sábado, outubro 31, 2015

Resenhas para a Folha, 31/10/15



FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES

O CIRCUITO DOS AFETOS
De vigor jovial tão espantoso quanto a  maturidade intelectual, o filósofo e colunista da Folha Vladimir Safatle dá um novo e poderoso passo como um dos nossos maiores pensadores contemporâneos. Retoma e expande  sua já conhecida articulação magistral entre a tradição dialética, teoria social e psicanálise, e propõe “a filosofia necessária para uma teoria política da transformação”, em tempos de crise do capitalismo e das velhas alternativas revolucionárias.
Para tanto, mostra a conexão entre os modelos hegemônicos de poder  e (des) ordem social e determinadas configurações afetivas do “corpo” pessoal e político . E aponta a necessidade de  superação do individualismo moderno, calcado que é na lógica ilusória  e agressiva que já Lacan discutia ao pensar a gênese do eu no estádio do espelho.
 De  Hobbes aos atuais brados securitários e gozo sensacionalista em torno da violência cotidiana e terrorista, o medo, recalque artificial de nosso verdadeiro desamparo (Freud), é imposto como afeto determinante de uma vida -social e subjetivamente- repressiva, estagnada e infeliz.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO



 METAFÍSICAS CANIBAIS
 Esta –a minha- é uma pequena resenha sobre outra  bem maior, em todos os sentidos. Maior e mais maliciosa, porque borgianamente se dedica a um livro imaginário, que o próprio resenhista, Eduardo Viveiros de Castro, gostaria de ter escrito: “O Anti-Narciso”, em homenagem ao “Anti-Édipo” de Deleuze e Guattari. 
Consagrado no Brasil e fora, o antropólogo  carioca aprofunda a sua teoria do perspectivismo, segundo a qual para os povos ameríndios  o mundo é povoado de muitas espécies que se veem, cada qual, como as verdadeiramente“humanas” em comparação com as demais. 
O livro, ou a “resenha”, explora com maestria as  implicações “antinarcísicas” dessa metafísica para a antropologia (não só a disciplina acadêmica, mas a teoria geral do humano) do Ocidente. Mais que isso, se indaga sobre o quanto o fazer e pensar etnológicos, apesar do “carma” colonialista das origens, não é estruturalmente antinarcísico, influenciado diretamente pelo “Outro” -que assim é mais que objeto, é eixo perspectivista que nos ensina a achar bonito também o que não é espelho.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO

FONTES PASSIONAIS DA VIOLÊNCIA
Esse novo volume da série “Mutações”, de Adauto Novaes, é de especial impacto  para pensarmos, como ela propõe, de ângulos novos, e com rara densidade (vertida porém em ensaios acessíveis e agradáveis), os impasses do contemporâneo. Tem origem em conferências de intelectuais brasileiros e franceses ano passado, no bojo do centenário de uma guerra que ainda “não terminou”, em certo sentido. O conflito mundial de 1914, embora muitas vezes rebaixado a preâmbulo do apocalipse hitlerista, foi decisivo para a transformação da ideia e da escala da violência, essa paixão ancestral agora a serviço de uma civilização tecnocientífica que embrutece a capacidade reflexiva e ética do ser humano. Entre os autores convidados, destaques como Marcelo Coelho, Vladimir Safatle, Franklin Leopoldo e Silva e Fréderic Worms, um dos maiores especialistas mundiais na obra de Henri Bergson.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO





spirits of nature


sexta-feira, outubro 30, 2015

quarta-feira, outubro 28, 2015

a poética do mito no rastejar para voar




"Voar, só alado ou encantado pela cobra que rasteja pelo chão": Chico César , em "Reprocissão", se valendo da complexio oppositorum, conjugação dos opostos (voar / rastejar, ave / serpente) que é uma das dimensões universais da experiência religiosa, como veremos no curso da USP que começa quarta que vem. O paradoxo que subverte com poesia -poética do mito- o prosaísmo de nossas certezas, que quebranta nossas expectativas de segurança lógica, parece ser um ingrediente da aventura da iluminação espiritual, toda ela ambivalente porque requer a encarnação do Sagrado no profano, a descida do Alado Amado no solo seco e acidentado de nossa vida, em que nossa alma, o absolutinho, filho do Absolutão, rascunha seus primeiros voos de regresso, bicando a casca de seu ovo de águia em meio aos riscos, males e imperfeições que rastejam e nos retraem e cercam com suas leis da gravidade de miséria e ilusão.Tais serpentes porém somos nós, como a águia que luta para levantar voo. Que elas abençoem tal decolagem com o encanto e o vigor de suas poções, veneno mortal para o covarde, remédio redentor para o candidato decidido a cumprir suas provas e tarefas de metamorfose.

segunda-feira, outubro 26, 2015

Juice Newton, "Angel of the Morning"



There'll be no strings to bind your hands
Not if my love can't bind your heart.
And there's no need to take a stand
For it was I who chose to start.
I see no need to take me home,
I'm old enough to face the dawn.

Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby.
Just call me angel of the morning, angel
Then slowly turn away from me.

Maybe the sun's light will be dim
And it won't matter anyhow.
If morning's echo says we've sinned,
Well, it was what I wanted now.
And if we're victims of the night,
I won't be blinded by the light.

Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby.
Just call me angel of the morning, angel
Then slowly turn away,
I won't beg you to stay with me
Through the tears of the day,
Of the years, baby baby baby.

Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, baby.
Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, darling
Just call me angel of the morning, angel
Just touch my cheek before you leave me, darling

domingo, outubro 25, 2015

sábado, outubro 24, 2015

sexta-feira, outubro 23, 2015

quarta-feira, outubro 21, 2015

terça-feira, outubro 20, 2015

Maradona 1986

A Special Kind of Hero
-Stephanie Lawrence-

Ah, living for a very special sign 
Telling of a very special time
 Leaving just the chance to stake a claim 
In a very different kind of game 
Just one chance to be held up high
 Or be cut down 
Sink or swim, 
swim or drown 
Can you see the gap between right and wrong 
Tearful sounds and a joyful song 
Reaching for the hands of love 
Hoping to be pulled from up above 
My friend! To be a special kind of hero! 
My new found game! 
To be a special kind of hero! 
I need you 
Need you with me 
My hero! 
How you bring me 
Feelings like I cannot explain
 Warmth that feeds from my pain? 
Capturing moments in time 
That the world can never replace
 Forever suspended in space 
Moments of a very special kind
 Immortalise an aspect of the mind
 Moving past limits of those above

Guided by the visions of the strong

Into places never seen before

Where I can be a certain kind

I want to be a hero in my mind

With very special guidance from above and very precious moments of my love.

Me dás cada dia más
-Valeria Lynch-
En las buenas y en las malas 
A mi lado siempre tu 
De una forma sobrehumana 
A mi lado siempre tu 
No es tan fácil convivir conmigo 
Sin embargo siempre al lado mío 
Mi buen amor, mi gran amor 
Siempre conmigo! 
Más 
Me das cada día más 
Aleluia por el modo que tienes de amar 
Más 
Tu eres para mí la cumbre del amor 
La tierra, el fuego, el sol, la lluvia en el trigal 
Por esa forma tierna que tienes de amar 
Más 
Tu cuerpo con el mío, no hace falta más 
Te quiero al lado mío cada día más 
Yo soy una insaciable, quiero siempre más 
En las buenas y en las malas 
A mi lado siempre tu 
Al dolor le das la espalda 
Y a mi cuerpo, tu calor 
Qué manera tienes de quererme 
De abrazarme y de protegerme 
Mi buen amor, mi gran amor 
Siempre conmigo 
Más 
Me das cada día más 
Aleluia por el modo que tienes de amar 
Más 
Tu eres para mí la cumbre del amor 
La tierra, el fuego, el sol, la lluvia en el trigal 
Por esa forma tierna que tienes de amar 
Más 
Tu cuerpo con el mío, no hace falta más 
Te quiero al lado mío cada día más 
Yo soy una insaciable, quiero siempre más 
Más 
Me das cada día más 
Aleluia por el modo que tienes de amar.

Duran Duran, "Notorius"

No.. no.. notorious!
No.. no.. notorious!

I.. can't read about it, burns the skin from your eyes,
I'll do fine without it, here's one you don't compromise.
Lies come hard to disguise
Let me to fight it out, not wild about it
Lay your seedy judgements, who says they're part of our lives?

You own the money, you control the witness,
I hear you're lonely - don't monkey with my business
You pay the profits to justify the reasons
I heard your promise but I don't believe it -
That's why I'll do it again


No.. no.. notorious.


