segunda-feira, agosto 31, 2015

Steve Jablonsky, "My Name is Lincoln"


as omeletes de Picasso


Semana passada eu "interrompi" o fluxo de posts sobre a psicologia da criação à luz de Fellini para dar palavra ao "Picasso de Jung" . Mas o trecho a seguir mostra que estamos "in famiglia" transitando entre esses três pensadores. Suas áreas de atuação são diversas, mas sim, são pensadores, num sentido mais essencial do que é sugerido pelas regras comuns de especialização acadêmica. Pensam por imagens. 
A imagem é a síntese complexa de conceito, emoção e o mundo sensorial. A imagem é o quadro da alma que sonha, seja a que hora do dia for; para a alma que "imagina" com liberdade e foco, até os atritos da mais ríspida realidade prosaica são travesseiros que convidam ao repouso das armas e ao salto do onírico.
Negar à alma a imagem é como tentar proibir ao rouxinol o seu canto. Absurdo. A beleza é nosso elemento natural. Para além dos clichês.  Fellini pontua -e poderia estar falando de um quadro de Picasso, ou poderia ser o próprio Picasso falando- que para sua estética não interessa se algo é  "bonito" ou "feio" nesta ou naquela cartilha convencional. O que interessa saber é se é VITAL. "É a definição que me é mais próxima e que me permite entrar em contato com a expressão artística. Se uma obra é vital existe nela uma vida misteriosa, uma vida própria".
Este é um conceito estético VITALÍSTICO, segundo suas próprias palavras. O termo é de grande importância no panorama filosófico a partir de fins do século XIX.  Abrigando nomes e enfoques diversos, como Bergson,  Nietzsche,  Ortega y Gasset, os vitalismos advogam a necessidade de pensar a vida a partir da vida, isto é, não reduzi-la a esquemas abstratos, a leis do inorgânico, acompanhá-la e traduzi-la em sua energia e dinâmica próprias, sublinhando o papel do corpo, dos instintos, dos desejos, paixões, luta pela subsistência, força, sonho.

Gênio e touro sexual, insaciável no espírito e na carne -foi pai aos 77 anos de idade, soube de uma artista talentosa, picassiana na fome solar de vida e criação-  Picasso marca a mentalidade moderna, "vitalística" com suas obras e seu carisma. Como afirma Fellini: "Um artista como Picasso é como uma fonte. Picasso é tão criativo que me parece que ele habita no imaginário onírico dos artistas como o símbolo de qualquer coisa de substancial".
E ele relata a Damien Pettigrew, na entrevista que estamos lendo juntos, dois sonhos em que Picasso lhe apareceu como spiritus rector, mestre interior. Nos dois casos, o sonho lhe ocorreu em momentos de intensa depressão, bem à maneira como Jung ressalta o papel compensatório do inconsciente, do símbolo,  nos momentos de exaustão de nossos recursos linguísticos habituais para dizer e "tocar" (adiante) nosso mundo.  
"No começo de 8 e 1/2, que eu não queria mais fazer, sonhei que fora recebido numa modesta cabana, onde morava Picasso. Ele me acolheu e me preparou uma omelete com ovos que ele mesmo pegou. Ele me convidou para sentar. Deu-me um guardanapo para que eu não me manchasse. Dizia-me: 'Não se suje jamais". E depois dividimos essa omelete, que estava muito boa. Eu me lembro que nesse sonho, durante toda a noite, ele me falou sem parar com a um velho e grande amigo".
No segundo sonho, o autor de Guernica aparece de costas. A "omelete" que tem a oferecer, abastecimento com as energias primevas (ovo), é a coragem. Não numa pacata conversa entre amigos ao anoitecer numa cabana, mas em plena borrasca do inconsciente. No combate às águas do caos. Fellini nadava no mar e queria voltar, porque o mar se tornara agitado. O céu escureceu; parecia-me que  me havia afastado demais da praia. De repente, vi emergir no meio das ondas cor de chumbo, enfurecidas, ameaçadoras, a cabeça careca de Picasso que, com a branca coroa de monge, ombros robustos, nadava, nadava. E eu dizia: 'Quero voltar'. E Picasso sacudia a cabeça e dizia: 'Não! Não' e me incitava a nadar".

domingo, agosto 30, 2015

sábado, agosto 29, 2015

Resenhas para a Folha, agosto 2015

Cena de Mahabharata, montagem clássica de Peter Brook e Jean-Claude Carrière


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
sábado, 29 de agosto de 2015
textos de CAIO LIUDVIK

O ESPAÇO VAZIO

“Posso pegar um espaço vazio e chamá-lo de um palco deserto. Um homem caminha por este espaço vazio enquanto outra pessoa o observa, e isso é tudo de que se precisa para dar início a um ato teatral”. Essas palavras são o portal de abertura rumo a uma das estéticas mais influentes do teatro mundial desde fins dos anos 60. No Brasil, repercute nas montagens de um Antunes Filho e Gerald Thomas, que assina prefácio desta edição. O manifesto já clássico de Peter Brook, na esteira da “orientalização” contra-cultural do Ocidente, defende um despojamento externo e interno,  dos cenários e do ator,  em comunhão imaginativa com o espectador que completa em si o sentido sugerido na ribalta. Isso tudo na contramão do que Brook designa de o “teatro moribundo”, de pompas e paetês que desfiguram a mensagem radical que clássicos como Shakespeare teriam para nós no aqui e agora. Nome central da cena britânica e parisiense, pôs em prática tais preceitos em montagens célebres como a do épico hindu  “Mahâbhârata
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

CASAMENTO E MORAL
“A moral tradicional não errou ao exigir o autocontrole, mas ao exigi-lo no lugar errado”. Ao invés do amor, “generoso e expansivo”, tal disciplina deveria conter é um sentimento “restritivo e belicoso” como o ciúme. Com a perspicácia de quem antevinha, já em fins dos anos 20, as novas dinâmicas  sociais e sexuais trazidas pela pílula anticoncepcional e pela  revolução feminista, Bertrand Russell apregoa (e diagnostica) nesse ensaio a liberalização da moralidade do amor. Seu espírito cético e anticlerical é traduzido na militância por uma ampla reforma de valores, que despoje os prazeres e deveres humanos do peso da superstição e do tradicionalismo rígido. Russell fala em “casamentos experimentais”, cujo vínculo só se estreitaria de fato no momento da vinda e criação dos filhos. Em nossa cultura contemporânea do “ficar”, são preceitos nada estranhos, mas que convidam a uma responsabilidade moral nem sempre respeitada pelo hedonismo inconsequente.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO


MINHA PARIS, MINHA MEMÓRIA
Nascido em Paris em 1921, Edgard Morin diz, nessas memórias mescladas a retrato afetivo da Cidade-Luz,  que se tornou propriamente parisiense apenas quando a mãe morreu. Essa perda foi a “Hiroshima interna”de sua infância e de sua vida,  mas como que lhe empurrou a um segundo nascimento e uma segunda casa (ou mãe), a Paris de suas evasões imaginárias, nas salas de cinema, a Paris das canções românticas “(Em Paris , em cada subúrbio/ O sol de cada dia / Faz desabrochar um sonho de amor / Em cada destino”) a que ele fazia jus nas colinas estratégicas em que levava suas conquistas amorosas para o primeiro beijo.  A cidade palco e co-protagonista de sua biografia e da história mundial do tumultuado século 20, com suas ruas marcadas pela guerra, ocupação nazista, resistência, revoltas estudantis de 68. 

