sexta-feira, julho 31, 2015

o poder da outrospecção



Para quem puder acompanhar o texto inglês (muito facilitado pelos desenhos, aliás graciosos), esse é um material muito interessante sobre o valor da empatia ou "outrospecção" , em analogia e contraponto à introspecção tão em alta na cultura narcisista da modernidade. Sem renegar a importância do conhecimento e do cuidado de si, que remontam a Sócrates e permeiam o florescimento de tantas psicoterapias e fórmulas de auto-ajuda, parece impossível seguir ignorando o quanto a  própria felicidade pessoal se articula dialeticamente com  o bem-estar do outro e do Todo,  em tempos de globalização, hiperpovoamento dos espaços e ampliação de elos e chances para a paixão comunicativa (permitam-me o gracejo com o conceito de razão comunicativa de Habermas). Consciência de que cada um é um  um oceano, um universo, mas ninguém é uma ilha. Importância da arte de se pôr no lugar do outro, em particular das criaturas mais vulneráveis, seja o idoso, o deficiente, o órfão ou o leão ameaçado pela crueldade de outros animais.

terça-feira, julho 28, 2015

o elo perdido


Tenho lido sobre a psicologia positiva, um movimento que se levantou, no fim dos anos 90, contra a avalanche de teorias e métodos de tratamento da alma que, da psiquiatria quimioterápica à psicanálise verborrágica,  se fixam na exploração do que os humanos têm de mau, obscuro, "defeituoso", doentio. 
Era preciso - e não por acaso esse movimento nasce nos EUA,  terra de Emerson, pai da filosofia da autoconfiança, do pragmatismo de James, do self-made man, do equilíbrio das paixões individualista e patriótica mais avançado- reequilibrar essa visão negativista, maníaca do que vai mal nas pessoas e nas sociedades, com o que vai ou poderia ir bem: nossos potenciais, qualidades, capacidades de que a alma se engravida na noite de núpcias com sua natureza desreprimida, desbloqueada, desimpedida não só das neuroses, mas das teorias (como certa psicanálise) que querem nos aprisionar em narrativas neuróticas e castradoras do que é a vida sensata (certa psicanálise faz da castração um ideal, da "falta" um remendo secular para o velho dogma do pecado original) .
Pois bem, nesse contexto deparei com uma reportagem encantadora sobre um episódio de atraso e cancelamento generalizado de voos no Aeroporto Internacional da Filadélfia. Tinha tudo para ser um inferno, mas vejam do que os humanos são capazes, mesmo (ou talvez sobretudo) nas situações extremas, quando cai a máscara da besta e volta à luz o rosto que tínhamos antes de nascer:
"(...) quando um soldado recém-chegado do Iraque deu-se conta de que havia perdido a aliança de sua namorada, os funcionários do aeroporto e todos nós que estávamos no saguão de espera imediatamente começamos a procurar. Em pouco tempo, o anel foi encontrado, e se ouviu um grito de alegria da multidão. (...) Alguns tiraram coisas de comer que haviam guardado nas bolsas e ofereceram esses tesouros aos outros. Apareceram baralhos, e vários jogos tiveram início. As companhias aéreas distribuíram lanches. Havia explosões de gargalhadas. Como se fôssemos soldados esperando nas trincheiras durante um momento de calma entre batalhas, alguém ao longe começou a tocar uma gaita. (...) Embora não houvesse lugares para todos se sentarem, as pessoas usaram a criatividade para fazer cadeiras e sofás com suas bagagens (jogaram videogames umas com as outras). Um cara até transformou a tela do seu em um dispositivo semelhante a um drive-in, no qual várias pessoas assistiram ao filme Matriz. Eu usei o meu notebook para escrever esta coluna. (...) Quando bradar, gritar, ficar com raiva, incomodar-se e perder a cabeça parecem estar próximos, é maravilhoso, em lugar disso, ver a beleza aconchegante das pessoas, como raios de sol em um dia frio".

