terça-feira, julho 29, 2014

Rubem Alves vive


"O professor alto, magro, cadavérico, verde
entrega ao seu discípulo, sua imagem,
também alto, magro, cadavérico, verde, 
a prova final do saber, o diploma,
um feto morto, dentro do tubo de ensaio"
Não conhecia essa impressionante imagem, nem palavras, do grande pintor mexicano José Orozco,  grande muralista como Diego Rivera. Devo minha descoberta a mestre Rubem Alves, no livro "Por uma Teologia da Libertação", tese de doutorado em filosofia que defendeu em 1969 nos EUA. Pouco conhecida, ela  praticamente lançou o nome e o conceito que revolucionaria o pensamento teológico (católico e, no caso de Rubem, protestante) mundial ao mostrar que o evangelho de Jesus Cristo é relevante não só para a a Humanidade em geral, mas para o homem moderno que é afinal o que somos. Religião que nos religa ao reino dos céus que se soergue com mãos humanas no tempo e espaço das lutas mundanas.
 Cheio de ideias, mas falto de tempo e de vontade de compartilhar pérolas com alguns porcos dos quais farejo a visitação carente e o odor pesado ao redor do meu espaço, não sei se me dedico a comentar esta obra fundamental do mestre Rubem, que nos deixou semana passada, mas certamente seguirá vivíssimo entre nós, religado que está, agora de corpo e alma, com o espírito eterno, em vida após a morte oposta à vida morta de pseudointelectuais como os retratados nesta "formatura" de Orozco, diplomados no douto saber de porra nenhuma senão de traduções fake de sua própria escrotidão e de suas limitações pessoais e profissionais. Gente que é devota do preceito "acuse os outros de fazerem o que você faz, de serem o que você é", de Lênin, em aplicação política singular da sabedoria d' Aquele que ensinou que quem julga já por julgar está sendo julgado. Se autojulgando, como transparece a quem tem olhos atentos para além da capa boba dos gestos inócuos pra russo ver. 
Rubem também nisso é transgressor. Porque ele, no prefácio de 1987,  evoca a imagem de Orozco não para criticar os outros, mas, veja você, para se desculpar pela tese "chata" que defendera em 1969. Chata porque submissa aos cânones do discurso acadêmico comum. E chata por banalizar a própria teologia, que em comentário ao "ateísmo" de Feuerbach Rubem irá mostrar que não é uma fortaleza de tipo medieval que esconde o homem de seus pavores. A teologia é gesto de imaginação, flor frágil e ilusória, em si mesmo bela -quando não envenenada de rancores impotentes, que não ousam dizer o seu nome e suas traduções fake-, e que fala do mundo e do Criador como um jardim de cerejeiras, como os jacarandás de Buenos Aires, que o resistencialista Ernesto Sabato diz que deixamos de notar quando sequestrados pela tele-visão, não só a do aparelho televisor, mas de toda visão à distância (etimologia de televisão), de toda quimera de além que nos impeça de ver e celebrar o cristo do ínfimo, o rubem rubi deixado na calçada, a menina pérola, pérola moça, fruto do orvalho, que nos sorri de dentro da concha de onde brotou como evangelho de beleza e luz. Como disse um Rubem Alves de outras eras, o místico e poeta Angelus Silesius, "A pérola é gerada e dada à luz pelo orvalho dentro de uma concha. O orvalho é o Espírito divino, a pérola Jesus Cristo, a concha minha alma".
-Unzuhause-

sábado, julho 26, 2014

Resenhas para a Folha, 26/07/2014


FOLHA DE S. PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
textos de Caio Liudvik
Amável máquina de guerra
(Sobre "SPINOZA - OBRA COMPLETA", da editora Perspectiva)
Na definição de Bertrand Russell, Barukh (ou Bento, após seu banimento como herege pela comunidade judaica) de Spinoza é "o mais nobre e o mais amável de todos os grandes filósofos". Seu nome "beneditino" convém admiravelmente à imagem de filósofo monacal, recluso, solitário, afastado da "imbecilidade" mundana que sua filosofia desmonta sem piedade, como máquina de guerra contra as superstições.
A edição das obras completas de Spinoza é oportunidade para adentrar nas minúcias deste sistema com estratos de ideias de múltiplas eras. É medieval a envergadura "mística" do anseio spinozano pela beatitude de contemplar o mundo com os olhos divinos, ante os quais o mal é falsa aparência, fruto de nossa compreensão limitada do Todo. É moderno, e já "iluminista", o rigoroso racionalismo das demonstrações geométricas e a exigência da liberdade de pensamento e de  um Estado laico. E esta obra transborda em conceitos pós-modernos como o de "multidão", forma libertária de organização política que deleuzianos consideram já presente no filósofo holandês de ascendência portuguesa.
 Além de clássicos como "Ética" e o "Tratado Teológico-Político",   a empreitada  inclui "Compêndio de Gramática da Língua Hebraica", essencial para entender a revolucionária releitura secular que Spinoza faz da Bíblia, e sua correspondência. Suas cartas mostram o interesse do pensador por interlocutores os mais variados, ao longo da construção de suas principais ideias: a identidade entre Deus e o mundo (razão de ser acusado de panteísta), sua defesa da democracia mas também a suspeita em relação à integridade intelectual e sanidade psicológica do "vulgo". 
O diálogo de Spinoza com a sua época transparece na primeira biografia dedicada a ele (e que consta da presente edição) e se articula com o senso de si do gênio que preferiu o ofício modesto de polidor de lentes  à opacidade de cátedras acadêmicas e outras formas de sujeição, numa Holanda dividida entre o liberalismo da burguesia ascendente e a ameaça obscurantista da ortodoxia judaica e cristã.
 AVALIAÇÃO - ÓTIMO
O TRONCO E OS RAMOS
Em obras fundamentais como "Freud, a Trama dos Conceitos" e "Freud, Pensador da Cultura", Renato Mezan mostra como a obra do pai da psicanálise se funda e evolui num tripé de auto-análise, experiência clínica e influências do clima cultural. Trata-se de um modo de ler que, com o rigor haurido da formação acadêmica em filosofia, abre espaço para um projeto ambicioso e original de história da psicanálise, que prossegue em altíssimo nível neste "O Tronco e os Ramos". O foco, aqui, se volta mais para as escolas pós-freudianas, como a de Lacan, Melanie Klein e Winnicott.
Polêmico e generoso ao mesmo tempo, discute estas ramificações da doutrina freudiana valorizando-as, mas sem comprar a fé (no mau sentido dogmático e intolerante) de cada uma delas de ser  "a" verdadeira herdeira (ou viúva, ironiza ele) de Freud. Mezan também discute textos freudianos como o sobre a "piada"(termo mais direto do que o habitual "chiste") e suas relações com o inconsciente e o filme "Freud, Além da Alma", com roteiro de Sartre.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO
 OS DESORIENTADOS
Herdeiro da cadeira de Lévi-Strauss na Academia Francesa, o escritor Amin Maalouf emigrou do Líbano para Paris em 1976. A experiência pessoal, com suas feridas e descobertas  sobre si e sobre nosso mundo dilacerado, é um dos trunfos que tornam esse romance tão forte e reflexivo.  O arquétipo do "regresso às origens"se reflete no nome mítico do protagonista, Adam - que, como seu criador, está exilado. Leva na capital francesa uma vida tranquila e exitosa como historiador universitário, o que ao longo do romance vai se mostrar também como um sistema defensivo que o fez anestesiar os traumas de seu próprio passado pela evasão para outros séculos, lugares e dramas. 
No apelo de um amigo moribundo que quer revê-lo na terra natal, se manifesta o "chamado à aventura" do autoconhecimento, da reconciliação com o passado, do reencontro da "fraternidade" (no sentido do afeto e no de sociedade secreta) de jovens que tinham por modelo Voltaire, Sartre, Camus e os surrealistas, antes da regressão pela guerra e pela camisa-de-força das pesadas identidades étnico-religiosas.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