Girls will keep the secrets, so long as boys make the noise,
Fools run rings to break up, something they'll never destroy.
Grand notorious slam, (BAM!) and who really gives a damn -
For a flaky bandit?
Don't ask me to bleed about it, I need this blood to survive.

(chorus)

No.. no.. notorious
Notorious!
Notorious!

(chorus) (chorus)

No!
No..no.. (That's why I'll do it again)
No!
Notorious! (Yeh! that's why I'll do it again)
No..no.. notorious.

Yeeeehh! that's why I'll do it again
No.. notorious.
No..no.. notorious.
Yeeeehh! that's why I'll do it again
No.. notorious.
No..no.. notorious.

terça-feira, outubro 13, 2015

o estrangeiro

Broadbent: ... acho o mundo suficientemente bom para mim, de fato um lugar bastante agradàvel.
Keegan (o encarando com tranquila curiosidade): Você esta satisfeito?
Broadbent: Como um homem sensato, sim. Não vejo mal no mundo (exceto, claro, males naturais) que não possa ser remediado pela liberdade, autogoverno e as instituicões inglesas. È o que penso, não por ser inglês, mas por uma questão de bom senso.
Keegan: Então você se sente à vontade no mundo?
Broadbent: Claro. Você não?
Keegan (do fundo de si mesmo): Não.

Bernard Shaw,
in: COLIN WILSON, 
O OUTSIDER

Sócrates, parteiro e escultor


Afora o Cristo, é difícil imaginar figura mais decisiva, fascinante e enigmática na história do espírito ocidental do que Sócrates. Dele quase nada sabemos, o que não deixa de ser uma situação por si só "socrática", se considerarmos o seu lema de que só sabia que nada sabia - ou quase nada, com exceção do amor, como diz no Banquete. 
Do pouco que sabemos da sua pessoa, ou melhor, da sua FIGURA, tal como moldada sobretudo pelos "evangelhos" do Logos socrático legados pelo discípulo Platão-, consta que era filho de uma parteira e de um escultor. E que a profissão da mãe lhe servia de analogia, muitas vezes, para definir seu ofício de filósofo, que praticava -e ia inventando- na cadência de suas andanças e conversas com a gente comum pelas praças de Atenas. O que as mãos da mãe faziam por outras mães, seu espírito fazia por outros espíritos: o auxílio para as dores do parto. Seu "nada saber" era a tela em branco que lhe permitia, ao invés de responder, perguntar (sobre justiça, coragem, piedade, beleza e assim por diante), o que pouco a pouco levava o interlocutor a descobrir que também ele "nada sabia", e se despojar das aparentes certezas, que na verdade mascaravam a mera opinião por hábito e a muleta da crendice (não por acaso Sócrates foi acusado e morto pelas autoridades públicas porque  "corruptor" dos sacrossantos valores estabelecidos). 
Mas o que eu gostaria hoje de ressaltar é que pouco se atentou para o valor de símbolo filosófico que há profissão de seu pai. Talvez porque só mais tarde, com o neoplatônico Plotino, essa dimensão tenha ficado mais explícita: "Esculpir a própria estátua" é, para ele, a metáfora por excelência da autorrealização a que se destina todo candidato à vida filosófica. Mas atenção! Isso não significava algum tipo de estetismo narcísico ao estilo moderno, em que o vazio de personalidade é escamoteado pela montagem artificial de um personagem conforme ao nosso capricho, vaidade ou cálculo interesseiro do que convém aparentar para os outros.
