domingo, março 31, 2013

resenhas para a Folha - 30/03/13

Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
-Caio Liudvik-

Insurreição da Memória e da Palavra
O incalculável valor histórico deste livro só tem rival à altura na beleza da protagonista e a da condição humana. Em "O Que os Cegos Estão Sonhando? ", somos lançados à fornalha infernal –sem anjos bíblicos para nos redimir, mas somente a coragem e o acaso para resistir- com Lili Jaffe, cujo nome de solteira era Lili Stern. Ela era então uma jovem sérvia judia capturada pelos nazistas e que passou 11 meses em Auschwitz, , registrando depois a experiência em diário. Ela é também a mãe de Noemi Jaffe, escritora que se junta à "estranha consciência literária" materna em análise do documento ora publicado pela primeira vez (o original está depositado no Museu do Holocausto, em Jerusalém).

Além de Noemi, a filha Leda Cartum, neta de Lili, esteve em 2009 no campo de extermínio, e os textos das duas se somam ao da matriarca -metaforizando em textos e laços amorosos de três gerações, o poder da memória, senão como antídoto, ao menos como insurreição do humano contra o Mal que também o habita e desfigura.

"Não se pode, não se pode, não se pode sentir a mínima tentação de transformá-la em heroína por causa deste sofrimento atroz", observa Noemi, com ênfase que sintetiza o tom sóbrio de todo o material, sem sentimentalismo ou laivos de uma canhestra "vaidade de vítima".
"Em contraposição à língua da literatura, não existe língua mais ordenada do que a do campo de concentração", observa a certa altura a filha. "Lá, a gramática nunca sofreu seqüestros, experimentações, torções. Era correta, perfeita, para que o mal pudesse ser técnica e habilmente perpetrado". O comentário é valioso também porque dá a ver algo do encanto de outro livro de Noemi, "A Verdadeira História do Alfabeto e Alguns Verbetes de um Dicionário".

Um texto de difícil definição senão como "52 instantâneos de linguagem constelados entre a ficção e a história, a verdade e a imaginação", segundo texto que acompanha a edição. Pequenos contos, que se pretendendo "a verdadeira história", zombam de nossos mecânicos critérios do verdadeiro.

Noemi inventa uma genealogia das 26 letras do abecedário. Por exemplo, conta que o "A" foi criado por Epicuro quando, ruminando a teoria de Demócrito, buscava uma letra que preenchesse e simbolizasse os "vácuos amorosos", os vínculos de atração e desejo entre os átomos.
Sua escrita nos incita a um reenamoramento com a palavra. A um nova capacidade de nos espantar com a linguagem e seu dom de se insurgir, como no dramático diário da matriarca, contra o inumano e dar nome a duas das mais belas e irrealistas, de tão verdadeiras, invenções do imaginário: a liberdade e o amor.

AVALIÇÃO –

ÓTIMO

ÓTIMO


TEMPOS DE REFLEXÃO

Este segundo volume da coletânea de ensaios da escritora sul-africana Nadine Gordimer (Nobel de Literatura em 1991) abrange o período entre 1990 e 2008. Tem portanto o duplo atrativo de sua atualidade imediata em nosso mundo pós- 11 de setembro, por um lado, e, por outro, a temperatura histórica excepcional dos dias da libertação de Mandela, após 27 anos de cárcere, e da conquista dos direitos civis e políticos da maioria negra da África do Sul.

Pela lucidez engajada de Gordimer, o fim da segregação racial transparece não como particularismo local ou universalismo genérico. Diz algo também de especial a nós brasileiros, suscitando certa nostalgia de tempos como o das Diretas-Já, em que se pôde, parafraseando o relato da escritora sobre as primeiras eleições livres em seu país, sonhar a política como "ressurreição" coletiva e emoção sagrada conquanto tão laica, antes da inevitável banalização com o tempo e das decepções. Outros destaques são a divertida auto-entrevista, com "perguntas que os jornalistas não fazem" e a reflexão sobre o ofício do escritor.

AVALIAÇÃO –ÓTIMO


SOMBRINHAS

A tradição platônica veria no mundo das "sombras" sinônimo de simulacro e inverdade. Mas, da caverna da "República" de Platão ao quarto do garotinho e de seu gato em "Sombrinhas", deixamos a severidade adulta de lado e redescobrimos o prazer de brincar com nossa condição entre luz e treva.

Na história infanto-juvenil de Jean Galvão, cartunista da Folha, o gato acha no "fundo do baú" uma lanterna e a joga com o rabo na cabeça do menino, não para o machucar mas para o despertar. E o menino, sorridente como quem acaba de ter uma grande ideia (outro tipo de luz na escuridão), acende a lanterna, sai da cama, e se põe a brincar com o bicho das sete vidas, muito associado à mitologia dos mágicos.