contra um mundo banguela


Tenho dedicado os últimos dias ao estudo do Sermão da Montanha da perspectiva da filosofia Vedanta. Base do ensinamento ético do cristianismo, ele contém palavras que, por demais "familiares" aos ocidentais, por isso mesmo tendem com o tempo a deixar de serem compreendidas, muito menos postas em práticas. Assim como o fluxo  entre a mente, olhos, coração e as mãos quando se acaricia a mulher amada, assim também é o circuito da compreensão das verdades espirituais. A ação não é um adorno externo, é palavra também, a seu modo, para que uma carta do espírito para o espírito (que é como, em todos os tempos, as Escrituras sagradas, inclusive as grandes literaturas profanas, se definem) não fique rasurada, ininteligível, adulterada, esclerosada pela falta de prática. 
Prática por exemplo -eis um dos motivos de escutar uma tradução indiana da sabedoria de Cristo- da tolerância intercultural, ou melhor, da alegria do reconhecimento de diferenças, singularidades, sim, mas também harmonias profundas que as pessoas de todos os quadrantes contêm em germe, centelha sufocada quando fanáticos e interesseiros arrogantes -vide o espetáculo lamentável no Oriente Médio atual- tomam a palavra, sequestram a consciência, e bombardeiam e humilham como foram bombardeados e humilhados. Olho por olho, dente por dente, eis o mantra para um mundo cego e banguela.
Vamos então à primeira das bem-aventuranças, isto é, das felicidades extremas propiciadas pelo gozo do Bem em senda de aventura, que Cristo nos instrui a tomar como GPS para caminhar com tocha de sentido no mundo das trevas: a humildade. Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus. 
 O guru hindu Swamim Prabhavananda, em quem me inspiro no diálogo cristão-hindu deste texto, observa: "Se uma pessoa orgulha-se do que sabe, da riqueza, da beleza ou da linhagem; se tem ideias preconcebidas do que seja a vida espiritual e de como deveria ser ensinada - então sua mente não está receptiva aos ensinamentos mais elevados". 
Ele então propõe uma analogia com o "evangelho dos hindus", expressão que não visa a relativizar a Boa- Nova judaico-cristã, mas enobrecê-la na sua analogia com a Revelação divina formulada em outra língua. No Bhagavad-Gita, lemos: "As almas iluminadas que perceberam a verdade hão-de intruirte no conhecimento de Brahma (o aspecto transcendental de Deus), se tu te prostrares diante delas, as interrogares e as servires como um discípulo" 
Swamim então acrescenta deliciosa parábola, que nos dá conta de que, "naquele tempo" (para usarmos expressão típica dos folhetos da missa católica, e que Eliade considera uma fórmula universal do passaporte mítico que nos leva do aqui-agora profanovulgar para o reino arquetípico intemporal), havia um homem que procurou um mestre e pediu para ser seu discípulo. O mestre logo se apercebe, qual numa entrevista de emprego para a qual nos apresentemos nervosos, inseguros e transparecendo "falta de currículo", que o homem não estava ainda preparado para ser instruído. Mas, ao invés de despachá-lo sem mais, o interroga: "Você sabe o que precisa fazer para ser meu discípulo?"
O homem confessou que não e pediu ao mestre que lho dissesse. 
"Bem", disse o mestre, "você precisa ir buscar água, apanhar lenha, cozinhar e trabalhar muitas horas em serviços pesados. Precisa também estudar. Está disposto a fazer tudo isto?"
O homem respondeu:
"Sei agora o que o discípulo precisa fazer. Diga-me por favor, e o mestre, o que ele faz?
"Ah", provocou o guru, "O mestre fica sentado, e em sua maneira recolhida dá as instruções espirituais"
"Entendi", disse o jovem desapontado, que nos lembra o jovem rico que se recusou a abrir mão de sua avareza para seguir o Cristo. "Nesse caso, não quero ser discípulo. Por que você não faz de mim um mestre?"
A história é saborosa também por nos advertir contra um tipo específico de arrogância de que se padece na senda da sabedoria; a arrogância da própria sabedoria, se a encaramos com os apetites de poder, prestígio e conforto pessoal para além dos quais está a genuína sabedoria. Lembremos que, ao se definir como um "amigo (filo) da sabedoria (sofia)", o verdadeiro filósofo se desidentifica com ela, a ama porque, como todo que ama, sente uma falta em si que o objeto do amor vem completar. Discipulado portanto da amizade. Disciplina do amor, energia para os trabalhos supostamente "prosaicos" que nos dão musculatura e astúcia para que o romance com Deus e com a vida não seja poesia desperdiçada.
Também de humildade nos fala Jean Tauler, o místico dominicano do século XIV, ao comentar outra passagem do Evangelho, em que Nosso Senhor observa: «Muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram» (Lc 10,24).
"Por profetas entenda-se os grandes espíritos subtis e dados ao raciocínio que se apegam às subtilezas da razão natural e delas têm vaidade; uns olhos assim não são ditosos. Por reis entenda-se os que são por natureza senhores, de energia forte e poderosa, senhores de si próprios, das suas palavras, das suas obras e do seu idioma, e que fazem tudo o que querem com jejuns, vigílias e novenas, fazendo disso grande alarde, como se de algo extraordinário se tratasse, mas desprezam os outros. Também não são esses olhos que são ditosos.
Todas estas pessoas quiseram ver e não viram. Quiseram ver, mas apegaram-se à vontade própria [...], uma vontade que encobre os olhos da alma como uma película ou uma membrana encobre os olhos do corpo, impedindo-os de ver [...]. Quanto mais permanecerdes na vontade própria, mais privados sereis de ver com o olhar interior, uma vez que a verdadeira felicidade advém do abandono verdadeiro, que é o afastamento da vontade própria. Tudo isso nasce do fundo da humildade [...]. Quanto mais pequenos e humildes fordes, menos vontade própria tereis [...].
Quando tudo está em paz, a alma vê a sua própria essência e todas as suas faculdades; reconhece-se como imagem racional daquele de Quem saiu, e os olhos [...] que fixam aí o seu olhar podem perfeitamente ser tidos por ditosos por causa do que vêem. E então sim, é a maravilha das maravilhas que se descobre, o que há de mais puro, de mais certo, aquilo que menos poderá ser-vos tirado (Lc 10,42) [...]. Possamos nós seguir neste caminho e ver de tal modo que os nossos olhos sejam ditosos. Assim Deus nos ajude!"
-Unzuhause-