Para os antigos, a escultura é, mostra Pierre Hadot, uma arte que RETIRA, em contraste com a pintura que é uma arte que "acrescenta". Está aí a base da célebre asserção de Michelângelo de que fazia suas obras tão somente RETIRANDO do bloco de mármore bruto  o que era desnecessário, o que não pertencia, à escultura que ali dormitava como forma potencial... ou que esperava por nascer, diríamos nós para realçar a analogia entre os ofícios do pai e da mãe com o do próprio Sócrates, parteiro e escultor, cumpridor do imperativo "é necessário nascer de novo" que outro revolucionário espiritual viria a declarar antes também de ser levado a sua respectiva guilhotina pelos poderosos e falsários de sua época.
Entendemos melhor os termos aparentemente mórbidos de Sócrates no Fédon, quando diz que filosofar é "aprender a morrer". A  morte sempre iminente, o não sabermos se este dia ao findar nos terá entre suas testemunhas, era um recurso pedagógico das diversas escolas filosóficas, vide o convite epicurista que ressoa na sala de aula do professor Robin Williams, Orfeu de flauta socrática trazendo ao Hades cântico de ressurreição para seus jovens pupilos, antes ensurdecidos pela sociedade dos poetas mortos: carpe diem, aproveite o dia!  
Mas este "aprender a morrer", no caso de Sócrates, ganhava também uma tintura metafísica distinta do materialismo epicurista, e que repercutiria poderosamente na tradição monástica cristã.
 Se o grão de trigo não morre, não tem como dar fruto, dirá o heleníssimo evangelho de São João. Assim também, para a escola de Platão, a alma não se descobre imortal por mero ouvir falar, por acreditar nessa ou naquela doutrina revelada, mas por experiência própria, ao se livrar, aqui e agora, de tudo o que nela há de "mortal", no duplo sentido do termo: apegos, ilusões, achismos, raivas, cobiças, toda sorte de corrupções, cumplicidade com a imbecilidade das massas e de seus demagogos (o impulso fundamental e fundante da filosofia de Platão foi o choque e desalento dele com o assassinato de Sócrates pela "democracia"). Por isso o filósofo parteiro é também escultor: para dar à luz à verdadeira vida, à essência imortal, ele limpa, raspa, quebra, molda, escolhe, descarta e forma, reforma, transforma, desvelando a estátua que havia desde sempre no mármore, a ideia do Belo perto da qual o toda beleza material parece uma mímese grosseira - daí a ironia, ou segunda ironia (aparência para inverter e assim sublinhar a essência), de que o mestre que só sabia nada saber ser tido como fisicamente feio. Pedagogo da beleza suprassensìvel mas camuflado na casca de bufão pançudo, que intrigava e seduzia também pelo paradoxo de sua semelhança -como a sublime com o grotesco- a Sileno e os sátiros de Dionísio, meio humanos, meio animais, peritos selvagens naquilo que, lembremos, também Sócrates dizia ser sua única sabedoria, meio e meta entre todas, via régia já no carnal mas com e rumo ao espiritual: o amor. 

