sábado, agosto 31, 2013

Resenhas para a Folha - 31/08/13



FOLHA DE S. PAULO
GUIA DA FOLHA -LIVROS, DISCOS, FILMES
*CAIO LIUDVIK*

POÉTICAS DA FLORESTA
Jovem bonito como o Sol, nascido de uma mãe fecundada por uma fruta, herói-legislador à procura da "mulher perfeita". Esse é Jurupari, protagonista de uma das mais importantes lendas da mitologia ameríndia. E é também ponto de partida  do poeta e tradutor Sérgio Medeiros em "O Desencontro dos Canibais".
Medeiros foi organizador de importante edição, pela Perspectiva, da narrativa indígena original, lado a lado com a de "Makunaíma", inspirador do herói sem nenhum caráter de Mario de Andrade. No livro que lança agora, transpõe a lenda de Jurupari em contos infanto-juvenis que falam de um canibalzinho que busca uma canibalzinha, ambos "muito sós" e se procurando desencontrados. A procura do próprio Medeiros é por um "canibalismo onírico" que, para além da ideia de sacrifício humano, não come e sim engendra o outro.
Já em "Quando a Terra Deixou de Falar", Pedro Cesarino, professor de antropologia da USP, traduz treze narrativas míticas dos Marubo, povo do extremo oeste do Amazonas. A edição bilíngüe adentra uma de nossas mais cerradas "poéticas da floresta" com a bagagem essencial a todo bom etnólogo, este argonauta da alteridade irredutível: erudição, sensibilidade e a experiência de longos anos de convívio de campo. 
Cesarino trabalhou em colaboração com pajés locais. A formação do Céu e da Terra, dos espíritos e dos animais, entre outros eventos do "tempo do surgimento", é articulada a sua metafísica implícita, por exemplo uma peculiar concepção de pessoa: para os Marubo, além da carcaça física exterior, a pessoa é habitada por uma tríade de irmãos interiores, igualmente corpóreos, de diferentes idades e graus de sabedoria. Um constructo "primitivo" que,  enquanto crença literal, não deixa de nos fazer pensar em variantes esteticamente sublimadas do tema da multiplicidade no sujeito moderno: os heterônimos pessoanos ou os "trezentos, trezentos e cinqüenta" eus do (re)criador de "Macunaíma".
AVALIAÇÃO
BOM (Medeiros)

ÓTIMO (Cesarino)

HOLOCAUSTO BRASILEIRO
Comboios com massa humana despejada em campos de concentração, ali fadada a degradações como ingerir ratos, água de esgoto e urina, espancamento, violações, assassinatos. Uma política criminosa de Estado contra os estigmatizados sociais. Não é casual a analogia que "Holocausto Brasileiro"  traça entre o genocídio nazista e o manicômio conhecido como Colônia, em Barbacena (MG). 
Este livro-reportagem reconta a sinistra história do maior hospício do Brasil, ao longo do século 20. A "razão" psiquiátrica como pretexto da exclusão e discriminação, embora cerca de 70 % dos internos não tivessem sequer diagnóstico de doença mental: eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas violadas por seus patrões, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento. 
Vale a pena complementar a leitura com o documentário "Em Nome da Razão", de Helvécio Ratton (disponível no You Tube), também sobre este nosso Auschwitz, que só começou a ser debelado no contexto da luta antimanicomial dos anos 80.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO
O diagnóstico se assemelha, até pelo título, ao já clássico libelo de Guy Debord contra a "sociedade do espetáculo". Mas "A Civilização do Espetáculo" de Mario Vargas Llosa difere do predecessor por recusar o reducionismo marxista (a cultura como mero epifenômeno das relações de produção socioeconômicas), bem como qualquer terapia pela violência revolucionária. Nobel de literatura e candidato derrotado à Presidência de seu país, o escritor peruano dedica esse ensaio a mazelas como o apequenamento narcísico do intelectual, a banalização das artes, jornalismo sensacionalista, a frivolidade da política e imbecilização do indivíduo; nota uma mutação, por assim dizer tumoral, no que tradicionalmente se entendia como cultura: de lugar de reflexão e despertar da consciência ante as perplexidades e desafios que a confrontam, a cultura se degrada na atualidade a uma mera válvula de escape da sanha de divertimento.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO 

O PRÍNCIPE E OUTRAS FÁBULAS MODERNAS
No poema "Gitanjali", que lhe valeu o Nobel de literatura em 1913, Rabindranath Tagore explicita uma mística da procura do Absoluto na simplicidade das coisas da vida. A paradoxal grandeza que se esconde na pequenez, o triunfo na derrota, a aura de Mistério divino particularmente achegada ao convívio com os "mais pobres, mais humilhados e perdidos". Também nas fábulas aqui reunidas, o escritor indiano  (1861-1941) celebra, por exemplo, o humilde funcionário do palácio real, que fica para trás no burburinho das carruagens mundanas e pouco se importa, visitado que é pelas carruagens de Deus na forma de girassóis na porta de casa. 
Fala do Príncipe que se recusa a casar senão com a fada do rio dos seus sonhos; contempla o humano em si, como uma corrente de histórias tanto quanto o rio é corrente de água; o humano à imagem e semelhança de um Criador ele também arteiro e artista, amante da ficção -a imagem clássica hindu do mundo tão maciçamente "real" como nada senão um sonho de Deus.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

