quinta-feira, abril 30, 2015

a liberdade re-linchada


Dois filmes em cartaz em SP se juntam ao recente lançamento de "Liberalismo: Antigo e Moderno", de José Guilherme Merquior, como experiências indispensáveis para todo amante da liberdade. 
Ambos os filmes falam de histórias verídicas de resistência individual à "religião política" dos tempos modernos, isto é, a crença totalitária de que um Estado -seja socialista, nazista ou islâmico-, possa nos impor a todos a forma "apropriada" de nos comportarmos, pensarmos, falarmos e calarmos em prol do Bem universal e do Mundo-Verdade que habita nas cabeças dos iluminados, dos Ungidos por Deus ou pela Causa da Raça, da Classe ou do Povo Eleitos. 
"O Dançarino do Deserto" reconstitui com grande beleza a trajetória do bailarino iraniano Afshin Ghaffarian, que literalmente se levanta contra a proibição absurda da dança no país do Aiatolá e da Revolução aclamada por Foucault e esquerdistas caviar que viam tudo à distância -quando muito em rápidas visitas subvencionadas e dirigidas pelos poderosos de que se faziam cúmplices- e dissertavam a respeito nas suas tribunas e cafés confortáveis do  Ocidente opressor. 
Afshin  é embalado, nessa odisseia, pelo espírito subversivo que compartilha com os amigos de faculdade, pelo amor a uma bailarina cuja mãe também dançava, antes da proibição islâmica (que a precipita no desalento e nas drogas), e pelos versos sufis de Rumi sobre o deus que dança em nosso coração - só em um deus que dance sou como Nietzsche capaz de acreditar- inacessível à estupidez da corja estática exterior (os místicos sempre estão no limiar da heresia, indesejáveis para os fanáticos que se arrastam em muletas de certezas irreflexas à falta do vigor flexível das pernas da inspiração). Se entreguem à beleza das imagens (filmadas no Marrocos) do deserto e seu simbolismo profundo, como o da própria dança, como espaço de libertação e purificação (a ascese dos místicos que na amplidão das areias buscavam o sopro divino e o silêncio para além do torpor  da sociedade pútrida).

Outra odisseia de libertação é "A Viagem de Yoani", documentário sobre a visita ao Brasil, em 2013, de Yoani Sanchez, blogueira cubana que alcançou notoriedade mundial ao romper a censura castrista (eita nome que porta em si a própria índole castradora) e denunciar ao mundo, e desde dentro, o regime de terror, penúria e culto à personalidade que só os imbecis brasileiros que a hostilizaram por aqui podem, claro que de longe, como os esquerdistas franceses pró-aiatolá, ainda cultivar como fetiche e monumento mental à imbecilidade fanática. "Fico feliz de estar num país em que haja o direito de ir às ruas e protestar contra o que não nos agrade, quero isso para meu país", repetia, com grande sabedoria, Yoani em reação aos insultos e relinchos dos militantes petralhas -cabe elogio à coragem, embora ingênua, do então senador Suplicy tentando acalmar a turba e fazê-la tolerar a divergência de opiniões, afinal o PT é pelo "socialismo democrático"; sua careca não vai demorar  muito tempo no pescoço  se os jacobinos de seu partido implementarem os reais objetivos revolucionários que por enquanto, muito à brasileira, se traduziram sobretudo em aparelhamento e saqueamento sistemático do Estado "burguês".  
Vejam os olhares e clichês dos comunistas da mortadela que a caçaram, da Bahia a São Paulo, tentando castrar-lhe a voz, senão a vida, e comparem com a "polícia da moralidade" dos iranianos no filme do dançarino do deserto. E leiam depois o clássico de Merquior para entender a nova luz a beleza e urgência da filosofia liberal em suas três grandes dimensões: "anglo-saxã" no quesito dos direitos individuais contra a interferência arbitrária e a servidão coletivista ao Deus Estado (liberdade negativa); francesa no quesito da liberdade de participar dos rumos da pólis (liberdade positiva); e alemã, mais profundamente, na dimensão da "Bildung", da experiência individual de autodesenvolvimento, da vida mesma articulada como romance de formação (Bildungsroman), "viagem", liberdade de expressão, dança, mística herege dos que têm uma fome de viver que não cabe no pão com mortadela, cabresto partidário, idolatria a aiatolás, bolsa-esmola que, sem saúde, sem educação, sem emprego, sem liberdade, sem alternância de poder, não constrói justiça social nem democracia mas colchão para fracassados e paredão e mordaça e re -linchamentos para inconfomistas. 


