sábado, novembro 30, 2013

Resenhas para a Folha de S. Paulo, 30/11/2013


LAURA BELÉM
A artista plástica Laura Belém declara, em seu site pessoal, que uma "poética da presença e da ausência" tem sido fio condutor de sua obra. O livro que ora é lançado, fazendo um retrospectiva de seu riquíssimo percurso, com exposições mundo afora, mostra bem essa característica ambivalente. Vide uma das obras ali destacadas, "Naufrágio", originalmente um vídeo em que o desenho de uma caravela derrete, aos golpes implacáveis de singelos pingos d' água,  e se torna um poço de cor indiferenciado. A referência imediata, segundo o crítico  Lorenzo Fusi, é à conquista colonial da América. Mas é claro –na medida de tradução que uma imagem permita à razão discursiva- que a obra se derrama em símbolo de todas as nossas finitudes, náufragos que somos da existência neste samsara. Os jogos da sedução romântica, nosso lugar na natureza, a mercantilização da arte, a busca do espiritual são outros tantos temas de meditação e de experiência para o leitor / espectador.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


A MENINA DO FIO
Na leitura psicológica de Marie Louise Voz Franz (maior discípula de Jung), os contos de fada têm um motivo temático recorrente, o de "redenção", que consiste na superação de uma condição de enfeitiçamento semelhante ao de nossas modernas neuroses. Um dos exemplos destacados pela analista é o da princesa forçada a matar todos os seus apaixonados, até conseguir se livrar da maldição que a forçava a esse baixo nível de conduta e de metabolismo de energias.
Essa é uma chave explicativa que funciona à perfeição para o conto de fadas moderno de "A Menina do Fio", infanto-juvenil de Stela Barbieri e Fernando Vilela. O fio, símbolo do destino (as Parcas), da conexão com o Princípio via travessia dos labirintos do mundo (Ariadne), é a maldição que brota, inexplicável e incômoda, da cabeça de uma linda princesa, a enrosca em tudo, a impõe dor e mau humor, até que surge um "Teseu", músico como Orfeu, para descer aos infernos e libertá-la para o amor e a capacidade de se tornar tecelã de si mesma, com a matéria-prima de sua até então desajeitada singularidade.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

ENTRE A LITERATURA E A HISTÓRIA
A dicotomia que dá nome a essa coletânea de Alfredo Bosi sintetiza a tensão que orientou e desafiou a geração de estudiosos de Letras dos anos 1960: por um lado, a lógica interna da obra literária, conforme exigido pelos mestres do estruturalismo francês e do formalismo russo; por outro lado, o imperativo ético trazido então pelo marxismo, e que se fundava no reconhecimento da inevitável inserção da arte,  e do intelectual que a comenta, num contexto histórico marcado por injustiças, opressão e distorções derivadas da desigualdade de classes e da ideologia.
Se a pós-modernidade traz uma crise de prestígio (que muitos confundem com uma suposta "refutação", improvável no âmbito das ciências humanas) para estruturalistas e marxistas, nem por isso reflexões da envergadura de um Bosi ficam desatualizadas. Temos aqui cerca de 40 textos do professor de Literatura brasileira da USP, que vão do saboroso memorialismo a insights preciosos sobre autores como Machado de Assis, Leopardi (mestre pessimista que influenciou o autor de "Brás Cubas"), Otto Maria Carpeaux e Celso Furtado.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


KARDEC – A BIOGRAFIA 
Marcel Souto Maior, embora também autor do best seller "As Vidas de Chico Xavier", não se define como espírita. Isso confere a este livro-reportagem sobre o fundador do kardecismo um distanciamento "laico" elogiável, embora o sobrenatural das mesas giratórias e fenômenos mediúnicos seja, ao longo da narrativa, pressuposto sem maior contraponto ou suspeição. 
Tampouco é crível que qualquer estudo isolado possa abranger uma trajetória complexa como a de Allan Kardec (1804-1869) a ponto de se arrogar o subtítulo que tem, de "a biografia". 
Ainda assim, o livro, informativo e de leitura fluida e envolvente, é uma boa introdução à vida e pensamento do até então discípulo de Pestalozzi, e autor de sóbrios livros de pedagogia que eram adotados em escolas e universidades da França da época. 
Premido pela curiosidade sobre o além e dificuldades no mundo material, ele passou pelo seu "caminho de Damasco" de abandono da incredulidade e conversão a uma doutrina que vê na existência entre terrícolas (saboroso termo de um espírito célebre dos meios kardecistas, Ramatís)  a escola penosa, reencarnação após reencarnação, de nossa evolução, termo-chave do século de Darwin ao qual o gênio religioso da humanidade precisava engendrar uma réplica.

AVALIAÇÃO – BOM

FILÓSOFOS DA CONSCIÊNCIA
 Eugene Webb dedica o presente livro a rastrear o conceito de "consciência" em filósofos como Eric Voeglin (a quem já dedicou monografias específicas), Paul Ricouer, René Girard e Kierkegaard –deixa o grande existencialista dinamarquês para o fim, em ordem propositadamente não cronológica. 
O professor de literatura comparada da Universidade de Washington é autor também de "A Pomba Escura", estudo sobre as tensões entre o sagrado e o secular na literatura moderna, e de certo modo se mantém nesse mesmo campo intelectual ambivalente, ao discutir aqui pensadores que, por mais diversos entre si, têm em comum o forte diálogo intelectual com o cristianismo e suas jazidas possíveis de significação transcendente para um mundo secular dominado pelo primado, desde Descartes, da consciência subjetiva enquanto instância da verdade.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


