Saturday, May 25, 2013

Jung segundo Alan Watts


Acabo de topar no youtube com um memorável tributo de Alan Watts, guru místico da contracultura ocidental dos anos 60 e 70, a Carl Gustav Jung, que morrera poucos dias antes. Watts escreveu importantes ensaios sobre zen-budismo, taoísmo e outros pilares da sabedoria universal. Ele, nesse testemunho, relata a importância de ler Jung nas suas próprias jornadas de descoberta do Oriente sem  abrir mão das raízes ocidentais.  Destaca o que a seu ver é o maior dos insights da psicologia junguiana, especialmente valioso para nossos tempos de intolerância ao outro e desprezo à vida: a ambivalência de luz e treva na alma de todos e de cada um de nós.
 A sombra individual e coletiva que nos impele a projetar no outro, no diferente de nós em classe social, etnia, nação, religião, orientação sexual,  baixezas que estão dentro, camufladas naquele que julga, que se mostra tanto mais feroz nas certezas de si e condenações do "inimigo" quanto piores são as dúvidas que silenciosamente o devoram . Quanto piores as atrocidades que teme e reprime. 
E uma vez admitida, a sombra não deve tampouco ser motivo de ódio e "guerra santa" dentro de nós, mas sim convidada ao diálogo imaginativo que nos aperfeiçoa e nos torna mais completos, mais profundos, mais "generosos" - realizadores do gênero humano universal no infinitamente particular de cada um. 
Watts fala tambem do impacto pessoal que sentiu ao conversar em 1958 com o mestre suíço, cuja sabedoria, santidade e brilho no olhar não esmagavam o interlocutor, porque Jung não se presumia um maciço rochoso de virtude e superioridades, como tantas vezes os inconscientes que nós somos precisamos nos arrogar na ilusão de assim nos auto-afirmar.
-Unzuhause-

 

Resenhas para a Folha - 25/05/13

Folha de S. Paulo
Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
Caio Liudvik

A ARTE SECRETA DO ATOR

Para o resenhista em busca da glória da originalidade com precisão, é triste saber que já se chamou este "A Arte Secreta do Ator", de Eugenio Barba e Nicola Savarese, de um "livro didático sobre magia prática". Pois é exatamente disso que se trata. Sob a aparência (verdadeira, na superfície) de um "dicionário", trata-se mais de um grimório (livro de magia) que nos suga à sua leitura voraz, sejamos atores ou não (e quem não é?).
 Isso porque é um livro de sabedoria de vida, um livro sobre a necessária ruptura ritual do ator, do dançarino, do mímico, do artista da existência, com as limitações do teatro enjaulado do tédio cotidiano. Limitações corporais e antes de tudo lógicas: o princípio aristotélico da identidade, quando barateado, nos fecha para a infinitamente mais visceral dança dos opostos que pulsa na alma e no mundo.
Barba, discípulo de Grotowski e líder do já lendário Odin Teatret, na Dinamarca, compulsa aqui sua vasta experiência e genialidade de pensador do teatro e de "antropólogo" das mil e uma variações culturais do que todavia é invariável no corpo sagrado que atua num palco. Do corpo que passa do estado de "lokadharmi" (comportamento das pessoas comuns) ao de "natyadharmi" (comportamento do homem que dança). Reconstitui os fundamentos estéticos, éticos e metafísicos que unem o ator ocidental de excelência aos princípios mais codificados das artes cênicas da Índia, Japão, Bali, China.
Escolas de formação –por vezes de uma mediocridade escudada na chantagem de que "dão DRT" (registro profissional)- deveriam ensinar como sutra ou corão os verbetes (ou versículos?) deste livro, antes de descambar para "exotismos" já vulgarizados em nossa pós-modernidade cênica, como montar a "Oréstia" com atores fantasiados com miçangas num terreiro de candomblé.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

O EVANGELHO SEGUNDO TALIÃO
Já o título chamaria muito a atenção, no aparente choque entre duas éticas muito distintas. A da misericórdia e perdão do evangelho ("boa nova") de Jesus Cristo, e a da violência da lei do talião (olho por olho, dente por dente), lei que aliás Melanie Klein mostraria ser ainda vivíssima na selva primitiva do psiquismo do indivíduo moderno.
Mas as chaves de leitura do livro de Flávio Ricardo Vassoler são múltiplas, abertas ao que cada leitor ponha de si. Uma das melhores é oferecida no prefácio contundente do amigo (e, como ele, sociólogo) Dmitri Cerboncini Fernandes. Um retrato precioso da trajetória e ideias do autor, da renúncia à frieza do ensino das leis numa faculdade de Direito, à busca na sociologia pelo sentido crítico delas, até a terceira metamorfose, rumo aos porões infernais do mundo e da mundivisão de Dostoiévski. 
Vassoler passou um ano na Rússia para consolidar o domínio da língua de seu mestre. E mais ainda que pela letra aprendida, irmana-se em espírito inato ao autor das "Memórias do Subsolo", livro aliás com o qual este "evangelho" dialoga em profundidade. Pois escancara os subsolos da existência regida pelo mal, e os subsolos de nossa miséria de sobreviventes incertos numa era de escombros (metáfora cara ao autor), "holocaustros", torturas ignóbeis, ditaduras militares que não acabam de morrer, violência kleiniana avessa a qualquer normatização em leis e valores.
A ambição de citar "tudo", bem como a tensão entre a bem-vinda pulsão selvagem do niilismo do escritor e as intenções direcionadas do teórico, entre outros fatores literariamente problemáticos, ainda atravancam aqui e ali, mas este cristal despedaçado de narrativas e pensamentos inquietantes é sinal de que temos entre nós um jovem escritor que promete muito, salutar bálsamo de pus e sangue para nossos cuidadosamente esterilizantes cinismos.
AVALIAÇÃO - BOM

AS GRANDES TEORIAS DO TEATRO
"Academia" é o consagrado termo com que a escola de Platão homenageava Academus, herói grego. E "acadêmico" é o estereótipo que muitas vezes se aplica a texto chato, lusco-fusco, para iniciados. Não é o caso aqui. O livro de Marie-Claude Hubert é acadêmico no heroísmo do seu rigor, sobriedade e erudição. Mas extremamente prazeroso.
Discutindo os discursos teóricos de filósofos, padres, autores dramáticos, diretores, ao longo das grandes eras do teatro ocidental, nos ajuda a baixar a bola,  ao falarmos sobre temas muito "conhecidos", como a condenação de Platão ao teatro tradicional (e suas reverberações nas críticas de Agostinho e de Brecht), ou a a catarse aristotélica e as rupturas da dramaturgia contemporânea. Hubert mostra como e por que vão mudando as ênfases, conforme o teatro é historicamente tomado como objeto de diferentes tipos de teorias, e conforme se privilegia ora o texto em si, os afetos do espetáculo sobre o público, ora as regras do trabalho do ator (a partir de um Diderot e Stanislávski na modernidade).
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

Wednesday, May 22, 2013

diario de uma formacao analitica: trabalho semestral (preambulo)



ENTRE FREUD E A PSICOLOGIA POSITIVA –
A psicanálise humanista de Erich Fromm
Caio Liudvik