segunda-feira, abril 27, 2015

Nietzsche na Itália (II)- a trégua das dores

"Il Trionfo della Morte", por Andrea Orcagna;  Pisa, Itália

"Gritei de alegria quando avistei Nietzsche passeando taciturno em seu caminho: 'Sozinho, professor [Nietzsche fora por dez anos professor de filologia em Basileia, renunciando ao cargo e se tornando filósofo viandante justamente em consequência desta temporada na Itália em 1876 (notas entre colchetes by Unzuhause)]? Oh, então venha conosco, estamos fazendo o mesmo roteiro'.
Nietzsche logo aceitou e nós três visitamos o Duomo, o batistério e o campo santo, com aquele humor alegre que havia invadido meus companheiros. Raramente alguém contemplou o juízo final, a obra-prima de Orcagna, em tal estado de espírito. Devo confessar honestamente que vários traços sublimes me escaparam, ao passo que as cenas grotescas, sobretudo dois diabinhos que arrastam um monge gordo para o abismo, não passaram despercebidos.
Na qualidade de crítico da mitologia católica, Nietzsche revelou toda uma nova parte de sua personalidade, brilhantemente zombeteira e sarcástica, radiante. 
Fomos recebidos na estação pelo companheiro de viagem de Nietzsche [Paul Rée, filósofo de grande influência na chamada guinada positivista de Nietzsche entre O Nascimento da Tragédia, impregnada da metafísica romântica de Wagner e Schopenhauer, e a crítica dos valores morais e religiosos em Humano, Demasiado Humano], com quem eu ainda não havia trocado nem duas palavras; ele estava visivelmente de mau humor. Um tanto agitado, puxou-me de lado e me expressou abertamente seu desprazer por me ver colocar Nietzsche, contrariamente aos seus esforços, num estado de excitação e de enervamento prejudicial à sua saúde...
Eu soube então por Rée, o fiel Acates [referência ao troiano lendário que, amigo fiel de Eneias, o acompanha nas viagens da Eneida de Virgílio, inclusive pela Itália], que seu amigo tinha uma absoluta necessidade de calma e de solidão, a fim de controlar uma grave enfermidade nervosa".
[Anotações de viagem por Isabelle von der Pahlen, que Nietzsche conheceu e provavelmente cortejou no trem noturno entre Genebra e Gênova, pelos idos de outubro de 1876]


Joseph Wright of Derby, "A View of Vesuvius from Posillipo, Naples"
"Anteontem, à tardinha, percorri Posillipo [significado em grego: a trégua das dores] de carruagem, com meus três cavalheiros [Nietzsche, Rée e Albert Brenner, estudante da faculdade de direito da Basileia e aluno de Nietzsche]; a luz estava divina, verdadeiramente feérica, o Vesúvio se coroava majestosamente de nuvens de tempestade, e dessa massa de chamas e de sombrios reflexos avermelhados se elevava um arco-íris; a cidade cintilava como se fosse talhada em ouro puro, enquanto, do outro lado, o mar se estendia em seu azul profundo; o céu, coberto de nuvens leves e brilhantes, era de um verde-azul transparente, e as ilhas magníficas se erguiam entre as vagas como num conto de fadas. O espetáculo era tão maravilhoso que os cavalheiros ficaram como que embriagados de êxtase. Eu jamais vi Nietzsche tão animado. Ele ria de alegria".  Ela recorda ainda como a fisionomia do filósofo  "se iluminava de um espanto alegre, quase infantil; como ele era dominado por uma emoção profunda; por fim, explodiu em exclamações de júbilo sobre o sul, que eu saudei como um feliz presságio da eficácia de sua temporada".
[Malwida von Meysebug. amiga de Nietzsche, do círculo íntimo dos Wagner, e organizadora da viagem]