segunda-feira, julho 14, 2014

o sobrenatural na padoca


Não cheguei a chorar, mas como lamentei por ti, Argentina! Complicado entender a satisfação de ver os alemães campeões, o circo petralha encerrado entre vaias e a entrega constrangida da taça a quem o destroçou, mas estar intimamente triste por ti..  Minhas mãos ao alto, irritado a cada uma das chances perdidas por Messi e companhia, não me deixaram esconder de mim mesmo a identificação com os hermanos.  O resultado foi sim justíssimo, spinozamente geométrico na cadeia de causas que levavam a esse desfecho tão lògico como um xeque-mate. Previsível também que o jogo em si fosse como foi, truncado e chato, tenso, de dois coletivos bem azeitados, mas sem a rebelião do imprevisível, do imponderável, das razões do coração (mais para Pascal que para Spinoza) ou da improvisação sobrenatural que se esperaria de um, segundo muitos, "craque" como Messi, para mim apenas um bom jogador de nosso tempo, que só por razões do barulho espetaculoso de nosso tempo precisa ser nomeado -pelo e para o divertimento de nosso tempo- com as insígnias heroicas que gênios de outrora mereciam mais. Só por falta de imaginação, ou porque mesmos uniformes verbais são contratados a contragosto, e resmungando quando arrancados do armário, é possível se exaltar com os mesmos termos épicos um Maradona e um Messi. Nosso tempo não està para craques.

O problema com "nosso tempo", como mostra Mircea Eliade ao analisar a mentalidade mítica, é o seu déficit inevitável em relação à "Idade de Ouro" que projetamos no passado. Ou que cremos descobrir no exótico, caso dos europeus quando aportaram no "Novo Mundo" com o mesmo encanto com que se divertiram com nosso povo hospitaleiro neste mês de Copa. Aqui os navegantes do século XVI, fazendo a travessia de sua idade média em agonia para a adolescência da modernidade, dos `dezesseis`,  acharam paisagens, frutos, bichos e povos que se encaixavam nos seus próprios scripts bíblicos quanto a um "paraíso perdido" da infância remota- crença também dos próprios povos ditos primitivos, que se consideram, como todo bom melancólico, afastados da "Origem", tempo forte de presença dos "craques", deuses, heróis, ancestrais civilizadores, por vezes projetados no invasor que trazia doenças e saques, lição sobre falsas "salvações" que nossa mítica carência deve evitar. 
Precisa fugir dessa tentação, por exemplo,  meu Partido Resistencialista, inspirado que é nos tons sombrios de tango nostálgico do ensaio "A Resistência", do argentiníssimo (pra lembrar minha ferida de ontem) Ernesto Sabato. 
Uma alternativa para não nos fixarmos em mera teimosia ranzinza é sentir que nossos sonhos não são mero capricho solitário, estão disseminados na cultura. Há muitos outros "resistencialistas" entre nós, possivelmente calados, até porque são um partido de oposição num mundo em que o barulho insensato e burro é hegemonia. 
Tive um exemplo inesperado e sobrenaturalmente bom, nesse sentido, há pouco, na padaria aqui do lado de casa. Sentada próxima ao balcão do café, num momento de descanso entre os rigores do seu trabalho, e os do barrigão de seis meses de grávida,  a funcionária, de nome Gabriela, contou de sua má vontade de assistir televisão, quando lamentei com ela a perda do querido doutor Osmar de Oliveira, um dos poucos comentaristas que me encantavam pelo caráter e competência, afora o bom gosto de ser mais um membro no bando de loucos da Fiel. 
Gabriela, pelo testemunho pessoal, glosou, provavelmente sem ter lido, as ideias de Sabato sobre a ruína que o excesso de "televisão" traz para nossos espíritos já tão sobrecarregados pelo diuturno naufrágio na tempestade (de areia, sertaneja, na São Paulo atual) que é enfrentar a vida de trabalho e de convívio com massas serializadas (amorfas, de pessoas fechadas em si mas se empurrando umas às outras nos espaços apertados e  de águas escassas). Voltarei outra hora para desenvolver essas ideias tal como expostas por Sabato na bíblia de meu resistencialismo. Mas, como toda escritura sagrada, essas ideias se deixam ler sob a luz natural do texto do mundo, no convívio fraterno e alegria pela nobreza que descobrimos ao nosso lado numa conversa rápida de padoca, nos vestígios  com que resistimos, na prática, ao massacre do "nosso tempo", previsível e chocho, como a vida que recomeça hoje após a grande, mas meramente simbólica, por isso efêmera, confraternização mundial que se encerrou ontem no Maraca, numa prorrogacao que, conforme o irônico meme (desses tipicos de "depressao pos copa"), devemos agradecer tambem por ter adiado uns minutinhos a mais o domingão do faustão. 
 Os Messias são de outro mundo,  o que temos é mesmo um ou outro Messi esforçado, mas impotente diante da racionalidade férrea do poder do mais forte. Os sobrenaturais de almeida que habitam o espírito de um Nelson Rodrigues, e que sempre foram mais literários que literais,  parecem meio sem saco para nosso jogo profano, que na maior parte do tempo se desenrola previsível, truncado e chocho como a final de copa mundana de ontem. Não no ininterrupto barulho burro das massas, nem na melodia efêmera dos grandes espetáculos de encontro festivo da Humanidade que somos mas ignoramos. O caminho está neste silêncio, neste recato para a música da vida íntima de  "resistencialistas" como Gabriela, amiga da padoca, mamãe iminente, grávida, senão do Messias, ao menos de futuro que cada um de nós podemos ajudar a construir, ao mudarmos de canal e acendermos o som que toca dentro.
-Unzuhause- 

domingo, julho 13, 2014

todo turismo é antropofágico

Painel Antropofagia, de Tarsila do Amaral

(vou reproduzir a polêmica politicamente incorreta em que me meti no facebook ontem, me servindo da linguagem ligeira e instantaneísta que costumo usar ali, e alguns acréscimos)
"todo turismo é sexual". já não lembro de quem li esta frase, mas ela me martela os ouvidos enquanto matuto a polêmica sobre a "dádiva" que a copa foi para a pegação amorosa, segundo matéria que eu citei ontem aqui. em tempos como o nosso de questionamento (saudável, se despido do espírito da vulgaridade, majoritária entre nós) dos tabus do moralismo, achei muito exagerado que (sempre ela) a famigerada maria do rosário viesse passar sermão de professora de colégio chata no luciano huck. o talento dela de encher o saco com esses sermões já se evidenciava na santa leniência que a consagrou como madre teresa de calcutá dos bandidos.literalmente uma freira no bordel.  quanto à matéria, ela traz depoimentos que, sem serem generalizáveis, é claro, me parecem de um teor psicológico interessante. não vêm denegrir o caráter de quem se interessou em conhecer gringos na copa (afinal, qual o problema disso? todo interesse que é sexual é tão excitante porque envolve viagem, espírito turístico de abertura ao "estrangeiro" de si mesmo, todo tesão é vontade de turismo, para inverter a frase citada no início). cá entre nós, se alguém deve se sentir provocado por uma brincadeira como a de huck, não são as brasileiras, mas os brasileiros: o que lhes falta, quando falta, para que tantas meninas vejam nos gringos parceiros ideais? o que faz deles, e não de nós, homens idealizados como portadores de um grau de educação e de autoridade pessoal, não para o turismo prostituto, mas para a "antropofagia" intercultural, tão exaltada pelos modernistas, que viam nossa identidade brasileira porosa e aberta ao estrangeiro, das mentes e corpos? . antes de passar de literal a literário, mas sempre se mantendo "sexual", o canibalismo já dos tempos arcaicos embutia uma homenagem implícita ao estrangeiro, uma admiração por suas energias. comer o estrangeiro como ritual de apropriação do melhor dele...  tampouco esse impulso antropofágico brasileiro é exclusivo de brasileiras em relação a gringos; eu mesmo me canso de explorar, em análise e na minha escritura, o fascínio pela Mulher arquetípica, universal, mas que fala "línguas" alheias à minha, gauchês, carioqueixxx, paranaês, pernambuquês, francês, castelhano etc etc
pra quem não leu a matéria:

sábado, julho 12, 2014

oratório místico


Dervixes durante o Sema, prática giratória que, introduzida pelo poeta Rumi, opera pelo corpo a alegria do retorno da criatura ao Criador. Istambul, Turquia

Coplas da Alma que anseia por ver a Deus
(São João da Cruz, trad. Dora Ferreira da Silva)


 Vivo sem viver em mim 
 e de tal maneira espero 
 que morro por não morrer. 

 1. Em meu eu não vivo já, 
 sem Deus não posso viver; 
 sem ele perco meu ser, 
 e este viver que será? 
 Mil mortes parecerá, 
 minha vida é este querer, 
 morrendo por não morrer. 
 2. Mas esta vida que eu vivo 
 é privação de viver 
 e assim continuo morrer 
 até que viva contigo. 
 Ouve meu Deus o que digo 
 a esta vida falta ser 
 que morro por não morrer. 

 3. Estando ausente de ti 
 que vida poderei ter 
 senão morte padecer 
 a maior que jamais vi? 
 Lástima tenho de mim 
 pois se assim permanecer 
 eu morro por não morrer. 

 4. O peixe que da água sai 
 de alívio nenhum carece, 
 pois na morte que padece 
 a morte por fim lhe vale. 
 Que morte há que se iguale 
 a meu viver sem socorro, 
 pois, se mais vivo, mais morro? 

 5. Quando penso me alegrar 
 ao ver-te no Sacramento 
 acresce-me o sentimento 
 de não poder te abraçar; 
 tudo é para mais penar, 
 por não ver-te no teu ser, 
 que morro por não morrer
6. E se me alegra, Senhor, 
 esta esperança de ver-te, 
 ao ver que posso perder-te 
 mais aumenta minha dor; 
 vivendo em grande pavor 
 nesta espera a padecer, 
 que morro por não morrer. 

 7. Tira-me, pois, desta morte, 
 meu Deus, e dá-me tua vida; 
 não me mantenhas tolhida 
 neste laço assim tão forte; 
 olha que peno por ver-te, 
 meu mal é todo meu ser, 
 que morro por não morrer. 

 8. Chorarei a morte já 
 lamentarei minha vida 
 sempre tão entretecida 
 a meus pecados está. 
 Ó meu Deus, quando será 
 que eu diga sem mais sofrer: 

 vivo já por não morrer?

Rachaduras luminosas do corpo de mármore

O Grande Momento
(por Cruz e Sousa)


Inicia-te, enfim, Alma imprevista,
Entra no seio dos Iniciados.
Esperam-te de luz maravilhados
Os Dons que vão te consagrar Artista.
Toda uma Esfera te deslumbra a vista,
Os ativos sentidos requintados.
Céus e mais céus e céus transfigurados
Abrem-te as portas da imortal Conquista.
Eis o grande Momento prodigioso
Para entrares sereno e majestoso
Num mundo estranho d’esplendor sidéreo.
Borboleta de sol, surge da lesma…
Oh! vai, entra na posse de ti mesma,
Quebra os selos augustos do Mistério!

Êxtase Búdico
(Cruz e Sousa)

Abre-me os braços, Solidão profunda,
Reverência do céu, solenidade
Dos astros, tenebrosa majestade,
Ó planetária comunhão fecunda!
Óleo da noite, sacrossanto, inunda
Todo o meu ser, dá-me essa castidade,
As azuis florescências da saudade,
Graça das Graças imortais oriunda!
As estrelas cativas no teu seio
Dão-me um tocante e fugitivo enleio,
Embalam-me na luz consoladora!
Abre-me os braços, Solidão radiante,
Funda, fenomenal e soluçante,
Larga e búdica Noite redentora!

sexta-feira, julho 11, 2014

(pôster) Maradona - me das cada día más



o carrinho salvador


Seria injusto com meu amor pela Argentina, e seu papa, e suas chicas, e seu drama, e sua alma, eu fechar questão unilateralmente pelo meu outro grande amor que é pela Alemanha. Estranha espera pela grande decisão de domingo: não consigo me render ao binarismo inerente à mente humana, o de tomar partido por um contra o outro, racha de opostos  que o nosso mago Nelson Rodrigues evoca, falando da existência, não só de seu avatar em chuteiras, quando diz que "o Fla-Flu nasceu quarenta minutos antes do nada". O universo, sua palheta de notas e cores e sabores e flagrâncias  de um fluxo permanente de harmonias discordantes, segundo Heráclito. Permanente impermanência é uma delas, fla-flu entre o ser e o devir. O conflito tão inerente ao Ser, à vida, consegue preceder até mesmo o Nada que o neutraliza por instantes, não tanto nos começos, mas nas culminâncias em que tudo recomeça: breve extinção nirvânica em que a alma se redime das polaridades que a arrastam entre direita e esquerda, acima e embaixo, o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o belo e o feio, desejo e aversão, o par e o ímpar, o fla e o flu. É verdade que, compelido por eflúvios de um fla, instintos de guerra, me delicio a imaginar Dilma Rousseff entregando a taça para Messi debaixo de todas as vaias do universo, até das pedras do estádio, dos geraldinos calados e enxotados de dentro e de fora do Maraca pela marcha do circo elitista e asséptico em que transformaram e engessaram nossos estádios e nosso jeito moleque.
 Mas os sete a um são humilhação contundente o bastante para deixar, ufa!, algum "legado da Copa", na forma de uma tomada de consciência sobre nosso atraso e miséria, nossa tragédia de governados por uma passividade, uma corrupção em todos os níveis, uma dominação por arcontes de um país em que falta segurança (advogados tendo a cara de pau de defender que todas as profissões têm ética, por isso bandido pode mesmo se calar e não entregar colegas), educação, saúde, transporte, água, vergonha na cara, Estado eficiente e limpo (talvez pela falta de água para lavar-lhe a cara com sabão),  capitalismo consciente e desimpedido, solidariedade social, estruturas racionais (não de mero racionamento) para lidar com a explosão demográfica, amor patriótico e místico de cada um por si e por todos. Falta heroísmo, liderança, como faltou no massacre alemão a capacidade de suprir a ausência de nosso melhor jogador. Oras, na semifinal contra a Holanda, Messi esteve longe de ser Messi, que por si só está mais longe ainda, como os homens dos deuses,  do mítico Maradona (vide acima o encantador vídeo de 1986 sobre este "tipo especial de herói", que carregou no seu metro e meio, pé esquerdo e "mano de Diós" seu time e nação ao bicampeonato mundial, na final contra a Alemanha, que se vingou na decisão seguinte, em 90, com o também pitagórico craque da camisa 10 Matthäus). Mas mesmo sem Messi houve um Mascherano que, aos 90 minutos de jogo, teve coração que o bombasse de sangue e raça para o pique monumental, o salto em distância e o impor sua chuteira ao caminho da bola do holandês Robben que tinha o endereço das redes e, para a  Argentina, o da volta para casa sem a taça. 