domingo, julho 26, 2015

Resenhas para a Folha de S. Paulo, 25/07/15


Guia da Folha- Livros, Discos, Filmes
Caio Liudvik

Barbárie e redenção

“O mundo está repleto da cólera dos imbecis. Em sua cólera, a ideia da redenção os corrói, pois constitui o fundo de toda esperança humana.”  Podemos medir, por insights fulminantes como este , o quanto “Os Grandes Cemitérios sob a Lua” (1938), de Georges Bernanos, vai além do sanguinário episódio pontual que o parteja –as atrocidades da Guerra Civil Espanhola, ensaio geral da Segunda Guerra Mundial.
É um libelo atemporal contra o inferno de opressão e morte que trai (isto é,  revela, ao invés de atraiçoar, como querem crer os eternos militantes que não dão o braço a torcer ) a verdade profunda dos paraísos terrestres das ideologias totalitárias, à direita ou à esquerda.  
O católico Bernanos, testemunha ocular da barbárie espanhola quando morava em Maiorca, denuncia o escândalo do apoio da Igreja nacional ao terror franquista -que ela legitimou com o simbolismo de uma “cruzada” contra os comunistas. Tal pacto o fere em especial porque põe de joelhos ante a Babilônia histórica aquela que seria a principal força profética de resistência aos horrores do mundo moderno.
Bernanos vê na fé cristã, e na dignidade e liberdade radicais que ela confere, o baluarte transcendente para que a genuína esperança de redenção   não se degrade na cólera dos imbecis que urram e esmurram por um “mundo melhor”.
 A ira de setores da direita francesa, que o acusavam de renegar a militância pró-monarquista dos tempos de juventude ,   acirrou o desalento de Bernanos com os rumos da Europa. O anseio de um recomeço pessoal e civilizatório fez do Brasil sua nova casa entre 1938 e 1945, como mostra Sébastien Lapaque em  “Sob o Sol do Exílio”. O livro relata a  vivência de Bernanos no Rio de Janeiro e interior de Minas Gerais, as amizades com nomes como Juscelino Kubitschek e Alceu Amoroso Lima e seu entusiasmo (na contramão dos ódios que devastavam o mundo)  pela alquimia brasileira  das raças em torno de um ideário generoso e pluralista de nação.


AVALIAÇÃO  
ÓTIMO; ÓTIMO

PENSADORES MODERNOS
Entre os estudiosos do chamado mitologismo  moderno (o ressurgimento em pleno século 20 do interesse estético, filosófico e psicológico pelas formas arcaicas do discurso e da mentalidade religiosa), é célebre o elogio que Thomas Mann faz ao mito. Na “vida da humanidade”, diz ele, o mítico representa “um estágio anterior e primitivo, mas na vida do indivíduo, um estágio posterior, de maturidade”. 
O preceito, posto em prática por Mann em clássicos como “A Montanha Mágica”, consta num dos magníficos ensaios desta coletânea, dedicada à linhagem intelectual que vai do romantismo de Schopenhauer e Wagner à psicanálise de Freud, na qual ele vê a concretização por excelência de uma dialética antecipada por Nietzsche (o quarto autor destas reflexões): a expansão revolucionária, emancipatória, dos poderes da razão, da liberdade  e do progresso passando pelo “regresso” às fontes primevas e coletivas da consciência e da vida, as potências ctônicas, noturnas e irracionais com as quais, de modo reacionário e deturpado, o nazisfascismo tentava então seduzir as massas.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

O RETRATO
Como diz Antonio Paim no prefácio desta reedição, o livro do jornalista e escritor Osvaldo Peralva (1918-1992)  é de grande importância no atual contexto de acirramento das disputas ideológicas no Brasil. Peralva narra sua trajetória e desilusões  junto à cúpula do Partido Comunista brasileiro, de que chegou a ser representante em Moscou a partir de 1953. Sob o impacto do bombástico relatório por Krushev dos crimes de Stálin,  o livro expõe desde as entranhas as hierarquias rígidas (os iguais mais iguais entre os “companheiros”), a   lógica autoritária, persecutória e de culto à personalidade vigentes na “pátria do proletariado”, e constrói  retratos devastadores da “maior fraude política da história do Brasil”,  o PCB, e de líderes como  Luís Carlos Prestes e Mariguella.  Nem por isso, porém Peralva renunciou aos sonhos de um socialismo democrático, para o qual considera estar contribuindo ao dissociá-lo da via bolchevique de tradução do ideário de Karl Marx.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

