Sunday, January 26, 2014

kaizen


Um arquiteto ambicioso, determinado e workaholic tem, com a esposa, a vida transtornada quando descobrem que o filhinho de seis anos não é "na verdade" (biológica) deles, foi trocado por uma enfermeira mal-intencionada. A outra família também foi contactada, e agora o hospital recomenda que se desfaça o engano, para o bem das duas crianças. Vocês podem imaginar a intensidade dramática da história contada pelo filme "Pais e Filhos", de Hirazaku Kore-eda. Sem sentimentalismo piegas, porém, ele nos mostra com empatia e delicadeza as dores do processo legal e afetivo que se instaura, e a gradual aproximação das duas famílias, de estilos de vida bem distintos. 
O outro pai é um modesto dono de lojinha de eletrônicos. Criança com as crianças (brinca de pipa, rola nos brinquedos do parque, toma banho junto), relapso com horários , adepto do lema do "faça amanhã tudo o que não precisa fazer hoje". Avesso completo de  Ryota, o arquiteto bem-sucedido, e dessa face produtivista do Japão moderno que troca os antigos preceitos de serenidade "zen" pelo "kaizen", a melhoria constante,  mantra entre os executivos que  "arquitetaram" o milagre econômico do pós-guerra.
Talvez seja o tempo, é isso o que o filme aponta, de revisão dessas prioridades.  Um Japão pós-moderno, de reconciliação de razão e sensibilidade, se prenuncia como paradigma sociocultural a partir da escala microcósmica que acessamos em "Pais e Filhos". 
É o que se depreende, por exemplo, das palavras do chefe de Ryota, para que seu funcionário exemplar tire um pouco, em meio à crise da descoberta da troca de bebês, a coleira-crachá que se auto-amarra no pescoço e se dedique mais à família, ponha um pouco o pé no freio. Mas é porque você acelerou tanto que chegou aonde chegou, Ryota rebate. Sim, mas isso foram outros tempos, responde o chefe. 
Aparentemente a pessoa mais forte dentre os adultos e crianças no centro da história, é Ryota quem mais se vê premido à "metanoia", um dos grandes eixos com que podemos acompanhar filmes de cunho psicológico como este. Termo grego que, mais que arrependimento -como migrou para o vocabulário cristão-, metanoia denota sobretudo uma transformação de mentalidade. 
No seu caso, a contestação da postura de "kaizen" que ele levava mecanicamente do trabalho para casa, e que o fazia tentar, sem sucesso, arquitetar um filho moldado à sua imagem e semelhança narcísicas.  Terrível, por exemplo, quando ele diz à mulher, logo após confirmado que o filhinho que criavam há seis anos "não era" de fato deles: "Agorá está tudo explicado". Isto é, agora ele entendia por que o pequeno Keita, apesar da criança encantadora que vemos, não conseguir ser um produto de linha de montagem com o mesmo "padrão de qualidade" habitual do fabricante. 
Quantas vezes o suposto amor incondicional e natural dos pais pelos filhos não se assenta nesse tipo de projeção imaginária? Mais que isso, quantas vezes nossa "a-feição" pela realidade em si não é condicionada pelo efeito de espelho em que o caos informe pode desparecer sob os contornos seguros da feição de nossa pequena identidade egoica? Conceitos, esse excelente instrumento de adaptação ao real, se esclerosam facilmente em preconceitos, com que forçamos o real a se adaptar a nós, isto é, a um "eu" empobrecido porque ignorante de seu vazio essencial e amorosamente poroso às diferenças, porque diferença também dentro de si. 
A "inteligência emocional" de que fala Daniel Goleman, ou o "elogio da razão sensível", por Michel Maffesoli, são maneiras como no Ocidente temos discutido esse imperativo que esse belo filme retrata. São maneiras de mostrar que, enquanto está "tudo explicado", pouco se sente e nada se vive. Críticos marxistas à la Zizek explicariam esse tipo de propaganda de uma espiritualidade do afeto, em protesto e transformação individual contra o frio racionalismo, como  "nada mais que" uma nova expressão ideológica do velho capitalismo de guerra. Manias de "nada mais que" pelas quais vamos levando nossas vidinhas de certeza em certeza, de explicação em explicação, na gloríola de nossas batalhas épicas de conceitos e preconceitos de todo dia. Nos certificando uma vez mais, ao girar a chave na fechadura, de que a porta está bem trancada, e de que estamos a salvo na torre de solidão de que nos fala o poetinha Vinícius a seguir, em tocante alerta sobre atitudes mentais que se enclausurem na fortaleza arquitetônica da razão autocentrada, medrosa dos assaltos do afeto: 
(...) a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre". 
-Unzuhause- 

Thursday, January 23, 2014

Monday, January 20, 2014

Beckett e o ambivalente marulho cósmico de Peixes


Única incursão de Samuel Beckett no cinema, "Film" foi roteirizado por ele em 1963 e filmado em Nova York no verão de 1964, com direção de Alan Schneider. Estrelado por Buster Keaton, embora o grande dramaturgo irlandês tivesse pensado em Chaplin como primeira opção. Para a filmagem, Beckett fez sua única viagem aos Estados Unidos. 
O curta, sem diálogos (assista acima), tem por assim dizer dois personagens principais: Keaton é "O" (Objeto), perseguido pela câmera (OE, olhar e câmera). Parte-se explicitamente da tese de Berkeley,  também irlandês, bispo e grande filósofo do idealismo moderno: esse est percepi. Ser é ser percebido. Apareço (para alguém) logo existo. Ao contrário de se rejubilar com essa tese, hoje tão consagrada pela sociedade do espetáculo, porres homéricos de narcisismo "manifestante" e big desbunde brasil diante das câmeras e nos templos do consumismo, é com sobriedade trágica que Beckett está em busca de um além dessa condição opressiva de ser visto, e do ser mesmo:
"Percebido por si subsiste o ser [mesmo que] subtraído de toda percepção alheia, animal, humana, divina.
A busca do não-ser por supressão de toda percepção alheia tropeça com a insuprimível percepção de si".
Assistimos então à fuga de O da perseguição implacável de todas as miras que lhe devolvem a consciência de ser por empréstimo do olhar do alheio. Para Gilles Deleuze,  enquanto a câmera se mantém atrás do personagem, "ela não é perigosa, pois permanece inconsciente. Ela só apreende o personagem quando forma um ângulo que o atinge obliquamente e lhe dá consciência de ser percebido". O velho O lhe parece ter uma identidade mista entre o próprio "bispo Berkeley" (Deleuze gosta de enfatizar a posição eclesiástica do filósofo que batizou uma das maiores universidades do mundo) e Beckett. 
E Deleuze diz nos seguintes termos o problema do filme: "Há algo de horroroso em si no fato de ser percebido, mas o quê?". E talvez chegue à resposta nas linhas finais de seu comentário: "Tornar-se imperceptível é a Vida, ' sem interrupção nem condição', atingir o marulho cósmico espiritual". 
Realizar a grande aspiração cósmica de supressão da ilusão egoica destas ruínas em pessoa que habitam o caosmos beckettiano como avesso dialético dos nobres sonhos de iluminação, por essa mesma via nirvânica, dos heróis de Schopenhauer, outra grande inspiração filosófica de Beckett. Nós piscianos, em particular, duais já no símbolo que nos representa, sabemos bem o quanto treva e luz são ambas siamesas de nossos desejos de transcendência, que desliza no dia-dia entre os pileques da evasão e os pressentimentos ativo-passivos (wu wei dos taoístas) da salvação.
-Unzuhause-  




