Saturday, March 29, 2014

Resenhas para a Folha de S. Paulo, 29/03/2014


FOLHA DE SÃO PAULO
GUIA FOLHA - LIVROS, DISCOS, FILMES
CAIO LIUDVIK

O PAÍS DOS CEGOS
Esse livro de contos realça o poder de penetração de H. G. Wells nas camadas profundas do imaginário social. Poder que ficou patente no episódio célebre: seu romance "Guerra dos Mundos", tratando de uma invasão alienígena, espalhou pânico em Nova York, décadas antes do 11 de setembro de 2001, quando adaptado e transmitido por rádio em 1938, por ocasião do Dia das Bruxas.  
Já em "O País dos Cegos", conto que dá nome à presente coletânea, vemos o delírio como que incrustado na estrutura profunda da mentalidade coletiva. Este país dos cegos é como a caverna de Platão, em que moradores habituados às trevas levam vidas pacíficas, limitadas mas satisfeitas, que serão abaladas pelo indivíduo que viu a luz. 
Outro paralelo que poderíamos fazer é com o verso de Pessoa, aqui no seu inverso: ver, para esses cegos, é estar doente do pensamento, na medida em que nos arranca da proteção quimérica do teto da "sabedoria suprema" e nos revela a imensidão fria e vazia do universo.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

ENSAIOS DE TEODICEIA

Que Deus sábio e misericordioso é esse que cria um mundo de terremotos, guerras, doenças e miséria? E que ousadia é essa de chamar a criação de o "melhor dos mundos possíveis"? O tom indignado dessas perguntas reflete a dificuldade de ler sem as lentes de Voltaire a "Teodiceia"  (1710) de G. W. Leibniz . Em "Cândido", publicado depois do terrível terremoto de Lisboa (1755), Voltaire faz a caricatura de Leibniz no dr. Pangloss, mestre do otimismo idiota. Para além do anacronismo, podemos admirar a profundidade do esforço de Leibniz em sua "teodiceia" (justiça divina).
 Gênio metafísico, lógico, matemático, ele tenta mostrar que o mal é necessário num mundo que, se não é o próprio Deus, não poderia ser perfeito como Deus. Um mundo em que o mal realça e prepara ao bem, assim como a sombra revela a luz. Um mundo em que Deus nos dotou de livre-arbítrio, e portanto da contingência e do risco entre alternativas,  melhores e piores. Um mundo em que a consciência religiosa, por mais que se esclareça e abasteça das ferramentas da razão, não pode prescindir da humildade da fé, como toda virtude que nasce na precariedade. 
 AVALIAÇÃO - ÓTIMO

ORIGEM E DESTINO

Um dos maiores nomes da sociologia após os clássicos Marx, Weber e Durkheim, Pierre Bourdieu (1930-2002) é tema dos quatro ensaios desta obra do professor da USP Afrânio Mendes Catani. Um dos eixos de discussão é justamente a relação de Bourdieu com os pais fundadores. Catani faz, em sua defesa do autor de "A Reprodução", um interessante paralelo com o "ecletismo bem temperado" de Florestan Fernandes.
Apesar da aura sagrada da Trindade dos pioneiros, não se trata de demiurgos à la Jeová, ciumentos e exclusivistas, inventores de mundos (conceitos de sociedade) isolados, mas sim de construtores de formas de pensar uma mesma realidade vista de óticas cuja tensão é possível pôr em diálogo. A Trindade não deixa de ser una. 
Catani resgata também aspectos da biografia de Bourdieu que influenciaram sua crítica ao conservadorismo do sistema escolar moderno.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


MICHAEL KOHLHAAS
Uma "história alemã sobre a paixão intrínseca ao anseio por continuar tendo razão". Assim Peter Sloterdjik, em "Ira e Tempo", se refere à novela "Michael Kohlhaas" (1810), que fala sobre um virtuoso comerciante de cavalos que, roubado por um fidalgo, parte em busca de justiça, a ponto de se transformar em justiceiro (tema hoje tão presente no noticiário urbano brasileiro).
 A obra célebre de Heinrich von Kleist é uma prefiguração aziaga das barbáries dos séculos 20 e 21; um estudo da lógica passional que toma de assalto o homem prisioneiro do mundo racionalmente administrado. O personagem de Kleist é, como seu criador, aturdido pela "penúria do mundo" (uma crise decisiva para o escritor foi descobrir lendo Kant o abismo entre os reclamos da razão humana e o caos universal).
 Somos "civilizados" na epiderme das leis, mas não nas pulsões profundas, de ira e vingança, que o Estado deveria transcender, mas  das quais parece debochar –sobretudo quando, de olhos vendados, parece todavia se deixar seduzir pelo perfume dos privilegiados, dos amigos da lei ou do burocrata de plantão.
AVALIAÇÃO -ÓTIMO 

cães hidrófobos e a lição dos pássaros




Costumamos, no senso comum, aplicar o adjetivo "maniqueísta" em acepção pejorativa, como forma de desqualificar ideias que estejam imbuídas de um firme senso do que é certo ou errado, verdadeiro ou falso, bem ou mal. Já o fato de assim nos demarcarmos, nós, os "complexos", os relativistas, tolerantes, em relação e eles, os "maniqueístas", é uma estratégia, no fundo... maniqueísta. É quase impossível, sem descambar para um ecletismo frouxo, nos desapegarmos da necessidade de marcar posição, num "a favor de" que é necessariamente "contra" muitas outras alternativas, e nisto reincidimos na lógica, aparentemente inscrita em algum binarismo estrutural da mente humana, de que há um certo e errado, verdadeiro ou falso, bem ou mal, ou ainda a oposição amigo ou inimigo, para lembrar o célebre "Conceito do Político" de Carl Schmitt. 
A política, aliás, é o teatro por excelência dos usos e abusos do maniqueísmo. Vide o miserê dos dias atuais. Basta falar com um tom mais exaltado contra a cartilha de caos social, moral, penal das esquerdas no poder, para você ser um partidário da" ditadura militar". E basta, como prega o papa Francisco, você defender a necessidade de uma sociedade mais humana, solidária, vencendo as barreiras psicológicas, econômicas, ideológicas que entrincheiram as pessoas umas contra as outras, para você recair na suspeita de "comunista", segundo o Tea Party. 
Não que a religião não seja também um viveiro de maniqueísmos, a começar do fato de que o termo maniqueísmo é de origem religiosa: refere-se à seita de Maniqueu. Ele mesclou, no século III d. C., elementos judaico-cristãos, zoroastrianos e indianos numa visão de mundo dualista. Bem e Mal não como meras alternativas éticas de nosso livre-arbítrio, mas entidades metafísicas, deuses que se digladiam fora de nós como o espírito (bom) e a matéria (má) dentro de nós. Maniqueu era assim contra a ideia de um mundo regido pela soberania incontestável de um Deus único, absolutamente poderoso, justo, sábio e misericordioso.
Na pedagogia espiritual e moral das religiões ou das sabedorias profanas, é usual o recurso ao dualismo "maniqueísta", em sentido amplo. Um exemplo especialmente pungente é a metáfora hindu dos dois pássaros, até porque consegue relativizar o maniqueísmo por dentro, ao mostrá-lo como oposição de dois aspectos complementares do espírito humano. Um caminho mais humilde para, se me permitem a cota pessoal de maniqueísmo, não sermos prisioneiros ingênuos, idiotas ou de má-fé da hipocrisia dos maniqueístas ignorantes de si mesmos (os complexos, os tolerantes, os liberados à la acadêmicos do leblon). A cada vez que você topar com um desses acirrados debates simplórios entre alternativas surdas a tudo senão à caricatura odiosa que fazem do inimigo, se pergunte se você mesmo não é esta e aquela tribo de cães hidrófobos em luta verbal e corporal na praça pública. Se você mesmo não é este e aquele pássaro, na mesma árvore da vida. 
-Unzuhause-

Há dois pássaros na mesma árvore. Um, num dos galhos mais altos, o outro, mais abaixo. O primeiro se encontra perfeitamente sereno, silente, majestoso para todo sempre. É totalmente bem aventurado. O outro, nos ramos inferiores, come umas vezes frutos doces, outras, amargos. Por vezes, dança alegre. Por vezes, se sente miserável. Rejubila-se agora e depois chora. Às vezes prova uma fruta extremamente amarga e é presa de desgosto. Olha para o alto e contempla o outro, o pássaro maravilhoso de áurea plumagem, sempre venturoso. Deseja fazer-se igual a ele, mas logo se esquece, e novamente volta a comer frutas doces e amargas. Novamente come uma daquelas mais amargas e volta a sentir-se miserável. Volta então a desejar tornar-se igual ao pássaro lá do alto. Gradualmente, vai deixando de comer as frutas e se tornando sereno e feliz como o outro. O pássaro mais alto é Deus ou Brahman. O de baixo é jiva ou alma individual que está comendo os frutos de seus karmas (as consequências agradáveis e desagradáveis de suas prévias ações), isto é, prazer e dor, atingindo altos e baixos na batalha da vida. Sobe, para depois cair novamente, na medida em que os sentidos o puxam para baixo. Gradualmente consegue desenvolver vairagya (despaixão) e viveka (discriminação), e, voltando-se para Deus, pratica meditação, para, finalmente, atingir a autorrealização (conhecimento de si mesmo) e só então desfruta a eterna bem aventurança de Brahman. (Swamiji Sivananda, In All About Hinduism, p. 178)