Escrever este artigo para o CEP está longe de ser apenas uma obrigação burocrática de todo aluno do curso de formação em psicanálise. É sim um momento existencialmente importante, ao me instigar a uma espécie de "ab-reação" de afetos, aflições e descobertas que têm marcado estes meses.
Desde dezembro me encontrei, ou melhor, me "extraviei", num caminho de crescente resistência à psicanálise. Não lhe negando a genialidade do inventor, mas vendo-a mais, na melhor das hipóteses, numa perspectiva de sabedoria ou, como diria Luc Ferry, de uma "soteriologia profana". Na hipótese intermediária, como grande literatura, mas nada mais que isso, segundo Harold Bloom. E, na pior, como a doutrina sem credibilidade segundo as críticas tão frequentes de psiquiatras e terapeutas cognitivo-comportamentais.
Tratando porém da melhor dessas hipóteses, cabe esclarecer que soteriologia, termo clássico da sociologia de Max Weber, é a doutrina da "salvação", constructo típico de religiões que apontam o caminho para a cessação do sofrimento (budismo) ou redenção da alma após a morte (cristianismo, islamismo, etc.). Mas esse já seria um nível "secundário" do desejo soteriológico mais fundamental, e constitutivo também das filosofias seculares: esse desejo é o de transcender a angústia da finitude, que pessoalmente considero muito mais premente do que o "medo da castração" tal como dito e repetido pelos professores freudianos e lacanianos.
Aqui adentro o âmago de meu mal-estar com a condição de aluno de um curso longo, custoso (em todos os sentidos) e que nem sei se virei futuramente a converter em nova profissão, ao lado de minhas insígnias de cientista social, jornalista, doutor em filosofia, tradutor. Entre castração (no sentido sexista da palavra) e finitude, minha experiência concreta de vida aponta muito mais para o segundo conceito, que nem é bem mero conceito, mas drama de cada dia, por sermos conscientes de nossa mortalidade e a "vivermos" a cada pequena e grande morte que a vida vai nos impondo (perdas em geral, doenças, traumas, necessidade de escolhas unilaterais, etc.). É tão forte meu enfrentamento subjetivo com esse nível da realidade que o meu atual pós-doutoramento na USP está voltado para o que tenho chamado de "filosofia da morte", seja no ângulo das doutrinas existencialistas de onde parto, seja em facetas da experiência humana cotidiana – o recente episódio de Angelina Jolie e a extração de seus míticos seios me respalda a obsessão de pensar filosoficamente o câncer, esforço que ainda não tem um nome bem azeitado como "psico-oncologia", mas que me impacta pela proximidade verbal com o termo ontologia, que tanto me serviu ao longo de páginas áridas sobre os sistemas de pensamento de um Sartre ou um Heidegger acerca da situação ontológica do ser humano.
Além do mais, me sinto perigosamente tentado por correntes de pensamento que, por vezes calcadas na psicologia de Jung, na psicologia do ego norte-americana ou, em diapasão mais "francês", numa analítica existencial e fenomenológica, não compartimentam a pessoa humana global em id, ego e superego, não a matematizam em grafos do desejo e quejandos. Apontam no ser que cada indivíduo é, em suas forças, desesperos, ilusões, a resposta que cada vida individual dá e "é" para o humano universal e sua crise da descoberta da finitude. São correntes que têm sido agrupadas sob o nome de "psicologia positiva", da qual falo num texto recente em meu blog pessoal (http://unzuhause77.blogspot.com.br/2013/04/manifesto-da-psicologia-positiva.html).
Superficialmente explicada, trata-se de uma busca pelo que é saudável (positivo nesse sentido) no ser humano, em suas potencialidades, capacidades, e não apenas debilidades, estruturas psicopatológicas e tropeços com os furos do Real. Sem recair numa tola "onipotência de pensamentos" da magia neurótica, sempre tive um "fraco" – a ser convertido em força de vivência – pelas tradições ocultistas, esotéricas, que falam na importância da mente para a vida, a capacidade da mente de fazer de um inferno céu, ou do céu um inferno, para lembrar a célebre expressão do poeta de Paraíso Perdido. Que a magia não se reduz para Freud a sinônimo de infantilismo, eu pude comprovar num outro texto de meu blog, escrito seis anos atrás, e sintomaticamente intitulado de "O bruxo de Viena" (http://unzuhause77.blogspot.com.br/2007/12/o-bruxo-de-viena.html).
Em escala individual, esses movimentos conceituais redundaram em um crescente questionamento de minha análise pessoal (lacaniana) que completa seu sétimo ano consecutivo em 2013. Para minha perplexidade, uma das minhas metas fundamentais, das quais eu apenas "falava" em análise – retomar o cuidado com a aparência física, me livrar da barba, do cabelo e do peso excessivos –, eu vim a colocar em prática a partir das férias do analista. Quem me "analisou" nesses meses cruciais de libertação da auto-imagem narcísica antes destroçada foram os mestres do coaching, desenvolvimento pessoal, administração de empresas, etc. E, simbolicamente, o hollywoodiano "O Lado Bom da Vida", premiado com Oscar de melhor atriz, filme em que a crítica à medicalização contemporânea da alma vai de par com uma clara apologia de princípios terapêuticos da psicologia positiva, tão forte nos EUA e tão característica do que tenho chamado de religião do otimismo individualista no espírito norte-americano.
Um estudo sério dessa tradição de pensamento nos levaria – e é essa minha intenção, Deo concedente ("se Deus quiser", na linguagem alquimista muito utilizada por Jung) – a um percurso de William James, pai da psicologia americana e não por acaso um expoente do pragmatismo até a mal-afamada auto-ajuda contemporânea, passando por fenômenos como a recepção norte-americana das ideias freudianas na edificação da psicologia do ego.

Todo este preâmbulo para contextualizar a opção que me "salvou" o semestre de estudos e aponta caminhos para o sonho de ser psicanalista não morrer na praia do ressentimento estéril, que de resto não faria justiça a tudo que me liga positivamente a Freud, Klein, Winnicott e à causa psicanalítica em sua marca de revolução enquanto terapêutica individual e forma de crítica cultural.
(...)

Tuesday, May 21, 2013

para góticos (e) monges


Falei no post anterior de minha angústia com o que, na fotografia dos entes e momentos queridos, há de memorial antecipado de certa morte. E eis que deparo com esse material, sobre um fotógrafo que registrou passo a passo o itinerário terminal do corpo da mulher amada:
http://www.sopitas.com/site/215133-fotografo-retrato-como-avanzo-el-cancer-de-su-novia-hasta-la-muerte/
Digno de um lugar entre as caveiras que góticos e monges meditam e celebram segundo suas diferentes (ou seriam as mesmas?) espiritualidades. Na morte que nos pesa como um débito do espírito para com a natureza, um viva à vida!
-Unzuhause-

a Virada que importa

Delícia de debate entre Juca Kfouri e Washington Olivetto na Fnac, sexta passada, em homenagem ao doutor Sócrates. Só dois dias depois da tristeza, não sem glória, da eliminação de quarta-feira. Sua mais perfeita tradução, porque vai além do momentâneo e sazonal de vitórias e derrotas, e alcança a essência da ontologia mística do corintianismo, veio desse comentarista do SBT (veja acima). Tite usou o vídeo com nossos guerreiros, tendo encontrado nele o combústivel para a única virada -da derrota ao título paulista- digna de nota no fim-de-semana de nossa lamentável "Virada Cultural".
Ansioso como sempre, canalizei a ansiedade para o bem, chegando horas antes do evento na Fnac, devidamente trajado com o manto sagrado, e com tempo para acorrer às estantes e degustar um dos livros-álbuns sobre nossa trajetória gloriosa de 2012. Aliás, acho que verdadeiramente agora é que fomos campeões da Libertadores e do Mundial Interclubes: quando a derrota seguinte vem revelar a raridade intrínseca de todos os momentos de êxtase. Quando a festa vira fotografia do pretérito, aliás como toda fotografia é, memorial das pequenas e grandes mortes, razão pela qual fujo de todas as fotografias sobre meus momentos mais felizes e pessoas (e cachorra, e coelha..) mais significativas. Sempre me entristeço. Mas desta vez não foi assim. A "tristeza" da fotografia do pretérito, ou seja, da memória de imagem carnal que se nos desmenta e se corporifica na imagem do fotógrafo, foi pouco a pouco se amalgamando, ao ver os lances, os herois e as taças, a um imenso orgulho de ser corintiano. Um pouco como os cristãos dos primórdios, um pouco como Israel cercada de inimigos, somos "só por Deus", como se diz quando nada mais nos resta senão o grande Nada.

