domingo, janeiro 31, 2016

oração e tentação carnavalescas


"Onde não puderes amar, não te demores". Que essas palavras me guiem e purifiquem, e me protejam do Tentador quando quiser me esfregar na cara e me espetar flechas de rancor por lembrar que estamos há três semanas brincando carnaval num dos momentos mais abjetos de nossa história.

sábado, janeiro 30, 2016

NET ou a inesperada virtude do tilt

"Birdman": um dos filmes da minha vida, e a NET resolve dar tilt na meia hora final. Tilt dos mais cruéis, não de simplesmente sair do ar, mas ficar tremendo, borrando a imagem, voltando e tremendo e borrando de novo. Puta que pariu! É de se sentir naquele modo irrelevância existencial on que o filme traduz tão bem. Até a voz sarcástica do alter ego heroico vem com tudo pra cima de você. Pobre televisão que teve de ter ouvidos e músculos de aço pros meus gentis afagos verbais e tapais que não duraram muito, mas foram como a maconha do alívio que o Michael Keaton fuma depois das verdades que ouviu da filha. Pensando bem, foi um ótimo jeito de "interagir" com a magia do filme, experimentá-lo, mais que assisti-lo de novo. De Brecht a Heidegger, grandes pensadores do século passado são unânimes na importância da "falha", do enguiço, da estranheza, como atalho e empuxo de libertação psíquica, moral e (por que não? a ideia não é monopólio dos esquerdistas triplex) política.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

amar a si mesmo como ao efetivamente próximo


Se o existencialismo de Sartre é, por vontade própria, um humanismo, o objetivismo de Ayn muitas vezes é rotulado como um egoísmo. Ela mesma não renega o rótulo, cuidando apenas de livrá-lo da pecha imposta pela hipocrisia moral dominante. Embora não reconheça esse débito, Ayn é profundamente "nietzschiana" nas tinturas românticas com que desenha seu ideal de homem, diria mesmo, de Super-homem. De Nietzsche ela gostava de citar o aforismo de Além do Bem e do Mal: a alma nobre tem reverência por si mesma.  Nesse sentido o egoísmo que ela professa é uma questão de ênfase em relação ao imperativo bíblico,  AMAR A SI MESMO como ama o próximo, redefinindo porém como "próximo" não qualquer um,  menos ainda "o povo", fetiche dos tiranos. Mas a Humanidade genial, latente a todos, enteléquia ética, afetiva e intelectual universal mas deformada na maioria de nós, largada pelo caminho, em troca dessa ou aquela vantagem material, adequação ao rebanho, canalhice mais ou menos precoce, instante de decisão de se reduzir a um verme, de escolher se lambuzar do prato podre da balança dos nossos potenciais, ponto de viragem da corrupção pessoal e coletiva.
Ateia como Nietzsche, ela valoriza como  "próxima" toda alma que comunga do conjunto de qualidades elementares à saúde espiritual, como autorrespeito, independência, criatividade, racionalidade, coragem.  Isso implica um egoísmo que está longe de ser fortaleza de espelhos asfixiante, é um amor narcisista mas includente. Considerem apenas a intensidade de seu amor pelo marido, que se traduzia em gestos concretos de suporte financeiro, quando necessário. Não por caritatismo, mas porque LHE fazia bem ver seu amor bem, e assim retribuir o tanto que também recebeu dele em momentos críticos da vida. O que ela relata, no depoimento a seguir, é de uma importância vital para quem como eu passa por muitas dessas noites trevosas de nojo e náusea, solidão e desesperança assim na terra como no céu, nas minhas forças humanas e nas energias arquetípicas, que parecem todas distantes, derretidas, empesteadas pela desgraça. Nesses momentos o reencontro do amor de si é vital, melhor ainda se contar com o "próximo" que vem ao socorro, não com esmolas, mas com o interesse DELE em um mundo do qual faça parte você forte.
"Não me senti desencorajada com frequência e, quando isso aconteceu, não durou mais que uma noite. Mas houve uma noite, enquanto eu escrevia este livro, em que SENTI UMA INDIGNAÇÃO TÃO PROFUNDA COM O ESTADO DAS 'COISAS COMO SÃO' que parecia que eu jamais recuperaria a ENERGIA PARA DAR UM ÚNICO PASSO NA DIREÇÃO DAS 'COISAS COMO DEVERIAM SER'. Frank [O' Connor, seu marido] conversou comigo por horas naquela noite. Ele me convenceu de que NÃO PODEMOS ABANDONAR O MUNDO PARA AQUELES QUE DESPREZAMOS. Quando terminou, MEU DESÂNIMO HAVIA SUMIDO E NUNCA MAIS RETORNOU DE FORMA TÃO INTENSA".
Ayn Rand,
Introdução (NY, maio de 68) à reedição de A NASCENTE