Beckett & Keaton
Antológico encontro do dramaturgo com o comediante, 'Film' sai agora em DVD
01 de julho de 2011 | 6h 00
Única experiência essencialmente cinematográfica do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989), Film, que estreou em 1965, em Nova York, marca o encontro histórico entre o criador de Esperando Godot e seu inspirador, o comediante Buster Keaton (1895-1966). Cultuado, o filme é lançado em DVD pelo selo Magnus Opus em sua versão integral de 22 minutos, trazendo nos extras as cenas cortadas na edição final pelo diretor Alan Schneider, que trabalhou com Beckett seguindo cada passo seu em Film. Originalmente, a obra seria chamada de The Eye (O Olho), tanto por se tratar de uma investigação filosófica sobre o olhar e ser visto por uma entidade metafísica como pela admiração que Beckett tinha pelo cinema russo, em especial o do cineasta Dziga Vertov, criador do conceito cine-olho, em que compara o olhar da câmera - objetivo, preciso - com o humano.
O lado filosófico desse olhar se impõe pela doutrina imaterialista do filósofo irlandês George Berkeley (1685 -1753). Seu princípio "esse est percipi" (ser é ser percebido) sintetiza essa filosofia, que defende ser o tato, e não a visão, o sentido que nos leva à apreensão perceptiva dos objetos. Em termos religiosos (Berkeley era ministro anglicano), os objetos só existiriam na condição de algo a ser percebido - no caso, por um ser capaz de apreendê-los pelo espírito (Deus). Apenas a percepção divina manteria os seres vivos em estado de existência. Beckett, por não confiar na transcendência garantida por Berkeley, promove uma revisão em sua filosofia, assim como se apropriou anteriormente do tema de uma comédia estrelada pelo próprio Keaton.
Mais de uma vez sugeriram que a inspiração de Esperando Godot (escrita em 1949 e publicada em 1952) vem de uma comédia dirigida em 1949 pelo austríaco Richard Oswald (1880-1963), The Loveable Cheat, em que Keaton interpreta um tipo burlesco à espera de seu parceiro, homem de negócios falido. Este sai em viagem enquanto o amigo fica prestando contas aos credores. Inspirado ou não em Keaton, o fato é que ele chegou a ser sondado para ser um dos atores da primeira montagem americana de Esperando Godot, mas recusou o convite. E, provavelmente, recusaria também o de Film se não precisasse tanto de dinheiro. O esforço beckettiano em neutralizar significados em Film foi em vão, a julgar pela opinião de Keaton sobre a obra - que nunca entendeu. O diretor Alan Schneider disse que o encontro entre Keaton e Beckett foi um "desastre silencioso".
"Quando Sam (Beckett) e eu chegamos à casa de Keaton, ele estava bebendo cerveja e assistindo a um jogo de beisebol pela televisão e nem se dignou a nos oferecer um copo", lembrou Schneider, acrescentando que todas as perguntas de Beckett - e as suas - eram respondidas com monossílabos e silêncios prolongados. "Eles simplesmente não tinham nada a dizer um ao outro, nenhum mundo semelhante a compartilhar." Bem, pelo menos fora da tela. Nela, a figura de Keaton enche o espaço de significados.
Film é um curta-metragem encomendado pelo Evergreen Theatre em 1963, um projeto de 90 minutos que deveria reunir três autores, Beckett, Harold Pinter e Ionesco em torno de suas obsessões. Beckett escolheu o olho, Pinter, uma caixa e Ionesco, um ovo. Só o projeto de Beckett vingou. O filme, mudo, que faz lembrar em alguns momentos as comédias de Keaton dos anos 1920, só tem um som, "sssh!", feito pelo casal que o ator cruza junto ao muro de uma cinzenta rua de um bairro operário. Ele faz o personagem O, que tenta escapar inutilmente da percepção de E, a câmera-olho que o segue por toda a parte. Protegido pelo ângulo de imunidade de 45 graus, ele entra em seu apartamento onde já se encontram um cãozinho e um gato deitados lado a lado - eles também percebendo a presença de O. Tentando se esconder do "olho" da câmera com um pedaço de pano (Keaton é visto contra a parede, sempre de costas), ele expulsa os bichos para fora. No entanto, estes voltam num surrealista vaivém que o obriga, no final, a tomar consciência de si.

Não se trata simplesmente de uma câmera objetiva e de outra subjetiva, mas de duas visões diferentes da realidade, uma do olho que percebe e outra do olho de quem é percebido - algo que o próprio Keaton já havia explorado em tom de comédia no clássico O Homem das Novidades (The Cameraman, 1928). Nesse filme, um macaquinho filma - de forma aleatória, claro - uma sequência que salvará a vida de seu dono. A câmera vira o autor real do filme, um olho autônomo que percebe naturalmente, onisciente e onipresente. Keaton nunca fez menção ao filme ao falar de Beckett, mas tampouco se esforçou para esconder seu desconforto com Film - que ele não considerava engraçado, sugerindo algumas gags para Beckett e Schneider (rejeitadas por ambos). Beckett e Keaton tinham como proposta se comunicar por meio do silêncio. Mas a natureza do silêncio beckettiano é bem diferente da realidade cômica dos filmes mudos do último.
Se há um certo lirismo nas imagens de Film ele se deve justamente à fotografia do russo Boris Kauffman, irmão de Dziga Vertov e responsável pelas imagens do clássico L’Atalante e de Sindicato de Ladrões. A sequência em que Keaton cobre o espelho para não ver seu reflexo - e deixar a câmera perceber sua presença - é uma gag metafórica filmada com absoluto rigor de cálculo. No epílogo, o espectador é recompensado pelo close-up do comediante. Ele conseguiu fugir da percepção dos outros, mas o olho da câmera é implacável.
***
"Às vezes Beckett adorava o filme e às vezes o odiava, lembrando todas as coisas que não fiz ou fiz mal, criticando defeitos técnicos ou rindo e chorando ao mesmo tempo ao ver Keaton derrubar o maldito chihuahua do colo"

ALAN SCHNEIDER, diretor de Film

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Ponto cego. Na cena inaugural de Film, o ator Buster Keaton tenta escapar do 'olho' da câmera correndo pela rua e encostando seu corpo nas paredes, protegido por um chapéu e um lenço que cobre o seu rosto, revelado para o espectador apenas no close-up final.
fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,beckett-keaton,739031,0.htm




Sunday, January 19, 2014

o caubói e a cinderela

Não façam mais nada antes de assistir a "Alabama Monroe", do  belga Felix Van Groeningen, inclusive ler este breve comentário. Procurem "saber" (que sem vivência é ração inútil para o cérebro que registra e rapidamente deleta o blablabla) o mínimo possível antes de vivenciar diretamente esta preciosidade na sala escura do mundo das imagens, a cápsula negra e cintilante que tanto alívio e viagem me traz ao ingeri la ou ser ingerido por ela e, com ela, pela possibilidade de uma transcendência e ocultacao para alem do irritante bulício do mundo,  experiências que o discurso metafísico tradicional, reduzido  a cacoetes requentados puramente mentativos, pouco propicia.
É de crise da metafísica que este filme trata também. O enredo,  numa narrativa não sequencial, é uma história de amor no interior da Bélgica entre um caubói e uma cinderela, como diz uma das músicas da deliciosa trilha sonora que não apenas embeleza, mas participa diretamente da história, espécie de coro trágico. O "caubói", Didier (Johan Heldebergh, autor também da peça que deu origem ao filme), é tocador de banjo de uma banda de bluegrass (variante do country).