Os roubos do juiz filho da puta só vieram ressaltar esse desamparo, que Freud bem aponta como o sentimento fundamental da religiosidade. Claro que dirão que provamos de nosso veneno, que tantas vezes fomos nós os favorecidos etc. Mas os gentios falam de fora, e, seu ressentimento não entendem o desamparo radical de que brota nosso amor e devoção. O gay que reclama da discriminação comentou com maldade ao ver um de nós passando com uma bandeira do Timão nas costas, qual um super-homem: "Olha o fulano! Até parece que ele ganhou alguma coisa.." O preconceito não tem raça, classe, opção sexual..
Por mais que ganhemos, os corintianos sentem sempre na carne e no osso revestidos da bandeira de super-herois a precariedade e contingência. A glória de dezembro logo se seguiu à ignomínia de fevereiro, com a triste (e desastrosa para nossa imagem) morte do garoto boliviano. Nossa vocação é bascular entre os extremos, por isso nosso extremismo, fundamentalismo, que sem a suavização civilizatória (entenda-se: Educação) desliza perigosamente para a brutalidade. Domingo, após a conquista do Paulistinha (como bem o designou há anos o genial irmão Juca Kfouri), testemunhei algo dessa brutalidade não como violência explícita, mas como grosseria sem limites de uma meia-dúzia de bêbados (pior: bêbadas) entrando no vagão do metrô aos gritos, xingando, provocando, ao ponto de se chamar os seguranças. Uma das ogras, barriga gorda à mostra, e um copo de plástico com cerveja acoplado a um copo prateado com o escudo sagrado, se indignou com a repreensão dos seguranças: Eu paguei, eu tenho direito! Miséria do lulismo jeca e sociologicamente hipócrita? Sem dúvidas. Mentira da justiça social e da "feliz cidade" de Virada Cultural tomada de assalto por trombadinhas, ladrões, assassinos, animais de focinho humano se aproveitando do "direito" da turba à Cultura grátis sem a contrapartida dos deveres da educação. Virada Educacional é o que precisamos! Mas não, por mais que eu force a barra numa torcida (embebida de nostalgia por Mario Covas, Montoro, Fernando Henrique antes de virar o poderoso "FHC")pelo PSDB, não espero nada dos partidos atuais, da política atual, de qualquer política, aliás.
Pouca coisa me importa senão a busca do sentido da vida e da morte, ou os encontros com o não-sentido de Nada. Corinthians é o nome profundo, no jogo terreno, da sublimação de meu horror ao ser humano, sobretudo quando aglomerado e quando próximo de mim. Jesus Cristo é o equivalente celestial dessa operação alquímica, da qual aliás viria o termo freudiano. Bem ensina a Igreja que somos irmãos em Cristo, que Nele todos somos próximos, que Nele nos amemos. A mediação arquetípica é fundamental, a imagem e semelhança de Deus é a representação mental ou intuição do coração que deveria nos salvar da face repugnante da corja de semiviventes que se arrasta no lodaçal da Terra e do corpo. Eu disse "deveria", num mundo com mais religião, esse louco, verdadeiro e único antídoto da loucura, segundo mestre Riobaldo. O Corinthians é uma religião, mas sem educação suficiente nem ele segura nossos instintos mais vulgares, esses da meia-dúzia de bebuns das seis da tarde de domingo desamparados no metrô. 
Desamparo. Que não foi total para mim, ante as imagens de glória do ano passado, ante o título de ontem que se confirmou no assalto e na derrota de hoje, porque tenho a percepção de uma profunda seriedade e cuidado com que nosso manto vem sendo respeitado pelos representantes oficiais deste tempo. Falei disso, aliás, com Juca e Washington. Do meu medo de que nossa ciclotimia crônica, nossa alma coletiva bipolar, dionisismo que desliza tão rapidamente entre a euforia e a depressão selvagens, que tudo isso ponha a perder a suavização apolínea introduzida -outra Virada maravilhosa- pela racionalidade político-administrativa desde Andrés Sanchez. Graças a Deus meus gurus da linguagem-informação e da linguagem-estimulação (do jornalismo e da publicidade) me falaram com uma linguagem outra, mais primordial, a linguagem da cumplicidade amorosa, mais deliciosa quando preenchida de palavras otimistas como a de Juca: Não! Aprendemos o caminho certo, um jeito de gestão que demarcou as distinções que sempre houve, mas eram latentes, entre nós e o resto. Logo estaremos entre os três ou quatro maiores clubes do mundo!
A fé no futuro, amparada em racionalidade, energia e foco, contrapõe-se à cauda de dinossauro que nos nega a leveza dos anjos, a cauda do passado, do peso morto, da efemeridade do jogo, da ilusão da vida. Mais que realidade, precisamos de Verdade, pois ela é criadora de outras realidades possíveis no marasmo e na grosseria que nos ameaçam sempre.
Vai Corinthians! Atrás do Vai Corinthians só não vai quem já morreu!
-Unzuhause-
 

Friday, May 17, 2013

evangelho do dia - milagre, esperança e obra


Evangelho segundo S. João 21,15-19.
Quando Jesus se manifestou aos seus discípulos junto ao mar de Tiberíades, depois de terem comido, perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta os meus cordeiros.»
Voltou a perguntar-lhe uma segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-me?» Ele respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.»
E perguntou-lhe, pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?» Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado, à terceira vez: 'Tu és deveras meu amigo?' Mas respondeu-lhe: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo!» E Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.
Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres.»
E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras, acrescentou: «Segue-me!» 


Da Bíblia Sagrada - Edição dos Franciscanos Capuchinhos - www.capuchinhos.org 



Comentário do dia: 

São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
2ª Homília sobre a inscrição do livro dos Actos dos Apóstolos 

«Amas-Me? [...] Apascenta as Minhas ovelhas»
São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 

Imitemos a conduta dos apóstolos e não lhes seremos inferiores em nada. Com efeito não foram os seus milagres que os fizeram apóstolos, foi a santidade das suas vidas. É nisso que se reconhece um discípulo de Cristo. Essa marca foi-nos dada claramente pelo Senhor: quando quis traçar o retrato dos Seus discípulos e revelar o sinal que distinguiria os Seus apóstolos, disse: «Por isto é que todos conhecerão que sois Meus discípulos.» Que sinal é esse? Fazer milagres? Ressuscitar os mortos? De forma nenhuma. Então qual?  Todos os homens «conhecerão que sois Meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13,35).


O amor não é um milagre, mas uma obra: «É no amor que está o pleno cumprimento da lei» (Rm 13,10). [...] Tende, pois, amor em vós e estareis entre os apóstolos, mesmo na primeira fila. Quereis outra prova deste ensinamento? Vede como Cristo Se dirige a Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?» Não há nada que mais nos faça alcançar o Reino dos céus do que amar Cristo como Ele merece. [...] Que faremos para O amar mais do que os apóstolos? [...] Escutemos Cristo, esse mesmo Cristo que devemos amar: Se Me amas mais que estes, «apascenta as minhas ovelhas». [...] O zelo a compaixão, os cuidados, são actos e não são milagres.
A reflexáo de Sáo João Crisóstomo é de suma importância para nosso tempo de desejos imediatistas e "mágicos", seja os que levam teenagers a brincar de bruxos (não nego em muitos, inclusive a mim, a genuína profundeza espiritual e seriedade para a busca esotérica, ou seja, interior), seja o irmão crente que não quer Deus por Si mesmo, mas pela saúde, dinheiro, sucesso, poder (em troca de polpudos dízimos e ofertas).
 Me sinto cada vez mais um católico sensível ao espírito forte que sopra entre os evangélicos de hoje. Canto e oro com eles toda noite em casa, gosto das pregações de RR Soares, Valdemiro Santiago, nem mesmo o Feliciano me desagrada como a tantos esclarecidos que fazem a maior propaganda possível para ele, ao demonizá-lo. Digo isso para que minha crítica ao milagrismo náo soe como mera posição facciosa. Já ouvi essa crítica mesmo entre pastores e crentes. Não cabem simplismos a qualquer análise séria da religião, e muito menos ao homem pessoalmente vocacionado (chamado) a Jesus Cristo. Precisamos de espírito amplo para o Espírito Santo, e tô me lixando com estatísticas sobre quem cresce e quem cai e quem ultrapassa quem no IBGE. Nossa tarefa é bem mais séria do que brincar de cavalinhos de corrida. É salvar esse mundo corrupto, sem alma e sem vergonha na cara, ou ao menos nos salvar dele. E a via para isso, via verdadeiramente apostólica, é o amor, náo o milagre. Ou quiçá o milagre do amor, embora milagre trabalhado, trabalhoso, em processo, mobilizando as energias racionais da vontade bem como os recônditos obscuros do desejo. 
Para concluir, outro texto com que lidei esses dia, agora do Papa Emérito e grande teólogo Bento XVI, trazendo à luz uma componente decisiva do amor, e portanto do Deus que é (o) Amor, o Deus de Jesus Cristo: esperança.
-Unzuhause-