num certo 13 de outubro...






segunda-feira, outubro 12, 2015

a paixão vampira


SINOPSE
FILME- RESPIRE
França, 2014
Direção - Mélanie Laurent
Charlie (Joséphine Japy) tem 17 anos. A idade das paixões, das emoções, das convicções. Tímida e comportada, é atraída imediatamente por Sarah (Lou de Laage), carismática e rebelde nova aluna da escola. As jovens logo passam a dividir intimidades e segredos, mas o relacionamento ganha ares estranhos quando verdades vêm à tona.




O impactante filme de Mélanie Laurent recolhe num debate milenar da filosofia a sua epígrafe teórica: o valor das paixões. O professor do Liceu  indaga, numa das cenas iniciais, se elas são um empecilho ou um estímulo a uma vida mais livre. Dois pensadores, que os manuais filosóficos diriam ser opostos, são citados ao longo da breve discussão: Platão e Nietzsche. O primeiro, pela distinção que estabeleceu entre a razão, ligada à mente, e a paixão, cuja sede ele situava, não no coração, mas no ventre. E Nietzsche, quem menciona, por ironia do destino, é a própria Charlie, sem saber que estava prestes a ser tomada de arrastão por esse sentimento "visceral". Ela lembra que, para Nietzsche, é mais fácil renunciar a uma paixão do que controlá-la. Não que isso seja uma recomendação: a virtude moral, no sentido nietzschiano, passa longe da "facilidade" maniqueísta de simplesmente rechaçar os afetos. 
Não há, como em Platão, uma hierarquia de corpo e alma, nem tampouco, dentro da alma, "partes" mais vis e mais nobres, umas presas aos apetites e às emoções, e a outra, suprema, livre para a pura a contemplação espiritual. Mas isso não implica se deixar tragar pelo caos psíquico: a pessoa há de ter um senso de "vontade" suficientemente fortalecido para gerir seus desejos. Sem renúncia moralista, ao estilo de Schopenhauer, mas sem tampouco a ingenuidade que conduz o homem às agonias e servidões que, não por acaso, levaram tantos pensadores do Oriente e do Ocidente a pregar o controle da paixão como regra de sabedoria. 
Mesmo um Epicuro, tão simpático ao direito humano aos prazeres nessa vida efêmera e sem amanhã (num além da morte, inclusive), insistia que nossos desejos se dividiam entre os naturais e necessários, os naturais e não necessários e os não naturais NEM necessários. Seríamos tanto mais felizes, quase como "deuses na terra", no sentido da autossuficiência e da liberdade, quanto menos dependêssemos deste terceiro tipo de satisfações, território mental por excelência dos vícios mentais como a obsessão, a manipulação, o desespero, temas tão candentes -fechamos assim estes longos parênteses- no filme "Respire".
O filme nos oferece material psicológico de altíssima qualidade para o entendimento desse drama que Joe Slate chamou de o "vampirismo psíquico". Ao contrário dos dentuços de capa preta do vampirismo folclórico, trata-se aqui dos perigos do relacionamento humano no cotidiano:  predadores energéticos, parasitas mentais que podem estar escondidos no chefe, colegas de trabalho, amigos, amantes e grupos com os quais interagimos no dia-a-dia. Sua mera proximidade física  pode nos trazer desconforto ou exaustão, e nos compelir a fugir para longe. Pior porém quando não sentimos em nós este alerta da repulsa e, ao contrário, seguimos oferecendo voluntariamente nosso "sangue", isto é, nosso afeto, energia, senso de auto-estima a ser preenchido de fora para dentro, em relações de uma dependência doentia. miseráveis dividendos, mas que, por alguma razão, parecem valer mais a pena do que a mediocridade da vida sem esses monstros.
Como vimos na análise do filme "Nosferatu", o vampiro conta com as janelas abertas de suas vítimas. No caso de Charlie, a família deteriorada e o péssimo exemplo de imaturidade afetiva da mãe, dependente de uma relação também tóxica, no seu caso, com o marido,  como a que Charlie terá com Sarah. 
O fato de a história de passar numa pacata cidadezinha do interior da França (reparem no dialeto que Charlie em alguns momentos fala com o pai) reforça a sensação de limitações do ambiente claustrofóbido do apartamento, pelos choros, resmungos e fungar de nariz da mãe, por tudo que torna a "irrespirável" a vida da menina. Apesar disso, e da sua ASMA tão sintomática, Charlie consegue no colégio, ele próprio mais arejado, de ar mais "contemporâneo", ser uma aluna dedicada, de sorriso cativante e cheia de amigos. É o que provavelmente a tornou atrativa, além do quê de pureza virginal,  para os apetites predatórios de Sarah, também prisioneira de um ambiente doméstico deletério, como as grades da janela de seu quarto materializam tão bem. .
Afora as atuações brilhantes, o discurso cinematográfico é poderoso,, desde a sutileza com que articula começo e fim da ação, em torno da cama de Charlie, passando pelo modo como sabe mostrar a tensão agressiva e sexual entre as meninas, o encanto carismático, perfídia e jogo sádico de Sarah e  a espiral de desamparo, isolamento e derrocada de sua vítima. 
Uma aula de cinema e de "exercício espiritual" filosófico (aprendizado ético e psicológico pelo anti-exemplo), eis o que temos e fazemos ao ver este "Respire". E saímos sem fôlego, mas com radares redobrados para o perigo não da paixão em si, mas do servilismo que ela pode induzir em almas despreparadas para bem cuidar dela e de si mesmas. Lição a levar para a vida, a importância da força mental, no sentido amplo do equilíbrio, energia e comando de si, como alho e Sol para manter longe, até pelo prazer e poder que trarão para a vida, a falsa solução que é se vender a vampiros psíquicos, inclusive os que podem espreitar dentro de nós, como compulsões de rebaixamento. Chupa-cabras energéticos tão menos interessantes do que o arquétipo mítico em si do Vampiro,  em seu poder sombrio, sedutor e transformador, em contrapartida às fachadas de luz da sociedade de bem. 

domingo, outubro 11, 2015

Guns N' Roses, "Don' t Cry"

Talk to me softly
There's something in your eyes
Don't hang your head in sorrow
And, please, don't cry

I know how you feel inside
I've been there before
Something is changing inside you
And don't you know

Don't you cry tonight
I still love you, baby
Don't you cry tonight
Don't you cry tonight
There's a heaven above you, baby
And don't you cry tonight