JOSEPH FOUCHÉ
De professor eclesiástico a  um blasfemo saqueador de igrejas. De um radical carniceiro (responsável pelos massacres de Lyon) e autor do “primeiro manifesto comunista da história”, a algoz de Robespierre . Traidor também de Napoleão, de quem fora ministro e fundador da moderna polícia política.  As peripécias e o caráter (ou absoluta falta dele) de Joseph Fouché (1759-1820), um dos mais importantes e sombrios personagens da Revolução Francesa, são tema deste ensaio de Stefan Zweig, publicado em 1929, sob o impacto, entre outras febres políticas calamitosas recentes ou iminentes, do novo surto revolucionário que tomara a Rússia. Tratava-se, segundo Balzac, da “personalidade psicologicamente mais interessante de seu século”, um gênio sinistro que vale a pena ser investigado por si mesmo e pelo que descortina sobre a psicopatologia do poder em geral, sobre o hábitat político que - os brasileiros que o digam- parece tão afeito ao cinismo camaleônico (entre nós macunaímico), sem nenhum caráter.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO  

PERSEGUIÇÃO E A ARTE DE ESCREVER
Um dos pensadores políticos mais importantes do século 20, Leo Strauss aqui esboça os fundamentos do que ele chama de uma “sociologia da filosofia”, calcada, antes de mais nada, na “periculosidade” da livre investigação racional nas sociedades mais diversas, desde a democracia ateniense que assassinou Sócrates até –e é esse o contexto que Strauss examina mais de perto nos ensaios aqui reunidos- a cultura judaico-islâmica medieval. A linha argumentativa chega a nos fazer pensar na magnífica perspectiva do crítico brasileiro Luiz Costa Lima sobre o “veto à ficção”, o controle social do imaginário, e as respostas que a literatura lhes dá ao longo dos tempos. No caso dos pensadores, mostra Strauss analisando casos como o de Maimônides e Spinoza,  tal resposta vem muitas vezes na forma de um dualismo entre suas doutrinas “exotérica” e  “esotérica”, esta última reservada aos leitores mais seletos, com faro para as entrelinhas.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO




pequeno guia filosófico para "Homem Irracional"

Woody Allen durante as filmagens, com Emma Stone e Joaquin Phoenix 


"Na vida, nunca faltará quem lhe diga como viver. Essa gente sempre todas as respostas: o que você deve ou não fazer. Não discuta com eles. Apenas responda: 'Claro, excelente ideia'. E faça o que bem entender".
(David Dobel, personagem de Igual a Tudo na Vida, de Woody Allen)
Curioso como, diante de proposições saborosas como essa, eu tendo a rir um riso de aprovação não sem um quê de ironia, pressentindo que um outro lado, um algo além da verdade engraçada que soou no radar desse radicalismo, ficou de fora, e seria igualmente valioso incorporar. Nesse caso concreto: aprecio o elogio da independência pessoal , ainda mais quando acompanhada da boa educação de fingir que aceitou o pitaco do outro.
 Mas um diretor  tão iconoclasta ante todas as vacas sagradas, e que brinca que nasceu no seio do judaísmo e se converteu ao narcisismo, como se mudasse de uma religião para outra,  parece nos alertar, com uma piscadela marota, sobre a possìvel necessidade de relativizar a verdade "absoluta" de declarações de fé no faço o que me der na telha: a suspeita de que esta seria uma versão pobre e gorda do que seria uma liberdade mais autêntica, aberta, que cuida da própria vida mas não perde a capacidade de trabalhar e amar, que são coisas basicamente sociais, ou interpessoais. 
O narcisista doente (pois, como arquétipo, Narciso pode ser bom ou mau) se fecha em si mesmo e deixa crescer um barrigão entediado como o de Joaquin Phoenix em "Homem Irracional"., detalhe estético que nesse contexto parece feio porque desleixado, não por alguma ditadura da magreza. Sem fazer muita força, mais no jeito e talento que na obsessão meticulosa de apresentar uma nova obra-prima (que não é), o mestre Allen nos entrega um bela refeição para a mente. Um prato cheio para voos filosóficos a sós ou bem acompanhados. E atentem para a uma referência filosófica velada, que não vi ainda citada por aí: o juiz Thomas Spangler, tão útil à reviravolta existencial do professor de filosofia até então atolado na depressão, bebedeira e impotência. O nome desse juiz nos remete, sem alarde, mas por nome e sobrenome, ao autor de "A Decadência do Ocidente", Oswald Spengler. Um dos elos de ligação entre a filosofia nietzschiana da vontade de poder e as bases ideológicas mais diretas do nazifascismo, Spengler operava com uma clássica distinção entre "Kultur" (princípio dinâmico, vigoroso, jovial de criação espiritual enraizado todavia na dimensão telúrica da existência) e "Zivilisation" (a velhice da Kultur, com embotamento e desenraizamento dos homens em relação à sua natureza mais profunda, ecológica e biológica, inclusive). Ele ataca a "Zivilisation" moderna, cosmopolita, tecnocrática, considerando que a guerra de 1914 marcava um momento de rebelião do espírito alemão arcaico contra essa ordem estranha e hostil a seus desígnios mais essenciais. Seria um turning point para fora do estado de desespero e estagnação que marcavam o "inverno" da modernidade, no esquema cíclico das quatro estações com que Spengler implode a visão iluminista da História como progresso linear das luzes da razão e do bem-estar. 
Essa apologia da violência redentora  também permeia, de outra maneira, o existencialismo de Sartre. A frase famosa de "Huis Clos", citada no filme (o inferno são os outros) é um indicativo da maneira belicista como Sartre encara os relacionamentos. E noutra peça, ja rumo ao marxismo, "As Mãos Sujas", Sartre retrata elogiosamente o pragmatismo de Hoerderer, disposto a sujar as mãos de sangue e de merda em nome da revolução,,  confrontado ao idealismo pequeno-burguês de Hugo. 
E, em "Homem Irracional" é crucial a tentação da violência, V de Vingança, como forma de justiça autêntica quando a Justiça está corrompida e, mais existencialmente, como elixir dos fluidos criativos desbloqueados. O júbilo de autolibertação violenta de Raskolnikov,  é ressignificado, em "Homem Irracional", pelo fato de o exemplar de Abe Lucas de "Crime e Castigo" tomar como uma espécie de  epígrafe  a frase "banalidade do mal",. Culimância lógica do que no niilismo russo nasce como reivindicação de privilégios sde prender e soltar, torlerar ou matar, pelos super-homens em relação aos meros "vermes", trata-se da expressão que Hannah Arendt cunhou em seu estudo sobre Eichmann e a frieza com que os nazistas apenas "cumpriam ordens" ao prender, explorar e matar 
Retomando a vertigem de Pascal ante o fim dos divertimentos alienantes que nos desviavam de nossa miséria, o existencialismo nasce em meados do século 19. Nos dois casos uma índole antirracionalista produz essa filosofia antifilosófica e revoltada. A denúncia anticartesiana de Pascal se metamorfoseia no furor antihegeliano de Kierkegaard, autor de "O Conceito de Angústia"  -de onde provém a frase citada pelo professor em classe, "A angústia é a vertigem da liberdade"-, e de "O Desespero como Doença Mortal",   citado por Jill, a universitária atraente que, nessa cidade norte-americana de segunda linha,  se põe numa posição como a de Hannah Arendt aluna de Herr Professor  Heidegger, na Malbourg dos anos 20. Abe Lucas, em estado de cinzas como a ave fênix do sobrenome do ótimo ator que lhe deu vida, estava escrevendo um livro sobre as relações entre Heidegger e o nazismo. Estava tão excitado com a empreitada (sim, é disso que o mundo está precisando, mais um livro sobre tema tão batido - será mesmo?) quanto pela profissão de professor e pela própria filosofia. Já nas primeiras aulas que dá quando chega trazendo seu "viagra para o departamento de filosofia" local, o professor brochado declarava que a maior parte da filosofia é uma bulllshit distante das realidades cruéis da vida. Bullshit como a da teoria moral de Kant, que proibía ao homem virtuoso o direito de mentir, mesmo se as tropas nazistas lhe chutassem a porta de casa perguntando se por acaso a família de Anne Frank estava escondida ali. Imoral ali seria você dizer que não, não interessa o que os SS fizessem com as vítimas de sua sanha assassina e de nossa "sinceridade".Por outro lado, o filme mostra que a desconstrução da ética kantiana , este bastião secular dos dez mandamentos do Deus morto, e a crise de todo critério objetivo de moralidade, nos sujeitam ao perigo de que cada um seja "juiz" absoluto de suas próprias ações, com poder de decidir por exemplo quem merece ou não o direito a seguir vivendo. Da asfixiante cátedra de masturbações verbais da filosofia, caimos assim, e depressa, na selva  em que "tudo é permitido" - não se esqueça por um minuto a presença fundamental de Dostoiévski neste e noutros filmes do diretor nova-iorquino.
Como um Spinoza da Big Apple, Woody Allen já declarou, pelos filmes e em entrevistas, que em sua visão sombria da condição humana num mundo sem Deus e sem utopias coletivas confiáveis, a melhor ética possível é a ALEGRIA. Citando título de outro filme recente (também sobre um intelectual amargurado que atrai uma jovem iniciante na vida), diríamos que whatever works: Não importa como, contanto que funcione. E que não destrua o direito do outro à alegria também, portanto à vida. O professor Abe Lucas não nos dá exatamente um aula magna deste preceito ético. Mas até por isso sua lição nos ensina, e muito. Acende uma lanterninha providencial na escuridão.