O FUTURO NÃO É MAIS O QUE ERA
A incrível fecundidade de citações de Paul Valéry no meio acadêmico marca presença, de novo, nesta coletânea de ensaios organizada por Adauto Novaes. Vem de Valéry o mote para filósofos e ensaístas meditarem a mutação da imagem de futuro em nossa atualidade marcada pela crise das utopias, imediatismo, triunfo da tecnociência e uma "correria" incorporada no vocabulário do senso comum mas que  parece não levar a lugar nenhum. Franklin Leopoldo e Silva comenta a angústia da temporalidade na tradição filosófica, e sua crítica em Bergson; Vladimir Safatle relê a denúncia nietzschiana da consciência histórica, marco da recusa pós-moderna das grandes narrativas e, pois, do futuro como reconciliação de tipo hegeliano e marxista do racional e do real; Fréderic Gros aponta o anseio de abolição do futuro em Epicuro, no milenarismo cristão e na atual era de "internet dos objetos" em autorregulação perpétua.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO

sexta-feira, novembro 29, 2013

Russell no trem mìstico de Henri Bergson


Não, não vou bater na tecla arquibatida de que fulano que fala de sicrano nos revela mais de fulano que do sicrano. Ok, ja bati... Mas um grande filosofo que se ponha a comentar outro, ou a historia da filosofia em geral, repete exatamente esse esquema clichê, claro que na escala monumental do embate dos genios, dos santos (daimones) que se batem ou nao. O santo de Bertrand Russell gostaria è de surrar o de autores como Bergson. E o faz, na Historia da Filosofia Ocidental, quando no amplo capitulo sobre o filosofo frances se locupleta em gracinhas como observar que, para Bergson, `o intelecto è o infortunio do homem, enquanto que o instinto è encontrado em sua melhor forma nas formigas, nas abelhas e em Bergson`.  A ironia prossegue em passagens como: `O relato das acoes do intelecto nem sempre è facil de seguir, mas se quisermos entender Bergson, temos de fazer o possivel nesse sentido`. Uma diferenca duzentas vezes maior que o canal da Mancha separa o frio racionalismo do logico britanico (nao sem, como vemos, tiradas humoristicas tao sutis quanto mordazes) do filosofo que, sem escrever ficcao, foi um dos grandes `dramaturgos` dos conflitos do espirito afundado na materia, em estagios evolutivos de crescente desprendimento e reencontro, na senda mistica da intuicao, do que o intelectualismo materialista, pragmatico, tira de nòs. E desse conflito, paradoxalmente, Russell nos dà imagens que surpreendem pela beleza, por exemplo quando compara o universo bergsoniano a `um cone com o Absoluto  no vertice, pois o movimento ascendente da mente junta as coisas, enquanto que o movimento descendente as separa ou, pelo menos, parece fazê lo`. Parece, no caso, pois nao se trata senao do velho vèu de Maia dos indianos, ilusao interposta entre o espirito e a materia por um intelecto que, longe de mero fardo nefasto e inutil, nasceu para nos proteger e nos ajudar a prevalecer contra os rigores da existencia no estagio material, mas que nos leva a erro quando se imagina a unica forma de acesso à realidade. E, logo adiante, Russell recorre a outra bela metafora para ilustrar o que diz seu adversario intelectual (saudades do tempo em que, nas polemicas, o adversario nao renunciava à elegancia e a admitir beleza na posicao antagonica). O universo, para Bergson, seria como que `um vasto trem funicular, em que a vida è o trem que sobe, e a materia o trem que desce. O intelecto consiste em observar o trem que desce quando este passa pelo trem em que estamos. A faculdade evidentemente mais nobre que concentra sua atencao sobre o nosso proprio trem è o instinto ou a intuicao <que para Bergson è o instinto em sua forma superior, voz da natureza reencontrada ja em condicoes novas propiciadas pelo cultivo da racionalidade (Unzuhause)> È possivel saltar de um trem para outro; isto acontece quando nos tornamos vìtimas de um habito automatico, e è a essencia do còsmico <o mundo pelas lentes `mundanas`tao denunciadas pela tradicao moralista francesa desde Montaigne, Pascal, Chamfort, ate Sartre e Camus, passando, claro, por Bergson (Unzuhause)>. Ou podemos dividir nos em partes <embora metaforas espacializantes nao fossem muito do agrado de um filosofo como Bergson, para quem a vida è essencialmente tempo, sendo o espaco a dimensão ilusòria de nossas alienacões e dispersoes num plano de ser e de conhecer inferior (Unzuhause)>, uma que sobe e outra que desce; entao, so a parte que desce è cosmica. Mas o intelecto nao è um movimento descendente, mas simplesmente uma observacao do movimento descendente pelo movimento ascendente`.
Bergson, je t`aime!!
*Unzuhause* 

Sêneca, a aguia e a âncora


Em preparativos de artigo sobre Jung para o pos doutorado, tenho visto com ele o problema da emergencia da mensagem cristã no contexto da decadencia civica e depravacao moral generalizada dos estertores do mundo antigo. E em Sìmbolos da Transformacao, paragrafo 103, deparo com um trecho de Sêneca que depois fui buscar nas minhas fontes e reproduzo mais extensamente a seguir. 
Vemos, na primeira parte do texto, o movimento de interiorizacao da consciencia etico-religiosa, a critica do ritualismo, da observancia meramente exterior e formal de obrigacoes, de uma ideia de sacrificio que vitimava animais, que traficava bens economicos, mas que nao depunham a propria alma na pira dos calores de renuncia ao pequeno eu, caminho para a união (`yoga`, termo etimologicamente proximo a `jugo`, como o jugo suave de que fala Mt 11, 28s) com o deus interno e o livramento para fora das potencias irracionais do destino, do acaso; dialetica de virtude e fortuna que no Renascimento seria repensada por Maquiavel.
A `Era Axial`(termo cunhado pelo filosofo Karl Jaspers, expoente de um existencialismo que de certo modo reatualiza em termos modernos essa ruptura com sistemas externos e enfase no altar do coracao) vai abalar os pilares desses esquemas acomodaticios, vai exigir uma religiosidade mais profunda, chamamento que ecoa das Upanishades hindus a Lao Tse, de Buda aos grandes profetas judeus ate a vinda do Cristo, e que tem no estoicismo uma variante que Luc Ferry destaca entre as principais expressoes de uma soteriologia (soter: salvacão) profana, basicamente racional e independente de crencas alem-mundo.
No segundo trecho que destacamos, ainda na carta 41 a Lucilio, Seneca està trazendo para o terreno etico uma discussao do sentimento religioso que linhas atras ele associava a nosso assombro ante as potencias da natureza. 
 `Se penetrares num bosque cheio de velhas àrvores, de altura fora do comum e tais que a densidade dos ramos entrelacados uns nos outros oculta a vista do ceu, a propria grandeza do arvoredo, a solidao do lugar, a visao magnifica dessa sombra tao densa e continua no meio da planura, tudo te fara sentir a presenca divina`. Mesma aura de `religioso misterio`que sera entao  associada ao homem de virtude (convem lembrar o sentido dinâmico, mais que o obviamente moral, de virtude enquanto dynamis, força, poder). 
Em tempos `puxados`, para dizer o minimo, como os nossos, precisamos de um resgate do amor ecologico e religioso nao so pelas florestas, animais (daì a beleza que confesso me comover em gestos como o salvamento estilo black bloc dos caezinhos semanas atras), pelas montanhas, pela majestosidade delicada das coisas da vida, mas tambem pela ecologia interna que favorece e desemboca na potencia e na alegria das virtudes, estrelas do firmamento propriamente humano em que resplandece a gloria do Criador na noite escura de um mundo material corrupto e vil como os corpos miseraveis em que estamos encerrados, para repugnância de Sêneca. 
Essa è uma das maneiras de dar nome à `transformacao` axial, para combinar os termos de Jaspers e de Jung (ambos, alias, pensadores psiquiatras de formacao, mas convertidos a um olhar curador outro para os sofrimentos da alma), de que me parece prenhe a civilizacao moderna em suas dores torturantes e enormes potencialidades, aguias com asas abertas mas patinhas desesperadamente (ao menos pra mim) presas a âncora de chumbo, como vi outro dia num rapaz ao lado no inferno do um dia de metrô lotado.
-Unzuhause-


