Wednesday, April 30, 2014

os dentes de Aidar


Carlos Miguel Aidar voltou à presidência do São Paulo mostrando os dentes. Tem todos na boca, dote típico de são-paulinos, segundo um de seus desprezíveis espetáculos de arrogância: "Gostaria muito de ter o Kaká de volta. Tem a cara do São Paulo, alfabetizado, bonito, tem todos os dentes na boca".
Foi um novo ataque ao Corinthians e aos corintianos, depois de ter considerado nosso estádio -que segundo ele nem é nosso, mas "da Odebrecht"- inviável para shows, já que Itaquera  “é outro mundo, outro país”.
 O comentário, que lhe valeu a acusação de "racista" e defensor de apartheid por Andrés Sanchez, é realmente de um grau de sensibilidade social notável; não surpreende que ele tenha aparecido essa semana, pançudo e posudo, com pencas de banana numa entrevista coletiva, dizendo-se a favor da causa do "somos todos macacos"; comeu uma das bananas e disse que "estava verde", para sacramentar a verdadeira intenção, que era "dar uma banana" para outro rival, o Palmeiras, de quem tomou um jogador sem a menor consideração ética, além de, mais tarde, tripudiar em cima do maior campeão brasileiro chamando-o de "time pequeno".
Aidar é um cartola cuja primeira passagem pelo poder é de saudosa memória para são-paulinos e para quem gosta do futebol brasileiro. Foi um dos expoentes da rebelião contra a CBF que resultou na Copa União, em 1987, além de gerir o clube do Morumbi na época áurea dos "menudos" Careca, Miller, Silas etc. Naquela época, cuidar bem do seu time não lhe parecia incompatível com um pensar bem o futebol como um todo, e ter decência e  decoro em relação aos co-irmãos.
Essa postura ficou para trás. Pelo jeito nem vem para contribuir com um nível menos abjeto -e menos violento, menos racista, inclusive- do atual futebol, e tampouco tem lá grandes ideias para seu time; suas falas cheiram a bolor, raciocina por generalidades, martela exemplos velhos, e sua prática como gestor também começa mal, ao torrar milhões em jogador mediano como um Alan Kardec. 
Prefere achatar o mundo para que caiba em sua visão de mundo canhestra, prefere jogar pra galera, num torcer que é distorcer, mentir, talvez até para si mesmo, talvez contornando a dor insuportável de ver-nos como sede, mesmo no fim do mundo, da abertura da Copa do Mundo. Para Aidar não; ele se defende desse trauma com a  "brincadeira" que gosta de repetir de que "a abertura vai ser no Morumbi, no dia 6 de junho [último amistoso da seleção, contra a Sérvia], e o segundo jogo será no Itaquerão".
Esse ódio, esse marketing da brutalidade, esse me autoengano que eu gosto, essa arrogância estúpida, essa falta de ética, mostram a que grau de sarjeta o futebol, que digo, o país, está chegando. Uma sociedade que se arrasta numa espiral de culpas de alto a baixo da pirâmide de classes,  a começar -o que não lhe torna a culpa menor, ao contrário- de elites predatórias, selvagens, para as quais uma sociedade de mercado "é isso mesmo, bobeou te quebro a perna", como se tentou justificar o que fizeram com o Palmeiras no caso Alan Kerdec. 
E logo Alan Kardec, homônimo de um mestre que veio ensinar a vocação mais elevada, espiritual, evolutiva, que dá sentido a nossa encarnação no campo verde e áureo em que viemos disputar o jogo da vida na Terra.  
-Unzuhause-

a monstruosidade de Cristo


Acaba de sair no Brasil, em tradução da editora Três Estrelas (selo da Folha de São Paulo), um dos estudos teológicos mais impressionantes com que tive contato nos últimos anos: A Monstruosidade de Cristo, livro que traz dois artigos de Slavoj Zizek e um de John Milbank.  
Quando o li pela primeira vez, me senti alimentado de infinitos subsídios para pensar os nexos entre teologia e filosofia, e a problemática presença de Deus num contexto secular que, arrogante, o dava até pouco tempo atrás como "morto". É hora de reler.
A questão da morte de Deus está no centro da pauta. Aqui, explorada não da maneira mais habitual, nietzschiana. Foi o discípulo de Dionísio quem, como se sabe, fez a mais famosa declaração de óbito do Deus judaico-cristão, num fragmento de A Gaia Ciência:
Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – Gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? (…) Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob nossos punhais – quem nos limpará este sangue? 
Morte da Morte de Deus
Em A Monstruosidade de Cristo, porém a referência filosófica de que os dois autores partem é a "morte de Deus" na versão de Hegel, que é quem também definiu Cristo como um "monstro" ao se referir à sua constituição ontologicamente "anômala", híbrida entre o humano e o divino.
Zizek retoma a meditação hegeliana da morte de Deus de uma maneira bastante heterodoxa. Contra a "morte da morte de Deus", ou a ressurreição do fantasma divino em tempos de esgotamento de evangelhos profanos como o iluminismo e o marxismo clássico - o próprio Zizek é expoente de uma nova formulação da "hipótese comunista", como diz o amigo dele e também grande filósofo da nova esquerda, Alain Badiou.
Mas Zizek não se limita como um Richard Dawkins à liturgia previsível de contrapor à "superstição" religiosa as "verdades" da ciência. Ele é mais sutil que isso, pois sabe que a própria ciência se presta a todo tipo de usos e abusos como ideologia, falsa consciência, "religião". A sociedade que sempre se projeta a si mesma, em suas cisões, contradições e embustes, em suas crenças que se configuram como imagens de mundo que  cada época escolhe, impõe contra alternativas, e consagra como se fosse o mundo em si, e não uma imagem dele.
Qual um analista da escola de Lacan - para evocar o outro grande autor, ao lado de Hegel e Marx, que sustenta e tonifica a "ressurreição" do comunismo no evangelho zizekiano-, o pensador esloveno exercita uma espécie de escuta ativa da "travessia do fantasma" cristão da civilização ocidental. Não para meramente eliminá-lo (parem de acreditar, Deus está morto sim, ou melhor, nunca existiu), e sim "superá-lo" dialeticamente, e deixar aflorar a verdade, o núcleo traumático e valioso, que tal fantasia portava distorcidamente. 
 Jesus Cristo é "monstro", diz Zizek, não sem indisfarçável admiração, dessas que nos faz elogiar um grande esportista, por exemplo, como um monstro (termo menos banalizado hoje em dia do que, infelizmente, o que estão fazendo da sagrada palavra "gênio"). Filho de Deus, Filho do Homem, o Cristo zizekiano é  o Deus que ao se encarnar como homem e ao morrer na Cruz representou o apocalipse do próprio divino. 
Solidariedade e revolta
Apocalipse que deve ser saudado em seu potencial revolucionário: o que resta vivo do Deus morto (quiçá daí a expressão Novo "Testamento"?) é um Espírito Santo que não pode ser senão o amor comunitário entre nós, os órfãos de transcendência. 
Resta, e já seria muito, a aceitação do mundo imanente como ele é, e o afeto dos homens entre si, não porém em igrejas tradicionais mas no engajamento político radical, novamente em pauta nestes tempos de crise do capitalismo global, catástrofes ambientais, mal-estar e  revolta contaminando ou fertilizando as ruas de uma nova solidariedade entre cidadãos que estão fartos de um Estado que insiste em não nos representar e em gozar de nossa cara, como um demiurgo palhaço, cruel e impotente. Solidariedade, penso eu, que como tudo que provém das energias mais profundas da psique coletiva não tem um significado único, fixo, uma única ideologia. Uma energia que pode assumir a gramática de uma denúncia da farsa da Copa do Mundo ou descarregar-se na fúria que amarra ao poste criminosos que, combatidos não por quem de direito, se tornam os bodes expiatórios de nosso pânico.
Já John Milbank mobiliza um arsenal de referências como Chesterton -o autor de "Ortodoxia" é também muito comentado por Zizek-,  Tomás de Aquino e a mística de Mestre Eckhart, e sintetiza o que entende por uma "ortodoxia radical", de grande repercussão nos debates teológico-políticos da atualidade. Trata-se de uma valorização do eterno paradoxo das relações entre Criador e criaturas, sua consequência numa nova teoria da democracia e sua oposição à dialética histórica cuja linha direta iria das "Luzes" teocidas do Esclarecimento ao incêndio em massa de corpos humanos na pira sacrificial das ideologias de esquerda ou de direita.
UFC das ideias
"A Monstruosidade de Cristo – Paradoxo ou Dialética" é um verdadeiro "ultimate fighting" intelectual, como diz o organizador Creston Davis. Um debate filosófico, teológico e político de altíssimo nível, sobre o significado do aparentemente dócil Nazareno que "monstruosamente" transtornou a história e dividiu o tempo em a.C. e d.C. No corner à esquerda, Slavok Zizek, robustecido da habilidosa articulação que promove entre o materialismo hegeliano-marxista e a psicanálise de Lacan e do fervor de seu apostolado contra o capitalismo global e suas quimeras ideológicas, como o "multiculturalismo". Não por acaso resgatar aqui as dimensões religiosas universalistas –de tipo cristão- da humanidade ocidental, afirmando porém a morte de Deus como consumação lógica autêntica da Revelação de Jesus Cristo. À "direita", segundo sua provocação ao "fascismo light" do oponente, ele vê John Milbank e, mais que isso, as teologias pós-modernistas à la John Caputo e Derrida, e idealistas obscurantistas como Jung. Diz que seu ateísmo é "mais cristão" que a fé de Milbank, o qual por sua vez reclama um "Zizek católico" desde que purificado da canga niilista e posto no bom caminho do paradoxo, fora da dialética. Provocações não gratuitas, mas que atestam que, para ambos, o debate frutífero não é um morna e politicamente correta tolerância, "cada qual com seu cada qual" em posições irredutíveis, mas também incomodar a posição do outro, atritar e assim gerar uma nova luz.
O livro também ecoa debates cruciais como o da "teologia da morte de Deus" articulada sobretudo entre pensadores protestantes no século XX, e abre possibilidades infinitas para quem, como eu, vive a inquietação intelectual e o dilaceramento de consciência entre a crença e a dúvida, que muitas vezes me empurra para a solução "monstruosa" de me considerar um "(a) gnóstico", oscilando, como o poeta bipolar de Quintana, entre a suspeita moderna e a sede ancestral pelo sagrado:


- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver! - Você é louco? - Não, sou poeta.
(Mario Quintana, "Simultaneidade")
O bipolar (a) gnóstico
 Invejo quem tem mais sucesso em acreditar cegamente seja em si mesmo ou em verdades absolutas sobre o mundo. Meu destino é ser recolhido ou forçado a uma humildade que me aproxima por temperamento mais dos agnósticos que dos ateus. E a uma sensibilidade atraída pelos gnósticos, ou seja, pelos que ao invés de acreditar em dogmas e instituições, procuram o divino dentro de si mesmos. Nada mais budista do que um cristianismo gnóstico. 
Gnósticos também são os adeptos da ideia de que, acima do demiurgo perverso que criou este mundo de brutalidade e injustiças (o javé judeu), há um pai silencioso, escondido, a quem é nosso destino regressar após nos purificarmos das poluições do mundo corrompido pelo pecado. Harold Bloom mostra bem a diferença entre fé e saber no âmbito religioso:  “Se você pode aceitar um Deus que coexiste com campos de extermínio, com a esquizofrenia e a AIDS, e, ainda assim, permanece todo-poderoso e de algum modo benigno, então você tem fé [...]. Se você tem afinidade com um Deus estranho ou estrangeiro, apartado desse mundo, então você é gnóstico”.Este texto é citado e criticado por Zizek, numa passagem em que ele martela seu repúdio ao gnosticismo, antigo ou moderno (Jung). Para Zizek, o gnosticismo é uma espécie de má-fé. Uma fuga envergonhada do fardo de acreditar. Quem crê, como diz São Paulo ainda vê em parte, mas não face a face, aquilo em que acredita.  Na crítica de Zizek -aqui curiosamente bastante cristão, à maneira tradicional-, a gnose é a fé que se esconde na soberba de um suposto "saber" (gnosis, em grego). 
Outra bipolaridade que este livro assedia em minha alma é o medo e o desejo por uma teologia de esquerda. Vejam bem, não se trata de petismo, lulismo, a esquerda é ideia nobre, arquetípica demais para se restringir a discussões partidárias. Juntamente com o livro de Eagleton, "Doce Violência", sobre ou para um marxismo trágico (cf.  minha resenha para a Folha em post recente), "A Monstruosidade de Cristo" aponta caminhos, não necessariamente os que os seus autores preferem, para uma nova teologia da libertação, mais cética, mais niilista, menos preocupada em agradar ou desagradar, sofrer e atacar no intramuros de instituições eclesiásticas. Uma teologia de filósofos, de livres pensadores, de homens de bem, de gnósticos, agnósticos, (a) gnósticos, ateus, enfim, de gente que entenda o peso que o simbolismo da fé tem como estímulo para a transformação de um mundo que geme agonias de parto ou de morte. Depende de nós.
-Unzuhause-

Monday, April 28, 2014

pessoas e ideias, embalagem da embalagem




Nem sempre o argumentum ad hominem (que descarta uma ideia combatendo a pessoa que a sustenta) é uma falácia. Ou, se é ilusório, nem por isso deixa de ter efeitos muito reais, por vezes decisivos, na vida da gente. Quantos de nós não pegamos ódio de uma matéria na escola por culpa do professor que tivemos? Quantos de nós não renunciamos ao risco do amor, a ideia de amar, para o resto da vida, só porque a ideia que fazemos, que se nos impõs, do amor é infeliz como os imbecis que cruzaram alguma vez nosso destino?
 As ideias são embalagens da pessoa que com elas se identifica, mas também a pessoa é uma embalagem inevitável para as ideias. Por mais que existam num reino à parte, segundo Platão, elas precisam de gente de carne e osso para ganhar vida, na intimidade de uma pessoa ou, em escala vulgar, na descida ao nível dos falatórios e "polêmicas" e pole-Micos da vida cotidiana.
 Por isso, caros, muito cuidado, em tempos em que somos chamados a "opinar"sobre quase tudo, o tempo todo,  em não se deixarem contaminar por aversão a ideias potencialmente fantásticas, só porque estão nas mãos sujas de alguém que julguemos repugnante. Isso vale no palco miúdo dos embates e tentativas de persuasão dos homens corriqueiros, mas também vale para o destino histórico dos grandes homens e grandes ideologias. 
A densidade da filosofia moral e política de Rousseau não se apequena pelos delírios e crueldades de seu inventor, por ele ter roubado, mentido, largado os filhos em frente do orfanato etc; nem porque, segundo um Paul Johnson e tantos críticos oportunistas, sua utopia de um regime fundado na Vontade Geral foi apropriada por regimes totalitários, isto é, por homens incompetentes ou sem caráter para dar outra consequência ao radicalismo democrático do atormentado cidadão de Genebra. No extremo oposto de um mesmo sonho, o da filosofia que redima o mundo, o pensar de um Heidegger não deixa de ser "urgente", como diria Giacoia, só porque, qual um professor do filme "Anjo Azul", ele precisou extravasar suas noias e anseios românticos contra a modernidade mediante a adesão pessoal, desastrada (e breve) ao partido nazista. 
Isso porém não elimina o momento de verdade -o seu impacto sobre nossas simpatias e antipatias- do argumento "ad hominem". Antes nos convida, como embalagens que somos de nossas embalagens, como representantes da ideia que nos representa, a uma dignidade, elegância, alinhamento do crer e do ser que são cobrados com rigor por Brecht na anedota que se segue:
 "Um professor de filosofia foi ao sr. K e lhe mostrou sua sabedoria. Depois de um momento, o sr. K. lhe disse: 'Você está sentado de modo incômodo, fala de modo incômodo, pensa incomodamente'. O professor se irritou e disse: ''Não era sobre mim que eu queria saber, mas sobre o conteúdo do que falei'. 'Não tem conteúdo', disse o sr. K. 'Vejo que anda grosseiramente, e não há objetivo que alcance ao andar. Você fala obscuramente, e nada esclarece ao falar. Vendo sua postura, não me interessa o seu objetivo".
-Unzuhause-

Saturday, April 26, 2014

Resenhas para a Folha de S. Paulo, 26/04/2014

Pai do existencialismo, decisiva influência sobre as noções de angústia em Heidegger (em conexão com o "ser-para-a-morte") e em Lacan (pulsão de morte, gozo), Soren Kierkegaard tem por sobrenome um termo que significa cemitério

O LIVRO DAS ILUSÕES
Já Diderot afirmava que "só pensamos, só falamos com força do fundo de nosso túmulo. É aí que é preciso se colocar, é daí que é preciso se dirigir aos homens". Essa imagem forte, de angústia e revolta (mais que de maravilhamento) como impulso primário do filosofar, parece vir a calhar para Emil Cioran (1911-1995). 
É de um "cemitério" (que aliás seria o significado, em dinamarquês, do nome de outro mestre do desespero humano, Kierkegaard)  que o filósofo da Transilvânia parece se dirigir aos assim considerados viventes. O cemitério da derradeira dissolução niilista das quimeras humanas.
 Bem verdade que em "O Livro das Ilusões",  escrito aos 25 anos de idade, ainda em romeno, um ano antes do exílio na França (quando passou a escrever no idioma francês), ressoa ainda certo vitalismo nietzschiano de exaltação da música, grande tema do livro, ao lado do elogio, recorrente em toda sua filosofia, à experiência dos santos, mais pela purificação pela dor e confronto heróico com o abismo do real do que  pela crença que os move -vide por exemplo a crítica à ilusão teológica de  que a cruz de Cristo nos "redimiu" do sofrimento.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO   

A NEGAÇÃO
Este texto de Freud, curto, denso e genial, sobre os malabarismos da mente para negar o que deveras afirma, é aqui reeditado na tradução direta do original pela psicanalista Marilene Carone (1942-1987). Freud parte de exemplos clínicos, como o paciente que diz: "Agora o senhor vai pensar que quero dizer algo ofensivo, mas realmente não tenho essa intenção", ou outro que declara: "O senhor pergunta quem pode ser essa pessoa no sonho. Minha mãe não é". Nos dois casos, diz Freud, o "não" precisa ser lido pelo analista como "sim". 
Karl Popper veria nesse "método perigoso" – título do filme de Cronenberg sobre Freud,  Jung e Sabina Spielrein-  sintoma da arrogância de um discurso anticientífico, porque irrefutável, em que não o cliente, mas o analista tem sempre razão, se o paciente concordar ou não com sua opinião. Contra esse tipo de leitura,  a edição traz comentários dos filósofos Vladimir Safatle e Newton da Costa no sentido de realçar afinidades da invenção freudiana com outras visões de mundo abertas à verdade da contradição, como a dialética hegeliana e a lógica paraconsistente, respectivamente.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO

ESPÍRITO E ESPÍRITO DE ÉPOCA
Consagrado romancista de "Os Sonâmbulos" e de "A Morte de Virgílio", o escritor austríaco Hermann Broch (1886-1951) transpõe à reflexão teórica  inquietações também cruciais de sua literatura-como a celebração do humanismo contra as barbáries do século 20. Fugitivo no nazismo rumo ao exílio norte-americano, Broch não admite que os súditos hitleristas de Wotan e do mito ariano monopolizem e abastardem, com seu coração podre, a grande demanda espiritual da modernidade, por um resgate do sagrado como fundamento de coesão social e do sentido da vida. 
Os textos apresentam sua teoria do "valor" cultural, isto é, da cultura como energia criativa que faz o homem se contrapor à morte, cada vez mais tirana no mundo ocidental –e aqui fala um conservadorismo de fundo católico- desde a ascensão do racionalismo moderno e a corrosão da grande síntese medieval entre o bem, o belo e o verdadeiro.   
Nesse contexto se compreende o combate ao kitsch (contrafação da vocação ética e metafísica da cultura) e a alegria com que Broch saúda a remitologização em curso na obra de Joyce, Thomas Mann e Kafka.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO 

