com as latências do passado, com nosso "inconsciente", de que o amante se torna uma espécie de destinatário, portador e para-raio.
Sim, Jung chega a nos dizer que "a outra pessoa é um representante muito forte do (nosso) inconsciente, mas apenas quando é amada de verdade". Nesse caso, a relação se torna uma via alternativa de individuação: ao invés de a sós com nosso inconsciente, ou numa relação terapeuta (coach)- "cliente", o indívíduo vem a se tornar o que é, se descobre, se transforma, com a força medianeira do amado. A boniteza de uma relação forte é essa em que somos esculturas e escultores um do outro, e isso de modo consentido, ainda que doloroso, um "estar-se preso por vontade", um "ter com quem nos mata lealdade" (Legião Urbana, "Monte Castelo").

Thursday, February 02, 2017

empatia claustrofóbica


"Maníaco": duas horas de filme e o espectador literalmente na cabeça do psicopata Frank, dono de uma loja de manequins que ele tem o hábito de revestir com o cabelo de suas vítimas escalpeladas. Vemos de dentro pra fora seus surtos, memórias, caça a mulheres que irão "pagar" por sua mãe puta. Vemos tambem o afeto que emerge pela lindíssima Anne, fotógrafa com quem o trabalho criativo (Eros) é possível, mas que entra em luta com a pulsão mortal (Tânatos) de lhe fazer mãe (não como um homem normal gostaria, ou seja, mãe de seus filhos) e "precisar" puni-la por isso.Tudo desde seu ponto de vista, inclusive óptico, o rosto dele quase só aparece em reflexos no espelho. Remake de filme dos anos 80, parece propor uma claustrofóbica empatia do espectador com o que poderia haver de mais monstruoso dentro de si. Disturbing.

Sunday, January 29, 2017

ardendo


"Ardendo ardendo ardendo ardendo"
Nesse verso de Terra Desolada, T.S. Eliot evoca de Buda o Sermão do Fogo, "que equivale em importância ao Sermão da Montanha", acrescenta nas notas que acompanham seu difícil poema, uma das obras-primas da literatura que meditou as catástrofes do Século XX, aliás promissoras também no "novo" tempo que grassa noite adentro. 
O paralelo com o cristianismo é acentuado pelo fato de a estrofe se irradiar também para as Confissões de Santo Agostinho, quando o poeta americano verseja:
"A Cartago então eu vim
Ardendo ardendo ardendo ardendo
Ó Senhor Tu que me arrebatas
Ó Senhor Tu que arrebatas
ardendo"
Na autobiografia do mestre de Hipona, está escrito: "a Cartago então eu vim, onde todos os amores ímpios, como num caldeirão, cantavam em meu ouvido". 

É das Confissões também a evocação ao "Senhor", estranha ao contexto agnóstico da doutrina budista, mas maravilhosamente ressonante com o único "desejo" que esses dois grandes ascetismos conservam, o desejo de abolição de todo apego ao desejo, não via apatia catatônica, mas transformação e transcendência.

Saturday, January 28, 2017

Buda - O Sermão do Fogo


Adittapariyaya Sutta: The Fire Sermon (pali chant)

E o Abençoado Ser seguiu diretamente para Gayasisa, próximo de Gaya, com mil monges.
Lá o Abençoado Ser assim se dirigiu aos monges: “Tudo, ó monges, está queimando. E como, ó monges, está tudo queimando?”
“O olho, ó monges, está queimando; as coisas visíveis estão queimando; as impressões mentais fundamentais no olho estão queimando; o contato do olho com as coisas visíveis está queimando; a sensação produzida pelo olho com as coisas visíveis, seja agradável ou dolorosa, ou nem agradável nem dolorosa, está queimando. Com que fogo estão queimando? Eu vos declaro que estão queimando com o fogo da ambição, com o fogo da cólera, com o fogo da ignorância; estão queimando com as angústias do nascimento, do envelhecimento, da morte, da tristeza, lamentação, sofrimento, desalento e desespero.”
“O ouvido está queimando, os sons estão queimando… O nariz está queimando… os odores estão queimando… A língua está queimando, os paladares estão queimando… O corpo está queimando, os objetos de contato estão queimando… A mente está queimando, os pensamentos estão queimando, tudo está queimando com o fogo da ambição, da cólera e da ignorância.”
“Considerando isto, ó monges, um discípulo caminhando no Caminho Nobre torna-se cansado do olho, cansado das coisas visíveis, cansado das impressões mentais baseadas no olho, cansado do contato do olho com as coisas visíveis, cansado também da sensação sentida pelo contato do olho com as coisas visíveis, seja agradável, dolorosa, ou nem agradável nem dolorosa. Ele se torna cansado do ouvido, e assim por diante… até os… pensamentos. Tornando-se cansado de tudo isso ele elimina de si o apego; pela ausência do apego torna-se livre; estando livre torna-se cônscio de que é livre, e compreende que o renascimento está exaurido; que não mais haverá um retorno a este mundo.”
Quando esta exposição foi apresentada, as mentes daqueles milhares de monges ficaram livres do apego ao mundo e eles foram liberados de todos os obstáculos mentais.
(Adaptado do Mahavagga, tradução inglesa de T. W. Rhys-Davids e Herman Oldenberg)
KORNFIELD, Jack & FRONSDAL, Gil (Organizadores). Ensinamentos do Buda. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2002, pp. 62/63.