POESIA REUNIDA
Poeta e dramaturgo de origem croata, Radovan Ivsic (1921-2009) se estabelece em Paris em 1954, em fuga do totalitarismo socialista da então Iugoslávia. Revalorizado como expoente modernista em seu país após a queda do Muro de Berlim, ele foi companheiro de André Breton e Benjamin Péret e teve poemas ilustrados por Miró. Como mostra Fernando Paixão no prefácio, sua obra é de uma influência marcadamente surrealista. Sua escrita automática irradia imagens numa sarabanda a contrapelo da lógica convencional e habitantes de um espaço "hipnagógico", entre o sono e a vigília, sonhos que, num dos versos, ele compara à imagem de peixes, talvez nos dizendo também da agonia e rápida dissipação quando arrancados do mar do inconsciente.
 Uma linguagem de símbolos que respiram na profundeza e em ruptura com os cabrestos utilitários e apressados da vida cotidiana, e que para tanto nos convida a "não olhar antes de ver".
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

sexta-feira, agosto 30, 2013

gostosura de massas



Claro que uma amostra com base em Avenida Paulista, Perdizes e Vila Madalena é pouco representativa para generalizações, mas eu intuo, com base no meu trânsito por essas áreas, e pelos metrôs da cidade, um efeito colateral inesperado dos anos de prosperidade FHC / Lula: as mulheres brasileiras estão ficando cada vez mais lindas. Gostosas, com o perdáo da linguagem de bife. Precisamos repensar a velha queixa feminista de que "a mídia opressora" fabrica capas de revista com beldades inatingíveis para a mulher comum.
 Confesso que vejo cada vez menos distância entre as garotas das capas e as que nos barbarizam o coração com suas curvas deliciosas nas ruas. Curvas sim, massa, geração Gisele Bündchen. E não falo de filhote de peruas, não, mas de gente normal, bacana e real. 
As redes sociais redimensionam nossa relacão com a mídia, fazendo-nos protagonistas de mídias pessoais (que é facebook senão essa massagem deliciosa em nossos egos alçados a estrelas de nós mesmos?). Além de trazermos a mídia para a terra, e encarnarmos as deusas das capas em corpos pedestres, creio que o acesso de massa ao consumo e a seviços como academia de ginástica é outro fator poderoso de explicacão disso. Quanto a nós, amantes em potencial, não sei se generalizo de novo, e com base numa amostra única (euzinho da silva liudvik), mas creio que isso é, como toda grande transformação do inconsciente coletivo cada vez mais matriarcal,  um presente para os olhos mas um desafio, que, como em todo mercado, terá poucos vencedores e que tende a multiplicar a fauna masculina de admiradores do belo sexo enjaulados em solidões voyeurísticas. Pois a mulher que dá mais (sem trocadilhos infames) também cobra mais, chega daquele tempo em o homem se bastava a um papel de provedor em casamentos sem recompensa de tesão alguma para mulheres, aí sim (não pela "mídia"), oprimidas por uma confortável existência de merda. 
-Unzuhause-

Iniciação à Magia : os testamentos de Deus


Nossas lições introdutórias sobre Magia e Psicologia prosseguem hoje sintetizando as principais teses do que se poderia chamar de "filosofia mágica", conforme entendida por Ernest Butler.
O ponto de partida aqui é a imagem da "web" cósmica: o Universo como uma Totalidade viva, una e inteligente, na qual nada se dissocia de nada, e tudo serve a um mesmo propósito, embora não possamos entender o suficiente, tampouco apreciar, se olhamos para experiências distintas como o nascimento de nosso filho ou um tsumani assassino.  "Tudo não passa de parte de um Todo estupendo", diz o poeta gnóstico, porém esse todo estupendo por vezes não nos livra do sofrimento particular pelo estúpido.
Um ritual mágico se vale das seguintes palavras em honra a Adão Kadmon, o Homem Primordial da Cabala, Anthropos: "No começo havia o Caos e as Trevas e os Portais da Terra da Noite. E o Caos clamou pela Unidade. Então, ergueu-se o Eterno. Diante do Brilho desse Semblante, as Trevas recuaram e as Sombras fugiram". Esse reflexo profundo do Supremo é Adão Kadmon, é o Filho do Homem, "o Logos por Quem todas as coisas foram feitas"
Estamos acostumados pela compreensão antropológica mais recente, em voga nas ciências sociais, a encarar a realidade humana como isolada, autárquica, meramente "cultural". Ora, paradoxalmente, na autocompreensão própria dos "nativos" (indígenas) que a antropologia usou para edificar sua visão culturalista, o que vemos é bem diferente: é a compreensão que os herméticos sempre tiveram de que o Homem é expressão microcósmica do Mundo, sempre segundo a mediação transcendental a que damos o nome dos Deuses, esses Ministros do Supremo Poder, para aludir à linguagem política com a qual brincamos de deuses, com nossas liturgias sagradas ou profanas. O Homem como pequeno Universo, o Universo como o Grande Homem. Homem brincalhão adulto ou brinquedo infantil de forças inconscientes, demônios que ele, em grau rudimentar de evolução moral e espiritual, deixa atravessá-lo. Deus, sem existir, caminha entre nós os existentes como o diretor do colégio vindo ao pátio na hora do recreio. "Eu sou criança na Terra, mas minha Raça veio das Estrelas dos Céus". Terra ou, por outra, Malkut, na Árvore da Vida cabalística. O nível da manifestação imediata dos demais atributos da Divindade. Lembra Jung em Mysterium Coniunctionis que um mesmo simbolismo, o da "viúva", é aplicado nos antigos escritos alquímicos para designar Malkut e a Igreja, viúvas do Marido que morreu e que por isso pode deixar herança - não por acaso chamamos a Bíblia de Testamentos, antigo ou novo. A Árvore da Vida já foi representada como a Cruz de Cristo.
Não há matéria "morta", por mais inerte que se nos apresentem as coisas; as encarnações no tempo e espaço são aparência material de "inúmeros centros de energia saindo dos planos dos mundos invisíveis para o centro vivo de tudo". Não há dicotomia matéria e espírito. Toda matéria manifesta é um modo, como diria Espinosa, da Substância única, Vida que tudo permeia.
Nada é vulgar ou sujo, tudo serve a um propósito e é expressão da vida do eterno. "Não existe parte minha que não seja dos Deuses", declara o Adepto no ritual. Apesar disso o mago, como o sábio, discerne a diferença entre o Ideal e o Real, mas não é cínico na recusa do Ideal como mera fantasia, ao contrário, o Real é o Ideal ainda não completamente autorrealizado, seja no mundo externo, seja no drama do Eu, ambos em estado de "Queda", por si mesma prova e campo de provas do retorno (prova como evidência e como provação, pois regressamos à Casa do Eterno mediante o sofrimento de miríades de vida - a salvação é pelo caminho do sacrifício. 
Sacrifício, para quem leu Símbolos da Transformação de Jung, é sabidamente a vivência crítica pela qual o homem morre para o velho ego e renasce para o Self eterno, o Homem Novo. Não há vitória da Verdade profunda de nosso Ser sem a mu-dança ou der-rota da personalidade, isto é, de nossa mascaralidade (persona é máscara, na Grécia antiga). 
Para além das quimeras da "personalidade", conhece-te a ti mesmo é imperativo que escutamos também vindo da Grécia: a percepção do verdadeiro Eu é a meta do mago. "Seguindo esse princípio e mirando seu interior, o mago contempla um mundo decaído. Ele vê que o plano primal sobre o qual o universo foi formado lá está, brilhando por todo o universo como a suprema harmonia e beleza e, através dessa luz, ele vê o ideal no qual seu verdadeiro eu está fundamentado e pelo qual é sustentado".
O velho axioma hermético "Solve et coagula": Dissolve e reforma, pelos ritos da Alta Magia; transmutação do ego pessoal, da personalidade, mascaralidade
"Somente o Senhor edifica a casa, o trabalhador trabalha em vão"; é preciso humildade para nos conectarmos com as hostes angélicas, níveis hierárquicos de Inteligência que nos conduzem ao Supremo
Trabalhos e encantamentos, rituais e círculos, espadas, vagas e fumigações, tudo não passa de meios para se trabalhar pelo triunfo da autorrealização existencial, a Individuação junguiana, ou "deificação", na linguagem mística.
-Unzuhause-