quinta-feira, janeiro 21, 2016

os super-homens também amam


O que escutei de mais desfavorável ao filme "Steve Jobs" é o fato de Michael Fassbender não se parecer muito com o Jobs real, ou se parecer menos -fisicamente falando- do que fulano ou beltrano. Como se se tratasse não de obra de arte, mas de concurso de cover. Mas a queixa não deixa de ser reveladora do quanto os traços físicos de Jobs, do menino prodígio ao sábio do discurso de Stanford, perto da morte por câncer em 2011, entram na equação simbólica que torna este personagem tão incontornável para o imaginário coletivo de nossa era, da qual ele, com Bill Gates, é um dos grandes construtores, como mago dos computadores pessoais.
O fato é que se trata de um filme insanely great, diria Jobs, espetacular "de ponta a ponta", para brincar com o jargão controlador que o protagonista projeta sobre os seus produtos: fechados "de ponta a ponta", incompatíveis com a maior parte dos sistemas... como o próprio Jobs.
Em relação ao filme "Jobs", estrelado por Ashton Kutcher -que mandou bem também e é, vá lá, "mais parecido"-, "Steve Jobs" é menos condescendente com a faceta sombria deste que é, repito, um dos homens mais interessantes de nosso tempo (não por acaso esse frisson de Hollywood por ele, com dois longas e outro documentàrio de grande porte nesses poucos anos apòs sua morte). 

A arrogância, a implicância, a megalomania, o "campo de distorção da realidade" (capacidade frenética de reinterpretar ou mesmo adulterar os fatos conforme seu interesse) a aridez de sentimentos são evidentes, nos diálogos de Jobs com a funcionária polaca, sua imago materna (Kate Winslet, magistral no papel), e com os demais personagens que o circundam, em conflitos que ele não fazia questão nenhuma de abafar de quem passasse perto,  nos bastidores dos três grandes lançamentos que pontuam a evolução da trama: o Macintosh, em 1984, o Black Cube, em 1988, pela Next, e o iMac, em 1998, já de volta à Apple, da qual fora expulso em 1985. 
John Sculley, o artífice da sua dramática saída da empresa da qual foi cofundador, na mítica garagem de sua casa , qual uma banda de rock, com o gênio da eletrônica Steve Wozniak (o Ringo que queria ser John, mas sem carisma para tanto), aparece de um modo mais matizado, mais complexo, do que simplesmente no papel de inescrupuloso traidor. Tem sim traços de vilania, mas temperados, na excelente composição do personagem, por outros aspectos. Exerce em Jobs uma virtuosa ascendência paterna, não apresenta traços de ressentimento após cair em desgraça e, quanto ao episódio da expulsão de Jobs, parece sair até com mais razão do que o jovem brilhante mas turrão que parecia pôr a vaidade pessoal acima das ponderações racionais e dos interesses da empresa. 
As biografias tendem a mostrar o retorno à Apple como um ponto de inflexão que, além de salvá-la da falência, trouxe à tona um Jobs mais compreensivo, sábio, humano. O filme evita "hagiografar" também esta interpretação, embora, sim, retrate uma evolução do tipo no relacionamento de Jobs com a filha Lisa. Um relacionamento cuja complexidade só mesmo um gênio como Fassbender poderia captar com tamanha força na riqueza contraditória dos traços de seu rosto e de sua alma -no SEU Jobs, não cover, mas obra de arte- de filho adotivo, que se sente por isso um eleito, mas também um rejeitado e que também rejeita, não sem também "eleger" a filhinha, encantadora nas três idades retratadas (5, 9 e 19 anos). Recusa publicamente assumir-se pai, mas dá o nome de Lisa a um de seus primeiros e fundamentais  computadores. Traduz na linguagem fria das máquinas a intensidade calorosa de uma afeto que tinha muita dificuldade de externalizar, preso que sempre foi ao papel de "super-homem". Não à toa ele parafrasear  Assim Falou Zaratustra, ao dizer que o problema são as pessoas, as pessoas são de uma natureza a ser superada.
Os super-homens também amam! Cenas tocantes, como aquela embalada pela linda música "Grew up at Midnight" mostram isso, sem quebrar o tom anti-laudatório da narrativa. 