30 seconds to mars, "Do or die"



"Do Or Die"
In the middle of the night, when the angels scream,
I don't want to live a lie that I believe.
Time to do or die.

I will never forget the moment, the moment.
I will never forget the moment.

And the story goes on... on... on...
That's how the story goes.
That's how the story goes.

You and I'll never die.
It's a dark embrace.
In the beginning was life, a dawning age.
Time to be alive.

I will never forget the moment, the moment.
I will never forget this night.
We sing, we sing...

On... on... on...
That's how the story goes.

Fate is coming, that I know.
Time is running, got to go.
Fate is coming, that I know.
Let it go.
Here right now
Under the banner of heaven, we dream out loud
Do or die, and the story goes
On... on... on...

And the story goes on... on...
This is the story

Fate is coming, that I know (this is the story)
Time is running, got to go (this is the story)
Fate is coming, that I know (this is the story)
Let it go.
Here right now,
Under the banner of heaven, we dream out loud
Dream out loud!
Fate is coming, that I know (time to do or die)
Time is running out (time to do or die)
Fate is coming, that I know (time to do or die)
Let it go...

sexta-feira, agosto 28, 2015

As mãos ensolaradas de Deus


Don't U
Você não?
-Era-


Sempire d'amor
O amor eterno
Sol mani deo
As mãos ensolaradas de Deus
Empi altera
As mudanças da experiência
Invocante di amor
Chame o amor
Infanatibo
Seja amado
Senzo removi
Sem sair
Sempire d'amor
Amor eterno
Sempire di adore
Adoração eterna

quinta-feira, agosto 27, 2015

o Picasso de Jung


Entre 11 e 30 de outubro de 1932,  o Museu de Artes de Zurique abrigou exposição com 460 quadros de Pablo Picasso. O sucesso de público -quase trinta mil visitantes - foi um dos estímulos para que Jung, sempre atento aos movimentos sísmicos da alma coletiva,  se debruçasse sobre o fenômeno Picasso. O resultado foi um artigo curto mas polêmico, em que ele faz de Picasso um "irmão" artístico (e psíquico) de James Joyce, que fora tema de outro texto de Jung, pouco antes. 
A polêmica se deveu ao fato de Jung apontar nas obras de Picasso e Joyce uma fonte de criatividade psicológica parecida com a de seus pacientes esquizofrênicos, que Jung convidava também à expressão artística. Na verdade a aliança da psicologia analítica com a pintura é mais profunda, diríamos mesmo genética, isto é, de base. Não por acaso sua exuberante manifestação, entre nós, na terapêutica revolucionária de Nise da Silveira, que rompe com a camisa-de-força psiquiátrica para reintroduzir o afeto e a arte (pintura, desenho, argila etc) como motores da autocura da alma dilacerada pela psicose. 
Já comentei o quanto a expressão pictórica foi importante no  "confronto com o inconsciente", eufemismo para a viagem ao umbral da loucura, que Jung vivenciou quando da ruptura com Freud, em 1913. 
Mostrei em artigo na revista Percurso (*vide referência ao final) o quanto a infância de Jung foi perpassada de angústias que analistas como Winnicott não hesitaram em qualificar de psicóticas; graças ao seu gênio, porém, ele pôde flutuar onde muitos afundariam (lembrando aqui o brasão da cidade de Paris), e se impor sobre suas crises com a vontade enérgica dos grandes criadores. Ao invés do naufrágio, pôde velejar (de fato, um de seus hobbies mais diletos) pelas tormentas, se valendo de recursos como a expressão simbólica na pintura.
Cena do filme "Um Método Perigoso", representando Jung (à direita) e Freud no lago de Zurique

No artigo sobre Picasso, Jung reitera um ponto importantíssimo, e mal compreendido por muitos maus leitores da teoria dos arquétipos. Não se trata de significados fixos, prisioneiros fáceis de verbetes de dicionários de sonhos: simbólico é o que NÃO tem sentido, isto é, se por sentido entendemos a correspondência óbvia com algo do mundo externo ou da linguagem estabelecida.  Simbólica é a expressão mais potente, num dado momento, de algo em nós que ainda não sabemos  muito bem o que "quer dizer". Se é que quer dizer. Não tenho certeza de que a flor levantada por Buda no célebre sermão quisesse nos dizer algo de particularmente especial. Ela simplesmente é, como as coisas da vida celebradas pelo guardador de rebanhos, como o peregrino das florestas de imagens poetizadas pelo simbolismo de Baudelaire -e pelo de Jung. 
Símbolo, também, tende a ser algo que desacata a percepção habitual dos objetos no tempo e espaço. Uma das modalidades dessa "distorção" tomou forma  no cubismo de Picasso, que vinha dar expressão não mais a objetos externos, nem mesmo às "impressões" fugidias deles, à la Manet, e sim a algo de mais misterioso.  Um drama interior de morte (anunciada na "fase azul" e na identificação com figuras inquietantes como as prostitutas sifilíticas, as máscaras africanas) e ressurreição, nas errâncias da figura mítica do Arlequim, este "trickster", bobo da corte, que caçoa e corrige, trapaceia e ensina balançando entre a alegria e a melancolia,  o nobre e o vulgar, o grotesco e o sublime.