quinta-feira, agosto 29, 2013

café com Hermes


"Oh! não deixeis apagar a chama! Mantida
De século em século
Nesta escura caverna.
Neste templo sagrado!
Sustentada por puros ministros do amor!
Não deixeis apagar esta divina chama!"
Umas moedas perdidas no meu casaco preto tilintavam sem parar, aliás mais do que o habitual, porque hoje eu precisava muito delas! Parei tudo e passei os dedos por todos os bolsos, até achar a pequeníssima fenda por onde elas tinham passado pra se refugiar tão perto mas tão inacessíveis ao meu toque, mesmo dentro da minha roupa.
Ao final consegui e pude pagar com elas -circuito de trocas com o mundo- o café, divino dom ou mundano vício de todos os meus dias. Dom e vício que me faz querer de fato despertar, pois sem café o dia é apenas um torpor de sono prorrogado, dia que finge que transcorre ante olhos que fingem estar abertos.
Ao tocar as moedas, mas ainda separado delas pelo tecido, recordei as tantas vezes que o tocar da realidade parecia tão próximo, mas ainda sutilmente impedido por alguma barreira de isolamento. Tive a nítida sensação de que, bem ao estilo hermético do "assim em cima como embaixo", e do homem como pequeno cosmo que é imagem do grande cosmo,  Deus me mandava um sinal que só vim a compreender ao recordar dos versos acima. 
O convite do poeta - de todo poeta- é para que despertemos para o tesouro mais precioso que nos aguarda trancafiado dentro do coração: a Sabedoria ancestral, que remonta a Hermes Trimegisto, o "Abraão" dos hermetistas (não por acaso o nome que levam) ao longo dos milênios. Como Abraão, Hermes Trismegistus ("três vezes grande") é pai fundador de uma fé, se entendemos a palavra no sentido da confiança, da entrega, do "deixar tua terra e tua parentela", como fez Abraão, e nos tornarmos povo de êxodo e de travessia pelas tormentas do mundo, rumo à Terra prometida pelo Senhor. A "fé" hermética não entra em conflito e em disputa com fé nenhuma, dos antigos xamãs aos aiatolás de Maomé, seu lugar é de "hermenêutica" -ou seja, interpretação e compreensão de textos do real, os escritos, falados e os vividos no cotidiano ou no extraordinário, "texto" como o das moedinhas perdidas em meu bolso, tilintando sem poder exercer seu valor na prática, hoje de manhã. 
E de novo vemos Hermes presente no espírito da palavra, somos "hermeneutas" em homenagem a Hermes, seja o Hermes egípcio ou o deus grego de mesmo nome, e chamado Mercurius entre os latinos, deus das comunicações entre o superior e o inferior, vínculo de conjugar o assim na terra como no céu. 
A filosofia hermética propriamente dita teve enorme importância para os alquimistas e bruxos do Renascimento -pois eram saberes que, além de ressuscitar paradigmas da Antiguidade, se punham, como todo o humanismo renascentista, em rota de colisão com a mentalidade clerical e teocêntrica da época. Isso porque o saber hermético (adjetivo que tem a fama de coisa difícil, cifrada, pra poucos, por exemplo na crítica que fala em poetas herméticos)  não nega, mas reinterpreta os preceitos dogmáticos num outro contexto semântico, em que o homem é responsável por sua própria iluminação, operário da vasta oficina de forças e materiais, de ideias e rituais, chamada Natureza, nossa Mãe e Medeia, de acordo com nossa aceitação dela. Tudo depende de nós, proletários (a opção preferencial da Igreja pelos pobres faz todo sentido), embora sem a concordância de Deus o trabalhador trabalhe sempre em vão, como diz a Palavra bíblica. 
Graças a Deus, aliás, estamos em tempos de novas convergências, a ponto de uma editora católica como a maravilhosa Vozes dar abrigo às Obras Completas de um mago como Carl Gustav Jung, inclusive a seus textos mais iconoclastas sobre religião e alquimia. Nos quais ele reivindica claramente a polaridade deus/diabo, bem/mal, como inerente, senão ao Deus "em si" -quem somos nós para saber o que é ou o que não é?-, à nossa imago dei, o Deus interno, que é santo e pecador como a Igreja que é sua imagem terrena. 
O hermetismo passa a ser passível, como a psicologia junguiana, de ser usado como ferramenta de trabalho com mil e uma utilidades, o que sempre foi. Todo saber é ferramenta de construção, não se basta a si mesmo, o que importa é a Vida para a qual o saber rende homenagem e serviço. É como as minhas paupérrimas e preciosas moedinhas, existem para circular, para trocar, comunicar e nos permitir acesso ao bem-estar íntimo que todavia provém do fora, ou melhor, do "entre" (no duplo sentido, d intermediário e do convite a que entremos no alheio), em que tomamos e pagamos nosso café.
-Unzuhause-

quarta-feira, agosto 28, 2013

o tríplice convite (pelo dia de Santo Agostinho)