RETORNAREMOS DAS CINZAS PARA SONHAR COM O SILÊNCIO
Alquimista do verso à la Rimbaud e beatniks, Marcelo Ariel volta, no seu novo livro, a transmutar poeticamente seu berço de opressões sociais (morador de Cubatão, pobre, negro) em metáfora da poluição existencial do mundo. Mais que isso, em um dualismo quase gnóstico entre a realidade maculada e o "teatro só para raros", no sentido do "Lobo da Estepe" de Hermann Hesse, citado na obra, entre tantas outras referências misturadas com sofreguidão visceral que o imuniza do risco da pose hermética. 
Neste "retorno das cinzas", a alma fênix sonha com um silêncio que não é o dos cemitérios, mas do simbolismo capaz de romper com as nomeações alienantes e acolher a "poderosa presença" e a "beatitude louca" da poesia, esse vento límpido de inspiração que nos "bate à porta" como um messias. O parentesco com outra voz metafisicamente dilacerada da literatura brasileira contemporânea, Juliano Garcia Pessanha, fica explícito em versos como o que denuncia os carros que avançam (ou, na cena urbana habitual, estancam) pelas ruas como  "velozes esquifes" de mortos ao volante guiados por outros mortos à extinção.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

DOCE VIOLÊNCIA
Densa demais para a "insuportável leveza do ser" pós-moderna; aristocrata demais para o paladar popularesco da indústria cultural; máscula demais para as feministas; fatalista demais para os sonhos esquerdistas de assaltar o céu. A tragédia, diz o crítico literário Terry Eagleton, está em maus lençóis na atualidade. E se torna por isso mesmo um tema tão urgente. 
Este livro é, mais que um estudo histórico, uma reivindicação "política" da ideia de trágico, tomada das mãos idealistas e reacionárias em que ela se reduzia a sinônimo de incapacidade humana de transformação do destino. Deveríamos ver no trágico, antes, uma reconciliação simbólica com nossa finitude, com  o núcleo duro e perpétuo do sofrimento humano radicado na mais "materialista" de nossas realidades, o corpo que chora, adoece, que passa fome e frio, que ama, que morre. Em sua defesa de um marxismo mais trágico (e aberto ao elemento teológico), o crítico literário de Oxford passa em revista escritores como Melville, Stendhal, Dostoiévski e Kafka.
AVALIAÇÃO –ÓTIMO

Friday, April 25, 2014

Nietzsche, Quintana e a filosofia do toque


Como disse o professor Renato Janine em post há pouco no facebook, eis no link a seguir -http://revistaglamour.globo.com/Na-Real/noticia/2014/04/luciana-vendramini-revela-detalhes-de-sua-historia-polemica-tomava-banho-de-ate-11-horas-de-duracao.html- um depoimento "tocante" . Luciana Vendramini falando de si, de sua trajetória "polêmica"  (adjetivo-fetiche, na boca do povo, para nossa indigência intelectual e afetiva carente de "polêmicas" para fugir de seu tédio). A bela comenta também como atravessou essa aflição anímica que é  das mais "gnósticas"  do catálogo psiquiátrico, o TOC, transtorno obsessivo-compulsivo. 
Tal sentido gnóstico, que conheço demasiado bem, na altura abstrata de filósofo e na miséria da aflição carnal que me fez filósofo, remete à antipatia com o mundo material, considerado armadilha, alçapão, lodo de perigos, reais ou imaginários, da matéria densa e poluída do mundo. Vontade de escape e transcendência. "Angelical" recriminação e autorecriminação por pertencer ao cárcere da resistência à res extensa, tentativa de contornar -dar contornos a e escapar- pela Ideia o desconforto com a Coisa. 
Essa abreviatura, TOC, não deixa de soar irônica, em português, para o mal-estar psíquico que justamente torna um inferno a singela experiência de tocar e ser tocado. Quiçá contenha a própria receita da cura, na forma imper-ativa do verbo: toque! e, também ativamente, isto é, com atenção e seletividade relativas, se deixe tocar.. vencendo o trauma pela exposição controlada ao risco. E, mais filosoficamente, abrindo mão da obsessão e compulsão de controlar pela razão pensante o que não tem juízo nem limpeza nem nunca terá, dentro ou fora de nós.
Tanto o homem ingênuo como a religião e metafísica "sérias" se marcam, diz Nietzsche em A Gaia Ciência ("alegre saber"), por uma vontade de saber que mal camufla, nas suas origens, o afeto elementar do medo. O mundo é estranho, indiferente, agressivo, causando medos e inseguranças agravadas pelo "dom" duvidoso de termos consciência de tudo isso. Não nos contentamos em chafurdar na felicidade de porcos, preferindo sermos Sócrates infeliz, ou a caminho dele  –tanto mais filosóficos quanto mais recusamos a massificação que tenta repor em nós, já como seres culturais, e que deveríamos por isso ser livres, a animalidade que a duras marretadas de libertação espiritual conseguimos descascar de nós mesmos.   
Mas esse espírito liberto da res extensa nos ameaça com outra forma de tirania, a do "angelismo" que repudia a materialidade irracional de nossas origens sujas e infectas. O desconforto "tocante", na sua aversão a tocar, é uma variante psicopatológica desse desequilíbrio do espiritualismo excessivo, a mesma desordem que nos faz querer ver "ordem" em tudo, vê-la ou criá-la, sob o risco da condenação ao inferno eterno. Evitar tocar a maçaneta do banheiro, cumprimentos e abraços, ritos de higiene mais longos que um discurso de Fidel Castro, levar seus talheres ao restaurante, pisar só na nas partes brancas da calçada, conferir 300 vezes se trancamos a porta, dispor copos e talheres daquela determinada maneira. Imaginar que se pensar tal coisa será catastroficamente castigado. Onipotências obsessivas do pensamento que Freud remete à infância mágica da civilização e dos indivíduos..
A "gaia" cura que nos resta, se ou enquanto não somos de fato anjos, apenas consciências divididas entre espírito e matéria, é aceitar tal condição, seja carnavalizando geral, como os nietzschianos de senso comum (maioria, ainda mais numa cultura como a nossa, que tem a "alma de feriado", como disse Nelson Rodrigues); seja aceitando o destino de um saber alegre porém trágico, como o Nietzsche profundo, doentio e torturado como um cristo por estigmas de toda sorte (?). Renunciando não à vida, como na ascese de Schopenhauer, mas a "conhecer" a vida sob a lógica do controle ilusório e repressor do conhecimento que traga o estranho no supostamente familiar.
Festejando a alegria e a dor pelo brinde do poema, como Quintana que mimetiza tão bem, ou quiçá se confessa também, a alma bipolar ao versejar, em "Simultaneidade":
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver! - Você é louco? - Não, sou poeta.
Nessa simultaneidade do sim e do não, o bipolarismo poético exporta para os tocados pelo TOC uma lição preciosa: mundo sublime e sórdido, em que a vida é uma doença sexualmente transmissível, misturada em sangue, urina e fezes, processo de dolorosa evolução, e prognóstico final sempre frustrante - para os que se apeguem tão-somente à matéria, e para os que a amaldiçõem e se autocondenem pela pena de um espiritualismo confuso.


-Unzuhause-

Bernardinho e a psicopolítica


A expressão "estado de compromisso" provém da ciência política, mas também se aplica à vida íntima de cada um de nós. 
Não é só um "centrão" da Constituinte, ou este bizarro "lulismo" de bravatas esquerdistas, assistencialismo, aparelhamento do Estado e amizades oligárquico-liberais num espectro que vai de Delfim a Sarney passando por Renan Calheiros, que vivem sob a lógica de um estado de compromisso. Enquanto isso, o pau comendo -isso para os afortunados ou desavergonhados o bastante para extravasar suas fomes- no subsolo coletivo.
Inútil, como diz meu ídolo Bernardinho em entrevista à Folha hoje (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/162953-meu-dissabor-e-com-o-pais-que-nao-tem-prioridades.shtml), esperar por um "salvador" da pátria em meio a esse caos moral e administrativo que é o Estado brasileiro que deixa sua sociedade em agonia e anomia. Embora eu confie no próprio campeão olímpico como um protótipo do homem que poderia dar sua contribuição, descer das alturas da mestria de maior técnico esportivo, dentre todas as modalidades, em nossa história, e dar um novo impulso à coletividade amorfa, derrotada, que necessita virar um "time de vôlei" competitivo sob o pulso de novas lideranças -sim tenho ainda adolescências à flor da pele, mesmo que a pele em si se prepare para os sinais todos de que a juventude sempre passa. 
Mas ficar à espera do Bernardinho político é pouco. Melhor colher seus exemplos na seara em que sua luz brilha com mais segurança. E melhor ainda é esperar nada de ninguém. E tampouco render o fígado aos ódios passivos com "tudo de errado que está aí". Por que não começar por se consertar a si mesmo? Tomar posse da presidência de si mesmo!
 Cada um de nós é território de batalha e teatros de acordos de poder. Propomos ou aceitamos uma dada combinatória de frustrações e compensações, mais aquelas do que estas, como uma espécie de "contrato social" psicológico. O psicológico é social, num primeiro sentido, porque é emanação e refração num espaço subjetivo das coerções objetivas que nos são inculcadas desde antes de descer do ventre da mãe. E é social, num segundo sentido, porque é ele próprio um conglomerado de afetos e representações díspares, que só com grande esforço, e sempre provisoriamente, "só por hoje", como diriam os alcoólicos anônimos, o nome do "eu" comandante consegue organizar, mais como um Soberano hobbesiano autoritário do que à maneira democrática, "do povo para o povo", que o sedutor Rousseau, ele próprio um conglomerado de contradições mal costuradas pelo seu eu genial e carcomido em paranoias, ajudou a modernidade a estabelecer como ideal de vida política. 
Enquanto Bernardinho não vem, que você mesmo seja seu supertécnico, seu craque e seu carregador de piano, isto é, aquela parte de você disponível como o pau pra toda obra que dá suporte ao time e deixa a estrela livre para brilhar e garantir os três pontos, ou, no caso do vôlei, os três sets. 
No metabolismo com o "social" externo a você, quer em termos políticos ou na balada em que você vai procurar pela cara-metade, esvazie-se das expectativas e se abra às surpresas. Atente primeiro ao social dentro de você, ao mundo que você pode melhorar por sua conta e risco, não gastando energia em conversa fiada com as coisas e pessoas, com seus próprios pensamentos (quantas ruminações mentais privadas que, se, físicas fossem, a gente podia pegar e lançar à privada). Fuja do culto ao terapeutismo que instala o Outro, seja o terapeuta propriamente dito, seja a platéia anônima de seus "selfies" virtuais, no lugar que é de seu Self, este núcleo de poder a ser pavimentado nas lonjuras de nossas periferias sociopsíquicas, aquelas em que o próprio eu, sem políticas de pacificação que reduplicam a violência,  cede sem medo, ainda que sob o pulso firme de sua governança filosófica, à realezanarquia, entre Bernardinho e os Sócrates da democracia corintiana, para além de falsas democracias, em comunhão vertical com a divindade além-Deus e com o humano além das caricaturas de gente a que os preceitos idiotas da massificação nos confinam.
-Unzuhause-