CARTA ENCÍCLICA SPE SALVI SOBRE A ESPERANÇA CRISTÃ
-BENTO XVI-

34. Para que a oração desenvolva esta força purificadora, deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes orações da Igreja e dos santos, pela oração litúrgica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo. O Cardeal Nyugen Van Thuan, contou no seu livro de Exercícios Espirituais, como na sua vida tinha havido longos períodos de incapacidade para rezar, e como ele se tinha agarrado às palavras de oração da Igreja: ao Pai Nosso, à Ave Maria e às orações da Liturgia.[27] Na oração, deve haver sempre este entrelaçamento de oração pública e oração pessoal. Assim podemos falar a Deus, assim Deus fala a nós. Deste modo, realizam-se em nós as purificações, mediante as quais nos tornamos capazes de Deus e idôneos ao serviço dos homens. Assim tornamo-nos capazes da grande esperança e ministros da esperança para os outros: a esperança em sentido cristão é sempre esperança também para os outros. E é esperança ativa, que nos faz lutar para que as coisas não caminhem para o « fim perverso ». É esperança ativa precisamente também no sentido de mantermos o mundo aberto a Deus. Somente assim, ela permanece também uma esperança verdadeiramente humana.

Thursday, May 16, 2013

por que me quero um analista frommiano - ou: contra o faltismo pós-moderno


Faço nesse momento meu artigo semestral para o curso de formação. Mais que compromisso burocrático, é uma ocasião importante de minhas jornadas de luta para fazer da psicanálise uma ferramenta viva, original e intensa em minha missão de auto-conhecimento e aperfeiçoamento moral de mim e do meu mundo. Entre as tensões de Freud e Jung, com tudo o que isso implica de clivagem e unidade do pensamento moderno crucificado entre o sagrado e o profano, Erich Fromm se me aparece como um caminho do meio ideal. Assim também para a minha retomada das ciências sociais e da filosofia humanista-existencial nesse trecho da rota em que a "derrota" de fazer 40 anos de idade, e de ficar velho, e de ter cada vez menos tempo, sobretudo tempo a perder com bobagens, viram placa de trânsito perigosamente próxima.
O trecho a seguir ilustra algo das muitas razões de meu afeto por Fromm.
 De quebra, insinuam um contraste absoluto: por um lado, sua célebre psicanálise humanista, no espírito frankfurtiano de crítica social e com um otimismo religioso bem norte-americano da autorrealização positiva do indivíduo; por outro lado, o pessimismo e derrotismo que a ideia de falta, um certo "faltismo" pós-moderno, viriam a tomar em Lacan.
Porque me quero um analista frommiano - não algum fulano de fora para vir me ajudar a esquecer quem eu sou (Cazuza), mas o Mestre interno que há de nascer, sob as graças do santo espírito.
-Unzuhause-


"O nascimento não é um ato; é um processo. A meta da vida é nascer plenamente, embora sua tragédia consista em que a maioria dos homens morre antes de haver nascido assim. Viver é nascer a cada minuto. A morte ocorre quando cessa o nascimento; psicologicamente, porém, a maioria dentre nós cessa de nascer num determinado ponto. Alguns são totalmente natimortos; continuam a viver fisiologicamente, mas mentalmente anseiam regressar ao ventre, à terra, à treva; à morte; são loucos, quase. Muitos outros seguem mais adiante no caminho da vida. Entretanto, por assim dizer, não conseguem cortar de todo o cordão umbilical; continuam simbioticamente apegados à mãe, ao pai, à família, à raça, ao Estado, ao status, ao dinheiro, aos deuses etc; jamais surgem completos, como eles mesmos e, assim, jamais nascem plenamente"


Erich Fromm, "Psicanálise e Zen-Budismo"

depois do assalto


Alô maior Torcida do Brasil. Vamos enxugar o pranto e curar a raiva e o trauma pelo assalto vexatório de ontem: amanhã vai rolar um debate beeem legal na Fnac da Paulista, às 19h, com Juca Kfouri e Washington Olivetto, duas sumidades do jornalismo e da publicidade, respectivamente, e expoentes, na Fiel nação, do fanatismo inteligente - tão diferente do que nos tornou banidos, nos últimos tempos,  dos jogos internacionais e proibidos de entrar, como Gaviões, nos estádios de São Paulo . 
Vão falar sobre Sócrates, o nosso craque-filósofo do Timão, e sobre a publicação póstuma que está sendo lançada de artigos de imprensa do Doutor. Vale muito! Abraços
-Unzuhause-

diário de uma formação analítica - o analista e o lixeiro


A sessão clínica de ontem, na escola, foi pautada por uma discussão interessante. Uma aluna levantou um questionamento sobre o que, segundo ela, é a equiparidade do que um analista e um lixeiro ganham na Dinamarca. Os salários diferem, mas a taxação tributária os iguala. O tom era de indignação: que absurdo! Um reles lixeiro, que faz o que faz e ainda por cima volta pra casa e esquece do trabalho, e um psicanalista, sofisticado, de formação carésima, e que, como a Globonews, "nunca desliga", ou seja, não dissocia o trabalho e a vida, leva o trabalho pra casa etc.
Evidentemente que a opinião da aluna soou muito antipática e foi rechaçada por todos,  com exceção de um colega mais em cima do muro, que procurou "ver o lado razoável" da argumentação da garota. E esse lado razoável, para ele, é que nós, numa sociedade capitalista, não nos acostumaríamos jamais com essa lógica "desmotivadora": pra que tanto esforço por uma profissão nobre se vou ganhar o mesmo que um lixeiro?
Mas os valores capitalistas não são os únicos critérios válidos, você não pode julgar de fora, você está sendo preconceituosa etc: a classe passou o trator em louvor do totem e tabu do politicamente correto.
 Vi beleza em algumas das contestações, vi isto que sempre considerei tão próprio do psicanalista: ser um "antropólogo em marte" de sua própria civilização, fazendo do "estranho" (o primitivo, o Outro) familiar, e do familiar o estranho. Não como um Malinowski, indo para Trobriand, mas num mesmo espírito de observação participante que aprende a língua e a cultura do outro, se esvazia de suas próprias certezas, quebranta a lógica unitária do sujeito simples (o do senso comum, agarrado a seus scripts ordinários) e se faz um com o diverso, unidiverso criado pelo campo transferencial.
Pressinto claros conflitos edipianos sob o discurso da garota, que, argentina, traz consigo uma rica bagagem familiar de pais engajados na luta contra a ditadura hermana. Tudo compreender é tudo perdoar? Não sei, mas não posso ser generoso com dados ideais de luz e manter à sombra o menosprezo autoritário a ideais outros, mesmo que nos soem antipáticos como esse do analista superior ao lixeiro. Até porque o analista é, de certo modo, também um lixeiro. E isso sem conotação pejorativa nenhuma: seus materiais de trabalho são muitas vezes o dejeto, o repugnante, o sem-valor, o desvalido e a rachadura latente que há mesmo nas identidades mais gordamente maciças de si. O lixeiro da fantasia, dos restos da festa da ilusão, um pouco como os garis da Sapucaí.
-Unzuhause-