Jung manifestava então certo otimismo sobre os rumos que a arte de seu contemporâneo Picasso assumiria. Não era propriamente um fã da "beleza" e prazer estético, que não encontrava, nos quadros do pintor espanhol; tampouco é elogioso, nesse sentido, ao "Ulisses" de Joyce: nos dois casos, aponta a fragmentação, a falta de sentimentos e a atração luciferina típica dos psicóticos, impotentes (ou libertos, dependendo do ponto de vista) em relação ao afã dos "normais" e dos neuróticos de achar sentido em tudo, tapando as fendas da vida com a tranquilidade das traduções fáceis.
 Não que dessa "nekyia", descida aos infernos, aventura comum a  Picasso, à multidão de seus fãs e sua época (que é a nossa, ainda?), se pudesse esperar uma saída pacificadora, um happy end tranquilo, que para vulcões criativos como o autor de "Guernica" seriam, isso sim, forma miserável de extinção. Mas nas crises atestadas pela obra de Picasso, nas suas diversas fases e temas, haveria o testemunho da luta titânica do homem moderno em forjar para si uma possibilidade de vida autêntica nos escombros da arquitetura de destruição dos delírios totalitários e do eclipse do "sentido", que recua, como um João Batista, para que possa crescer este redentor perturbador que é o  símbolo.
* Meu artigo sobre as angústias infantis e a obra de autocura de Jung:
 http://revistapercurso.uol.com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=12&ori=autor&letra=L

quarta-feira, agosto 26, 2015

o apocalipse de Fellini


Creio ter ouvido pela primeira vez este nome, "paparazzi", quando da morte de Lady Di, em 1997. Caçadores de celebridade, ficaram eles próprios célebres. Afinal eles nunca haviam levado tão longe o cumprimento de sua missão, no uso de sua máquina e seu rifle: caçaram com pleno êxito, ajudaram diretamente a produzir a morte da princesa, sendo depois responsabilizados criminalmente pelo fato, segundo lemos aqui:
 http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2008/04/07/ult34u202838.jhtm

Sintomas de uma cultura que cada vez mais dissolve as fronteiras entre ficção e realidade na aura irreal e inescapável do espetáculo, esses personagens hoje tão corriqueiros nasceram, eles próprios, da imaginação ficcional. Em sua certidão de nascimento está o nome de Federico Fellini, que em "La Dolce Vita" (1960) batizou de Paparazzo um dos fotógrafos que acompanham o jornalista Marcello (Marcello Mastroianni)  nas errâncias pelo vazio esplendoroso, quando não brutalmente trágico, da vida numa cidade grande (no caso, Roma, mas bem podia ser Paris, Nova York ou nossa São Paulo atual) da segunda metade do século 20 em diante.
 A diva do cinema americano, a aparição fraudulenta de Nossa Senhora ou a mãe que está para saber que o marido (Steiner) acaba de matar os dois filhos e se suicidar, nada pode escapar das lentes "objetivas" de uma cultura que esmaga o subjetivo, a dignidade da pessoa humana, seus valores e seu anseio de sacralidade mais recônditos, que no "apocalipse de Fellini" (feliz expressão de Almeida Salles num memorável artigo sobre esse clássico) não passam de resíduos estranhos, "sobrenaturais" mas incompreensíveis, como o peixe (símbolo cristão) que irrompe na praia, olhos fitos como a câmera de Paparazzo, após mais uma madrugada dissipativa e vulgar de vida loka de um grupo da alta burguesia.



Outro desses vestígios de redenção é a menina que acena ao longe, nessa mesma praia e manhã, para Marcello, como o que o chamando para fora do inferno. Assim como noutros momentos em que músicas ou fatos (como o já citado suicídio e duplo assassinato) parecem querer romper o torpor de sua consciência, Marcello não "escuta" o apelo, volta para sua nau dos insensatos, enquanto a menina, de sorriso que a faz também parecer uma anciã, o contempla, compassiva, espero que não com o pensamento de que ali se vai uma alma condenada para sempre.
"É preciso ser surdo e cego", disse Fellini, na época, em resposta à onda de protestos conservadores que o acusavam de denegrir a Igreja, a moral e os bons costumes, "para não ver, para não perceber o imenso desejo de salvação subjacente a todo os filme. O que exigem de meus personagens? Que proclamem a altos brados o seu arrependimento? Quem está se afogando não grita o próprio arrependimento, e sim pede socorro. Meu filme inteiro é um pedido de socorro. E se não entendem esse pedido, a culpa não é minha".
Um pedido de socorro que toma forma inconsciente, por exemplo, no alegre uivo de Sylvia (Anita Eckberg)  junto aos cães na noite -pouco antes do espetacular banho na Fontana di Trevi, em que a aura de redenção volta a acenar como que num batismo de purificação que faz o barulho ambiente ceder ao silêncio amoroso. 

Uma angústia generalizada que porém não será sanada por meras elocubrações  intelectuais como a da alta roda em torno de Steiner, sobrenome que alude, claro, a um dos nomes mais importantes do espiritualismo moderno, Rudolf Steiner. Se a Igreja não está bem na foto, tampouco Fellini aponta um caminho fácil e "new age" de reconciliação do homem com a transcendência. É preciso curar também a imanência, olhar com carinho e responsabilidade para nossas potencialidades bloqueadas por uma sociedade que se cega para o humano enquanto sacraliza a visibilidade do espetáculo idiota.
"La Dolce Vita", em cartaz no Itaú da Augusta, propicia uma experiência que não é fácil em nenhum sentido, inclusive pelas três longas horas em que o tédio propositalmente faz-nos ser arrastados num filme aparentemente sem história - como anistórica e esfuziantemente tediosa é a vida besta, meu Deus, denunciada também pelo poeta itabirano, nisto em coro com o gênio felliniano.

missão para os abismais


A filosofia é uma estrada que percorre os pontos mais elevados dos Alpes; para chegar até lá, é preciso galgar uma senda abrupta, que atravessa rochas pontiagudas e espinhaços poderosos; é um caminho solitário que se torna cada vez mais desolado a medida em que nos aproximamos do cume; quem o segue, não deve temer o assombro, mas deixa-lo inteiramente atrás de si, enquanto abre seu próprio caminho com perseverança através da fria neve. Com frequência o filosofo se depara subitamente diante um abismo hiante e, descendo ao longo dele, consegue dirigir o olhar até o vale verde que se estende muito além, lá embaixo nas planuras. Sofre então uma terrível sensação de vertigem; mas precisa superá-la, mesmo que para isso tenha de fixar as solas de seus pés sobre as rochas com o adesivo de seu próprio sangue. Passado esse momento, verá que todo o mundo se encontra abaixo de si, perceberá como desaparecem todas as terras pantanosas e a multidão dos desertos de areia, como se afastam todas as irregularidades, como todas as discordâncias ficam contidas no conjunto e não sobem até ele e é então que percebe realmente como o mundo é redondo. Enquanto isso, ele permanece sempre no ar puro e frio das alturas e pode contemplar o Sol, enquanto o mundo inferior domina ainda a negra escuridão da noite.
— Arthur Schopenhauer, in "Primeiros Manuscritos",

follow your bliss (centésimo post de cinema)