``È uma empresa excelente e salutar a tua, se de fato, conforme me escreve, continuas a avançar rumo à sabedoria, a essa sabedoria que, por estar ao teu alcance obtê-la, seria estupidez ir suplicar aos templos. Nao è preciso elevar as maos ao cèu nem pedir ao ministro do culto que nos deixe formular votos ao ouvido da estatua do deus, como se assim nos fosse mais facil sermos atendidos: a divindade esta perto de ti, esta contigo, esta dentro de ti! È verdade, Lucilio, dentro de nòs reside um espìrito divino que observa e rege os nossos atos, bons e maus; e conforme for por nòs tratado assim ele proprio nos trata. Sem a divindade ninguem pode ser um homem de bem; ou serà que alguem pode elevar-se acima da fortuna sem auxilio divino? As decisões grandiosas e justas, è a divindade que as inspira. Em todo homem de bem,

qual seja o deus, ignora -se, mas existe um deus!
(...)
Se vires um homem intrèpido no meio do perigo, insensivel aos desejos vulgares, feliz no meio da adversidade, tranquilo em plena tempestade, contemplando os outros homens do alto, olhando os deuses de igual para igual: acaso nao sentiras por um tal homem uma onda de veneracão? Não diras: Hà aqui algo de superior, de demasiado elevado para poder considerar -se equivalente ao miseràvel corpo em que esta encerrado? Sobre este homem desceu  uma força divina; a sua alma sublime, com perfeito dominio sobre si, que passa pelas coisas sem descer ao seu nìvel, que se ri dos temores e dos desejos vulgares, è uma alma movida por uma energia celeste. Uma alma desta natureza nao pode perdurar sem auxilio divino; e por isso mesmo pertence, pela sua parte mais sublime, ao lugar donde proveio. Os raios do sol atingem, è certo, a terra, mas estao no lugar de onde emanam; do mesmo modo essa alma excelsa e divina, descida ate nòs para nos fazer conhecer mais de perto a divindade, embora estando na nossa companhia, mantèm-se ligada a suas origens. Emanaçao celeste, è para o ceu que olha e se dirige, e està entre nòs sabendo que na realidade paira acima de nòs. O que caracteriza esta alma? O fato de nao brilhar senao graças aos seus bens proprios. Que hà de mais estulto do que admirar num homem aquilo que lhe è exterior? Onde hà maior loucura do que na admiração  por coisas que, de um momento para outro, podem mudar de proprietàrio? (...) Ninguem deve vangloriar - se do que nao lhe pertence. (...) aquilo que lhe è peculiar (...) que se não lhe pode tirar, nem dar, aquilo que è especifico do homem. Queres saber o que è? È a alma, e, na alma, uma razao perfeita (ratio perfecta: a razao levada ao maximo de suas potencialidades, identificando -se com a `virtude` ; by Unzuhause) . (...) A razao nao exige mais do homem do que esta coisa facilima: viver segundo sua propria natureza! O que torna esse objetivo dificil de atingir è a loucura generalizada que nos leva a empurrar -nos uns aos outros na direcão do vicio. E como reconduzir ao caminho da salvaçao homens a quem ninguem consegue deter, e a quem o vulgo ainda mais acicata?`
SÊNECA
Cartas a Lucilio (n. 41)

terça-feira, novembro 26, 2013

Francisco e a alegria do Evangelho

“Alegria do Evangelho”: publicada primeira exortação apostólica do papa Francisco

Foi divulgada nesta terça-feira, 26 de novembro, a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho), a primeira do pontificado do papa Francisco. O documento já havia sido entregue, de forma simbólica, no último domingo, durante a celebração de encerramento do ano da Fé. Hoje, o texto foi publicado na internet em vários idiomas.

A exortação fala sobre o anúncio do evangelho no mundo atual. No texto, Francisco propõe “algumas diretrizes que possam encorajar e orientar, em toda a Igreja, uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo”. O pontífice toma como base a doutrina da Constituição dogmática Lumen gentium, e aborda, entre outros pontos, a transformação da Igreja missionária, as tentações dos agentes pastorais, a preparação da homilia, a inclusão social dos pobres e as motivações espirituais para o compromisso missionário.
Dividida em cinco capítulos, o texto também recolhe a contribuição dos trabalhos do Sínodo dos Bispos, realizado no Vaticano em 2012, com o tema "A nova evangelização para a transmissão da fé". Para ler a tradução em português, clique aqui.
http://pt.radiovaticana.va/news/2013/11/26/primeira_exorta%C3%A7%C3%A3o_apost%C3%B3lica_de_papa_francisco;_texto_na_%C3%ADntegra_de_e/bra-750057
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1.A ALEGRIA DO EVANGELHO enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos.
2. O grande risco do mundo actual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito que jorra do coração de Cristo ressuscitado.
3. Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído». Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direcção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada. Este é o momento para dizer a Jesus Cristo: «Senhor, deixei-me enganar, de mil maneiras fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para renovar a minha aliança convosco. Preciso de Vós. Resgatai-me de novo, Senhor; aceitai-me mais uma vez nos vossos braços redentores». Como nos faz bem voltar para Ele, quando nos perdemos! Insisto uma vez mais: Deus nunca Se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir a sua misericórdia. Aquele que nos convidou a perdoar «setenta vezes sete» (Mt 18, 22) dá-nos o exemplo: Ele perdoa setenta vezes sete. Volta uma vez e outra a carregar-nos aos seus ombros. Ninguém nos pode tirar a dignidade que este amor infinito e inabalável nos confere. Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria. Não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!
(...)Texto proveniente da página http://pt.radiovaticana.va/news/2013/11/26/primeira_exorta%C3%A7%C3%A3o_apost%C3%B3lica_de_papa_francisco;_texto_na_%C3%ADntegra_de_e/bra-750057
do site da Rádio Vaticano 

