terça-feira, maio 26, 2015

Oração da Humildade


Oração da Humildade,
por Santa Teresinha do Menino Jesus


Ó Jesus, estando Vós sobre a terra, dissestes:
"Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração,
e achareis descanso para a vossa alma". 

Ó poderoso Monarca dos Céus,
a minha alma acha o seu repouso contemplando-vos
revestido das aparências e da natureza de escravo,
abaixando-vos até lavar os pés aos vossos discípulos.

Recordo, ó Jesus, as palavras que,
para me ensinardes a humildade,
pronunciastes nessa ocasião:
"Eu vos dei o exemplo, para que, assim como
eu vos fiz, assim vós também façais.
Não é o discípulo maior do que o seu mestre...
Se sabeis estas coisas, bem-aventurados se as praticardes".

Senhor, eu compreendo estas palavras saídas do vosso coração,
manso e humilde, e quero praticá-las, ajudada pela vossa divina graça.
Quero humilhar-me e sujeitar a minha vontade à de minhas irmãzinhas,
sem nunca contradizê-las, sem investigar se têm ou não sobre mim direito de mandar.

Ninguém, meu Deus, tinha este direito sobre Vós,
e todavia obedecestes, não só à Santíssima Virgem e a São José,
mas até aos Vossos algozes!
E na Santa Eucaristia, pondes o cúmulo ao Vosso aniquilamento.

Com que humildade, ó Divino Rei da glória, obedeceis a todos os sacerdotes,
fervorosos ou tíbios no Vosso divino serviço!
Eles podem apressar ou retardar a hora do sacrifício,
e Vós estais sempre pronto a descer do Céu.
Ó meu bom Jesus, como Vos mostrais
manso e humilde debaixo do véu da hóstia imaculada!

Ah! não poderíeis vos humilhar demais para me ensinar a humildade!
Para corresponder, pois, ao vosso amor,
quero colocar-me no último lugar e partilhar Convosco as humilhações,
a fim de ter parte convosco no reino dos Céus.

Suplico-vos, Divino Jesus, me mandeis uma humilhação
toda vez que ousar elevar-me sobre os outros.
Mas oh! como sou fraca; de manhã proponho ser humilde,
e à noite reconheço ter pecado por orgulho.
Vendo-me tal, sou tentada a desanimar,
mas sei que também o desânimo é orgulho.
Portanto, quero fundar a minha esperança somente em Vós, meu Deus.

E já que Vós sois todo poderoso,
concedei-me esta virtude, muito desejada.
E para que eu seja atendida, repetirei:
"Jesus, manso e humilde de coração,
fazei o meu coração semelhante ao vosso!"

sábado, maio 23, 2015

Pe. Fábio de Melo, Tudo é do Pai


Tudo é do Pai
-Pe. Fábio de Melo-
Eu pensei que podia viver, por mim mesmo
Eu pensei que as coisas do mundo
Não iriam me derrubar
O orgulho tomou conta do meu ser
E o pecado devastou o meu viver
Fui embora, disse ao Pai, dá-me o que é meu!
Dá-me a parte que me cabe da herança
Fui pro mundo
Gastei tudo
Me restou só o pecado
Hoje eu sei que nada é meu
Tudo é do Pai
(refrão)
Tudo é do Pai
Toda honra e toda glória
É dele a vitória
Alcançada em minha vida
Tudo é do Pai
Se sou fraco e pecador
Bem mais forte é o meu Senhor
Que me cura por amor. (bis)

segunda-feira, maio 18, 2015

bálsamos da guerra espiritual


Meu primeiro contato de hoje com o mundo exterior veio da televisão ligada que acompanhou o sono e, por ela, com o restinho da missa na Praça de São Pedro, em Roma; em seguida, ecumenicamente, troquei de canal e topei com o clipe evangélico da linda música "Soldado Ferido". O entrelaçamento de espiritualidade e símbolos bélicos ressurgiu mais à noite, topando com um livro de Swami (título similar ao de "padre" ou "pastor") Kyiananda, Desmistificando os Yoga Sutras de Patanjali