Friday, March 28, 2014

Adélia, Jobs e os papas


"Marxista" segundo a acusação de Sarah Palin (leio na Folha de hoje) ou conservador demais segundo os acadêmicos do leblon unidos pela cartilha ditatorial do aborto e das drogas e do fim da família?  Amado pelo mundo, o Papa Francisco ainda assim pode suscitar objeções extremas e opostas, que nos lembram o quanto o caminho do sábio, seja cristão, budista, hindu, judeu, ateu, é paradoxal.  Por paradoxal, entendo uma qualidade de ser, de pensar e de agir. Sobretudo, de sentir. Uma qualidade que se recusa aos maniqueísmos estéreis, que em tempos de radicalização ideológica como o atual substituem cada vez mais o maniqueísmo que verdadeiramente conta, que é o da guerra dentro da gente, insidiosa, nua, ambígua, entre o Bem e o Mal. 
Que Soberano entre os homens, do alto das pompas do poder, teria a coragem de, como Francisco fez outro dia, admitir que tem, como todos, um "ladrão dentro de si",  que o levou certa vez a furtar um terço de um padre morto? 
Há um ano me dói o amor por Francisco -da mesma índole poética do amor que a católica Adélia Prado confessou esta semana, no Roda Viva, por Steve Jobs, que aliás também amo, e sobre quem me debruço desde ano passado, conforme testemunho em textos como este aqui: http://unzuhause77.blogspot.com.br/2013/08/o-zen-de-steve-jobs.html. 
Adélia dedicou um poema de Miserere, seu mais recente livro, ao fundador da Apple. O "Oh! Oh!" no verso 12 reproduz as últimas palavras de Jobs antes da morte, segundo a dolorosa e iluminada expressão mimetizada pela poetisa na entrevista na TV Cultura:
Lápide para Steve Jobs
-Adélia Prado-
A Deus entrego meus pecados,
entrego-os a quem pertencem,
não a Satanás que é um dos nossos
e sofre também o tormento dos filhos
que têm o Pai ocupado em alimentar pardais.
Nem torres que tocam a lua,
ou o que quer que nos roube o fôlego,
fazem assomar Seu rosto.
Por que nos abandonastes?
Vosso Filho soube, na obediência da morte,
e o que se viu foi só um tremor rasgando a pele da terra.
Alguém no derradeiro instante exclamou Oh! Oh!
E fechou os olhos.
Eu não tenho aonde ir, tudo me ignora,
ignoro tudo, pois sou natureza.
Um beija-flor enfia numa flor natalina
o seu bico comprido e come e bebe e voa,
não pousa no meu ombro,
não bebe do meu olho a água de sal.
Por agora, o que me faz prosseguir
é sua indiferença. Esta ausência de milagre.
(Miserere foi tema de uma de minhas resenhas no Guia da Folha em dezembro: http://unzuhause77.blogspot.com.br/2013/12/resenhas-para-folha-de-s-paulo.html) Esses amores poéticos, com o perdão da redundância, são assim, loucos, paradoxais, podem ser pela vizinha do apartamento 43 ou por grandes figuras da História e da Mídia, a consciência mítica moderna.
Sócrates, Collor e a corrupção
Outra identificação que senti com Adélia, ela também fã de Francisco, foi na decepção com a política brasileira, seu miserê, sua tendência à ditadura, não tanto por um poder imbatível dos petralhas, mas pela carência de alternativas, de líderes, de estadistas com a compostura que Adélia atribui a JK, e que eu sonhei haver surgido, de presente para minha adolescência na cidadania, quando da primeira eleição presidencial e da vitória espetacular de Fernando Collor. Uma diferença, porém, com a divina poetisa: Adélia, que não via JK em Collor, como eu via em Collor um potencial JK,  foi às ruas de sua Divinópolis (MG) para gritar "Fora, Collor". Eu fiquei em casa, chorando o desastre, odiando a idiotice dos caras-pintadas da minha geração, e lendo a "Apologia de Sócrates" por Platão, para com ele descobrir as misérias da "democracia" dos homens, e o não-lugar democrático para a sabedoria, que de sublime vira patética quando se apaixona pela sua imagem invertida e sombria, os corruptos que subvertem o teatro dos homens não para o alma, mas para o lama.   Talvez por isso, inclusive, o sábio acusado de corruptor (da juventude), caso de Sócrates condenado à pena de morte por cicuta. 
Também me ressoou o depoimento de Adélia sobre a mudança de sua atitude com relação ao antecessor de Francisco. Odiei Ratzinger quando da repressão a Leonardo Boff e à teologia da libertação, mas o fui compreendendo e gostando dele com o tempo, depois de sua transformação em Bento XVI, e sobretudo após o gesto sublime da renúncia -outro despojamento raríssimo num mundo regido pela vontade de poder. A renúncia trouxe sentido ao conjunto da trajetória pregressa. Bento era necessário para nos alertar contra a contaminação da Igreja por vulgaridades modernas no âmbito da liturgia e da mentalidade. Nos purificar de um populismo de tradução da língua própria e atemporal da fé aos modismos do momento. Nos libertar do assujeitamento do Sagrado aos aplausos jecas da multidão, e de um marxismo que nada tem a ver com o cristianismo, a não ser o senso ético de justiça e solidariedade, que todavia tem para uma visão e outra sentidos muito diversos.
O que os distancia é basicamente a arrogância moderna de querer "resolver" o paradoxo da existência, a ambiguidade entre Bem e Mal, com se fosse tudo culpa de estruturas sociais perversas e passageiras, que poderão ser abolidas para instauração na marra, com armas, instituições e nova "consciência política", de um paraíso na terra. 
O relógio esquecido na calçada
Já no cristianismo o buraco é muito mais embaixo, e a salvação, muito mais em cima. Na mitologia dogmática, falamos em pecado original e em céu, cidade dos homens e cidade de Deus, para tentar nomear o inomeável: o mistério avassalador da existência do Mal, do absurdo, da crueldade, e a igualmente misteriosa emergência da consciência que nos torna, enquanto humanos, esperançosos de que este mundo miserável e sublime não seja causa de si mesmo. Se vemos um relógio perdido na calçada e nos admiramos de sua complexidade, sabemos que alguém o construiu. Assim também a beleza e delicadeza na vida, mesmo esquecida no lixo brutal do mundo, nos fazem ter boas razões para supor que os entes são criaturas, não causas de si, mas efeitos de uma Causa primeira, poderosa, inteligente e, segundo Cristo, amorosa, a que nos acostumamos chamar de Deus. 
Eu pretendia no início comentar algo mais de meus estudos sobre Francisco, mas o Roda Viva com Adélia (que assisti em reprise esta madrugada) foi me trazendo - o terceiro parágrafo foi o instante da "invasão"- digressões que se expandiram, viraram não margem, mas corpo do texto, então é melhor voltar mais tarde ao itinerário original. Se a Causa primeira consentir, e com a bênção poética de Francisco. 
-Unzuhause-