quarta-feira, janeiro 20, 2016

"Florbela"


Bendita uma madrugada como a passada, em que pude estar mais próximo do universo poético de Florbela Espanca.  Isso apesar de "Florbela", de Vicente Alves do Ó, enfatizar um período de entressafra, e na verdade já de fenecimento da produção de Florbela, cada vez mais devorada pela tristeza que viria a matá-la (ainda se discute se foi ou não suicídio) três anos após a morte do irmão, em acidente (?) do avião que ele pilotava sozinho. 
O filme sugere uma intensidade incestuosa de amor entre Florbela e Apeles. Sua impossibilidade em descer das esferas platônicas à matéria pode ter colaborado no ímpeto dele de subir aos céus e também de se deixar tragar, em queda, pelas águas do Tejo. Pouco depois da tragédia, Florbela se atirou dentro de um poço na propriedade do pai. 
Não morreu ali; em verdade sentiu reviver, ainda que num  breve sopro, e num pedido imaginário do irmão morto, a inspiração para escrever, que vinha bloqueada há tempos pela melancolia. O radical anseio de amor se chocava com as frustrações conjugais, os abortos, a impossibilidade de se acomodar à posição de esposa e dona de casa, a falta de interlocução à sua altura e profundeza. 
Nem por isso "Florbela", o filme, deixa de ser profundamente revelador acerca de Florbela, não só a mulher como a poetisa. Para os neófitos em seus versos, uma excelente introdução às raízes psíquicas pessoais de uma das obras poéticas mais densas de nossa língua. Obra tão lusitana em sua tristeza, na sua perplexidade, na sua estranheza e "atraso" num mundo moderno em que o amor se perde no vapor das máquinas humanas de materialismo, pequenez e superficialidade. 
"Há em tudo quanto fitas
Pureza igual à dos céus
Até são belos meus olhos
Quando lá poisam os teus
(...)
Viver sozinha no mundo
É a minha triste sorte.
Ai quem me dera trocá-la
Embora fosse p' la morte!"
(As Quadras d' Ele, III)

terça-feira, janeiro 19, 2016

sexta-feira, janeiro 15, 2016

os filistinos e a pedra filosofal da direita




Desde os tempos em que os alquimistas nomeavam de mil e uma maneiras, por exemplo como PEDRA DOS FILÓSOFOS,  o objetivo supremo de sua arte, tudo o que recebe muitos nomes alternativos tende a ter duas caracteristicas: 1) é algo valioso, senão não seria tão disputado pela linguagem; 2) não é nomeado com precisão por nenhum desses nomes: o Tao que pode ser nomeado não é o verdadeiro Tao. Como as mil imagens arquetìpicas que apontam e desviam do arquètipo. Por isso é interessante que tanta gente esteja brigando para definir o que é ser de direita. Não digo as marcias tiburis da vida, que decidem de sua poltrona de rótulos tortos quem elas acham que merece a pecha de "fascistas". Falo das polêmicas DENTRO do seio conservador, uma das quais pegou fogo esses dias, envolvendo os nomes de Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo e Bolsonaro. A hegemonia política e intelectual dos esquerdistas tem se desgastado na proporção em que o trem da alegria petralha que os carrega, congrega e alimenta, foi mostrando sua verdadeira cara e propósito. Isso torna o ser de direita algo novamente atraente, desafiador e, como sempre, alvo de disputas e interesses pessoais e panelìsticos (o ser humano NUNCA é pacífico e interessado apenas no bem geral, não importa em que dogmas se mascare). Uma coisa eu sei: a arrogância com que esse cara, no link abaixo, trata os fãs de Bowie é o tipo de conservadorismo que nunca curtirei, e que acho particularmente BURRO ao afastar gente que poderia ver no pop preâmbulo da dita "alta cultura" de que o referido FILISTINO se arrota tão devoto.