Por meio da amiga Manuela Pérgola, no facebook, deparei com o seguinte poema de Hilda Hilst:

"É meu este poema ou é de outra?
Sou eu esta mulher que anda comigo
E renova a minha fala e ao meu ouvido
Se não fala de amor, logo se cala?
Sou eu que a mim mesma me persigo
Ou é a mulher e a rosa que escondidas
(Para que seja eterno o meu castigo)
Lançam vozes na noite tão ouvidas?
Não sei. De quase tudo não sei nada.
O anjo que impulsiona o meu poema
Não sabe da minha vida descuidada.
A mulher não sou eu. E perturbada
A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos remos que inventei.

De imediato, mas sem muita clareza senão a da intuição turva, esses versos ressoaram como epígrafe possível para o novo recorte que me preparava para fazer da entrevista de Fellini que estamos comentando há alguns posts. O diretor de "La Dolce Vita" fala nesse momento da estranheza, da distância de si para si, que lhe acomete quando, de criador, passou a espectador como outro qualquer de seus próprios filmes:
"Revendo meus filmes, por acaso - porque não os revejo nunca por minha própria vontade- ou quando acontece de ver uma fotografia ou um trecho na televisão, me vem espontaneamente a pergunta: 'Mas quem é esse que fez esse filme? Como é possível: Como pude impor minha vontade a milhares de pessoas para realizar tudo isso? ' Digo estupefato, o que me faz imaginar que no momento em que me torno cineasta, sou habitado por um hóspede obscuro, que não conheço, que toma a direção do barco e dirige em meu lugar. Eu coloco unicamente à sua disposição a minha voz, minha sensibilidade artesanal, minhas tentativas de sedução, de plagiador ou de autoridade. Entretanto é um outro que age, um outro com quem vivo e que eu aprendo a conhecer pelo que escuto dizer dele. Algumas vezes, lendo críticas de meus filmes, acabo por descobrir alguma coisa deste outro"
Poderíamos multiplicar infinitamente os paralelos dessa experiência, que é nossa também no dia-a-dia, quando estamos em estado de FLUXO, entregues a uma atividade que exige total concentração mas, paradoxalmente, saída de nós mesmos. Sim, então o eu é um outro (Rimbaud), mas o Outro não é um outro eu, é um processo em aberto, um vento que sopra, um fogo que aquece e alumia e se dissipa em cinzas, no cinzento day after em que, espantados, e algo tristes, testemunhamos que uma obra se usou de nós para vir a ser. Fomos a manjedoura suja, mas a alma virgem, em quem a casca do ego se rompeu e o Outro em nós se soergueu para falar mais alto, no silêncio de poder, com voz de comando, nos levando de vento em popa para horizontes mais largos de mundo e de experiência. Tsunamis mentais que nos dobravam agora são, quando muito, regurgitações da natureza que vemos de longe e acima, do alto da montanha mágica do Self. É o o Anjo Guardião de quem E. W. Butler fala no delicioso livro iniciático A Magia e o Mago. É o daimon de Sócrates, cuja obediência pode nos levar à morte por cicuta, como no caso dele, mas como quem cumpre sua missão em plenitude, atingindo o estado "eudemônico" que é o nome grego para a felicidade. Joseph Campell resume isso, à luz da experiência mítica universal da jornada do herói, em seu convite: FOLLOW YOUR BLISS, siga o rastro do que te leva à experiência suprema de significado e prazer, essa que o poeta Yeats também captou bem nos seguintes versos:
"Meu quinquagésimo ano veio e se foi,
Eu, um homem solitário,
Sento-me em um bar lotado emk Londres,
Um livro aberto e um copo vazio no tampo da mesa de mármore.
Enquanto olhava para o bar e para a rua,
Meu corpo subitamente ardeu em chamas,
e durante mais ou menos 20 minutos,
a minha alegria foi tão grande que parecia que fui abençoado e podia abençoar"
No caso de Fellini, essa metafísica do daimon criador está implícita na experiência que ele chama de "terapêutica", e comum, de ir par ao estúdio, num duro inverno europeu, tomado de gripe, de febre de 39 graus, e lá ela simplesmente desaparecer, em meio às excitações e preocupações da atmosfera do estúdio, do lidar com os atores, a filmagem em si, e assim por diante. "Se posso trabalhar até quando não estou bem de saúde, não vou me deixar condicionar por detalhes tais de meu humor ou meus estados de espírito, além daqueles que estão a serviço do jogo ao qual me entrego".
Muitos atores sobem à ribalta num estado de completa debilidade física ou psicológica, doença ou luto na família, contas para pagar etc, e lá se permitem o que Grotowski chamou certa vez de experiência do ATOR SANTO, não num "baixar o santo" arbitrário e místico, no mau sentido, mas como fruto de técnica e de ética da criação. 
Eu me lembro de uma estréia, nos tempos de Macunaíma, em que um diretor da escola resolveu invadir nosso espaço mais íntimo, o do palco a poucas horas do espetáculo, trazendo broncas e negativismos do gênero. Algo me fez de imediato saltar para fora dali, e ir caminhar nas redondezas do Bexiga enquanto aquele tsunami de mediocridades passava abaixo, distante, sem riscos para o que o Anjo exigia de mim e me dera em meses de preparação e transformação pessoal.


terça-feira, agosto 25, 2015

discurso de Al Pacino em "Perfume de Mulher"