Os dois, um com as mãos, outro com o rabinho, projetam nas paredes formas de cachorro, de pássaro, de porco, de touro, até a pilha acabar, a luz da sala ser acesa, e se tornar necessário, para a brincadeira prosseguir, sair do conforto de casa e subir ao topo do mundo, ao encontro das luzes e sombras de sol e de lua.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO

 

PAPAI URSO

Se para os nazistas "o trabalho liberta" (divisa de Auschwitz), para os humanos ele embrutece, quando desacompanhado de prazer e liberdade.

É a lição de clássicos da alienação metafísica e histórica do homem como "A Metamorfose" de Kafka, e é o que reencontramos, na "ingenuidade" infanto-juvenil desta historinha de Cecília Eudave, com ilustrações de Jacobo Muñiz.
Trata-se aqui da metamorfose, após o início de um novo trabalho, de um pai-herói num monstro de estupidez e alheamento (uma das conotações da palavra alienação). As palavras deram lugar a grunhidos de um urso mal-encarado, de olhos violentos e péssimo humor. "Ficou claro que o trabalho de papai era terrível". Em linguagem contemporânea, é o famigerado "estresse", ou, na imaginação da filha, um certo "Senhor Estresse", que tomou conta de seu pai, antes dócil companheiro de levá-la ao cinema, à sorveteria, às aulas de balé.
Ao contrário de muitos de nós, porém, a criança não se conforma e não acha "natural" vender assim a alma, ou a força de trabalho, e se lança numa também estressante correria para tentar livrar o pai do visitante tão indesejável.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO

páscoa zen-cristã


"O que há de comum entre o pensamento judaico-cristão e o pensamento zen-budista é a consciência de que preciso abdicar da minha 'vontade' (no sentido do meu desejo de forçar, dirigir, estrangular o mundo fora de mim e dentro de mim) a fim de ser completamente aberto, receptivo, desperto, vivo. Na terminologia de Zen chama-se a isto, frequentemente, de 'esvaziar-se' - o que não tem nenhum significado negativo, mas de receptividade para receber. Na terminologia cristã isto se denomina, amiúde, 'anular-se e aceitar a vontade de Deus' (...) [Mas numa interpretação paternalista da fé cristã, também muito explorada pelas tiranias laicas do século XX, que jogam com o nosso 'medo à liberdade' que Fromm estudou num de seus clássicos de psicanálise política] em lugar de tomar suas decisões, o homem as deixa a cargo de um pai onisciente e onipotente, que vela por ele e sabe o que lhe convém. Claro está que, nessa experiência, o homem não se torna aberto e receptivo, senão obediente e submisso. A obediência à vontade de Deus se processa melhor quando inexiste o conceito de Deus. Paradoxalmente, obedeço realmente à vontade de Deus quando dele me esqueço. O conceito do vazio Zen implica o verdadeiro significado da renúncia à própria vontade, sem, todavia, o perigo de regressar ao conceito idólatra de um pai ajudador".


Erich Fromm, "Psicanálise e Zen-Budismo"

segunda-feira, março 25, 2013

Semana Santa para além de feriado (1) - o amor a "dois real"


Meu retorno aos braços da Madre Igreja traz à tona não só as delícias da nostalgia e da redescoberta. Mas também embates difíceis mas inevitáveis se afinal, como se pretende, a cultura moderna é a era inagurada pela palavra-chave de Kant: crítica! Crítica portanto aos próprios fundamentos da cultura que se ergueu criticando os dogmas do passado. Para que não se trate de uma mera substituição de dogmas velhos por novos, e por sacedotes (nossas brunas surfistinhas e outras estrelas da cultura da vagabundagem ética)  obedecidos hipnoticamente, e com direito a mandar para o limbo (da palavra cassada, da avacalhação do direito de sequer levantar pontos de vista alternativos) os desobedientes, os hereges, os que se recusam ao coro dos contentes sob a batuta de algum Pedro Bial. Não quero aqui articular uma resposta em bloco para uma questão - o aborto- que tampouco poderia ser levantada assim em bloco, simplisticamente, tantas são suas nuances. Mas com a forte imagem a seguir, queria apenas metaforizar um primeiro mal-estar que me chega com os gritos e reclamos de legalização irrestrita: a perda do sentido sagrado da vida humana, perda que repercute em tantas dimensões do massacre cotidiano que nos ameaça e nos avassala. Se o sagrado é para poucos, numa era de politeísmo de valores (Max Weber), que se fale então no esperanto laico de uma derrota que afeta a todos e põe em risco a própria civilização: a perda do imperativo de responsabilidade pelos nossos atos, a difusão da figura mesquinha de um "homem sem gravidade" de que fala importante analista lacaniano.
A existência desprovida da densidade moral que a dor de ser consciente por si só acarreta, por mais dopados que estejamos entre anestésicos químicos, sorridentes bonecos de vento de posto de gasolina e outros tóxicos de nosso escapismo e medo da angústia . O amesquinhamento da seriedade do envolvimento amoroso e do que deveria ser sua expressão mais profunda, a intimidade sexual, que se não se limita à reprodução, tampouco se dissocia dos "riscos" -tendências naturais, o "crescei e multiplicai-vos" que está, tanto quanto o morrer e apodrecer, inscrito nas regras elementares da vida material. Se não tem direito compulsório a uma última palavra de tipo autoritário, a Igreja, e todos os setores da sociedade civil contrários ao aborto, merecem direito de inclusão no debate público, sem serem de antemão rotulados com desdém e arrogância burra por parte dos carnavalescos perpétuos da cultura do amor a "dois real", do sexo fútil, da alegria e banalidade de matar e de morrer.
-Unzuhause-


sábado, março 23, 2013

não sei


"O imperador Wu de Liang perguntou ao grande mestre Bodhidharma: 'Qual é o significado supremo das verdades sagradas?' Bodhidharma disse: 'Vazio, sem o sagrado'. O imperador disse: 'Quem está olhando para mim?' Bodhidharma respondeu: 'Não sei'".