PS: o link em questão http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/16292-malabarismo-cultural-.html

Garaudy, Alá e Lacan


A psicopática aliança entre islamismo e marxismo cultural  não é de hoje. Ela deita funda raiz no fracasso do modelo soviético com o qual os intelectuais de esquerda contavam para a abolição do capitalismo. Uma figura chave nesse sentido é o filósofo francês Roger Garaudy, marxista que, depois de anos fiel ao credo do "Deus está morto", abraçou o cristianismo para afinal se render a Alá.Chegou a ser condenado em Paris a multa e cárcere de seis meses por propagar  que o Holocausto fora uma mentira dos judeus.  Em seu "Promessas do Islã", de 1981, pouco depois da Revolução Iraniana, ele diz que o islamismo é uma "teologia da libertação" como a de nossos terceiro-mundistas, e tinha a capacidade de fazer no Primeiro Mundo o que nossos bolivarianos estão fazendo conosco: corroer os pilares morais e espirituais que instilam no homem fibra para se manter o que o cristianismo o ensinou a ser: um indivíduo. 
O fascínio do Islã para os petralhas do espírito na Europa é que ele quer DESTRUIR o sentido de dignidade humana que o cristianismo nos ensina e encarna na figura de seu Deus, o nosso Senhor e Irmão Jesus Cristo, indivíduo como nós, provado nas via-sacras heroicas da consciência que se sabe solitária e em combate espiritual neste mundo decaído. 
O Islã, em seu coletivismo autoritário, "pensa" (no sentido de fechar que esse verbo também tem) as feridas da secularização moderna e fascina os fascínoras que amaldiçoam a liberdade e a responsabilidade eminentemente individuais do homem com Deus e o próximo. 
Outro dia um petralha dos nossos, bolivariano, explicava numa mesa de café ao lado da minha como isso funciona na cabeça dele, adestrada não ainda com Maomé, mas com Lacan, outra estrela da intelectualidade francesa órfã de Stálin. Sim, ele considera que o partido nojento e falso até o talo que nos governa é a encarnação do que Lacan ensina sobre não sermos nada, zé-ninguéns dominados por nosso "inconsciente", e que por isso é ilusão querermos ser indivíduos soberanos, heróis de nossa vida, com um código moral definido e diretivo,  temos é de nos sujeitar ao que nos governa às escondidas e obter o melhor que pudermos, pragmaticamente. Temos de nos "submeter" (raiz do termo islã) a algo de impessoal e imoral, como os puros do PT fizeram para mudar o sistema de dentro dele.

quinta-feira, janeiro 14, 2016

"O Apostador" - antológica cena do Fuck You


Jim Bennett: I've been up two and a half million.
Frank: What you got on you?
Jim Bennett: Nothing.
Frank: What you put away?
Jim Bennett: Nothing.
Frank: You get up two and a half million dollars, any asshole in the world knows what to do: you get a house with a 25 year roof, an indestructible Jap-economy shitbox, you put the rest into the system at three to five percent to pay your taxes and that's your base, get me? That's your fortress of fucking solitude. That puts you, for the rest of your life, at a level of fuck you. Somebody wants you to do something, fuck you. Boss pisses you off, fuck you! Own your house. Have a couple bucks in the bank. Don't drink. That's all I have to say to anybody on any social level. Did your grandfather take risks?
Jim Bennett: Yes.
Frank: I guarantee he did it from a position of fuck you. A wise man's life is based around fuck you. The United States of America is based on fuck you. You have a navy? Greatest army in the history of mankind? Fuck you! Blow me. We'll fuck it up ourselves.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Bowie, o astronauta


