domingo, dezembro 21, 2014

Resenhas para a Folha *NATAL* 21/12/14



FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
TEXTOS CAIO LIUDVIK

A TERRA SERÁ AZUL
“A humanidade entrou no terceiro milênio para se despedir? “ A inquietante pergunta, em nada deslocada em nosso tempo de aguda crise econômica, social e ambiental, é mote deste livro de ficção científica juvenil de João Batista de Andrade. Num Natal como o que se aproxima, só que do ano 2033, uma supercivilização decide nos enviar um ser superior para nos inspirar a revertermos nosso fracasso histórico como espécie. Caso contrário, a destruição do planeta será  inevitável, num prazo de 20 anos. A nova Belém será no coração do Brasil, e o salvador  se chama Guéri , nome que, se faz pensar no termo francês “curado”, remete a  “menino loiro” na  lenda indígena evocada pelo livro. Bom presente de Natal para quem quer renovar o contato pessoal com a universalidade do mito soteriológico (de salvação)  para além da banalidade ou passividade dos cultos de Papai Noel e de papai do céu.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

A NEVE ESTAVA SUJA
Afora o gênero policial que explorou com maestria e tino comercial (ficou célebre pelas dezenas de romances protagonizados pelo inspetor Maigret), o belga Georges Simenon praticava o que chamou de“roman dur”, como neste  livro de 1948. Uma alegoria da chamada “sensibilidade absurda” que Albert Camus tornou categoria de pensamento e dispositivo literário em livros como “O Estrangeiro”. Nada absurdo, aliás, comparar a obra-prima de Camus com a dicção e o indiferentismo (em nada afetado nem mesmo pelo cárcere) deste retrato de um cafetão da França sob a ocupação nazista, e que decide matar não por causa do reflexo do Sol na sua retina, como Meursault, mas por “curiosidade”; senão ele próprio o  “psicopata”que declarou ser,  Simenon mostra habilidade notável em desvendar os meandros de uma mente com déficit ético, uma figura  não incomum em nossa era de banalização da violência. 
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

COMBATEREMOS A SOMBRA
Na noite da virada do milênio, um psicanalista na iminência de doloroso divórcio e acossado pelo enigma de um paciente,  se debate também com uma pauta sui generis de artigo: “Quanto pesa uma alma?”. Põe-se em busca da palavra justa, do parágrafo unificador, da maneira de se haver com esse peso insustentável da “consciência de si  quando se narra”, a fala não como adjacência mas núcleo, não mero  perfume, mas flor mesma da alma, em suas reentrâncias sombrias, aludidas pelo título. Não por acaso a premiação em 2008 pela Associação Francesa de Psiquiatria: com seu protagonista que personifica a profissão símbolo da subjetividade moderna, o romance da portuguesa Lídia Jorge se entretece de fragmentos de memórias, fantasias e revelações que vão trazendo à tona um país e uma atualidade global às escuras no “imbróglio do ser” e “confusão dos seres em relação” de nosso cotidiano opaco. 
AVALIAÇÃO – ÓTIMO