Thursday, March 27, 2014

a cura de Hitchcock


Amigos, façam a diferença no mundo e tomem uma atitude revolucionária hoje na Paulista. Rá, ora direis citando Sergio Mallandro, você quer que eu me junte ao pelotão sub PenTelho em mais uma parada não-vai-ter-copa, né? Não. Minha sugestão é que assistam a "Os Pássaros" (1963), de Alfred Hitchcock, em cópia restaurada, e em cartaz nas telonas do Espaço Itaú e da Livraria Cultura. Bendita onda de reestreias de clássicos do cinema no cinema, em plena abertura de meu "clube do filme" particular, conforme tenho registrado neste blog e devo lançar em livro. 
Rá, repetirá o militante sub PenTelho, o que "Os Pássaros" tem de tão revolucionário, para que eu troque por cultura minha parada não-vai-ter-copa, que já tinha garantido uma tarde menos banal e chocha para minha existência?  
Caro militante, é verdade que sob o ponto de vista técnico o filme não é um primor de revolução. Ou se o foi, parece datado neste aspecto. Seus efeitos de terror, nas cenas de ataque assassino dos pássaros à população de Bodega Bay (Califórnia), já não nos assustam tanto. Tampouco Melanie Daniels (Tippi Hedren) é um espetáculo  de performance, apesar de outros dotes dela terem enlouquecido o diretor; a atriz, que era modelo de comercial de televisão quando descoberta por Hitchcock,  diz que lhe custou caro não ter cedido ao assédio dele: http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2012/08/02/hitchcock-arruinou-minha-carreira-mas-nao-minha-vida-diz-atriz-de-os-passaros.htm
A ilha dentro da ilha
O filme porém traz a marca inconfundível do gênio do suspense psicológico de Hitchcock, que depois de "Psicose" voltava à questão edipiana. Mitch Brenner (Rod Taylor) é um advogado charmoso, mas está na casa dos 35 ou 40 anos e ainda mora com mãe e com irmãzinha de onze anos, naquela cidade minúscula. Simbolicamente, mora numa espécie de "ilha" dentro da ilha, sua ilha sendo ainda mais remota, afastada da população comum de Bodega Bay. Melanie sofre seu primeiro ataque de pássaro ao cruzar num bote o lago que separa seu desejo de mulher, por Mitch, da casa da Mãe dele. Mãe que o trata e o chama de "criança" e que, mais que desejo erótico pelo filho, do tipo defendido pela vulgata psicanalítica, manifesta uma das carências humanas mais primárias: a do apego. 
O marido morrera quatro anos antes, agora é só um retrato na parede, o buraco da saudade, e o medo de, a caminho da velhice, ser deixada para trás ainda em vida, não ter quem lhe dê afeto e sentido de ser.  Melanie será uma ameaça para este castelo mal-assombrado. 
Melanie, a analista
Seu nome me ressoa. Não consigo parar de pensar, nesse contexto, em Melanie Klein, mestre da escola britânica da psicanálise, especialista sobretudo na psicanálise de crianças e que devassou com rara profundidade o universo bárbaro dos afetos pré-edipianos do bebê enredado pela mãe "boa" e "má". Sintomaticamente, a Melanie de Hitch vai ao encontro de Mitch levando dois periquitos de presente para Cathy, a irmãzinha dele de 11 anos. Periquito, em inglês, é "lovebird", pássaro do amor. 
Mitch e Melanie haviam se conhecido pouco antes, numa loja de pássaros. Ele tivera o atrevimento dos grandes sedutores ao abordar essa socialite, filha de um importante dono de jornal em San Francisco. 
Ao botar um canarinho de volta à gaiola, o chamou provocativamente pelo nome de Melanie Daniels. Um bom sedutor tem, entre seus trunfos, espicaçar na "vítima" o desejo de, com ele, se libertar das gaiolas da vida comezinha. A sedução é um rito de passagem, um convite à travessia, aventura como a que mimada socialite fará seja dirigindo mais de uma hora e meia de San Francisco a Bodega Bay, seja cruzando o lago ao encontro de Mitch, bem como, e essa è sua `jornada de heroìna`,  suportando o misterioso ataque da gaivota, ali, e da massa cada vez mais numerosa e raivosa de gaivotas, corvos, pardais e demais "pássaros do ódio", que vêm para matar e roubar, qual Èdipo tirano fizera consigo ao constatar seu incesto com Jocasta, os olhos das pessoas, vide a horrível cena do fazendeiro. Quiçá anjos infernais enviados da Grande Mãe protetora e cruel que queria guardar bem guardado seu pintinho do roubo-análise (análise é dissolução) de Melanie? Numa cena em especial, na cabine telefônica, aterrorizada pelas aves, Melanie de fato é um canarinho na gaiola. Hitchcock com maestria sintetizava ali a inversão radical da ordem "natural" que manda os pássaros serem prisioneiros dos homens, não o contrário. 
A metáfora catastrófica
O ataque dos pássaros, como lembra François Truffaut no livro de entrevistas com o diretor inglês, era uma maneira surpreendente de metaforizar o catastrofismo que, na época, teria como objeto por excelência a bomba atômica, não estes bichinhos tradicionalmente serenos e celestiais. Nesse livro, aliás, Hitchcock revela que, entre as cenas cortadas, uma explicitava o teor ideológico dos pássaros. Seria uma cena de amor entre Mélanie e Mitch, em que antes do beijo, e após os primeiros sustos, eles se perguntam, em tom de comédia, sobre os motivos daqueles estranhos acontecimentos. Chegam a imaginar que os pássaros tinham pardal por chefe supremo que, do alto de uma plataforma, assim falava aos seus comandados: "Pássaros do mundo inteiro, uni-vos. Não tendes nada a perder senão vossas plumas". A referência é ao chamado dos operários à revolução, no Manifesto Comunista de Marx e Engels. Marx, o libertário sustentado pela bolsa-revolução do megaindustrial Engels.
Hitchcock diz ter cortado a cena porque tornava a história lenta demais, talvez impacientasse um público que ele "escutava", em seu superego de criador, cobrar-lhe: "Sei, sei, tudo bem, queremos os pássaros, onde estão os pássaros?" Daí ter espalhado desde o início sinais e augúrios, como que para avisar aos fãs ávidos do medo e do sadismo: "Os pássaros vão chegar, eles vão chegar, não se preocupem".
Como o próprio Hitchcock sabia e dizia, é muito relativa a questão do tempo no cinema. O que importa na cena, para ser "longa" demais ou não, é sobretudo o interesse que tem em si mesma e a funcionalidade dramática para a evolução da história. O que talvez tenha desejado suprimir, ao cortar esse diálogo tão saboroso, é a excessiva transparência que ele daria sobre o que estava em jogo na metáfora catastrofista. Não só o "fim do mundo", mas a guerra dos mundos: a Guerra Fria, e a paranoia americana contra os russos, tema aliás não de todo inatual com o apetite expansionista de Putin. Outra dimensão de atualidade do desastre imaginário de Hitchcock é falar do desastre ecológico que nos ameaça, em tempos de vingança da Natureza Medeia contra seus cada vez mais indesejáveis hóspedes humanos. A velha ornitologista com quem Melanie debate, na cena (longa) do restaurante, é "uma reacionária, uma conservadora, incapaz de acreditar que os pássaros pudessem causar alvo de grave", segundo as palavras do diretor na conversa com Truffaut. 
O verdadeiro conservadorismo, em suas raízes românticas, não deve fazer o jogo do Capital predatório e dizer que "não acredita" nos alertas ecológicos sobre aquecimento global. Deve, como Marina Silva, que neste aspecto me agrada muito, calcar seu firme senso de religiosidade e tradicionalismo moral numa fidelidade ao sentido da Terra e amor a todas as formas de vida, inclusive à humana, mais que todas necessitada de compaixão, porque mais que todas imersa na estupidez.
Resistir à tirania
A compaixão não como mera caridade, mas espírito analítico, de dissolução de todas as tiranias.  Quem sabe assim, não só nos filmes mas nas ruas, no sonho como na práxis, seja possível a  vitória dos pássaros do amor contra os do ódio. Sub-PenTelhos black blocs, assanhados em parar a cidade como se fosse vosso centro acadêmico de coçação ideológica de saco, antes de sair queimando a bandeira do Brasil, destruindo e matando, conspirando pela tirania vermelha, aproveitem hoje a Avenida Paulista para a revolução de vossas cabeças e corações. Assistam a "Os Pássaros". Não tendes nada a reduzir senão vossa estupidez. 
-Unzuhause- 

Wednesday, March 26, 2014

o comando vermelho da nação


Essa imagem de traição festiva a um símbolo pátrio é dessas que Jung, em consultório, se alegraria de receber de um relato de paciente: trata-se de um "grande sonho" no sentido de que nele o inconsciente profundo fala, por suas imagens compactas. Relativizando as barreiras temporais, a grande imagem nasce no presente fugidio mas lhe revela as raízes pretéritas e o desdobramento futuro. O que há assim de tão revelador na festa de Eduardo "The answer my friend" Suplicy e os debiloides mascarados? The answer is blowin' in the wind, como a bandeira que is burning in the sky:  a conexão entre PT e vandalismo político é evidente, o partido no poder é a versão domesticada mas parteira cultural do atual desbunde de democracia na marra pelos grupelhos que, até pouco, só enchiam nosso saco dentro dos muros da universidade, quando, ao invés de coçar o saco deles no centro acadêmico e matar aula, decidiam socializar a coçação, com suas greves,  e assim matar também as aulas de quem passou no vestibular desejando estudar.  Os grupelhos se queixam de que o PT os "traiu" ao subir ao poder. São isso sim uns ingratos com o comando vermelho da nação que lhes mima, alimenta e infla de bolsas-vandalismo.
Ambos, petistas e grupelhos sub PenTelhos, são do mesmo saco podre de batatadas.  Não têm particular estima pelo país, preferem que o circo -que eles próprios forjam e protagonizam como palhaços-  pegue fogo e se queime em farrapos como a bandeira, a ordem e o progresso, querem que a Nação vire colcha de retalhos, cotas, gêneros e classes em conflito, no caldeirão fumegante do ressentimento. Fica mais fácil assim justificar que a verdadeira entidade coletiva que eles põem no lugar da Pátria de indivíduos livres, a saber, a Partido assembleísta de autômatos, se agigante, "constitucionalize" o mundo livre segundo seus ditames totalitários (vide ontem a aprovação do marco civil da internet), censure -vide a investida da horrorosa comunista que está perseguindo Rachel Sheherazade, jovem Lacerda de saias imperdoável em sua inteligência arisca, coragem e sobretudo em sua beleza-, pratique assassinatos, não só de aulas, mas também outros, como o de reputações. 

 Ambos, criador e criatura, petistas e sub PenTelhos tendem a se reaproximar num grande abraço de reconhecimento recíproco e rugido de sabotagem e fúria, no caso da derrota eleitoral de Dilma, aliás cada vez mais plausível, dado o esforço que, em sua incompetência, tem feito para se complicar em eleições que tinham tudo para ser previsíveis, tranquilas como numa democracia venezuelana . 
O passado-futuro latente à farra da bandeira queimada está no seguinte. A baderna típica do velho PT que virá em caso de uma ainda improvável derrota de Dilma -improvável pois a inanidade da oposição não nos deve dar muita esperança - chega a me botar em dúvida se o melhor mesmo não seria deixar tudo como está, "não reagir", como dizem os especialistas quando um inocente, desarmado, desamparado pelo Estado (nisso as esquerdas, tão estatistas, são de um estranho laissez-faire, laissez se ferrar), é atacado pelas vítimas da sociedade, novilíngua com que o comando vermelho da nação chama seus amigos meliantes.
-Unzuhause-

Tuesday, March 25, 2014

no barco bêbado de Rimbaud


O Barco Bêbado
- Arthur Rimbaud-
Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me libertar dos meus rebocadores.
Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram nus em postes multicores.
[primeira estrofe - a libertação do Barco, já não mais servo de sua utilidade muda e rotineira; seus senhores viraram espeto para a fome dos aborígenes, vingança do arcaico por um poeta que muitos consideram quintessência do moderno; é sim o antimoderno, aquele que só pode fazer jus ao seu tempo pela crítica e alforria imaginativa]

Eu era indiferente à carga que trazia,
Gente, trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para mim se abriram de uma vez.
[os rios do inconsciente, do que exorbita a ideia costumeira, inconsciente como matéria e como espírito,  já não como paisagem fria do trabalho mecânico, mas abertura para uma nova modalidade de experiência da vida]

Imerso no furor do marulho oceânico,
No inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava, enquanto as Penínsulas em pânico
viam turbilhonar marés de verde e anil.