segunda-feira, novembro 25, 2013

pela mártir de Alexandria (dia de Santa Catarina)



a roda de Ixíon, castigo dos desejos incontrolados e da soberba contra os deuses, ao contrário do suplício de Catarina, padroeira dos estudantes, mais ainda, dos buscadores da Sabedoria, e símbolo de renúncia aos falsos prazeres e saberes do mundo imundo e comunhão com o Princípio Espiritual; "o que está em ti é maior que o que está no mundo" (Unzuhause)
Neste dia lembramos a vida desta santa que é inspiradora e protetora de um Estado brasileiro: Santa Catarina. Nascida em Alexandria, recebeu uma ótima formação cristã. É uma das mais célebres mártires dos primeiros séculos, um dos Santos Auxiliadores. O pai, diz a lenda, era Costes, rei de Alexandria. Ela própria era, aos 17 anos, a mais bonita e a mais sábia das jovens de todo o império; esta sabedoria levou-a a ser muitas vezes invocada pelos estudantes. Anunciou que desejava casar-se, contanto que fosse com um príncipe tão belo e tão sábio como ela. Esta segunda condição embargou que se apresentasse qualquer pretendente.
“Será a Virgem Maria que te procurará o noivo sonhado”, disse-lhe o ermitão Ananias, que tinha revelações. Maria aparece, de fato, a Catarina na noite seguinte, trazendo o Menino Jesus pela mão. “Gostas tu d’Ele?”, perguntou Maria. -”Oh, sim”. -”E tu, Jesus, gostas dela?” -”Não gosto, é muito feia”. Catarina foi logo ter com Ananias: “Ele acha que sou feia”, disse chorando. -”Não é o teu corpo, é a tua alma orgulhosa que Lhe desagrada”, respondeu o eremita. Este instruiu-a sobre as verdades da fé, batizou-a e tornou-a humilde; depois disto, tendo-a Jesus encontrado bela, a Virgem Santíssima meteu aos dois o anel no dedo; foi isto que se ficou chamando desde então o “casamento místico de Santa Catarina”.
Ansiosa de ir ter com o seu Esposo celestial, Catarina ficou pensando unicamente no martírio. Conta-se que ela apresentou-se em nome de Deus, diante do perseguidor, imperador Maxêncio, a fim de repreendê-lo por perseguir aos cristãos e demonstrar a irracionalidade e inutilidade da religião pagã. Santa Catarina, conduzida pelo Espírito Santo e com sabedoria, conseguiu demonstrar a beleza do seguimento de Jesus na sua Igreja. Incapaz de lhe responder, Maxêncio reuniu para a confundir os 50 melhores filósofos da província que, além de se contradizerem, curvaram-se para a Verdade e converteram-se ao Cristianismo, isto tudo para a infelicidade do terrível imperador.
Maxêncio mandou os filósofos serem queimados vivos, assim como à sua mulher Augusta, ao ajudante de campo Porfírio e a duzendos oficiais que, depois de ouvirem Catarina, tinham-se proclamado cristãos. Após a morte destes, Santa Catarina foi provada na dor e aprovada por Deus no martírio, tendo sido sacrificada numa máquina com quatro rodas, armadas de pontas e de serras. Isto aconteceu por volta do ano 305. O seu culto parece ter irradiado do Monte Sinai; a festa foi incluída no calendário pelo Papa João XXII (1316-1334).
Santa Catarina de Alexandria, rogai por nós!

Uma linda jovem de 17 anos, filha de Costus, o rei da Alexandria, foi ao palácio do imperador romano Maximino II para convencê-lo, através de teologia e filosofia, da inutilidade do culto aos deuses pagãos. Muito sábia e piedosa, desejava convertê-lo ao cristianismo e assim acabar com a perseguição aos cristãos.
    Surpreso e encantado, o imperador a pediu em casamento, prometendo até divorciar-se para se dedicar só a ela. Ele mal sabia que Santa Catarina já havia desposado Jesus.
    Quando mais nova, dizia que queria casar com um jovem que fosse tão bonito e inteligente quanto ela. Assim recebeu várias visitas e cortejos, mas a todos ela recusava porque achava que lhes faltava ou beleza ou inteligência. Ananias, um sábio cristão eremita e visionário, a quem ela muito admirava, lhe disse: 'A Virgem Maria te encontrará um esposo.'
    Poucos dias depois, Nossa Senhora lhe apareceu trazendo o Menino Jesus pela mão. E perguntou a Santa Catarina: 'Tu gostas d'Ele?' Ela, muito encantada, foi logo dizendo: 'Oh, sim!' Maria, se voltando para Jesus, Lhe perguntou: 'E Tu? Gostas dela?' O menino Jesus, porém, respondeu com repúdio: 'Não, é muito feia.' Chorando muito, Santa Catarina foi logo que pôde ao encontro de Ananias, e ele sabiamente lhe explicou: 'Não é tua beleza que Ele reprova, mas o orgulho que vive em tua alma.'
    Foi quando ela passou a ouvir ainda mais atentamente as palavras do sábio eremita e abraçou verdadeiramente o cristianismo. Por exercícios de ascese, alcançou a humildade que lhe faltava. Então, mais uma vez lhe apareceu Nossa Senhora acompanhada do menino Jesus, que agora lhe olhava com pureza nos olhos. A Virgem Santíssima tinha um par de alianças e colocou uma em seu dedo e a outra no dedo do Menino Jesus. Esse é o conhecido 'casamento místico de Santa Catarina'.
    A proposta de casamento do imperador, portanto, encontrava esse obstáculo intransponível. E diante da convicta recusa de Santa Catarina e de seus persistentes argumentos tentando lhe converter, o imperador convocou 50 sábios sacerdotes da religião pagã para debater com aquela jovem humilde, que lhe parecia enigmática, mas certamente também muito sábia. Qual não foi sua irritação ao ver que os sábios não podiam lhe resistir! Movida profundamente pelo Espírito de Deus, em poucos dias Santa Catarina não só os calou como também conseguiu convertê-los. Furioso, Maximino II, ordenou que os sábios fossem queimados vivos. Junto com eles, foram queimados também sua esposa, o ajudante de campo Porfírio e quase 200 oficiais. Impressionados com aquela jovem tão iluminada, todos eles haviam acompanhado os debates e também haviam se convertido.
    Quanto à Santa Catarina, ele ordenou que fosse morta sob tortura por uma roda de navalhas. Mas, sem mostrar nenhum temor, pois esperava ardentemente viver em definitivo seu desposamento com Cristo, ela simplesmente fez o sinal da cruz e esperou a morte. Por milagre, o aparelho se despedaçou sem sequer lhe atingir.
Estupefato, mas temendo um novo vexame, Maximino II a conduziu pessoalmente para fora da cidade e a decapitou. Do seu pescoço, no entanto, saiu apenas leite, o que fez o imperador se retirar visivelmente trêmulo e assombrado. Era por volta do ano de 308.
    Seu corpo, porém, não restou ali muito tempo, pois anjos de Deus apareceram e o levaram para o Monte Sinai, ao local onde Moisés teria visto a sarça ardente. Entre 527 e 565, por ordem do imperador cristão Justiniano I, aí foi erguido um monastério, o mais antigo em atividade de toda cristandade.
Desde o sepultamento, assistido por monges eremitas cristãos, o lugar se tornou um ponto de peregrinação, onde grandes graças eram alcançadas. Mas só no século VII, após o término da construção do monastério, seu túmulo foi devidamente identificado, pois os monges locais o ocultaram durante as obras, temendo que infiéis ou saqueadores o violassem. Tal lapso de tempo, contudo, só fez aumentar a devoção à jovem mártir.
    Já no século XV, Santa Catarina apareceu várias vezes àSanta Joana d'Arc, indicando inclusive o lugar onde ela encontraria a espada para levar a França à vitória contra os ingleses na Guerra dos Cem Anos.
    Ela é também uma dos 14 Santos Auxiliares, os intercessores eficazes contra algumas doenças específicas: é a protetora contra a morte súbita. É aclamada também como a padroeira dos estudantes, filósofos e professores.