Argentina, nome mágico até porque designa um país e sua mulher, beldades sombrias e aguerridas, suas alejandras, para lembrar a Lilith do romance de Ernesto Sabato. Do meu posto no coro dos místicos adoradores da faceta feminina de Deus (Sofia, a Sabedoria), digo amém a Schopenhauer quando diz que o romantismo, tão intrínseco aos alemães, é produto do cristianismo, na sua "religiosidade exaltada, veneração fantástica da mulher e coragem cavalheiresca, ou seja, Deus, a mulher e a espada", símbolos do romântico, diz o grande pessimista.
Reconheço traços deste heroísmo romântico da pátria de Siegfried  - o herói germânico que deu um pé na bunda da seleção do Zé das Medalhas, do Barba e dos políticos que queriam carona manipulatória no eventual sucesso do time da CBF- no "carrinho", diminuto só no apelido, pequenino na pobreza latino-americana, mas imenso em garra, coragem e competência,  "carrinho" com que  Mascherano salvou sua donzela Argentina e a conduziu em segurança para a batalha dos pênaltis e, de lá, para o Maracanã no domingo. Delírio da massa dos hermanos em Buenos Aires, segundo testemunham os vídeos, e aqui mesmo, entre nós, conforme pude atestar celebrando junto com eles nas ruas de Sampa. 
Ao contrário portanto do nirvana extintor, deixo que minhas labaredas de afeto ardam pelos dois lados neste domingo. Qualquer dos resultados possíveis  me trará alegria e, creio, legados de ensinamento para o país que podíamos ser, para o gigante que devíamos acordar, não na mera baderna feriadeira de quem pára as ruas para infernizar a própria população, mas no mergulho em nós mesmos, em missão de resgate como indivíduos e cidadãos, num carrinho mágico -o do trabalho firme e consciente- que nos leve para além deste campo baldio de humilhação e deserto.
-Unzuhause-

quarta-feira, julho 09, 2014

quando a gente não cabe em si


O estranho prazer que os 7 a 1 me propiciaram me fizeram tirar da gaveta e vestir a camiseta alemã da Copa de 1990, quando eu tinha 13 anos. Em perpétua briga com a facilidade engordar, não posso negar a alegria por meu corpo caber assim num ìcone tão emblemático da minha infância, quando era o netinho pelo qual vó e vô moveram mundos e fundos pra achar a bendita camisa, e desenhar o número 10 de Lothar Matthäus nas costas, como que me vestindo da capa, espada e manto de um afeto tanto mais urgente quanto, naquele ano, eu suportava a dificuldade de pela primeira vez estar longe da minha mãe, que passava então um período de estudos na Europa como professora de Farmácia da USP. 
Até pela energia que descobri em mim para superar o baque winnicottiano, aquele ano foi inesquecível, aquela Copa também, bem como a camisa da seleção campeã. Um esboço nas quatro linhas e cìrculo do mandala infantil de uma jornada iniciática (que o alemão Hegel chama de fenomenologia do espírito) de tomada de consciência,  busca da reconciliação da existência e da essência fraturadas pelo tempo, primeira vez em que joguei mais a fundo com a sensação de que meu desterro existencial -que anos depois recebeu aqui o nome alemão de "Unzuhause", de Heidegger- me fazia um migrante nato, um peregrino cujos países provisórios, territórios para abrir tenda,  são minhas próprias imagens  pessoais, dentre as quais a que me liga a este povo genial, profundo, cuja paixão por si mesmo, nas raias do misticismo ariosófico, foi sim manipulada criminosamente por fanáticos nazistas numa quadra triste da história mundial, o que porém não tem autoridade para rebaixar a paixão originária da qual se fez ideologia parasita. As ideologias políticas, delírios do homem moderno desenraizado de seu Deus, são sempre parasitas, substitutos de um desejo que é tão imenso quanto nosso vazio e quanto o nosso primeiro e eterno Amor.

O corpo cabe na roupa, o que não cabe em mim é a alegria, nesse sentido "extática" (pra fora de si) que me vem em sentir os eflúvios daquele tempo bom de minha vida, desses hiatos mágicos em que perdas e descobertas, inspirações e dificuldades, são a luz e a grade de ferro cujas sombras, dentro do cárcere, nos permitem imaginar partituras de parâmetro para uma composição ressonante, uma música órfica que nos liberta dos homens, da corruptibilidade, do barulho "deles", dos outros. Silêncio profundo e liberdade de ir e vir como na Avenida Paulista na noite de ontem.  Sem urros de drogados pela cachaça e pela alegria feriadeira, sem  petralhas nem  black blocs (primo rico e primo pobre da vulgaridade bolivariana em marcha entre nós) por perto para encher o saco.  Em paz, a sós. Militante, eleitor e candidato único de meu Partido Resistencialista, homenagem que faço ao conceito de Resistência que, em livro com este nome, Ernesto Sabato, ao final da vida, nos legava como verdadeira plataforma de superação das vulgaridades degradantes da vida moderna, a começar do barulho de pardieiro. Pretendo, já que estamos em campanha eleitoral, ir compartilhando com vocês ideias sabatianas e outras, para esse Partido Resistencialista. Resistir não no sentido do mecanismo freudiano de trancafiamento do inconsciente, ao contrário, resistir como gesto de dar voz ao inconsciente. Existir autenticamente é resistir ao que no mundo nos inunda de má-fé, covardia, mentiras e violência. Resistir é re-existir, se dar uma segunda chance, vestir de volta o manto da infância, mesmo que depois de enxugar as lágrimas por não ter a vó e o vô de amor desmesurado para nos saciar os caprichos e paixões infantis.
"Uma coisa que me perturba terrivelmente é o barulho. Às vezes caminhamos vários quarteirões antes de achar um lugar onde tomar um café em paz. Não que por fim achemos um bar silencioso, apenas nos conformamos em pedir que, por favor, desliguem o televisor, coisa que fazem com a maior boa vontade por se tratar de mim, mas eu me pergunto como as pessoas que vivem nesta cidade [Buenos Aires] de treze milhões de habitantes fazem para achar um lugar onde conversar com um amigo. Isso acontece com todos nós e muito especialmente com os verdadeiros amantes da música, ou pensam que preferimos escutá-la enquanto todos falam de outros assuntos e aos gritos? Se todo mundo reclamasse como eu, energicamente, as coisas começariam a mudar. Eu me pergunto se as pessoas percebem o mal que o barulho lhes faz; ou será que se convenceram de que o moderno é conversar aos gritos? Em muitos apartamentos dá para escutar o televisor do vizinho. Como é possível ter tão pouco respeito pelo outro? Como o ser humano faz para suportar o aumento de decibéis em que vive? Experiências com animais provam que o volume elevado prejudica primeiro a memória, depois enlouquece e finalmente mata. Eu devo ser como eles, porque faz tempo que ando pela rua com tampão nos ouvidos".
(Ernesto Sabato, A Resistência)
-Unzuhause-

