Sunday, October 30, 2016

Saturday, October 29, 2016

O Cristo da humanidade




Observação - O Ator
*por Plínio Marcos

Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o bastante para fazê-lo indiferente às desgraças e alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave no qual ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu em sua vida.

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade, e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que, por desencanto ou medo, se sujeita, e por aí inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.

Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos nos quais não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e os autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator. 

O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas, o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade, e sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de seus personagens, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.

Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado. Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor, que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter – não é o dinheiro, não são os aplausos - é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica. 

(1986)

Thursday, October 27, 2016

Truman e a morte de Deus




Rever um dos filmes de nossa vida é como rever um grande amor do passado. Até pelos riscos de decepção. O filme não terá ganho rugas ou quilos, nem perdido fios de cabelo,nem mudado de caráter, mas ainda assim poderá ter desbotado. Não ter em nós a mesma força da surpresa, o mesmo encanto epifânico da primeira vez. Fiz o teste ontem, com um desses "filmes-ha!", "O Show de Truman", e ele continua jovial e sedutor.. 
Antes de mais nada, que são" filmes-ha"! ? São como as músicas-ha!, os lugares-ha!, as pessoas-ha! ou, pra voltar a formulação primeira deste misterioso "ha!", os "livros -ha!",conforme Vernon Proxton:
"Há bons livros, livros quaisquer e livros ruins. Entre os bons, há os que são honestos, inspiradores, emocionantes, proféticos, edificantes.
Os livros-ha! são aqueles que determinam, na consciência do leitor, uma mudança profunda. Eles dilatam a sua sensibilidade de tal maneira que ele se põe a olhar os objetos mais familiares como se os observasse pela primeira vez.
Os livros-ha! galvanizam. Atingem o centro nervoso do ser, e o leitor recebe um choque quase físico. Um arrepio de excitação percorre-o da cabeça aos pés".
Truman foi um desses "ha!", há quase vinte anos, quando o assisti pela primeira, e segunda, e terceira... vezes. Não por ser necessariamente melhor, mais sofisticado, mais "cult" que outros. Mas pelo poder de exprimir e tocar. Na sua simplicidade assombrosamente envolvente, o roteiro traz à tona, em pleno contexto atual de reality shows (que na época, 1998, nem estavam tão em voga). o drama essencial do homem, a saída da caverna das ilusões, tema que os grandes pensadores já formularam das mais diversas formas, com diferentes intenções e ideologias, da anamnese platônica à morte de Deus nietzschiana. E há "morte de Deus" em Truman. 
Parênteses: claro que "morte de Deus" é uma expressão autocontraditória, se tomada literalmente: difícil imaginar que um ser perfeito, totipotente e eterno pudesse passar pela privação da morte, a não ser por livre e espontânea vontade, ou em sua provisória encarnação no tempo-espaço das criaturas, como no caso do mito de Cristo. 
Mas Nietzsche, que os detratores adoram lembrar que morreu louco, como se isso fosse por si só, um veredicto (de Deus?) sobre suas teses, diz que o próprio Todo-Poderoso "morreu", e que fomos "nós", os modernos, que o matamos. O que indica que se trata de um determinado evento NA CONSCIÊNCIA dos homens, eles sim mortais. Sem entrar aqui no comentário detalhado da tese nietzschiana, que será objeto de meu artigo em gestação para o curso de Jorge Forbes, o que ressalto é a presença do tema na narrativa fílmica de Truman, herói que para fazer jus a seu nome, o "true man", homem verdadeiro, passa por toda sorte de provações no caminho do despertar iluminativo, desmascaramento do falso homem, do falso Self (Winnicott), filho indesejado, vendido desde o parto a uma grande rede de comunicações, devassado em sua intimidade, encostado na "segurança" (ele inclusive é um pacato funcionário de seguradora) que mata a liberdade, que torna a vida mais brocha que bruxa, que amor-tece de tecidos mortuários o desejo e o amor, que nos adormece no berço esplêndido de criaturas à imagem e semelhança do Pai amoroso, "Deus no comando", paraíso à vista. 
Talvez um true man tenha encontro marcado com um true god. Vai saber. Que eu venha a saber, Fazendo a travessia de Truman, que ainda não fiz, pobre de mim, espectador que -outra ironia que torna inesquecível este filme de Peter Weir, mesmo diretor de "Sociedade dos Poetas Mortos"- se revolve nas águas rasas da banheira de casa vibrando com a travessia marítima do herói-poeta que nele, em mim e em você pede pra ressurgir do ventre da baleia. Notei ontem, aliás, como  no filme, como na Bíblia, o  inumano Soberano dos ventos, das bestas e do mar decide, com humana compaixão, pôr um fim aos tormentos do frágil viajante, quando este deu prova de sua determinação de não mais recuar na execução, nos agora ampliados limites do possível, de sua missão mais elevada
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Steve Jablonsky, "My Name is Lincoln"