Give me a whisper
And give me a sign
Give me a kiss before
You tell me goodbye

Don't you take it so hard now
And, please, don't take it so bad
I'll still be thinking of you
And the times we had, baby

Don't you cry tonight
Don't you cry tonight
Don't you cry tonight
There's a heaven above you, baby
And don't you cry tonight

And, please, remember
That I never lied
And, please, remember
How I felt inside now, honey

You gotta make it your own way
But you'll be alright now, sugar
You'll feel better tomorrow
Come the morning light now, baby

Don't you cry tonight
Don't you cry tonight
Don't you cry tonight
There's a heaven above you, baby

Don't you cry, don't you ever cry
Don't you cry tonight
Baby, maybe someday
Don't you cry, don't you ever cry
Don't you cry tonight

sábado, outubro 10, 2015

sexta-feira, outubro 09, 2015

The Cure, "Killing an Arab"


Ilustração para a cena do crime de Meursault em O Estrangeiro, de Albert Camus, inspiração da música do The Cure


Killing an arab
-The Cure-

Standing on a beach
With a gun in my hand
Staring at the sky
Staring at the sand
Staring down the barrel
At the arab on the ground
See his open mouth
But hear no sound


I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
Killing an arab


I can turn and walk away
Or I can fire the gun
Staring at the sky
Staring at the sun
Whichever I choose
It amounts to the same


Absolutely nothing


I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
Killing an arab


Feel the steel butt jump
Smooth in my hand
Staring at the sea
Staring at the sand
Staring at myself
Reflected in the eyes of
The dead man on the beach


The dead man
On the beach


I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
Killing an arab

Matando um árabe


Parado na praia
Com uma arma em minha mão
Olhando fixamente para o mar
Olhando fixamente para o sol
Olhando fixamente no cano
Pro árabe no chão
Vejo sua boca aberta
Mas não escuto nehum som


Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu sou um estrangeiro
Matando um árabe


Eu posso voltar atrás
Ou eu posso disparar a arma
Olhando fixamente para o céu
Olhando fixamente para o sol
Qualquer um que eu escolha
Vai dar no mesmo


Absolutamente nada


Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu sou um estrangeiro
Matando um árabe


Senti a arma disparar
Suavemente em minha mão
Olhando fixamente para o mar
Olhando fixamente para o sol
Olhando fixamente para mim mesmo
Refletido nos olhos
Do homem morto na praia


Do homem morto
Na praia


Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu sou um estrangeiro
Matando um árabe

quarta-feira, outubro 07, 2015

sobre falar sozinho


Lendo sobre os filósofos antigos, nós descobrimos que o DIÁLOGO não se resume à conversação pública ao estilo dos textos socráticos. O próprio Sócrates era mestre do diálogo com os outros PORQUE também mestre do diálogo consigo, vide os testemunhos sobre as horas a fio que era capaz de passar em pé e absorto na "dialética" com seus pensamentos. 
E não era exceção.  Perguntado sobre que benefício extraiu da iniciação à filosofia, seu discípulo Antístenes não hesitou em dizer: "Aquele de poder conversar comigo mesmo".  Outras correntes também compreendiam o valor deste "exercício espiritual" como forma de procura da meta do aprimoramento pessoal, essência da filosofia tal como compreendida pelos antigos:
"Havendo se surpreendido com Pirro [um dos pais da doutrina cética] falando consigo mesmo, perguntou-lhe por que fazia isso. Ele respondeu que se exercitava para ser bom. Sobre Filo de Atenas, disse Diógenes Laércio: "Filo frequentemente falava consigo mesmo, é por isso que Timão lhe disse: 'Ó Filo, aquele que longe dos homens, conversava e falava consigo mesmo, sem preocupação com a glória e com as disputas. Ou ainda a exortação do epicurista Epiteto: "Homem, se tu és alguém, vá caminhar sozinho, conversa contigo mesmo".
 Claro que nem todo mundo que fala sozinho está filosofando -pode estar apenas delirando, ou numa DR estéril com suas próprias burradas, dois casos em que o bom conselho de amigos ou o auxílio de um profissional da escuta (psicanalista) ou do diálogo (psicoterapias) são mais que recomendados. Mas não se considere um ET, ou candidato à camisa-de-força, pelo mero fato de sua língua ter aquela coceirinha súbita de "pedir a palavra" para lhe dizer umas verdades que você só poderia escutar de si mesmo, mesmo se as ideias em si pudessem ser faladas por outrem. Há "espiritualidade" filosófica nesse sopro que te impele a esse diálogo. E há poesia também, tal como nos diz Mário Quintana na conhecida citação:
   “A poesia é uma maneira de falar sozinho. Porque a gente, quando está conversando, fala sobre coisas, sobre a vida deste, a vida daquele, acontecimentos do dia. Quem sabe vê uma mancha muito interessante no muro, num muro sépia, uma mancha verde, vê uma nuvenzinha lá no céu perdida. Então, se eu disser isto, você fala: ‘Coitado, está louco’. Então, tudo que não é matéria de fofoca é poesia".