Wednesday, May 15, 2013

evangelho do dia - cristianismo unzuhause



Celebramos há poucos dias a passagem do milésimo post, ou milésima "carta aberta", deste monástico blog unzuhause. O evangelho de hoje me fez relembrar um comentário de uma amiga, lá pelos idos de 2005, sobre o nome escolhido para minha incursão blogueira, ou melhor, sobre o conceito nele implícito, que vem de Heidegger: unzuhause, em Ser e Tempo, é a qualidade de experiência negativa do homem que despertou para sua angústia existencial radical. Distinta do medo, ou de um mero ˜transtorno de ansiedade˜, a angústia existencial pode não ter um objeto determinado, pois é angústia perante o mundo como é e perante mim como sou. Angústia de estar vivo e saber-me mortal, não só pela morte marcada para acontecer em algum ponto empírico do devir, mas morte instalada já aqui e agora, na vida finita, irreversível, precária, provisória. Vida de escolhas que levam, meio que proporcionalmente, a perdas e ganhos alternados, sim, mas as perdas, parafraseando a canção, parecem não ter fim, e a felicidade sim, sendo o próprio ganho de hoje o começo da perda de amanhã. Unzuhause, em alemáo, o estar "fora-de-casa", fora-de-si, inefável situação-limite que talvez a psiquiatria queira encaixar em algum conceito borderline, e que "Freud explica"como algum problema edipiano. Pouco importa. Unzuhause que é unzuhause dá boas risadas de toda tentativa, inclusive as de si mesmo, de encaixar a vida em fórmulas. 
Mas minha amiga viu bem que toda essa dramaticidade existencial remete bastante à condição do homem cristão, também ele cindido pelo paradoxo que o texto logo adiante explora muito bem: o cristáo está para o mundo como a alma está para o corpo. Forma moral da carne mortal, enteléquia do espírito, vaso de graça, fermento na massa. 
Não reifico aqui  "o cristão"como identidade subjetiva fechada, encarnação no crente do Bem absoluto que ele professa, deixemos as cláusulas pétreas para nossa sábia Constituição que, como a Lei farisaica denunciada pelo ex-fariseu apóstolo Paulo, é sempre algo hipócrita e aquém do espírito, do tempo e inclusive do espírito do tempo.  "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim.  (Romanos 7:18-20) 
Assim como a angústia heideggeriana que desajola o homem do si e do mundo familiares de outrora e faz de sua morada o vazio, o cristianismo não pode ser reduzido a coisa, espacializado, virar uma ideia em que se possa estar dentro como o armário em que o Ricardão é escondido do marido pela esposa rodrigueana. 
O cristianismo é antes uma qualidade de experiência que se vela e se revela, brota e sufoca, flui e recua, como nossa capacidade moral tantas vezes sufocada por tendências corruptas, que uma sociedade do "sucesso" fraudulento como a nossa estimula muito. E é a essa qualidade cristã que o evangelho faz alusão a seguir, ao se referir aos aspectos que nos fazem superiores à sombria zona de consciência meramente natural dos animais ou ao resto de consciência eticamente regredida do homem inferior, um signo de possessáo pelo demônio, se quisermos usar a terminologia mítica no mesmo sentido em que Mara, para os budistas, é um instrumento conceitual e imagético útil para condensar e focar, em projeção mitológica como a de um personagem de cinema, o trabalho existencial diuturno e tantas vezes informe que devemos fazer, que devemos ˜ser", contra a escuridáo que nos ronda, na roda da vida e pena de morte inscritas no código genético de tudo que respira. E no caso humano, um código genético que é também social, portanto opressivo,  falsário, condenando o homem em busca da autenticidade a escolher a porta da rua de todas as casas gordas dos filisteus e se abraçar na gélida noite afora a suas próprias feridas da solidão e da renúncia, nos embates e diálogos com o Maligno que o ama, que depende de seu afeto, ainda que seja de raiva, dependente decadente como o velho brocha, com maquiagem de ator aposentado e batom borrado, que não tem outra companhia pra afogar a solidáo infernal (aquela que não se assume, náo sai do armário).
Mas Carol, de fato você tinha razáo, coisa que naquele período mais "engajado" e "sartriano"de oito anos atrás, ao longo do ciclo de mestrado e doutorado na USP, eu talvez náo quisesse admitir: o homem unzuhause repete em termos modernos a experiência crucial da fé cristá. O cristianismo precede e plasma dimensões fundamentais do existencialismo, vide o caso de Kierkegaard, mas também dos existencialistas ateus, os meus prediletos, porque os que mais me desafiam. 
-Unzuhause-




Evangelho segundo S. João 17,11b-19. 
Naquele tempo, Jesus ergueu os olhos ao céu e orou deste modo: Pai Santo, guarda-os em teu nome, o nome que Me deste, para serem um só, como Nós somos!
Enquanto estava com eles, Eu guardava-os em ti, em ti que a mim te deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser o homem da perdição, cumprindo-se desse modo a Escritura.
Mas agora vou para ti e, ainda no mundo, digo isto para que eles tenham em si a plenitude da minha alegria.
Entreguei-lhes a tua palavra, e o mundo odiou-os, porque eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo.
Não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do Maligno. De facto, eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo.
Faz que eles sejam teus inteiramente, por meio da Verdade; a Verdade é a tua palavra.
Assim como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo,
e por eles totalmente me entrego, para que também eles fiquem a ser teus inteiramente, por meio da Verdade. 





Comentário ao Evangelho do dia feito por : Carta a Diogneto 

«Não te peço que os retires do mundo, mas que os livres do Maligno.»
Os cristãos não se distinguem dos outros homens, nem pela sua terra, nem pela sua língua, nem pelos seus costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam uma língua estranha, nem têm um modo especial de viver. A sua doutrina não foi inventada por eles graças ao talento e à especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, ensinamentos humanos. Pelo contrário, vivendo em cidades gregas ou bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes dos lugares quanto ao vestuário, à alimentação e aos costumes, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal.


Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cidadãos, mas tudo suportam como estrangeiros. Qualquer terra estrangeira é para eles uma pátria, e qualquer pátria uma terra estrangeira. [...] Vivem na carne, mas não segundo a carne (cf 2Co 10,3; Rm 8,12-13); moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu (cf Fil 3,20; Heb 11,16); obedecem às leis estabelecidas, mas a sua vida está muito para além das leis. Amam a todos, e são por todos perseguidos; são mal conhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos, e desse modo recebem a vida; são pobres, mas enriquecem a muitos; carecem de tudo, mas de tudo têm abundância; são desprezados, e neste desprezo são glorificados; são amaldiçoados, e nessa maldição são justificados; quando são injuriados, abençoam; quando são maltratados, respeitam os outros. [...] Em suma, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo.

