Monday, April 29, 2013

o lado bom da vida


William James, Maslow, Rollo May, Carl Rogers, Erich Fromm: são muitas as referências que poderíamos mencionar como raízes da psicologia positiva, um dos ramos mais influentes da ciência psicológica nos EUA nessa virada de milênio. Resgata uma inspiração longíngua da psicologia pela grande busca ética dos antigos, a boa vida, o ser bom e o viver bem, a virtude como força de caráter e eficácia de posição diante da vida. Tudo isso, claro, muito no espírito da América profunda, e sua devoção ao arquétipo heroico e individualista que está na gênese da civilização cristã e moderna. E muito na contramão do furor patologizante que, de diversas maneiras, parece aliançar o que aparentemente seriam inimigos jurados um do outro. De um lado, a psicanálise, e suas estruturas clínicas e visão fanaticamente "angustiosa" de tudo, e suas lendas de parricídio original, e suas cantilenas lamentosas do mal-estar da civilização. E de outro, a catalogação psiquiátrico-farmacêutica e seus temíveis DSMs, sigla para Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (a nova edição a ser lançada parece que cataloga mais de 700 transtornos, distúrbios, desordens e quejandos, tornando praticamente impossível ser um existente humano não doentio).
Com os materiais a seguir, sobre psicologia positiva, inicio a procura de agregar um viés por assim dizer mais informativo,  "jornalístico", para nossas incursões pelo mundo cultural e acadêmico.
-Unzuhause- 

A ciência do otimismo
http://revistaplaneta.terra.com.br/secao/comportamento/a-ciencia-do-otimismo
-Eduardo Araia-

Uma novidade está ganhando força na psicologia, e seu êxito pode significar uma reviravolta e tanto numa área tão habituada a lidar com o lado escuro da mente humana. Intitulada psicologia positiva, essa corrente se baseia numa mudança básica de perspectiva: em vez de se concentrar nas falhas de seus pacientes, os profissionais preferem focar inicialmente as forças e virtudes dessas pessoas. É a partir daí que os pacientes ganham condições de superar tanto os obstáculos de agora como outros que poderão surgir.
A psicologia positiva é uma reação à tendência do setor de ressaltar apenas os estados e aspectos negativos da psique humana. Essa tendência - baseada na crença de que a virtude e a felicidade são estados inautênticos e, em última instância, a pessoa acaba por voltar a um padrão negativo - vem de muito longe, afirma Martin Seligman, professor de psicologia da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos.
"Sua manifestação primeira é a doutrina do pecado original. Na sua forma secular, Freud trouxe essa doutrina para a psicologia do século 20, na qual ela se entrincheirou e permanece firme no pensamento acadêmico atual", explica Seligman.
Segundo Alex Linley, professor de psicologia na Universidade de Leicester (Grã-Bretanha), o problema também possui razões políticas e econômicas. Após a Segunda Grande Guerra, o governo norte-americano investiu pesado no estudo de distúrbios psicológicos, como o estresse traumático, a ansiedade e a esquizofrenia.
Isso levou os pesquisadores a se concentrar nessas áreas de estudo, situação que só mudaria nos anos 1960, com o surgimento da psicologia humanística de Abraham Maslow. Mas esse movimento nunca penetrou no mundo acadêmico e, depois, com o advento da psicologia cognitiva (o segmento que estuda a percepção, o pensamento e a memória), ficou ainda mais deslocado.
A falta de rigor científico típica de muitos adeptos da psicologia humanística prejudicou a sua credibilidade ao mesmo tempo que fortalecia o setor de auto-ajuda - uma distorção que a psicologia positiva busca corrigir. "Muitos livros de auto-ajuda foram lançados com conceitos baseados em emoção e intuição", comenta o psicólogo israelense Tal Ben-Shahar. "A psicologia positiva combina isso com a razão e a pesquisa", explica.

Pesquisas apontam que o OTIMISMO é habilidade que pode ser ensinada e aprendida

UM DESSES ESTUDOS sobre o "funcionamento ótimo" das pessoas, realizado com freiras idosas, revelou que aquelas com uma perspectiva positiva da vida quando tinham entre 20 e 30 anos viveram até uma década a mais do que as demais. Outro, com pessoas a quem se solicitou que redigissem um diário todas as noites durante seis meses, registrando coisas que haviam dado certo naquele dia, mostrou que seu desempenho em avaliações de felicidade, otimismo e saúde física foi melhor do que aquelas que não escreveram. Além disso, pesquisas apontaram que o otimismo é uma habilidade que pode ser ensinada e aprendida.
Em 1998, Martin Seligman, em seu discurso presidencial para a American Psychological Association, exortou a psicologia a voltar-se para "a compreensão e a edificação das forças humanas a fim de complementar nossa ênfase na cura de distúrbios". A idéia prosperou: a Gallup Organization criou o Gallup Positive Psychology Institute para patrocinar estudos na área e, em 1999, 60 pesquisadores participaram do 1º Encontro Gallup de Psicologia Positiva. Em 2001, o evento se tornou internacional e a cada ano esgota rapidamente as 400 vagas oferecidas.

EM 2006, O CURSO MAIS procurado por alunos não-graduados na faculdade norte-americana de Har vard (uma das mecas do pensamento acadêmico tradicional) foi psicologia positiva, com quase 28% a mais de inscrições do que o segundo colocado, introdução à economia. Já existem mais de 200 cursos sobre psicologia positiva em universidades norte-americanas, além de um mestrado na Universidade da Pensilvânia (orientado por Seligman). Uma instituição de ensino público britânica - a Wellington College - incluiu aulas de psicologia positiva e felicidade em seu currículo básico.
No artigo "The Science of Happiness" (edição de janeiro/fevereiro de 2007 da Harvard Magazine), o professor de psiquiatria George Vaillant observa que no livro Comprehensive Textbook of Psychiatry (a "bíblia" clínica da psiquiatria e da psicologia clínica nos Estados Unidos) "há milhares de linhas sobre ansiedade e depressão e centenas sobre terror, culpa, raiva e medo. Mas só há cinco linhas sobre esperança, uma linha sobre alegria e nenhuma sobre compaixão, perdão e amor". A psicologia positiva tem mudado isso, popularizando termos como otimismo, resiliência (expressão da física que significa poder de recuperação, grau de elasticidade), coracoragem, virtudes, energia, forças, felicidade, perdão ou alegria.
Afora o mestrado da Universidade da Pensilvânia, ainda não existe treinamento específico para a psicologia positiva. Linley não vê mesmo necessidade disso: "Você pode dizer que qualquer profissional está atuando como um psicólogo positivo se está adotando uma abordagem que examina tanto o que está funcionando bem como o que não está funcionando."
Mas essa simples mudança de enfoque conduz o tratamento para terrenos bem diferentes dos tradicionais. No artigo da Harvard Magazine, o editor-assistente Craig Lambert ilustra: "Em vez de analisar a psicologia subjacente ao alcoolismo, os psicólogos dessa área podem estudar a resiliência dos que conduziram uma recuperação bem-sucedida - por exemplo, por meio dos Alcoólicos Anônimos.
"Em vez de ver a religião como uma ilusão e uma muleta, (...) eles podem identificar os mecanismos por meio dos quais uma prática espiritual como a meditação fortalece a saúde física e mental. Suas experiências em laboratório podem definir não as condições que induzem a um comportamento indesejado, mas as que estimulam a generosidade, a coragem, a criatividade e a alegria."
UM DOS NOMES MAIS destacados nessa área é o de Tal Ben-Shahar. Formado em Harvard, ele foi o responsável pelo curso mais requisitado da universidade no ano passado, e seus livros são best-sellers. Os exigentes alunos de Harvard endossam o sucesso. "A psicologia positiva pode ser o curso em Harvard que todos os alunos precisam fazer", diz Nancy Cheng, aluna de biologia. "Nesse ambiente de ritmo rápido e competitivo, é muito importante que as pessoas arranjem tempo para parar e respirar. Uma aula de auto-ajuda? Talvez... Mas a partir do que vi e experimentei em Harvard, acho que poderíamos todos usar um pouco de auto-ajuda como essa."
***

APA 1998 Annual Report

Following is the President’s Address from The APA 1998 Annual Report, appearing in the August, 1999 American Psychologist.

THE PRESIDENT'S ADDRESS

MARTIN E. P. SELIGMAN, PhD


When I was elected president of our Association, I was both humbled and challenged by what I saw as an opportunity to enlarge the scope of our discipline's work. For I believed then, and do still hold, that there are two areas in which psychology of the late 20th century has not played a large enough role in making the lives of people better.

One area that cries out for psychology's attention is the 20th century's shameful legacy of ethnic conflict. (Even as I write this piece, the world community is struggling with the plight of some half-million refugees from Kosovo.)

The second area cries out for what I call "positive psychology," that is, a reoriented science that emphasizes the understanding and building of the most positive qualities of an individual: optimism, courage, work ethic, future-mindedness, interpersonal skill, the capacity for pleasure and insight, and social responsibility. It's my belief that since the end of World War II, psychology has moved too far away from its original roots, which were to make the lives of all people more fulfilling and productive, and too much toward the important, but not all-important, area of curing mental illness.
With these two areas of need in mind -- relieving ethnic conflict and making life more fulfilling -- I created two presidential initiatives during my time in office, as described below.