Oração

    Santa Catarina de Alexandria, que tivestes uma inteligência abençoada por DEUS, abre a minha inteligência, fazei-me compreender as matérias de aula, dá-me clareza e calma na hora dos exames, para que possa ser aprovado. Eu quero aprender sempre mais, não por vaidade, nem só para agradar aos meus familiares e professores, mas para ser útil para mim mesmo, a minha família, à sociedade e à minha Pátria. Santa Catarina de Alexandria, conto contigo. Conta também tu comigo. Eu quero ser um bom cristão para merecer a tua proteção. Amém.

o sintoma facebook





"Um viciado em facebook me confessou - não confessou, mas de fato gabou-se - que havia feito 500 amigos em um dia. Minha resposta foi: eu tenho 86 anos, mas não tenho 500 amigos. Eu não consegui isso!


Então, provavelmente, quando ele diz 'amigo', e eu digo 'amigo', não queremos dizer a mesma coisa, são coisas diferentes. Quando eu era jovem, eu não tinha o conceito de redes, eu tinha o conceito de laços humanos, comunidades... esse tipo de coisa, mas não de redes.
Qual a diferença entre comunidade e rede? 
A comunidade precede você. Você nasce em uma comunidade. De outro lado temos a rede, o que é uma rede? Ao contrário da comunidade, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes: conectar e desconectar.
Eu penso que a atratividade desse novo tipo de amizade, o tipo de amizade de facebook, como eu a chamo, está exatamente aí: que é tão fácil de desconectar. É fácil conectar e fazer amigos, mas o maior atrativo é a facilidade de se desconectar. 
Imagine que o que você tem não são amigos online, conexões online, compartilhamento online, mas conexões off-line, conexões reais, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho. Assim, romper relações é sempre um evento muito traumático, você tem que encontrar desculpas, tem que se explicar, tem que mentir com frequência, e, mesmo assim, você não se sente seguro, porque seu parceiro diz que você não têm direitos, que você é sujo etc., é difícil. 
Na internet é tão fácil, você só pressiona "delete" e pronto, em vez de 500 amigos, você terá 499, mas isso será apenas temporário, porque amanhã você terá outros 500, e isso mina os laços humanos."

-ZYGMUNT BAUMAN, conferência para o ciclo "Fronteiras do Pensamento", 2011-



"O amor tem mais do que um ponto em comum com a convicção religiosa: exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento. Pelo fato de isto ser muito difícil, poucos mortais podem orgulhar-se de tê-lo conseguido. Mas, por ser o amor devotado e fiel o mais belo, nunca se deveria procurar o que pode torná-lo fácil. Alguém que se apavora e recua diante da dificuldade do amor é péssimo cavaleiro de sua amada. O amor é como Deus: ambos só se revelam aos seus mais bravos cavaleiros. Da mesma forma critico o casamento experimental. O simples fato de assumir um casamento experimental significa que existe de antemão uma reserva: a pessoa quer certificar-se, não quer queimar a mão, não quer arriscar nada. Mas com isto se impede a realização de uma verdadeira experiência. Não é possível sentir os terrores do gelo polar na simples leitura de um livro, nem se escala o Himalaia assistindo a um filme. O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério. Considero um desacerto falarmos nos dias de hoje da problemática sexual sem vinculá-la ao amor. As duas questões nunca deveriam ser separadas, pois se existe algo como problemática sexual esta só pode ser resolvida pelo amor. Qualquer outra solução seria um substituto prejudicial. A sexualidade simplesmente experimentada como sexualidade é animalesca. Mas como expressão do amor é santificada. Por isso não perguntamos o que alguém faz, mas como o faz. Se o faz por amor e no espírito do amor, então serve a um Deus; e o que quer que faça não cabe a nós julgá-lo pois está enobrecido."
-C. G. JUNG, Civilização em Transição-