sexta-feira, julho 04, 2014

o diário de Hazel Grace


A nota, ou melhor, o "lembrete do Autor", no início do romance "A Culpa das Estrelas", adverte: este romance é um romance, tautologia que muitos esquecem quando se perguntam o que na história é "verídico", o que aconteceu "de verdade" com o próprio inventor. São perguntas ruins não porque xeretas, mas porque atentam, diz John Green com sabedoria, contra a "crença fundamental da nossa espécie", a saber, a de que "histórias inventadas podem ser relevantes".
O senso comum exalta os grandes inventores de engenhocas ou vacinas, mas tem mais dificuldade em lidar com o fato de que a própria vida a que esses inventos se prestam é uma ficção. Uma invenção de sentidos, tapetes vermelhos de realeza que nos permitem pavimentar em sonhos de conforto os buracos da estrada e caminhar eretos como os  "homo sapiens" (homens sábios) que nos orgulhamos de ser. Mas os buracos não nos abandonam só porque preferimos ignorá-los em nossas brincadeiras como "sua majestade, o bebê" (Freud), narcisistas compulsivos num mundo em que nos imaginamos  os eleitos, só nós, para espelhar a imagem e semelhança do bom Deus, dominando e dando nome a todas as coisas.  Malditos buracos. O câncer é um deles. 
E ele é tanto mais odioso para nossas expectativas de "sentido de vida" pelo absurdo de uma parte do corpo se rebelando demencialmente contra o próprio corpo, contra a lógica elementar da autopreservação, mesmo na flor da idade de crianças e adolescentes. Espantosa violência com que atenta à dignidade da pessoa humana. Também aterroriza por sua  imprevisibilidade, afora casos mais óbvios como o câncer de pulmão do fumante.
 A cantora Sheryl Crow resume bem essa perplexidade ao dar seu testemunho pessoal da luta para vencer, e antes disso, para aceitar, o câncer de mama: "Sempre achei que fosse autossuficiente, uma mulher do tipo que faz e acontece. Eu vivia em forma, tinha uma alimentação saudável, era adepta da meditação há anos. Ainda sou assim. No entanto, percebi que o câncer pode surpreender qualquer um e me dei conta de que ninguém controla a própria vida, mesmo que pense o contrário". Nossas ilusões de autossuficiência também ficam à mostra no ideário heroico do menino Augustus Waters, co-protagonista com Hazel Grace do drama de amor e morte entre os dois jovens pacientes terminais de câncer. Não só pela "metáfora" de Gus, o costume de pôr, mesmo nas suas condições de saúde fragílimas, um cigarro (!) na boca sem acendê-lo (gesto de "soberania" de se aproximar deliberadamente de uma arma letal e não lhe outorgar o poder de nos matar), mas também por sua vontade de escapar à morte ainda mais cruel que seria, para ele, cair no esquecimento, não ser "memorável". Destino inevitável, toma a palavra para replicar-lhe Hazel Grace , após o belíssimo "eye contact" com que dialogavam sem palavras no que, afora o encontro súbito, seria nada senão mais uma arrastada sessão do grupo de apoio cristão aos pequenos "isaacs" escolhidos pelo destino como vítimas sacrificiais de sua sanha incompreensível por sofrimento e morte. O desencontro entre o "coração de Jesus" da discurseira do líder do grupo e o afeto que nasce entre dois frágeis e intensos corações de carne mortal, é só um dos sintomas de que no livro de John Green, bem como na adaptação no filme de Josh Boone, os valores sagrados se divorciaram da religião institucional.
A "receita" para o sucesso de "A Culpa das Estrelas", seja o livro ou o filme (do qual falarei hoje), passa longe da mera exploração sensacionalista dos nossos medos mais recônditos e arcaicos em relação ao viver e ao morrer, parteiros psicológicos de crenças como a do destino, subjacentes ao simbolismo da "culpa das estrelas", os signos astrológicos, a vontade celestial, imperiosa, contra a qual nós mortais nada podemos fazer. As estrelas porém não são no filme apenas símbolo do destino aziago; o jovem casal aprende do chef do restaurante holandês que o descobridor do champanhe tivera com seu "invento" um prazer a ponto de dizer que estava saboreando as estrelas.  Vastidão dos sabores, da alegria de viver, que a champanhe também trará aos dois adolescentes na jornada romântica que estavam para consumar.
Choramos "A Culpa é das Estrelas" como os gregos choravam  suas tragédias: por terror, sim, mas também por piedade, e, mais que isso, por admiração pela grandeza dos heróis, no caso, a menina Hazel Grace (a graça), de 17 anos,  e seu namorado, de 18, Augustus Waters - sobrenome cuja semelhança fonética com "hours" é explorada na epígrafe do romance, sendo ambos, as águas e as horas, ali representadas como potências insolúveis de dissolução de todas as coisas, a vitória da Natureza contra todas as ficções, a não ser a do amor parteiro da ressurreição cíclica de tudo o que morre, nem que pela lembrança dos que ficam e amam o que se foi. Mesmo que logo chegue também a vez dos que haviam ficado partirem, mas a memória delas permanece nos que leram o "romance" de suas vidas, o incorporaram, o testemunham, enquanto estão, e se vão, e assim por diante.   Nuvens que passam e ressurgem no ciclo das águas e das horas.
O namoro que choramos de alegria e dor, enquanto dura e quando e porque termina, é entre a natureza, aparentemente cruel, sem sentido, indiferente às pessoas, como diz com intelecto agudo e sem resquício de coração o amargo escritor niilista que vomita (também como pai ferido pela perda da filhinha por leucemia, anos antes) "verdades" sobre o câncer no pobre casal de jovens que ele fez questão de desiludir (não sobre a vida, mas sobre ele, velho bebum amargo). Mas à desilusão com o motivo que lhes levara a viajar (conhecerem o autor do livro que foi um dos pretextos de sua empatia imediata, o ermitão que se escondera dos conterrâneos americanos na Holanda) se seguiu a inesquecível noite de amor, um sem perna, a outra com tubos de oxigênio no rosto, mas para além de estigmas, num reino puro de beleza tanto mais sagrada por vir coroar o que pra mim é a cena mais sensacional do filme, dessas de ir pra minha antologia cinéfila pessoal de todos os tempos, a visita de Hazel Grace e Augustus Waters à casa de Anne Frank, a menina símbolo da devastação irracional que foi o nazismo, câncer dos delírios políticos do século 20. 