Citações complementares para meditação: 

"O ser humano é suficientemente dotado para preocupar-se consigo mesmo, uma vez que possui na alma o germe de sua transformação. Vale a pena observar pacientemente o que se processa em silêncio na alma. A maioria das transformações e as melhores ocorre quando não se é regido pelas leis vindas de cima e do exterior"
Carl Gustav JUNG, Psicologia e Alquimia

"(...) a mentira mais freqüente é a tagarelice. Mente-se por horror ao vazio... Mas a tagarelice também é covardia: medo do silêncio, medo da verdade... É palavra amedrontada. E somos todos tagarelas em público, por esse medo. É por isso que a solidão é uma oportunidade: para, pelo menos uma vez, ir até o extremo do seu silêncio. Essa solidão é antes de mais nada solidão, e nós somos solidão, como diz Rilke, tanto no casal como no meio da multidão. (...) Pedagogia do deserto: criar o vazio em torno de si, para encontrá-lo em si. Não ouvir mais ninguém; não dizer mais nada, escutar o seu silêncio... É preciso começar por se calar, para não mais mentir. O inverno é a primeira estação da alma".

André-Comte Sponville

Wednesday, April 23, 2014

São Jorge no subsolo


Devotos de São Jorge, 23 de abril é também data importante de outro padroeiro fundamental para a consciência moderna: foi numa madrugada de 23 de abril que Fiódor Dostoiévski foi tomado como prisioneiro político pelas forças do czar Nicolau I; começava um drama que o arrastou ao "paredão de fuzilamento" de sua época. Drama que na verdade era uma farsa, pegadinha macabra montada pelo czar para pregar um bom susto nos revolucionários do círculo de Petrachévski,  que naquele ano de 1849 fez circular uma petição para que os camponeses fossem libertos do regime servil. Num regime fechado como o da Rússia pré-comunista -triste sina de pobreza e autoritarismo que o regime de Lênin e Stálin viria apenas a mudar de roupa-, bastava essa ousadia para incriminar intelectuais como o jovem Dostoiévski de então, sensível a um ideário de socialismo utópico diferente da sanha assassina dos baderneiros niilistas que o escritor maduro atacaria de frente em romances como Os Demônios (1871).
Ao invés da pena de morte, o Estado o condenou ao exílio na Sibéria, por longos oito anos, o que ele só descobriu a centímetros dos fuzis apontados para ele.
 Volta do cárcere externo porém não como um cativo de amarguras, e sim renovado pela nekya (descida aos infernos, à "casa dos mortos" a que se refere o título de seu primeiro romance, documental, sobre o tempo de prisão) em que descobriu a profundidade da fé cristã-ortodoxa do povo, tão desprezada ou mal-compreendida pela elite intelectual socialista, niilista, baba-botas do Ocidente secularizado. 
Essa guinada vai se refletir no escárnio com que destrata o "palácio de cristal" das utopias de reengenharia racional e política da sociedade e da vida -como se o absurdo fosse passível de erradicação por decreto e boas intenções- em Memórias do Subsolo (1864). Essa novela, de impacto incalculável na psicanálise e na literatura do século XX, de Camus a Clarice Lispector, passando por Kafka e Beckett,  marca o início do ciclo miraculoso das obras-primas do mestre de Petersburgo, como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov. 
Dostoiévski trocava, descendo aos tormentos do subsolo (do "inconsciente" não meramente psicológico),  o registro chamado "fisiológico", de denúncia social simplista, pelo  "realismo da alma humana"   (cf. Manuel da Costa Pinto, Paisagens Interiores e Outros Ensaios), em que, por exemplo, as classes populares são retratadas não como massa inerte e medíocre, nem como vítima indefesa do sistema social injusto, mas como afrescos da miséria humana universal, em tensão com certa pureza moral latente e com sinais escatológicos -não no sentido chulo do termo, embora esse também não esteja distante, se tomarmos o caminho de alto para baixo; mas a escatologia no universo dostoieviskiano é, de baixo para o alto, da merda para o lótus, a visão religiosa das síndromes e catástrofes do final do mundo - apocalipse perpétuo que é típico da marcha cega da vida moderna, em  que tudo o que é sólido desmancha no ar, diria o grande sociólogo Marshall Berman em livro que, não por acaso, confere a Dostoiévski papel de protagonista entre os grandes investigadores da era burguesa, em suas contradições com um passado arcaico que não acaba de passar. 
Sem aquele 23 de abril de 1849, nada disso teria provavelmente acontecido. Teríamos mais um bom escritor, mas não um gênio manifesto. Mais um intelectual engajado, mas não um profeta. Mais um polemista de "fama", mas não um autêntico místico do niilismo moderno. 
Dostoiévski, Santo Guerreiro contra o dragão da maldade. Dostoiévski, menos "purista" que o grande rival Tolstoi, é um São Jorge fascinado pelo Mal que combate mas que também assimila  como médium - a ponto de o senso comum declará-lo ele próprio como um autor niilista. Sua escrita polifônica impede que seus romances sejam catequéticos, sendo antes a irrupção bruta e pluralista das contradições que dilaceram os "desvãos e subsolos da alma humana", como Jung diria em Aion, noutro contexto de reflexão, mas se servindo, conscientemente ou não, de imagem que atesta o alcance gigante da sombra da antropologia dostoievskiana em nosso mundo em eclipse.
-Unzuhause