"(...) A terceira espécie de coragem é o oposto da apatia descrita acima, a que chamo coragem social. É a coragem de se relacionar com os outros seres humanos, a capacidade de arriscar o próprio eu, na esperança de atingir uma intimidade significativa. É a coragem de investir o eu, por certo tempo, num relacionamento que exigirá uma entrega cada vez maior.A intimidade requer coragem porque o risco é inevitável. Não é possívelsaber, logo no início, de que forma o relacionamento nos irá afetar. Crescerá,transformando-se, em auto-realização, ou nos destruirá? A única coisa certa éque, se nos entregarmos totalmente, para o bem e para o mal, não sairemos ilesos.Uma atitude comum nos nossos dias consiste em fugir à responsabilidadede estruturar a coragem necessária para um relacionamento autêntico,deslocando o centro da questão para o corpo, transformando-o num caso decoragem física. Em nossa sociedade, é mais fácil desnudar o corpo do que a menteou o espírito; mais fácil compartilhar o corpo do que as fantasias, desejos,aspirações e temores, pois estes são assuntos privados, cuja revelação nos tornamais vulneráveis. Por estranhas razões, envergonhamo-nos de compartilhar o querealmente importa. E, assim, as pessoas isolam o edifício mais "perigoso" de umrelacionamento, indo imediatamente para a cama. Afinal de contas, o corpo é umobjeto e pode ser tratado como tal.Mas, a intimidade que começa a nível físico, e aí permanece, deixa de serautêntica, e em pouco tempo estamos procurando fugir ao vazio. A coragem social autêntica requer intimidade simultânea nos vários níveis da personalidade.Só assim é possível vencer a alienação do indivíduo. Fazer novos conhecimentosprovoca sempre alguma ansiedade, aliada ao prazer da expectativa, e à medidaque o relacionamento se aprofunda cada descoberta é marcada por novo prazer epor uma nova ansiedade. Cada encontro pode ser o precursor de algo novo em  nosso destino, bem como um estímulo na direção do prazer excitante derealmente conhecer alguém.
-ROLLO MAY, A Coragem de Criar-

domingo, novembro 24, 2013

Super-Homem, 75 anos de uma lenda eterna


A Fnac da Paulista, a  gostosa Fnac, cada vez mais vantajosa em comparação ao formigueiro barulhento e rude das gentes girando em torno, como na brincadeira, das mesas do café da Cultura, a Fnac, eu dizia, abriga esses dias uma exposição de desenhos em  homenagem aos 75 anos de Super-Homem. 
Tendo em Christopher Reeve -e na sensacional música-tema dos filmes estrelados pelo trágico galã- talvez seu avatar definitivo, e não só nas fronteiras do cinema, o Super-homem é, também ele, avatar de uma história de longuíssima duração, a de nossas projeções messiânicas da libido (digo em termos junguianos, energia psíquica em geral) em figuras redentoras, imagens de poder, liberdade e nobreza moral acima das misérias de nosso mundo banal e massificado (os super-heróis são deuses para as nossas cidades inchadas e sempre à beira de colapsos e sob as botas de fascínoras e corruptos). Uma história que rima de Gilgamesh ao Übermensch, termo nietzschiano que quer dizer aproximadamente isso, "super-homem", por mais torçam seus sofisticados narizes os eruditos comentadores tesistas que preferem falar em "além-do-homem" ou soluções parecidas que respeitem a liturgia da opacidade acadêmica. 
Criado por dois jovens cartunistas de Cleveland, Jerome Siegel e Joseph Shuster, o Super-Homem estreia em Action Comics nº 1, de 1938. Tem aparecido desde então em milhares de revistas, tiras em quadrinhos, filmes, shows de rádios, desenhos animados para a TV, brinquedos, jogos e lembrancinhas 'suficientes para fazer uma reta da Terra à Lua", segundo Christopher Knowes em "Nossos Deuses São Super-Herois" (ed. Cultrix). 
Mas nada assegurava, no princípio, esse sucesso estrondoso. Siegel criou-o muitos anos antes de sua estreia nos quadrinhos, mas não teve sorte a princípio, vendo o personagem ser rejeitado várias vezes porque "fantástico demais".
Finalmente, o editor da DC, Harry Donenfeld, comprou o personagem por 200 dólares e ele se tornou um sucesso imediato, inspirando milhares de imitadores. "De várias maneiras, podemos dizer que todo super-herói de revistas em quadrinhos surgido posteriormente é, na verdade, uma variação do Super-Homem", prossegue Knowles.

O Super-Homem é Kal-El, último filho de Krypton, enviado ao espaço quando bebê por seu pai, um cientista, pouco antes de seu planeta explodir. Sua cápsula espacial aterrissa na cidade de Smallville, no Meio-Oeste dos EUA. Ele é encontrado por um casal de idosos, os Kent, que dão ao bebê o nome de Clark e o adotam. Clark, que desde o início mostras uma força prodigiosa, sai d Smallville e vai para Metrópolis, onde trabalha como repórter para "O Planeta Diário". Em momentos de crise, veste seu uniforme azul e vermelho e usa seus superpoderes -voo, força descomunal, visão de raio X- para lutar pela verdade e pela justiça.
O Super-homem, nisso diferindo do paganismo ético do Übermensch nietzschiano, é um messias da mais pura cepa bíblica. Seus aspectos crísticos são evidentes, como homem enviado do céu por seu pai para usar seus poderes especiais pelo bem da humanidade. Não por acaso a revista satírica National Lamoon desenvolveu uma tira chamada "Son O' God" (Filho de Deus) que parodiava Jesus como herói semelhante ao Super-Homem, com capa vermelha e desenhos do astro da DC Comics Neal Adams (vide acima). Na onda da "morte do Super-Homem", no início dos anos 90, a capa de uma graphic novel  evocava, nessa mesma direção, a Pietà de Michelangelo, com Lois Lane no papel da Virgem Maria. 

Parecia de fato, no vaivém volátil das vendagens em banca de revista, que super-heróis desse gênero estavam com os dias contados. Só parecia. "Os acontecimentos de 11/9 evocaram a necessidade, profundamente arraigada, de que alguma coisa ou alguém salvasse o mundo civilizado de um mal sem rosto e sem nome, capaz de provocar o caos instantâneo - um tipo de destruição que antes só era visto em histórias em quadrinhos. Para combater esses demônios invisíveis, precisávamos de deuses. Com efeito, mais uma vez, a indústria da história em quadrinhos reagiu, fornecendo a uma nação confusa e aterrorizada os super-heróis que poriam ordem em tudo", observa Knowles. 
Jung reconhecia a universalidade do mitologema do herói nas mais diversas culturas;  aspectos como nascimento divino, descida aos infernos, ações redentoras em batalhas terríveis, presença de companheiros femininos ou masculinos, a  ideia recorrente de derrota, morte e renascimento. Esse arquétipo sinaliza para a emergência da consciência do ego desde o inconsciente material e psicológico -o mundo em si e tudo o que (des) conhecemos dele e de nós-, os rigores impostos pela existência contra a frágil flor da integridade espiritual, a improvável brecha de experiência significativa e indi-visibilidade (não esquecer que indivíduo quer dizer indiviso) quando tudo no espaço parece agregados de "últimos homens" (o antípoda nietzschiano do super-herói) visíveis apenas em dispersão, agressão, banalidade e caos.
-Unzuhause-

sábado, novembro 23, 2013

assim serás um homem, filho meu


Se
-Rudyard Kipling- 
(tradução Guilherme de Almeida)

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho! 