A ESTETIZAÇÃO DO MUNDO
Em co-autoria com Jean Serroy, o filósofo Gilles Lipovetsky  -já chamado de “elétron livre” por sua posição ambivalente face à cultura “hipermoderna”, à diferença dos apocalípticos e integrados – estuda aqui o que chama de o novo “capitalismo artista”, que faz do apelo estético dimensão crucial na batalha pelos corações, mentes e bolsos dos consumidores.
 Não mais centrado na produção material, como em sua etapa fordista, o sistema tende a diluir as fronteiras modernistas entre a arte “comercial” e de vanguarda, da qual coopta as utopias iconoclastas e a exaltação do belo que transgride o meramente utilitário.
Não por acaso o livro toma como grande símbolo do contemporâneo a figura de Steve Jobs, com seu mantra (metáfora oriental que vem a calhar no caso do iniciado zen e mochileiro na Índia que foi o fundador da Apple) do “pense diferente” e sua preocupação estética indissociável da  inovação tecnológica.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

sábado, julho 25, 2015

Joyce Janathan, "Ça Ira"

Dis-moi que si tu es là ce n'est pas juste pour mes jolis yeux
Dis-moi qu'au delà de ça y a d'autres raisons
qui te rendent heureux
Dis-moi si tu aimes biens bien nos paresses
et nos matins d'amoureux
Dis-moi que c'est un début mais que tu vois déjà la suite à deux
Dis-moi que je suis la seule que tu n'aies jamais autant désirée
Je n'ai pas de rendez vous, plus de rencard
que j'ai envie d'accepter
Avec toi c'est évident je suis prête à oublier mon passé
J'ai toujours aimé charmer mais peu importe
qu'il n'y a qu'à toi que je plais

Moi je me dis que c'est toi
Et je sais que tu y crois
Tu es celui qui rythme mes bonheurs
Qui rythme mes humeurs
Juste comme ça
Et je me dis que c'est toi
Et pour la toute première fois
Pardonne moi mes doutes et mes colères
Le temps fera l'affaire
Et toi et moi
Oh ça ira

J'aime les airs assurés que tu empruntes
aux plus beaux monuments
Ton regard doux comme un secret
tes caresses aux limites de l'indécent
Tu comprends tous mes silences chacun
de mes petits moments d'absence
Si je vais au paradis j'suis pas sur de voir la différence

Moi je me dis que c'est toi
Et je sais que tu y crois
Tu es celui qui rythme mes bonheurs
Qui rythme mes humeurs
Juste comme ça
Et je me dis que c'est toi
Et pour la toute première fois
Pardonne moi mes doutes et mes colères
Le temps fera l'affaire
Et toi et moi

Je me dis prenons des risques et de toute façon c'est trop tard
Au pire on aura des souvenirs des jolis moments dans les tiroirs
J'ai peur de ta gentillesse elle promet tant de bonheur
Oh tu sais j'ai peur

Je me dis que c'est toi
Et je sais que tu y crois
Tu es celui qui rythme mes bonheurs
Qui rythme mes humeurs
Juste comme ça
Et je me dis que c'est toi
Et pour la toute première fois
Pardonne moi mes doutes et mes colères
Le temps fera l'affaire
Et toi et moi
Oh ça ira

Je me dis que c'est toi
ça ira
Je sais que tu y crois
Oh ça ira
Et toi et moi juste comme ça
Je me dis que c'est toi
Je sais que tu y crois
Et toi et moi juste comme ça

sábado, julho 18, 2015

deixar brilhar a luz





"This Little Light Of Mine"


This little light of mine, I'm gonna let it shine.
This little light of mine, I'm gonna let it shine.
This little light of mine, I'm gonna let it shine.
Every day, every day, every day, every way,
Gonna let my little light shine.
Light that shines is the light of love,
Hides the darkness from above,
Shines on me and it shines on you,
Shows you what the power of love can do.
Shine my light both bright and clear,
Shine my light both far and near,
In every dark corner that I find,
Let my little light shine.