depois da Páscoa


Voltando com preguiça dos dias de reclusão a que o tempo forte da Páscoa, como liturgia interna, nos convida. Foram dias de intensa experiência de Jesus Cristo, como tenho escrito nos marcadores ao final de cada postagem. Adotei enfim esse recurso que o blog já oferecia faz tempo; pena não ter tempo agora para retroagir à massa de textos que publiquei e vivenciei nesses já longos anos de aventura virtual. Jesus Cristo não é apenas um nome e "sobrenome" banais, ainda que se refiram à pessoa mais célebre da história do mundo, depois de John Lennon, claro. Trata-se de um nome histórico e de um título eterno; a tensão do sagrado encarnado. Mas se Cristo é "o" caminho, Jesus é "um" caminho, na fórmula generosa e profunda do indiano Ravi Ravindra, mestre hindu e  PhD em física em seu maravilhoso estudo sobre a "Yoga do Cristo" no  Quarto Evangelho (quatro, símbolo mágico da totalidade), o atribuído ao apóstolo São João, que, em indecidível disputa com Paulo, é o autor bíblico que exerce sobre mim o máximo fascínio, entre todos os nomes a que são atribuídos livros do Velho e Novo Testamento.
Jesus, manifestação concreta do Cristo na conflitividade histórica da Palestina do século I, e que neste contexto exerceu o papel profético e messiânico que em nossos dias foi resgatado pela Teologia da Libertação; Cristo, símbolo do Si-Mesmo que acorre a todos nós, nas consciências dilaceradas de todas as eras, como o Inconsciente que nos chama à Libertação universal, mais que política, mas não apolítica. 
Esse aliás é um aspecto que "retorna", no tempo cíclico de minhas obsessões: a paixão pela teologia política que, herança de Rousseau, impregna de paixão os escritos de Boff, Betto e Gutiérrez. Textos que eu parecia forçado, pela depressão, a jogar na lata do lixo de minhas ilusões perdidas com a vitória esmagadora de Ratzinger na caça às bruxas alegres e na sua auto-entronização,  bruxo triste, seco e solitário, como Soberano no trono imperial de Roma. Ao "pedir pra sair", como diria o Capitão Nascimento, e ao abrir espaço para a ascensão de Francisco, Ratzinger objetivamente confessava as limitações de seu carisma pessoal e de seu projeto para a Igreja ante as complexidades do mundo moderno e as rachaduras internas do próprio Templo romano glorioso que, esquecido da humildade nazarena, da competência administrativa e de se abrir aos ventos do espírito do tempo, se expõe aos cupins e ao desastre.  
O novo "bispo de Roma", trazido das lonjuras do fim do mundo, e imbuído do espírito de transeunte dos metrôs e ônibus de Buenos Aires,  reacendeu em mim a chama do círculo sagrado ateada primeiramente pelo meu querido pároco da Virgem da Salette, e que me reúne e me integra no amor por figuras como "dom" Evaristo, "dom" Hélder , "dom" Pedro. Dons de Deus no tempo, por isso efêmeros:  a "era Francisco", o enxame de livros sobre o papa, o falatório da imprensa, tudo isso pode ficar para trás a qualquer instante. O que vale e o que fica é, nos dedos que indicam o Céu, desapegar dos dedos e atender o convite e de fato contemplar o Céu e fazê-lo na Terra, como é proposta arquitetônica, espiritual e moral de todos os templos: replicar na matéria perfeições que a transcendem. 
Dedos sem joias e gordura dos frangos imperiais, dedos sem gestos de ofender e humilhar, palmas não usadas para surrar com ideias e argumentos melhores, palmas estendidas de bênção e de paz. Dedos que tocamos como Tomé gnóstico nas chagas do Cristo ressuscitado, o Senhor que levantando do túmulo assim nos afeiçoa à cruz não como sinal de maldição mas de vitória. Assim nos tornamos "Amigos da Cruz" segundo afirma São Luís de Monfort -grande inspiração da devoção mariana do, esse sim, e como Francisco, muito carismático João Paulo II.
"O esplendor dum tal nome [Amigos da Cruz] enleva-me, ainda que depois venha a esmorece diante do seu peso de responsabilidade. Com efeito, quantas e difíceis obrigações ele comporta! É o próprio Espírito Santo a avisar: 'Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus'", diz São Luís, retomando a afirmação do também apaixonante são Pedro - que não vos inflameis, xará do meu primeiro e eterno pároco, que não cedais desta vez impulso irritado que não é difícil para vossa personalidade altamente inflamável e tempestuosa , ante meus elogios rasgados a vossos colegas de apostolado Paulo e João; também vos amo e já vos representei, como bem lembrais, numa missa de Páscoa muitos anos atrás.
A linda formulação de Pedro inspira uma canção evangélica de que gosto bastante, e que traz em si as virtudes de animação, alegria e "convocação" jovial que ajudam a entender por que nossos irmãos evangélicos crescem tanto no Brasil de hoje; são a seu modo dedos que apontam e convidam a que os católicos saiam da depressão, do marasmo, da falta de entusiasmo (portanto falta de espírito divino no peito) em comer e compartilhar do pão, em reconhecer como os discípulos de Emaús, o Cristo mesmo na partilha do pão, que energiza para as lutas assim na Terra como pelo Céu. 
 O episódio de Emaús é tema do Evangelho de hoje nas missas católicas mundo afora. Releiam (abaixo) com o frescor e atenção que o amoroso dedo indicador de Santo Agostinho lança para o mistério e loucura da vida que ressurge e nos liberta quando tudo parecia perdido, quando a ruína parecia certa, "castigo de Deus" da gente tirana e frustrada que, como canta Chico Buarque, prega o pecado mas esquece de aprender a libertação.
-Unzuhause



Evangelho segundo São Lucas, 24, 13-35
Dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; 
e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. 
Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; 
os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer. 
Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. 
E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias!» 
Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 
como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. 
Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. 
É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada 
e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. 
Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.» 
Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! 
Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» 
E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito. 
Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. 
Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. 
E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. 
Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. 
Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» 
Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, 
que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!» 
E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. 

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África), doutor da Igreja 
Sermão 235; PL 38, 1117 
«Fica connosco»
Irmãos, quando é que o Senhor Se deu a conhecer? Quando partiu o pão. Fiquemos portanto tranquilos: quando partirmos o pão, reconheceremos o Senhor. Se Ele só quis ser reconhecido nesse instante, foi por nossa causa, foi para que não O víssemos na carne, comendo no entanto da sua carne. Portanto tu que crês nele, quem quer que sejas, tu que não tomas em vão o nome de cristão, tu que não entras numa igreja por acaso, tu que escutas a palavra de Deus no temor e na esperança, para ti o pão partido será uma consolação. A ausência do Senhor não é uma ausência verdadeira. Tem confiança, guarda a fé e Ele estará contigo, ainda que não O vejas. 
Quando o Senhor os abordou, os discípulos não tinham fé. Não acreditavam na sua ressurreição; nem sequer esperavam que Ele pudesse ressuscitar. Tinham perdido a fé; tinham perdido a esperança. Eram mortos que caminhavam ao lado de um vivo; caminhavam mortos juntamente com a vida. A vida caminhava com eles mas, no coração destes homens, a vida ainda não se tinha renovado.

E tu? Desejas a vida? Imita os discípulos e reconhecerás o Senhor. Eles ofereceram a sua hospitalidade; o Senhor parecia estar decidido a seguir o seu caminho, mas eles detiveram-no. […] Retém, também tu, o estrangeiro, se queres reconhecer o teu Salvador. […] Aprende onde podes procurar o Senhor, onde podes possuí-Lo, onde podes reconhecê-Lo: partilhando o pão com ele.

Saturday, April 19, 2014

Cristo, servo e soberano


"Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". Este Salmo responsorial é uma das músicas cuja gravidade, de voz e de olhar, faz o encanto da liturgia da Sexta-Feira da Paixão. Na missa de ontem, no meu berço para a fé, a Igreja da Salette, ela se combinou maravilhosamente bem com o clima de silêncio lutuoso que arrepia a medula desde a procissão de entrada dos coroinhas, sacerdotes e do celebrante principal do sacro-ofício pascal: toda missa é uma "páscoa" (passagem, transmutação) em três por quatro. Três como o Deus unitrino, quatro porque à Trindade, segundo Jung, se soma a sombra demoníaca não bem acolhida pelo discurso dogmático oficial . Pensando bem, como poderia sê-lo? 
Mas admitido ou não por nossa consciência, aceito como elemento constitutivo da realidade ou projetado em nossas inimizades - excedentes e hostis ao campo do sentido que gostaríamos que fosse sinônimo de mundo-,  o Mal está presente, nobre antagonista e co-protagonista nos meandros da existência humana retratada no drama mítico. Cristo passa pelas provações todas que configuram nossa antropologia: da traição de Judas à covardia de Pedro, da sanha assassina e invejosa das autoridades e burrice das massas à ironia cética com que Pilatos o interroga a modo de alienista interessado nos delírios de um pobre-diabo: "Quer dizer que você é o rei dos judeus?"; "o que é a verdade?". A solidão absurda das palavas na cruz: Por que me abandonaste? O coração dilacerado da Mãe que chora impotente pois o novo regaço de seu filho é o da realidade quintessencial deste mundo estúpido e indiferente aos corações mais sensíveis, exigindo-lhes a totalidade que advém do quatérnio da cruz, e do ouro, incenso e mirra que são os pregos e espinhos e vinagre para intensificar a sede. O silêncio omisso e cruel do Pai. Como diz mestre Olavo de Carvalho, tenhamos paciência ante os enigmas da vida, afinal nem o Deus encarnado escapou a uma pergunta sem resposta. Não, acrescento, a resposta que não deu a Pilatos sobre a verdade, mas a que não ouviu de Deus na sua agonia. 
Não serão no fundo uma só pergunta? Não terá Jesus, além de massacrado, cuspido, desfigurado como o Servo redentor predito por Isaías, sido também contaminado pela dúvida de Pilatos?  O silêncio do Pai porém é o ensejo a que o Filho encontre por si mesmo a resposta que aliás está não na certeza abstrata, mas na atitude de entrega. Não mais a de Abraão que aceitava matar o próprio filho; o sacrifício de Cristo, Deus introspectivo, já "moderno" neste sentido, é entregar-se a si mesmo. Diferença ética abissal entre a humildade da obediência radical a uma causa e a arrogância inflada que faz da causa pretexto para nossa própria vaidade esparramada no mundo externo. 

Mencionei Jung ao falar do drama do três e do quatro, crucial em suas especulações sobre a relação compensatória entre cristianismo trino e alquimia quádrupla, que inclui também o elemento material / maternal que falta na patriarcalidade quase exclusiva do dogma cristão, com exceção da Virgem Maria. Volto a ele via depoimento colhido por Marie-Louise von Franz, e que eu relia esta madrugada, depois das três da manhã, mas ainda antes de alcançar -no relógio, inclusive- o mágico quatro, e após orar o terço (este dínamo de energia desde que não repetido mecânica e melancolicamente). Jung se referia ao seu jardineiro, aos estudantes, à gente comum que festejou com ele seu octagésimo aniversário  na festa vespertina, depois da cansativo e mais formal homenagem que recebera de autoridades acadêmicas pela manhã:"Sim, essas são as pessoas que darão continuidade à minha obra, indivíduos isolados que sofrem e buscam, e que tentam seriamente aplicar minhas ideias à sua própria vida, e não aqueles que satisfazem sua vaidade pregando-as a outros".

Por "aplicar suas ideias" entenda-se refazer sua experiência, isto é, fazer nossa própria experiência, que é a de todos, que é a de Cristo, a da individuação, modo moderno de designar a autorrealização como a "bela individualidade" de que falava Hegel, a do homem que conjuga na sua singularidade a particularidade já não meramente particularista e a universalidade não mais abstrata, desencarnada. E que "vence" o mundo, seja pela agonia romântica (no sentido de que moderna, cindida, conflitual) de Cristo, seja pela serenidade clássica de Apolo de Belvedere, esse arquétipo para os idealistas alemães da virtude da altivez que faz o espírito fitar o horizonte para além da carestia profunda do mundo. 
São dois caminhos de universalidade concreta a que uma mesma vida nos envia. O próprio Cristo de tantas representações pictóricas medievais -tempo forte em que sua mensagem estava já com o cetro na mão no trono do mundo, não era mais a rebelião de pescadores e escravos à margem da História- é mais este Soberano cósmico  "grego" do que o Servo que carrega nossos fardos de fraqueza, incerteza e opróbrio. 