 A paixão imediata entre ele e a tatuadora Elise (Veerle Baetens) é mostrada em cenas que encantam pela expressividade dos olhares, beleza dos corpos, intensidade do sexo e sublimidade das músicas com que celebram a parceria de vida e de arte, pois ela logo ingressa, como vocal, na banda dele. Já ele não se entrega tanto à arte dela, se nega a ser tatuado. Diferença significativa para os rumos da história, que da felicidade que arrebata vai à tristeza que despedaça, quando o fruto do casal, a pequenina Maybelle (interpretação sensacional de Nell Catrysse) adoece de leucemia. 
Muitos verão como debate "filosófico" central do filme a questão fé x ciência, na medida em que vão se acentuando as diferenças entre pai e mãe ante a agonia da filhinha. 
Um Didier ateu e revoltado com o atraso, motivado por pressão dos conservadores religiosos dos EUA (terra que, na primeira conversa com Elise, ele ingenuamente idolatra), das pesquisas com células-tronco que poderiam salvar Maybelle. Elise, sem propriamente se encaixar no figurino de uma crente tapada, ainda assim se apega a um difuso sentimento de fé, representado por signos como o crucifixo de sua família que coloca no pescoço da filhinha para a consolar (a filha e a si própria, talvez) nos momentos de dor. 
Consolar, se formos a fontes antigas como os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, remetia à ideia de "consolidar". Talvez a mesma necessidade "metafísica" -termo aqui enganoso, pois não se vai além da física, se conquista a física para o sentido e o afeto- que subjaz à própria arte primitiva da tatuagem, como forma de "grafar" o tempo que passa e fixá-lo, ou melhor, o que nele vale a pena eternizar, no corpo que foi por ele afetado.
 Elise é o "princípio anima" (Jung) que enraíza o espírito à materialidade da vida sensível. Didier, nesse sentido, se equivoca não pela posição ateísta em si -a agonia de uma criança é das coisas que faziam Ivan Karamazov, arquétipo do ateísmo moderno, se enojar da Criação e do Criador e querer devolver o bilhete de entrada no filme de horrores divertidos do mundo- , mas por uma intolerância que de resto o aproxima dos fanáticos que ele condena. Do espírito sem senso da terra, pecado capital para Nietzsche. Didier, princípio animus que dá na história um espetáculo de virilidade, também "peca" -daí um dos níveis da ideia de trágico associada ao coro da banda- contra o preceito almodovariano sobre a vida: fale com ela, digo, com tua mulher, com a mulher em ti e com tua esposa, preceito tão importante "na saúde e na doença", para lembrar as promessas sagradas do rito matrimonial, ao mesmo tempo honradas e banalizadas num dos flashbacks estratégicos de "Alabama Monroe" .
Nisso o filme, que por um lado nos atiça a raiva anticlerical, nos reabre as feridas do sentimento religioso ainda não ultrapassado (o será um dia?). 
Em nossos tempos de profanação de todos os valores, não é que o amor seja impossível, mas é sem dúvida mais difícil, mais exposto à volatilidade das circunstâncias, num espectro de riscos que vai dos fatos do amor (tédio, infidelidade e outras reviravoltas do "desejo", esta palavra- fetiche dos tempos modernos) aos da morte. Somos mais francos com a "ética do desejo" -fazer o que gosta, estar com quem se gosta e enquanto se gosta- mas somos imaturos para suportar a Vontade, inclusive sua forma-morte que, como dizem tribos ameríndias, é um pássaro que nos acompanha vida afora em nosso ombro esquerdo.
Ilusão esperar dos relacionamentos amorosos, mesmo os mais intensos, a estatura de um "círculo" (símbolo de perfeição, inteireza, transcendência) inquebrantável, para evocar a imagem do título. Mais realista é levar a ideia de círculo dessa estática à la Parmênides (que via o círculo como imagem do Ser)  para o dinamismo heraclitiano do devir, em sua morte e ressurreição cíclicas, como expresso pela ideia de "Alabama", termo indígena que algumas fontes etimológicas remetem à ideia de desbastamento do matagal e todo preparativo de um campo para cada nova temporada de cultivo das sementes.
"The Broken Circle Breakdown", em seu título original, estreou esta sexta nos cinemas brasileiros, um dia depois de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. 
-Unzuhause-

Wednesday, January 15, 2014

Gikovate e a cidade tóxica


Enquanto os novos arrastões da cidadania não chegam à Livraria Cultura, ela segue sendo um oásis respirável nessa cidade"tóxica". Adjetivo aliás que, já muito em uso em livros de auto-ajuda, pareceu novidade aos ouvidos de Flávio Gikovate ontem, na gravação de seu programa da CBN no lotado teatro Eva Herz. 
Como de hábito, ele começou por uma reflexão geral, ontem sobre os requisitos materiais e psicológicos do que se pode entender por qualidade de vida. E depois ouviu as perguntas da plateia; foi quando a metáfora "tóxica" veio à tona, no caso em uma pergunta sobre relacionamentos tóxicos (aqueles já se sabe destrutivos, mas que não se consegue abandonar, como os vícios) num espectador de voz vestida do veludo de um locutor de programa romântico de rádio à meia-noite, e depois reaparecendo em duas ou três outras questões. Gikovate desconhecia o termo, mas não, claro, o problema, que abordara já na reflexão inicial, quando mencionou entre os ingredientes da qualidade de vida a mobilidade interna ou externa que nos permita contornar, senão suprimir, o convívio com pessoas de níveis vibratórios incompatíveis conosco, ou com o positivo de nós (pois todos temos de tudo, sementes virtuais de anjos e monstros disputam sol e chão em nossas almas). Entre os chupa-cabras da nossa energia espiritual, eu aponto não so essa ou aquela pessoa, mas todo ambiente interpessoal que nao diz respeito e nao tem respeito aos preceitos sutis do desenvolvimento da consciência. 
Dei uma olhada nas minhas estantes, ao voltar pra casa, e deparei com um livro do pastor e conferencista argentino Bernardo Satamateas, "Gente Tóxica - Como Lidar com Pessoas Difíceis e Não Ser Dominado por Elas". O índice apresenta 13 máscaras dessa disneylândia exuberante da mediocridade humana se arrastando em rolês e acenando tchauzinhos catatônicos como o homem fantasiado de coelho do show de variedades do inesquecivel "Apocalipse", do Teatro da Vertigem, anos atrás. 
Uma amostra que não faz senao traduzir e pôr em odres de cotidiano atual o vinho podre de sempre da  depravacão universal que Calvino, na trilha pessimista de Santo Agostinho, remete à condição desgraçada (literalmente, sem graça) do homem e da mulher desde a queda do paraíso :
1)O joga-culpa
2)O invejoso
3)O desqualificador
4)O agressor verbal
5)O falso
6)O psicopata
7)O medíocre
8)O fofoqueiro
9)O chefe autoritário
10)O neurótico
11)O manipulador
12)O orgulhoso
13) O queixoso
Voltando a Gikovate, curti o comentario dele a outro desafio de nossa, por assim dizer, "psicosfera", à qualidade de vida: a paranoia coletiva com diagnósticos e doenças. Me lembro, nos tempos de Cásper Líbero, de um professor comentando que era delicadíssimo para os editores decidirem publicar ou levar ao ar matérias sobre saúde, por causarem `estresse` nas pessoas, e possivelmente baixar o ibope. Na percepção de Gikovate, é como se justamente esse estresse fosse hoje o que alimenta a presença maciça na mídia dos `especialistas`, que sob o álibi da necessidade de exames preventivos de tudo nos arrastam para a categoria de doentes potenciais de suas doenças de estimação. Nosso corpo como o eixo do Mal, o judas a ser `malhado`, nos ataques preventivos e sistemas de controle da alfândega.  
A medicina nunca fez nos tão bem quanto hoje, com seus recursos de combate à doença, mas tambem nunca nos massacrou tanto com a perda do senso intimo de administraão de nossa saude. No momento mais brilhante da noite, Gikovate sintetizou: a saùde è uma tarefa pessoal e intransferivel, se consubstancia num compromisso nosso com as decisoes `simples` e corriqueiras de comer bem, dormir bem, se exercitar etc. Se ainda assim for preciso, que se vá então atras dos profissionais do problema e da doença. Mas nao esse terapeutismo, que nas hostes analíticas se veste do pretexto de que você precisa se `transferir` para o especialista, amá-lo como se fosse seu papai ou mamãe, senão nunca vai de fato se entender e se transformar. O homem esperando pelo dia de viver bem, de se entender bem, de integrar essa quimera desgastada que se tornou a metafora de "o inconsciente` (as pessoas se supondo portadoras de um mistério profundo a ser falado e falado e explicado e tratado com os jargões da psicologia, quando na verdade falta muito pra maquinaria humana que carregam e são poder de fato devir psique), todos esperando viver, pagando pra isso, se transferindo, urrando e se arrastando em arrastões e rolezinhos de pagação de pau ao cosmo das mercadorias e não vivendo nunca. 
*Unzuhause*