O man, sole root of
fault in thee
is not to know thine own divinity
(Saiba disso, ó homem, apenas uma raiz
está faltando em ti
é não saber da tua própria divindade)
in: BUTLER, E.
A Magia: Ritual, Poder e Propósito

Evangelho (e Santo) do dia: levantar do sepulcro



Ele è perito do coracao humano, que de tao humano so podia ser divino, segundo a luminosa expressao de Leonardo Boff a respeito do proprio Cristo. Santo Agostinho tem a memoria celebrada hoje pela Igreja do mundo inteiro. E o Evangelho do dia como que se junta às homenagens, pois o `Doutor da Graca`, maior teologo da Igreja,marcou tambem a historia da filosofia ocidental, antecipando inclusive o `penso, logo existo`de Descartes, na enfase na subjetividade, da consciencia como instancia suprema de procura da Verdade, de conversacao com o Espirito divino, da ìnterioridade`, em suma, como senda em que, so nela, ou a partir dela, o homem pode se reencontrar e se `reafeicoar`, no sentido de redescobrir a beatitude de estar, mas tambem a semelhanca de rosto,  à sua Designacao de autodivinizacao, levantando do sepulcro de todas as alienacões.
*Unzuhause*

Evangelho segundo S. Mateus 23,27-32.

Naquele tempo, disse Jesus: »Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados: formosos por fora, mas, por dentro, cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície! 
Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade. 
Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, que edificais sepulcros aos profetas e adornais os túmulos dos justos, 
dizendo: 'Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas!’ 
Deste modo, confessais que sois filhos dos que assassinaram os profetas. 
Acabai, então, de encher a medida dos vossos pais! 


Comentário do dia: 


Balduíno de Ford (?-c. 1190), abade cisterciense, depois bispo 

Tratado 10; PL 204, 515-516 


Senhor, arranca-me o meu coração de pedra


É a nossa vez de amarmos a Cristo como Ele nos amou. Ele deixou-nos o seu exemplo para que seguíssemos os seus passos (1Ped 2,21). Por isso disse: «Grava-Me como selo em teu coração» (Cant 8,6), quer dizer: «Ama-Me como Eu te amo. Traz-Me no teu espírito, na tua memória, no teu desejo, nos teus suspiros, nos teus gemidos, nos teus soluços. Lembra-te, homem, em que estado te criei, como te elevei acima das outras criaturas, a dignidade com que te enobreci, como te coroei de glória e de honra, como te coloquei um pouco acima dos anjos e como tudo submeti a teus pés (Sl 8). Lembra-te, não somente de tudo o que fiz por ti, mas também das provas e humilhações que sofri por ti. […] E, se Me amas, mostra-o; ama, não apenas em palavras e com a língua mas com obras e verdade. […] Grava-Me como um selo no teu coração e ama-Me com todas as tuas forças.» […]


Senhor, arranca-me este coração de pedra, este coração duro […]; dá-me um coração novo, um coração de carne, um coração puro (Ez 36,26). Tu, que purificas os corações, Tu que amas os corações puros, toma posse do meu coração e vem morar nele.

será que é o Obama me vigiando?? rs


mas esse meu blog tá chique "nas última", ou melhor, in the last ones rs:
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Francisco, Inácio e Leonardo



"Com frequência o víamos examinando coisas pequenas para elevar sua mente até Deus, que é grande mesmo nas mínimas coisas. Ao ver uma planta, uma folha, uma flor, qualquer tipo de fruta, ao considerar um pequeno inseto ou qualquer outro animal, ele se elevava aos céus e mergulhava nos mais profundos pensamentos, e de cada pequena coisa extraía sabedoria e os conselhos mais úteis para o aprendizado da vida espiritual".
Essas palavras poderiam se referir a Leonardo Boff, um de nossos maiores teólogos, que tem se mostrado de uma alegria contagiante sempre que se refere ao jesuíta de alma franciscana que foi chamado pelo Espírito Santo para, como o santo de Assis, reconstruir uma Igreja "em ruínas", após anos de vexames morais, perda de relevância sociológica e fiasco teológico-pastoral. Quando "pediu pra sair", Ratzinger enfim se redimiu do mal que seu projeto intelectual -ou sua intolerância em dialogar com a realidade múltipla dentro e fora da Igreja- representara para a Igreja, e hoje o reverencio por isso em meu altar pessoal. Sem necessariamente embarcar nos excessos marxistas da Teologia da Libertação, podemos fazer jus por dentro da Tradição cristã ao apelo ético e espiritual de Justiça e solidariedade, de que Marx, cristão inconsciente, se fez profeta profano.
Mas não é de Boff, o Galileu de Ratzinger, que estamos falando. Trata-se de um depoimento de um dos primeiros jesuítas, Pedro Ribadaneira, a respeito do próprio Inácio de Loyola, seu amigo e fundador da Companhia de Jesus em 1534. Vemos assim que a conexão franciscano-jesuítica não é um gesto arbitrário do papa Francisco, deita raiz numa espiritualidade comum que, não desconsiderando as imperfeições da natureza e pecados do ser humano, ainda assim se acasala em um amplexo cósmico com tudo o que existe, vê em tudo o que existe "provas" do Criador. Prova no sentido tanto de evidências quanto no de provações, ou melhor, "exercícios espirituais" de uma escola, a escola da vida, pela qual vamos em trânsito, do berçário ao pós-doutorado, e de lá para o trabalho concreto, ao longo de múltiplas "vidas", ainda que numa mesma e única existência. 
Para complementar, um dos momentos em que Boff celebra o nosso novo Pastor universal, que pelo nome adotou também um projeto, o do gênio de Assis que se fez pobre como Deus prefere os pobres, homem da paz com abundância de amor pela Vida que pulsa em cada criatura.
-Unzuhause-