This little light of mine, I'm gonna let it shine.
This little light of mine, I'm gonna let it shine.
This little light of mine, I'm gonna let it shine.

.Monday gave me the gift of love,
Tuesday peace came from above,
Wednesday told me to have more faith,
Thursday gave me a little more grace,
Friday told me to watch and pray,
Saturday told me just what to say,
Sunday gave me the power divine
To let my little light shine.

This little light of mine, I'm gonna let it shine.
This little light of mine, I'm gonna let it shine.
This little light of mine, I'm gonna let it shine.

This little light of mine, I'm gonna let it shine.
This little light of mine, I'm gonna let it shine.
This little light of mine, I'm gonna let it shine.

Shine, shine, shine, shine, shine.


Christina Ricci, contracenando com Samuel L. Jackson, canta "This Little Light of Mine" em "Black Snake Moan" (Entre o Céu e o Inferno, 2007)


"Quanto àqueles que, advertidos a se relembrarem de si, convertem-se ao Senhor, de disformes que eram pelas paixões mundanas, são eles reformados pelo Senhor tendo atendido ao Apóstolo que diz: Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente (Rm 12, 2), a fim de que aquela imagem [a imago Dei na alma humana] comece a ser restaurada por quem a formou. Com efeito, ela não pode restaurar-se a si mesma, como pôde deformar-se a si mesma".
SANTO AGOSTINHO,
A TRINDADE

terça-feira, julho 14, 2015

Velvet Underground, "I' m sticking with you"

I'm Sticking With You 

I'm sticking with you
'Cos I'm made out of glue
Anything that you might do
I'm gonna do too

You held up a stage coach in the rain
And I'm doing the same
Saw you're hanging from a tree
And I made believe it was me

I'm sticking with you
'Cos I'm made out of glue
Anything that you might do
I'm gonna do too

Some people go into the stratosphere
Soldiers fighting with the Cong

But with you by my side I can do anything
When we swing
We hang past right or wrong

I'll do anything for you
Anything you want me too
I'll do anything for you
Oohoh I'm sticking with you
Oohoh I'm sticking with you
Oohoh I'm sticking with you

domingo, julho 05, 2015

Raul Fernando, Yearning


"Malaposta, 17.07.2011 // O mundo inteiro está carente de paixão. Por todo o lado existem olhos baços. Corpos pouco ousados. Corações que deixam de bater acelerados. Já ninguém se apaixona de verdade. Ganhou-se o medo. "Não serás dor, porque és prazer. Não serás culpa, porque és vida. Não serás certeza, porque és abismo."
(texto que acompanha o vídeo no youtube)