Monday, January 13, 2014

Ninfomaníaca e o freixo do inverno eterno


Pelas imagens apresentadas ao final deste primeiro volume de "Ninfomaníaca", já durante os créditos, o segundo será ainda mais explosivo; estreia em março, segundo a gostosa sentada ao lado e que me abordou no final brincando de repórter (gesto de mão como se segurasse microfone) para tirar minhas impressões do filme. Minhas impressões? A primeira e definitiva é "que tesão"! Tesão de Charlotte Gainsbourg, e sua personagem Joe, sombria, perigosa e sexy, mesmo toda machucada, Sherazade sadiana das mil e uma histórias de luxúria -bom, o que tenho a declarar sobre esse espetáculo de atriz e de mulher se pode ler neste post de 2012,
http://unzuhause77.blogspot.com.br/2012/12/brasil-essa-terra-de-feriados-eu.html
Tesão de Stacy Martin, a jovem Joe, physique du role perfeito para  a angelitude demoníaca de que falaremos mais adiante.
Tesão de atmosfera criada não pela ópera wagneriana, como no prelúdio de "Melancholia", mas uma vez mais pelo gênio germânico, ele mais que qualquer um visceralmente ligado à mitologia do Mal, e acordado da lâmpada aos acordes de "Führe Mich", de Rammstein.

Falando em mitologia, ela comparece, é claro, em referências como a da Árvore do Mundo na mitologia nórdica, o freixo, elo emocional -folha em forma de coração- da menina Joe com seu pai. 
Dinamarquês, Von Trier certamente levou em conta as tradições nórdicas e germânicas que apresentam o freixo como símbolo de imortalidade e de conexão dos três níveis do mundo, céu, terra e inferno.  O pai conta a Joe uma historinha - que ela finge esquecer para que ele possa repetir infinitas vezes-segundo a qual o freixo era tão belo e forte que causou ciumeira entre as árvores ao seu lado. Elas todavia puderam aliviar o rancor ao zombar dos botões pretos com que o freixo se embota no inverno. Triste alusão à sorte dos homens que, temidos e invejados pelos deuses, foram castigados com o destino da mortalidade, e suas antecipações tantas vezes cruéis, como a agonia do pai de Joe no hospital, em que citações sábias do médico agora doente sobre a morte, à tarde, se dissolvem em sua verdade no grito do delírio e do terror na calada -que não aceita mais ser calada- da noite. A menina trepar com funcionários de lá, entre um choro e outro -e ás vezes durante o choro, mostra como o sexo permissivo pouco tem a ver, na visão, certamente moralista (e que bom!) de Von Trier, com ilusões como a revolução sexual dos anos 60 nos propagandeou.  

É o apelo de Joe para que lhe tapem todos os buracos, não só os do corpo, mas os da consciência que se apercebe, sem anestesias, abandonada no grande abismo em que giram estrelas indiferentes na escuridão e em que temos de suportar-nos uns aos outros, espécie animalesca, tosca, hipócrita com finos vernizes de civilidade e quimeras que cultuamos como ideais, enquanto nos autoenganamos e, diz a já cinquentenária protagonista, aguardamos a permissão de morrer. 
Não por acaso a provocação que se lê no cartaz promocional acima : "Ninfomaníaca -Esqueça o Amor".
Se toda filosofia diz mais do temperamento de quem a inventa ou adota do que da ordem (?) do mundo para sempre incognoscível, não obstante podemos com Von Trier ver mais que o capricho de um parti pris niilista pessoal. Pelo buraco de sua fechadura, somos uma sala de cinema lotada e alvoroçada de voyeurs de uma civilização decadente que geme e goza e chora de incapacidade de transcender sua mera animalidade, de transfigurar sexo em amor, caos em significado, sua beleza é fria e demoníaca como o rosto de Stacy sorridente e banhado do esperma do austero chefe de família que ela seduziu ("desviou", descarrilou) quando no trem a caminho de casa com um presentinho para a provável matrona terna e chata que o esperava para engravidar naquela noite. Civilização do freixo podre do inverno -inferno- eterno.
-Unzuhause-

Sunday, January 12, 2014

o pombo enxadrista


Vi essa pérola na tarde de ontem num "debate" de esquerda e direita brazucas em comunidade do facebook. Parece que a expressão nasceu de outra polêmica, entre evolucionistas e criacionistas norte-americanos, como pecha dos primeiros contra os segundos. Mas não é, como a burrice, monopólio de nenhuma ideologia. É um estado de espírito que nos contamina quando nos confins de nossa imaginação exaurida já não temos como avançar com relação à realidade mesma , transformada em  um computador enxadrista de um férreo automatismo que Kasparav algum seria capaz de vencer. 
Uma imagem divertida pare retratar o indigesto sorvete napolitano (hmm, nesse calor...)  intelectual cujas três camadas seriam a ignorância combinada a arrogância e calcada em dogmatismo, isto é, em certezas que se incrustam no sujeito com uma emocionalidade pesada que é a salvaguarda de suas frágeis ficções de identidade. Dogmas cegos, não digo só os de igreja, mas o que carregam nossas frágeis carruagens nas esburacadas estradas circulares da rotina morta, são convicções que se reasseguram de sua verdade no mero fato de suas enunciações,  sem nenhuma garantia de correspondência ao real a não ser as rebarbações de seus arrotos, e sem nenhuma superioridade real senão a do efeito da ofensa, e  sem nenhuma tessitura de "argumentação" lógica subjacente que não a do apelo a alguma autoridade inquestionável, por exemplo o hábito que não temos mais a energia de transformar ou o deus-ídolo de que o pombo enxadrista  é mensageiro de papeizinhos vazios e tão pesados. O nível do debate intelectual cotidiano nas falações internéticas de cada dia, esse que me enoja em seu vazio de experiência, em suas ofensas pessoais e vaidades feridas em busca de consolação pelo estigmatizar adversários, é um córrego insuportável, tanto quanto a vida de pólis que estamos levando, que precisamos antes purificar em nossas almas.
-Unzuhause-

Friday, January 10, 2014

ao cérebro pelo músculo, ao espírito pelo corpo


Superar desafios através do corpo resgata auto-estima
http://www2.uol.com.br/vyaestelar/nuno_entrevista.htm
Entrevista: Nuno Cobra
Por Angelo Medina
Ex-preparador físico de Ayrton Senna revela seu polêmico método de trabalho

Nuno Cobra: "Conquista do corpo resgata auto-estima."