The Blue Cliff Record (coletânea de koans do budismo zen)

abc de budismo- Concentração Reta


Definindo-se como "mente" o conjunto de nossos pensamentos, emoções e sensações, podemos definir a Concentração Reta como a observação desprendida da mente. E assim concluiremos esta brevíssima apresentação do Nobre Caminho Óctuplo da cessação do sofrimento segundo os budistas.
Trata-se, recapitulando algo das lições passadas, de um leque de atitudes cognitivas e comportamentais graças às quais o indivíduo se habilita à salvação, isto é, à libertação definitiva do ciclo kármico dos "traumas" de nascer, envelhecer, adoecer e morrer, sofrimentos aterradores para quem ainda está agrilhoado à roda das encarnações e à ilusão egocêntrica, com seus medos, ansiedades, aversões, cobiças, mal-estar.
"O vento assobia no bambu,
e o bambu dança.
Quando o vento cessa,
o bambu fica imóvel".
Os versos deste monge budista aludem ao espetáculo discreto, de sutis transformações, com que a vida mais corriqueira se nos revela na Concentração Reta, atitude que se entrelaça intimamente com as demais dimensões do Nobre Caminho Óctuplo. Aliás, os preceitos como um todo dão impressão, a nós ocidentais, de se multiplar em terminologias para o que, fora deste registro discursivo e intelectual, aliás, muito insuficiente, seriam umas poucas decisões essenciais, eminentemente práticas e simples, do indivíduo em busca de sua liberdade e serenidade. Decisões de esvaziamento, desapego, limpidez, presença no presente, corpo no corpo, respiração, compaixão, consciência ampliada da sinfonia sinestésica de entes e acontecimentos que, por vezes sem saberem uns dos outros, transcorrem como o curso d' água indiferente, metáfora aliás que, lembrando outro grande contador de parábolas e símbolos extraídos da vida cotidiana, aparece no discurso de Buda que reproduzimos a seguir.
-Unzuhause-



"Irmãos, pratiquem a Concentração Reta. A Concentração Reta é o mais nobre princípio do Nobre Caminho Óctuplo.
A Concentração Reta consiste em se concentrar no pensamento.
A concentração no pensamento consiste na observação desprendida dos próprios pensamentos.
Observem com desprendimento seus pensamentos como observam com desprendimento o voo longínquo das aves na paz da noite.
Aprendam com a terra: independentemente de estar sendo salpicada com flores cheirosas ou coberta com fezes, a terra recebe todas as coisas com equanimidade, sem preferências ou aversões.
Quando um pensamento nascer, agradável ou desagradável, não deixe que ele os aprisione e não se tornem seus escravos.
Observem-no com desprendimento e deixem-no ir: ele não crescerá dentro de vocês e não produzirá o fruto envenenado do sofrimento.
Se vocês fizerem seus pensamentos crescerem, eles se tornarão poderosíssimos e tomarão conta de vocês, escravizando-os.
Ao observarem com desprendimento seu pensamento, vocês descobrirão uma grande verdade insuspeitada: que seu pensamento não é o produto da vontade própria, mas uma planta autônoma e independente, alimentada pelo apego, e que suas raízes se aprofundam no medo.
Ao praticar a observação desprendida do pensamento, os pensamentos vãos cessarão e vocês alcançarão a Consciência Pura.
A Consciência desprendida do pensamento, quando praticada constantemente, conduz à Libertação.
Irmãos, antes de aprender a observar o pensamento com desprendimento, devem aprender a observar e a acalmar sua respiração, seu corpo e suas emoções.
(...)
Com a concentração, vocês poderão enxergar profundamente a naturaza das cinco modalidades da percepção: sensações, emoções, pensamentos, vontade e consciência.
As cinco modalidades da percepção [skandha] são como cinco cursos d' água nos quais não nos é dado encontrar nada de separado e de permanente: o assim chamado 'si'.
Ao meditar sobre as cinco modalidades da percepção presentes dentro de vocês, verão a íntima e estarrecedora relação existente entre vocês e todas as coisas do universo.
Observem, em particular, suas emoções.
As emoções são a própria matéria de seu sofrimento.
Elas têm origem no pensamento.
Ao verem a origem das emoções no pensamento, vocês compreenderão sua natureza impermanente.
Verão como as emoções nascem e morrem, tal como o pensamento e como todos os fenômenos mentais e materiais.
Ao vrm que as emoções são impermanentes, aos poucos vocês se tornarão equânimes diante de seu nascimento e de sua morte.
A maior parte das emoções provém do pensamento errôneo, que considera permanente aquilo que é impermanente.
Erradicando as visões errôneas, o sofrimento cessa.
Quando vocês tiverem aprendido a praticar a consciência da respiração e do pensamento, poderão obter facilmente o vazio mental.
O vazio mental é a condição natural da mente, como o repouso é a condição natural do corpo".