If

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools; 

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!" 

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings --nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And --which is more-- you'll be a Man, my son!

quinta-feira, novembro 21, 2013

quarta-feira, novembro 20, 2013

era uma vez -a maçã e a pedra


Era uma vez um rei que era visitado todo dia, na sala de audiências, por um mágico que lhe entrega uma linda maçã. Distraído, o rei a entrega ao ajudante de ordens, que por sua vez manda jogá-la num quarto distante. Assim se fez durante um ano inteiro, até que um dia o macaco da rainha, que conseguira se soltar, pula dentro da sala de audiências, pega a maçã e a morde. Quando faz isto todos vêem, admirados, que esta maçã contém dentro d si uma pedra preciosa belíssima. Aí o rei, naturalmente, investiga às pressas o lugar onde estavam as outras maçãs. E, de fato, encontra-se debaixo da polpa adormecida das frutas um monte de pedras preciosas de grande valor, cujo número corresponde exatamente ao dos dias do ano. 
Esse conto de fadas indiano me parece uma ilustração preciosa -como o tesouro escondido nas maçãs- do quanto, por negligência, podemos desperdiçar os presentes mágicos que a vida cotidiana pode nos oferece, na sua humildade, na despretensão das grandes datas e expectativas. O quanto o tempo pode ser transfigurado, no dia após dia da totalidade de um ano (os 365 dias simbólicos de nossos ciclos), quando de repente nos apercebemos que no monturo do esquecido, no dejeto das coisas desprezadas, dos lados de nossa personalidade e de nossa história que mal conseguimos encarar de frente, havia ali algo, um presente, para o qual não tínhamos dado o presente de nossa atenção plena. Chega um dia, talvez uma grande necessidade ou aflição, o macaco que se libertou da jaula,  que vem bagunçar o coreto e revelar a verdade que liberta -conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. O macaco, na simbologia tibetana, é muito utilizado para ilustrar nossa consciência em ziguezague, titubeante de lá para cá, de galho em galho. Mas, em aparente contradição, remete à leveza da consciência espontânea, à fantasia, ao desprendimento, ao que tem desdém pela pseudo-sabedoria dos homens. O macaco, no conto, é o psicopompo, animal prestativo e figura guia, que nos indica que precisamos reabrir a porta escondida, limpar a sujeira e recolher o tesouro que esperava por nós no aparentemente podre, inútil e morto. 
-Unzuhause-

quinta-feira, novembro 14, 2013

o porte apostólico


Caminho, fruto de uma atividade sacerdotal que São Josemaría Escrivá havia iniciado em 1925, aparece pela primeira vez em 1934, com o título de "Considerações espirituais"; em 1939, data da segunda edição aumentada, recebe o nome atual e definitivo. Atualmente, já foram publicados cerca de 4.500.000 de Caminho em 43 idiomas.

Caminho tem um estilo direto, de diálogo sereno, no qual o leitor se encontra diante das exigências divinas num ambiente de confiança e amizade. Quando foi publicado na Itália, L'Osservatore Romano comentou: “Mons. Escrivá de Balaguer escreveu mais do que uma obra-prima; escreveu inspirando-se diretamente em seu coração, e ao coração chegam diretamente, um a um, os parágrafos que formam Caminho”.

Lê devagar estes conselhos. Medita pausadamente estas considerações. São coisas que te digo ao ouvido, em confidência de amigo, de irmão, de pai. E estas confidências as escuta Deus. Não te contarei nada de novo. Vou revolver as tuas recordações, para que aflore algum pensamento que te fira. E assim melhores a tua vida, e entres por caminhos de oração e de amor. E acabes por ser alma de critério. (Caminho, Prólogo do autor)

1) Que a tua vida não seja uma vida estéril. - Sê útil. - Deixa rasto. - Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor.
Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. - E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração.
2) Oxalá fossem tais o teu porte e a tua conversação que todos pudessem dizer, ao ver-te ou ouvir-te falar: “Este lê a vida de Jesus Cristo”.
3) Gravidade. - Deixa esses meneios e trejeitos de mulherzinha ou de moleque. - Que o teu porte exterior seja o reflexo da paz e da ordem do teu espírito.
4) Não digas: “Eu sou assim..., são coisas do meu caráter”. São coisas da tua falta de caráter. Sê homem - “esto vir”.
5) Acostuma-te a dizer que não.
(...)

segunda-feira, novembro 11, 2013

Reforma Íntima -autodiagnóstico espiritual




Qual é o meio prático e mais eficaz para se melhorar nesta vida, e resistir aos arrastamentos do mal?
-  Um sábio da antiguidade vos disse: Conhece-te a ti mesmo.
(Questão no. 919 de “O Livro dos Espíritos”)

O dever do espírita-cristão é tornar-se progressivamente melhor.
Útil, assim, verificar de quando em quando, com rigoroso exame pessoal, a nossa verdadeira situação íntima.
Espírita que não progride durante três anos sucessivos permanece estacionário.
Testa a paciência própria: - Estás mais calmo, afável e compreensivo?
Inquire as tuas relações na experiência doméstica: - Conquistaste mais alto clima de paz dentro de casa?
Investiga as atividades que te competem no templo doutrinário: - Colaboras com mais euforia na seara do Senhor?
Observa-te nas manifestações perante os amigos: - Trazes o Evangelho mais vivo nas atitudes?
Reflete em tua capacidade de sacrifício: - Notas em ti mesmo mais ampla disposição de servir voluntariamente?
Pesquisa o próprio desapego: - Andas um pouco mais livre do anseio de influência e de posses terrestres?
Usas mais intensamente os pronomes “nós”, “nosso”, e “nossa” e menos os determinativos “eu”, “meu” e “minha”?
Teus instantes de tristeza ou de cólera surda, às vezes tão conhecidos somente por ti, estão presentemente mais raros?
Diminuíram-te os pequenos remorsos ocultos no recesso da alma?
Dissipaste antigos desafetos e aversões?
Superaste os lapsos crônicos de desatenção e negligência?
Estudas mais profundamente a Doutrina que professas?
Entendes melhor a função da dor?
Ainda cultivas alguma discreta desavença?
Auxilias aos necessitados com mais abnegação?
Tens orado realmente?
Teus ideais evoluíram?
Tua fé raciocinada consolidou-se com mais segurança?
Tens o verbo mais indulgente, os braços mais ativos e as mãos mais abençoadoras?
Evangelho é alegria no coração: - Estás, de fato, mais alegre e feliz intimamente, nestes três últimos anos?
Tudo caminha!  Tudo evolui!  Confiramos o nosso rendimento individual com o Cristo!
Sopesa a existência hoje, espontaneamente, em regime de paz, para que te não vejas na obrigação de sopesá-la amanhã sob o impacto da dor.
Não te iludas!  Um dia que se foi é mais uma cota de responsabilidade, mais um passo rumo à Vida Espiritual, mais uma oportunidade valorizada ou perdida.
Interroga a consciência quanto à utilidade que vens dando ao tempo, à saúde e aos ensejos de fazer o bem que desfrutas na vida diária.
Faze isso agora, enquanto te vales do corpo humano, com a possibilidade de reconsiderar diretrizes e desfazer enganos facilmente, pois, quando passares para o lado de cá, muita vez, já será mais difícil…