O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!
[o vento do Espírito-Matéria, espaço-tempo da alma poética dançarina,vento de fuga daquilo que nos engaiolava, invisibilidade aos "olhos dos faróis" da civilisation que, carga pesada ou leveza afetada, não tem, penso cá com meus botões, a gravidade germânico-dionisíaca, tensa, trágica e libertadora, da Kultur de Kant, Wagner e Nietzsche]

Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.

Então eu mergulhei nas águas do Poema
do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes – dilema
Lívido – um afogado afunda lentamente;

Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
fermentam de amargura as rubéolas do amor!

Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,

Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A Aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver!
[O Barco-Poesia, só ele capaz de conduzir além do mundo condicionado, às violências cósmicas elementares, o poeta vê o que o homem comum, prisioneiro da caverna, apenas "quis ver" ou fantasiou ver, imaginação estéril, nas sombras que o divertem e afligem]

Eu vi o sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando os longos glaciais;
Como atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas rolando ao longe os frêmitos de umbrais!

Sonhei que a noite verde em neves alvacentas

Beijava, lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a circulação das seivas suculentas
E o acordar louro e azul dos fósforos canoros!

Por meses eu segui, tropel de vacarias

Histéricas, o mar estuprando as areias,
Sem esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse o ardor dos Oceanos sem peias!

Cheguei a visitar as Flóridas perdidas

Com olhos de jaguar florindo em epidermes
De homens! Arco-íris tensos como bridas
No horizonte do mar de glaucos paquidermes.

Vi fermentarem pântanos imensos, ansas

Onde apodrecem Leviatãs distantes!
O desmoronamento da água nas bonanças
E abismos a se abrir no caos, cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, ondas e céus cadentes!

Náufragos abissais na tumba dos negrumes,
Onde, pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos curvos cipoais, com pérfidos perfumes!

Ah! se as crianças vissem o dourar das ondas,

Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes...
– As espumas em flor ninaram minhas rondas
E as brisas da ilusão me alaram por instantes.
[Rimbaud, ávido da palavra e da experiência da raridade, pesquisava materiais como revistas científicas, uma deles trazia reportagem sobre peixes que, ao pularem, soltam ruídos ou mesmo gritos]

Mártir de pólos e de zonas misteriosas,

O mar a soluçar cobria os meus artelhos
Com flores fantasmais de pálidas ventosas
e eu, como uma mulher, me punha de joelhos...

Quase ilha a balouçar entre borras e brados

De gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu vogava, e por minha rede os afogados
Passavam, a dormir, descendo a contrapelo.

Mas eu, barco perdido em baías e danças,

Lançado no ar sem pássaros pela torrente,
De quem os Monitores e os arpões das Hansas
Não teriam pescado o casco de água ardente;

Livre, fumando em meio às virações inquietas,

Eu que furava o céu violáceo como um muro
Que mancham, acepipe raro aos bons poetas,
Líquens de sol vômitos de azul escuro;

Prancha louca a correr com lúnulas e faíscas

E hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu ultramarino e seus funis de bruma;

Eu que tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,

O cio dos Behemóts e dos Maelstroms febris,
Fiandeiro sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!
[O ímpeto cede, a ebriedade vai acabar, ressaca prosaica que, na vida do poeta, era pontuada pelos sucessivos retornos da Europa chique para a cidadezinha da infância, e que se confirmaria pouco depois, com o abandono da mítica adolescência de poeta revoltado, que dá lugar à cinzenta idade da razão, burguesa, de mero comerciante viajante]

Eu vi os arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o delírio dos céus desvela ao viajor:
– É nas noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor?

Sim, chorar eu chorei! São mornas as Auroras!

Toda lua é cruel e todo sol, engano:
O amargo amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!

Da Europa a água que eu quero é só o charco

Negro e gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino tristonho arremesse o seu barco
trêmulo como a asa de uma borboleta.

No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras

Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.
[Pontões= navios carcerários que partiam levando consigo os degredados políticos, por exemplo após as jornadas de junho de 1848 ou a Comuna de Paris; Rimbaud insinua sua solidariedade revolucionária, ou melhor, a tangente em que se tocam mas se afastam, como navios que se saúdam e seguem cada qual seu curso, um nas altitudes da ideia, outro descido à  prosa do mundo, a revolta metafísica (na arte e na filosofia) e revolta histórica (social, política), para lembrar os termos de Albert Camus]

(Tradução de Augusto de Campos)

a salvação dos acadêmicos do leblon


Inculturação é uma das palavras em moda na teologia católica missionária de fins do século XX. No "clima" de relativismo cultural patrocinado pela antropologia moderna e por certa filosofia pós-moderna, o mantra da tolerância laica tornou intolerável o sagrado, na sua forma "arcaica" dos catecismos de cunho metafísico e moral, atirados aos leões de arena romanos. 
Predileção por pocketcredos, crenças inofensivas, que caibam no nosso bolso na modorra do vai-levando. A nova morte de Deus se celebrou assim. Fora da Igreja, a esquerda Leblon dos freixos, contando dentro da Igreja com a colaboração, nem sempre inconsciente, da esquerda teológica dos frouxos. Todos num concerto feliz de vozes e palmas, de u-hus aborígenes tipo  "índio quer cachimbo" -quantas vezes não se apela aos "ritos indígenas" para justificar na escola de samba tribal dos liberados do Leblon a maconha, a libertação da maconha, agora inclusive dos traficantes da maconha, segundo o mais novo insight de nosso orwelliano Jean Wyllis? O Big Brother do bom senso conta também com os serviços da ciência, como vimos em recente declaração de professor universitário, de que pregar fidelidade e abstinência, contra o perigo da Aids, é abominável porque anticientífico:
 http://www.estadao.com.br/noticias/geral,material-da-fifa-para-copa-prega-abstinencia-sexual,1143663,0.htm
Como eu comentei com os amigos ao ler essa pérola espantosa do admirável mundo novo: esse iluminado acadêmico do leblon tem razão, científico mesmo é forjar androides homogêneos de corpo e alma, sexo e ideologia, o comunismo da vulgaridade. A salvação de fazer fama e deitar na cama infecta do inferno.
Embora se preste à frouxidão relativista, a ideia em si de inculturação, como tradução das verdades da fé na linguagem de cada contexto, tem ilustres prefigurações na história cristã. O apóstolo dos gentios foi inculturador, não no sentido de afrouxar o cristianismo para arrancar aplauso fácil, para "ir pra galera". Mas por reconhecer que toda Revelação supra-linguística, e suprassenssível -Paulo descobre Cristo na iluminação que o cega- precisa, na volta para o mundo sub-lunar, se aproveitar das energias latentes às palavras e costumes da cultura e da pessoa com quem se vai conversar, do Outro que, mais que ensinar e adestrar, convidaremos a conosco experimentar a partilha e a amizade que são já o conteúdo vivo da fé. Sim, é preciso fé no Bem, a imaginação que o ficciona (ficcionar é costurar, tecer), para não sucumbirmos à vida nua dos campos concentracionários em que o Mal fumega e impera. 
Devemos aqui lembrar a prática inculturadora de dois dos personagens mais belos desta ficção de virtude, de resistência ao mal e transcendência mística, propiciadas pelo cristianismo. O próprio Cristo foi magnânimo em aproximar seus ensinamentos da linguagem e dos símbolos da gente comum de seu tempo. Paulo, como dizíamos, prossegue essa prática, quando con-verte o próprio evento-Cristo (como diria Badiou) em imagens habituais de sua época. Duas que me agradam são a metáfora esportiva e a militar, reunidas na seguinte passagem da Segunda Epístola a Timóteo:
"Suporta comigo os trabalhos como bom soldado de Cristo Jesus. Nenhum soldado pode envolver-se nos afazeres da vida civil se quiser agradar quem o alistou. Nenhum atleta será coroado se não tiver competido segundo as regras". E logo adiante, as duas metáforas como que se fundem na ideia de combate, que é tanto esportiva quanto militar e, por que não, existencial, no que a existência tem de sacrifício, o sacro-ofício da renúncia a si mesmo, ao Mal e às obras do inferno, e serviço ativo à causa do Amor que entre os cristãos é indissociável da sua personificação em Jesus Cristo. Ele que para minha inculturação schopenhaueriana, romântica, da fé, que se alimenta do e luta contra o asco quase esquizoide ante o mundo, e desejo heideggeriano pela Terra, nunca me seduziu tanto como agora, sublime holograma de afeto, sentido e superação, qual miragem de água viva que sacia e torna possível prosseguir pelo deserto do falso que é a terra devastada e suas tribos de mitos insuportáveis: 
"Quanto a mim, já fui oferecido em libação [alusão a sacrifícios judaicos e pagãos, em que libações de vinho, água ou óleo eram derramadas sobre as vítimas], e chegou o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei minha carreira [termo que significa corrida, além de trajetória profissional], guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo Juiz, naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor sua Aparição".  A vitória a ser buscada não é no palco do mundo, que é para os asseclas do diabo, mas no foro íntimo da luta mais dura de todas, que é a pela autossuperação.
Na agonia e marasmo do simbólico em nossos tempos indigentes, é experiência necessária se juntar às fileiras do bom agonismo, isto é, do bom combate, propugnado pelo Apóstolo Paulo, sob meus filtros germânicos da teologia implícita de  Jung e Schopenhauer (não me venham com a risível laicização da psicologia dos arquétipos de um e do pessimismo ascético do outro) . Ou os da teologia explícita, igualmente germânica e antimoderna, do papa alemão Joseph Ratzinger (não me venham com o igualmente risível e atemorizado estereótipo de que tudo o que é profundo, irado e germânico é nazista). Lia ontem, na esteira da academia, as combativas palavras de Papa Bento XVI, que alterno, já no conforto de uma mesa de café, com as doçuras igualmente profundas das homilias de Francisco. Dois papas, duas imagos, um só convite, a endurecer sem perder a ternura jamais. 
-Unzuhause-