ETHNOPOLITICAL CONFLICT

Certainly the goal of a more peaceful 21st century is as complex and as urgent as ever. To help psychology build an infrastructure that would allow future psychologists to play a role in preventing ethnic conflict and violence, I teamed with Canadian Psychological Association President Peter Suedfeld and created a joint APA/CPA Task Force on Ethnopolitical Warfare.

Dr. Suedfeld and I believe that with the death of fascism and the winding down of communism, the warfare the world faces in the next century will be ethnic in its roots and hatreds. In contemporary ethnopolitical conflicts, as in Kosovo right now, civilian populations are the primary targets of terror. The destruction of whole communities and the ongoing problems of refugees and human rights abuse amplify the problems.

What can psychology do? I submit to you that we can train today's young psychologists who have the courage and the humanity for such work to better understand, predict, and even prevent such tragedies. When the worst does occur, we can train psychologists to help pick up the pieces by helping people and communities heal and learn to live and trust together again.

The first step in creating a scholarly understanding of ethnic conflict was taken at an APA/CPA conference on the subject at the University of Ulster in Derry/Londonderry, Northern Ireland, in June. The meeting, chaired by Dan Chirot of the University of Washington, brought together 30 of the world's most distinguished specialists not just from psychology but from many disciplines, for example, from the fields of history, ethnic conflicts, human rights, and conflict resolution. Among the questions discussed were the following: What do we know about the roots of ethnopolitical violence? Why do some potentially violent situations result in violence while others do not? How does a society resolve group conflict relatively peacefully, as in the case of a South Africa, while others are solved with mass murder or forced migration?

Clearly, these are difficult questions, and the answers need to come from many disciplines. But to set the stage, three universities are taking the lead in creating a pioneering postdoctoral fellowship program combining both scholarship and field work in the scientist-practitioner model to study ethnopolitical conflict. The first entering class is that of June 1999. Classes will take place on three campuses -- at the University of Pennsylvania, the University of Cape Town in South Africa, and the University of Ulster in Northern Ireland. The Mellon Foundation, the National Institute of Mental Health, and private donors have already pledged over $2 million to this initiative.

A NEW SCIENCE OF HUMAN STRENGTHS

Entering a new millennium, we face a historical choice. Standing alone on the pinnacle of economic and political leadership, the United States can continue to increase its material wealth while ignoring the human needs of our people and of the people on the rest of the planet. Such a course is likely to lead to increasing selfishness, alienation between the more and the less fortunate, and eventually to chaos and despair.

At this juncture, psychology can play an enormously important role. We can articulate a vision of the good life that is empirically sound and, at the same time, understandable and attractive. We can show the world what actions lead to well-being, to positive individuals, to flourishing communities, and to a just society.

Ideally, psychology should be able to help document what kind of families result in the healthiest children, what work environments support the greatest satisfaction among workers, and what policies result in the strongest civic commitment.

Yet we have scant knowledge of what makes life worth living. For although psychology has come to understand quite a bit about how people survive and endure under conditions of adversity, we know very little about how normal people flourish under more benign conditions.

This is because since World War II, psychology has become a science largely about healing. It concentrates on repairing damage within a disease model of human functioning. Such almost exclusive attention to pathology neglects the flourishing individual and the thriving community. True, our emphasis on assessing and healing damage has been important and had its important victories. By my count, we now understand and can effectively treat at least 14 mental disorders that we could not treat 50 years ago. But these victories have come at a considerable cost. When we became solely a healing profession, we forgot our larger mission: that of making the lives of all people better.

In this time of unprecedented prosperity, our children can look forward to more buying power, more education, more technology, and more choices than ever before. If it were indeed true that depression is caused by bad events, then Americans today, especially young Americans, should be a very happy group. But the reality is that a sea change has taken place in the mental health of young Americans over the last 40 years. The most recent data show that there is more than 10 times as much serious depression now as 4 decades ago. Worse, depression is now a disorder of the early teenage years rather than a disorder that starts in middle age, a situation that comprises the single largest change in the modern demographics of mental illness. And that, I believe, is the major paradox of the late 20th century.

Why? In searching for the answer, I look not toward the lessons of remedial psychology with its emphasis on repairing damage. Instead, I look to a new social and behavioral science that seeks to understand and nurture those human strengths that can prevent the tragedy of mental illness. For it is my belief that no medication or technique of therapy holds as much promise for serving as a buffer against mental illness as does human strength. But psychology's focus on the negative has left us knowing too little about the many instances of growth, mastery, drive, and character building that can develop out of painful life events.

So my second presidential initiative is intended to begin building an infrastructure within the discipline and funding it from outside to encourage and foster the growth of the new science and profession of positive psychology.

Our mission is to utilize quality scientific research and scholarship to reorient our science and practice toward human strength. In this way, we can learn to identify and understand the traits and underpinnings of preventive psychological health and, most importantly, learn how to foster such traits in young people.

Supporting the research and vision of tomorrow’s positive psychology leaders will be an important part of building the foundation of this new science. Toward this end, a number of projects are under way.

With generous support from the John Templeton Foundation, APA has created the Templeton Positive Psychology Prize. Awarded annually, it will recognize and encourage the work of mid-career researchers working in the realm of positive psychology. When it is bestowed for the first time in February 2000, the Templeton Prize will become the largest monetary award ever given in psychology.

In addition, a "junior scientists" network of 18 early and mid-career researchers all working in issue areas related to positive psychology has also been created. The network grew out of 6 days of conversation and brainstorming led by Mihalyi Csikszentmihalyi, Don Clifton, Raymond Fowler, and myself. This meeting was an unparalleled success. The typical evaluation was "the best intellectual experience of my career." Now these 18 young scientists will continue to collaborate both electronically and face to face. My expectation is that they will be the leaders of our reoriented science in decades to come.

In 1998, two groups of more senior scholars also met and began work on the taxonomy of the roots of a positive life. One group is asking, "What are the characteristics of a positive life, and how can they be measured and taught? What are the relationships among subjective well-being, positive individual traits, and positive community?"

The other group seeks to transform the study of genius and extraordinary accomplishments. They commend to our science the idea that human greatness occurs not only in the realm of achievement, but that genius can also come into play in mastering human relationships, assuming moral responsibility, engaging in spirituality, and viewing life as a work of art. This Truly Extraordinary People group intends to pioneer such studies.

The creation of a new science of positive psychology can be the "Manhattan Project" for the social sciences. It will require substantial resources but it does hold unprecedented promise. The medical model often talks about medical cost offset; and, indeed, cost offset is important. But I suggest there's another cost offset to consider: one for the individual and for the community.

Positive psychology should not only have as a useful side effect the prevention of serious mental illness, but it also holds the potential to create, as a direct effect, an understanding and a scientifically informed practice of the pursuit of the best things in life and of family and civic virtue.

I have often been asked what was my reason, deep down, for running for president of APA. I will tell you now. It was because I thought I had a mission but did not know what it was. I thought that in serving as president, I would discover my mission. And I did.

That mission is to partake in launching a science and a profession whose aim is the building of what makes life most worth living. This opportunity was your gift to me, and my fondest hope is that the two initiatives I have discussed above and gone on to launch will repay your trust.

In closing, I now want to make explicit the underlying theme of my presidency: Psychology is not merely a branch of the health care system. It is not just an extension of medicine. And it is surely more than a tenant farmer on the plantation of profit-motivated health schemes. Our mission is much larger.

We have misplaced our original and greater mandate to make life better for all people, not just the mentally ill. I therefore call on our profession and our science to take up this mandate once again as we enter the next millennium.

Sunday, April 28, 2013

Resenhas para a Folha- 27/04/2013

Folha de S. Paulo
Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
-Caio Liudvik-

TUDO O QUE MÃE DIZ É SAGRADO
"Eu posso não comer, não fazer nada, somente para ficar aqui escrevendo. Eu posso praticamente não existir para somente escrever. Ajoelho com uma fé cabisbaixa", diz Paula Corrêa, pondo-se a postos para receber não a iluminação espiritual, mas a palavra. Palavra de dor, que pelo menos já não é a tirania da dor que amordaça, é um passo para trás do precipício do real, sempre mortífero (Lacan).