sexta-feira, março 22, 2013

abc de budismo - Atenção Plena Reta


Na reta final do Nobre Caminho Óctuplo, a sétima estação é das mais importantes para o conjunto do processo: a Atenção Plena Correta. A fenomenologia nos ensina que toda consciência é consciência "de" alguma coisa, , é vazia, insubstancial, não existe senão projetada no objeto de sua atenção. A psicologia budista antecipa esse ensinamento de Husserl: estamos sempre dando atenção a alguma coisa. Atenção adequada ou inadequada. Adequada é quando estamos inteiramente no momento presente; inadequada, quando estamos atentos a algo que nos afasta do aqui e agora. "A Atenção Plena Correta", explica mestre Thich Nhat Hanh, "tudo aceita, sem julgar nem reagir. É inclusiva e amorosa. Sua prática consiste em buscar formas para conseguir  manter a atenção adequada durante todo o dia".
O termo sânscrito equivalente a atenção plena, smriti, significa "lembrar-se"; lembrar-se de retornar constantemente ao instante presente.


Já o ideograma chinês para essa "atenção" tem duas partes: a de cima quer dizer "agora", e a de baixo, "mente" ou "coração".
As palavras atribuídas ao próprio Iluminado são especialmente potentes e auto-explicativas acerca deste olhar profundo e amoroso para o presente (dom) que é o presente (agora), ante o céu azul, a chuva, o roseiral, o olhar da mulher amada e, por que não, o trabalho, o metrô (se até o papa fazia questão do metrô nas andanças em Buenos Aires..).
Numa era de tantas ansiedades, tensões, conexão virtual com todos e ninguém, não se "esparramar" em fantasmas e projeções é uma ascese difícil, conquista de cada dia, ou melhor, de cada agora.  
-Unzuhause-

"Vocês são crianças inteligentes e tenho certeza de que podem compreender e colocar em prática aquilo que lhes direi.
Crianças, ao comerem uma tangerina vocês podem fazê-lo de forma consciente ou distraidamente.
O que significa comer uma tangerina conscientemente?
Comer uma tangerina sabendo que a estão comendo;
Saboreando plenamente a fragrância e a doçura.
Crianças, o que significa comer uma tangerina sem consciência?
Comer uma tangerina sem saber que a estão comendo.
Não saboreando a fragrância e a doçura.
Ao fazerem isso, vocês não poderão apreciar a natureza esplêndida e preciosa da tangerina.
Se vocês não tiverem a consciência de a estarem comendo, a tangerina não será real.
Se a tangerina não for real, quem a estiver comendo também não será real.
Eis o que significa comer uma tangerina sem consciência.
Crianças, comer uma tangerina com atenção significa estar verdadeiramente em contato com a realidade".

quinta-feira, março 21, 2013

Livrinho Vermelho





Amigos, a Vozes está lançando versão reduzida (sem as imagens, mas com texto integral) do Livro Vermelho, de Jung. O preço, pelo que vi ontem na Livraria Cultura, está na faixa dos R$ 80 (a edição original passa de R$ 500). Vale a pena, até pelo fato de que, em dimensões de livro comum, torna o estudo em si da obra muito mais confortável. Permite-se uma espécie de divisão de trabalho intelectual para o leitor, que no livro integral pode se concentrar na contemplação estética dos magníficos afrescos de inconsciente -este sim!- "junguiano", porque do próprio Jung. Não admito que chamem meu inconsciente de fulaniano ou sicraniano, dou eu mesmo meu nome próprio para esta ficção (=construção) analítica. Ah, e na PUC, no tradicional espaço de promoção de livros no Térreo, ambas as edições estão com 30% desconto, esta semana apenas. Corram!
-Unzuhause-
 

Exercícios Espirituais na Vida Cotidiana

 Religião: Exercícios Espirituais

Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola na Vida Cotidiana (EVC)
A versão dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EVC), apresentada neste site, é uma adaptação on line das experiências dos EVC já desenvolvidos por orientadores jesuítas e Centros de Espiritualidade Inaciana do Brasil.