"Enquanto Ratzinger viver, não é bom que Francisco me receba em Roma", diz Leonardo Boff

El PaísFrancho Barón
No Rio de Janeiro
·                                 15.jun.2012 - Júlio César Guimarães/UOL

O teólogo da Libertação Leonardo Boff discursa na Cúpula dos Povos, um dos maiores eventos paralelos da Rio+20, em 2012
Genézio Darci Boff, ou Leonardo Boff (nascido em Santa Catarina em 1938), irrompe na sala com ares de druida travesso, o sorriso travesso e as mãos que descrevem elipses no ar, como quem tenta pegar o vazio.
Boff, teólogo da Libertação, foi condenado ao ostracismo por Joseph Ratzinger em 1985, depois da publicação de seu livro "Igreja, Carisma e Poder", um torpedo contra o "establishment" do Vaticano nos últimos dois papados. Ele volta à cena para anunciar a chegada da igreja do terceiro milênio, liderada por Francisco. Segundo Boff, uma instituição "com cheiro de ovelhas, e não flores de altar".
El País: O que o mundo pode esperar do papa Francisco?
Leonardo Boff: Vem um papa cujo nome, Francisco, não é um nome, mas um projeto de igreja. Uma igreja pobre, humilde, despojada do poder, que dialoga com o povo. Temos muita esperança de que ele inaugure a igreja do terceiro milênio. Também creio que se criará uma dinastia de papas do Terceiro Mundo.
El País: O senhor foi uma grande voz dissidente na Igreja Católica e um dos mais críticos com os dois papas anteriores. O que o faz ser tão otimista quando fala do novo pontífice?
Boff: Creio que é muito corajoso. Situou-se ao lado dos pobres e contra a injustiça. Temos uma igreja que tem hábitos palacianos e principescos. Este papa mandou sinais de que quer outro estilo de igreja, dos pobres para os pobres, e essa é a grande herança da Teologia da Libertação. Vai pôr em xeque os hábitos tradicionais de cardeais e bispos.
El País: A igreja brasileira sofre uma sangria de fiéis há anos. O senhor pensa que a chegada de Francisco ao Brasil poderá ser crucial para reverter essa tendência?
Boff: Certamente, muitos protestantes vão participar dos atos desta Jornada Mundial da Juventude. Por outro lado, não considero uma desgraça que haja muitas igrejas cristãs. Em grande parte é culpa da Igreja Católica, porque, de fato, para o número de católicos que temos no Brasil, deveríamos ter 120 mil sacerdotes e temos somente 17 mil. Em nível institucional, a igreja fracassou.
El País: O senhor considera a possibilidade de voltar à Igreja Católica com este novo papa?
Boff: Sempre me considerei um teólogo católico que nunca abandonou a igreja. Sempre disse que mudei de trincheira, mas não de batalha. Portanto, meu trabalho eclesiástico continua, mas com uma diferença: casei-me. Se o papa acabasse com o celibato obrigatório, voltaria ao caminho comum da igreja.
El País: O senhor acredita que Bergoglio poderia abolir o celibato obrigatório?
Boff: Creio que existe essa possibilidade, porque Francisco traz a experiência do Terceiro Mundo, onde o celibato nunca foi uma virtude especial. Vejo que pode dar dois passos: primeiro, reconhecer que há 100 mil sacerdotes casados na igreja e permitir que voltem a seu trabalho. Segundo, que se institua o celibato opcional. Todas as igrejas já fizeram isso e a única que resiste é a católica. E com isso se causa muito dano.
El País: O senhor pretende se encontrar com Bergoglio?
Boff: Não quero forçar essa situação. Ele já disse que gostaria de me receber em Roma, mas antes tem que reformar a Cúria. E, enquanto Bento 16 viver, não seria bom para Francisco que eu, que tive um confronto doutrinário com ele [Ratzinger], seja recebido em Roma. Mas ele está aberto a me receber, inclusive trocamos correspondência.
El País: Esse encontro poderia ocorrer no Brasil, aproveitando a viagem do papa?
Boff: Eu gostaria disso. Escrevi um livro intitulado "Francisco de Assis, Francisco de Roma", e gostaria de entregá-lo a ele pessoalmente. Mas, como lhe disse, não quero forçar uma situação que poderia ser mal interpretada pela imprensa e criar um problema pessoal para o papa. A velha Cúria poderia interpretar como algo estranho, quase ofensivo.
El País: O senhor pensa que a Teologia da Libertação pode viver um novo apogeu a partir de agora?
Boff: Creio que sim. A Teologia da Libertação nasceu como uma tentativa de escutar o grito do oprimido. A maneira de atuar do novo papa favorece essa doutrina. E seria melhor que nem a mencionasse, porque poderia criar polêmica.
El País: Como o senhor vê o futuro do catolicismo na América Latina?
Boff: Creio que o futuro da América Latina não será um futuro de cristianismo. Será uma religião nova, na qual haverá muitos elementos cristãos, especialmente os santos, a missa, os ritos como o batismo, a eucaristia e o matrimônio, mas também com elementos da tradição indígena e das religiões afro-americanas.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves




terça-feira, agosto 27, 2013

iniciação à Magia -os níveis da mente


Vamos prosseguir nossos estudos de iniciação à Magia, em conexão com a Psicologia. Nossa base aqui é o livro já mencionado de Ernest Butler, Magia - Ritual, Poder e Propósito, uma das melhores leituras que já fiz neste campo, e que retomei por conta dos ciclos de História das Religiões que, a começar do budismo e do papa Francisco, venho compartilhando no blog este ano.
Butler nos leva pela mão desde os primeiros passos: vimos o iceberg como metáfora da personalidade humana. Ele prossegue relembrando o conceito psicanalítico de libido, e claramente se alinha à leitura junguiana do termo: não reduz libido a instinto (ou pulsão, como gostam os franceses) sexual, pois se trata de uma "energia psíquica" múltipla, que deságua no desejo sexual mas também na vontade de autoconservação, no impulso gregário bem como no impulso da transcendência: o instinto religioso, tão legítimo e "natural" -se bem que articulado em termos culturais diversos- ao homem quanto os demais instintos. 
No reconhecimento da função religiosa da psique, segundo Butler, está uma das grandes contribuições de Carl Gustav Jung para a psicologia do inconsciente. Se para Freud o inconsciente é o Id cercado e contido, "de fora para dentro", por assim dizer, pelos ditames moralizantes e espiritualizantes da religião, para Jung o religioso está imerso no inconsciente, como energia e imagética primordiais e indomesticadas. Religião não é pois mera invenção cultural, está nos nossos genes e na história evolucionária da espécie. Jung não se faz de rogado para transbordar os limites culturalistas que as ciências sociais tendem a impor à imagem do humano que elas mesmas forjam: uma página em branco que as contingências e arbitrariedades das história preencheriam de conteúdo. No seu reconhecimento do universalismo natural da linguagem simbólica, Jung está para a linguística de Noam Chomsky assim como Lacan e seu simbolismo arbitrário, convencional e particular de cada cultura estão para a linguística de Saussure. 
A cada nível de profundidade em que se adentra no espírito humano, menor vai ficando o grau de diferença e de particularismo, e mais e mais o humano é dissolvido na generalidade dos comandos naturais. Se a consciência é o ápice do que temos de "eu" -embora todos digam sempre o mesmo "eu"-, todo o espectro da in-consciência marca um alargamento do nós: os complexos do inconsciente pessoal nos põem em crescente amálgama com os "outros" significativos de nossa vida, familiares, amigos e assim por diante, e tais conexões perdem mais e mais contornos, mas não a intensidade do magma, conforme nos descobrimos produtos e co-criadores do processo mental de toda a humanidade e misturados aos níveis de consciência do reino animal e vegetal. "Isso nos leva a crer que, assim como nossos corpos têm dentro da sua própria estrutura as marcas do seu desenvolvimento evolutivo oriundo dos reinos mais inferiores da natureza, nossa mente mostra linha similar de evolução", diz Butler, que cita aqui palavras do próprio Jung:
"Quem fala por imagens primordiais, fala com mil línguas: agarra e sobrepuja e, ao mesmo tempo, eleva o que tira do individual e do transitório pessoa à esfera do eterno, exalta o quinhão pessoal à dimensão do homem e, assim, libera em nós todas aquelas forças úteis que desde sempre vêm capacitando a humanidade a se auto-resgatar de qualquer desastre e a sobreviver à mais longa das noites". 
Outro propósito não tem a magia, que, "com suas origens no passado imemorial, faz exatamente isso, fala ao subconsciente (sic) do homem por meio de imagens arcaicas de seus símbolos e rituais, e então produz 'mudanças de consciência' que o mago tanto busca [Butler alude aqui à definição básica que dá para a magia: arte de causar mudanças na consciência pelo poder da vontade.]. Assim foi também como o Senhor Jesus que: 'Sem a parábola, não se dirigia a eles' (Marcos 4, 34)".
Para o objetivo do mago, que não é, como reza o clichê, pacto com diabo, feitiço de amarração e quejandos, mas sim a  transformação da consciência pelo poder da vontade, é de máxima importância compreender nossa multiplicidade interior, e o quão pouco dela, a cada momento, é abrangido pelo radar egoico da consciência, seja "para baixo", rumo aos instintos biológicos que nos revelam matéria indiferenciada de toda a Criação, seja "para cima", no que nos redescobrimos imagem e semelhança do espírito do Criador: ocultistas se queixaram de que Jung tratava como "inconsciente", com todo estigma de neurose e delírio que o termo carrega, o que para a Tradição ancestral é o patrimônio espiritual e sapiencial da Humanidade. Talvez tendo isso em vista, Butler faz uma distinção terminológica que Jung talvez não achasse necessária, entre o inconsciente coletivo e a chamada "supraconsciência" ou, como se diz hoje, "mente transpessoal". Mas o importante não é a a escolástica dos termos, mas a mística da experiência:
 "Ter a capacidade de se tornar consciente das correntes ocultas e dirigi-las na tarefa de conduzir a vida pelos caminhos da sabedoria e da paz é o desejo ardente de qualquer mago ao olhar as profundezas de seu ser; e, ao vislumbrar a centelha da luz eterna que é o seu verdadeiro centro, ele exclama em nome e pelo poder dessa centelha: 'Eu tenho a onipotência ao meu comando e a eternidade à minha disposição".
-Unzuhause-

segunda-feira, agosto 26, 2013

Mercurius e a poética da febre


Tem como me expor impunemente a um dos clássicos liudvikianos, digo, membro da seleta galeria de filmes, livros, músicas, peças, pessoas com vocacao de impactar minha existência pra sempre? Revi ontem à noite "Sociedade dos Poetas Mortos" com o mesmo entusiasmo das primeiras vezes. Com o mesmo arrepio e emoção pela cena final antológica. Com a mesma carência paterna esperando por mestres como o professor Keating (Robin Williams, genial). Com o mesmo tesão adolescente à procura do verso certo e da chave-mestra de abrir o coração das mulheres e dar um sossega-leão para este nerd tímido,  fechado em livros, criança pálida em mim que ainda pede socorro e sol.
O mesmo entusiasmo,  como a etimologia da palavra quer dizer, ou seja, arrebatamento, preenchimento pelo espírito divino, não o da dogmática carola e careta como o daquela instituição prisional chamada por hábito de colégio, no filme. Espírito santo de Mercurius como substância indicativa do aumento do calor do corpo, Mercurius arquetipo dos alquimistas (inclusive os da palavra, que chamamos poetas) e ambivalência da febre que desperta as paixões que trazem todo "risco de vida", de paixão e morte, de que uma presença poética no mundo é capaz. 