Foi pela prodigiosa capacidade de escrever, bem como pelo afeto do cãozinho Astor, que Paula se salvou de morrer junto com a mãe à qual doara, sem sucesso, parte do fígado. Até pelo formato e pela perda materna que o gerou, o livro nos remete ao "Diário de Luto" de Roland Barthes. Ambos –bem como "A Náusea" de Sartre, citado por Paula- vão bem além de meras ilustrações clínicas da depressão. Esboçam, no dilaceramento da morte, um portal de redescoberta da vida com mais lucidez, portanto com mais dor e desencanto.
Vida em suas misérias, como a gente triste que sufoca nos metrôs superlotados. Como o fardo de perder quem nos deu à luz, e que assim leva embora enorme parte de nós. E vida em suas dádivas, como poder caminhar pela cidade, e não estar entubado ou gritando de dor numa cama de hospital. Um despertar existencial que, aprendemos com Heidegger, não vem mais de Deus (que "traiu a fé" de Paula), mas da consciência da finitude, trágico ser-para-a-morte.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO

A ROSA O QUE É DE ROSA
"Ficção da filosofia ou análogo prático dela", como diz no prefácio João Adolfo Hansen, a obra de Guimarães Rosa teve em Benedito Nunes (1929-2011) um filósofo e crítico que adentrou com maestria as sinuosas veredas de conceito e de imagem. Esses ensaios testemunham a intensidade deste diálogo –também pessoal, como mostram suas notas memorialísticas.
 O professor paraense não se limita a decifrar alusões explícitas, veladas ou mesmo jocosamente fingidas do escritor mineiro a pensadores como Plotino, Bergson Berdiaev. Ele desentranha os laços íntimos entre sensível e inteligível numa obra que nos apresenta "três sertões": o propriamente geográfico; o sertão da aventura existencial, sob os paradigmas da viagem e do combate; e o sertão de nosso destino metafísico e religioso, sob a chave da escolha entre Deus e o Diabo, o bem e o mal.
É pela tríplice dimensão literal, alegórica e simbólica, típica da Cabala, que a obra-prima "Grande Sertão: Veredas" pode ser lida também como documento social, meditação filosófica e cifra simbólica da realidade espiritual -com peso estratégico para o "hermetismo" da linguagem e para a presença do mito.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO

QUESTÕES DISPUTADAS SOBRE A ALMA
Conta-se que Tomás de Aquino (1225-1274) celebrava uma missa e teve uma súbita iluminação, abandonando sua intensa produtividade "acadêmica", sob a seguinte justificativa: "Não posso mais. Tudo o que escrevi me parece palha perto do que vi". Da "palha" que o consagrou como um dos mais importantes teólogos cristãos, destacam-se a "Suma Teológica" e a "Suma contra os Gentios", e este "Questões Disputadas sobre a Alma".
Aquino se vale do método escolástico da disputatio, a confrontação sistemática entre argumentos. Se você não for um "geek" do medievalismo (com novo fôlego sob as bênçãos do papa emérito Ratzinger), sofrerá com tópicos sobre os anjos ou a possibilidade da alma imaterial padecer do fogo do inferno.
E se for esse nerd, terá, no filósofo que mais longe levou a aliança entre a fé cristã e o racionalismo aristotélico, um prato cheio de inspirações para a apologética  cristã. Nada mais urgente em tempos de espiritualismos pós-modernos e ateísmos incendiários como o de um Richard Dawkins.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

PERVERSOS, AMANTES E OUTROS TRÁGICOS
Nessa coletânea de ensaios e resenhas, Eliane Robert Moraes escreve sobre autores que vão do libertino marquês de Sade à mística Sóror Juana Inés de la Cruz, passando ainda por Apollinaire, Nabokov, Stendhal e Breton. Uma das nossas maiores especialistas acadêmicas na literatura libertina, que, para além de censuras iluministas e exaltações ingênuas, surpreende em sua força filosófica e política de anúncio e denúncia da modernidade. Ela atenta para o "olho libertino à espreita", exigindo ser levado em conta mesmo em mais bem-comportadas apologias ao amor romântico, como a de Goethe. Esse olho libertino é como a "sombra" do inconsciente, ou como o "desvio" que mediatiza os ideais morais mesmo em seus cumes mais longínquos, como a cela do asceta religioso, por vezes tão aparentada, em seus devaneios mais ou menos sublimados, com a alcova em que Sade prisioneiro na Bastilha ardia em desejos e literatura.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

A PARTE MALDITA
"Proponho um desafio, não um livro", disse certa vez Georges Bataille, a propósito de seu célebre "A Experiência Interior", mas com palavras que serviriam como epígrafe para este "A Parte Maldita – Precedida de 'A Noção de Dispêndio'". Aqui, ele exalta o dispêndio improdutivo, fora dos trilhos produtivistas e utilitários da sociedade moderna.
Inspirado em etnólogos como Marcel Mauss, toma como paradigma instituições econômicas e ritos arcaicos, marcados pela destruição de artefatos, nas antípodas da servidão capitalista do homem aos  bens e à austeridade poupadora.
Os dois textos encetam uma apresentação sistemática e "sóbria" desse "filósofo bacante" (como o designa Eliane Robert Moraes). No elogio ao "excesso", ao desnecessário, na excitação de dissipar o fruto e a rotina do trabalho, ele antecipa a cultura do shopping-center e traduz em termos de uma economia política "sui generis' o namoro que marca toda sua obra com o delírio e o êxtase, na mística, no erotismo,nas manifestações de massa –o nazifascismo fascina, antropologicamente, o esquerdista Bataille na época da ascensão de Hitler.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE JOHN SEARLE

Searle é um dos mais importantes pensadores norte-americanos da atualidade, com contribuições decisivas no campo da filosofia da linguagem. Nesta coletânea, comentadores apresentam suas ideias, não sem criticá-las, o que torna a leitura ainda mais valiosa para os interessados neste que, segundo Searle, é o campo teórico em que a filosofia mais avançou desde fins do século 19, com Frege, Russell e Wittgenstein.
O ponto alto do livro é o ensaio de abertura, do próprio Searle. Ele nos oferece ali um resumo didático de suas perspectivas teóricas, que, do biológico ao social, enraízam a linguagem na natureza humana, num "continuum" de desejos, lembranças e intenções que, por mais rude que isto pareça a nosso olhar antropocêntrico, vão desde o mais primitivo urro de fome a um soneto de Shakespeare. Fugindo de dicotomias entre natureza e cultura, Searle avança contra teóricos sociais, de Aristóteles a Foucault e Habermas, e em especial os pensadores do "contrato social", por não dimensionarem a interdependência entre linguagem e sociedade.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO



Friday, April 26, 2013

abc de Opus Dei- o fundador


São Josemaría Escrivá

http://www.escrivaworks.org.br/doc/sao_josemaria.htm

 

São Josemaría Escrivá nasceu em 1902 em Barbastro, Espanha. É o segundo de seis irmãos. Aprendeu de seus pais e na escola os fundamentos da fé, e desde pequeno viveu costumes cristãos como a confissão e a comunhão freqüentes, a recitação do terço e a esmola. A morte das três irmãs pequenas e a ruína econômica da família fizeram-no experimentar muito cedo o sofrimento e a dor: esta experiência temperou o seu caráter, naturalmente alegre e expansivo, e o fez amadurecer. Em 1915 a família se mudou para Logronho, onde seu pai conseguira um novo trabalho.
Em 1918, Josemaría intuiu que Deus queria algo dele, mesmo não sabendo de que se tratava. Decidiu entregar-se completamente a Deus, fazendo-se sacerdote. Deste modo, pensava que estaria mais disponível para cumprir a vontade divina. Começou os seus estudos eclesiásticos em Logronho, e em 1920 prosseguiu-os no seminário diocesano de Saragoça, em cuja Universidade Pontifícia completou a sua formação prévia ao sacerdócio. Em Saragoça fez também — por sugestão do seu pai e com a permissão dos superiores — o curso de Direito. Em 1925 recebeu o sacramento da Ordem e começou a desenvolver o seu ministério pastoral, com o qual, a partir de então, identificou a sua existência. Já sacerdote, continuou à espera da luz definitiva sobre o que Deus queria dele.

Em 1927 mudou-se para Madri a fim de obter o doutorado em Direito. Acompanharam-no a sua mãe, a sua irmã e o seu irmão, pois, desde o falecimento do pai, em 1924, Josemaría é o chefe de família. Na capital da Espanha, desenvolveu um intenso serviço sacerdotal, principalmente entre os pobres, doentes e crianças. Ao mesmo tempo, sustentava-se e mantinha a sua família dando aulas de Direito.

Foram tempos de grandes apertos econômicos, vividos por toda a família com dignidade e bom humor. O seu apostolado sacerdotal estendeu-se também a jovens estudantes, artistas, operários e intelectuais que, em contato com os pobres e doentes atendidos por Josemaría, vão aprendendo a praticar a caridade e a se comprometerem com sentido cristão na melhora da sociedade.

Em Madri, em 2 de outubro de 1928, durante um retiro espiritual, Deus fez-lhe ver a missão à qual o havia destinado: nesse dia nasceu o Opus Dei. A missão específica do Opus Dei é promover, entre homens e mulheres de todos os âmbitos da sociedade um compromisso pessoal de seguir a Cristo, de amor a Deus e ao próximo e de procura da santidade na vida cotidiana. Desde 1928, Josemaría Escrivá se entregou de corpo e alma ao cumprimento da missão fundacional que recebera, ainda que não se considerasse por isso um inovador ou um reformador, pois estava convencido de que Jesus Cristo é a eterna novidade e de que o Espírito Santo rejuvenesce continuamente a Igreja, a cujo serviço Deus suscitou o Opus Dei. Em 1930, como conseqüência de uma nova luz que Deus acendeu na sua alma, iniciou o trabalho apostólico do Opus Dei entre as mulheres. Josemaría Escrivá colocará sempre a mulher, como cidadã e como cristã, frente à sua pessoal responsabilidade — nem maior nem menor que a do homem — na construção da sociedade civil e da Igreja.