FONTE: Xavier, Francisco Cândido & Viera, Waldo, Opinião Espírita


segunda-feira, novembro 04, 2013

os cegos perdidos pelo tiroteio



Mocinhos e bandidos de enredos simetricamente inversos, inclusive alterando a voz (engrossada como no gravador de pilha fraca para fazer o necessário inimigo soar debilóide) os homens se digladiam por ideias, por plataformas de poder conceituais de seus projetos que latem por cargos, prestígio e poder, babosos uns contra os outros e ao mesmo tempo irmanados e dóceis a uma só e mesma lógica que fecha os punhos em bravatas calculadas e abre mão da intuição direta, que aos cinco sentidos do imediatamente imposto acrescentaria, subversivo, o sexto do (im) possível. Em meio aos tiroteios da certeza faltam os cegos tirésias do perdido ver além e através, mesmo que nada. Num dia como hoje, arrastado e avassalado de uma vontade de estar noutro lugar que nem sequer existe, e que por isso pode ser, me socorro dos versos e versões de vida à deriva de Lao Tsé, o sábio chinês.
-Unzuhause-

TAO TE KING 
-POEMA 20-

Tradução direto do chinês por Mário Bruno Sproviero:

não ao estudo e foi-se a inquietação
"sim" e "pois não" quanto se distinguem?
bem e mal como se distinguem?
o que os homens temem não se pode não temer?
estéril! esse nem sim nem não
A massa efusiva e mais efusiva
como no gozo de um festim sacro
como nos altos a sagrar a primavera
só eu ancorado! nesse ainda sem auspícios...como recém-nascido antes de se acriançar
marionete! sem para onde retornar
a massa tem o supérfluo
só eu sem quê nem para quê
eu... que coração de idiota
oh! confuso e mais confuso
a gente brilha que brilha
só eu ofuscado e aparvalhado
a gente vibra que vibra
só eu melancólico e mais melancólico
plácido! tal qual o mar
ao vento! como sem lugar
a massa tem com quê
só eu obstinado e tosco
mas só eu diferente dos outros
dignificando a mãe nutriente
 (Lao-Tse)

---------------------------
Tradução do inglês por Luiz Fernando Rodrigues:
"Pare de pensar, e acabe com seus problemas.
Que diferença entre sim e não?
Que diferença entre sucesso e falha?
Você precisa valorizar o que outros valorizam,
evitar o que outros evitam?
Que ridículo! 
Outras pessoas são empolgadas,
como se estivessem em um desfile.
Só eu não me importo,
só eu sou inexpressivo,
como um bebê que ainda não sorri. 
Outras pessoas tem o que querem;
só eu não possuo nada.
Só eu estou à deriva,
como alguém sem lar.
Só eu sou como um idiota, minha mente é tão vazia. 
Outras pessoas são brilhantes;
só eu sou sombrio.
Outras pessoas são espertas;
só eu sou tolo.
Outras pessoas tem um propósito;
só eu não sei.
Eu vago como uma onda no oceano,
Eu vou tão sem direção quanto o vento. 
Eu sou diferente das pessoas ordinárias.
Eu bebo dos seios da Grande Mãe."
 (Lao-Tse)
Tradução de Humberto Rohden com explicação filosófica:

Renunciai à vossa pretensa cultura,
E todos os problemas se resolvem.
Oh! quão pequena parece a diferença
Entre o sim e o não!
Quão exíguo o critério
Entre o bem e o mal!
Como é tolo não respeitar
O que merece ser respeitado de todos!
Ó solidão que me envolve todo!
Todo o mundo vive em prazeres
Como se vida fosse uma festa sem fim,
Como se todos sorrissem em perene primavera!
Somente eu não sei o que farei...
Sou como uma criança que desconhece o sorriso.
Sou como um foragido
Sem pátria nem lar...
Todos vivem na abundância,
Somente eu não tenho nada....
Sou um ingênuo, um tolo...
É mesmo para desesperar...
Alegres e sorridentes andam os outros!
Deprimido e acabrunhando ando eu...
Circunspectos são eles, cheios de iniciativa!
Em mim, tudo jaz morto.
Inquieto, como as ondas do mar;
Assim ando eu pelo mundo...
A vida me lança de cá para lá,
Como se eu fosse uma folha seca...
A vida dos outros tem um sentido,
Eu não tenho uma razão de ser...
Somente a minha vida parece vazia e inútil;
Somente eu sou diferente de todos os outros -

E no entanto - sossega meu coração!
Tu vives no seio da mãe do Universo.
 (Lao-Tse)


Explicação Filosófica:

 À primeira visa parece estranho esse pessimismo do autor, esse lúgubre desânimo da vida, que lembra os lamentos de Jó. Mas não convém esquecer que todo o homem que deixou a sociedade dos profanos tem, de início, a sensação de uma solidão imensa, de um saara sem oásis; sente-se exilado sem pátria sem lar. O homem espiritual se sente desambientado aqui na terra; ninguém o compreende; todos o consideram como um estranho, não pertence ao nosso mundo. O próprio Jesus passou por estes transes:"As raposas têm suas cavernas, as aves têm seus ninhos - o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça". E a seus discípulos diz ele:"Por causa de mim e do Evangelho sereis odiados de todos..."."Bem-aventurados os que choram..."
Ao descer de Tambor, ele exclama: "Ó geração perversa e sem fé! Ate quando estarei convosco?
Ate quando vos suportarei?"...
Mas essa aparente solidão e abandono do homem espiritual é a "Comunhão dos Santos", a mais bela do Universo, como Lao-Tsé lembra nas últimas linhas. É o total abandono de Jó - que estava na companhia de Deus, no coração do Universo. Abandonado se sente o ego - bem amparado está sempre o Eu. "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?...Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito."