Saturday, August 30, 2014

Resenhas para a Folha, 30/08/2014


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA- LIVROS, DISCOS, FILMES
Textos de CAIO LIUDVIK
Inventário de torpezas
(comentário sobre três livros de Bernardo Kucinski)
A  trajetória de sucesso de Bernardo Kucinski como jornalista e intelectual de esquerda se soma, mais recentemente, ao despertar como brilhante escritor de ficção. A estreia consagradora foi com o aclamado romance “K.- Relato de uma Busca”, livro de 2011 ora relançado pela CosacNaify juntamente com  o inédito “Você Vai Voltar para Mim e Outros Contos”. 
Além deles, a safra criativa conta também com “Alice – Não Mais Que de Repente”,  envolvente romance policial sobre o assassinato de uma professora de física (curso em que o autor se graduou) que nos leva para os labirintos de um país não de maravilhas, mas de horrores, vaidades, desonestidades que impõem reflexão sobre os rumos da universidade em mais um momento de grave crise como o atual. Decadência com possível marco simbólico na expulsão de alguns de suas maiores intelectuais, nos anos de chumbo, além de torpezas como a que atingiu de perto Kucinski (professor na instituição até sua aposentadoria), cuja irmã, sequestrada e assassinada com o marido, foi demitida da USP (onde lecionava química) sob a alegação de abandono do emprego.
O drama familiar foi aliás o tema de “K”. O  romance, já considerado um dos maiores retratos do pesadelo ditatorial que acaba de completar 50 anos,  mostra com pungência humana e apuro formal a jornada de K., o pai, pelos labirintos kafkianos (como realçado pela abreviatura do protagonista) de desespero e absurdo na busca de notícias sobre a filha desaparecida.
Os contos de “Você Vai Voltar para Mim”, também referentes a esse período histórico, reiteram a profundidade com que Kucinski abrange com precisão a dimensão política mas vai além dela, na meditação dos afetos em jogo, o humano que resiste a tudo o que institucionalmente o negava e massacrava.
 Como, por exemplo na comovente história (que faz relembrar a coragem de setores católicos liderados por um cardeal como Dom Evaristo Arns) da mãe que  tinha visões do Cristo crucificado se transfigurando em seu filho torturado. A denúncia da torpeza humana então entronizada como política de Estado aparece no conto que dá nome à coletânea; título que, à primeira vista romântico, na verdade é uma fala do torturador monstruoso para a sua vítima.  
AVALIAÇÃO- ÓTIMOS 

LUIZ RUFFATO, FLORES ARTIFICIAIS
A nova obra de Luiz Ruffato vem ratificar qualidades que o tornam nome tão crucial na literatura brasileira contemporânea. Desde os contos interioranos de “(os sobreviventes)" e do retrato da pauliceia dilacerada em “Eles Eram Muitos Cavalos”, o escritor oriundo de Cataguases (MG) demonstra maestria no manejo de tensões constitutivas da subjetividade nos tempos e valores que se entrechocam em nossa pós-modernidade de desassossego e sem retorno possível a um porto seguro qualquer. A epígrafe do novo romance é ilustrativa a esse respeito: “caminho nenhum / é caminho de volta”. Ou, como resume um dos personagens “Eu não tenho pátria!” Trata-se de uma transposição literária de um livro de memórias que Ruffato recebeu de Dório Finetto, um funcionário do Banco Mundial, também ele do interior mineiro  e que, desenraizado de seus laços locais e familiares, se viu lançado ao “grande mundo” por conta das sucessivas viagens a trabalho, a locais como Beirute, Havana, Hamburgo e Timor Leste. O resultado é um buquê de acontecimentos e personagens marcantes, como o próprio Finetto, retratado em “Memorial descritivo” que recua a seu tempo de menino refém das horas e magoado pelas paisagens, e a professora francesa que, na sensualidade do tango, vive uma espécie de epifania num “presente absoluto” que vem como que sublimar, dar forma, prazer e sentido, a algo que em estado bruto seria da ordem do trauma, as angústias do despertencimento histórico.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO  

EVANDO NASCIMENTO, CANTOS PROFANOS
Ex-aluno de Jacques Derrida, Nascimento exige dos leitores o que oferece a cada página: audácia de pensar fora da caixa. Sem hermetismos, o  ensaísta conjuga, nestes contos, densidade filosófica e maestria narrativa na “descontrução” irônica de velhas morais e metafísicas que, antes do niilismo, podiam esconder de si mesmo o homem, o fundo intratável do desejo, das misérias, da capacidade de fazer da Terra (à beira da catástrofe explorada num em conto futurista) o que as mitologias projetavam no inferno. 
O antídoto para a devastação existencial que nos ameaça talvez esteja no aspecto libertador das “profanações” de que falam Walter Benjamin e Agamben, ou no elogio da “razão sensível” (possível alusão a  Michel Maffesoli) que o próprio príncipe das trevas, aqui sem intermediários, como o homem no confessionário do conto de abertura, profere e sugere –em instante de generosidade paradoxal- ser a rota de saída do caos,  em perturbador autorretrato diabólico.
AVALIAÇÃO ÓTIMO


Saturday, August 09, 2014

Plínio Marcos Universal


Uma grande descoberta por dia. Esperar menos que isso é brocha, e esperar mais é sacrilégio, se nos afastar da atenção que desfruta do que cada revelação oferece quando é a primeira e a única na sua vez. Quando faz a roda dos dias de fato avançar. A descoberta que fez dia do dia de hoje foi assim. Estava eu à procura, nos labirintos de minha biblioteca, de um material sobre a língua alemã, e de repente tive os olhos interceptados pela epifania: um livrinho de bolso, edição do autor, com a peça "Madame Blavatsky", de Plínio Marcos. A mãe da espiritualidade moderna, segundo expressão de biografia recentemente lançada entre nós, é por si só um atrativo poderoso para mim. Ainda mais quando é Plínio, mestre do teatro brasileiro, quem dá sua versão pessoal da bruxa russa, ela própria uma das versões mais interessantes, e de raízes ancestrais, sobre os mistérios que o universo guarda a sete chaves num cofre a céu aberto porém inacessível a olhares envenenados pela ruindade de espírito, materialismo científico e obtusidade de fanáticos. 
A peça, que já me programo pra reler, é pois uma versão da versão que é Blavatsky.  Ante o uno Uni-verso, todos os discursos são em sua soma confusa um cipoal de multi-versões, em disputa entre si e por nossas mentes e corações, atraídos que somos por esta ou aquela verdade menos segundo a verdade interna dessa verdade do que pela vibração entre ela e nós. Tudo isso é pântano enquanto não ascendermos para a objetividade da contemplação desarmada e universal. 
Sou mais católico hoje por vibrar em sintonia com o atual Sumo Pontífice que, em Roma, se faz tão simbólico de minha fé de nascença, mas o catolicismo atinge a catolicidade (universalidade) de seu nome, em mim,  no espírito gnóstico e alegorista que me move e me faz vibrar no dial de místicos como Madame Blavatsky e Plínio, mais conhecido pela poética da podridão brasileira e da grandeza resistente do humano que ele investiga em peças sobre o cru e cruel urbanos como "Dois Perdidos numa Noite Suja". A Noite Suja, revista do viés esotérico posterior, é a Noite Escura da alma neste mundo pérfido em que está encarcerada gemendo dores de abandono e de parto, sem parteiros que não ela própria e a graça invisível.
A peça de 1988 sobre a mística fundadora da Sociedade Teosófica é precedida por uma autoentrevista de Plínio, da qual colho uma  passagem (ver adiante) que me parece pertinente não só por definir um sentido muito pessoal de religiosidade de um dos nossos maiores dramaturgos, tido por "marginal", mas também porque esse sentido (versão) pessoal se põe à margem, forte e resistente a nossos tempos de opressão do sonho libertador no pesadelo petralha -versão degradada, até porque sentada no poder,  da teologia da libertação que, das catacumbas da opressão e censura (dentro e fora da Igreja), impulsionou a luta de esquerda no Brasil ditatorial, e que pede pra renascer, hoje, mais anarquista, gnóstica e mística, alheia aos engodos partidários que mataram a primeira "versão" dela, nos áureos tempos de chumbo da luta de Boff e de Betto. Hostil também à teologia da vulgaridade inacreditável de nossos templos de salomão para outros tantos fakes do espírito.  