Em 1934 publicou — com o título provisório de “Considerações espirituais” — a primeira edição de “Caminho”, a sua obra mais difundida, da qual já foram editados mais de quatro milhões de exemplares. Na literatura espiritual, Josemaría Escrivá também é conhecido por outros títulos como “Santo Rosário”, “É Cristo que passa”, “Amigos de Deus”, “Via Sacra”, “Sulco” ou “Forja”. A guerra civil espanhola (1936-1939) representou um sério obstáculo para a incipiente fundação. Foram anos de sofrimento para a Igreja, marcados, em muitos casos, pela perseguição religiosa, da qual o fundador do Opus Dei só conseguiu sair incólume depois de muito sofrimento.

Em 1943, por uma nova graça fundacional que Josemaría Escrivá recebeu durante a celebração da Missa, nasceu a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, na qual se incardinam os sacerdotes que procedem dos fiéis leigos do Opus Dei. O fato de que os fiéis leigos e os sacerdotes pertençam plenamante ao Opus Dei, assim como a cooperação orgânica de uns com os outros nos seus apostolados, é um traço próprio do carisma fundacional do Opus Dei que a Igreja confirmou ao determinar a sua específica configuração jurídica. A Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz desenvolve também, em plena sintonia com os Pastores das Igrejas locais, atividades de formação espiritual para sacerdotes diocesanos e candidatos ao sacerdócio. Os sacerdotes diocesanos também podem fazer parte da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, sem deixar de pertencer ao clero das suas respectivas dioceses.

Consciente de que a sua missão tem fundamento e alcance universais, Josemaría Escrivá se transferiu para Roma em 1946, assim que acabou a guerra mundial. Entre esse ano e 1950, o Opus Dei recebeu várias aprovações pontifícias com as quais ficaram corroborados os seus elementos fundacionais específicos: a sua finalidade sobrenatural, concretizada em difundir a mensagem cristã da santificação da vida cotidiana; a sua missão de serviço ao Romano Pontífice, à Igreja universal e às Igrejas locais; o seu caráter universal; a secularidade; o respeito à liberdade e à responsabilidade pessoais e o pluralismo em temas políticos, sociais, culturais, etc. De Roma, por impulso direto do fundador, o Opus Dei foi-se estendendo paulatinamente para trinta países dos cinco continentes, entre 1946 e 1975.
A partir de 1948, pessoas casadas que procuram a santidade no seu próprio estado de vida podem pertencer ao Opus Dei a pleno título. Em 1950, a Santa Sé aprova também que sejam admitidos como cooperadores e ajudem nos trabalhos apostólicos do Opus Dei homens e mulheres não católicos e não cristãos: ortodoxos, luteranos, judeus, muçulmanos, etc.
Na década de 50, Josemaría Escrivá estimulou o início de projetos muito variados: escolas de formação profissional, centros de capacitação para camponeses, universidades, colégios, hospitais e ambulatórios médicos, etc Estas atividades, frutos da iniciativa de fiéis cristãos comuns que desejam atender — com mentalidade laical e com sentido profissional — as necessidades concretas de um determinado lugar, estão abertas a pessoas de todas as raças, religiões e condições sociais: a clara identidade cristã das iniciativas promovidas pelos fiéis do Opus Dei, com efeito, se compagina com um profundo respeito à liberdade das consciências.
Durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), o fundador do Opus Dei manteve uma relação intensa e constante com numerosos Padres conciliares. Alguns dos temas que formam o núcleo do magistério conciliar foram freqüente objeto de suas conversas, como por exemplo a doutrina sobre a chamada universal à santidade ou sobre a função dos leigos na missão da Igreja. Profundamente identificado com a doutrina do Vaticano II, Josemaría Escrivá promoverá diligentemente que seja levada à prática através das atividades formativas do Opus Dei em todo o mundo.

Entre 1970 e 1975, o seu empenho evangelizador levou-o a empreender viagens de catequese pela Europa e pela América. Teve numerosas reuniões de formação, de estilo simples e familiar — mesmo quando estavam presentes milhares de pessoas — nas quais falava de Deus, dos sacramentos, das devoções cristãs, da santificação do trabalho, com o mesmo vigor espiritual e capacidade de comunicação dos seus primeiros anos de sacerdócio.
Faleceu em Roma, no dia 26 de junho de 1975. Choraram a sua morte milhares de pessoas que se aproximaram de Cristo e da Igreja graças ao seu trabalho sacerdotal, ao seu exemplo e aos seus escritos. Um grande número de fiéis recorreram à sua intercessão desde esse dia, e pediram a sua elevação aos altares.

Em 6 de outubro de 2002, mais de 400.000 pessoas assistiram, na Praça de São Pedro, à canonização de Josemaría Escrivá. Na homilia, João Paulo II destacou que o novo santo “compreendeu claramente que a missão dos batizados consiste em elevar a Cruz de Cristo sobre todas as realidades humanas, e sentiu surgir no seu interior a apaixonante chamada para evangelizar em todos os ambientes”.

O Papa animou os peregrinos vindos dos cinco continentes a seguir os seus passos. “Difundam na sociedade, sem distinção de raça, classe, cultura ou idade, a consciência de que todos somos chamados à santidade. Esforcem-se por ser santos, vocês mesmos em primeiro lugar, cultivando um estilo evangélico de humildade e espírito de serviço, de abandono na Providência e de permanente escuta da voz do Espírito”.

Evangelho do dia - 26/04/2013 - o caminho e o desfecho


Evangelho segundo S. João 14,1-6.


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim.
Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, como teria dito Eu que vos vou preparar um lugar?
E quando Eu tiver ido e vos tiver preparado lugar, virei novamente e hei-de levar-vos para junto de mim, a fim de que, onde Eu estou, vós estejais também.
E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho.»
Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?»
Jesus respondeu-lhe: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim.

Comentário ao Evangelho do dia feito por
São Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo dominicano, doutor da Igreja
«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida»
Cristo é ao mesmo tempo o caminho e o termo. É o caminho segundo a Sua humanidade; é o termo segundo a Sua divindade. Neste sentido, enquanto homem, diz: «Eu sou o caminho»; enquanto Deus, acrescenta: «a verdade e a vida». Estas duas palavras indicam com toda a propriedade o termo deste caminho. Na verdade, o termo deste caminho é a aspiração do desejo humano. [...] Ele é o caminho para chegar ao conhecimento da verdade, ou melhor, Ele próprio é a verdade: «Ensinai-me, Senhor, o Vosso caminho, para que eu siga a Vossa verdade» (Sl 85, 11). Ele é também o caminho para chegar à vida, ou melhor, Ele próprio é a vida: «Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida» (Sl 15, 11). [...]
Se, portanto, procuras por onde passar, segue a Cristo, porque Ele é o caminho. «Este é o caminho; andai por ele» (Is 30, 21). E Santo Agostinho diz: «Caminha através do homem e chegarás a Deus. É melhor andar pelo caminho, mesmo a coxear, que andar rapidamente, mas fora do caminho. Porque aquele que vai coxeando pelo caminho, ainda que avance pouco, aproxima-se do termo; mas aquele que anda fora do caminho, quanto mais corre, tanto mais se afasta do termo.»
Se perguntas para onde hás-de ir, procura a Cristo, porque Ele é a verdade, à qual desejamos chegar. «A minha boca proclama a verdade» (Pr 8, 7). Se procuras onde permanecer, une-te a Cristo, porque Ele é a vida: «Quem me encontrar, encontrará a vida» (Pr 8, 35).

Wednesday, April 24, 2013

diário de uma formação analítica- 24/04/2013


(notas a partir das aulas de hoje e de quinta passada)
Diferença de ouvir e escutar.
Ouvir: ato de nossa sensorialidade passiva, captando desde ruídos da britadeira no vizinho a versos de Goethe e, entre esses extremos, uma singela fala de nosso singelo paciente em análise.
Escutar: arte propriamente psicanalítica, de prospecção do latente no patente, do (re) velado no mostrado, subtextos do intencional.
Perigos do ouvir - superficialidade, literalidade.
Perigos do escutar - arbitrariedade, ecos de contratransferência que por auto-engano narcísico o analista toma como insight.
O insight do analista de nada vale se náo calcado no des-recalque do analisante, insight que, mesmo distinto e talvez anterior ao insight do paciente,  não vem do saber prévio do analista, tão relevante quanto o tesáo desperdiçado no coito interrompido. O insight da escuta é transado, tramado, suspense, suspenso, eclodindo entre as vozes passiva e ativa do desejo, sendo a passiva a voz-escuta do analista abstinente, em apatheia estóica, desejantemente sem desejo, vazio de desejo e de memória (Bion). Não tanto o acolhimento (técnicas de amparo, de "conselho", sugestionamento) mas o recolhimento do analista, sua renúncia como ego para que o outro venha a ser sujeito (do inconsciente).
Embora, por outro lado, tenhamos hoje cada vez mais um paciente das drogadicções, do pânico, das somatizaçòes, das neuroses (supostamente) "sem história"para contar, mas queixas e choques para desabafar. Clinica de hoje tem de se haver -talvez com menos frieza e mais acolhimento- com distúrbios e sofrimentos que tornam muitas vezes o paciente um ente aquém de sujeito, privado de linguagem, idiotizado (no sentido grego de homem alheado do espaço comum, da vida da pólis) embrutecido pelo empuxo ao gozo sem elaboração psíquica, cegamente corporal, necessitado de um banho de significantes, ainda que sejam os enterrados no próprio paciente, para que ele saia da i-mundícia do mundus imundus náo reflexivo, vida não refletida é indigna de ser vivida por um homem, segundo o exigente analista socrático, causa do desejo.
-Unzuhause-


o sábio sim a si próprio


"'Sapiens'- a palavra latina para 'sábio'- significa alguém que é capaz de sentir o próprio sabor, de degustar a si próprio, alguém que se reconcilia consigo mesmo e com a história de sua própria vida. Por isso em tudo quanto faz ele transmite um `sabor agradável'.
Quem não está em contato consigo mesmo, muitas vezes transmite na conversa ou no encontro um `gosto amargo e insípido'. Quem com seu comportamento deixa um `gosto negativo' irá antes afugentar as pessoas. Será incapaz de conquistá-las para si e seus objetivos.
Sábio é aquele que gosta de si próprio, aquele que está reconciliado consigo mesmo. Esta é uma tarefa para a vida inteira. Pois sempre as imprecisóes, imaturidades e durezas conseguem penetrar em nós. Elas nos impedem de difundir em torno de nós um `saber agradável`. Por isso, sempre precisamos dizer sim a nós mesmos - também às nossas falhas e fraquezas. Elas têm o direito de existir. Somente não podem determinar nossa conduta e nossa pessoa"
Anselm Grun, in: Grun, A.  & Asslander, F., 