Tuesday, May 14, 2013

sou mais Taizé que Tom Zé



Para um "esquenta" do imperdível evento dos jesuítas próximo sábado, as palavras inspiradoras de Paulo VI. O Santo Padre fala sobre os mistérios dessa "puer aeternus" (jovem eterna) Igreja, que não se rende aos valores corruptos de fora nem às deturpações que a mancham por dentro. Contra tudo e contra todos, rindo dos vaticínios que a tentam enquadrar num "catolicismo hoje" e numa morte iminente, ela é sacedotisa coletiva, esposa de Cristo, Maria na Terra, que segue adiante, fermento na massa, pão da vida no coração e na feição de cada um de seus fiéis.
-Unzuhause-

Audiência geral de 12/6/1974
A eterna juventude da Igreja
-por Paulo VI (1897-1978), papa de 1963 a 1978-
Hoje pensamos num efeito que é próprio do Pentecostes: a animação sobrenatural produzida pela efusão do Espírito Santo no corpo visível, social e humano dos discípulos de Cristo. Esse efeito é a eterna juventude da Igreja. [...] A humanidade que compõe a Igreja está sujeita ao tempo e enterrada na morte; mas isso não suspende nem interrompe o testemunho da Igreja na História no decorrer dos séculos. Jesus anunciou-o e prometeu-o: «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos» (Mt 28,20). Isto mesmo tinha dado a entender a Simão ao dar-lhe um novo nome: «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja e as portas do Abismo nada poderão contra ela» (Mt 16,18).

Pode-se de imediato fazer a objecção que fazem tantas pessoas nos dias de hoje: talvez a Igreja seja permanente, pois já dura há vinte séculos; mas é precisamente porque dura já há tanto tempo que é velha. [...] A Igreja, dizem, é venerável devido à sua antiguidade [...], mas não vive desse fôlego actual que é sempre novo: já não é jovem. Esta objecção é forte [...], e seria preciso um longo tratado para lhe responder. Mas, para os espíritos abertos à verdade, bastará talvez dizer que essa perenidade da Igreja é sinónimo de juventude. «É uma coisa admirável aos nossos olhos» (Mt 21,42): a Igreja é jovem.O mais espantoso é que o segredo da sua juventude é a sua persistência inalterável no tempo. O tempo não faz envelhecer a Igreja; fá-la crescer e estimula a sua vida e a sua plenitude. [...] Claro que todos os seus membros morrem, como mortais que são; mas a Igreja não só tem um princípio invencível de imortalidade, para além da História, com também possui um incalculável poder de renovação.

Depois de Maio ou nossa calva resignação à morte

"Os Regentes do Hospício de Velhos", de Frans Hals

Você não precisa ser (ou aprender) russo para encarnar um personagem vivo de Dostoiévski, o que todos, de um jeito ou de outro, encarnamos, geração perdida dos órfãos de Deus em nossos dilemas entre a coragem e a desonestidade, nossas buscas de alguma fé ou espiritualidade que seja "original" (nova) ou originária (a primeira de todas), nossos conflitos de consciência com a "má" fé, com a fossilização farisaica ou com o intelectualismo que apenas ouve falar acerca da vida. E você tampouco precisa ter vivido pessoalmente o maio de 68 francês para se emocionar com "Depois de Maio", de Olivier Assayas. Até porque esta marca temporal do título, indefinida,em aberto, no limite nos abrange a todos, fala para nós e fala de nós hoje.
Depois de maio, a ressaca, fim de festa. É esse o clima que se insinua no filme (fortemente auto-biográfico) de Assayas. A crítica especializada reclamou que não é bem um filme "in the zone" da explosão-68. Mas não era essa a intenção. Não que se trate de uma declaração de "arrependimento" de direita contra as ilusões generosas da geração que traduziu Marx por Rimbaud num duplo imperativo de mudar a vida e mudar o mundo.
Assayas mantém um tom que não é religiosamente reverente, mas sem dúvidas de profunda seriedade, nessa viagem no tempo em que, através de seu alter-ego Gilles, retraça seu caminho iniciático que, entre confusões e evasões ("vivo de minhas fantasias, quando a realidade bate à minha porta, não abro"), culmina na adesão ao cinema.
É o cinema como que a moderna promessa de imortalidade dos órfãos de Deus: é como cena de filme que Gilles vê ressurrecta,etérea, evanescente na luz clara e no vento como a plantinha branca em primeiro plano, em cena magnífica, a ex-namorada que se jogara da janela fugindo de incêndio provavelmente fabricado por sua própria alucinação -fora "iniciada" em drogas pesadas pelo novo namorado; e se mata pela mesma faculdade humana, a imaginação que, via arte, a trás de volta à vida na saudade apaixonada de Gilles.
"...Entre nós e o céu, o inferno ou o nada, não há senão a vida que é a coisa mais frágil do mundo" - a linda citação de Pascal, pelo professor do liceu da turma de Gilles, funciona como epígrafe informal do filme, e quiçá epitáfio niilista (de novo a sombra gigantesca de Dostoiévski eclipsando o sol) para todo sonho de transformação revolucionária, que mais cedo ou mais tarde morre, junto com seus militantes, apanhados pela repressão policial também retratada no filme. Pelo próprio envelhecimento natural (Gilles e sua "peruca de playmobil" lado a lado com o amigo Alain, também aspirante a pintor, tão jovem quanto mas "apanhado" já por uma discreta calvície precoce ). Pela  "idade da razão" -a ruiva americana que, de volta da clínica do aborto, e à visão de um quadro de velhos, decide que chegara a hora de levar a sério e profissionalizar a vontade de ser dançarina, até então envolta no halo místico e orientalista típico da época.
Abandona com isso o romantismo aventureiro também do tipo afetivo: o relacionamento com Alain, que perplexo perde mais alguns fios de cabelo ao descobrir que seu "investimento" na ruiva, pelo qual suspendera os planos de se profissionalizar como pintor, era tão somente isso: um investimento que lhe tomou tempo. Irreversível. Outro modo da morte na vida. Será talvez o marco simbólico de nossa pós-modernidade precocemente calva, em que acalentar romantismos para com outra pessoa, ou quaisquer ideais, é sinônimo de ser um otário, em que o cigarro (onipresente no mundo "transgressivo" de Gilles) é paranoia de câncer, e o coquetel de drogas e sexo livre outra forma de se lançar à morte?
-Unzuhause-

Saturday, May 11, 2013

Maria da Terra


Mamãe é a Anima Mundi do que resiste no mundo desalmado, é a Majestade madura que nos nasce pra ficar, em memória, esperança e ação, quando nossa soberania já prescinde do tapete de iludidos privilégios que o mundo não pára de puxar de nossos pés. "Tudo é incerto neste mundo hediondo, menos o amor de uma mãe", minh' alma ecoa com meu irmão jesuíta em loucura, paixão e em tormento, James Joyce. Basta dizer, embora todo dizer nunca seja o bastante, que é tua mão, mãe, que mais quero junto à minha mão, com dois livros de Jung (Símbolos da Transformação e  Psicologia e Alquimia) e a Bíblia na cabeceira, na noite e no leito de minha despedida do mundo hediondo, em retorno ao Pai que afinal nasce, se me encarna por ti e de ti, Maria da terra, como Maria é você no trono do Universo.
-Unzuhause-



o Bem, o Mel e o Mal


Não há ação que não vise o Bem; nosso tropismo deontológico, isto é, nosso chamado interno de ser que não apenas é (isso que nos sujeita ao estudo ontológico), mas "deve ser" (impulso moral, passagem da mera ontologia à deontologia), é pelo Bem, nas vias tortas da consciência, tão mais tortas que o tropismo da flor pelo Sol, da abelha pelo Mel e do bicho de focinho humano pelo Mal, que todavia lhe é um (falso) Bem.
-Unzuhause-
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Friday, May 10, 2013

hosana Àquele que se encarnou por nós

OM NAMO BHAGAVATE VASUDEVAYA (do sânscrito): é um dos mantras de evocação de Krishna. OM é a vibração interdimensional que interpenetra a tudo e a todos.
NAMO: Saudação ou reverência ao poder divino.
BHAGAVATE: Respeito ao Senhor.
VASUDEVAYA: Vasudeva é o nome da família carnal que criou Krishna. O Ya acrescentado no final significa a característica ativa (masculina) do mantra. Quando alguém faz esse mantra completo, evoca Krishna como homem que também viveu aqui na Terra e sabe das dificuldades enfrentadas por todos.