A Poesia que se mostra não só enquanto a erudição cerebralista de citações de Shakespeare ou Walt Whitman. Mas convite ao pensamento autônomo, que digo, à autenticidade de vida, contribuição com nosso próprio verso ao vasto e vácuo poema dinâmico do Universo, segundo a potente imagem e convite que escuto do professor Keating, provocando os alunos (os "sem-luz", segundo alguns intérpretes dessa palavra) a rasgar o torpor das apostilas mornas, das existências mixas, do eruditismo broxa. 
Pra celebrar a poética ressurreição dos poetas mortos, uma relação dos versos imortais que pontuam no filme o despertar da consciência por que os sem-luz passam não sem travessia do horror - toda individuação, como êxtase (saída de si), é mudança- de-rota para o ego, este nosso cego fardo prosaico.
-Unzuhause-

http://www.dlackey.org/weblog/docs/deadpoetspoems.htm


A list of poems from Dead Poets Society


Walden, By Henry David Thoreau
     “I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived.” Where I Lived, and What I Lived For

     Referred to by Mr. Keating during one of his lessons.

     Read during first class with Keating to introduce "carpe diem."

     Referred to by Mr. Keating during one of his lessons; also a reference to what he suggest the students call him.

     Read by Neil Perry during one of the Dead Poets Society meeting in the cave.

    First poem read by Charlie Dalton (Nuwanda) to the girls he brought to the Dead Poets Society meeting.

    Second poem read by Charlie Dalton (Nuwanda) to the girls he brought to the Dead Poets Society meeting.

     Lines spoken by Neil at the end of the play. He played Puck in A Midsummer Night's Dream. Scroll down to the very end of the page for the speech.

domingo, agosto 25, 2013

iniciação à Magia - a jumenta e o iceberg


E. W. Butler, um sábio bruxo que eu aprecio, comenta que, embora as fisicas quântica e da relatividade apenas redigam, noutros termos, o que a magia ancestral sempre afirmara acerca do Universo, é mesmo na psicologia moderna, sobretudo com Jung, que os magos encontram o principal veio de tradução dos insights esotéricos em termos palatáveis à moderna mentalidade científica. Verificaremos isso com mais detalhes ao longo dos posts que prevejo para minha releitura do delicioso livro de Butler Magia: Ritual, Poder e Propósito
Por ora gostaria de registrar um dos primeiros níveis em que a energia do Mago é necessária à vida cotidiana: para trazer renovo  para as palavras, alquimizando o chumbo inútil dos clichês  no ouro de significações que tornem a encantar. Butler realiza isso quase a cada linha do que tem a dizer, e o faz sem alarde, por exemplo ao empregar a batida expressão "ponta do iceberg". Ele fala, a determinada altura do livro, que as descobertas da psicologia sobre a mente inconsciente muito deveram a explorações do profundo psíquico pelos hipnotizadores, os médiuns e demais ins-pirados insatisfeitos, na segunda metade do século XIX, com o retrato racionalista do espírito humano então tido como certeza científica inabalável pela psicologia acadêmica. O que resultou na revolução que constatou ser a mente da vigília apenas a tal "ponta do inceberg". 
Mas vejam como ressoam noutra vibe, em diapasão de magia -isto é, em conexão consciente com os níveis profundos da energia cósmica-, as palavras como que Butler retoma essa metáfora, excelente, segundo ele, "uma vez que o comportamento dessas montanhas de gelo muito se aproxima do comportamento da própria mente. Acontece frequentemente de o iceberg, embora o vento possa estar soprando sobre uma de suas extremidades, se mover na direção contrária, uma vez que seu gigantesco corpo submerso sofre muito mais os efeitos das correntes marítimas bem abaixo da superfície. Assim se dá com a mente humana".
De fato, quantas vezes nossa intenção é uma, mas tudo parece conspirar no sentido contrário? É possível a cada situação pontual, sincrônica (de momento), você apontar fatores aleatórios, casuais, que ajudaram no impedimento de que seu propósito desse certo. Mas um espectro de sentido distinto desponta a um olhar mais distanciado, diacrônico (ao longo do tempo), revelando contornos de uma contra-intenção (ou finalidade inconsciente) operando para frustar cada nova tentativa que fazemos na direção da intenção consciente e equivocada. Diferença radical entre a brisa na ponta do iceberg e as correntes do mar profundo, um dos mais antigos símbolos do inconsciente coletivo.
Falando em símbolos, colho na Bíblia hebraica uma passagem célebre, tão "fabulosa" que faz uma jumentinha se botar a falar com o heroi humano, Balaão, cansada das porradas que ele lhe dá por ela estar empacada - por vontade do Anjo do Senhor, quiçá equivalente ao que os bruxos chamam de nosso Anjo Guardião. 