A Arte de Ser Mestre de Si Mesmo para Ser Líder de Pessoas

Tuesday, April 23, 2013

o pedregulho adormecido


Por conta de minhas vivências como tradutor, a língua inglesa tem sido companhia frequente dos meus trabalhos e dias. Como bom gnóstico cristão à la Clemente de Alexandria, faço de toda Lei que aceito -e que coisa mais "legal" que as línguas do mundo?- uma experiência de imersão e aprendizado, mais que obediência automática. Músicas, desde meus tempos de estudante do Yázigi, são uma alternativa particularmente fecunda para o aprendizado, que é tanto mais efetivo quanto mais afetivo, ressonando acordes e luzes no coração que, antes da claridade da linguagem lhe ensinar seu amor, era pedregulho adormecido em escuridão surda e muda.
-Unzuhause-

Annie's Song
-John Denver-

You fill up my senses
Like a night in a forest
Like the mountains in springtime
Like a walk in the rain
Like a storm in the desert
Like a sleepy blue ocean
You fill up my senses
Come fill me again
Come let me love you
Let me give my life to you
Let me drown in your laughter
Let me die in your arms
Let me lay down beside you
Let me always be with you
Come let me love you
Come love me again
You fill up my senses
Like a night in a forest
Like the mountains in springtime
Like a walk in the rain
Like a storm in the desert
Like a sleepy blue ocean
You fill up my senses
Come fill me again

Monday, April 22, 2013

abc de Opus Dei - só para os (extra) fortes



Amigos,
Conforme prometido há poucos dias via facebook, inicio nova jornada de leituras em história das religiões, agora com espírito ainda mais "principiante", como diria o mestre zen, mas para lidar com um assunto bem pouco "zen" no sentido de coisa light e insossa, tão ao gosto do medícre paladar da modernidade.
Quero falar do Opus Dei. O desencadeador mais imediato desse desejo tem sido minha leitura  do livro Opus Dei- os Mitos e a Realidade.
O autor, John L. Allen Jr., é correspondente da CNN no Vaticano, e escreve sem interesse faccional, sem parti pris a favor ou contra, e com enorme cabedal de informações objetivas capazes de descortinar algo do sentido subjetivo do estar no mundo desses atores sociais, para recuperar em chave dramatúrgica minhas deliciosas aulas de Sociologia IV (Max Weber).
Uma das primeiras e gratas surpresas que Allen me ensina é que o Opus Dei, que para muitos é o arquétipo do Mal, do fascismo cristão, da ortodoxia, na verdade nasceu com uma proposta muito ousada, para não dizer "herética": a santificação integral da vida cotidiana mesmo do leigo. Antecipava-se assim um imperativo que estaria, cerca de quarenta anos depois, no âmago do Concílio Vaticano II, tido como o marco do "liberou geral" na Igreja.
Vou bem aos poucos tanto na leitura (absolutamente extracurricular, eu ia escrevendo extraconjugal, em relação às minhas urgências atuais) quanto na escrita. Prefiro, ao invés de leitura frenética, absorção meditativa, como que grãozinhos que o próprio Deus estivesse espalhando e assim fazendo de minha confusão trilha de libertação. Via Opus Dei? Acho difícil, não pelo tanto que falam mal dela, o que de resto só me dá razões de me sentir atraído, como tantos outros frutos proibidos dos idiotas do politicamente correto. 
A questão é que, mais que patologia a ser curada, meu individualismo chega às raias de uma misantropia necessária à virtude. Não suporto grupos em geral, minha identificação com a Igreja tem mais o estilo dos malucos do deserto dos primeiros tempos.
Faço minhas as palavras de Samuel Johnson: "Odeio a humanidade, pois me considero um de seus melhores indivíduos, e sei o quanto sou mau". Como bem diagnosticado pelos críticos conservadores da modernidade, amor à "Humanidade" costuma ser artifício para desviar os sentimentos hostis que se nutre para com as pessoas concretas. Resolvi então "tirar" minha misantropia "do armário", para usar da linguagem jeca de nossas preocupações atuais sobre a vida oculta de Leonardo da Vinci, Alexandre Magno e sei lá mais que gigantes do "mais" sobre os quais os anões modernos se empoleiram para se sentir menos "menos".
Me desgostam as tosses sem mão na boca, esse detestável estar à vontade que muitos adotam no espaço público contemporâneo, inclusive dentro da igreja, lembrando o "jornal da tosse" de antigamente.
O espaço público em geral está ficando sujo, nojento, sem lei nem moral: ontem, na Igreja que frequento (depois de me afastar da minha paróquia sob o choque da partida de meu pai espiritual, anos atrás), o primeiro aviso do leitor leigo que tantas vezes fui, não só lendo mas também cantando forte no microfone, para aflição do coral da igreja, quando jovenzinho da Salette: "o projetor sumiu". 

Sim, folks, passaram a mão no singelo aparelho que ajudava nossos velhinhos da plateia a cantar junto com o coral as músicas da missa. Nem igreja respeitam mais! O sagrado, segundo Durkheim, é a quintessência da consciência coletiva -conceitualmente distinto do "inconsciente coletivo" de Jung, que porém muito se inspira na Escola Sociológica francesa- hipostasiada em grandes símbolos que fazem a Lei moral não só coercitiva, mas digna de nosso amor. Estamos órfãos do sagrado, daí também a proliferação promíscua de tantos deuses a disputar o consumidor espiritual. 
Mais doloroso que o roubo em si é a diferença entre  o silêncio do padre, acerca do ocorrido, e a energia que meu padre Pedro tinha na condução dos assuntos de nossa paróquia da Salette. Uma fita crepe que faltasse e deixasse torto um cartaz.. meu Deus, o homem sabia ficar muuuito bravo, mas de um jeito que estranhamente não me causava repulsa, como a braveza bêbada de meu pai carnal. Meu "São José", pai adotivo para o nascimento virginal pela Mãe Igreja do Cristo em mim, até quando bravo me causava risadas (devidamente escondidas dele, é claro). O padre de ontem nem falou no roubo (!!). Claro, não havia comunidade a que passar pito, mas um saco de gatos, e gatos pingados, que somos todos numa igreja sem identidade comunitária e sem fervor ao Evangelho.
Única coisa que me agradou na homilia, aliás, foi quando ela acabou e o padre rezou pelas intenções do dia, citando o papa Francisco. Aí sim! É este o homem que me fez tentar de novo frequentar uma missa, assim como em três, quatro minutos de sua apresentação pública como novo papa me fizera "lembrar" (anamnese em sentido platônico) minha identidade católica com as rezas, sim, não com a gritaria evangélica, ou bateção de palmas dos católicos carismáticos. Estou quase pedindo perdão a Ratzinger pelo mau humor com que eu recebia suas iniciativas de restauração da cultura católica verdadeira! Seu fracasso como papa (cargo que aliás ele nunca quis), além de belo no gesto final da renúncia, ajuda a expiar o meu fracasso como fiel nesses anos em que fiz da contenda ideológica (minha suposta influência boffiana, acidental e não substancial) um drama ao qual, como diria a minha amiga psiquiatra junguiana, eu estava "muito transferido", inventando como se fosse meus certos conflitos entre homens e ideias que nada têm a ver comigo, conflitos imaginários da minha psique cindida, como se Boff fosse meu Self puro e Ratzinger, meu Cronos devorador, em lutas sanguinolentas pela Grande Mãe eclesial. Self que é nomeado não é mais o Self original, eu diria com os taoístas. De Deus sabemos sobretudo o que e pelo que Ele não é. E Ele não é, de cara, o que gostaríamos que fosse, nós moderninhos tão desejosos de alimentos light para nosso paladar raso. A teologia caminha pela negatividade, nem deve falar muito em Deus, como me lembro de ter escutado certa vez de outra influência tempestuosa em meu pensamento, mestre Luiz Felipe Pondé.
Por tudo isso, meu novo esforço em teologia, neste espaço, não será de especulação direta sobre a Verdade, mas sobre o que acreditamos ser a Verdade. Teologia da crença. Mas uma crença que eu admiro pela intensidade é a do Opus Dei. Como que a "Tropa da Elite" da Igreja Católica, tendo por Capitão Nascimento original São Josemaría Escrivá, que funda a prelazia na Espanha m 1928.  John Allen apresenta no livro que vamos estudar o fruto de pesquisa exaustiva, travessia de muitos meses e oito países, falando com as principais autoridades, tendo acesso a documentos exclusivos, e revelando muita coisa, mas sem espírito de fofoca, sem mistificações laudatórias ou recriminatórias. Um livro que me põe em atitude de escuta meditativa também pelo que tem de obra-prima de jornalismo, portanto outra razão para me agradar, jornalista que sequer ainda fui pegar no caixa da faculdade meu diploma que tanto suor e sobretudo irritação me causou. O trecho que quero compartilhar hoje está na excelente Introdução do livro, em que Allen compara o Opus Dei com a cerveja Guiness Extra Stout.   "Numa época em que o mercado de cervejas está inundado de 'diet' isto e 'light' aquilo, a Guiness Extra Stout trafega na contramão. Não pede desculpas nem por suas muitas calorias nem pelo alto teor alcóolico. Tem um sabor denso, amargo, que já foi comparado por alguns engraçadinhos a óleo de motor com espuma. Exatamente porque resiste aos modismos, ele arregimenta adeptos entre os puristas, que a respeitam por jamais fraquejar. É claro que se você acha horrível seu gosto, tal coerência talvez não o leve a comprá-la, mas embora a Extra Sout dificilmente chegue a dominar o mercado, um público fiel sempre a prestigiará". Bem-vindos ao Opus Dei! -Unzuhause-

Thursday, April 18, 2013

santos do dia - matrimônio com a Mãe

incrementando, reavendo, renovando minha cultura católica, no vigésimo ano de minha conversão"ativa" à Mãe Igreja, com saudades de padre Pedro (velai por mim, meu santo pai de espírito e amigo) e muita angústia pelos tempos bicudos que me deixam cada vez querer meus 16 anos enquanto envelheço.
Punhalada no peito a cada "a Mulher" (no mito de Lacan, tão meu também) que deparo se pegando com outra mina (porra de mercado generalizado, abolindo todas as fronteiras, lei da relatividade e competitividade afetiva universais), com outro cara, com outro ninguém, restando o pesadelo do conformismo chocho de estar sozinho comigo ou sozinho com uma amiga conjugal, sendo que no cruzamento sagrado e atemporal dos olhares com sua imagem profunda em mim eu a "vi", a Mulher, primeiro que todo mundo, que a gente vulgar, que a vulgaridade dela própria, como 3x 4 volitivo de minha alma de desejo. Caso clássico de vocação sacerdotal, celibatária entre aspas, porque é matrimonial com a Mãe, isto é com a Igreja.
-Unzuhause-
Quinta-feira, dia 18 de Abril de 2013
 
Beata Sabina Petrilli, religiosa, +1923
 
 
Nasceu em Siena em 29 de agosto de 1851, segunda filha de Celso e Matilde Venturini. Aos 15 anos se inscreveu na Congregação das Filhas de Maria e é rapidamente eleita presidente. Dentro de um ano fez o seu primeiro voto de virgindade. Em 1869 é recebida pelo Papa Pio IX que a exorta a seguir a norma de Santa Catarina de Siena. Em 15 de agosto de 1873 na capelinha da casa com outras cinco companheiras ela toma o voto de castidade, obediência e pobreza na presença do confessor e com a aprovação do Mons. Enrico Bindi que concede a primeira licença para iniciar uma obra em beneficio dos pobres.   
A nova família religiosa recebe o nome de Congregação das Irmãs dos Pobres de Santa Catarina de Siena. Em 1881 Madre Sabina inicia a fundação do Convento em Viterbo e em 1903 a primeira missão em Belém, no Brasil. A Constituição da Congregação, já enviada ao pontífice, é aprovada em 17 de junho de 1906.
Sucessivamente Madre Sabina toma o voto de “não negar voluntariamente ao Senhor”, o voto de “perfeita obediência” e ao  Diretor Espiritual o voto de “não lamentar-se deliberadamente de nenhum sofrimento externo e interno”e o voto de “completo abandono ao vontade do Senhor”.
Savina Petrilli faleceu em 18 de abril de 1923 as 17:20 horas.
Com 25 casas na Itália, a Congegação opera no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Filipinas e Paraguai. O carisma transmitido pela Madre Sabina e a sua vontade de viver radicalmente para o sacerdócio de Cristo na adoração total e na total dependência da vontade do Senhor, faz como centro de sua via a Eucaristia , continuar a missão de Cristo, o serviço da evangelização, promover a fraternidade e  ajudar o próximo, em  especial aos pobres. Pela visão de  Madre Sabina, a pobreza é um Sacramento de Cristo e pode ser considerado com mistério da fé tal qual a Eucaristia.
Assim a Congregação está sempre a serviço da pobreza e de todos  que sofrem e são  oprimidos.
O Papa João Paulo II a proclamou Beata  na Praça de São Pedro em 24 de abril de 1988.



pipicanaliticamente correto


Gostaria de retomar nossos trabalhos de bê-a-bá de budismo, agora mais diretamente voltado para possíveis lições psicoterapêuticas da filosofia de Gautama. E vou me valer sobretudo de um livro cujo título pode induzir à falsa compreensão de se tratar de mais uma groselhada de auto-ajuda: Como Virar Buda em Cinco Semanas. O autor é Giulio Cesare Giacobbe, professor da Universitá di Genova. Graduado em filosofia, phD não só em psicologia como na  precariedade da existência humana: a perda do seu jovem filho Yuki, ele próprio já um "buda" (iluminado, desperto), e que "faleceu de uma gripe banal", foi o desgosto e crise de iluminação com que Giulio passou de um budismo teórico, portanto equivocado, para a prática.
Giulio, com base no que vimos serem as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo, articula uma leitura do budismo "original" enquanto psicologia, ou seja, (cons)ciência e vivência da alma, bem além de nossos retalhos de filosofia academicista e religião de opressão a totens e tabus, na linguagem freudiana, de matriz tipicamente ocidental, portanto sintoma e denúncia de autoritarismos verticais, patriarcais e metafísicos.
Autoritária foi por exemplo uma senhorinha ontem, em mais uma de  minhas aulas de psicanálise (ahhh, que seria de mim sem elas rs). Eu confesso que, ante sintomas psiquiátricos, conforme a qualidade e ironia do médico narrador que os apresente, eu me desmonto em risos. Foi assim, na aulas no Hospital das Clínicas, que meu analista me "conquistou" faz já faz sete longos e ininterruptos anos. Não é risada de menosprezo ao sofredor psíquico, mas em solidariedade anímica desancadeada pelo poder do chiste, que o próprio Freud disse ser precipitados puros de material inconsciente. São literatura comitrágica, para usar o termo de Beckett, com a qual vou às lágrimas de tanto gargalhar diante da ruína e do ridículo da existência, a começar da minha, pois me vejo sempre no lugar do paciente, sou o meu paciente por excelência, até na dor e no tipo de conflito que quero vir a ajudar outrem a trabalhar - daí a "mania" de me projetar nos diagnósticos clínicos mais sensacionalistas possíveis, sobretudo o da adorável psicose (termo tão assimilado pela indústria cultural que já virou nome de sitcom no Multishow).
E a gorda chata veio ao final da aula me recriminar (me passou pito com pompa por minha conduta "antiética") pelo forte riso involuntário que se me desprendeu ao ouvir do professor (psiquiatra analista, como o meu que é anjo da guarda até no nome rs) a história do paciente que, maníaco-depressivo, no pico de euforia disse que teria alugado um prédio inteiro para a conferência que daria em poucos dias. Não me lembro ao certo das frases do professor, a não ser do "que porra de conferência que precisaria de um prédio inteiro" para acomodar o público sedento da fama e do douto saber de nosso pobre-diabo phD em megalomania risível e digna de piedade.
Ô  gorda chata, vai te catar! Vai repetir as falácias caridosas de tua pipicanálise -não confunda-se essa comédia com a nobre via analítica de Freud e de seus bons seguidores- com tua freguesia e não me enche o saco.
Cacete, momento nada budista da minha parte, mas precisava do descarrego e do riso que faço agora, em troca da ofensa que me reprimi de fazer ontem, drama de neurótico a priori que ri de si via perversão retroativa.
-Unzuhause-

Friday, April 12, 2013

os bibelôs da consciência social


Fiquem tranquilos, vestais dos direitos humanos e da consciência social. Por vossa obra e dos vossos representantes no poder, os vossos bibelôs do crime, essas almas cândidas da juventude corrompida pelo sistema social, poderão continuar a fazer de nós e de nossos filhos brinquedos vivos (até os bibelôs darem o ar da graça) de videogames sanguinários ao vivo nas ruas. Vós deveis pensar com a baba do rancor e o orgulho da moralidade elevada que nossos filhos (aliás são como os vossos, ironia trágica que talvez descubrais só quando alguém de vossas famílias for ceifado por um de vossos bibelôs fora de controle) talvez até mereçam o terror por que passam todos os dias. Culpa nossa, pais burgueses que somos e que os enchemos de videogames de brinquedo.  Cadeia de culpas que remontam até o Adão e Eva da classe dominante, história de pecado que esperava por redenção pelos iluminados da consciência social. E a redenção chegou: a tirania pétra da consciência social elevada e dos direitos humanos para todos, até para os desumanos. Com o requinte do direito a saideira na véspera do dia em que vós decidistes que os desumanos mirins "viram" desumanos adultos que sabem e podem pagar pelo fazem..
No depoimento a seguir, lemos menos rapapés e frescuras do que vossos discursos jurídicos e constitucionalistas, e mais verdade -artigo em falta na sociedade da corte dos caras de pau com seus bibelôs vagabundos como atestado de consciência social.
-Unzuhause-