Wednesday, January 25, 2017

a conversão do Apóstolo


Cego tu eras antes de "cair do cavalo", metáfora consagrada pela visita, no caminho de Damasco, do Senhor que perseguias com olhos entenebrecidos pelas escamas de ódio, ou amor invertido. A Luz que não podias suportar, fechado que estavas no conforto opressivo da escuridão, precisou te arrebatar as vistas carnais até que as espirituais se abrissem. No educandário da Terra também as feridas e doenças e perdas são professores de espiritualização do concreto e concretização do espírito.
Cair do cavalo virou sinônimo de todas as arrogâncias equivocadas -Jung diria fixações unilaterais da consciência- sendo punidas pela inevitável reviravolta, "conversão", como nossos carros mudando de rotas, quando o motorista percebe o lapso ou o bloqueio.
Inspirai uma conversão sempre mais fecunda à verdade e à integridade, apóstolo dos pagãos.
E o ardor das missões apaixonadas, das viagens aos confins e aos avessos.
E o bom combate, caindo e levantando, sangrando e sorrindo, atento ao que o reveses ensinarem ser preciso mudar, perseverante sempre e vitorioso ao fim. Rogai por mim.

XXXX
Comentário do dia por Santo Agostinho (354-430)
Bispo de Hipona (norte de África), Doutor da Igreja
Sermão 279

O perseguidor transformado em pregador

Vinda do alto do Céu, a voz de Cristo fez com que Saulo caísse por terra: recebeu ordem de não continuar com as suas perseguições, e caiu por terra. Era preciso que tombasse e em seguida se erguesse; primeiro caído e depois curado. Porque Cristo não teria nunca vivido nele se Saulo não tivesse abandonado a sua antiga vida de pecado. Caído por terra, que ouve ele? «Saulo, Saulo, porque Me persegues? É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão» (At 26,14). Ao que ele respondeu: «Quem és Tu, Senhor?» E a voz do alto continuou: «Sou Jesus de Nazaré, que tu persegues». Os membros ainda estão na Terra, a cabeça grita do alto do Céu; e não diz: «Porque persegues os meus servos?» mas: «Porque Me persegues?»
E Paulo, que empregava todo o seu ardor nas perseguições, dispõe-se desde logo a obedecer: «Que queres que eu faça?» Já o perseguidor se transformou em pregador, o lobo em ovelha, o inimigo em defensor. Paulo aprende o que deve fazer: se ficou cego, se a luz do mundo lhe foi subtraída durante um certo tempo, foi para que no seu coração brilhasse a luz interior. A luz é retirada ao perseguidor para ser dada ao pregador; naquele momento em que não via nada deste mundo, viu Jesus. Ele é um símbolo para os crentes: aqueles que creem em Deus devem fixar nele o olhar da sua alma, sem ter em consideração as coisas exteriores. [...]
Saulo é conduzido a Ananias; o lobo destruidor é levado à ovelha. Mas o Pastor que tudo conduz do alto dos Céus, tranquiliza-o [...]: «Não te preocupes. Eu lhe revelarei tudo o que ele tem de sofrer pelo meu nome» (At 9,16). Que maravilha! O lobo é trazido à ovelha [...]. e o Cordeiro, que foi morto pelas ovelhas, ensina-as a não temerem.