Tudo vale a pena quando a alma, longe de pequena, é grandiosa como no filme "Perfume de Mulher". Vale a pena inclusive retomá-lo mais atentos em outro momento. 
Sorver com mais minúcias a riqueza do personagem e da atuação de Al Pacino como o tenente-coronel Frank Slade.
Ou a viagem de celebração da vida a que ele, ainda que na posição de quem deve ser cuidado, conduz um jovem colegial, Charlie Simms (Chris O' Donnell, também maravilhoso no seu papel). 
Ou, nessa travessia, momentos como a famosa cena do tango. Màxima reverência à esplêndida luta de vida ou morte  em que Frank, mais que o "Velho Sábio", cego vidente (Tirèsias) da cena que separei hoje para vocês, se faz pupilo do pupilo, aprendendo com ele, verdadeira luta do patriarca com o Anjo, depois do divertimento efêmero com a Ferrari e com a dança, a revalorizar a própria vida, mesmo com todas as perdas havidas, mesmo nas trevas, graças à coragem do Anjo, Charlie, em se atirar para salvá-lo de si mesmo. Graças ao que esse menino acende nas trevas da cegueira e da morte  com sua luz de empatia (amor mais viril e assertivo do que  "pena" que temos por coitados).
A cena do discurso final foi, nesta edição do youtube, editada de uma perspectiva interessante para estudiosos da liderança numa sociedade tão competitiva e violenta como a nossa. Vem à luz, na contramão da lógica da esperteza covarde, a força do caráter, na recusa de Charlie a delatar seus colegas. E para tanto não se sentia movido  pela mesma forma de empatia que o ligava a Frank -sequer era amigo dos colegas que aprontaram com o diretor, colegas esses com a "forma e a figura", diz o jovem no interrogatório, de "muitos outros" alunos daquele colégio, deliciados pela travessura a que assistiram, sem a coragem de participar. Tinha è sua voz da consciência, prescrevendo decisões segundo valores que em nada nos recompensem imediatamente, atè mesmo indo contra nossos interesses (Charlie ficou à beira da expulsão).
 Perigoso elogiar demais os méritos dessa ação de Charlie se nos voltamos para a Banânia moral de nossa Brasília Amarela. Hoje há cínicos que diriam que "não confiam em delatores", no que deturpam, em interesse próprio, a lição ética que o filme esboça em seu contexto moral outro. Ao tratar de ética, não podemos nunca deixar de lado o horizonte concreto de cada caso. Até o diabo saberia citar a seu favor as Sagradas Escrituras, como o fez no embate com Cristo no deserto. Não é na letra, mas no espírito e no caráter, ante as encruzilhadas da situação específica, que tudo se decide. 

segunda-feira, agosto 24, 2015

o silêncio de Hermes



Grandes coisas pedem de nós ou silêncio ou um falar com grandeza. O moço da padaria, agora há pouco, me recordou esse preceito de Nietzsche pelo embaraço que teve ao me revelar o  sonho -se tornar aviador- que o movia para estar (isto ele havia contado com a fibra de sempre, quando fala em livros) estudando muita matemática recentemente. Seu embaraço não era por falar de algo longínquo como o céu em que gostaria de estar voando. Era a regra hermética do silêncio em ação, recomendada para metas que nos convocam inteiramente, nos exigem longa preparação, precisão matemática, a ousadia do voo. Boa sorte na jornada, rapaz. Que o aviador e santo Exupéry, padroeiro dos pequenos príncipes, vos abençoe e vos guarde. Gente assim me entusiasma a acreditar que nem tudo no mundo é essa máquina de moer gente que vemos, horrorizados, no clipe abaixo.
O pensamento de Nietzsche consta num poema citado por Jung em Símbolos da Transformação:
"Silêncio!-
Sobre grandes coisas -eu vejo o Grande!-
devemos silenciar 
ou falar grande:
fala grande, meu maravilhoso saber!"
Na abertura de A Vontade de Potência, ele retoma a ideia:
"Grandes coisas exigem que nos calemos a seu respeito ou que falemos com grandeza: grandeza quer dizer: com inocência - cinicamente".
Não sei se "cínico" é a melhor definição para essa inocência, a não ser que ele esteja pensando na escola cínica de Diógenes, marcada não pela mentira, cafajestagem, vigarice que hoje associamos a uma pessoa cínica. Ao contrário, esses andarilhos se marcavam pela extrema paresía,  "falavam rasgado", eram sinceros, mesmo insolentes no esculacho à hipocrisia e à prepotência dos conformistas e dos poderosos. 
É atraente esse convite do autêntico cinismo, mas não muito sadio para quem, ao contrário de Diógenes, não queira viver vestido apenas de um barril, andando pelas ruas fazendo zombarias e gestos escatológicos sem medo nem expectativas para o amanhã; para quem tenha a vulnerabilidade social de um humilde trabalhador de padaria, moendo café num mundo que mói os sonhos de muitos em troca do lucro de poucos; e mesmo para quem queira e deva se resguardar dos riscos psíquicos que o próprio Nietzsche corria, ao se expor à miséria devoradora da cultura de sua época, e de seus próprios desejos imaturos (prova disso a obsessão anticristã, a deriva megalomaníaca e o jugo às chicotadas afetivas de Lou Salomé).
Que a grandeza do falar dos sonhos seja então procurada de outra forma. Não sem a companhia do silêncio de Hermes, resguardando-os da curiosidade banalizante dos outros. E Não sem a santidade do pequeno príncipe , figura que me lembra o filme que acaba de ser lançado, e que preciso ver com urgência, nessa plataforma de aviação imaginária que sempre foi para mim a sala escura do cinema.

"Foucault por Ele Mesmo"


domingo, agosto 23, 2015

Heidegger e Hannah ardentes e o e aí, tem jeito?


Meu encanto só aumenta a cada vez que reabro as páginas da correspondência de amor entre Heidegger e Hannah Arendt (pra mim, Hannah "Ardente", no vigor intelectual e paixão de mulher). Menos badalado- até porque sempre envolto na clandestinidade extra-conjugal-  do que a relação entre Sartre e Simone de Beauvoir, esse affair nem por isso é menos relevante. Ao contrário, segue nos ensinando o quanto e como os filósofos também amam, e o quanto o amor, todo amor, precisa ser resguardado da brutalidade banal de nossa época de abordagens do tipo "e aí, mina, tem jeito?". Ainda que o tesão que nos mova, filósofos ou não, possa transpirar para si aproximadamente esse mesmo ardor, de que "tenha jeito". Que tenha jeitos, com beleza e profundeza.
Assim como outras "minisséries" deste blog, como a atual leitura do pensamento de Fellini, proponho alguns recortes sobre acontecimentos e significados deste amor ardente, que esteve nos bastidores da gênese de Ser e Tempo, de Heidegger,  então já um respeitado professor da universidade de Malbourg. 
Casado, com filhos, tinha 35 anos quando conhece em sua sala de aula, em 1924,  Hannah, uma judia-alemã de 18 anos. Passam rapidamente de professor e aluna à condição de amantes. Os encontros clandestinos perduram por quatro anos. Depois se separam, e se mantêm afastados por vinte anos. Nesse meio tempo, houve o trágico envolvimento de Heidegger com o Nazismo, Hannah foge para a América, se casa duas vezes, desmonta implacável as engrenagens modernas do totalitarismo e do antissemitismo;  ambos publicam muito, a fama só aumenta de parte a parte... mas o fogo ardente da juventude não se calou. Reatam com prudência o relacionamento em 1950, mantêm-se amigos até a morte de Hannah em 1975. Poucos meses depois ele partia. 
É sabido que Sartre, filósofo do absurdo, tinha com o Castor (apelido carinhoso que dava para a filósofa central do feminismo) um pacto: entre eles, o amor  "necessário" (absoluto), em meio a tantos relacionamentos "contingentes". E sempre, a liberdade. Que pode assumir o dulcíssimo peso do compromisso, do "engajamento", sem se negar enquanto tal, sem virar a mediocridade moralista de casamentos muito mais "respeitáveis" e infelizes. 
Falei em dulcíssimo peso do amor. E não foi por acaso. Esta é uma das imagens que Heidegger cunhou para o que ambos, ele e Hannah, viveram com a epifania da paixão. Foi o amplexo solar e lunar do destino. O momento mágico em que ambos puderam se tornar quem eram, porque também puderam tomar sobre si a vida um do outro ("doravante vais fazer parte da minha vida", o professor enlouquecido assevera em carta febril, logo após certa consulta em seu escritório particular com a jovem e brilhante estudante).
Para Heidegger, o humano (Dasein, "ser aí") se singulariza dentre todas as coisas, os demais entes (os sendos temporários do Ser) como um ser de possibilidades. Hoje se usa muito na mídia essa expressão, "aproveite suas possibilidades" se torna cada vez mais um convite sedutor quando as pessoas se apercebem de que não têm a obrigação de cumprir sempre o mesmo script, arrastarem a mesma rotina, gastarem seu tempo como gastam a pasta de dente de manhã e de noite. Quando descobrem isso, estão descobrindo o que Heidegger, e seus seguidores existencialistas, afirmaram e alçaram a termo técnico da filosofia: as nossas possibilidades. E dentre elas, a mais rica de todas é o amor, disse ele -para Hannah, em segredo, e para nós todos, cifradamente, no tratado de 1927 Não só na descoberta de que somos fadados à morte, mas também de que somos chamados ao amor, é que que a vida adquire sua seriedade própria, insustentável leveza (Kundera), o mais pesado dos fardos. O mais doce também, sussurrou em carta de 1925. Carta, canção, "cantada" romântica, cantada caetana: nosso bardo tropicalista falaria em "dulcíssima prisão" do amor, ainda que como algo a ser evitado pela mulher que desacata todas as expectativas aprisionadoras, na música "O Quereres". O doce peso do amor, de fato, não precisa virar prisão. Sem ter a vulgaridade efêmera do "e aí,tem jeito?", os relacionamentos podem ter a densidade erótica que vincula, que engaja. Podem durar segundos ou décadas, podem não passar de uma troca de olhares no café no intervalo de uma exposição de arte ou , após longa carreira de anos, filhos e netos, chegar aos passos trêmulos de dois velhinhos ainda enamorado. Muitas possibilidades. O amor, a mais rica delas, sempre.