O swami, discípulo direto de Yogananda, trata em dado momento da ligação da filosofia do Yoga  com o "evangelho" hindu, Bhagavad Gita, narrativa alegórica de uma luta que, em chave esotérica, não se dá "contra a carne e sangue" - uso aqui da expressão paulina que também desloca para o nível espiritual o confronto entre Bem e Mal que os inimigos da humanidade teimam em literalizar em seus ódios fanáticos e passaportes sangrentos para haréns no paraíso. 
A guerra retratada no épico indiano, diz o livro em questão, "consiste numa luta entre tendências da natureza humana que nos impelem para cima ou para baixo. Quando somos arrastados em ambas as direções, ficamos interiormente divididos e jamais encontramos a paz. Se quisermos encontrar Deus, precisamos dirigir nossas tendências para uma direção só. Sigmund Freud aconselhava seus pacientes a ceder às tendências inferiores, sobretudo o instinto sexual". Por ora evitarei considerações intelectualistas acerca do mérito desta declaração polêmica, eco da condenação de senso comum ao "pansexualismo" da psicanálise, que ignora o valor, em Freud, da noção de sublimação como uma espécie de "transcendência" profana do instinto cego, não só do sexo como o de matar e morrer.
 Sigamos para outro trecho esclarecedor da dimensão "militar" do yogue, aliás termo cujo uso banalizado, hoje em dia, impede de ver que se trata de um título e conquista, algo como "campeão" dentre os competidores, um estágio desenvolvido do "opus" de metamorfose do ego, agora cabeça a coroada pelos louros  da divindade.  O bálsamo curador que a linda música cristã pede que desça sobre as dores do soldado ferido. 
"Yoga [união do devoto com a divindade, que para os cristãos se almeja especialmente pelo veículo da oração] significa, pois, a prática graças à qual acalma os esses vórtices do sentimento [turbilhões da raiva, cobiça, medo, vaidade]. Os sentimentos formam os redemoinhos de desejos e apegos que atraímos para nós com o pensamento: 'Eu quero isto. É isto que me define. Eu sou isto! (...). 
Meu guru me disse certa vez: 'Todos os desejos têm de ser neutralizados'. Todos? ', perguntei. 'Até os insignificantes, como o de tomar um sorvete?'
'Oh, sim!', confirmou enfaticamente.
Mas, em outra ocasião, pedi-lhe que me ajudasse a superar o apego à comida. 'Não se preocupe com essas bagatelas', replicou ele como firmeza. 'Quando o êxtase vem, o resto vai'.
O importante, em outras palavras, não é a pessoa se concentrar de modo negativo em todos os desejos e apegos que tem de superar (só deve se concentrar nos grandes), mas sim devotar-se inteiramente a Deus. Assim como um rio caudaloso arrasta tudo com a força de sua corrente, a devoção intensa impulsionará cada desejo insignificante para cima, na direção do cérebro.
Podemos, pois, definir o yoga como a conquista de todos os desejos e apegos. A energia então liberada sobe diretamente para Deus. 
O ensinamento do Bhagavad Gita (...) é este: na batalha entre nossa natureza superior e nossa natureza inferior [na mitologia ocidental, Satanás, pai da mentira e "príncipe deste mundo", o da materialidade densa, desejos desordenados e ilusões aprisionadoras], as emoções negativas não são aniquiladas, são apenas transformadas em sentimentos positivos -amor, entusiasmo pela verdade e solidariedade".

sexta-feira, maio 01, 2015

Nietzsche na Itália (III) - o pessimismo da força


Vejamos mais alguns apontamentos, segundo o livro de Paolo d' Iorio, de Malwida von Meysenburg sobre a viagem de Nietzsche ao sul da Itália em 1876, quando se dá a ruptura com a fase "wagneriana" (inclusive a última vez que Nietzsche e Wagner se falaram foi em Sorrento, nesse período), universitária, e a conversão positivista, primeira roupagem de sua madura filosofia do espírito livre, que toma a forma de aforismos. 
"Em Sorrento [mais exatamente, na pensãozinha de Villa Rubinacci (foto acima)] nossa vida se organizou muito confortavelmente. De manhã, nunca estávamos juntos; cada um se entregava em total liberdade às suas próprias ocupações. A refeição do meio-dia era a primeira a nos reunir, e de vez em quando fazíamos juntos, à tarde, um passeio pelos arredores, entre os jardins de laranjeiras e limoeiros, tão altos quanto nossas macieiras e nossas pereiras e cujos ramos, carregados de frutos dourados, se inclinavam por cima das cercas e sombreavam o caminho; ou então subíamos ladeiras suaves e passávamos perto de sítios de meeiros onde alegres grupos de lindas jovens dançavam a tarantela; não a tarantela ensaiada, dançada nos hotéis, para os estrangeiros, por bandos de senhoritas muito bem-trajadas, mas a dança rústica impregnada de uma graça natural e casta. Com frequência partíamos para excursões mais distantes, montados em jumentos que por ali são reservados para os caminhos montanhosos. (...) À noite, o jantar nos reunia de novo, e depois no salão, para leituras em comum acompanhadas de conversas animadas". 