Anarquista ela renascerá pela antipatia a todo poder, alegorista em sua compreensão de todas as formas de manifestação do nobre impulso religioso originário e universal (a Religião-Sabedoria dos primórdios, segundo Blavatskky),  gnóstica em sua negatividade contra todas as formas de decadência e de inferno que dominam a Criação e o Criador que nós criamos, e mística pela desobrigação com todos os nomes e fôrmas, inclusive e principalmente as que mais agradariam a nossa veleidade, libertação da própria teologia, livramento do denso manto de nomes e crendices e pavores quais formigas devoradoras a nos torturar e enredar nas dez mil versões que calam o Universal.
"- Você fala como um místico. Você é místico?
-Sou um homem à procura da religiosidade. Dispensa-me de rótulos, por favor, e eu te explico que a busca da religiosidade nada tem a ver com seitas, Igrejas, grupelhos carolas, fanáticos acorrentados a dogmas e superstições. A religiosidade nada tem de alienação, conformismo ou adaptação a um sistema político-social-econômico injusto. Aliás, a religiosidade é altamente subversiva. A religiosidade leva o homem ao autoconhecimento. E o autoconhecimento leva o homem à subversão.
-Mas antes você escrevia um teatro político e social. Foi preso, proibido de trabalhar em rádio, televisão, teatro, jornal, sempre por causa de suas opiniões. Por que esta mudança?
-Eu mudei no sentido de que sempre acreditei que o homem desperto tem o dever de ser mutante. Como espero continuar sempre mudando. Só o imbecil, que acha a si mesmo uma maravilha, é que não tenta mudar, crescer. Nesse sentido, eu mudei. Mas os valores que dignificam o homem e que eu preservava, esses permanecem. Continuo, com a graça de Deus, com a coragem de correr o risco por dizer o que penso, sem fazer nenhum esforço de agradar aos poderosos, aos grupos políticos ou religiosos. Nisso eu sou o mesmo. Mas, hoje em dia, eu me aprofundo mais nas coisas. E nisso há mudança. E também busco me autoconhecer cada vez mais. Vou cada vez mais me desligando das coisas. Exercito cada vez com mais energia a não-posse. Trabalho sem cessar para vencer meu temperamento. Mas isso tudo que estou tentando comigo é realmente uma mudança. Antes, eu não tentava nada disso. Mas, estar nessa não significa que parei de tentar despertar meu próximo. Tento chocar. Com muito vigor. Não faço isso por política. Faço isso por religiosidade. Mesmo considerando que toda atitude do homem é política. Tudo o que tento fazer é com o sentido da religiosidade. Porque, essa sim, é subversiva. A política é sempre a luta pelo poder. Os partidos políticos são sempre ajuntamentos de pessoas de elite com a finalidade de tutelar o povo. E os políticos lutam entre si para ver quem é o tutor-chefe. A ação deles nada tem a ver com os discursos que fazem. Mudam de pele como camaleão. Toda a ciência dos políticos se resume na habilidade do mais esperto, ou na brutalidade do mais forte. E todo os esforço dos políticos é no sentido do poder. Já o homem com religiosidade, o homem que tem o autoconhecimento, não deseja o poder. Portanto, rasga a regra, rompe a estrutura, arrebenta elos da cadeia. Subverte. Mesmo que não queira, subverte. Seu modo de ser subverte".
-Unzuhause-

Friday, August 01, 2014

a sandália, a calcinha e o saquinho de látex


Para nossa ideologia sexual permissiva, basta camisinha para uma transa "sem remorsos" (vide link). Responsabilidade, pede essa campanha em prol de uma vida "intensa" e responsável, se mede pelo saquinho de borracha e látex que eles acham que "apaga" miraculosamente todo perigo, garante o corpo contra o ataque dos vírus e bactérias de um outro corpo. Garante mesmo? E não há tantos outros arrependimentos que podem macular, sem borracha pra apagá-los como se fossem erros de conta no colégio, toda uma vida em troca de poucos instantes do prazer dos atritos de foda? Foda como a versão degradada do fazer amor, dizia Reich, que nada tem de carola careta.  Se para adentrar na presença de Deus era preciso "tirar as sandálias" (se desnudar das veleidades egoicas e retomar o contato com a terra, o pé no chão) , será que a divindade em nós, o templo de nossa intimidade de fluidos e afetos, só requer isto de um parceiro, o tirar a cueca e a calcinha de decisões alcoolizadas seja pela cachaça ou por campanhas vulgares como esta?
-Unzuhause-
http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2014/08/01/com-imagens-provocativas-campanha-quer-promover-o-uso-da-camisinha.htm