I - Apresentação
1) O que são os Exercícios Espirituais (EEs) de Santo Inácio de Loyola?
“Entende-se, por Exercícios Espirituais, qualquer modo de examinar a consciência, meditar, contemplar, orar vocal ou mentalmente e outras atividades espirituais” (Inácio de Loyola). Trata-se, pois, de uma metodologia de desenvolvimento espiritual, proposta por Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (Ordem Religiosa dos Padres e Irmãos Jesuítas). A sua primeira redação, pelo próprio Inácio, se deu no ano de 1522, refletindo sua experiência espiritual. Mais tarde, foi enriquecida com sua experiência apostólica e sua formação intelectual (Paris, 1528-1535 e Veneza, 1536-1537).
2) Para que servem os Exercícios Espirituais?
A finalidade dos EEs pode ser resumida em três grandes metas:
- ser uma “escola de oração”, promovendo uma profunda união com Deus;
- desenvolver as condições humanas e espirituais para que o exercitante possa tomar uma decisão importante na sua vida;
- ser uma ajuda para a pessoa alcançar a liberdade de espírito, através da consciência do significado de sua existência, discernindo o que mais a conduz para a vida em plenitude.

3) O que significa “método de exercício espiritual”?
Significa que você, nos exercícios, não vai encontrar um tratado, uma teoria, nem mesmo, muito conteúdo. Mas, sim, um roteiro de exercícios. Como um roteiro de exercícios físicos, a matéria é desenvolvida pela própria pessoa, ao praticar os exercícios. Comparando-se a exercícios musicais, ou seja, um roteiro de exercícios para aprender a tocar um instrumento musical, a beleza da matéria está no resultado que a prática dos exercícios produzirem. Com o passar do tempo, a execução da música torna-se espontânea e resulta na beleza da música, na sua afinação e na sintonia com a orquestra toda.
4) Como praticar os Exercícios Espirituais?
Os EEs podem ser praticados na modalidade de um “RETIRO ESPIRITUAL”. Ou seja, afastando-se do seu local de vida e de atividades cotidianas, “retira-se” para um lugar mais propício à meditação. Para este fim, a Companhia de Jesus e outras congregações religiosas dispõem de casas de retiro espiritual (cf. endereços abaixo). Outra modalidade para a prática dos Exercícios Espirituais é a que se propõe neste site: “EXERCÍCIOS NA VIDA COTIDIANA” (EVC). Neste caso, sem se afastar de seus afazeres diários e se retirar a um lugar isolado, você poderá fazer os exercícios no dia-a-dia de sua vida.
5) Como praticar os Exercícios na Vida Cotidiana (EVC)?
Se você optar por fazer uma experiência espiritual seguindo a proposta dos EVC do presente site, observe o seguinte:
1º) Durante trinta dias, para cada dia, você seguirá um roteiro com proposta de meditação.
2º) Procure se ater somente ao conhecimento do roteiro a ser exercitado em seguida, pois, trata-se de um caminho a ser percorrido espiritualmente, em oração, e não apenas intelectualmente.
3º) Planeje sua caminhada espiritual: nestes trinta dias, dedique 30´ (trinta minutos) diários à meditação. Se possível, faça o exercício no início do dia, antes de iniciar os afazeres do dia, em ambiente silencioso que possibilite a concentração de todo o seu ser. No restante do dia você poderá retomar o Exercício, repetindo a frase ou palavra do texto bíblico que mais lhe marcou. Se você não puder dedicar esses trinta minutos exclusivos para o Exercício, você poderá fazê-lo até mesmo enquanto estiver em trânsito para o trabalho, ou em algum intervalo, durante o dia. Neste caso, você poderá fazer essa leitura antes de sair de casa ou imprimir a página do Exercício Diário ou memorizar uma frase ou uma palavra que mais te chamou atenção no texto. Quanto ao tempo de oração, Santo Inácio insiste na fidelidade diária e na pontualidade, pois essa “disciplina espiritual” é importante para você ir adquirindo um hábito espiritual.

6) Orientação / acompanhamento espiritual?
Se você tiver acesso facilitado, em sua Paróquia ou Comunidade, a alguém que já tenha feito os EEs completos, procure, preferencialmente no final de cada semana (ou após os trinta dias), um acompanhamento espiritual. Nesta orientação espiritual, você poderá narrar os momentos mais significativos de sua caminhada espiritual e receber ajuda para discernir os próximos passos. Se possível, procure participar de um grupo de partilha dos EVC, acompanhado por pessoa experiente em orientação espiritual. Para dúvidas práticas, você poderá acessar o contato deste site, conforme está abaixo e no final de cada semana de EEs.
7) O roteiro de EEs.
O que se apresenta neste site é uma proposta de um mês de exercícios diários, correspondente à iniciação dos EEs. É um roteiro com matérias específicas para cada uma das quatro semanas de oração. Após esta fase de iniciação, se você desejar um aprofundamento da experiência na prática dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, sugerimos buscar orientação especializada em algum dos centros de espiritualidade inaciana (cf. endereços no abaixo). Contudo, você mesmo poderá formular um roteiro de caminhada espiritual. Para isso, o texto do Evangelho da Liturgia Diária é excelente (cf., neste site, “Evangelho do Dia” ou “Liturgia Diária”).
Alguns dos Centros de Espiritualidade Inaciana:
Minas Gerais, Belo Horizonte: www.centroloyola.org.br
Minas Gerais, Juiz de Fora: www.centroloyolajf.com.br
Rio de Janeiro, RJ: www.puc-rio.br/campus/servicos/cloyola
Rio de Janeiro, São Conrado: carpacust@uol.com.br
Goiás, Goiânia: centroloyola.blogspot.com
Distrito Federal, Brasília: www.ccbnet.org.br
São Paulo, Indaiatuba: www.itaici.org.br
São Paulo, Rondinha: www.santoandre.org.br/rondinha
Rio Grande do Sul, São Leopoldo: www.cecrei.org.br
Mato Grosso, Cuiabá: secretariacbfj@brturbo.com.br
Amazônia, Manaus: diasjm@argo.com.br
Ceará, Russas: cies@yahoo.com.br
Piauí, Teresina: ciesteresina@panet.com.br