à l`aise dans la malaise


dia das maes -o por dentro, nao o do mundo

Van Gogh, "Mother Roulin with her baby"


O MUNDO NÃO É MATERNAL

“É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente pensa que viveria melhor sem
ela, mas é erro de cálculo. Mãe é bom em qualquer idade.
Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.
O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se virarmos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos. O mundo quer defender o seu, não o nosso. O mundo quer que a gente fique horas no telefone, torrando dinheiro. Quer que a gente case logo e compre um apartamento que vai nos deixar endividado por 20 anos. O mundo quer que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência, e estoure o cartão de crédito.
Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, com os nossos dentes e nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.
O mundo nos olha superficialmente. Não consegue enxergar através. Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, sarados e vitoriosos, para enfeitar ele próprio, como se fôssemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa. O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui. O mundo não tem doçura, não tem paciência, não pára para nos ouvir. O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de
instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego. Para o mundo, quem menos corre, voa. Quem não se comunica se trumbica. Quem com ferro fere, com ferro será ferido. O mundo não quer saber de indivíduos, e sim de slogans e estatísticas… Mãe é de outro mundo. É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática, chega a ser até corruptível se oferecermos em troca alguma atenção. Mãe sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades. Enquanto que o mundo propriamente dito exige eficiência máxima, seleciona os mais bem dotados e cobra caro pelo seu tempo. Mãe é de graça!”

Martha Medeiros

fa-zen-do novas todas as coisas



São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja 
Catequeses baptismais, nº 4, 12-15
Toda a Criação geme e sofre as dores de parto (Rm 8,22)
São Paulo escreveu: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação» (2Co 5,17). [...]. Mas dizei-me qual destas duas coisas é mais espantosa: ver o céu ou qualquer outro elemento renovar-se, ou ver um homem passar da malícia à virtude e renunciar ao erro para se ligar à verdade? Pois foi a isto mesmo que São Paulo chamou «nova criação». [...] Com efeito, os que aderiram a Cristo pela fé depuseram o fardo dos seus pecados como se põe de lado uma roupa velha. Ao abandonar o erro, foram iluminados pelo sol da justiça (cf Ml 3,20) como se veste uma roupa nova e brilhante, uma veste real [...]: «As coisas antigas passaram, eis que todas as coisas se tornaram novas» (ibid). [...] A graça de Deus irrompeu, e remodelou e converteu as almas, transformando-as. [...]


Já observaste como todos os dias o Mestre realiza esta nova criação? É que muitas vezes os homens passaram a vida inteira apegados aos prazeres deste mundo, adorando as criaturas e tomando-as por deuses. Quem, portanto, senão o Senhor, poderia persuadi-los a elevarem-se de repente a um tão alto grau de virtude, passando a desprezar todos esses ídolos, adorando o Criador do universo e depositando Nele a sua fé, muito acima de todas as coisas desta vida? [...]


Convido-vos, portanto, a todos — aos que foram baptizados anteriormente, tal como aos que acabam de receber essa graça do Mestre — a escutar esta exortação do Apóstolo: «As coisas antigas passaram, eis que todas essas coisas se tornaram novas.» Esqueçamos todo o nosso passado; reformulemos a vida como cidadãos chamados a uma vida nova. Em tudo o que dizemos, em tudo o que fazemos, consideremos a dignidade Daquele que habita em nós.

Thursday, May 09, 2013

roda da vida, pena de morte


Às vezes somos antipáticos simplesmente por excesso de peso. Não me refiro à simpatia natural de muitos gorduchinhos bonachões e gente boa. O peso impeditivo é o da alma, embora possa estar materializado no reino das coisas. Ando com excesso de bagagem pelos metrôs, e isso me torna facilmente mais irritável e indisposto com os outros. Mas nem por isso deixo de fazer experimentos espirituais que me ensinam coisas para além do imediato das situações. Hoje, por exemplo. De novo um peso excessivo de bagagem achatando minha flexibilidade altruísta (e o altruísmo genuíno é uma virtude de flexibilidade). Entro às pressas num vagão, a mulher vem no sentido contrário, queremos exatamente o mesmo banco. Eu chego primeiro, sem dar o menor sinal de gentileza de lhe conceder o lugar. E gozo com meu "feito". Mas o gozo é bobo, se esvai como bolha de sabão, pois mesmo que ela possa estar me xingando em pensamento, não dá sinais disso, se senta num banco próximo e aparentemente esquece da minha fechada. Tem trejeitos que me "confirmam" o acerto de meu gesto antipático, realmente vejo que não fui com a cara dela, não foi só uma questão de vencer um vulto qualquer que queria meu lugar. Não, a pessoa não agradava mesmo. Mas meu gostinho de vencer foi pequeno. E ainda por cima, na baldeação, entro noutro vagão e... tomo uma fechada muito parecida, de outra mulher. Aqui se faz, aqui se paga? Sim, mas o sobrenatural que me assola volta com um ensinamento em relação a outros "gostinhos" negativos que eu gostaria de gozar. O assassinato de um latrocida, por exemplo. Eu quase nunca escondo um sorriso de alívio. Quem vai negar a existência dentro de si de um impulso de ver com prazer um canalha desses ser fritado numa cadeira elétrica? Ou a alegria de saber que o estuprador serial-killer foi linchado?
A questão é que o mal que um fascínora fez não voltará no tempo e se anulará, e o castigo-vingança nunca será alto o bastante pra alcançar a baixeza deste verme assassino. E ainda por cima nos faremos, de certo modo, semelhantes a ele na transgressão do imperativo da civilização de Moisés e Jesus de que não matarás. Prazer de violência que, pelas leis kármicas do natural e do sobrenatural, será o alívio ilusório de jogarmos longe um bumerangue que voltará sobre nossas cabeças, assim como a fechada que dei, e que em seguida tomei.  
Nos livrando de nossos pesos de coisas e afetos, de nossas fechadas e fechamentos num gozo egóico e pobre, tudo isso se erradica na fonte, na raiz, não nos frutos podres de ações (karma quer dizer ação) contaminadas. A vingança não nos cabe, mas a Deus, proclama a Palavra bíblica. Sei que o castigo que não vemos para o injusto será devidamente ministrado de outras formas e noutros tempos, para que o infeliz aprenda a ser gente. Há tantos animais tão mais "gente" do que os humanos.. O animal de focinho humano que fere será ferido, é da cadeia alimentar deste mundo de samsara ou de pecado, de acordo com a linguagem espiritual que adotarmos.
-Unzuhause-

Wednesday, May 08, 2013

James Joyce e os jesuítas

Santo Inácio de Loyola e James Joyce

Amigos, lembrem que James Joyce, um dos pioneiros do monólogo interior da literatura moderna,teve o espírito forjado com e contra seus professores jesuítas, mestres da introspecção psicológica, ainda que para nós "inatual", em sua simbólica cristã. os Exercícios Espirituais são a quintessência desse método psicoteológico; na vida cotidiana, o auto-exame diário também é uma dica excelente dos jesuítas. Duas vezes ao dia, uns 15 minutos cada, você se dedica a repassar ponto por ponto os fatos e suas impressões subjetivas sobre os fatos, pondo tudo nas mãos de Deus (seu Self profundo, diretor e espectador dos dramas e comédias do teatro egoico). Peça perdão pelos pecados, simplesmente, os tiros  ao alvo equivocados na lida diuturna pelo aperfeiçoamento moral, estético, intelectual e espiritual. Manifeste gratidão pelas graças recebidas e reze ao final o pai-nosso, oração do Senhor, e o ritual estará per-feito.
-Unzuhause-

Ignatius Loyola and the Jesuits; and the Jesuits and James Joyce
http://culturedallroundman.com/tag/jesuits/