Nesta entrevista ao Vya Estelar, Nuno fala sobre o seu polêmico método de trabalho e revela como superar os limites na vida. Expõe seu conceito de saúde. Fala de suas restrições em relação à natação e ao ciclismo. Desmistifica a lenda de dormir oito horas por dia, fala que o brasileiro não se alimenta tão mal, mostra sua posição em relação à malhação, academias e modelos.
Vya Estelar - Como vencer os seus próprios limites na vida?
Nuno - Não sou um preparador do corpo, mas da pessoa através do corpo. O corpo é uma ferramenta para desenvolver o potencial humano. Através do corpo físico, desenvolve-se o corpo emocional, mental e espiritual. É uma batalha vencer o próprio corpo. Tornando-se vitorioso sobre o corpo, torna-se também vitorioso na vida. É um encontro consigo mesmo.
Portanto, na hora da atividade física, recomendo total contato com o seu interior evitando música ou um trabalho na esteira vendo televisão ou jornal para que a interação consigo mesmo seja completa. Quando você se supera, você vence qualquer pessoa. Enfim, vencer o limite do seu corpo criando vitórias através dele. Todo corpo tem um limite, uma freqüência cardíaca de repouso, consumo máximo de oxigênio... Quando você consegue empurrar estes limites sem ultrapassá-los, você vai ver que na vida consegue fazer a mesma coisa. Isto acontece porque a relação com o corpo é muito grande. É uma relação concreta com algo que você toca, vê e sente. Modificando o seu organismo você está ampliando seu limites físicos e emocionais.
Com a própria proposta de fazer este trabalho com o corpo, já está se ampliando os limites. Você tem que acordar cedo, botar a roupa, calçar o tênis. Você está fazendo uma coisa que era impossível de se fazer antes. De tantas vezes fazer isto com o seu corpo, você acaba fazendo o mesmo na sua vida. A minha proposta para você melhorar na vida é explorar o corpo. Ninguém consegue vencer os limites da vida se não vencer os próprios limites; resultando numa sensação de poder e de força.
Vya Estelar - Em seu método de trabalho você afirma que junto com a modelagem corporal existe a modelagem mental e conclui afirmando que se chega ao cérebro pelo músculo e ao espírito pelo corpo. Como e isso?
Nuno - Eu pregava isso em 1960 e me achavam louco. Mas isso é o que chamam hoje de inteligência emocional, mas já chamaram de PNL - Programação Neurolingüística. Chegar ao cérebro pelo músculo e ao espírito pelo corpo é algo que não está relacionado à força, mas a um destino natural. Antigamente, o homem era enxergado em departamentos estanques, físico, mente, emoção e espírito, cada um em uma extremidade. Porém, o homem é uma coisa só. Não tem como você trabalhar o físico sem trabalhar a emoção. É uma interação contínua. O cérebro é composto de córtex, sistema nervoso e músculo. O músculo é cérebro. Isto no Vya Estelar vai gerar questionamentos.
O que é o pensamento? É um movimento em potência. Penso, vou pegar este gravador e pôr um pouco mais para cá. O movimento é o pensamento em ação de pegar e fazer isso (Nuno muda o gravador de posição).
A relação é íntima cérebro e músculo não podem ser separados. O cérebro se pronuncia através do músculo e o músculo interage com o cérebro. Quando você melhora o seu consumo máximo de oxigênio, ou seja, a quantidade de sangue que passa no coração por minuto, você está abastecendo melhor com mais nutrientes e com mais oxigênio todas as células de seus órgãos vitais, inclusive o cérebro, que se torna mais rápido, mais lúcido e mais afiado em relação às respostas. Então a natureza do homem é chegar ao cérebro pelo músculo e vice-versa. E chegar ao espírito pelo corpo e do corpo para o espírito.

Mas... como eu melhoro o meu espírito fazendo exercícios?
Não é um exercício para ficar forte e burro cheio de músculos. É a oportunidade que você tem, através do trabalho com o seu corpo, de tocar e chamar a atenção do seu espírito. Você precisa de um espírito de luta e de determinação para mudar o seu corpo, através da luta diária para fazer os exercícios. Através do seu corpo, você fornece ao seu espírito um ritmo e uma modulação que vai interagir com ele. Fazer este trabalho junto à natureza, propicia também um forte cunho espiritual, que transcende o próprio corpo.
Quando você melhora a saúde e saúde, não é o estado da não doença, é um estado de encantamento e de entusiasmo pela vida. Você tem mais energia, vitalidade e disposição, elevando seu níveis de saúde para patamares superiores. Entrando assim em outro nível mental, emocional e espiritual; melhorando as relações afetivas e interpessoais com amor, afeto e compreensão.

Vya Estelar - Qual é a relação dos exercícios físicos com as questões emocionais?
Nuno - Por exemplo, sugiro a uma pessoa para trabalhar com uma freqüência cardíaca entre 110 e 130 BPM, durante 25 minutos. A principio, a pessoa não tem vontade de fazer e, ao se impor os exercícios, modula as suas emoções e trabalha o seu corpo emocional através de uma obrigação física.
Durante a corrida, o sistema hormonal é ativado. São hormônios de alta qualidade que te deixam motivado, estimulado e entusiasmado pela vida. Aí você quer correr mais e ultrapassa a sua freqüência cardíaca e tem que reduzi-la, embora queira correr numa freqüência cardíaca de 140 e tem que parar o exercício, aos 25 minutos, justamente na hora que estava começando a ficar gostoso. Enfim, fazer o trabalho quando você não quer e parar quando você quer. A relação é esta.