II - Roteiro Básico dos Exercícios Diários
Para praticar os EEs, procure memorizar os cinco passos descritos abaixo, pois serão seguidos diariamente:
Primeiro Passo
Colocar-se na presença de Deus

Oração é diálogo! Nesse caso, diálogo com Deus! Por isso, é imprescindível para a oração firmar convicção de que efetivamente esse alguém está comigo, para me ouvir e me falar, para relacionar-se comigo como duas pessoas que convivem e partilham dons e bens. Sempre, ao iniciar a oração, dedique um tempo para tomar consciência da presença de Deus em sua vida, “aqui e agora”.

Segundo Passo
Pedir a Graça de Deus

Trata-se, neste momento, de apresentar a Deus o pedido da Graça que quero e desejo alcançar na oração. Dizer o que quero e desejo (e repetir isso várias vezes) fortalece a vontade e configura a mente e o afeto para acolher a vontade de Deus. Há um pedido próprio para cada fase dos exercícios. Conforme a dinâmica dos EEs, o pedido faz parte de uma pedagogia que nos possibilita um gradativo desenvolvimento espiritual. Contudo, é importante você formular este pedido com suas próprias palavras. O mesmo pedido deverá ser repetido em todos os Exercícios da semana.

Terceiro Passo
Meditar a Palavra de Deus

Feito o pedido, leia com atenção o texto bíblico proposto para o Exercício do dia. O que Deus está me dizendo através desta palavra? O que isso pode significar para mim, na situação em que vivo atualmente? Demorar-se na meditação do texto bíblico, sem pressa, permitindo que a Palavra de Deus ecoe no íntimo de seu ser e existir. Saboreie interiormente cada palavra, cada frase. Durante o dia, você poderá recordar e repetir diversas vezes a frase ou a palavra mais marcante do texto.

Quarto Passo
Fazer um Colóquio com Deus

Conclua sua oração com um “colóquio” com Deus, ou seja, como que conversando com Deus a respeito do seu momento de oração, fale a Ele o que você tem sentido. Numa relação de confiança e amizade autêntica, não tenha receio de manifestar a Deus os verdadeiros sentimentos e pensamentos que o presente Exercício Espiritual suscitou em você. As “moções do Espírito” são instrumentos pelos quais Deus age no mais íntimo do ser humano.

Quinto Passo
Anotar

Concluído o Exercício, procure anotar em seu diário espiritual as percepções mais significativas da oração. O que mais me marcou interiormente? Que sentimentos, moções ou percepções a oração suscitou em mim?
Na medida do possível, procure um acompanhamento espiritual com um jesuíta ou alguém que já tenha feito os Exercícios Espirituais completos. Neste acompanhamento você poderá partilhar sua experiência espiritual, procurar discernir o caminho percorrido e a direção dos próximos passos. A anotação que você fizer no final de cada Exercício será matéria para a orientação espiritual.





III - Orientação
1ª) Em cada semana você deverá repetir os mesmos passos, mudando, apenas o texto bíblico da meditação. Contudo, se em determinado Exercício o texto despertou em você moções significativas, livremente, você poderá retomá-lo em outros momentos.
2ª) No domingo, você deverá fazer uma espécie de “repetição” dos momentos mais significativos dos exercícios da semana que passou. Como o domingo é dia de celebrar com a Comunidade Eclesial, você poderá tomar como matéria de sua oração um dos trechos bíblicos da liturgia dominical. Esse texto você poderá tirá-lo deste mesmo site (cf. “Liturgia Diária”).
3ª) As orientações que aparecem no final do roteiro diário devem ser lidas fora do momento da oração. Como em todos os textos, você deve se deter na reflexão dessas orientações somente se houver aí alguma contribuição para o momento que você estiver vivendo e para o êxito da caminhada.
4ª) Santo Inácio de Loyola nos chama atenção para a generosidade, uma atitude imprescindível para o sucesso dos Exercícios Espirituais: “muito aproveita entrar neles com grande ânimo e generosidade para com seu Criador e Senhor. Ofereça-lhe todo seu querer e liberdade, para que Deus se sirva, conforme Sua vontade, tanto de sua pessoa, como de tudo o que tem” (EEs, 5ª Anotação). Essa atitude de generosidade possibilita a você viver a comunicação com Deus numa relação de dom total. Pois, segundo Santo Inácio, amor é a partilha de dons e bens entre as pessoas que se amam.
A você que se dispõe a esta caminhada espiritual, o domtotal deseja pleno êxito! Entre em contato conosco, comunicando-nos sua decisão. Envie-nos seus comentários e sugestões: contato@domtotal.com.