O clássico mais lembrado hoje pelos fãs de Bowie parece mesmo ser  "Space Oddity". Não consigo dissociar essa música de um filme recente, pop e profundo, como esse cantor, e como a cultura anglo-americana que tantos fingem detestar, "A Vida Secreta de Walter Mitty". A música ali é primeiro um recurso de bullying do antagonista de Mitty, pra ridicularizar o hábito sonhador, a cabeça no mundo da lua. No processo de metanoia (transformação) do herói, porém, a música será "apropriada" graças à musa inspiradora (arquétipo da mulher no coração do homem, a guia e farol da saída dos infernos, como Beatriz para Dante). Ela ensina Mitty a auto-estima não como coisa dada e complacente, mas meta de procura. E a música, como na cena que vou linkar aqui, transparece como símbolo da pérola preciosa que aguardava no fundo do mar, ou no topo da colina da estrela mais distante, pela coragem do aventureiro da vida em encarar os perigos, como o piloto tosco e bebum do helicóptero: https://vimeo.com/85156527
Concluo que, pop e profundo, um artista de nosso tempo nos toca quando toca em nós a corda, o "acorde" que nos acorda para o sonho, "aquele tempo" (como diria Eliade), aquele Quando, aquele Onde, impreciso, universal, o não tempo, o atemporal, e aespacial em que os deuses, anjos e heróis nos habitam e ensinam a coragem de imaginar, não como anestesia, mas acicate. Vide as metáforas siderais, ou mesmo "alienígenas",, que hoje se espalham em homenagem a Bowie. Ou a exaltação de suas múltiplas facetas, de seu poder de metamorfose, signo também de liberdade, de não aprisionamento às coerções sociais e, mais metafisicamente, a toda forma fixada do aqui e agora. Para astronautas e argonautas do inconsciente coletivo, sejam eles os psicólogos e antropólogos,propriamente ditos, os buscadores existenciais ou tudo isso junto e misturado, nos faz ver em Bowie, em Mitty, no mito, dedos que apontam a lua, não a lua, como no budismo. Ou, mais perto de nossa tradição: inquieto é o nosso coração quando não repousa em Ti (Santo Agostinho)




quinta-feira, janeiro 07, 2016

de Machado a Carolina


À procura de motivações para não desesperar por completo do ter nascido nesse país onde não se sabe o que é mais sombrio, violento e inescrupuloso, as origens ou os horizontes, eis que me vem em socorro a inteligência de uma dupla de compatriotas que honram a raça: Daniel Piza e um de seus últimos legados antes da morte precoce e absurda, a biografia Um Gênio Brasileiro, dedicada a Machado de Assis. 
Assim como noutras ocasiões, vou destacar alguns trechos conforme a leitura do livro for caminhando -e caminhará a passos lentos, suponho, porque vou aproveitar pra sincronizar a biografia com livros do mestre que indesculpavelmente ainda não tinha lido, como o Memorial de Aires. 
Piza começa justamente do período deste romance que já percebo delicioso e profundo, do fim da vida de Machado, marcado pela vitória avassaladora da melancolia sobre a galhofa, parafraseando Brás Cubas. 
Um quadro de ruína da saúde do corpo e de profundo desânimo existencial após a morte da amada Carolina. Veremos já que lindo o poema que dedicou à esposa por ocasião da despedida. Os versos falam da felicidade que soube se impor sobre as não poucas adversidades do casal (toda a humana lida), sobre o temenos sagrado (o casarão cuja localidade lhe valeu a alcunha por Drummond de o "bruxo do Cosme Velho") mas também da sensação de Machado de ter morrido junto, quando Carolina se foi. 
Uma sensação de morte que também associava às brutais transformações urbanísticas do seu Rio de Janeiro, por conta dos ímpetos reformistas que literalmente botavam no chão, sem critério nem respeito, um aspecto sutil e precioso do Brasil também soterrado pela  farsa republicana que maculava o legado de Dom Pedro II, a quem "o gênio brasileiro", maior de nossos escritores, dedicou versos comoventes, como estes a sua Carolina:


Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.