Apollon Mokritsky, "Italianas dançando tarantela" (1846)


Malwida nos diz ainda: "Quando estamos assim reunidos à noite, Nietzsche confortavelmente sentado na poltrona, com seus óculos sobre o nariz, o dr. Rée, nosso amável leitor, à mesa onde arde a lamparina o jovem Brenner perto da lareira, ao meu lado, e me ajudando a descascar laranjas para o jantar, então muitas vezes eu digo brincando: 'Nós representamos verdadeiramente uma família ideal; quatro pessoas que antes mal se conheciam, que não têm vínculo de parentesco nem lembranças comuns, e que agora, na mais perfeita harmonia e sem incomodar a liberdade de cada um, levam uma vida juntos, satisfatória tanto do ponto de vista intelectual quanto do conforto pessoal'".

Quanto ao cardápio das leituras, abrangiam desde Tucídides, Platão e o Novo Testamento até Goethe, Diderot e Voltaire, cuja memória Nietzsche celebra na dedicatória de Humano, Demasiado Humano (1878), obra imediatamente posterior à vivência sorrentina, impregnada desta e dos escárnios iluministas do autor de Candide contra as superstições morais e religiosas. Mas os serões no "convento" da Villa Rubinacci eram dedicados sobretudo a um caderno manuscrito com anotações feitas por um aluno de Nietzsche, Louis Kelterborn, durante o curso sobre civilização grega dado pelo célebre historiador Jacob Burckhardt, colega de Nietzsche na Universidade de Basileia. Malwida conta que a leitura das notas se alternava com explicações orais de Nietzsche, e "certamente jamais houve como aqui uma exposição mais magnífica e mais completa sobre essa bela época da humanidade, ao mesmo tempo por escrito e oralmente através desses dois dos maiores conhecedores da Antiguidade grega". 
Tiveram então a oportunidade de se debruçar sobre uma definição da grecidade que antecipa o lema gramsciano do "pessimismo da inteligência e otimismo da vontade" .
 Grecidade -faço uma parênteses para pormenores de tradução-, aliás, é melhor opção para Griechentum do que o "helenismo" de J. Guinsburg em O Nascimento da Tragédia, conceito que designa uma época histórica específica, não só distinta mas, em grande parte, antípoda do que nesse livro Nietzsche exaltava como essência grega). E a "grecidade" se definia, nas palavras de Malwida, como "pessimismo da concepção de mundo e otimismo do temperamento" - ou, na nota que leram e que Nietzsche comentou: "A religião e a reflexão eram pessimistas, mas o temperamento era otimista; daí a enorme produtividade... O povo era alimentado por forças elásticas, daí seu temperamento vivaz e otimista, que o incitava continuamente a novos empreendimentos. Mas sua visão da existência era totalmente pessimista". 
Um pessimismo da força, segundo a fórmula de O Nascimento da Tragédia: uma propensão artística e intelectual para o Mal, o sofrimento, o terrível, o doloroso, o monstruoso, mas isso não num estado de espírito prostrado, depressivo, fraco, exausto, "pedindo pra sair" da vida. Pessimismo de heróis em combate, enérgicos, que não só não fogem do sofrimento como até o exigem como adversário digno com o qual vale a pena medir forças e aprimorar as virtudes (poderes) do caráter e a expressão dolorosa mas jubilosa - para além desta antítese, como também daquela entre o bem e o mal-  da vontade cósmica de que o homem deve ser guardião, sim, mas não anjo, antes  guerreiro e bufão e dançarino e espectador de tarantelas, desnudo das virtudes (fraquezas) do santo renunciante do tipo  celebrado pela filosofia de Schopenhauer e musicado pelo Wagner tardio.