abc de budismo - Esforço Reto


Prosseguindo o capítulo budista de nossos exercícios de história das religiões, vamos ao Esforço Reto, um dos oito princípios da senda da cessação do sofrimento prometida pela Quarta Nobre Verdade.
Também quádrupla, aliás, é a concepção budista do Esforço Reto para lidarmos com nosso joio e trigo internos, isto é, as sementes desejáveis  (felicidade, amor, lealdade, reconciliação) e indesejáveis (ganância, ódio, ignorância) que abrigamos em nossa consciência "armazenadora" ou "mental", termos que designam algo como, trocando em miúdos para nossa topologia psicológica ocidental,  nosso subconsciente e consciente. Os quatro níveis deste esforço seriam os seguintes:
1) Impedir o crescimento das sementes indesejáveis contidas em nossa consciência armazenadora.
2) Ajudar as sementes indesejáveis já desenvolvidas a retornar à consciência armazenadora.
3) Encontrar formas de irrigar as sementes sadias que ainda não cresceram em nossa consciência armazenadora, incentivando o mesmo processo aos amigos.
4) Nutrir as sementes sadias que já cresceram, para que permaneçam em nossa consciência mental, tornando-se cada vez mais fortes.
Interessante pontuar como a antropologia budista passa ao largo, mostrando a limitação cultural, de certa chave de leitura de categorias como "pecado" e "graça" , eixos de um esquema  teológico que diz que tudo de mau só pode ter vindo do homem (inclusive  a morte, tudo era imortal antes de herdarmos o "salário do pecado" de Adão e Eva), e que tudo de bom é um favor de Javé. Jung, que dizia que teria sido queimado como herege na Idade Média, não poupou de críticas essa concepção teológica, a seu ver bem distante do autêntico simbolismo e poder psíquico do cristianismo como oração arquetípica da alma.
Bem e mal, alegria e sofrimento, são para o "Dharma" (Lei cósmica e ensinamento discursivo) de Buda sementes potenciais do espírito humano, sendo no fundo um debate desnecessário, para não dizer idiota, querer decidir em colóquios criptoacadêmicos se o homem é bom ou mau (com "u"), e, se mau, o é por culpa de fatores sociais e históricos (Rousseau) ou da maçã malandra da serpente do Paraíso.
Para essas e outras delusões e perdas de tempo, pesos mortos, o médico de Benares nos ensina o seguinte caminho terapêutico, urgente, sem conversa fiada, sem contar com o favor do quitandeiro, mas pagando-se o preço da dura e diligente arte do autodesenvolvimento:

"Irmãos, sei que a atenção de vocês está presa ao mundo imaginário de seu pensamento.Irmãos, sei que olhar para dentro de vocês mesmos exige esforço de vontade.
Irmãos, esforcem-se para olhar para dentro de vocês mesmos.
Concentrem a atenção em seu pensamento, observem como ele nasce, cresce e morre, como ele é impermanente e como seus fantasmas não são reais.
Irmãos, ao se esforçarem para olhar para dentro de si, vocês se libertarão dos fantasmas de seu pensamento.
Então, a atenção de vocês poderá ser voltada para a realidade a seu redor e ela se revelará para vocês em toda a sua beleza e alegria.
Vocês descobrirão que não há sofrimento na realidade: o sofrimento está somente em seu pensamento.
Irmãos, realizem o Esforço Reto da concentração da atenção sobre suas sensações, sobre suas emoções e sobre seu pensamento e vocês concretizarão a Concentração Reta".
Veja-se a ênfase, que terapeutas cognitivo-comportamentais certamente endossariam, no papel da mente, do real enquanto percebido, para o real que é de fato vivido;  e sobretudo, na margem de responsabilidade e decisão que temos sobre nossos processos mentais.
Algo que também o existencialismo de Sartre reavivaria, em polêmica contra a psicanálise, ou melhor, contra concepções reificantes que, pondo o "inconsciente" no lugar de Deus, reproduzem o servilismo teológico do homem, nos roubando a liberdade radical em troca de longos e caros anos de bate-papo livre-associativo.
Thich Nhat Hanh conta, ainda a propósito do Esforço Reto, a seguinte anedota, que vem relativizar, num espírito de leveza bem típico da religião que estamos estudando, qualquer dogmatização doutrinária, esse sintoma de mente enrijecida e distante da Verdade:
"Havia um monge na Dinastia Rang na China que meditava dia e noite. Ele achava que praticava mais e melhor do que qualquer outra pessoa, e se orgulhava disso. Sentava-se como uma pedra, dia após dia, mas seu sofrimento não se transformava. Um dia um mestre [Huairang (667-744)] perguntou: 'Por que você se senta em meditação por tanto tempo?' e o monge respondeu: 'Para me tornar um Buda!' O mestre apanhou um ladrilho e começou a polir com força. O monge perguntou o que estava fazendo, e o mestre respondeu: 'Estou fazendo um espelho'. O monge então perguntou; 'Como pode transformar um ladrilho em espelho?' E o mestre respondeu: 'Como você pode se transformar em Buda apenas sentado?'"
-Unzuhause-