Machado de Assis, 1906

domingo, janeiro 03, 2016

sábado, janeiro 02, 2016

Por um 2016 estiloso a todos



Para a teoria do estilo.



1. A primeira coisa necessária é vida: o estilo deve estar vivo.

2. O estilo deve ser apropriado a ti em vista de outra pessoa bem definida com a qual queres te comunicar (lei da dupla relação).

3. Antes de escrever, deveríamos saber exatamente como diríamos e exporíamos o assunto. Escrever deve ser imitação.

4. Por faltarem ao escritor muitos dos recursos do expositor, [ele] deve em geral ter como modelo um modo de exposição muito mais expressivo: a cópia, o escrito, necessariamente resultará muito mais pálido.

5. A riqueza de vida revela-se na riqueza de gestos. Devemos aprender a sentir tudo – comprimento e concisão das frases, pontuação, escolha das palavras, pausas, sequência dos argumentos – como gestos.

6. Cuidado com o período! Só devem usá-lo aqueles que, ao falar, têm uma longa respiração. Com os demais, o período é uma afetação.

7. O estilo deve provar que acreditamos em nossos pensamentos, que não só os pensamos, mas também os sentimos.

8. Quanto mais abstrata a verdade que queremos ensinar, tanto mais devemos atrair para ela os sentidos.

9. O tato do bom prosador na escolha de seus meios consiste em chegar bem perto da poesia, mas nunca transferir-se para ela.

10. Não é polido nem prudente antecipar ao leitor as objeções mais leves. É muito polido e muito prudente deixar ao critério do leitor expressar ele mesmo a última quintessência de nossa verdade.


Friedrich Nietzsche


Fonte:

SALOMÉ, Lou Andréas. Nietzsche em suas obras. Trad.: José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Editora Brasiliense, 1992. (pág. 141)

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Festa da Santa Mãe de Deus

Abott Handerson Thayer, "A Virgin"

Maria, Estrela da Manhã, Porta do Céu
-Papa João XXIII-
A Imaculada anuncia o alvorecer de um dia eterno e ampara-nos e guia-nos ao longo de todo o caminho que ainda nos separa desse momento. Por essa razão, o hino litúrgico «Salve, estrela da manhã» tem uma doce invocação : «Prepara-nos um caminho seguro, para que vendo a Jesus, sempre nos alegremos». É para esta meta, coroa de uma vida de graça, que devem tender os batimentos do nosso coração e os esforços mais generosos da nossa fidelidade de cristãos. Tomemos coragem, filhos, não permaneceremos para sempre na discórdia. Maria tu és a nossa força! 

Ó Maria, imagem radiosa de graça e de pureza, que, aparecendo, dissipaste as trevas da noite e nos elevaste aos esplendores do céu, sê propícia aos teus filhos. Prepara os nossos pensamentos para a vinda do Sol de Justiça (Mal 3,20) que tu deste ao mundo. Porta do céu, faz que os nossos corações aspirem ao paraíso. Espelho de justiça, conserva em nós o amor da graça divina, a fim de que, com humildade e alegria, cumpramos a nossa vocação cristã; que possamos sempre apreciar a amizade do Senhor e receber os teus consolos maternos.

CQD


(Paciente) Eu não entendo,  sempre que uma mulher me interessa sexualmente, não me interessa como ser humano, e sempre que me interessa como ser humano, não me interessa sexualmente.
(Terapeuta) Hmmm, isso se configura como um mecanismo de defesa, como diria Freud, já ouviu falar disso?
(Paciente, depois de uns segundos de hesitação) Ah, mas eu sou mais junguiano. 
(Adaptado do divertidíssimo "Uma Semana a Três", com Jason Bateman, Olivia Wilde e Billy Crudup)

o despertar dos neurônios


Ah, se cada fogo de artifício de cada imbecil que passa a noite comunicando ao céu e à terra sua "alegria" fosse um neurônio se acendendo na treva, decidido a fazer do seu hospedeiro um ser novo para o ano novo.Mas se fosse o neurônio despertando, não seriam os fogos estourando (nosso saco).