Sunday, March 23, 2014

a imaginação solidária


Em homenagem ao tempo pascal, a este dominical dia do Senhor e do Sol (Sunday; Cristo foi desde o princípio associado ao arquétipo do Herói Solar ), e ao primeiro ano do pontificado de Francisco, queria compartilhar com vocês minha leitura  dos fascículos  da Coleção ecumênica Diálogos de Fé, em que o então cardeal Bergoglio conversa com o rabino Abraham Skorka e com Marcelo Figueroa, membro da Igreja Presbiteriana da Argentina. O tema que escolhi para começar foi "solidariedade", que dividirei em algumas exposições, pois o livro é curto mas repleto de tesouros; há ainda outros três volumes, Razão e Fé, A Oração e A Dignidade, a serem trabalhados na sequência.
Ainda da fase portenha do hoje bispo de Roma, são diálogos com evidente alcance universal. Tocam em desafios das Igrejas, da religiosidade em si (termo irritantemente rejeitado pelos telepastores, mas isso fica para outro dia) e de todo homem de boa vontade num mundo em grave crise de paradigmas morais, culturais e político-econômicos. 
No fascículo de hoje, "Solidariedade", bastaria destacar a historinha que fecha o volume: "A cama".
Era uma vez dois homens muito doentes, que dividiam um quarto de hospital. Um podia sentar na cama todas as tardes durante uma hora, para ajudar a drenar o líquido de seus pulmões. Sua cama dava para a única janela do quarto.
Seu colega de quarto tinha de ficar o tempo todo de barriga para cima. Os dois conversavam durante horas. Falavam de suas mulheres, famílias, seus lares, trabalhos, passagem pelo serviço militar. Todas as tardes, quando o homem da cama junto à janela podia se sentar, passava o tempo descrevendo a seu vizinho todas as coisas que podia ver do lado de fora. O homem da outra cama começou a desejar que chegassem essas horas em que seu mundo se alargava e ganhava vida com todas as atividades e cores do mundo exterior.
A janela dava para um parque com um lindo lago; patos e cisnes brincavam nele. Tão logo julgou apropriado, depois do falecimento de seu colega de quarto que tão belos relatos do mundo lhe fazia todas as tardes, o outro homem pediu para ser transferido para a cama ao lado da janela. A enfermeira o transferiu com prazer e, após se assegura de que estava confortável, saiu do quarto. 
Lentamente, com dificuldade, o homem se ergueu sobre os cotovelos para dar sua primeira olhada no mundo exterior; enfim teria a alegria de vê-lo por sia mesmo. Esforçou-se para girar o corpo e olhar pela janela ao lado da cama... e encontrou uma parede branca.
O homem perguntou à enfermeira o que poderia ter motivado o colega a descrever coisas tão maravilhosas olhando pela janela. A enfermeira, surpreendida, lhe perguntou se não sabia que o outro homem era cego, não poderia ter visto sequer a parede. Então por quê? "Talvez só quisesse animar você"
A moral da historinha -de autor anônimo-, na frase final do livro: "A dor dividida é metade de um sofrimento, mas a felicidade, quando compartilhada, se multiplica".
Podemos pensar noutras lições, comparar por exemplo com o argumento do filme "A Vida é Bela", em que o judeu Guido é levado com o filho para o campo de concentração, e tudo o que lhe resta então é tentar poupar o filho, no que possível, do horror dos acontecimentos, filtrando-lhes o significado, convencendo o pequeno Giosué de que tudo aquilo não passa de uma brincadeira. Não se trata, como disseram alguns críticos do filme, de maquiar, mitigar e banalizar a barbárie. O buraco, como sempre,  é mais embaixo: é a cratera de horror que a existência humana precisa transcender, pela imaginação, para que não se entregue à inércia e vire carcaça deitada para sempre ao relento das pedras. 
É só por força da imaginação que o cego podia "ver" o lago de cisnes e patos com que confortava seu colega de sofrimento e alegrava a si mesmo. Um jogo que, ao contrário do eu versus você, traz vitória para os dois lados. 
Quintessência imaginativa da solidariedade,  enquanto afeto e enquanto ato concreto que sustenta esse afeto. Pois sem o gesto o propalado afeto se degradaria em discurso, mera boa intenção, versando -satisfeito consigo, vaidoso e hipócrita- sobre "a humanidade" mas nos mantendo cegos em relação ao homem diante dos olhos do coração. Fácil amar a humanidade, difícil é amar os homens, dizia Nelson Rodrigues, citado por Rodrigo Constantino na abertura de seu best-seller Esquerda Caviar.
A imaginação solidária, em gesto e afeto, nos arranca de nosso isolamento, afinal ilusório, pois estamos no mesmo barco, no mesmo quarto, a apenas uma cama do irmão que geme de dor e limitações parecidas na cama ao lado. O sonhador solidário, ao contar seu sonho, ao tecer e compartilhar seu mito, ultrapassa a história solitária, que é a história "natural", matéria bruta e prima de um Bem que, se não existisse, teria de ser inventado. 
-Unzuhause-

Leviatã e o Nosso Homem


Quem escuta o termo "monólogo" logo pensa num solitário declamador de longos versos dramáticos num palco de teatro. Mas nem sempre é assim. "All is Lost", traduzido no Brasil como "Até o Fim", é um monólogo cinematográfico e quase sem palavras. Retrata os nove dias da luta pela sobrevivência de -assim é apresentado nos créditos- "Our man", Robert Redford em plena forma artística aos 77 anos, náufrago no Oceano Índico. 
Revejo o que escrevi e quase mudo a premissa: como falar em monólogo, quando em verdade o que temos é um verdadeiro diálogo mudo e feroz entre o instinto de conservação humano e a não menos "natural" ferocidade do acaso? A começar do choque absurdo do navio com um contâiner, evento que literalmente desperta Nosso Homem e o põe em combate, tentando os reparos técnicos, fechando os buracos, seguindo em frente, para contudo ser alvo de tempestade terrível e a necessidade de abandonar o "Virginia Jean" -homenagem a quem? Sua esposa? Sua filha? Nada sabemos de sua família, mas sabemos que ele tem família, graças à aliança e à carta de despedida que redige para jogar numa garrafa ao mar. É a cena inicial, mas num momento cronológico já avançado (oitavo dia), em que o vemos admitindo culpas, pedindo desculpas por não ter sido o homem autêntico, amoroso e forte que gostaria de ter sido. O homem que talvez tenha ido buscar no confronto com o Leviatã da natureza, na loucura de uma viagem assim vulnerável, comparável à do jovem herói de "Na Natureza Selvagem", o filmaço de 2007 dirigido por Sean Penn. 
Leviatã é o monstro bíblico marítimo que o britânico Thomas Hobbes usa como título de seu livro clássico de filosofia política, de 1651. Hobbes era um pessimista inveterado quanto à natureza humana. Via nossa espécie como uma horda de egoístas, falsários, prepotentes e interesseiros, até quando amam. Também pudera. Os horrores da guerra o assediaram até no útero: sua mãe entra em trabalho de parto pressionada pela aflição de ouvir que a Invencível Armada espanhola estava a caminho de invadir a Inglaterra. A notícia não se confirmou, mas o nascimento doloroso (como todos) e prematuro certamente ficou gravado em sua psique, se juntando aos tantos exemplos de hostilidades  e brutalidades  que sua época o ofereceu, e à qual ele respondeu por uma filosofia que hoje muitos considerariam "ditatorial". Ele diz que só um Soberano forte tem a capacidade de assegurar, impondo medo, um contrato social que nos livre de uma vida "solitária, pobre, sórdida, embrutecida e breve", no estado de natureza, de todos contra todos. Pois deixado a si mesmo o homem é o ingovernável lobo do outro homem. 
"All Is Lost" é de certa forma um retorno ao estado de natureza, e o confronto com o Leviatã original, o das águas primordiais, que já segundo Tales são a origem (arqué) do mundo. O livro de Hobbes abre com uma ilustração de um gigante numa colina, segurando um cetro e uma espada. O desenho é composto por muitas pessoas menores, ainda reconhecivelmente indivíduos. O gigante era o Soberano Corpo Místico do Estado, solução para que os indivíduos se mantenham solidários ao Todo humanizado e não se entredevorem como ratos irados. O Leviatã de "Nosso Homem" é o vendaval, a borrasca, o choque aleatório, é a comunicação impossível, a falha do rádio (ou do celular, clichê inevitável de todo filme de terror ), a indiferença das embarcações maiores que passam pelo bote salva-vidas de nosso pobe náufrago. É o homem desprotegido, em liberdade absoluta mas inútil, pois, como Hobbes pensava, mais que liberdade, ou até para dar substância à liberdade, o que nos é vital é a segurança, e Nosso Homem faz o caminho inverso, de abandonar as seguranças da civilização (ele parece um homem de rendas, dada a fartura dos mantimentos e o hábito de navegação), de ir ao encontro do que ignoramos.
O diretor J. C. Chandor estabelece com "All Is Lost" um curioso contraponto com seu filme anterior, "Margin Call- o Dia Antes do Fim", em que ele descrevia com tinturas de "O Lobo de Wall Street" a ferocidade selvagem, e moralidade zero,  do capitalismo financeiro contemporâneo.  Dois casos-limite de civilização à beira do naufrágio. Podemos até imaginar  "Nosso Homem" como um dos corruptos do universo descrito em "Margin Call", traidor dos valores e da família, lançando-se ao mar em luta pela expiação. Limpando por exemplo o anel de casamento que constantemente é realçado pela câmera  e posto em paralelo com o "anel" do barco salva-vidas filmado de baixo para cima, cercado de peixes, tubarões, azul e escuridão. 
Digna de nota a maestria técnica da filmagem, que certamente não pôde combinar grande coisa com o mar para chamá-lo a atuação tão convincente como a que tem no "monólogo" de Redford. Sem palavras, senão um "fuck" aqui ou um "god" acolá. Como em certas tribos primitivas, e como vemos muito no "christ", "holy shit" (santa merda) ou "nossa senhora", que até ateus repetem muito em horas de catástrofes, os termos religiosos brotam do inconsciente como fórmulas elementares para nomear nosso assombro, horror ou irritação com o caos da existência. Não são soluções para o drama de Nosso Homem, do Homem que somos nós -enteléquia que ajunta os fragmentos no meio do caos-, são sim companhia na travessia e no naufrágio, essa antiga imagem existencialista para designar a condição humana em si. 
-Unzuhause-