terça-feira, outubro 06, 2015

a levitação da amizade


"Toda revolução mundial é precedida por uma revolução da alma" (T. Macho, Weltrevolution der Seele).
 Essa graça de tirinha seria excelente ilustração para uma aula sobre filosofia epicurista. A amizade é,nessa escola, experiência por excelência de sabedoria, ou seja, de alegria e saída da miséria do mundo, sendo essa "levitação" do desenho resumida no convite de Epicuro: "É preciso cultivar nosso jardim". Tanto como os estoicos, os epicuristas concebiam a filosofia como uma terapêutica dos afetos desordenados, entre os quais a cobiça e o medo em relação a coisas que estão fora do nosso alcance. Na expressão chave de Pierre Hadot, são escolas de EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS. Mas, se brincarmos com o discurso típico de um professor de academia, o momento estoico seria o do CONTRAI, e o epicúreo, o do RELAXA. 
A contração estoica era o esforço de preservar a liberdade moral ante os assédios da ilusão, o que envolvia, inclusive, o hábito de antecipar em pensamento os sofrimentos da velhice, doença, pobreza e morte, para não se deixar surpreender por elas quando viessem de fato a ocorrer.  Um pessimismo estratégico, por assim dizer, diferentemente de um gozo masoquista da desgraça ou ranhetice estressada. Antecipar-se ao mal, imaginando-o, para mais bem desviar-se dele, minimizá-lo ou ultrapassá-lo. Vigilância pela lucidez que ressoa no apelo cristão: ORAI E VIGIAI.
 Já Epicuro ensina justamente o descolar-se das dores e a atenção aos prazeres, por uma DESCONTRACÃO reflexiva que desfruta o presente e que nas horas de agruras, se consola nas `levitacões` de prazer e de amizade no passado. Mais que vigilância, que sem dùvida hà, o espìrito è de gratidão pelo que a natureza oferece de alegria e contentamento a quem sabe procurar e receber, com simplicidade. 
Isso nos traz de volta à dimensão da amizade como postura ètica para com a vida, e da vida para conosco. A vida amiga de quem é amiga dela, nos transportando para além da ideia fixa dos sofrimentos e carências, dos rancores e esperas vãs.

Marek Grechuta - Pewność


segunda-feira, outubro 05, 2015

general Nietzsche


"Justamente agora, quando seria necessária a vontade em sua suprema força, ela está a mais fraca e com o ânimo mais covarde possível. Desconfiança absoluta em relação à força organizadora da vontade para o todo".
"A multiplicidade e desagregação dos impulsos, a falta de um sistema que os articule tem como resultado 'vontade fraca'; a coordenação dos mesmos sob o predomínio de um único impulso tem como resultado 'vontade forte'; no primeiro caso há oscilação e falta de peso; no último, precisão e clareza da direção"
-Vontade de Poder-

"Tendo seu 'por quê?' da vida, o indivíduo tolera quase todo 'como?'"

"Quem não sabe pôr sua vontade nas coisas lhes põe ao menos um sentido: isto é, acredita que nelas já se encontra uma vontade (princípio da 'fé')".
-Crepúsculo dos Ídolos-

The Beach Boys, "You Still Believe in Me"

"You Still Believe In Me"

I know perfectly well
I'm not where I should be
I've been very aware
You've been patient with me

Every time we break up
You bring back your love to me
And after all I've done to you
How can it be

You still believe in me

I try hard to be more
What you want me to be
But I can't help how I act
When you're not here with me

I try hard to be strong
But sometimes I fail myself
And after all I've promised you
So faithfully

You still believe in me

I wanna cry . . .