sexta-feira, julho 03, 2015

a dor e a pérola



Amigos, quero oferecer pra vossa meditação essas palavras de Schopenhauer sobre a dupla estratégia de lidar com um infortúnio. Por um lado, quando o mal independe de nós, evitar ruminações mentais sobre "se" isso, "se" aquilo, ou seja, tomar a decisão de ver no fato ocorrido a expressão da vontade do destino. Curioso que Schopenhauer aqui não diz que isso se deu assim, que tudo está programado de antemão para acontecer como tinha que acontecer. Ele apenas recomenda esse pensamento como forma de "aceita que dói menos", autoproteção, uma decisão pragmática, estratégia mesmo, no sentido dos generais em combate - o "inimigo", no nosso caso, é o desconhecido, esse "X" enigmático, a vida, tela de sombras e ruídos a que a mente impõe sua própria tecla SAP,de formas e sentidos, suas opções de interpretação, transformando a sucessão pura dos acontecimentos em obra do acaso, de nexos de causa e efeito racionais, de um soberano divino, tudo isso, ou nada disso. Mas, no caso de desastres nos quais vemos claramente a nossa omissão ou incompetência como causa, o filósofo não passa a mão na nossa cabeça, não prega o conformismo preguiçoso, ao contrário, aqui vale a pena a reflexão crítica sobre nossos erros, sobre como tudo poderia ter sido diferente se agíssemos assim ou assado, enfim, sobre a contingência. Ou seja, nosso "filosofar" cotidiano (filosofia não é monopólio dos afetados do eruditismo) precisa ser aberto, múltiplo, flexível, de acordo com o tipo de fenômenos sobre os quais se debruça. 
Falando em debruçar, essa linda imagem (do artista George Clausen) vale também nossa 're-flexão'.. Notem como, para além da expressão de dor, há um dobrar-se sobre si mesmo, a formação de uma espécie de concha.
Uma pérola poderá dali nascer: a sabedoria que transforma a vida, incubada pela meditação intensiva sobre o sofrimento deste instante passageiro, seja admitindo o poder de fatalidade (termo parente do "fato") do que nos escapa ao controle, seja remoendo as culpas pelo que fizemos de errado. Não remoer por remoer, mas moer para amassar e remoldar numa decisão e numa energia de não repetir. Este corpo em forma de círculo configura um mandala, termo hoje na moda por conta da febre de livros de mandalas para colorir. Mandala, círculo mágico, é um conceito que Jung trouxe do Oriente e teorizou como sendo uma forma que o inconsciente encontra de formular seu processo de reestruturação, recentralização, cura de traumas, demarcação de um espaço interno sadio, um "aqui você (o lixo, o inferno, o caos) não entra. Concha, mãe de uma nova pérola. Emoticon wink
A cruz ao lado da menina remete, claro, à dor da morte. Mas junguianamente porta um sentido de quaternidade integradora, é parte da ideia mesma de mandala, que assimila inclusive o mal e o supera. Por isso o diabo foge da cruz: por ver que foi engolido por ela (a quaternidade é arquétipo dessa inteireza que não cinde mais o bem e o mal) e nesse sentido "vencido", como símbolo da morte e viático de ressurreição.

-Unzuhause-


Em presença de um acontecimento desgraçado já ocorrido, no qual, por conseguinte, não se pode mudar nada, não devemos nos abandonar à ideia de que poderia ser de outro modo; menos ainda refletir sobre o que poderia ter sido feito para que fosse diferente. Porque isso simplesmente intensifica a dor até o ponto em que se torna insuportável, e assim nos tornamos ἑαυτοντιμορούμενος [aquele que atormenta a si próprio]. Pelo contrário, deveríamos seguir o exemplo do rei Davi que, durante a enfermidade de seu filho, assediava Jeová sem descanso com suas orações e suas súplicas; mas, quando seu filho morreu, estalou os dedos e nunca mais pensou nisso. Aquele que não é bastante leve de espírito para conduzir-se dessa maneira deve refugiar-se no fatalismo e convencer-se da verdade de que tudo que ocorre, ocorre necessariamente e, portanto, inevitavelmente.
Não obstante, essa regra só tem valor em um sentido. Em um caso de infortúnio, é útil para nos proporcionar alívio e consolo imediatos; porém, quando, como acontece muitas vezes, a culpa é de nossa própria negligência ou irreflexão, então a meditação repetida e dolorosa dos meios que poderiam ter impedido o acontecimento é uma autodisciplina saudável que nos serve como lição e aprendizado, isto é, para o futuro. Não devemos tentar desculpar, atenuar ou diminuir as faltas de que somos evidentemente responsáveis, mas confessá-las e trazê-las claramente ante nossos olhos em toda a sua extensão a fim de tomar a firme decisão de evitá-las futuramente. Temos, é verdade, de nos infligir o doloroso sentimento do descontentamento de si mesmos; entretanto, o homem não castigado, não aprende.
-Arthur Schopenhauer-