Vya Estelar - A debilidade emocional dificulta passar do saber para o fazer. Como é isso?
Nuno - É a emoção que faz a tua vida. E o indivíduo que não tem o corpo emocional desenvolvido é aquele indivíduo que precisa para de fumar, dormir mais ou fazer uma dieta e não consegue fazer. Não larga o torresmo e a picanha. Trabalhar o corpo físico, como já disse, melhora o corpo emocional. Ter um bom corpo emocional é ser capaz de fazer as coisas boas para você.
Vya Estelar - Quais exercícios você sugere?
Nuno - O bom exercício é aquele que trabalha com grande número de músculos ao mesmo tempo e que exige um trabalho do coração. A natação não corresponde à realidade do homem que vive sob a ação da gravidade, então ela não melhora a questão da densidade óssea, do combate à osteoporose. O indivíduo nada, nada, nada... mas para correr e pegar um ônibus está morto de cansaço, porque ele tem a ação da gravidade que na água ele não tem. Na bicicleta você também fica sentado. Então a melhor opção acaba sendo a corrida ou caminhada.
Primeiro caminhar mais lentamente e depois acelerar, quando sentir desconforto em relação à velocidade, você começa a fazer uma mistura entre a caminhada e a corrida e como se você tivesse correndo em slow motion, depois vem o último estágio que é correr de fato.
Estes exercícios não devem ser diários, porque no repouso é que reside o lucro da atividade física. Isto é a parte mais importante do exercício, onde você vai recarregar as baterias e colher os benefícios. Não adianta malhar e cair na gandaia a noite inteira. Muitos atletas não entendem que o descanso é a parte mais importante. Os exercícios têm que ter um ritmo periódico semanal sempre respeitando seu momento cardiovascular. Pode-se fazer dois dias seguidos e descansar um.
Vya Estelar - Quantas hora de sono diárias?
Nuno - Com a revolução industrial se estabeleceu que o saudável seriam oito horas. De onde veio isto, de pesquisa? Eu questiono. Pela experiência com a maioria das pessoas que trabalhei, descobri que o ideal seriam 9 horas. Já que o padrão ideal, varia entre 8 e 10 horas, para manter as funções, o equilíbrio, a saúde e o êxtase de plena felicidade.
Vya Estelar - E na alimentação?
Nuno - A alimentação tem que ser balanceada com proteínas. O brasileiro tem uma boa composição de alimentação, se melhorar alguma coisinha. Arroz é uma boa fontes de carbohidratos e o feijão é uma boa fonte de proteínas, ferro e cálcio.
Coma mais arroz, mais feijão, de preferência, feito na água, e menos carne. Deve-se evitar as frituras e coisas difíceis de digestão como a carne vermelha, carnes gordurosas e gorduras, porque tiram a gordura do seu corpo. Use o azeite extra virgem, aquele que vem em vidro e possui o bom colesterol, pois limpa as artérias do mau colesterol; é o low colesterol, o LDL. Faça o frango na água ou na grelha.
Deve-se evitar o açúcar, se possível, substitua por mel. Mesmo o açúcar mascavo rouba cálcio do organismo. Coma a laranja, engula o bagaço e não tome somente suco. Coma muitas verduras e legumes. A fonte e o modo de fazer também são muito importantes. Coma alimentos de boa procedência evitando os agrotóxicos.
O café da manhã deve ser o de um rei, o almoço de um príncipe e o jantar de um pobre. Num intervalo de 2h30 entre as refeições siga o seguinte padrão: café da manhã, lanche, almoço, lanche, jantar e lanche. Intervalos longos entre as refeições faz com que você engorde mais, porque o cérebro é bobo e você acaba comendo mais do que deveria.
Vya Estelar - O que é o tripé da anulação?
Nuno - É um sistema de educação capaz de criar pessoas inseguras, frágeis e medrosas. Esse processo começa com a educação dos pais na primeira infância, quando as crianças aprendem a não serem valorizadas por aquilo que elas podem produzir de criativo. O ciclo continua com a educação escolar, igualmente proibitiva, voltada não para o desenvolvimento do indivíduo e de suas potencialidades, mas para a destruição da auto-estima do adolescente.
Também castradora, cheia de medos e pecado, é a religião que fecha um ciclo de dimensões altamente negativas para o indivíduo, impedindo-o de crescer como um vencedor na vida. Pais valorizem os gestos positivos de seus filhos!!! Se puxar o lado sombrio, no futuro eles serão uma sombra.
Vya Estelar - O que é a teoria dos sacos?
Nuno - O indivíduo nasce com dois "recipientes": um em que são colocadas as ações positivas, e outro, as negativas. Desde o início da vida, ainda na primeira infância, por necessidade de fazer de nós criaturas civilizadas, nossos pais cuidadosamente vão enchendo o saco das negatividades. São as críticas, os nãos, as repreensões ou repressões, em que sempre se salientam nossos erros. Os acertos e façanhas, esforços e vitórias parecem não receber a mesma atenção. Por uma questão cultural, os acertos são vistos como obrigações das crianças e jovens e, como não são louvados e levados em conta, o saco das positividades vai ficando vazio.
Com o tempo, nossos erros passam a ser o ponto de referência para todos as coisas e isso é desastroso numa personalidade em formação. Querendo nos fazer fortes, nos enfraquecem, acentuam em nós apenas erros, fracassos e desacertos. Eu passei 10 anos enchendo o saco das conquistas, das positividades e das vitórias do Ayrton.
Vya Estelar - Como resgatar as potencialidades usando o corpo como veículo?
Nuno - O corpo é a ferramenta deste resgate. Conscientemente, você se sente vitorioso. Ao vivenciar uma realidade concreta, de conquista no aprimoramento físico, você muda o seu comportamento, sente-se mais poderoso e melhora a sua auto-estima. O Ayrton levou um ano e meio para dar uma oitava em torno de uma barra. Em seguida, ele ganhou o grande prêmio de Portugal, onde ele não tinha condições de ganhar, devido ao potencial do seu carro na época, creio que em 85.
Vya Estelar - Como o senhor encara a malhação e as academias?
Nuno - Sou contra a malhação. Malhar e para judas, agride e judia do corpo. Acho que o exercício ao ar livre é mais saudável e mais barato que as academias, mas não sou contra elas.
Vya Estelar - O que o senhor acha do tipo físico das modelos?
Nuno - Horroroso e prejudicial à saúde. Parecem estacas, estão vinte pontos abaixo da altura. Elas têm 1,80 e tem que pesar abaixo de sessenta quilos. Isto não é um modelo bom para a nossa sociedade.
Vya Estelar - O que é qualidade de vida?
Nuno - É a pessoa dormir bem, comer bem, ter atividade física, lazer, relaxar e meditar, incorporando tudo isso, às suas atividades do dia-a-dia.

Monday, January 06, 2014

a busca de Daht


Por "deusincidência" do destino, escrevi o texto anterior sobre o jogo dos preciosos diamantes justamente no dia da Epifania, "revelação", termo teológico que em Joyce toma proporção similar, contudo mais cotidiana -o zen é a mais resoluta imersão do sagrado no profano, na história da imaginação espiritual da humanidade-,  ao que arde na chama xamânica de Sean e de Bashô. E outra "deusincidência" fez com que eu deparasse em pesquisas paralelas com o tema iniciático da viagem, tão importante nesse contexto "pé na estrada" -e pé no skate, ressurreição da infância como ingrediente do heroísmo adulto- da mística de autoconhecimento medicada por  "A Vida Secreta de Walter Mitty". Vamos então ao texto em questão, a história do príncipe Dhat (Essência) uma alegoria do sufismo, mística islâmica que equivale a um dos grandes ramos do gnosticismo ecumênico e universal. 
Vemos nesse ponto de encontro de lenda antiga e cinema moderno como e por quê, na busca de Mitty pelo negativo perdido de Sean, estava "dentro" o que ele todavia precisava procurar tão fora. Nos giros do tempo e das danças sufis de Gurdjieff, quebrantar a personalidade-casca, estagnada em seus sonhos de sonâmbula, dispersa no exílio de si mesma como o filho pródigo lançado à sarjeta, se aventurar em novo romance com a Vida e esposar a  Mãe-Cônjuge Essência, que somos nós e quem olha por nós ao voarmos de skate como crianças renascidas.  
-Unzuhause-