Saturday, March 22, 2014

monarquista e anarquista


Dizer que estou "atônito" com a baboseira das marchas e contramarchas políticas desta tarde seria inflar muito o nível de intensidade emocional com que acompanho bestializado o rumo da prosa na feira das ideologias contemporâneas. Atônito fiquei é ao topar com uma definição etimológica da Igreja, no parágrafo 751 do Catecismo da Igreja Católica, que vai além da que é mais difundida, a de "assembleia". Ekklésia, do grego "ekkaléin": chamar fora. Em suma, a palavra Igreja significa, além de assembleia de caráter religioso, simplesmente "convocação". Conjugando as duas acepções, teríamos então que o fenômeno eclesial tem por causa a convocação, e finalidade o congraçamento, dos homens retirados do isolamento de suas individualidades, quando despertam para o sentido de missão suprapessoal: viver e partilhar o pão eucarístico, ouvir e difundir a mensagem evangélica. 
 O encanto adicional nessa descoberta fortuita vem também do fato de, num post de ontem, eu ter espontaneamente (isto é, não direcionado por informação intelectual prévia) usado esse mesmo conceito de convocação: 
"A 'confiança' entre os homens não dispensa a mediação da Tradição que faz de Francisco ou Bento expressões distintas de um mesmo Corpo Místico que caminha no tempo convocando os homens à salvação na (e não da) solidão". 
Eu procurava expressar minha insatisfação com o maniqueísmo tolo de se tomar a figura de Papa Francisco abstratamente, numa contraposição imaginária com Bento XVI, que era menos simpático aos olhos da mídia e dos adeptos do "liberou geral" teológico e moral. Se na esquerda do Leblon se cultuam os Freixos, na teologia da liberação geral se festeja o frouxo, o vale-tudo, o dogma que caiba no meu bolso, o deus à imagem e semelhança do achismo e modismo que esteja mais "in" para os interesses lobotomizantes do comunismo cultural (se não também político e econômico), que avança sob o signo triunfante não mais da Cruz ("in hoc signo vinces" era a mensagem que Constantino leu no céu e que anunciou a era da hegemonia cristã), mas do  "Homem medíocre", cuja pedra José Ingenieros já cantou há décadas. 
Eu mesmo celebrei e celebro Francisco como um tempo novo para a Igreja e para minha caminhada de fé, que estava, como o caminhante como um todo, no fosso fundo da depressão, até aproximadamente o período em que esse adorável velhinho argentino surgiu na sacada de Roma pedindo de nós todos uma ave-maria pelo pontificado que começava há um ano. Esta ave-maria foi uma espécie de "convocação", sob o aspecto formal, que noutros níveis o Espírito Santo já me vinha operando em cada músculo e pensamento, rumo à minha reforma íntima de corpo, da alma e do espírito, para estar apto a viver a eclesialidade de Cristo em mim e com a igreja-mundo. Uma igreja "no" mundo, atuante e jovial como pede Francisco. E que deve trazer consigo, na simplicidade e simpatia dos modos de nosso papa, a riqueza de um Corpo espiritual que tem idade de milênios, e um patrimônio de doutrinas a serem respeitadas com o rigor de um Bento XVI, ele, como Francisco, imagem temporal de um Sentido que vai além de ambos, que é uma Tradição e uma História rica e contraditória, santa e pecadora, e que é tanto mais poderosa quanto mais se despoje dos rapapés e frescuras e ilusões ideológicas -mas nem por isso menos criminosas- que são típicas do príncipe deste mundo e de seus serviçais instalados no Poder. 
Monarquista e anarquista, em sua obediência unicamente a Deus, suspeita radical em relação ao humano decaído e pecaminoso, e vocação de Diógenes cínico e sátiro contra a cidade dos homens (vide o repúdio dos romanos à indiferença política dos cristãos, conforme Agostinho conta  na Cidade de Deus): eis outra ambivalência que faz tão charmosa e urgente essa instituição para os corações desconsolados com a pseudo-"democracia" que se vende na feira pública, e que se contesta ou arrota em marchas risíveis como as que esvoziaram alto (deram voz e vazio) em mais uma tarde de tédio brasileiro.
-Unzuhause-

Friday, March 21, 2014

maldito o homem que confia no homem





Papa Francisco põe o dedo nas feridas, as da Igreja, as do mundo e as do homem, mas seu dedo nunca infecciona e sim vem curar. Em homilia ontem no Vaticano, comenta de modo certeiro as palavras duras do profeta Jeremias: "Maldito o homem que confia no homem". Contra a tolice de querer fazer de Francisco um emissário secreto da teologia da libertação em Roma, uma revanche de Boff contra Ratzinger, o papa se mostra de acordo com o princípio conservador da suspeita contra todas as ideologias, esses artefatos sociais que, ao contrário da experiência pessoal da Tradição,  escondem o homem de si mesmo, de sua miséria, insuficiência e solidão. A "confiança"entre os homens náo dispensa a mediação da Tradição que faz de Francisco ou Bento expressões distintas de um mesmo Corpo Místico que caminha no tempo convocando os homens à salvação na (e não da) solidão. 
Sobre solidão, recomendo o livro do psiquiatra junguiano Anthony Storr, Solitude: a Return to the Self (Solidão: um Retorno ao Self). Ele ali mostra que muitos dos homens e mulheres mais criativos da filosofia, da ciência e das artes se recusavam à companhia íntima prolongada, por exemplo em laços conjugais. Critica a ideologia psicanalítica de que só narcisistas ou outros doentes mentais (maus psicanalistas têm o risível hábito de aplicar seus precários instrumentos de diagnóstico para rotular adversários de suas pessoas ou ideologias vaidosas) não fazem laços afetivos e sexuais estáveis. Começa pela citação do grande historiador Edward Gibbon: "O diálogo enriquece a compreensão, mas a solidão é a escola do gênio; a uniformidade da obra indica a mão de um único artista".
Claro que o elogio da individualidade radical do gênio é mais protestante que católica. A Igreja romana se marca pelo forte senso comunitário e familiar, em relação aos quais os homens estudados por Storr são visivelmente casos desviantes e "heréticos". Mas como a própria instituição do celibato, católica e não protestante, atesta, é possível, e por vezes um chamado de Deus, a alquimia do solitário solidário, Filho do Homem, um membro melhor da família universal na medida mesma em que não se tornou mais um integrante das famílias particularistas dos homens comuns. 
O solitário por vocação ou por "maldição" -há assim tanta diferença entre ambas?- vê mais nítidas as espessas paredes que dificultam a real comunicação entre os homens. Por isso para ele é natural repetir com Jeremias: maldito o homem que confia no homem. Ou o que se fia na idolatria, que para os modernos tem o nome de ideologia. Ou o que se esconde de si mesmo e da genialidade, que para os místicos tem o nome de santidade.
-Unzuhause-

Primeira leitura: Jeremias 17, 5-10
Leitura do livro do Profeta Jeremias:

5Isto diz o Senhor: “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto o seu coração se afasta do Senhor; 6como os cardos no deserto, ele não vê chegar a floração, prefere vegetar-se na secura do ermo, em região salobra e desabitada. 7Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor; 8é como a árvore plantada junto às águas, que estende as raízes em busca da umidade, e por isso não teme a chegada do calor: sua folhagem mantém-se verde, não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos. 9Em tudo é enganador o coração, e isto é incurável; quem poderá conhecê-lo? 10Eu sou o Senhor, que perscruto o coração e provo os sentimentos, que dou a cada qual conforme o seu proceder e conforme o fruto de suas obras”. 