With the election yesterday evening in Rome of former Cardinal Jorge Mario Bergoglio, now Pope Francis I (and as the first, we may do away with the numeral, and declare him simply Pope Francis), there is now but one word sitting upon and emanating breathlessly from the world’s collective lips. The word is ‘Jesuit’, for Pope Francis is not only the first Pope from the Americas, and the first since Pope Gregory III from outside Europe (Gregory III, pope from 731-741, was born in Syria; Francis is from Buenos Aires, Argentina) – he is also the first Jesuit Pope.
The Society of Jesus, commonly known as the Jesuits, are a Catholic religious order founded by Ignatius Loyola. Loyola, born Iñigo Loiolakoa in the Basque Country in 1491, and nourished on heroic literature including The Song of Roland in his youth, became as a young man an ambitious soldier. On May 20, 1521, under Antonio Manrique de Lara, Duke of Náreja and Viceroy of Navarre, defending Pamplona from the French, Loyola was ‘the soul of a fierce fight, standing on the ramparts where the fire of the French guns concentrated. But a stone dislodged by a shot struck his left leg, the rebounding cannonball shattered the right; and Iñigo and Pamplona fell…That was the last time he should draw the sword’. (Thompson, 5)
Undergoing painful surgeries which allowed his bones to heal but left him with a limp, Loyola read during his convalescence De Vita Christi, the Life of Christ, a commentary on the Gospels by Ludolph, a Carthusian monk from Saxony. This work impelled Loyola on the path of religion. The following year, in 1522, he traveled to Manresa, Catalonia; and spent ten months living in a cave by the city as an ascetic. It was during this time that Loyola began practicing and setting down the Spiritual Exercises, a series of prayers, meditations and mental exercises which he completed over the next two years, and which remain the cornerstone of Jesuit training today. Whilst living in this cave, and during two spells in a nearby Dominican convent when his body became exhausted from his privations, Loyola experienced also religious visions. He determined to journey to Jerusalem, where he planned to make his life’s work; arriving there in August 1523, he was not permitted to stay by the Provincial of the city, who perhaps feared Loyola’s zeal would cause problems with coexistent groups.
So Loyola returned to Spain; he began studying religion at the University of Alcalá; then moved to Paris, studying at the Collège de Montaigu where, after seven years, in 1534, he completed a Master of Arts. It was about this time that the Society of Jesus was conceived. On August 15, 1534, Loyola met with six companions from his University – the Spaniards Francis Xavier, Alfonso Salmeron, Diego Lainez, and Nicholas Bobadilla; Peter Favre, French; and Simão Rodriguez, Portuguese – and together they ‘went to the chapel of Notre Dame, near Paris, and each made a vow to go at the time fixed to Jerusalem, and to place ourselves when we returned in the hands of the Pope; and to leave, after a certain interval, our kinsfolk and our nets, and keep nothing but the money necessary for our journey’. (Thompson, 48)
In fact, Loyola never would make a return to Jerusalem. At the end of the decade, Loyola and his companions determined to apply to become an Order of the Church. On May 3, 1539, they passed among themselves a series of resolutions, the first vowing absolute obedience to the Pope, then,

‘(2) To teach the Commandments to children or any one else. (3) To take a fixed time – an hour more or less – to teach the Commandments and catechism in an orderly way. (4) To give forty days in the year for this work. (5) That all candidates should go through the ‘Spiritual Exercises’ and the other tests of the Society. That last resolution is memorable, because here we have the simple germ whence evolve the elaborate tests, without parallel for searching strictness, of the modern Jesuits.’ (Thompson, 78)
On June 12, the group determined that Loyola would be the first Superior of what he termed ‘The Company of Jesus’. The Papal Bull issued by Pope Paul III on September 27, 1540, ‘Regimini militantis ecclesia’, approved the group as an Order of the Church, and Latinised their name to ‘Societas Jesu’; it contained the ‘Formula of the Institute’, a paragraph written by Loyola establishing their foundational principles. Loyola would continue to work on the Society’s formal constitutions until a few years prior to his death. Originally intending to convert Muslims to the Catholic faith, the Jesuits became a prominent force in the Counter-Reformation through the 1540s and 1550s. Loyola died in 1556. He was beatified by Pope Paul V on July 27, 1609; and then canonised by Pope Gregory XV on March 12, 1622.
The term Jesuit was first applied to the group negatively, with the sense that they associated themselves too closely, and therefore conceitedly, with the name of Christ: it gradually became accepted within the order. Evangelisation was the fundamental endeavour of the order from the time of Loyola, and the Society undertook extensive missionary work throughout Asia, India and the Americas over the subsequent centuries. The conception of the Society today is rooted in its continuing missionary efforts across the world; and in its reputation for intellectual, theological, and educational rigour. The current Superior General is Adolfo Nicolás, a Spanish priest who also, coincidentally, studied at the University of Alcalá. The Society forms the largest single order of priests in the Catholic Church; and runs schools, colleges and universities in six continents around the world.
The passages quoted above are taken from Francis Thompson’s St Ignatius Loyola. Thompson (1859-1907) was a talented poet, who published three collections of poetry, but led a somewhat dissipated life, beset by illness, financial hardship, and addiction to opium. His most renowned poem remains ‘The Hounds of Heaven’. Another noted writer with a connection to the Jesuits was Frederick Copleston (1907-1994): a Jesuit priest, Copleston wrote A History of Philosophy in nine volumes between 1946 and 1980, a work which continues to be published today. The most famous of writers with a strong link to the Jesuits is James Joyce.
Joyce’s deliberate move away from organised religion – a move charted through the figure of Stephen Dedalus in the semi-autobiographical A Portrait of the Artist as a Young Man - is one of his defining characteristics within the popular consciousness. Yet Joyce never spoke ill of the Jesuit order, and did not take away a wholly negative impression of his Jesuit schooling: first at Clongowes Wood College, from 1888, as a ‘half past six’ year old, to 1891; then at Belvedere College from 1893 until 1898. Joyce had been withdrawn from Clongowes owing to his father’s increasingly dire financial situation; he spent a short period at a Christian Brothers’ school on North Richmond Street in Dublin; but his biographer, Richard Ellmann, writes:

‘James Joyce chose never to remember this interlude with the Christian Brothers in his writings, preferring to have his hero spend the period in two years of reverie…It was Joyce’s one break with Jesuit education, and he shared his father’s view that the Jesuits were the gentlemen of Catholic education, and the Christian Brothers (‘Paddy Stink and Micky Mud,’ as his father denominated them) its drones.’ (Ellmann, 35)
Happening one day upon Father John Conmee – formerly rector at Clongowes, now prefect of studies at Belvedere; who Joyce would make appear in ‘Wandering Rocks’ – John Joyce managed to convince him to enter James at Belvedere free of charge.
The first reference to Stephen Dedalus in Ulysses comes from the mouth of Buck Mulligan, who calls down the stairs of the Martello Tower at Sandycove, ‘Come up, Kinch! Come up, you fearful jesuit!’. Mulligan characterises him also in ‘Telemachus’ as a ‘jejune jesuit’, a ‘cursed jesuit’, and a ‘gloomy jesuit’. Stephen is displeased but unperturbed; in ‘Scylla and Charybdis’, his stream of consciousness asks ‘Ignatius Loyola, make haste to help me!’ as he begins to delineate his theory concerning Shakespeare and the ghost in Hamlet.
On into his later life, Joyce identified with the Jesuits and held his Jesuit education with some regard. In response to his friend Frank Budgen’s book, James Joyce and the Making of Ulysses (of which Joyce otherwise approved, commending his friend’s capabilities as a writer), Joyce said, ‘You allude to me as a Catholic. Now for the sake of precision and to get the correct contour on me, you ought to allude to me as a Jesuit’. To the sculptor August Suter he remarked that, owing to the Jesuits, ‘I have learnt to arrange things in such a way that they become easy to survey and to judge’.
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Budgen, F. James Joyce and the Making of Ulysses (Oxford: Oxford University Press, 1991)
Ellmann, R. James Joyce (New York: Oxford University Press, 1983)
Thompson, F. St Ignatius Loyola (London: Universe Books, 1962)