"Uma vez, num país onde todos os homens eram como reis, vivia certa família, plenamente feliz, em meio a um ambiente de tais características que a linguagem humana não conseguiria descrever em termos de coisa alguma conhecida atualmente pelo homem. Este país de Sharq parecia satisfatório aos olhos do jovem príncipe Dhat, isto até o dia em que seus pais lhe disseram:
- Querido filho, é costume obrigatório em nosso país que cada príncipe da casa real, ao atingir certa idade, viaje a fim de se submeter a uma prova. Isto é feito com o objetivo de prepará-lo devidamente para reinar, e para que obtenha em reputação e na realidade, por meio de seu empenho e espírito de alerta, um grau de nobreza que não se obtém de nenhum outro modo. Assim tem sido determinado desde o princípio, e assim será feito até o fim.
Desse modo, o príncipe Dhat se preparou para a sua viagem, munido do que sua família podia proporcionar-lhe para seu sustento: uma comida especial que o alimentaria durante seu exílio, de pequeno volume mas de inapreciável valor nutritivo.
Também lhe deram certos outros recursos, que não é possível mencionar aqui, que usados devidamente o protegeriam.
Devia viajar a um certo país, chamado Misr, e teria que ir disfarçado. Foi assim que lhe escolheram guias para a viagem, e trajes adequados à sua nova condição. Roupas que guardavam pouca semelhança com a usada por alguém de sangue real. Sua missão seria resgatar certa jóia, guardada em Misr por um temível monstro.
Quando seus guias partiram de volta, Dhat se viu só, mas logo se encontrou com alguém que ali se achava cumprindo uma missão similar. E, juntos, puderam manter viva a lembrança de suas origens. Mas, devido ao ar e à comida daquele país, uma espécie de sono logo os envolveu. 
E Dhat se esqueceu de sua missão.
Durante anos viveu em Misr, ganhando a vida no desempenho de uma função humilde, aparentemente alheio ao que deveria estar fazendo.
Graças a um recurso que lhes era familiar, mas desconhecido para outras pessoas, os habitantes de Sharq vieram a conhecer a lamentável situação de Dhat, e juntos agiram, de um modo por eles conhecido, para ajudar a libertá-lo daquele encantamento e permitir-lhe prosseguir com sua missão. Por meio de um estranho expediente uma mensagem foi enviada ao jovem príncipe, dizendo: "Desperte, pois é filho de um rei, enviado em uma missão especial, e deve retornar a nós."
Essa mensagem despertou o príncipe, que conseguiu localizar o monstro, e graças ao emprego de sons especiais o fez adormecer, recolhendo então a jóia inestimável que ele guardava.
Então Dhat obedeceu aos sons da mensagem que o tinha despertado. Trocou suas roupas pelas de se país e sempre guiado pelo Som voltou ao país de Sharq.
Num tempo surpreendentemente curto, Dhat viu-se de novo contemplando suas antigas vestimentas, e o país de seus antepassados, e chegou a seu lar.
Desta vez, no entanto, graças à experiência adquirida, pode ver que se tratava de um lugar mais esplêndido que nunca, um lugar seguro para ele. E percebeu que era aquele o lugar relembrado vagamente pela gente de Misr como Salamat; palavra que para eles significava Submissão, mas que, agora podia compreender bem, significava paz.
http://www.sertaodoperi.com.br/poesiasufi/estorias/filho_do_rei.html


preciosos diamantes - o chamado de Sean




"Luas e sóis (meses e dias) são viajantes da eternidade. Os anos que vêm e vão são viajantes também. Os que passam a vida a bordo de navios ou envelhecem montados a cavalo estão sempre de viagem, e seu lar se encontra ali onde suas viagens os levam. Os homens de antigamente, muitos, morreram pelos caminhos, e a mim também, durante os últimos anos a visão de uma nuvem solitária levada pelo vento inspirou contínuas ideias de meter o pé na estrada.
O ano passado dediquei a vagar pela costa. No outono, voltei à minha cabana às margens do rio e limpei as teias de aranha. Aí, me surpreendeu o fim do ano. Quando veio a primavera e houve neblina no ar, pensei em ir a Oku, atravessando a barreira de Shirawaka. Tudo o que via me convidava a viajar, e estava tão possuído pelos deuses que não podia dominar meus pensamentos. Os espíritos do caminho me faziam sinais, e descobri que não podia continuar trabalhando".
Bashô, Sendas de Ôku,
in: Leminski, Paulo, 
Vida
Como não recordar a mística zen da viagem, do silêncio e da atenção ao contemplar com Sean Penn, ou melhor, contemplar em Sean Penn, na pele do célebre fotógrafo mochileiro do universo, em "A Vida Secreta de Walter Mitty", a passagem do raríssimo leopardo das neves do Himalaia, o "gato fantasma", a beleza que, como verdadeira beleza, não clama por atenção? O fotógrafo na pele de Sean é o Sábio que nos convoca à aventura, à ruptura com a vida meramente de slogans -como da revista "Life" em que trabalhava o pacato funcionário Walter, personagem que, meio que como os macunaímas e asterix, vai além da historinha que lhes deu berço e se alça a tipo no imaginário coletivo, no caso, imagem proverbial para o americano do sujeito inerte na monotonia arrastada das horas com a válvula de escape do mundo da lua.
Como o Sábio arquetípico,  Sean O' Connel (nome do artista genial do filme) é uma imagem que subitamente, à pressão do amor que quer se credenciar para sair da virtualidade e de toda a vida irrealizada que se precipita como maldição e possessão dos deuses do caminho, ganha vida para Walter, e o chama a essa aventura louquíssima cujo ápice é a escalada do Himalaia, não como monge renunciante, mas aventureiro em combustão, vindo ao encontro do fotógrafo e sua pele granítica, pele hierática, geológica,  transumana, que no que contempla e no que é efetua a alquimia de ryuko e kyo, o efêmero e o eterno, como neste haicai de Bashô:
gota de orvalho [o transitório, ryuko]
ao sol da manhã [o eterno, kyo]
precioso diamante [unidade]
Para tais momentos, até mesmo a câmera, ou seja, o interesse profissional e os instrumentos técnicos, já são fardo demasiado, e Sean a deixa de lado para se entregar ao instante, simplesmente "stay in it", viver aquele agora que passa majestoso e discreto. De "preciosos diamantes"  -batismo provisório para o jogo que hoje inicio, de recolhimento de e em epifanias, sinais dos espíritos do caminho, segundo Bashô- peço aos deuses que preencham de vida e vida em abundância todos os nossos dias e noites, luas e sóis, no movimento e concretude da despedida da inércia, nos anos que vêm e vão. 
-Unzuhause-

Friday, January 03, 2014

Clarice, Hórus e o falcão



A graciosidade de Clarice Falcão é só um dos atrativos que tornam essa musiquinha do Pão de Açúcar digna de atenção. 
Pois é fato que esse "o que faz você feliz?"é um macete neuroassociativo essencial, operante de modo mais ou menos explícito em todos nós, quando, ao abrigo de ciclos nefastos de depressão ou de covardia em guerrear nas lidas da vida, a mente se pauta pela "busca de sentido" de que nos fala Viktor Frankl no seu relato de como sobreviveu ao campo de concentração nazista. A mente, sedenta de sentido como  o peixe precisa do mar, é um órgão cuja dieta e academia de fitness e de embelezamento é o ambiente, pessoal, familiar, educacional, profissional, em que possa desenvolver-se segundo pressuposições construtivas, focadas no que queremos, mais do que no que nos repugna ou paralisa. A forma de cultivar essas pressuposições é colher do real evidências empíricas que as sustentem e desenvolvam, e uma das técnicas para isso são as perguntas positivas, que, ao "por que justo eu?, privilegiem o "pra que" justo eu? Como tornar isto que me acontece "justo" não só do ponto de vista causalista dos meus erros, ou dos acasos, mas para finalidades (que só a mim cabe inventar, sustentar, e a posteriori identificar como caminho trilhado) do meu crescimento? 
De quebra, entre os vários comentários óbvios que acompanham o vídeo, declarando que é a própria Clarice que faz feliz essas pessoas, eu deparo com arguto observador de que, lá para os dez segundos, aparece de modo subliminar o célebre símbolo maçônico do olho aberto dentro de uma pirâmide. Em rápido rastreamento na net, cheguei ao Olho de Hórus, remissão ao deus egípcio, vingador do pai Osíris, vencedor, como Cristo, na luta contra o Mal e cultuado pelos antigos, justamente, como deus falcão. Nada mais justo em se tratando de uma deusa como Clarice.
-Unzuhause-



Hórus, "o elevado", deus celeste na mitologia egípcia.
http://www.planetaesoterico.com.br/horus/o-deus-horus.html

Nome egípcio: Hor
Nome grego: Hórus
Deus grego correspondente: Apolo
Animal: Falcão
Símbolo: Olho de Hórus
Planeta: Sol

Hórus é um deus muito antigo, já conhecido na época predinástica.