Cidade do Vaticano (RV) – O homem que confia em si mesmo, nas próprias riquezas ou nas ideologias, está fadado à infelicidade: palavras do Papa na manhã desta quinta-feira, durante a Missa na Casa Santa Marta.
Em sua homilia, o Papa comentou a primeira leitura do dia, extraída do Livro de Jeremias, que declara “bendito o homem que se fia no Senhor”: “é como uma árvore plantada junto da água”, que não para de produzir frutos no ano da seca.

A nossa confiança está somente no Senhor, disse Francisco. Não precisamos de outras coisas, de outras ideologias. Do contrário, o homem se fecha em si mesmo, “sem horizontes, sem portas abertas e sem salvação”. É o que acontece ao rico do Evangelho, eu não percebeu que ao lado de sua casa havia um pobre. O pobre sabemos que se chamava Lázaro, mas o rico “não tem nome”:

E esta é a maldição mais forte de quem confia em si mesmo ou em suas forças, nas possibilidades dos homens e não em Deus: perder o nome. Qual seu nome? Conta número tal, no banco tal. Qual seu nome? Muitas propriedades, muitas casas… Qual seu nome? As coisas que temos, os ídolos. É amaldiçoado o homem que confia nisso.

“Todos nós temos esta fraqueza – afirmou o Papa –, esta fragilidade de depositar as nossas esperanças em nós mesmos ou nos amigos, ou somente nas possibilidades humanas e nos esquecemos do Senhor. E isso nos leva ao caminho da infelicidade”:

Hoje, neste dia de Quaresma, nos fará bem questionar: onde está a minha confiança? No Senhor, ou sou um pagão que confio nas coisas, nos ídolos que fiz? Ainda tenho um nome ou comecei a perder o nome e me chamo ‘Eu? Eu, mim, comigo, para mim, somente eu? Para mim, para mim… sempre aquele egoísmo: ‘Eu’. Isso não nos dá a salvação.

Todavia, observou Francisco, “no final há uma porta de esperança” para os que confiam em si mesmos e “perderam o nome”:

No final, no final sempre existe uma possibilidade. E este homem, quando percebeu que tinha perdido o nome, tinha perdido tudo, tudo, levanta os olhos e diz um só palavra: ‘Pai’. E a resposta de Deus é uma só palavra: ‘Filho!’. Se alguns de nós na vida, de tanto confiar no homem e em nós mesmos, acabamos por perder o nome, por perder esta dignidade, ainda existe a possibilidade de dizer esta palavra que é mais do que mágica, é mais forte: ‘Pai’. Ele sempre nos espera para abrir uma porta que nós não vemos, e nos dirá: ‘Filho’. Peçamos ao Senhor a graça que a todos nós dê a sabedoria de confiar somente Nele, não nas coisas, nas forças humanas, somente Nele”.


http://www.bibliacatolica.com.br/blog/santa-se/papa-quem-confia-em-si-mesmo-e-nao-em-deus-esta-fadado-a-infelicidade/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+bibliacatolica+%28B%C3%ADblia+Cat%C3%B3lica+News%29#.Uyx7UWOYZRG

Collor e a marcha à ré da história


Leiam texto a seguir em que Olavo de Carvalho comenta o conceito de "assassinato de reputações", título do polêmico livro de Romeu Tuma Jr. sobre as proezas da maquinaria petista de eliminação de vozes discordantes em sua marcha ao poder total. Tuma, aliás, declarou que "coincidentemente" sua casa foi alvo de tiros na véspera de um depoimento que ele daria sobre o livro, recém-lançado e que vale muito a pena ler. 
Mas Olavo, como filósofo, adentra e expande o fenômeno de polícia denunciado por Tuma. E, na referência que faz a Fernando Collor, ajuda a entender o processo anímico de meu primeiro amor na política, da fantástica derrota que impôs ao esquerdismo infantil à rendição forçada ao lulismo mais manhoso e adulto que se instalou no Estado e tem tudo para se perpetuar. "Olavo tem razão" (esse é o meme do momento, entre seus muitos fãs), e sugere como entender o assustador modo como Collor foi destituído também do poder magnético de sua imago. Fragilizado e opaco, se tornou um resto do que foi , resto faminto dos restos que lhe dão na mesa farta dos donos do poder, mesa da qual foi expulso pelos paladinos da "ética na política" pouco depois de expulsar o sarneyzismo e tudo o que representa esse "Centrão" impotente que impera na política dos rapapés e da conversa fiada.

Meu amor pelo Collor de 1989-1990 é, rigorosamente falando, platônico, é pela Ideia de "realeza" republicana que ele encarnou e que seduziu também José Guilherme Merquior, seu assessor intelectual no trabalho para um social-liberalismo que conjugasse a meritocracia agressiva de uma sociedade capitalista com um Estado firme. limpo, ágil e com a cultura da compaixão que, antes de Marx, Nosso Senhor ensinou como receita a toda convivência com o próximo e com nós mesmos. 
Um projeto verdadeiramente conservador, ao invés de marchas a ré como a dos saudosistas da ditadura, precisa da jovialidade e da altivez corajosa -mas que não seja maluca, se possível- que Collor mostrou ao vencer e à qual não fez jus ao governar. Falhou não só pelo escândalo PC Farias mas pelos erros econômicos e pelo procedimento intolerante com setores sociais como a mídia, da qual ele provinha, e sem a qual nada é viável na sociedade das imagens. Foi dele a primeira marcha à ré pessoal e política que ajuda a explicar o desespero que vai levar milhares às ruas amanhã na marcha por um Deus, uma Família e uma Pátria que só existem sobre suas cabeças, como nuvem a seguir os seus passos.
-Unzuhause-

"Assassinato de reputações" não é um termo muito exato. "Character assassination" é melhor, precisamente pela ambigüidade da palavra "character". Em geral a reputação que sofre mais é a do autor, não a da vítima. O objetivo real da operação é menos publicitário do que psicológico. O que se pretende destruir não é bem o prestígio da vítima, mas a sua psique, a sua mente. O mecanismo é muito simples, remonta a reações da psique infantil. Quando você sofre uma ofensa brutal, incompreensível e muito superior à sua capacidade de obter uma reparação, toda a existência começa a lhe parecer absurda e, numa reação instintiva de autodefesa cerebral, o seu senso de justiça se inverte e você começa a se culpar a si mesmo, restaurando uma aparência postiça, mas anestésica, de ordem e racionalidade. Foi por isso que muitas vítimas de "character assassination", como o célebre Alceni Guerra e o ex-presidente Collor de Mello, recuaram para a obscuridade em vez de defender bravamente seu lugar na cena pública. A perversidade incalculável do ardil ultrapassa em geral a compreensão da vítima, que em busca de um reajuste psicológico imediato, sacrifica tudo no altar do nada
-Olavo de Carvalho-

Thursday, March 20, 2014

Jesus Cristo superstar


"É absolutamente certo que, se um Cristo aparecesse novamente na terra , seria entrevistado e fotografado pela imprensa e não viveria mais do que um mês. Ao final, sentiria repugnância por si mesmo, porque fora banalizado até o insuportável. Seu próprio sucesso  o mataria moral e fisicamente". 
Essas palavras foram a contribuição de Jung a um simpósio publicado em 1958,  em Nova York, sob o título "Dez opiniões exclusivamente pessoais de célebres pensadores que dedicaram sua vida aos problemas do espírito"; entre os demais participantes, Aldous Huxley, Norman Vincent Pale e Billy Graham.  
Cristo, a mais poderosa representação divina para o homem do Ocidente, é para a psicologia junguiana uma imagem arquetípica do Self, a Totalidade ou Enteléquia que a consciência porta consigo como origem e tendência, vetor profundo por mais que esquecido de si mesmo, fraturado, extraviado nos labirintos do tempo e do mundo das aparências. Mundo que hoje atende pelo nome de mídias. Não só as tradicionais, pois se o proletário não tomou o céu, como queria Marx, ao menos o senso comum tomou posse , na era das redes virtuais, do direito à celebridade instantânea, à aparência que se autocongratula em aparecer e se difundir, por exemplo nesse termo sugestivo, "selfie", nome mais recente de nosso protesto de não sermos "mais um" na massa anã anônima da polis real.  Como o Self, que no culto cristão tinha o nome do próprio Messias, se re-vela (aparece e se vela de novo) em tempos de "selfie"?
 A opinião de Jung, além de divertida tirada, é um alerta que deve ser muito levado em conta. E também dimensionado pelas contingências pessoais em que a proferiu. A tudo o que ele disse e escreveu corresponde um subtexto mais sutil, que mistura traços persistentes de sua personalidade com conjunturas de cada momento pessoal e coletivo, verso e reverso da história turbulenta e acelerada de que é síntese em tom maior. 
Este "Jesus Cristo Superstar" (está reestreando em SP este sucesso da contracultura, filme agora em peça) arruinado pelo sucesso, sucateado e logo substituído pelo próximo da série de ídolos "imortais" de consumo da massa, esse deus celebrado e jogado às traças pela banalização midiática, tem algo do jeito arisco, casmurro, trazido a Jung pelo cansaço com uma civilização que dava já claros sinais de idiotização. E também cansaço, claro, pela idade, suas perdas, suas rugas, a seriedade desiludida de quem, já octogenário, se sentia a caminho de um novo e duplo confronto com o "inconsciente". Adiante, antevia o ignorado porvir além da vida (estava a três anos de cumprir seu ciclo terreno). Para trás, prospectando o poço fundo das memórias, sonhos e reflexões da sua longa vida. Eram os primeiros dias da tarefa dolorosa e exigente de repensar e recontar trajetória, no projeto autobiográfico com a secretária Aniela Jaffé.  
Mas, feitos os descontos à rabujice saborosa do Velho Sábio, que nunca deixou de ser profundamente jovem (como o sentido de seu nome "Jung" o profetizava), é preciso inverter, com ele, a sentença célebre de Bertolt Brecht, que era contra os heróis individuais, que a cartilha marxista tachava de alienação burguesa. Preferiam o heroísmo do Partido, da Classe, do Pai dos Pobres. Mais franco neste aspecto, Jung define o heroísmo como processo natural, universal e, sim, profundamente individual, ao menos em seu sentido ético urgente para o combate à massificação que nos ameaça e nos despedaça.  Não é que é pobre o povo que precise de heróis. Pobre é o herói que precise de um povo como o nosso. Pobre e "unzuhause" (como dizia Heidegger: o estar-fora-de-casa da angústia) é o Bambino divino que não tenha, como sua Mãe e seu Pai (a espontaneidade da natureza e o imposto cultural), hospedaria outra que a de uma sociedade ou de um Eu incapazes de ir além do divertimento do selfie ao encontro de seu destino de Self.
-Unzuhause- 