Triste e encantadora a sincronicidade proposta entre o drama de Hazel, subindo as escadas íngremes da casa/ museu de Anne Frank em Amsterdã, com dificuldade para respirar, e prisioneira da "bola de ferro" , o cilindro de oxigênio, e a doçura e as palavras da menina  Anne  sobre sua fé, imorredoura em plena catástrofe que lhe dizia o contrário, e a esperança, a certeza da bondade profunda no coração dos homens, por mais que embrutecidos pela História, e o convite que ela faz a que a gente não perca de vista a beleza que insiste em nos fazer companhia por piores que sejam as adversidades. Peças de crença, peças de ficção, nem por isso inverídicas. Grave incompreensão considerar o fictício sinônimo de mentiroso. Abismo entre invenções que descobrem - a verdade oblíqua da condição humana, só passível de revelação na travessia do fantástico- e artificialidades que encobrem, como as historinhas românticas, água com açúcar, que Hazel, no início de sua espécie de "diário de Anne Frank", descarta em nome do romantismo bem mais radical e incrível que tinha para nos contar. 

Romantismo com as tinturas de tragédia, embelezando a ouro não só nossas lágrimas, mas os demorados abraços de casais ao final da sessão. Assim como, no filme, o aplauso a Hazel e Gus, no sótão de Anne incluía um casal gay -outro tipo de rótulo de moer gente na engrenagem da intolerância social- também vi, já com as luzes acesas e os créditos subindo, ao meu lado um casal gay, no melhor aplauso que podiam devotar ao filme que terminara como começara, com tão alta intensidade:em silêncio ou talvez sussurando o "ok" mais simples, desapegado e autêntico de Hazel e Gus, não o "always" ilusório do amigo Isaac, nome que remete ao sacrífício do próprio filho exigido por Deus ao patriarca da fé ocidental, Abraão, em episódio mítico de aparente crueldade absurda parteira de um símbolo da fé incondicional, de novo o par natureza e graça. A diferença contra a indiferença, a revolta no coração humana que, antes de paralisado de uma vez por todas pelas células do mal, nos faz, sabendo que a morte é certa, e que os deuses e a vida após a morte não, sorrir nosso amor por quem nos toca e a quem nos damos o direito de escolher o que nos fira, nem que pela sua partida, já que não sermos feridos, e não nos despedir, não podemos escolher.
-Unzuhause- 

quarta-feira, julho 02, 2014

covardia


Volto pra complementar o comentário ao programa de Gikovate ontem. Como antecipei no post sobre a fila de entrada, o tema de abertura foi o que ele chamou de a covardia, ou medo desmesurado, prudência excessiva, duplamente ruim: desproporcional talvez ao perigo real e inibidora de ações necessárias. Não é o caso do menino franzino que teme trocar soco com o colega de escola maior e mais agressivo. Ocorre que muitas vezes o colega maior se comporta como o franzino. E, no modelo hipotético de Gikovate, ele se inibe menos pelo medo de apanhar que pelo de bater. Sim, tem uma espécie de empatia espontânea com o adversário, a ponto de se pôr na pele dele, por isso machucar o outro seria como machucar a si mesmo. Uma versão por assim dizer muito cristã, e por isso belíssima, para um problema que evidentemente tem muitas outras possibilidades, menos belas, de interpretação.  
O próprio teor cristão deste gesto de não revidar o mal pode assumir tinturas de sabedoria num Tolstoi, e as de um nerd retardado, ao espelho crítico de um Nietzsche, para quem o cristianismo é um manto para acobertar a fraqueza e a fuga de nossos instintos mais essenciais, os de poder e de amar. Interpretações excludentes no âmbito árido de quem precisa de uma fórmula filosófica para se dependurar na vida, mas igualmente possíveis. Na fórmula esotérica de Cristo, duas mulheres estarão, no dia final, moendo no moinho, uma será arrebatada, outra será deixada para trás. Mesmos gestos, mesmos textos, abismo entre os sentidos. 
No caso de Gikovate, a reflexão se conecta a um âmbito mais concreto. Ele pensa sobretudo no adulto que leva consigo vida afora a inibição infantil de dizer não, com mais ou menos ênfase,  a gente folgada, seja pelo medo de bater ou de apanhar. 
Tal pessoa, "altruísta",  pode se esconder o quanto quiser em justificativas elevadas para não passar o trator nos outros, mas assim será candidatíssimo a ser ele chiclete das rodas do trator dos egoístas ao seu redor. Cristão em meio a maquiavélicos (no sentido deturpado desse adjetivo, que não faz jus a Maquiavel), será, como o próprio Cristo previa, um eleito para a bem-aventurança de nutrir fome e sede de justiça, mas, sem a argúcia das serpentes, será um pombinho vítima contumaz de injustiças,  fracassado na certa, nos jogos de poder que povoam a sociedade. Somos competitivos desde os espermatozoides em "fórmula um" para ser o um que vai fecundar o óvulo e formular com ele o ser que viemos a ser dentre os tantos outros possíveis, passando pelo choro pela atenção da mãe contra o pai, a disputa das bolinhas de gude (ainda se brinca disso?) na escola, a menina mais cobiçada da balada, a conquista da futura mãe de nossos filhos (que não se torne a mãe do próprio marido), a carreira, a saúde, enfim, tudo aquilo em que que a essência imortal, a "consciência-testemunho" hindu, se vê como gladiadora mortal nas arenas da existência, diante da  sazonalidade frágil das horas e a escassez das oportunidades. 
Gikovate mencionou, à pergunta de um espectador, a figura do sabotador interno que nos perturba e afronta nossos sonhos e as decisões que precisamos tomar (com coragem) se queremos a felicidade. Queremos? Nossa pulsão de morte, no mito freudiano, certamente quer outra coisa, seu "sucesso" é nos aprisionar ao fracasso, à repetição miserável, ao repouso nirvânico covarde em suportar as dores que acompanham quaisquer projetos consistentes de nos "destacarmos" -como se, nos diferenciando da multidão medíocre que de algum modo protege, nos tornássemos alvos individualizados do facão da castração, como o órgão que se "destaca" no homem quando ele se excita. 
Sim, muitas vezes nos habita a ideia, ou superstição, de que é melhor fugir não só do perigo real (o menino franzino que tem razão em evitar sair no pau com o mais forte), mas do próprio prazer. Então somos o menino forte mas que se bota pra baixo até diante dos mosquitos. Como se proclamando nossa autoridade pessoal fossemos incorrer numa hybris (orgulho) a ser punida pelo demônio. Como se o prazer de viver nos obrigasse a pagar não o preço da responsabilidade, da humildade genuínas, mas o castigo delirante de quem se apavora de imaginar o tijolo que cairá em sua cabeça para punir o delito de tomar sorvete andando e sorrindo tranquilo na calçada! O doutor não deu esse exemplo, mas o da mulher que não conta aos amigos,  por muito tempo, que está grávida, temendo de algum modo que isso acarretaria um aborto espontâneo. 
Quantos abortos a covardia nos impõe? Empregos, viagens, amizades, amores, cursos que deixamos de fazer e viver, pessoas que deixamos de ser, tirando graça da vida em nome da desgraça sempre temida, evitada, e soberana.
-Unzuhause-