"'Como posso ter suportado viver até agora!', enquanto o veículo rodava por Posillipo - luz do entardecer.
Posillipo e todos esses cegos cujos olhos serão abertos;
Não tenho força suficiente para o norte: lá reinam almas grosseiras e artificiais que trabalham tão assídua e necessariamente na medida da prudência quanto o castor em sua construção [trecho riscado: o norte da Europa está repleto disso]. E pensar que foi entre elas que passei toda a minha juventude! Eis o que me impressionou quando pela primeira vez vi chegar o entardecer com seu vermelho e seu cinza aveludados no céu de Nápoles [trecho riscado: você poderia ter morrido sem ter visto isso] -como um arrepio, como por pena de mim mesmo pelo fato de haver começado minha vida sendo velho, e me vieram lágrimas e o sentimento de ter sido salvo, ainda que no último instante".
[Nietzsche, em anotação de 1881]

in: Paolo d' Iorio, Nietzsche na Itália - A Viagem Que Mudou os Rumos da Filosofia




lo spazio fra noi
-Francesco Melchionda-
" viviamo lo stesso tempo
compiamo identici gesti
respiriamo la stessa aria
e godiamo dello stesso sole

potremmo accarezzarci le ali
e disegnare i nostri corpi affusolati
con un tocco leggero di piuma

ma uno deve rallentare
ed uno accelerare
uno deve voltarsi indietro
ed uno guardare avanti
uno deve aprire il libro
ed uno deve leggere
uno deve toccare
ed uno chiudere gli occhi

e, finalmente, respirare "

Mar Tirreno, 2013

sábado, abril 25, 2015

Resenhas para a Folha, 25/04/2015



FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
textos de CAIO LIUDVIK

DUAS CATEDRAIS

Um “catedralesco mural que descreve a longa e ziguezagueante peregrinação humana em busca da sociedade aberta”. Assim Roberto Campos definia a impressionante proeza do grande ensaísta e diplomata  José Guilherme Merquior (1941-1991), pouco antes da morte precoce, por câncer, neste “O Liberalismo – Antigo e Moderno”
Os frenéticos quatro meses em que Merquior escreveu à mão, em inglês, este painel de três séculos de evolução da filosofia político-econômica liberal não maculam o texto com nenhuma superficialidade ou descuido.
Tampouco se notam as veleidades triunfalistas que a queda do Muro de Berlim e agonia da URSS  poderiam lhe sugerir. 
Craque da polêmica, ele aqui prefere um tom sóbrio, numa exposição que, indo além da ênfase costumeira nos pensadores anglo-saxões, resgata, em afrescos rápidos mas certeiros, os diferentes “liberalismos” (o pluralismo é axioma do próprio credo liberal e marca de seu desenvolvimento histórico), e as contribuições de pensadores como Weber,  Camus e do argentino  Domingo Faustino Sarmiento. Esboça também os traços de um “social-liberalismo”,  conjugação de liberdade, racionalidade de mercado e justiça social, cuja concretização  chegou a esperar do governo Collor.
Também “catedralesco” – até pela  devoção apaixonada  à cultura, que era culto o bastante pra não confundir com verbiagem e vaidade livresca- é outro relançamento, “De Anchieta a Euclides”. Neste livro dos anos 70, Merquior conjuga, em prosa límpida e com a habitual maestria, a contextualização social e histórica com a atenção à autonomia do estético, no estudo da evolução da literatura brasileira até as vésperas da revolução modernista.

AVALIAÇÃO – ÓTIMOS

O CAMINHO POÉTICO DE SANTIAGO 
“Par Deus, / muito levade-lo caminh ‘ errado, / ca se verdade quiserdes achar, / outro caminho  conven a buscar, / ca non saben aqui d’ ela mandado”. 
Assim o poeta Airas Nunes vertia em versos que hoje soam estranhos na letra, mas não no espírito, o anseio universal do homem de encontrar a verdade, e o quanto ela parece distante da sociedade e  “autoridades” de sua época (e da nossa). 
É um exemplo de “cantiga de escárnio e de mal-dizer”, que um dos tipos principais –ao lado das cantigas de amor e de amigo- de poesia trovadoresca medieval. 
Esta belíssima coletânea focaliza o trovadorismo  na lírica galego-portuguesa  (primeira manifestação  literária de nossa língua). São 29 poetas e 55 textos originais, com glossário explicativo e comentário crítico, tendo por eixo temático ) a célebre cidade de Santiago de Compostela, perto da fronteira de  Espanha e Portugal, e palco, ainda hoje, da eterna peregrinação humana em busca da verdade.