(texto em circulação no Facebook)
Acontecido em 09/04/2013 o jovem Victor Hugo Deppman foi cruelmente assassinado, quer um motivo pra ter sido assassinado? É eu também gostaria de entender pois Victor não reag...iu ao assalto e mesmo entregando o que esse ANIMAL queria foi alvejado na cabeça, como Victor é um guerreiro seu coração não parou de bater ate a sua chegada no hospital resistindo tudo com todas as forças, mas infelizmente uma força maior o levou, Victor era um rapaz feliz alegre, sorrindo passando sempre um ar de paz e tranquilidade, para quem o conhecia sabe que era um menino batalhador sem luxos, humilde agora o animal que matou o meu amigo completa maior idade amanha e será tratado como incapaz de responder por seus atos ?

Aonde que uma pessoa de 17 anos não sabe o que faz? Estou aqui para pedir justiça não só pela morte de Victor Hugo Deppman mais sim por todas famílias e amigos de pessoas assassinadas por menores de idade que ficam sem o conforto da justiça, tratando esses animais como indefesos coisa que não são.

Gostaria muito de poder rever meu amigo e o abraçar e dizer o tanto que ele faz falta mas infelizmente isso não posso fazer mais posso tentar conseguir justiça nesse pais imundo que trata ANIMAIS CORVADES como esse como indefeso, repasse essa mensagem não só pela alma de Victor mais sim pela alma de todos que já passaram por isso e por aqueles que futuramente pode passar e sentir a mesma indignação que estou sentindo pode acontecer com você ou com alguém que você ama.

• Eu sei que pode parecer uma coisa inútil, mas se um não toma a iniciativa o Brasil vai continuar assim.

Eu voto na Lei Victor Hugo Deppman –Onde diminue a idade penal

Wednesday, April 10, 2013

diário de uma formação analítica - o beijo


"Kiss my mind and my body will follow".
Frase preciosa que colho no facebook -meu riozim de pescarias enquanto pratico o zen da arte de teclar ideias descomprometidas senáo com meu tesáo do pensamento. Tesáo de ser beijado no espírito. Beijo desses tive hoje de manhã, na minha escola de psicanálise. Depois de semanas de muito mau humor da minha parte. Engraçado que, justamente numa manhã de amor com a sabedoria prática e teoria da natureza humana de S. Freud, me volta à tona meu enlaçamento pessoal no trabalho - isto é, o trabalho sobre Narcisismo, que iniciei ano passado mas não tive tempo de encerrar no prazo curtíssimo que nos dão para a entrega do trabalho semestral. Ao contrário de uma pós-graduação, o "paper"não fica para depois do semestre, e sim para o meio dele. Isso me levou, ano passado, a deixar de lado o cerrado estudo que fiz da Introdução ao Narcisismo e dos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Entreguei um artigo velho, pouco recauchutado, que apresentei numa escola lacaniana anos antes. Hoje vejo que errei. Pois amor encarnado -Verbo feito carne- havia é no meu encontro pessoal com Freud no agora, não no meu Lacan de cinco anos atrás. 
Hoje as duas aulas foram interessantíssimas. A primeira, sobre Totem e Tabu, trazendo uma espécie de meta-fábula, uma fábula criada pelo professor para ilustrar o esquema, também mítico, com que Freud nesse livro clássico especula sobre a origem da civilização a partit do parricídio. Outra hora volto a isso. Mas, já excitado intelectualmente, me vi coroado na segunda aula, com uma professora belíssima e de uma inteligência assombrosa. Nossa, tudo voltou a fazer sentido, apesar de os lacanianos defenderem a escrita complicada  de seu mestre dizendo que não é bom compreender demais! Desculpem, quero um autor que me dê tesão ser lido. Isso, lê-lo e ser lido por ele. Freud é assim, Jung também. Se for autora, tanto mais delicioso. Hoje encontrei uma autora. Com autoridade. Diante de uma Mulher assim, sou só um garoto querendo de novo seduzir sua professora gostosa de Geografia. Freud explica.
-Unzuhause-

no paroxismo da morte, a Vida


levado ao paroxismo (decreto de morte ao próprio Criador), o ódio em cruz se transmuta em amor que nos faz rebrotar, como rosa do asfalto que se deixa contemplar mas nunca pisotear, nem mesmo arrancar para guardar de decoração
-Unzuhause-


Deus se deixou ser pregado na cruz pelos pecadores para dar a conhecer ao mundo o Seu amor, para que a nossa capacidade de amar, aumentada por tal constatação, se fizesse cativa de amor por Ele. Assim, o poder eminente do Reino dos Céus, que consiste no amor, encontrou modo de Se exprimir na morte de Seu Filho, para que o mundo sinta o amor de Deus pela Sua Criação.
Santo Isaac

Tuesday, April 09, 2013

o leão e o veado


À tarde estava fora de casa, e foi em meio à correria e à surpresa dos achados bíblicos sobre "A Caça" que postei o texto anterior. Acho mais legal, e mais justo com meu processo livre-associativo, abrir texto novo para prosseguir com mais detalhes de simbologia úteis para a compreensão mais profunda deste que, pra mim, é junto com "Amor" e -num registro infinitamente diverso, que me alicia por razões, se é que não pura emoção, bem mais pessoais- e o hollywoodiano "O Lado Bom da Vida", um dos meus três filmes preferidos até aqui este ano.
Vejo em alguns sites explicações sobre o simbolismo teriomórfico (relativo a animais) em torno dos evangelistas. Por exemplo aqui:
"(...) [Trata-se de] uma tradição antiquíssima da Igreja Católica, que através dos Padres da Igreja, logo no início do cristianismo, identificaram no livro do Apocalipse narrado por São João, no capítulo 4, verso 7, a alusão aos 4 evangelistas:
'O primeiro animal vivo assemelhava-se a um leão; o segundo, a um touro; o terceiro tinha um rosto como o de um homem; e o quarto era semelhante a uma águia em pleno vôo'.
É exatamente dessa passagem que a iconografia e a arte católica fazem menção em suas diversas obras sacras espalhadas pelo mundo. São Tomás de Aquino explana muito bem sobre essa interpretação dada pelos antigos padres da Igreja em sua "Explicação encadeada dos quatro Evangelhos", aonde com profunda maestria versa sobre a indentificação de cada figura do trecho acima citado a cada um dos evangelistas.
A figura do homem representaria a São Mateus, porque este deu enfoque especial em sua narração a humanidade de Jesus Cristo.
O leão, a São Marcos, porque este dá atenção a sua ressurreição e a forma gloriosa com que Cristo saiu de sua tumba. O touro fica para São Lucas, porque este nos detalha mais sobre o sacerdócio de Jesus, e o touro é o animal que representa o sacrifício. E finalmente a águia fica para São João, porque este penetra com o olhar preciso de uma águia a profundidade dos mistérios de Deus".
http://www.veritatis.com.br/doutrina/a-palavra-de-deus/1416-o-leao-a-aguia-o-touro-e-o-homem-o-que-significam
Lembrei-me de passagem do delicioso O Homem e Seus Símbolos, em que Jung relata que um indiano, após uma visita à Inglaterra, contou aos seus amigos que "os britânicos adoravam animais, isso porque vira inúmeros leões, águias e bois [ou touros, referindo-se sempre a são Lucas, e sempre com conotação sacrificial] nas velhas igrejas. Não sabia (tal como muitos cristãos) que estes animais são símbolos dos evangelistas, símbolos provenientes de uma visão de Ezequiel que, por sua vez, é análogo a Hórus, o deus egípcio do Sol e seus quatro filhos"
Mais à frente, no mesmo texto, vemos referência justamente à caça aos veados, de tanta importância no nosso filme. "Uma das inúmeras imagens simbólicas ou alegóricas do ATO SEXUAL é a caça ao veado [deer hunt, no original em inglês]. (...) As implicações sexuais com a caça ao veado estão acentuadas em uma canção folclórica medieval chamada O Guardador:
Na primeira corça em que atirou ele não acertou.
A segunda que ele parou, ele beijou.
E a terceira fugiu para o coração de um jovem.
E ficou, oh, entre as verdes folhas".
Que o protagonista seja Lucas, no filme de Vinterberg, nos remete assim à dimensão sacrificial tão fundamental nos ritos primitivos, por exemplo a cerimônia de expurgo dos bodes expiatórios, miasmas em que a coletividade projeta toda impureza, "pecado", demônio, tudo que precisa ser expulso do corpo (senão do pecador, como na fogueira inquisitorial, ao menos do corpo social).