"o bom do rock é que não se aprende na escola"

Renato Russo, entrevista à MTV

sábado, agosto 22, 2015

come chocolates, pequena!


A Crucificação do Sentido



Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...)
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas

(...)
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

(...)
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.

(...)
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

(...)
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

(...)
    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



    TACABARIA (trechos do poema)
    Álvaro de Campos, 15-1-1928

a arte da crise e as proteções de amianto


Jung, Livro Vermelho

Assim falou Fellini (vide comentário no post anterior):
"Certamente no tipo psicológico da pessoa criativa é evidente que o artista se alimenta precisamente do que provoca os traumatismos psicológicos; os ferimentos, os traços de sua existência psíquica, e assim as formas de sua neurose têm uma função providencial para ele. Parece-me que Jung reconhecia o caráter providencial, extremamente positivo da neurose, não só do ponto de vista estritamente psicanalítico e clínico... A neurose obriga a se compreender a si mesmo, a mudar de ponto de vista sobre as coisas e começar uma descida em si mesmo. Ela é providencial para a existência, por tudo que se pode aprender através de um melhor conhecimento de si mesmo... Mas no caso particular do artista, a neurose, a neurose tem um caráter providencial também no nível da constituição de um depósito, de um entreposto, de um antro cheio de tesouros no qual pode pescar às mãos cheias todas as histórias, como nos contos que falavam de um tesouro no fundo do mar, ou numa caverna na qual só se pode entrar vencendo monstros e dragões que a guardam. Em geral, a pessoa criativa deve procurar trazer à luz uma das jóias, uma parte desse tesouro ou dessa coisa escondida; ela deve, naturalmente, se expor aos perigos, que são os guardiões infernais, satânicos. Certamente, esse perigo permite ao artista se identificar com o aspecto mais que neurótico, psicótico do seu empreendimento, como na grande tradição dos artistas malditos, como Van Gogh, Poe, Baudelaire, Rimbaud,, que pagaram um tributo muito alto por chegarem muito perto de certas verdades sem ter a proteção ou o conhecimento da psicanálise. Eles não se utilizaram de PROTEÇÕES DE AMIANTO (itálico no original) para esse contato com uma dimensão magnética".

Jung, Fellini e o valor da neurose



Jung nos oferece três palavras de sua própria lavra, como ferramentas do aprendizado da autoleitura. Palavras de sua lavra, frutos de sua obra de vida, desde quando a criança solitária e angustiada que, crescendo, se viu acolhida no círculo sofisticado da psicanálise vienense. Mas que, dentro do adulto, pressionou as paredes, bateu as panelas, e enfim tragou o adulto de volta pra si, numa espécie de renascimento não sem regressão quase literal à infância: viagem às fronteiras da psicose, perigo de afogamento contornado pelas capacidades de mergulhador. Dessa viagem marítima noturna
(outra imagem do "Livro Vermelho" de Jung)

resultou um Jung não mais  freudiano, tampouco "junguiano" (dava, às gargalhadas, graças a Deus por não sê-lo), mas um Jung "si mesmo", como nos convida cada qual a ser nossa tarefa, nosso destino. As palavras, registros de suas atividades no período da crise pós-separação de Freud e busca de um nome próprio como psicólogo do profundo, são:

GESCHEHENLASSEN (deixar acontecer)
"Pensei então, 'ignoro tudo de tal maneira que vou fazer simplesmente o que me vier à cabeça'. Abandonei-me assim aos impulsos do inconsciente".
BETRACHTEN (considerar/ engravidar)
Frente ao que aparece, Jung não se escondia em esquemas de análise. Prestava atenção. Acolhia as visitas do imprevisto. tal como um Espírito Santo de que a Virgem Alma deve parir, dando luz às forças cegas da aflição em imagens que têm um valor funcional integrativo, de aumento de "integridade": nos tornamos mais completos e mais honestos, porque mais habilidosos como regentes da orquestra de nossos anjos e demônios.
SICH AUSEINANDERSETZEN (confrontar-se com) 
Esse verbo aparece muitas vezes na obra de Jung. O "confronto com o inconsciente" é momento -aliás vários, cíclicos como a vida- em que já não dá pra passar ao largo, e sim ATRAVÉS do mundo estranho e surpreendente que nos habita e nos rodeia. Antenas da compreensão ligadas no 220,  dentro e fora, para o milagre e mistério de todas as criaturas, daquelas a que menos dávamos bola, daquelas que tínhamos por repugnantes, hostis. Como nos filmes de terror, em que a assombração, mais que querer sangue, pedia socorro. 
Tudo isso faz da assim chamada "doença" da alma uma grande oportunidade de transformação criativa. Daí que Fellini -mais um trecho da entrevista que colhi para vocês- possa, numa de suas várias referências elogiosas a Jung (mentor fundamental de sua ruptura com o neorrealismo de Rossellini, o "Freud" do qual ele precisava se afastar para tornar-se si mesmo) ao longo de suas entrevistas, falar no quão é importante "bendizer" (ou seja, encontrar-lhes uma forma de expressão benigna) nossas neuroses, como explico a seguir. 

sexta-feira, agosto 21, 2015

Milton Nascimento & Mercedes Sosa, "San Vicente"


Coração americano
Acordei de um sonho estranho
Um gosto, vidro e corte
Um sabor de chocolate
No corpo e na cidade
Um sabor de vida e morte
Coração americano
Um sabor de vidro e corte

A espera na fila imensa
E o corpo negro se esqueceu
Estava em San Vicente
A cidade e suas luzes
Estava em San Vicente
As mulheres e os homens
Coração americano
Um sabor de vidro e corte

Unhnhnhnh...
As horas não se contavam
E o que era negro anoiteceu
Enquanto se esperava
Eu estava em San Vicente
Enquanto acontecia
Eu estava em San Vicente
Coração americano
Um sabor de vidro e corte

Lararararairai...