cinco vezes Didem







Trechos de performances da dançarina do ventre Didem Kinali, turca de ascendência italiana

domingo, outubro 04, 2015

Heidegger - Documentário da BBC




Vale a pena complementar o excelente documentário com o testemunho de dois ex-alunos de Heidegger, depois grandes filósofos também:

"Havia algo de estranho nessa primeira glória [do período inicial de Heidegger como professor em Friburgo, a que chegou em 1919, e antes dos livros e conferências que o consagraram em definitivo], talvez ainda mais do que na de Kafka no início dos anos 1920 e na de Braque e de Picasso ao longo da década anterior. Estes eram igualmente desconhecidos do público, no sentido corrente do termo, e no entanto exerciam uma influência extraordinária. Mas, no caso de Heidegger, não existia nada em que sua fama pudesse se apoiar, nenhum texto e apenas notas de cursos, que circulavam de mão em mão; e os cursos tratavam de textos universalmente conhecidos, sem conter nenhuma doutrina a ser tomada e transmitida. Não havia senão um nome, mas o nome viajava por toda a Alemanha como a novidade do rei secreto. (...) O decisivo no método era que, por exemplo, não se falava sobre Platão e não se expunha sua doutrina das ideias, mas SEGUIA-SE E SE SUSTENTAVA UM DIÁLOGO DURANTE UM SEMESTRE INTEIRO, até não ser mais uma doutrina milenar, mas apenas uma problemática altamente contemporânea. Hoje em dia, isso sem dúvida nos parece totalmente familiar: agora muitos procedem assim; antes de Heidegger ninguém o fazia. A novidade simplesmente dizia: O PENSAMENTO TORNOU A SER VIVO, ELE FAZ COM QUE FALEM TESOUROS CULTURAIS DO PASSADO CONSIDERADOS MORTOS  E EIS QUE ELES PROPÕEM COISAS TOTALMENTE DIFERENTES do que desconfiadamente se julgava. Há um mestre; talvez se possa APRENDER A PENSAR".
-Hannah Arendt-

"O leitor contemporâneo do primeiro trabalho sistemático de Heidegger [SER E TEMPO, 1927]
 foi capturado pela VEEMÊNCIA DO SEU PROTESTO APAIXONADO contra o mundo cultural seguro da geração mais velha e pelo nivelamento de todas as formas individuais de vida pela sociedade industrial, com as suas uniformidades e as suas técnicas de comunicação e relações públicas que manipulam tudo. Heidegger contrastou o conceito de autenticidade do Dasein [o existente, o homem em seu ser específico, diferente, em seu Selbst (si mesmo), do ego pensante tal como no individualismo cartesiano] , que está ciente de sua finitude e que aceita resolutamente, com o 'Eles' [das Man, o "se" impessoal, como nas fórmulas "se diz", "se pensa", "se acha", a voz gregária, maciça e burra do "todo mundo sabe que"], como formas inautênticas e perdidas do Dasein. A SERIEDADE EXISTENCIAL com que ele trouxe o velho mistério da morte para o centro do interesse filosófico e a FORÇA COM QUE O SEU DESAFIO À VERDADEIRA 'ESCOLHA' DE EXISTÊNCIA esmagou o mundo ilusório de educação e cultura, desfez a bem preservada tranquilidade acadêmica".
-Hans-Georg Gadamer-

sábado, outubro 03, 2015

The Who, "Baba O' Riley"



"Baba O'Riley" is a song written by Pete Townshend for the English rock band The Who. Roger Daltrey sings most of the song, with Pete Townshend singing the middle eight: "Don't cry/don't raise your eye/it's only teenage wasteland". The title of the song is derived from this combination of the song's philosophical and musical influences: Meher Baba and Terry Riley.
Noted for its innovative fusion of The Who's hard rock sound and early electronic music experimentation by Townshend, and for its crashing chorus coupled with repeating F-C-B♭ power chords, the song has been a perennial favorite on classic rock radio stations as well as a concert staple for the band.


"Baba O'Riley"
Out here in the fields
I fight for my meals
I get my back into my living
I don't need to fight
To prove I'm right
I don't need to be forgiven

Don't cry
Don't raise your eye
It's only teenage wasteland

Sally ,take my hand
Travel south crossland
Put out the fire
Don't look past my shoulder
The exodus is here
The happy ones are near
Let's get together
Before we get much older

Teenage wasteland
It's only teenage wasteland
Teenage wasteland
Oh, oh
Teenage wasteland
They're all wasted!