terça-feira, julho 01, 2014

paradoxo do palhaço


Sempre volto abastecido de boas inspirações pro pensar e pro viver quando posso comparecer à gravação dos programas do Flávio Gikovate na rádio CBN. E hoje as lições começaram antes, na fila do teatro da Livraria Cultura, ao escutar a conversa de um assistente do programa com o público que esperava para entrar no teatro. Ele falava de perrengues que às vezes passa com gente chata e mal-humorada nas filas de toda semana, gente que reclama se o sistema das senhas é assim ou assado, se o lugar que pegaram é esse ou aquele etc. Mas o que podia ser mais uma conversa genérica sobre como somos estressados etc se tornou peça de reflexão interessantíssima, dessas pepitas que a gente colhe com os ouvidos abertos às minas de alma veladas em nosso cotidiano, ou com as retinas sem miopia de ingratidão para aproveitar um lindo dia de sol de inverno como o de hoje.
O rapaz, traduzindo-o em palavras minhas, disse que por piores os constrangimentos e as durezas todas que todo emprego traz no envelope do seu salário,  não são bobagens assim que derrubam sua energia. Extrai sua força inclusive da rememoração das situações difíceis que já encarou. 
Ele vem da experiência de atuar como comediante, mais exatamente como palhaço. Me fez lembrar o "paradoxo do comediante" (teoria sobre o ator em geral) de Diderot ao dizer que, de um bom palhaço, se exige o despojamento radical a ponto de poder fazer rir mesmo quando por dentro o ator chora. Tem um filhinho de um ano e oito meses que esteve internado por um tempo em hospital, para onde o pai ia toda noite velar e dormir após mais uma jornada em que por dever de ofício havia feito rir filhos dos outros. 
Outro despojamento, por assim dizer zen-budista, penso eu,  de um palhaço, ele observou ao falar de outro desafio: superar os pudores do ridículo, estando de peito aberto, assim, para o que der e vier. Com a coragem para a loucura dos poucos escolhidos, dentre os muitos chamados, para a aliança com o (não) sentido invisível da vida a ser inventada e posta de pé, como a Arca de Noé segundo o poeta místico Rumi: "Não hesite diante de um projeto maluco, como o de Noé. Não fará nenhuma diferença o que as pessoas pensarem de você".
Quanta auto-estima é necessária para deixar de lado, em nome da arte, o senso limitativo de ridículo, observou acertadamente a senhorinha que escutava o gentil funcionário. Sim, auto-estima, mas não autorreferência narcísica, de gente que precisa se esconder na montagem obsessiva da  "melhor versão" possível de si mesmo para se vender a preço de amarelo ouro que não passa de amarelo baço de banana, escudo de baixo preço tingido de virtudes e arrogâncias "sérias" para não precisar expor e sustentar a dor de ser quem se é, mas só a delícia falsa do que se finge ser, ator canastrão na existência.
Melancólico amigo de Cioran, Dostoiévski, Schopenhauer, Buda e Cristo, tendo muito a ser sensível às dores do mundo, ao que a existência oferece de sofrimento, como estágio preliminar no aprendizado da gratidão. Essa propensão ao negativo, até como método para dissolver ilusões e futilidades,  não me priva da graça de tantas vezes gargalhar como um Bira do Jô Soares, tampouco a fé nas palavras com que Nietzsche, trágico da alegria, pessimista bacante do poder, denuncia a pseudotragédia dos exaustos de viver, que se arrastam sobre a muleta dos valores de fachada,  esses trapaceiros covardes -covardia, aliás foi o tema de abertura do programa de Gikovate, volto a isso depois:
"De momento, a comédia da existência ainda não se tornou 'consciente´de si mesma. De momento, continuamos a viver na era da tragédia, na qual imperam a moral e a religião". Admiravelmente concordante com isto é Oscar Wilde ao fuzilar os falastrões da vida burguesa, aqueles que Sartre em A Náusea chama de os sinistros "salauds", e que Wilde contempla com a distância sarcástica de seu dandismo: "A seriedade é o único refúgio dos medíocres".
-Unzuhause


os três meninos


Daqui a poucas horas a Argentina entra em campo para jogar seu destino na Copa do Mundo. Antes que lamentos ou exaltações em torno de lances e resultados da partida monopolizem as percepções, queria registrar neste canto sagrado a notícia que divulguei dias atrás no facebook, agora plataforma solitária que me resta, afora este blog,  de contato com o mundo virtual, oficializado que foi o fim do saudoso orkut (não o acesso há séculos, mas guardo com carinho e dor sua memória e sua saudade, pelas comunidades e afetos de que lá desfrutei), destino que espera pelo "face" e por todos os outros divertimentos de manada, como os de balada, que de repente "perdem a graça" e são descartados por algo tão diferentemente idêntico. 
A notícia, ou rumor, do autismo de Messi, segundo o link a seguir (http://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-o-autismo-de-messi-o-ajudou-a-se-tornar-o-melhor-do-mundo/) não é de hoje, mas vem a calhar como inspiração em tempos de Copa e de revalorização necessária da meritocracia estritamente individual: fazer dos sintomas um "sim, toma", que é teu este desvio da norma, este caminho próprio e de craque para meter gol. Messi pode não ter o "carisma" que a cultura midiática tanto idolatra nas suas "estrelas", mas ensina o caminho da glória contra o coitadismo e o coletivismo. Sim, toma que és tu essa singularidade, esta consciência anormal, e toda consciência é uma doença, diz o homem do subsolo dostoievskiano, é infecção do mundo pela solidão em que se joga o jogo da criação sem justificaticas, absurda e sublime como um grito e um gozo de gol para arquibancadas vazias por mais que lotadas de ruído e gente. 

Como tudo de decisivo na vida tem dois sentidos, da existência de Deus à dar erva no campo, a genialidade não carismática de Messi se complementa à perfeição com o gol de placa  de David Luiz fora das linhas, ou melhor, na margem delas, no campo de treino, pelo carinho que devotou ao menino fã:

Lembro que o próprio Messi foi muito julgado outro dia por ter, ao que parece, ignorado uma criança que lhe pedia autógrafo, não vi a cena mas ela converge com o retrato psíquico que sua síndrome sugere, e que os julgadores talvez desconheçam ou achem  desprezível para seus padrões circenses sobre o humor obrigatório que celebridades precisam segurando com os mindinhos um sorriso obrigatório para os flashes.

 Um chato oposto poderia impor à cena do zagueirão do Brasil, esse realmente carismático, num sentido autêntico e cativante, a suspeita de se tratar de ação marqueteira. É sempre possível aos medíocres achatar o mundo à medida tacanha de suas sinapses miseráveis. O que importa é que, ganhe "Brasil", ganhe "Argentina" ou quaisquer outras abstrações deste naipe o jogo abstrato da copa mundana,  o jogo que importa tem em Messi, em David e, também, neste terceiro menino, o da corrida apaixonada pelo autógrafo de David, os campeões que me importam, os agraciados por sentido de viver e vibrar e correr no absurdo do mundo.
-Unzuhause-