Johann Pachelbel, "Canon in D Major"


(versão de 1h de duração)

quinta-feira, agosto 20, 2015

criação e revolta


Comemorando a reestreia hoje, no Espaço Itaú da Augusta (meu eterno "espaço Unibanco"), de La Dolce Vita,  vamos a mais um recorte da entrevista de Fellini a Pettigrew. Vimos, no post anterior, o genial cineasta falar da importância de pressões, por exemplo a de um contrato de trabalho, para que seus projetos deslanchassem. Fellini naquele contexto enfatizava a necessidade não de obedecer por obedecer, mas de vivenciar a criação como uma espécie de batalha, ou jogo, que por definição são atividades calcadas no conflito, no enfrentamento de vontades opostas à nossa. 
No trecho de hoje, vemos esse aspecto se esclarecer. Aqui Fellini nos dá indicações preciosas do quão Albert Camus acerta ao apontar no âmago do homem, em especial quando artista (inclusive o artista do viver, todo homem que faça da vida uma obra de arte), a dimensão da revolta. Contestação. Assentimento com a vida, mas recusa do que, na vida, a nega, vida ascendente contra a vida meramente dada, contra a inércia estranha ao élan criador. Não se cria quem é satisfeito. Nem Deus suportava o tédio da solidão, por isso se "revoltou" e criou. Que diremos então de nós, pobres mortais, com anseios tão vastos para tão pouco tempo que nos é dado, e com a pulsão de fazer arte porque a vida não basta (Ferreira Gullar)? 
Por isso Fellini pode explicitar em palavras, pelo que vemos a seguir, o que tão bem "pensa por imagens" na sala escura de seu universo fílmico do sonho, da memória, do êxtase de trapacear com os limites acanhados da cinzenta atitude realista da qual, em termos estéticos, ele partiu e com a qual rompeu, graças ao princípio de um realismo mágico que quebrou as tábuas do cânone estabelecido por  Rossellini em "Roma, Città Aperta" (1944-5): 
"O artista é fundamentalmente um transgressor. Ele pode ser também um revolucionário, mas psicologicamente o artista tem uma necessidade infantil de transgredir. Para isso, basta os pais, um padre, a polícia e um entrevistador. Um ser criativo tem necessidade de se exprimir através de um ato de transgressão para fazer ruir a violência da tradição, do que está consolidado, dos costumes que sufocam, porque, daí em diante, está tudo ultrapassado". 
Fellini sugere que, antes de ideologias revolucionárias, o que move um artista é uma vontade mais arcaica, infantil, de transgredir. Grandes reacionários políticos como Nelson Rodrigues faziam com a mão esquerda, a do gênio artístico, o que a mão direita de suas personas sociais não podiam se permitir. É a criança esquerdista, ou melhor, anarquista, a nos espicaçar contra a seriedade risível das autoridades e verdades estabelecidas. 
A criação envolve violência, ou melhor, como diriam os revolucionários políticos, uma contra-violência, resposta à opressão inscrita na própria "normalidade"prévia. Reparem que as forças dominantes gostam de lamentar quando os oprimidos as desacatam: tá vendo, isso é coisa desses intelectuais que envenenaram a massa com discursos de ódio, de "nós contra eles" etc. Ora, minha gente, que pacifismo ingênuo, hein? Antes da revolta estava tudo na santa paz, sim, mas para os interesses da injustiça. A revolta, isto é, a criação (não a acomodação interesseira e corrupta aos esquemas pré-estabelecidos), exprime, na alma e nas sociedades, esse grande NÃO. Estava tudo errado, ou melhor, passou a estar, pelo meu ato instituidor do novo.

quarta-feira, agosto 19, 2015

curso sobre a poética do mito


Caros, acaba de ser aprovada pela comissão do departamento a programação do curso sobre mitos e filosofia, que darei na USP em novembro. A proposta básica é a seguinte, sintam-se todos convidados, incitados, excitados a compartilhar dessa viagem! Emoticon grin
FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS / FFLCH
Depto. de Filosofia
curso de difusão
Prof. Dr. CAIO LIUDVIK CARAMICO SOARES
Título do curso: A poética do mito no existencialismo e na psicologia profunda

 04, 11, 18 e 25 de novembro – (Quartas-feiras) da 14 às 16 horas.
I – Objetivos: Apresentar e discutir, em leituras específicas de obras de Sartre, Camus, Jung e Mircea Eliade, o fenômeno da revalorização, na virada do século XX, dos
mitos antigos como chave moderna de reflexão crítica sobre a natureza metafísica e histórica do homem.
Para autores como o crítico literário russo E. M. Mielietínski, uma dos sintomas da crise da civilização burguesa no início do século XX foi a revalorização, na filosofia, literatura, crítica literária, psicologia profunda-como também na política, vide as correntes nazisfascistas- de arquétipos, ou mitos de fundação, ancorados na ancestralidade pré-moderna. A poética do mito, ou remitologização moderna, em desdobramento radicalizador de aspectos do romantismo alemão, teve entre seus maiores representantes nomes como James Joyce, Kafka, Thomas Mann, Carl Gustav Jung e Mircea Eliade. Queremos oferecer ferramentas para uma maior compreensão da mitofilia moderna, na diversidade de seus meandros simbólicos e efeitos éticos e políticos, a partir de algumas obras específicas: a peça de Sartre “As Moscas”, os ensaios de Camus “O Mito de Sísifo” e “O Homem Revoltado” e a retomada psicológica por Jung do mito como forma de expressão do inconsciente coletivo.
.
II – Conteúdo
1. Apresentação das noções de poética do mito e remitologização moderna segundo E. M. Mielietísnki e Mircea Eliade
2. .Análise da peça “As Moscas”, de Sartre, em confronto com o mito de Orestes em Ésquilo e Sófocles
3. Análise do ensaio “O Mito de Sísifo”, de Camus, articulando a figura de Sísifo a outros arquétipos do homem absurdo segundo o pensador franco-argelino, como o Sedutor, o Conquistador e o Romancista.
4. Segundo momento de análise do ensaio “O Mito de Sísifo”, de Camus, esboçando elos conceituais com “O Homem Revoltado”, do mesmo autor, e de ambos os textos camusianos com a problemática mítico-religiosa na psicologia de Jung
III - Métodos Utilizados Aulas expositivas, análise de documentos, utilização de Data Show e discussão de textos sobre as obras que serão estudadas.
IV – Atividades Discentes Leitura dos textos, participação nas discussões. 

V– Critérios de Avaliação Participação nas aulas, presença em 85% das aulas.