A "caça ao veado", se remete ao ato sexual em geral, tem, claro, entre nós, conotação de homofobia. Aliás, insight de última hora: sugere-se a dada altura do filme um possível  homossexualismo do jovem Marcus, filho de Lucas.  E seu nome, também de evangelista, é, como vimos acima, símbolo da virilidade e renascimento "leoninos", compatíveis com o personagem afinal mais corajoso do filme, que luta pelo pai mais que o próprio pai.  Paradoxal que paire justamente nele a "suspeita" do amor que não ousa dizer o nome, supostamente culpado de ser a renúncia do homem à sua masculinidade e macheza naturais. É preciso ser muito homem para ser gay.
Não lidamos bem com o sexo, insistimos em fazer dele causa de temores, suspeitas e discriminação, mesmo um século depois das primeiras revelações de Freud. Somos ainda tão provincianos e pequenos e histéricos (senão mesmo paranoicos, quando o recalque volta como delírio) quanto a cidadezinha opressiva de "A Caça".
-Unzuhause-

a fórmula secreta (bíblica) de "A Caça"

O professor carneirinho em cena de "A Caça"


"Pois a sorte do homem e a do animal é idêntica: como morre um, assim morre o outro" (Eclesiastes 3, 19)

Serendipianamente - meu Deus, estará Édipo Rei em todas as coisas?? brincadeira, serendipismo é a descoberta "casual", por exemplo no processo que levou à penicilina. Serendipianamente foi como descobri nas Sagradas Escrituras o que vim desde ontem formulando com meus botões, sob o impacto estético e filosófico do filme "A Caça", que vi ("estudei" diante da telona do cinema) este fim de semana. Mamãe tinha já cantado a pedra, em termos mais diretos: "Um dia da caça, outro do caçador". Não sei se esse ditado sobrevive em dinamarquês. Mas a sabedoria bíblica sim, porque é anterior a todo dinamarquês, holandês, neandertês, é sabedoria verdadeira neste e em todos os mundos possíveis. Ao contrário de Kant, adoto a moral por prudência pragmática, não por sua racionalidade intrínseca. Sei que o mal que pratico volta pra mim três vezes pior.
Se pudesse não me levantaria num metrô da Sé às seis da tarde só porque o cara na minha frente tem mais idade que eu. Se o Estado e a "Humanidade" não me respeitam (superlotação), porque eu daria a outra face? Nem sempre a dou, egoísta que sou. Mas sei que devo dar, porque na viagem seguinte serei eu o "velho" precisando que um jovem egoísta compreenda que ele, velho, precisa mais daquele mesmíssimo banco do que eu. Ele é um eu, eu sou um outro (Rimbaud): princípio primeiro da imaginação moral.
Os antigos faziam rituais expiatórios ao matar um animal, por saberem da gravidade (conquanto necessária) daquela violência, e para que a alma do corpo morto prosseguisse viva e "de bem" com os comilões assassinos. Não vemos sinal disso no fantástico filme de Vinterberg. Vemos isto sim cantorias bêbadas, das quais  participa o próprio Professor "Carneiro", isto é Lucas, nome do evangelista que, na vetusta simbologia medieval, encarnava o Touro, animal de sacrifício (Lc 1, 22s). Mateus é o Anjo ou Homem alado, Marcos é o Leão Alado, João é a Águia.
Jung amava esses "detalhes" da vida interior dos símbolos cristãos. Tão mais lindos do que, no filme, as cabeças de veado e multidão de madeiras cortadas decorando a casa de "Theo", o amigo covarde.
-Unzuhause-

ecologia como imaginação moral


Vejo no facebook um imagem em que, num "universo paralelo", somos as cobais de experimentos científicos de dois ratos mal-encarados e de jaleco branco.
Já dizia Camus que ao homicida falta sobretudo imaginação. Eu leio nas entrelinhas que se trata aqui de imaginação moral, no sentido burkeano, penso eu: o acervo de valores e o senso de dignidade que a Humanidade inventa e sedimenta em sua dura aventura histórica. Na ampla social-democracia cósmica a que tende o mundo global e de consciência ecológica, dá mais trabalho ser moral, porque imaginar o sofrimento alheio vai cada vez mais além da escala de nossa família, cachorrinho predileto, nosso clã, tribo, nação, espécie! Como eu dizia anos atrás, não se trata de ser bonzinho com o HIV, precisamos matá-lo, assim como o vegetariano que come plantas tão assassinadas quanto um frango ou porco. A imaginação moral é trágica no sentido de que vê limites em tudo, até no que podemos ter a sensatez de escolher como ideais. Mas é, como em "A Caça", ver o senso profundo de maldição que há na cultura de morte (como diria João Paulo II) que praticamos contra nós mesmos, contra o outro, contra o irmão não tribalesco, mas universal.
-Unzuhause-

meu tribunal só absolve JJ por ser doido de pedra (o reú e o tribunal)..


João Pereira Coutinho
Os canalhas da Humanidade
in: Folha de S. Paulo, 09 de abril de 2013


Só canalhas amam a Humanidade. E só grandes homens são capazes de exercer a sua humanidade
QUE SORTE, Brasil: nas livrarias há uma nova edição das "Reflexões sobre a Revolução na França" (Top Books), o clássico de Edmund Burke que praticamente inaugurou o conservadorismo moderno. Digo "nova edição" porque existia uma antiga, da Universidade de Brasília, que li e não gostei.

Essa nova, pelo contrário, tem tradução competente de Eduardo Francisco Alves e permite revisitar os argumentos centrais de Burke, não apenas contra a Revolução Francesa mas contra o pensamento utópico e suas consequências potencialmente destrutivas.
Deixarei esses argumentos para um próximo artigo. Hoje, fico com Jean-Jacques Rousseau. Nas "Reflexões", Rousseau é tratado com uma dureza exemplar: o "filósofo da vaidade", dirá Burke. Alguém que era capaz de proclamar em público o seu amor pela humanidade -mas, em privado, não hesitara em abandonar os filhos na roda dos enjeitados.
Durante décadas, acadêmicos sofisticados nunca perdoaram essa crítica pouco sofisticada de Burke. Conheço alguns. A filosofia de Rousseau é uma coisa, dizem eles; sua relação com os filhos, outra. Nenhum intelectual deve ser julgado à luz da sua conduta privada.

Concordo. Até certo ponto. Anos atrás, ao ler a autobiografia que o grande cronista inglês Auberon Waugh escreveu ("Will This Do?", Carroll & Graf, 288 págs.), encontrei um retrato demolidor sobre o pai, o inultrapassável Evelyn Waugh.

Uma passagem do livro ficou célebre: acontece quando, depois da Segunda Guerra Mundial e com a Inglaterra a viver os horrores do racionamento de comida, o pai Evelyn come na frente dos filhos esfaimados todas as bananas disponíveis na mesa de jantar.
Era a primeira vez em anos que as crianças viam bananas. E foi a última vez que Auberon levou a sério o moralismo do pai.

Entendo a desilusão do filho. Mas eu não sou filho de Evelyn Waugh. Sou leitor. E, como leitor, não existe qualquer abismo entre a crueldade privada e a sua colérica persona pública.

Nos diários de Evelyn Waugh, os filhos só existem como objeto de desprezo ou coisa pior. E, sobre os romances, o óbvio: Evelyn Waugh nunca enganou. O seu desprezo sarcástico pela Humanidade (com maiúscula) é a medida de toda a obra.

Minha náusea é só com os que enganam: intelectuais que gostam de dar sermões humanistas ao público lacrimejante (como nas peças de Arthur Miller) e depois esquecem os seus filhos com síndrome de Down em instituições psiquiátricas, rasurando o fato das suas respectivas memórias (idem Arthur Miller).

Essa hipocrisia repugnava igualmente Burke. Não apenas por motivos éticos. Também por motivos políticos: o problema com os "filósofos da vaidade" não está simplesmente na dissonância entre o que dizem e o que fazem.

O problema está na forma como, recusando pensar politicamente a partir do seu "pequeno pelotão" (uma ideia que Burke recolheu em Adam Smith), eles fogem para grandes categorias abstratas (a humanidade, a igualdade, a raça, o proletariado etc.) e infligem transformações radicais e violentas sobre a exata realidade da qual fugiram.
Em rigor, Burke não estava preocupado com os pobres filhos de Rousseau. O que ele não podia tolerar era que a atividade política pudesse ser dirigida por alguém que, em nome da sua própria vaidade, trocara as circunstâncias reais por puras fantasias dogmáticas.
Só canalhas amam a Humanidade (com maiúscula). E só grandes homens são capazes de exercer a sua humanidade (com minúscula). Homens como o anônimo Manuel Condez, 60, um ex-bancário que ajudou o filho com paralisia cerebral a terminar o curso universitário.

Conta o jornalista Jairo Marques, em excelente matéria para esta Folha no último domingo: "O pai assistiu a todas as aulas, anotou as lições dadas pelos professores, auxiliou o filho na feitura das provas escrevendo no papel aquilo que ele lhe soprava".

E quando homenagearam o pai no dia em que o filho Marco, 26, recebeu o diploma, o pai respondeu: "Não fiz nada demais".

Não fez nada demais: entregava mais depressa os destinos de um governo a esse homem do que a grande parte dos meus colegas literatos.