Hórus era um deus solar, filho de Osíris e Ísis, considerado como a manifestação do poder do Sol. Era considerado o “deus dos Céus” e ficou conhecido desde a primeira dinastia como HORAKHTI, que significa “Hórus do Horizonte” ou da "Terra do nascimento do Sol". "Senhor das duas Terras, sob cujas asas está o circuito do céu, o falcão que irradia luz dos seus olhos". Era exatamente com essas palavras que, no tempo dos Ptolomeus, descrevia-se Hórus, o Deus dos espaços aéreos.

Hórus, para os antigos egípcios, é considerado a encarnação de Rá na Terra, a manifestação solar no plano material, o princípio do fogo. Hórus era a “encarnação do dia” , aquele que venceu o deus Seth (representação do mal) heroicamente, na luta entre o bem e o mal, fazendo vencer a luz. Por isso seu nome está associado ao heroísmo.

Também era conhecido como deus do Sol nascente. Todos os dias lutava contra o exército das trevas para assegurar o nascimento do novo dia. Era tido também como protetor dos homens jovens, ensinando-os a serem filhos obedientes, para mais tarde tornarem-se homens justos e de bem, pois de acordo com a lenda, ele arriscou sua vida para vingar a morte de seu pai Osíris. Hórus tornou-se um dos deuses de maior importância da vasta cosmologia egípcia. Passou a ser representado por um falcão, após matar o assassino de seu pai. Com sua vitória sobre Seth, obteve o direito de governar o Egito.

O animal que representava Hórus era o falcão, pois sua vista é tão poderosa que ele é o único animal que pode fixar o Sol. Dizia-se  que “Hórus era um falcão cujos olhos eram o Sol e a Lua, e cujo hálito era  o refrescante vento norte”. Esta era a maneira com que descreviam  esse grande deus. Desde os tempos primitivos, o deus-falcão Hórus era considerado um  grande deus-celeste, como a próprio falcão que era seu emblema. Às vezes ele  era o deus do Céu; outras, ele se tornava o Sol sob o nome de “Ra-harakhty”.

O falcão foi possivelmente o primeiro ser vivo a ser adorado pelos egípcios. Seu vôo altivo pelo céu inspirou a imaginação desse povo, que começou a crêr que o Sol seria como um falcão que voava diariamente de um extremo a outro do céu. O falcão, quando voava, parecia ser companheiro do Sol. O falcão era considerado como sendo a própria encarnação de Hórus no Egito e é um símbolo masculino/ solar que sobrepujou o feminino/ lunar na passagem do matriarcado para o patriarcado.

Por isso Hórus é representado como um homem com cabeça de falcão ou como um falcão sempre usando as duas coroas de rei do Alto e Baixo Egito. Na qualidade de deus do céu, Hórus é o falcão cujos olhos são o Sol e a Lua.

Hórus era originalmente o deus do céu, voando sobre o Egito como um falcão para proteger seu pai, o rei Osíris. Quando Hórus derrotou o assassino de seu pai, Seth, ele se transformou no rei de todo o Egito, unindo assim, o Alto Egito e o Baixo Egito. Por isso ele é descrito usando uma coroa com uma parte superior branca, representando o Alto Egito e uma parte inferior vermelha, representando o Baixo Egito. Por esta razão, os governantes do Egito sempre se identificaram com Hórus em vida, se transformando na personificação de Osíris quando morriam.

Desde o Antigo Império, o faraó era a manifestação de Hórus na Terra. Hórus era um símbolo da realeza divina e o protetor do faraó reinante. No decorrer da história do Egito, Hórus foi pessoalmente identificado com o faraó, talvez porque o falcão podia voar através dos céus a grandes alturas e vigiar o império.

O Faraó era a encarnação de Hórus. O Faraó atuava na esfera da harmonia entre o Céu e a Terra. Era ele quem zelava pela prosperidade e bem estar do pais. O Faraó era representante de Hórus na Terra, sua imagem , reflexo e encarnação.

Hórus foi reconhecido como deus supremo e tornou-se o deus nacional do Egito. Passou a ser o deus real; tornou-se o falcão divino, protetor do faraó e, até certo ponto, o próprio faraó. O falcão Hórus tornou-se o símbolo da realeza e sua figura aparece nos sinetes e nos documentos reais.

O faráo tinha 5 nomes, ou seja, 5 títulos reais que simbolizam sua origem Divina. O título favorito do faraó era Hórus, pelo qual ele se identificava como o sucessor do grande deus que outrora governara a Terra. Todo faraó, ao reinar, usava o nome de “Hórus” como o primeiro dos seus títulos e seu trono era “o trono de Hórus”. Para os egípcios o faraó era Hórus, o falcão celeste, cujos olhos representavam o Sol e a Lua. Nos relevos há várias cenas nas quais o deus Hórus aparece ao lado do faraó como criaturas iguais, da mesma estirpe.

Ao longo da história do Egito, a figura de Hórus muito evoluiu: deus celeste, divindade faraônica, soberano que luta pelo império do mundo. Mas sempre combatendo, para assegurar o equilíbrio entre forças adversas e para fazer vitoriosas as forças da luz, pois era um deus guerreiro por excelência. A vitória do deus-Sol era proclamada todas as manhãs e isto era um lembrete diário do triunfo do bem sobe o mal através de Hórus.

Como deus solar, Hórus defende a barca de Rá, com a ajuda de Seth, contra a grande serpente Apep. Hórus era o intermediário entre os seres humanos e os poderes divinos, mantendo assim, a ordem cósmica. Hórus velava pela estrita execução dos rituais e das leis. Mas suas funções não se limitavam ao mundo dos vivos. Por ser o filho e herdeiro de Osíris na Terra, ele também assegurava a manutenção do túmulo, assim como as oferendas funerárias. Hórus efetuava invocações, realizava rituais e depositava oferendas no túmulo. Frequentemente Hórus conduzia o morto à presença de Osíris. Segundo o “Livro dos Mortos”, ele era o mediador entre o morto e Osíris durante o “julgamento de Osíris”.

O símbolo de Hórus era o “olho de Hórus”, que representa o olho que Seth destruiu durante a luta entre ambos. Segundo a crença, esse olho possuía poderes mágicos e transformou-se num poderoso e famoso amuleto, capaz de espantar qualquer mal que atacasse alguém, trazendo saúde, proteção, prosperidade e sorte, entre outras coisas, a quem o usasse. Hórus foi adorado em várias cidades do Egito. Originalmente era um deus do sul do Egito, no entanto, ele foi particularmente venerado em Edfu, onde no periodo ptolomaico foi construído um grande templo em sua honra. Conhecido desde a época predinástica, é provável que seu culto tivesse origem no delta do Nilo ainda que foi venerado em todo o Egito com importantes templos em Hieracómpolis, Edfu e Letópolis.

Hórus teve vários títulos (epítetos), de acordo com a época e com a cidade onde era cultuado. Seus principais títulos foram:

"O Único nas alturas"
"O elevado"
"O distante"
"Senhor do Céu"
"Senhor das estrelas circumpolares"

Também aparece como “Hórus, senhor de Mesen” e “Hórus de Behdet”, ou “o behdetita”, em referência a duas localidades do Baixo Egito.