Tuesday, January 24, 2017

Até as santinhas têm em si uma Perséfone


Influência de Jung na composição do álbum "Abyss":
Never needing help from you
Reaching out with eyes closed
We felt light, it taught us to grow
(Hold, hold, hold on)
Creatures of habit, carrion flowers
Growing from repeated crimes
The afterglow in full bloom
Slow and relenntless, we're after you
Hold on to the pain
Of love taken from you -
A plague
(Hold, hold, hold on)
XXXX
Flores de Carniça
Nós aprendemos como nos carregar
Nunca precisamos de sua ajuda
Estendendo a mão com os olhos fechados

Nós sentimos a luz, ela nos ensinou como crescer
(Segure, segure, segure-se)
Criaturas do habitat, flores de carniça
Crescendo por crimes repetidos
A aurora da floração completa
Calmo e implacável, estamos após você
Segurando a dor
Do amor tomado de você
Uma praga
(Segure, segure, segure-se)

Sunday, January 22, 2017

Thursday, January 19, 2017

o mantra da paz com Tina Turner

Om Om Om
Sarvesham Svastir Bhavatu
Sarvesham Shantir Bhavatu
Sarvesham Poornam Bhavatu
Sarvesham Mangalam Bhavatu
Om, Shanti, Shanti, Shanti

Mantra's Meaning: 

May there be happiness in all
May there be peace in all
May there be completeness in all
May there be success in all

Om, Peace, Peace, Peace

Monday, January 16, 2017

lutar como Luther King

Temos de aprender a viver todos como irmãos ou morreremos todos como loucos."
"A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo lugar."
-16/01, Martin Luther King Day-

Saturday, January 14, 2017

Roda Viva com Noam Chomsky (1996)


100 anos de Revolução Russa (I)



Impossível não olhar com outros olhos pra personalidade de Chomsky, suas posições políticas libertárias, sua crítica, antes e melhor que a do dromedário novo inquilino da Casa Branca, à mídia como pool de uma só rede "fake news",  e até sua linguística universalista (reflexo de uma aposta na possibilidade de comunicação, ou seja tornar comum, partilhar, entre os homens mais diversos), após o espetáculo de homenagem que lhe é feito no filme "Capitão Fantástico". 
Aqui, ele rebate uma espectadora de esquerda xiita, inconformada por ele colocar Lênin, o "Lula" (quimera) dos socialistas de velha guarda, no mesmo rol totalitário de Stálin. Stálin não deturpou Lênin, nem Lênin, em certo sentido, deturpou Marx. Os três deturparam um grande ideal, talvez impossível enquanto tal, mas com capacidade ética para nos conduzir a uma social-democracia madura, conciliadora dos dinamismos do mercado, dos direitos do indivíduo e dos seus deveres para com o gênero (raiz do termo "genero-sidade") humano e com a Terra, também espoliada e injustiçada pelo patrão demoníaco que fez dela escrava, o homem.

Thursday, January 12, 2017

vem, me fala de você






Vem, me fala de você
-Zé Vicente-
Vem, me fala tu de liberdade
Desta igualdade que todos queremos
Desta vida nova que todos buscamos
Desta paz que um dia alcançaremos.

Vem me fala tu de tua vida
Desta amizade mais querida
Desta ansiedade de amar de novo
Desta tua vida doada ao povo
Vem me fala tu de esperança
Deste novo ser criança
Desta paz sem ser bonança
Desta luta pra vencer
Vem me fala de você

Wednesday, January 11, 2017

a lua dos vira-latas

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a lua 
(Millôr)

Tuesday, January 10, 2017

certezas e convites

"De tudo ficaram três coisas
A certeza de que estamos começando 
A certeza de que é preciso continuar
A certeza de que podemos ser interrompidos 
antes de terminar
Façamos da interrupção um caminho novo
Da queda, um passo de dança
Do medo, uma escada
Do sonho, uma ponte
Da procura, um encontro!"
-Fernando Sabino-

essa é sua vida


nós dois

Nós dois
(Guilherme de Almeida)
Chão humilde. Então,
riscou-o a sombra de um voo.
"Sou céu!" disse o chão.

Thursday, January 05, 2017

Monday, January 02, 2017