A jumenta de Balaão 

Números 22, 21ss

21 Balaão levantou-se pela manhã, pôs a sela sobre a sua jumenta e foi com os líderes de Moabe.
22 Mas acendeu-se a ira de Deus quando ele foi, e o Anjo do Senhor pôs-se no caminho para impedi-lo de prosseguir. Balaão ia montado em sua jumenta, e seus dois servos o acompanhavam.
23 Quando a jumenta viu o Anjo do Senhor parado no caminho, empunhando uma espada, saiu do caminho e prosseguiu pelo campo. Balaão bateu nela para fazê-la voltar ao caminho.
24 Então o Anjo do Senhor se pôs num caminho estreito entre duas vinhas, com muros dos dois lados.
25 Quando a jumenta viu o Anjo do Senhor, encostou-se no muro, apertando o pé de Balaão contra ele. Por isso ele bateu nela de novo.
26 O Anjo do Senhor foi adiante e se colocou num lugar estreito, onde não havia espaço para desviar-se, nem para a direita nem para a esquerda.
27 Quando a jumenta viu o Anjo do Senhor, deitou-se debaixo de Balaão. Acendeu-se a ira de Balaão, que bateu nela com uma vara.
28 Então o Senhor abriu a boca da jumenta, e ela disse a Balaão: "Que foi que eu fiz a você, para você bater em mim três vezes?"
29 Balaão respondeu à jumenta: "Você me fez de tolo! Quem dera eu tivesse uma espada na mão; eu a mataria agora mesmo".
30 Mas a jumenta disse a Balaão: "Não sou sua jumenta, que você sempre montou até o dia de hoje? Tenho eu o costume de fazer isso com você?" "Não", disse ele.
31 Então o Senhor abriu os olhos de Balaão, e ele viu o Anjo do Senhor parado no caminho, empunhando a sua espada. Então Balaão inclinou-se e prostrou-se com o rosto em terra.
32 E o Anjo do Senhor lhe perguntou: "Por que você bateu três vezes em sua jumenta? Eu vim aqui para impedi-lo de prosseguir porque o seu caminho me desagrada.
33 A jumenta me viu e se afastou de mim por três vezes. Se ela não se afastasse, certamente eu já o teria matado; mas a jumenta eu teria poupado".
34 Balaão disse ao Anjo do Senhor: "Pequei. Não percebi que estavas parado no caminho para me impedires de prosseguir. Agora, se o que estou fazendo te desagrada, eu voltarei".
35 Então o Anjo do Senhor disse a Balaão: "Vá com os homens, mas fale apenas o que eu disser a você". Assim Balaão foi com os príncipes de Balaque.
36 Quando Balaque soube que Balaão estava chegando, foi ao seu encontro na cidade moabita da fronteira do Arnom, no limite do seu território.
37 E Balaque disse a Balaão: "Não mandei chamá-lo urgentemente? Por que não veio? Acaso não tenho condições de recompensá-lo?"
38 "Aqui estou!", respondeu Balaão. "Mas seria eu capaz de dizer alguma coisa? Direi somente o que Deus puser em minha boca".
39 Então Balaão foi com Balaque até Quiriate-Huzote.
40 Balaque sacrificou bois e ovelhas, e deu parte da carne a Balaão e aos líderes que com ele estavam.
41 Na manhã seguinte Balaque levou Balaão até o alto de Bamote-Baal, de onde viu uma parte do povo.


A jumenta, o homem e o anjo, tríade de níveis de consciência que o homem deve alinhar, em busca de harmonia e expansão de seu poder e prazer de viver: o animal (instintivo), o humano (ético) e o divino (místico). Se, distraídos ou ansiosos, não temos olhos para o Anjo a um palmo de nosso nariz, se não escutamos a voz de Deus no silêncio atento da consciência concentrada, suas verdades e vontades para nós se voltam contra nós na forma das irracionalidades teimosas, insistências "burras" e feridas tatuadas no corpo do destino. 
-Unzuhause-



sexta-feira, agosto 23, 2013

as aventuras de José de Souza Martins


Com muita alegria recebo a notícia do lançamento de "A Sociologia Como Aventura", de José de Souza Martins. Na câmera do meu espírito, o fotografo (para lembrar uma de suas maiores paixões e talentos, afora a sociologia e contar causos engraçados e reveladores da gente brasileira)  em três sequências afetivas, segundo o grau de proximidade do meu "mundo vivido" pessoal:  um dos mais importantes intelectuais brasileiros,  professor que mais me marcou em sala de aula, além de excelente entrevistado, mais de uma vez. Por exemplo em "Exclusão fora do foco", diálogo de 2002 para o caderno Mais! da Folha, e que, para minha honra, está incluído no volume que acaba de sair.
-Unzuhause-

Estimados (as) amigos (as),
A Editora Contexto acaba de publicar A Sociologia como Aventura, minhas memórias acadêmicas, que cobrem as duas décadas da ditadura e quase duas décadas subsequentes e problemáticas na vida universitária. Prisões (a minha própria), cassações e tensões decorrentes atravessam a narrativa. 
Boa parte do livro é dedicada à minha experiência de pesquisador, sobretudo à extensa e demorada pesquisa sobre os conflitos na região amazônica,  e de ativista de movimentos sociais, em particular na luta contra as injustiças e a violência no campo.  E, também aí, os muitos e complicados problemas da relação entre os movimentos populares, de um lado, e o cientista e a ciência, de outro.  Não só narro, mas analiso e proponho uma compreensão dessa relação difícil e problemática.
Haverá lançamento do livro em Salvador, na reunião da Sociedade Brasileira de Sociologia (10 a 23 de setembro); em Águas de Lindoia (SP), na Reunião Anual da Anpocs - Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais (23 a 27 de setembro); e na Livraria Alpharrabio (Santo André, SP), em 23 de novembro, quando será lançado, também,Desavessos - Crônicas de poucas palavras (Editora Com-Arte, São Paulo, 2013).
Em São Paulo, haverá lançamento dos dois livros no final da tarde de 19 de novembro, após o encerramento da Jornada Internacional "A atualidade da Sociologia enraizada de José de Souza Martins", organizada pela Professora Fraya Frehse e pelo Departamento de Sociologia da FFLCH-USP, com a presença do violeiro e compositor Ivan Vilela. Será no Prédio de Filosofia e Ciências Sociais, na Cidade Universitária.  O programa será distribuído oportunamente.
Abraço firme do
José de Souza Martins

Da introdução:

Há certa insurgência testemunhal em falas assim, no impulso de dizer o que
escapa da pauta do conformismo e da dominação do “politicamente correto”.
Do que escapa das conveniências do apagamento da memória, das conspirações
tácitas para esquecer o que parece sem importância, não obstante a carga
residual das heranças mutilantes, dos desvios de curso que os incidentes da
história imperceptivelmente promovem. Foi aquele um momento de corrosão
da tradição acadêmica e de projetos de estudo, de redefinição das condições
sociais de produção do conhecimento nas Ciências Humanas entre nós. Fim
de uma época de certezas e começo de uma época de incertezas e de acasos. A
pós-modernidade começava entre nós. Já era o depois, sem ter sido o durante.

Sumário
Introdução.........................................................................................................................................................9
Perguntas ao silêncio.................................................................................................................19
Aprendi Sociologia no grupo de Florestan...................................................57
Não há ciência sem neutralidade ética............................................................85
Um sociólogo e sua circunstância......................................................................117
Exclusão fora de foco.............................................................................................................195
Sociologia, ciência da esperança........................................................................213
O peso da cruz e de seus cravos.......................................................................251
Apêndice: Carta a Florestan Fernandes....................................................347