MAL-ESTAR, SOFRIMENTO E SINTOMA
Em parceria com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Jr., Christian Dunker conduz na USP o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip), que hoje se afigura como uma das mais vigorosas e renovadoras inserções do pensamento lacaniano no Brasil. E isso sem sucumbir ao “discurso universitário”, no sentido pejorativo tão criticado pelo próprio Lacan .
 É o que se vê por este novo livro de Dunker, em que crítica e clínica se articulam numa densa “psicopatologia do Brasil entre muros” – análise dos “condomínios” que regem a vida social e psíquica contemporânea. De pesadelo distópico de Godard, Alphaville entre nós vira sonho de consumo e lógica de autofechamento narcísico e exclusão.
 Este livro essencial traz também uma releitura psicanalítica do cinema da Retomada e do perspectivismo ameríndio (teoria antropológica de Eduardo Viveiros de Castro) e uma reconstrução das etapas e sentido “sintomático” da psicanálise no Brasil da ditadura à redemocratização.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

FREUD NO DIVÃ
Já dizia Emil Cioran: o pior que pode acontecer a um gênio é ser compreendido. Isto é, ter sua originalidade e radicalidade assimiladas e reduzidas às “obviedades” do senso comum popular ou mesmo do erudito (ser colonizado pela indústria de teses acadêmicas ou institutos de discípulos etc).
Dessa sina não escapou o pai da psicanálise, o que torna louvável uma iniciativa como a de Beverley Clack. Com ritmo envolvente e bem fundamentado, o livro traz frescor e sabor de novidade, isto é, de desafio, aos avanços revolucionários (mas também às hesitações e fragilidades teóricas e pessoais) de Sigmund Freud como fundador de uma nova via de tratar o sofrimento psíquico e pensar a condição humana. Entre os tópicos tratados, destaque para a histeria (com especial atenção ao fracasso todavia fecundo de Freud no célebre caso Dora), a interpretação dos sonhos, a questão da religião e o impacto de seu próprio romance familiar na concepção supostamente universal  do “complexo de Édipo”.
AVALIAÇÃO – BOM

NINGUÉM HUMANO
“Se Esopo que dizer que os homens são como os bichos, mostra, então, que os bichos são como homens; se Brecht pretende dizer na ‘Ópera dos Três Vinténs’ que os burgueses são ladrões, então ele coloca os ladrões como burgueses”. Essa técnica da inversão da fábula, estudada por Günter Anders em ensaio clássico sobre Kafka, é um dos prazeres com que lemos as histórias de “Ninguém Humano”, coletânea organizada por Naomi Jaffe com alunos de suas oficinas de escrita criativa.  
Na senda do autor de “A Metamorfose”, ou da “Revolução dos Bichos” de Orwell, o alegorismo animal mostra aqui sua atualidade como  expediente de revelação da desumanidade do homem. Comovente, por exemplo, a parábola de solidão e “bullying”da andorinha gorda (“andorona”) da história de Luciana Gerbovic, que abre o volume, tanto quanto é engraçada a sátira de Eduardo Muylaert que o fecha, sobre a sucuri em terapia para curar sua crise de identidade.
AVALIAÇÃO- BOM 

sexta-feira, abril 24, 2015

Nietzsche na Itália (I) - as ilhas de Zaratustra



"Da varanda de seu quarto, diante de Sorrento, ele avista a ilha de Ischia. Ilha vulcânica, lugar real e imaginário que servirá ao filósofo de modelo para as 'ilhas bem-aventuradas', as ilhas dos discípulos de Zaratustra. As ilhas bem-aventuradas são as do futuro, da esperança, das juventude. E é exatamente isso o que Nietzsche redescobre em meio aos tormentos de sua doença: as visões, os projetos, as promessas de sua juventude. Não como vestígios de um passado já enterrado, mas como vozes que vêm do passado para lembrar àquele que se desespera e que se enganou de estrada qual é o caminho futuro de sua vida. 

Manda Mosher na ilha de Ischia

Ischia não é a ilha de San Michele [ver abaixo], o cemitério da laguna de Veneza que serviu de modelo para a 'ilha dos sepulcros' do Zaratustra: ilha silenciosa de uma cidade decadente, no meio do mar da laguna que conserva e lentamente decompõe tudo. Ischia não representa a lembrança e a nostalgia do passado, mas o lugar onde as forças vulcânicas subterrâneas perfuram o mar do esquecimento e retornam à luz do sol. Não o crepúsculo de uma civilização que morre, mas a alvorada de uma nova cultura que emerge acima de seus 3 mil anos de história".

PAOLO D ´IORIO,
Nietzsche na Itália - A Viagem Que Mudou os Rumos da Filosofia


A "Ilha-Cemitério" de San Michele (São Miguel), Veneza: dedicada aos mortos e ocupada unicamente por igrejas e fileiras de túmulos; cf. http://www.cemiteriosp.com.br/ilha-cemiterio-de-san-michele-em-veneza-italia/

quarta-feira, abril 22, 2015

o tohu bohu do touro


A divergência de Jung e Freud sobre o peso da sexualidade na desordem psíquica não se deve, como quer uma certa leitura rasa, a meras predileções "místicas" de Jung por uma visão "dessexualizada" e "espiritual" artificialmente imposta sobre seus pacientes. O touro de Zurique, que em nada ficava a dever a um Picasso no quesito dos apetites carnais, não era ingênuo a ponto de ignorar o papel da sexualidade bloqueada no mal-estar das histéricas freudianas, vítimas de uma época em que a "boa sociedade" costumava revestir até os pianos de suas mansões com meiões que, tal como o véu das mulheres na Igreja, desviassem homens (e no caso das missas, até os anjos) da reta razão. Assim como Freud, Jung procurava teorizar o que via e escutava na empiria da clínica. Mas o perfil de sua clínica era distinto do de Freud: passou dez anos num dos mais importantes hospitais psiquiátricos do mundo, em convívio direto com as agonias psicóticas em relação às quais o próprio Freud tinha dúvidas se sua psicanálise teria viabilidade teórica e terapêutica. Essa diferença de lastros empíricos se alia, para alargar a irredutibilidade dos dois grandes gênios da psicologia profunda, ao fato de que todo observador afeta subjetivamente sua observação, por mais que "científica" - uma relatividade apregoada por Heinsenberg na Física, e tanto mais válida no campo das ciências da alma e da sociedade. Com base na experiência com psicóticos, para os quais a repressão sexual tinha papel bem menor do que para as histéricas, e também com uma confiança bem maior na riqueza autocurativa da psique, alicercada no poder transformador dos sìmbolos, Jung redefine o conceito de libido como energia psíquica em geral (da qual o apetite sexual é uma das modalidades), aponta os transtornos sexuais não como causa, mas repercussão de uma situação psíquica geral, e entende tal situação psíquica, na enfermidade, como uma desidratacao simbòlica articulada à perda de adaptação ao real. Não se trata da cantilena dos esquerdosos, ahh seus conformistas, querem adaptar o indivíduo à sociedade. "Adaptação" em Jung, como em seu mestre Janet, tem a ver com a "função do real", uma determinada qualidade psíquica de entrosamento do ego com sua própria natureza e com as tensões inevitáveis ao jogo cognitivo e prático com uma realidade, "o mundo" (interno e externo) que tem autonomia em relação a nossos caprichos, nos exigindo sim ajustamento, nem que como Bacon, para aprender como dominar, transcender e prosperar (o "saber é poder"). 
Nessa base, Jung traz para a compreensão da neurose o que seus anos de formação junto aos psicóticos o autorizava a propor com voz própria, distinta de Freud, e até hoje poderosa como uma das tantas linhas terapêuticas ao nosso dispor para minorar o sofrimento de viver. E essa voz própria diz que esse sofrimento é o o germe da evolução. Na recusa a formas inúteis e inautênticas de "adaptação", vejam, adaptação A SI E AO MUNDO, o sujeito se expressa inteiro, no que tem de enfermiço e potente, em sua neurose, como na febre que é sintoma de doença e luta por cura. Cura e loucura. É como o caos dos cabalistas, TOHU BOHU, ordem latente, o ovo como "caos" da ave futura. Sem dúvida que há muito de regressão infantil nesses estados neuróticos, mas há momentos na vida que a única forma de progresso é voltar atrás. Tamanhas as pressões que só a de-pressão pode nos acudir. A neurose é um impasse que, com ajuda do terapeuta, não desaparece sob o toque de uma varinha mágica ou programa de 12 passos de auto-ajuda. Mas, a despeito da confusão de tempos causada pelo estado de inércia e condutas de repetição e regressão, o terapeuta auxilia seu enfermo (e ás vezes somos ambos, terapeuta e enfermo, numa só pessoa) a enxergar o presente, decupar o novelo das causas e incertezas, passados e futuros opressivos, e a transcender o estado de baleia encalhada não só no amor, trabalho ou falta de um e outro: desencalhamos dessa crucificação como no quadro célebre de Salvador Dalí, em que o "deus" que nos observa de cima é a ave fênix que vê pelo retrovisor o ovo caos que lhe dará vida, o bezerro como o frágil pai do touro). Descemos da insuportável suspensão nas solitárias altitudes do mundo em que, isolados em nossa enfermidade, mas agora purificados por ela, agonizávamos  entre uma (nova) atitude adulta desejável mas irrealizada e uma atitude infantil realizada mas indesejável.



segunda-feira, abril 20, 2015

indo pro céu com mestre Al


Não tenho interesse o bastante em Ed Motta pra me aprofundar na recente polêmica em torno do que ele acha ou deixa de achar do público brasileiro que, em seus shows mundo afora, grita nome de time e exige que ele lhes conte/ cante pela trocentésima vez que o Manuel foi pro céu. Mas posso imaginar o inferno a que todo artista genuíno vai quando se torna prisioneiro de uma caricatura de si mesmo.
 É o drama de Danny Collins na nova estreia de Al Pacino entre nós, imediatamente depois de "O Último Ato": "Não Olhe para Trás". Fala de um músico folk de enorme sucesso e riqueza, mas que há 30 anos nada compõe e nada canta senão seus "manuéis" pra alegria de um público no qual ele vê o espelho triste de sua própria senilidade. É interessante comparar o impasse de Collins com o de Simon Axler, papel de Al em "O Último Ato". Axler, no romance de Phiip Roth que inspira a adaptação, é o "último dos grandes atores de teatro clássico dos Estados Unidos". Sua decadência tem um sentido cultural mais amplo, afinado com a crítica geral de Roth aos rumos históricos da sociedade norte-americana. Seu abismo, ao qual só esta começando a se atirar quando pula do palco no início do filme, tem a ver com a "perda da magia" que o fazia encarnar como ninguém os grandes papéis de Shakespeare, Ibsen, Tchecov.
 Já Collins se levou muito menos a sério na carreira: preferiu o caminho materialista dos hits chiclete, das marias-microfone, bebedeira e drogas (com direito a cocaína escondida no crucifixo brega que leva no peito).Ao saber, só 40 anos depois, de uma carta que Lennon lhe escreveu nos idos de 1971, se dá conta da obra que poderia ter feito, do artista e do homem que poderia ter sido, e se põe no caminho de uma redenção. Ranzinzas vão se queixar das consequências que o filme desdobra dessa sua forte premissa (baseada em fatos reais, aliás): os clichês acerca da busca da família esquecida, do milionário que quer lavar a má consciência à base de generosas doações etc. A graciosidade do filme, da pequena netinha, dos diálogos com a funcionária e com a gerente do hotel e, óbvio, do grande Al em si, não me deixam cair nesse pecado. 
Prefiro focar, além dos prazeres de espectador, na lição de vida deste filme quando visto em conjunto com "O Último Ato".Na semelhança e contraste dos dramas e soluções encontradas pelos dois personagens de Al, temos farto material "clínico" e existencial para meditar a questão da autenticidade de nossos "papeis" no teatro do mundo, dos suportes emocionais (amigos, parentes) que podem fazer falta no desertos da depressão, a necessidade, em suma, de elos sadios com o mundo, pra alèm do encapsulamento em nossa pròpria misèria (mesmo a de contas bancàrias inchadas), abertura e compaixão, nas antìpodas da autopiedade, que tornem a vida digna de ser vivida, aqui e agora , olhando e não olhando para trás -na força do arrependimento que nos transforma, não do remorso que aprisiona- mesmo não tendo sido tudo o que intermerdiários mais honestos entre nós e nossos potenciais mais profundos (incrível, e profundo, que Collins não se entregue ao ódio doentio e estéril do oportunista, já morto, que ocultou dele e vendeu a carta de Lennon),  melhores acasos ou melhores escolhas poderiam ter feito de nós.

quarta-feira, abril 15, 2015

Confortare esto vir


"Não sejas frouxo, mole. - Já é tempo de repelires essa estranha compaixão que sentes por ti mesmo"
JOSEMARÍA ESCRIVÁ, CAMINHO, 193

Confortare esto vir! (Coragem e seja homem), palavras de rei Davi no leito de morte ao filho Salomão. Imperativo de virilidade na contramão de nossa cultura de afrouxamento e dissolução de toda "vir-tude"; confortare, mais que ser "confortado", requer a coragem de transgredir toda zona de "conforto", que, a despeito da raiz etimológica,  tende a, psíquica e espiritualmente ser o avesso da fortitude. Segue excelente material do padre Paulo Ricardo sobre os efeitos da destruição da família, não por fatalidade ou acaso, mas programa de reengenharia social do marxismo cultural hoje vigente, em termos de nossa crise da masculinidade. A cultura hostil afeta a masculinidade porque esta, em si mesma, é obra cultural, não no sentido banal da ideologia pós-moderna, de gênero. Falo arquetipicamente: não se é, se 'devém' viril, seu ser é um tornar-se, é  "opus antinaturam", como a alquimia transformadora da "mater" material. É tarefa, missão, "protesto" (Adler) esforço de recusa do empuxo feminino, que desde o nível do embrião até o bebê no regaço da Grande Mãe e dos sonhos míticos de satisfação total no peito dela, lhe é origem e, se nada fizer em contrário, destino. 
A cultura revolucionária, nas escolas, mídia e consultórios terapêuticos (a psicanálise instrumentalizada por interesses políticos), é na verdade arcaizante ao impingir uma vasta regressão do homem alquímico à inércia material.  Reciprocamente, embrutece a mulher, até por obrigá-la a jogar por ela e pelo homem que não encontra mais no mercado, assim reprimindo nela o sentido de feminilidade,  também ele a ser cultivado, não prospera de qualquer jeito, é como a sedução: "naturalmente" intencional, espontaneamente dirigida, quando o ser está de acordo consigo, não com cabrestos ideológicos que querem destituí-lo da autonomia, fazê-lo crer que isso de autonomia sequer existe, é "construção social",ilusão individualista (de novo certa psicanálise confluindo com os interesses da massificação e vulgarização como política revolucionária). 

https://padrepauloricardo.org/episodios/masculinidade-o-que-esta-acontecendo-com-os-homens?utm_content=buffera4e3c&utm_medium=social&utm_source=facebook.com&utm_campaign=buffer

Bon Jovi, "Who says you can' t go home?"


terça-feira, abril 14, 2015

Kierkegaard e a mesa de botão


Bonita a afirmação de Soren Kierkegaard de que "não há verdade para um indivíduo senão quando ele próprio, agindo, a produz". Ficar preso a ela, contudo, sem ver sua contrapartida dialética, nos leva ao risco de um subjetivismo "ativista", distanciando demais a dimensão de graça, do Deus que vem ao encontro, da Verdade que busca o indivíduo que a busca.
Desde muito criança eu tinha uma percepção, entre angustiada e determinada, de momentos em que estava ou não estava conectado com "a Realidade". Era o que basicamente pedia das orações ou das meditações reflexivas. Estar conectado ao real. O que era, por mais que em dimensão contemplativa, algo idêntico a estar em ação. Quando não era verdade "agida", o sentido parecia simplesmente se desertificar, a vida ficava lenta como minha adorada mesa gigante de futebol de botão, no dia em que misteriosamente sua materialidade, recortada em lindas faixas alternadas de verde claro e verde escuro, parecia mais grudenta, retinha meus jogadores e os impediam de fluir e magiar. As tabelinhas Pelé-Coutinho, os lançamentos de Gerson, os golaços de Neto, com que Deus presenteava minhas mãos, tudo se evaporava. Minhas imitações de José Silvério emurcheciam, o laboratório voduesco de projeção 'futeboleira', e de amor ao Timão se recusava a operar naquelas manhãs cinzentas. Jogo arrastado. Como a relação com a Verdade quando perde a graça da competição trovadoresca pra ver quem ama e busca mais, se nós a ela, se ela a nós. A verdade que nos abandona deixa a vida ressecada e os jogadores ineficazes: inibe a ação. E reciprocamente, a ação entorpecida, rendida à inércia dos costumes, à mediocridade das expectativas, à preguiça ou, em suma, a ação sem paixão, é saara da Verdade, saara que não sara, mas tortura por sua ausência, debilita por sua contrafação, enlanguesce com suas presenças flácidas, versões moles, falsárias, a conversa fiada da Verdade, as mentiras existenciais com as quais, ao abdicar de agir,, ao meramente repetir, nos conformamos e seguimos adiante fingindo que nada pode ser diferente.

segunda-feira, abril 06, 2015

o chamado das chamas


"Mas, afinal de contas, talvez a filosofia não seja senão um RECONHECIMENTO DOS ABISMOS ENTRE OS QUAIS CIRCULA A SENDA POR ONDE O VULGO SEGUE A SERENIDADE DOS SONÂMBULOS.
Minha ambição é poder despertar, por vezes, vocações. Há provavelmente na alma de todo homem UM FOGO METAFÍSICO QUE PERMANECE OCULTO SOB A CINZA e tanto mais ameaçado de extinguir-se  quanto mais o espírito tenha recebido cegamente uma maior dose de doutrinas acabadas; o EVOCADOR [aquele que faz o chamado, a "vocação", de vocare, chamar] é aquele que SACODE ESSAS CINZAS E FAZ BROTAR A CHAMA. Não creio me gabar sem razão ao dizer que algumas vezes consegui PROVOCAR O ESPÍRITO DE INVENÇÃO DE ALGUNS LEITORES. Ora, é o espírito de invenção que se deveria sobretudo suscitar no mundo. Obter esse resultado vale mais do que recolher a aprovação banal de gente que repete fórmulas ou que escraviza seu pensamento em disputas de escola".
GEORGES SOREL,
Reflexões sobre a Violência

quarta-feira, abril 01, 2015

na roda do desejo

Partilhei segunda na minha escola de psicanálise o seguinte poema de Yeats, "The Wheel" (A Roda), de um livro de 1928. Pouco posterior ao "Além do Princípio do Prazer" de S. Freud, ele me parece iluminar certa dialética no que aparentemente seriam dois mundos psíquicos antagônicos e incomensuráveis, as "pulsões de vida" (Eros e os impulsos de autoconservação) e a pulsão de morte (o chamado do nirvana, o anseio do aparelho psíquico pela "paz" absoluta que só o não viver é capaz de trazer).
 Ora, vemos com Yeats a inquietude mesma do desejo, que no inverno quer primavera, na primavera quer verão, ah não, verão é ruim, legal mesmo é o inverno etc, enfim, vemos nessa "roda", a roda do desejo, ciclo do samsara, um movimento incessante, "vital", mas mortificador de cada um dos objetos que se candidatam a saciar o desejo. Nada presta tão logo é atingido, zanzamos entre o anseio e o tédio, e nessa própria perturbação que ferve em nós e que se chama vida, há morte, nem que nessa via impiedosa de destruição / desilusão de cada "estação" da busca por nada, ou, na mística do bardo irlandês, e na vertigem de náusea que nos arranca do carrossel enloquecido, pelo Nada absoluto também chamado transcendência.
The Wheel / A Roda
-W. B. Yeats-
"Through winter-time we call on spring,
And through the spring on summer call,
And when abounding hedges ring
Declare that winter's best of all;
And after that there's nothing good
Because the spring-time has not come -
Nor know that what disturbs our blood
Is but its longing for the tomb".
No Inverno desejamos a Primavera,
E na Primavera invocamos o Verão,
E quando ressoam as abundantes sebes
Declaramos que o Inverno é melhor;
Depois nada há de bom
Porque a Primavera não chegou -
Não sabemos que essa inquietude que nosso sangue perturba
É apenas a sua nostalgia do túmulo.