Mas que tenha passado, enquanto avatar mortal, pelo itinerário da servidão humana antes de retornar à realeza gloriosa do Logos joanino é um paradoxo  que deu muito trabalho aos cristãos para tentarem convencer os gregos de que não só o homem virtuoso, mas a própria divindade, nisto mais dionisíaca que apolínea, se co-move da embriaguez do sangue-vinho do amor pelos homens e que se sujeita à paixão (pathos de amor arrebatado e de enfermidade, patologia), se converte de Substância fora do tempo, espaço e causalidade em Sujeito porque submetido à individuação, homem das dores, ecce homo que vence na suprema derrota, conquistando e distribuindo pela morte a verdadeira vida. Ideia e experiência a serem buscadas no êxtase do silêncio e música, do combate heroico e entrega.

-Unzuhause-

Thursday, April 17, 2014

aos pés do mundo


«Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (Lc 22,27)
«Jesus levantou-Se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos». Lemos no Génesis uma narração do mesmo género. Abraão diz aos mensageiros, aos três anjos que o visitam: «Trarei um pouco de água para vos lavar os pés. Descansai debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão e quando as vossas forças estiverem restauradas…» (18,4-5). O que Abraão fez aos três anjos, Cristo fê-lo aos seus apóstolos, os mensageiros da verdade que iriam anunciar ao mundo inteiro a fé na Santíssima Trindade. 
Ele inclina-Se perante eles como uma criança; inclina-Se e lava-lhes os pés. Que humildade incompreensível, que bondade inexprimível! Aquele que os anjos do céu adoram está aos pés destes pescadores! Esta face que faz tremer os anjos inclina-Se sobre os pés destes pobres! É por isso que Pedro é tomado de temor. […] Após ter-lhes lavado os pés, fá-los «descansarem debaixo da árvore», como está dito no Cântico dos Cânticos: «Anelo sentar-me à sua sombra, e o seu fruto é doce à minha boca» (2,3). Este fruto é o seu Corpo e o seu Sangue, que Ele lhes deu nesse dia. É o «bocado de pão» que colocou à frente deles e que os reconfortou para os trabalhos que haveriam de realizar. […] 
Eis «o banquete de viandas gordas e tenras que o Senhor do universo prepara para todos os povos sobre este monte» (Is 25,6). […] Na sala alta, onde os apóstolos receberão o Espírito Santo no dia de Pentecostes, hoje o Senhor do universo prepara um festim para todos os povos que creem nele. […] É isso que a Igreja faz hoje no mundo inteiro. Foi para ela que Cristo preparou este festim no monte Sião, este alimento que nos restaura, o seu verdadeiro Corpo, rico em todas as virtudes espirituais e em toda a caridade. Ele deu-o aos seus apóstolos e ordenou-lhes que o dessem àqueles que acreditam nele.
Santo António de Lisboa (c. 1195-1231), franciscano, doutor da Igreja 
Sermões para o Domingo e as festas, Quinta-feira Santa 




"Já não os chamo servos. Eu os chamo amigos porque lhes dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai".

O dom de si mesmo na refeição ritual é essencialmente o mesmo que a oferta que ele faz da sua morte na Cruz. O contexto da refeição é comunitário e íntimo, uma ocasião familiar. Somente aqueles que se sentiam seus discípulos iriam querer compartilhar dessa refeição – embora ele dificilmente fosse rejeitar qualquer pessoa com fome que estivesse por lá. No Calvário, o mesmo dom de si se expande até adquirir proporções globais, até mesmo cósmicas. A Cruz é uma intensificação da Última Ceia, mas ambos são essencial e autenticamente pessoais. Não pensamos na intimidade como algo que acontece em uma escala cósmica, mas neste caso devemos tentar imaginá-lo. O significado completo depende de esse dom de si mesmo ser ilimitado e romper todos as amarras.

O dom da amizade redefine a experiência humana de Deus de forma muito diferente daquela dos adoradores de um monarca absolutista ou empregados de um magnata. Se uma figura poderosa de repente põe o braço em volta do seu ombro e o chama de seu amigo, você pode se sentir lisonjeado, mas também desconfiar que essa pessoa só esteja te usando. Mas se a pessoa que faz isso está no ponto em que seu poder está mais baixo que nunca e abre a intimidade a partir deste lugar da mais absoluta vulnerabilidade, a opção de aceitá-lo ou não define você tão bem quanto a ele.

Esta é uma abordagem psicológica para a Quinta-feira Santa. A mística é mais profunda e verdadeira. Como podem um ritual e os elementos de uma refeição de repente se tornar a energia da matéria espiritualizada que nutre a alma, alimenta o desejo de amor do coração e faz de estranhos uma comunidade? Ninguém tem que provar isso – exceto no campo de sua própria experiência. A realidade da Eucaristia dissolve as minúcias intelectuais e a regulação legalista numa corredeira de gratidão que é liberada entre aqueles que simplesmente partilham o pão e o vinho.
Dom Lawrence Freeman,
monge beneditino e líder da Comunidade Mundial de Meditação Cristã




Wednesday, April 16, 2014

a síndrome de Estocolmo do pobre de direita


"O tempo não volta, o que volta é a vontade de voltar no tempo. Então faça valer a pena".
A mensagem bonitinha me faz pensar na conversa ontem no busão com um dos meus professores favoritos do departamento de filosofia da USP, de volta do campus para a cidade não-universitária.. Falamos de tudo, desde Steve Jobs e Paulo Francis até a falsa sensação que dá de que a filosofia está na moda junto ao público leigo. Isso de ilustrar nossos preconceitos com uma citação erudita aqui e outra acolá vem de longe, pelo menos desde os milhões de exemplares de  "Os Pensadores" que forravam as estantes da classe média, nem que como suporte do abajur da sala, desde que bem à vista para causar a impressão de sofisticação intelectual em algum visitante ou no próprio morador. 
Falamos também da sensação frequente de que as coisas têm piorado, no sentido de qualidade de vida etc e tal. Os cabelos brancos dele não lhe tingiram a alma de rancor, ao contrário do meu amor à humanidade que talvez esteja se esvaindo com os meus cabelos ainda castanhos mas que já começam a rarear. Digo meu amor à humanidade, enquanto abstração; ainda consigo, graças a Deus, ter os sentidos despertos, os materiais e o espiritual, para a beleza de cada individualidade viva e pulsante que pode haver sob a casca de seres humanos que a sociedade e suas "autoridades" insistem em massacrar e reduzir a massa amorfa. 
Mas dizia que meu professor evita a rabujice de recriminar a vida atual à luz quimérica de alguma "idade de ouro" pretérita. Nada disso. Olhando em escala -e não para o próprio umbigo, coisa de idiotas, leia-se a etimologia desse termo ofensivo mas cada vez mais pertinente-, tudo está é melhorando. Seja no Brasil ou no mundo. Acesso à escola, alimentação. Até a violência, segundo recente livro, desses  que se sustentam em pé, do grande psicólogo cognitivo Steven Pinker. Ele mostra que, em escala global e ao longo da evolução histórica, temos nos comportado com cada vez menos violência, e não mais, embora a mídia do sangue venda a sensação do pânico e da escrotidão generalizadas. 
O que porém fechou com chave de ouro o diálogo, e se concatena com a frasezinha bonita de auto-ajuda com que comecei o texto, é o pensamento que o professor começou a formular e, na pausa que fez após a interrogação, me permitiu completar. Sabe a única coisa que piorou em relação aos "bons e velhos tempos"? É que nós éramos mais jovens...
O tempo não volta, o que volta é nossa vontade de voltar no tempo. Que triste é envelhecer! Que seja ao menos possível fazê-lo com altivez, com a serenidade que, em aula -antes de encontrar esse professor no ponto de ônibus-, um outro professor nos ensinava, ao falar do conceito de Schiller: séria é a vida, serena é a arte. Ao contrário de engajamentos raivosos, mas recusando também a alienação conformista, o artista vive à sombra. Aqui, em sentido positivo: sombra e água fresca, repouso do espírito sob a árvore da Vida, ao abrigo do Sol inclemente. Em geral valorizamos platonicamente a saída da sombra à luz. Mas luz sem sombra cansa, até as pálpebras precisam se hidratar com pequenos beijos da sombra, para que o olho siga vendo bem. Daí talvez a apologia de Hegel à coruja da sabedoria que lança voo somente após o cair da noite; uma metáfora também para o exercício pitagórico da revisão introspectiva que deveríamos fazer à noite dos acontecimentos e pensamentos do transcorrer do dia. 
Bom, descontadas essas derivas do meu espírito, volto ao diálogo com meu professor sábio no busão. Que um evento, um bom encontro, desses seja possível é o tipo de coisa que me conforta das agruras práticas de não estar em Wall Street e me reconfirma o acerto de escolhas como a de fazer filosofia, e não abrir mão do espírito público. Isso me aproxima de um tônus e de um ethos que não encontro na tropa reaça que vive de falar mal de filósofos e sociólogos uspianos, essa gente incômoda que provavelmente seria  convidada a "se retirar" do país em caso de nova ditadura militar. 
Uma amiga me conta que articulistas de direita têm já inspirado caça às bruxas em escolas públicas. O Zé-Ninguém, tão bem descrito por Wilhelm Reich como a massa de manobra de todos os fascismos,  desliga a TV, coça a orelha, tira o ranho do nariz e tem um insight: armado dos bordões e guardando no potinho os vômitos do reaça de plantão,  vai despejá-los na escola do filho, se queixando com o diretor, afinal por que raios meu filho tem que ler esse comunista do Milton Santos?! 
Eis um exemplo clássico, no drama histórico do Brasil profundo, da síndrome de Estocolmo que faz a vítima da violência estrutural da sociedade se apaixonar pelo algoz:  ser pobre e de direita. Logo esse lixo mental temos de importar de nossos irmãos nórdicos, exemplos da conjugação que tanto amo,  de pessimismo existencial teórico e de otimismo social-democrático na prática?
-Unzuhause-