Wednesday, March 19, 2014

individuando com Jung e Yuka

Castelo de Laufen, na Suíça, à beira  das cataratas do rio Reno 

Juro que eu estava quieto, no meu canto, sorvendo meu café e meu Schopenhauer. Sem intenção de falar nem pensar mal da política brasileira. Isso um dia depois de, na companhia de Jung , reiniciar a leitura de sua autobiografia pela enésima vez, e pela primeira. Relendo pela enésima e primeira vez a referência de Jung ao castelo de Laufen em cujo presbitério foi morar com o pai (pastor) e a mãe logo aos 6 meses de idade. 
Para a leitura rasa que quase sempre se faz de Jung, esse tipo de informação -o castelo de Laufen-poderia passar batida. Não quando procuramos dar corpo e espírito, ou seja, imagem, à letra. Predominante sobre as cataratas do Reno, o castelo suíço de Laufen nos inunda de assombro e deleite ainda hoje, como deve ter feito nos seus mais de mil anos de existência, e como testemunhado por Schopenhauer, que o cita como exemplo do poder da natureza de emudecer, literalmente, a pífia voz humana,  ali engolida pela fúria das águas, basta fazer a experiência de tentar conversar. O étimo de mítico e de místico remete a silêncio, ao que faz emudecer. Jung praticamente teve por berço o que um dos maiores filósofos de todos os tempos conceituou- quer dizer, trouxe da intuição imediata à compreensão intelectual- como o sublime. Diríamos com Otto e Mircea Eliade, como o sagrado. 
Corto dos abismos germânicos de Schopenhauer e Jung para subir ao morro do Alemão. Para citar um momento do filme "Alemão", objeto hoje de excelente (perdoem a redundância) coluna de Marcelo Coelho na Folha. Por deus, Marcelo, de onde vem, entre outras virtudes, seu talento narrativo e descritivo, a fisicalidade rara e saborosa dos termos, a concretude da inteligência a laser? Concordo com os elogios de Marcelo ao filme,  tendo apenas implicâncias periféricas. Sobretudo desgostei de Cauã Reymond, tão convincente no papel de poderoso líder do tráfico de drogas do Rio de Janeiro quanto Al Capone tomando toddynho enquanto fala grosso para impressionar alguma diva à la Ísis Valverde. A certa altura ele dispara algo como "porra, pobre não sabe ficar quieto". Era algum funk tocando alto no morro. 
Essa frase me tocou pelo fato de eu ser especialmente irritável com relação a barulhos desnecessários e invasivos do monstro urbano sobre nossas cabeças.  Mas não penso, ao contrário do "Playboy" (apelido do personagem, com que tentaram dar mais verossimilhança a Cauã, em vão) do Alemão, que isso seja peculiar aos pobres, a não ser que queiramos descambar para raciocínios "estrumentais" (muito comuns entre analistas da explosão demográfica em países periféricos) que culpam o pobre, em sua pouca roupa e educação, por "só pensar naquilo" e assim fazer muito neném. O ser humano em geral usa cada vez menos roupa (externa e interna) e faz cada vez mais barulho, e cada vez mais só pensa naquilo. A democracia dos costumes -embora não a das oportunidades de renda e escalada social- está instalada. 
Fazemos entre nós o barulho que gênios como Jung escutavam diretamente do âmago da natureza, em espaços imperiais  como o sublime castelo de Laufen. O mito é esse portal sagrado em que energias do mundo fluem em som, cheiro e cor para nós, e de nós para o mundo. Por isso chamar o junguianismo de mito não é insulto, como seria para os "iluminados" (no sentido de Iluminismo) da psicanálise dita científica. Tampouco "obscurantismo" é ofensa para Jung. Ele é amante do obscuro, na linhagem de Heráclito, filósofo aliás que tinha entre os gregos a alcunha de "o Obscuro". 

Pois bem, enquanto lia e ruminava essas impressões da montanha mágica do berço de Laufen, fui assediado, no café da Fnac, pelo burburinho ao longe, de um bate-papo que me chamou a atenção quando alguém falou que iria falar da vida sexual de alguém. Quem? Na minha curiosidade rodrigueana, que também adora "pensar naquilo", não resisti, desci do berço de Laufen para o burburinho e puxei uma cadeira perto da aglomeração. Era um bate-papo com Bruno Levinson, co-autor com Marcelo Yuka da autobiografia do ex-músico do Rappa. Se na autobiografia de Jung, impera o relato da "experiência interior", a única que para o sábio introvertido conta de fato, a de Yuka, a princípio, faz o caminho oposto. Vem para a rua. Vem para fora. Fala das agressões do fora, inclusive: por exemplo, o trágico assalto que deixou o músico paraplégico -cruel ironia para um sincero lutador pela causa do pacifismo e da igualdade social. Fala também do cruel abandono pelos ex-amigos do Rappa, que o expulsaram do grupo poucos meses depois do assalto, e em meio às terríveis dores físicas e morais da nova realidade de cadeirante. Como Yuka não pôde vir, ao contrário do previsto, o jornalista carioca se encarregou sozinho  de nos falar do livro, que se chama "Não Se Preocupe Comigo". Pedi-lhe, assim que me juntei à plateia de umas vinte pessoas (os deliciosos eventos pocket da Fnac),  para ele desenvolver um comentário que fez en passant, de que Yuka, depois da experiência de vice na chapa de Freixo na campanha para prefeito ano retrasado, se  desiludiu da política partidária. Não renunciou às causas sociais, nem à afinidade filosófica com o Psol (deve votar em Freixo esse ano para deputado), mas não quer mais saber de jogo político-partidário. Bruno, talvez com medo de municiar o que considera ser a onda reacionária do Brasil atual, evitou entrar em detalhes sobre  essa minha outra "tara" rodrigueana, a tendência à frustração de toda esperança política quando canalizada para partidos como os brasileiros.  A tendência à frustração de toda esperança na humanidade, em verdade. A tendência ao sofrimento mais atroz, ao abandono, ao desamparo, à traição, justamente naqueles mais imbuídos de construir um mundo mais humano, como se "humano" fosse sinônimo de ético.
Yuka, segundo Bruno, não esmorece com a  tragédia por apostar que há um sentido nela. Uma finalidade social: fazer-se símbolo da necessidade de transformar essa realidade brutal que nós vivemos e somos. No caso de um homem como Yuka, provado nas profundezas do abismo a que ele desceu e se levantou, eu boto fé sim na potência da causa. Apenas não chamaria isso de "função social", termo de Bruno. A determinada altura dos Alpes do mundo e da alma, a gente descobre, com Jung, que o mais íntimo de cada um nos conecta a todos. Quanto menos "sociais", somos melhores, porque mais a caminho do tornar-se o que se é, sem mentiras, sem frescuras, sem amparos.  Dou minha palavra de escoteiro e de sociólogo de origem e junguiano por destino, isto é, incurável fã romântico do mito. Destino é o nome que Jung dá aos encontros e eventos dotados de sentido; aqueles em que não apenas conhecemos algo novo de outrem, mas relembramos algo de nós, "de novo". A tragédia é instante  por excelência de revelação do destino. De moldar a fogo a individuação que nos reescreve a punho próprio no Livro do Mundo. Foi assim com Yuka fez, não sucumbindo à tentação de odiar seus algozes,  os que lhe tiraram o movimento das pernas, mas não o da alma. Os que o expulsaram da banda, mas não silenciaram sua música. 
 Ah, e quanto à vida sexual, o comentário na verdade não teve nada de picante, como eu, incauto, sem saber quem falava de quem, imaginei a princípio. Bruno falou, comovido e comovente, da alegria de Yuka em contar para o médico a descoberta que fizera de que o seu órgão sexual funciona plenamente; e mais que isso, em descobrir enfim a diferença entre o mero fazer sexo, como ele fazia antes do trauma, e o fazer também amor no sexo, como agora. "Mais Yuka em sua vida" tem sido uma fórmula constante nos autógrafos de Bruno. Ele também lembrou, evitando o tom vitimista (que o próprio Yuka rejeita, assim como o estereótipo de que é um herói ou santo), que muitas vezes, ao longo das entrevistas com o cantor, voltava para casa aos prantos. Só sabia que precisava abraçar forte o seu filho.  
-Unzuhause-