morte e vida estamira


Um psicótico, ou bebum em estado perpétuo, brada retumbante seu evangelho "gnóstico-estamirano" embaixo da minha janela, neste momento. Ele passeia por aqui de vez em quando. Talvez mais do que eu saiba, quando ele está calado, invisível e inaudível, o que deve ser o terror existencial maior, contra o qual seu delírio se insurge e o faz se expor desse modo triste. Tão triste quanto a cidade que "apaga" assim tantos sonhos, sonhadores e os matamorfoseia em zumbis por reações tóxicas à base de rancor e violência cotidiana. A Estamira barbuda debaixo da minha janela berra seus habituais impropérios pessimistas contra o ser humano -que segundo ele nem urubu come, por ser exigente demais para isso; mas ele, o estamirano, diz que comeria, desde que arriem as calças e fiquem de quatro para ele. Gosta também de se insurgir contra Deus: "Deus não vale nada, é tão ruim quanto o diabo, é farinha do mesmo saco!" Nisso revela o viés gnóstico de suas pulsões religiosas, tão frequentes no delírio psicótico que fizeram a psiquiatria de Jung (ele se distinguia de Freud por lidar mais com psicóticos do que com histéricos, daí talvez outro motivo da dessemelhança epistêmica de suas versões de psicanálise) se converter num novo berço de reinterpretação da própria gênese do fato mental religioso.
Com finura teológica meu profeta bíblico pessimista acrescenta que a diferença é que o Diabo é limitado, e a palavra de Deus se renova todo dia. Satanás, réplica limitada de Deus! Limitado e imitador: fala a mentira, enquanto Deus fala a verdade (nisso o devaneio se aclimata melhor a nossas tradicionais dicotomias ético-religiosas, à hierarquia que faz de Deus sinônimo de Verdade, e do diabo, o pai da mentira, dos tempos bíblicos ao racionalismo cartesiano). E depois falam mal do fechamento dos manicômios! Nossas ruas e nossas vidas citadinas seriam ainda mais P&B sem a cor poética-profética desses insurgentes à margem de tudo, que denunciam, a seu modo doente, que nossas margens, isto é, os mapas supostos como mundo para quem ainda trafega dentro em fila indiana como carneiros rumo ao abate de cada dia,  estão apertadas demais.  
Aproveito o ensejo de compartilhar, para quem não conhece Estamira e sua dimensão gnóstica, meu artigo sobre essa impressionante figuração de nossa tragédia humana e brasileira. Foi escrito quando aluno na escola de psicanálise de Jorge Forbes, nos idos de 2006. Daí a tradução lacaniana que dou, esforço maior daquele período, a minhas ideias, inculturando sob "lumières" parisienses minha mais sombria, germânica e selvagem verve arquetípica na apreensão, filosófica, diagnóstica e terapêutica, das realidades psíquicas tortuosas do indivíduo moderno. 
-Unzuhause-


Estamira: mito, delírio e gnose

CAIO LIUDVIK


"Que Deus é esse? Que Jesus é esse, que só fala em guerra e não sei o quê?! Não é ele que é o próprio trocadilo? Só pra otário, pra esperto ao contrário, bobado, bestalhado. Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer? Largou? Quem ando com Deus dia e noite, noite e dia na boca ainda mais com os deboches, largou de morrer? Quem fez o que ele mandou, o que o da quadrilha dele manda, largou de morrer? Largou de passar fome? Largou de miséria? Ah, não dá!"
Nesta que é uma das passagens mais incendiárias e inquietantes de seu depoimento fílmico, Estamira condensa muito de um sistema delirante pessoal dotado de flagrantes homologias, como veremos, em relação a determinadas produções mítico-teológicas  da tradição cultural ocidental.
 Vem à lembrança, de imediato, a expressão "o mito individual do neurótico" (Lacan, J., 1987), que por sua vez é diretamente inspirada nas reflexões de Claude Lévi-Strauss, nos célebres textos de Antropologia Estrutural em que discute a "função simbólica" do mito e a analogia entre o psicanalista e o xamã (cf. Lévi-Strauss, C., 2003).
Não iremos aqui reconstruir em detalhe toda a complexidade conceitual em jogo. Basta-nos a remissão –importante porque nos guiou, em grande medida,  na leitura dos delírios de Estamira-   à afirmação lévi-straussiana de que "na civilização mecânica, não há mais lugar para o tempo mítico, senão no próprio homem" (apud Cardoso e Cunha, T., in: Lacan, J., 1987,  p. 9).  Ou seja, nas modernas sociedades industriais e científicas, o mito é como que, para nos valer de um signo adequado ao contexto de nosso filme,  jogado no lixo, descartado como mentira, embuste ou mero delírio, destronado da posição anterior de destaque como sistema de representações coletivas dignas de crédito; não morre de todo, mas se vê confinado à crendice ou à atividade fabuladora individual, mais ou menos idiossincrática e incomunicável.
A tragédia pessoal de Estamira é também o destino histórico do mito, numa sociedade que tem canais cada vez mais precários e residuais de religação (religião=religare) dos homens entre si, com eles mesmos e com algum sentido de viver.         "O mito", diz Lacan, "é o que confere uma fórmula discursiva a qualquer coisa que não pode ser transmitida na definição da verdade,, porque a definição da verdade não se pode apoiar senão em si mesma, e é enquanto a palavra progride que ela a constitui. A palavra se não pode apreender a si mesma, nem apreender o movimento de acesso à verdade, enquanto verdade objetiva. Ela apenas a pode exprimir –e isso, de um modo mítico. É neste sentido que se pode dizer que aquilo em que a teoria analítica concretiza a relação intersubjetiva, e que é o complexo de Édipo, tem um valor de mito" (Lacan, J., ibid., p. 47). Logo adiante, Lacan se reaproxima da noção de mito enquanto "representação objetivada de um epos ou de uma gesta, exprimido de forma imaginária as relações fundamentais características de um certo modo de ser humano numa determinada época"; é "a manifestação social latente ou patente, virtual ou realizada, plena ou esvaziada do seu sentido, deste modo do ser", definição que, arremata, faz possível e necessário que admitamos encontrar o mito em plena vigência 'no próprio vivido de um neurótico" (ibid., p. 48-9).
O mito está entre os mais clássicos dispositivos coletivos e pessoais de tamponamento da angústia radical da existência, do buraco inscrito no seio do Real, defesa ante o enigma do Ser, semblante de um ordenamento qualquer para o curso errático de nosso estar no mundo.  Não por acaso reconhecia-se ao mito um valor não apenas epistemológico, mas também prático: ou seja, moral  e até terapêutico, como mostra Lévi-Strauss analisando a cura xamânica de uma mulher que passava por extremas dificuldades de parto. Diferentemente do discurso científico, que por si só não cura, pois funciona numa relação exterior de causa e efeito, o discurso mítico estabelece uma "relação interior ao espírito do símbolo (entes míticos) à coisa simbolizada (a doença) ou, para empregar o vocabulário dos lingüistas, de significante a significado (Lévi-Strauss, apud Cardoso e Cunha, T., in: Lacan, J., 1987, p. 12). 
Mas a civilização que entroniza a "razão" tecnocrática e o individualismo tira de si mesma as bases de sustentação de mitos consensuais; ficamos, como se diz, "cada um por si e Deus por todos" –ou talvez "Deus por ninguém", uma vez que "o homem moderno é aquele para quem Deus está morto –isto é, que julga sabê-lo" (Lacan, J., 2005, p. 30). E nesta medida a função simbólica do mito se esgarça ou se refugia em espaços como o analítico, traduzida ali no esforço do neurótico para reconstruir a própria história, voltar, de certo modo, às suas "origens", criando pra si um mito de criação ou um rito de passagem que resgate o passado, explique o presente e justifique o futuro. Já numa psicose como a de Estamira, o mito, como o inconsciente, perde tais vestimentas puramente individuais e contornos racionais, fica a céu aberto, ganha de volta a praça pública, ainda que num lixão de Caxias. É também um meio de tamponagem, mas não no registro da dúvida neurótica, mas de uma "certeza" semântica que, antes acreditada por muitos, era religião, mas agora reduzida a delírio que fala sozinho diante de olhares atônitos, caridosos ou repressores.
Voltando à fala de Estamira com que iniciamos este trecho do trabalho, é tempo de pensarmos um pouco o conteúdo "mítico" específico desse sistema delirante. O que chama a atenção de imediato é seu teor de  revolta.  O "Deus" conhecido de nossas tradições culturais ali se transmuta no que Estamira chama de "Trocadilo" (trocadilho).  O termo por si só é muito sugestivo. Diz-nos o dicionário Houaiss que trocadilho significa: "1. Jogo de palavras que apresentam sons semelhantes ou iguais, mas que possuem significados diferentes, de que resultam equívocos por vezes engraçados (...) 2. Uso de expressão que dá margem a diversas interpretações". O dicionário ainda nos remete ao termo espanhol "a la trocadilla", às avessas
A relação entre divindade e linguagem é essencial à tradição religiosa ocidental; lembremos o início do Evangelho de São João: "No princípio era o Verbo / e o Verbo estava com Deus / e o Verbo era Deus. No princípio, ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele / e sem ele nada foi feito. / O que foi feito nele era a vida, / e a vida era a luz dos homens; / e a luz brilha nas trevas, / mas as trevas não a apreenderam" (Jo 1: 1-5). Conforme nota da Bíblia de Jerusalém, o Antigo Testamento "conhecia o tema da Palavra de Deus e o da Sabedoria existindo em Deus, antes do mundo", por quem foi tudo criado e "enviada à terra para aí revelar os segredos da vontade divina; voltando a Deus, ao terminar sua missão". Ou seja, Deus é Palavra, e a Palavra é a "Verdade".
Na versão às avessas de Estamira,  Deus é palavra, sim, mas palavra ironicamente fraudulenta, enganadora, equívoca –um trocadilho. Um jogo de palavras em que o homem joga pela sua própria ruína, a ruína das esperanças ilusórias e da desgraça inevitável. "A vida é dura. Ela é mal, por mais que a gente peleje"; "Eu, Estamira, não concordo com a vida. Fui visada assim, nasci assim. E não admito as ocorrências que têm ocorrido com os seres sanguíneos, (...) terrestres", afirma nossa profetisa, que diz também:  "Eu revelei quem é Deus. Revelei porque posso quem é Deus e o que significa Deus".
 E quem é Deus? É o autor dessa vida indigna, q faz do homem iludido alguém "pior que os quadrúpulos [quadrúpedes]". O Deus-Trocadilo  é, nos termos de Estamira,  canalha, incompetente;  seduz os homens e joga no abismo. Ataca pedra e esconde a mão. Faz com que quanto menos as pessoas tenham, mais joguem fora. Leva pessoas como João, um dos companheiros de lixão de Estamira, a, mesmo sabendo ler e escrever, passar uma vida de tanta privação. Um Deus estuprador, assaltante de poder, arrombador de casa.
            O filme conta que o episódio de um estupro, em que Estamira suplicou em vão a seu agressor que a poupasse "pelo amor de Deus", foi decisivo a que ela, antes muito religiosa, tenha, segundo o dizer de sua filha, "desistido de Deus". Outra grande amargura de sua vida foram as traições, brigas e separação final do marido, de quem gostava muito, e a quem se dirige, no filme, dizendo "Eu te amo, mas você é indigno, incompetente. Eu te amava, eu te queria, mas você é indigno, incompetente, otário, pior que um porco"; porém, significativamente, ela diz que é ainda "casada", e que por isso não poderia casar com um de seus companheiros de trabalho.
Como bem sabe e diz Estamira, "quem fez Deus foram os homens". E o Deus de Estamira é feito, desenhado com todas as tintas de suas desilusões pessoais, com que se reapropria da tradição religiosa construindo um "mito individual", idiossincrático, mas de curiosas afinidades com a tradição religiosa chamada de gnosticismo (Gnose é o termo grego para "conhecimento", não um saber meramente intelectual, e sim uma intuição interior).
O gnosticismo, em sua versão mais conhecida, "desenvolveu-se nos primeiros séculos da era cristã, até ser contido pela Igreja organizada"; trata-se de determinadas escolas com traços em comum e que proliferavam no seio do cristianismo primitivo dos séculos II e III, antes da imposição de uma ortodoxia eclesial que as declarou, proscreveu e perseguiu como "heréticas". Embora tenha traços doutrinários comparáveis a outras tradições, como zoroastrismo - em sua ênfase no dualismo cósmico- e hinduísmo e budismo –ao destacar o auto-conhecimento como via de redenção-, historicamente a fonte mais imediata da gnose cristã foram certas linhas heterodoxas do próprio judaísmo, sobretudo a seita dos essênios (cf. Hoeller, S., 2006, p. 46 s).
A todas as grandes religiões universais, uma preocupação é comum – a questão da teodicéia, a justificação do Mal no mundo a despeito da existência da suposta divindade ou de uma ordem cósmica superior e benfazeja. O gnosticismo se singulariza por dizer que o Mal não existe a despeito de Deus, e sim por causa deste. Ao invés do livre-arbítrio humano, quem introduziu o pecado no mundo foi o próprio Criador.  Esclarecendo melhor:  "Na visão gnóstica, existe um Deus verdadeiro, supremo e transcendente, que está além de todos os universos criados, e que nunca criou nada no sentido em que normalmente compreendemos a palavra 'criar'. Embora esse Deus verdadeiro não tenha moldado ou criado nada, Ele 'emanou' ou emitiu de Si mesmo a substância de tudo o que existe em todos os mundos, visíveis e invisíveis" (ibid., p. 51).
Abaixo do Deus supremo ou "Pai silencioso", há, nas diversas variantes gnósticas antigas, outra entidade fundamental, a dos Éons, seres intermediários divinizados que existem entre o Deus verdadeiro e nós. "Esses seres constituem o reino da Plenitude (Pleroma), onde a potência da divindade opera de modo pleno. A Plenitude contrasta com o nosso estado existencial que, por comparação, pode ser chamado de vazio" (ibid.). E, prossegue o mito, um dos seres eônicos, ironicamente Sabedoria ("Sofia"), agiu às avessas do que seu nome sugere, emanando de seu ser uma consciência defeituosa, um ser que se tornou criador do cosmos material e psíquico, que ele criou à imagem e semelhança de sua própria natureza imperfeita. Inconsciente de suas origens e de suas limitações, arrogou-se a condição suposta de Deus supremo e absoluto. É chamado por isso de "Ialdabaoth", palavra bárbara que significa "deus infantil",  ou ainda de "Saclas", termo aramaico  que significa "o tolo" ou "tolo cego" (cf. Hoeller, S., 2005, p. 234-5). E, curiosamente, os gnósticos associam Ialdabaoth a Iahweh,  o deus judaico-cristão, criador deste mundo de misérias e de todo o aparato de regras e moralidades a serviço não da Verdade, mas da alienação e assujeitamento dos homens entre si e ao deus tirano.
As homologias são grandes entre essas afirmações gnósticas e o "mito individual" engendrado por Estamira. Assim como Ialdabaoth e o "Trocadilo", temos outros termos possíveis de comparação dos dois sistemas, como: Pleroma e o "além dos além", ou ainda os Éons e os "astros positivos e negativos" de que fala a profetisa goiana. E quanto à figura gnóstica do Pai silencioso ou Deus verdadeiro? Menos explícita do que a face iconoclasta, parece ainda assim haver no discurso de Estamira a apologia de certa divindade superior, representada, obscuramente, por um ser nomeado como "aquele que revelou o homem como o único condicional". Veja-se um exemplo, quando Estamira defende o "comunismo superior": "Todos homens têm que ser iguais, têm que ser comunistas. Comunismo. Comunismo é a igualidade. Não é obrigado todos trabalhar num serviço só, não é obrigado todos comer uma coisa só, mas a igualidade é a ordenança que deu quem revelou o homem o único condicional, e o homem é o único condicional seja que cor for". Assim também, uma das últimas falas do filme remetem a uma espécie de teologia apofática ou negativa, de grande peso na mística cristã: o discurso sobre Deus afirmando-o através daquilo que ele não é: "Esse Deus desse jeito, deles, sujo, estuprador, assaltante, arrombador de casa, com esse Deus não aceito, nem picadinha".
A própria Estamira concede para si um papel que, na gnose, é desempenhado pelos "Mensageiros da Luz", entre os quais Set (o terceiro filho de Adão), Jesus e o profeta Mani; eles acompanham o drama humano e de tempos em tempos intervêm, trazendo apoio e inspiração para os que buscam dentro de si resgatar a centelha divina, oprimida pelas trevas da matéria e das paixões,  e assim alcançar a redenção espiritual (entendida mais como saída da ignorância, da sujeição a Ialdabaoth, e chegada ao "conhecimento" de si, do cosmos e de Deus, do que como purificação dos pecados). Ora, Estamira nitidamente se dá tal papel de mensageira luminosa, a começar do simbolismo de seu próprio nome, que ela faz questão de ressaltar: "Eu Estamira sou a visão de cada um. Ninguém pode viver sem mim. Ninguém pode viver sem Estamira". E ainda: "A minha missão, além d’eu ser Estamira, é revelar a verdade, somente a verdade. Seja mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara, ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem, os inocentes… Não tem mais inocente, não tem. Tem esperto ao contrário, esperto ao contrário tem, mas inocente não tem não". Embora se distinga dos gnósticos pela recusa de Cristo, ela acaba por se identificar com o papel de redentor e mártir associado a ele, quando diz que aceitaria passar pelos sofrimentos que ele passou, ou por uma variante deles: "Se for para o Bem, a Verdade, a lucidez de todos os seres, podem me queimar nesse minuto. Eu agradeço ainda".
Tradição ela própria jogada na lata de lixo da História pela Igreja hegemônica, o gnosticismo reabre os olhos pelos olhos de Estamira, despertando no lixão de Caxias, claro que numa criação discursiva particular, tratada não com a reverência de adeptos e irmãos de seita, mas com internações e medicações. Estamira é também a mira do mito, que, foracluindo os ditames da razão moderna, faz bricolagem –atividade tão precípua ao mito, segundo Lévi-Strauss- dos restos de nosso mal-estar mais atual e de nossas frustrações e utopias mais ancestrais. 


BIBLIOGRAFIA 
A BÍBLIA DE JERUSALÉM. S. Paulo: Paulus, 2005.
HOELLER, Stephan, Gnosticismo – uma Nova Interpretação da Tradição Oculta para os Tempos Modernos. Rio de Janeiro: 2005, ed. Nova Era.
HOELLER, Stephan, "A Busca da Liberdade Espiritual: a Cosmovisão Gnóstica", in: KINNEY, Jay (org.), Esoterismo e Magia no Mundo Ocidental. S. Paulo: ed. Pensamento, 2006.
LACAN, Jacques, O Mito Individual do Neurótico. Lisboa: Assírio & Alvim, 1987.
LACAN, Jacques, O Triunfo da Religião. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: 2005, ed. Jorge Zahar.
LÉVI-STRAUSS, Claude, Antropologia Estrutural. Trad. Chaim Samuel Katz e Eginardo Pires. Rio de Janeiro: ed. Tempo Brasileiro, 2003.