quarta-feira, março 20, 2013

guerra santa


Acordar cedo, obrigado a sair de casa cedo, é trocar o sonho na cama pelo pesadelo que perambula como zumbi . Ontem foi assim. Olhava para o mundo, o mundo olhava para mim, e éramos um deserto um para o outro na minha mente. Facebook, este símbolo vivo de conectividade com os outros, era pior que café requentado. Nem o divino café, ainda que me abra os olhos, é capaz de me manter desperto, num dia assim. Deus é maior! Ou a consciência humana, este é o dilema que evoco, sem querer, é claro, resolver, ao viajar para zonas limítrofes entre cristianismo e budismo, missionário católico entre budistas, ou será que já missionário budista entre os católicos (minhas tendências católicas, digo)?
Olho para  o rosto de um e de outro, Jesus e Gautama, e ambos parecem me dizer que não há pseudonecessidade mais tola do que discriminar entre santos. É já não ser um deles, não ser da turma deles, mas dos medíocres ou dos ainda confusos, o que é a mesma coisa.
Não sou bonzinho, sou amigo do Bem, no mesmo sentido em que Sócrates se diz um ignorante amigo da sabedoria que lhe falta, porque ele a deseja. Tenho desejos, diria, carnais pelo Bem. Quase como Inácio de Loyola, ˜transfiro" a vaidade e a agressividade de soldado pagão para o campo do sagrado, não como a triste figura ressentida recoberta de alguma batina preta e que faça a sobrancelha e que odeie os gays, e já estou sendo agressivo de novo. 
Quero da minha agressividade a matéria-prima de me transcender. Para ser melhor, é preciso desejar algo que vai além da nossa capacidade. Senão seguimos sendo os mesmos, e pior, regredimos, pois o que não muda para melhor, muda para pior. Mas muda. Então me declaro "incapaz"da perfeiçáo humana de Cristo e a de Buda (que nunca se disse deus). E é essa ˜incapacidade"que me atiça, me co-move. Deus sabe o quanto sofro quando sinto o pendor de odiar, de querer que alguém ou alguma coisa se exploda. Como dizem por aí, a boca fica torta. Finjo tanto que finjo até querer ser amigo, me aproximar, tapando o nariz e fazendo sorriso bobo de paz e reconciliação. Não precisa. Cada um que siga seu carma. O caminho do ódio, para mim, não! Não me sinto "eu". Não porque não seja capaz de odiar. Ao contrário. É que odiando eu sou muito obviamente eu mesmo. O Eu autêntico, esse, é inacabado, é desejo de além, é a virtualidade em devir, é o impossível, assim como Deus é maior, assim como creio porque é absurdo.
Essa é minha guerra santa, não entre imagens arquetípicas pelas quais as diferentes culturas sinalizam o mesmo alvo supremo. Guerra santa de quem descobre a própria vontade guerreira como astúcia da Razáo da santidade para avançar mais, sempre além, diferença em repetição espiral.
-Unzuhause-

gozo de infeliz


(In) felicianos, definição para gênios do marketing reacioTário. os homens que os alçam e sustentam em evidência e fama, que constituição psicológica terão? a de escrotos como ele na solidariedade que vibra no ser mal falado, afinal sempre há redenção na infelicidade, esse gozo afamado do velho Mal amado.
-Unzuhause-

abc de budismo - Meios Retos de Subsistência


Eu meditava as proposições budistas acerca do "Modo de Vida Reto" quando topei com uma passagem interessantíssima dos documentos do Concílio Vaticano II. Veio bem a calhar, para este missionário católico entre os budistas, que é como hoje brinco de me representar. Aliás, missionário "jesuíta", encantado que estou com a retomada dos estudos sobre a Ordem de Inácio de Loyola.
A sincronicidade, como fato psíquico, é sempre mediada e interpretada por um sujeito, uma interioridade, em embate com acontecimentos externos. Por isso a sincronicidade católico-budista em questão aqui "me" ocorreu por conta da questão de Deus e da Alma como fundamento metafísico da moral. Ao budismo não é essencial evocar a imago dei para legitimar a ideia de Bem. Muitos aliás definem o budismo como religião ateia. Paradoxo interessante, para nós ocidentais acostumados com uma ideia de religião indissociável da submissão filial ao "Homem lá de cima", esta deliciosa projeção antropocêntrica que repetimos quase sem nos dar conta de sua extravagância. Embora, se assim na Terra como no Céu, e se "assim em cima como embaixo", dá pra pensar que Deus é imagem e semelhança do homem, portanto um "Homem" (de ser humano, sem sexismos, ok?) celestial.
O budismo ao longo da sua história resvala cada vez mais para a divinização e culto à figura de Buda. Mas abstraindo este dado circunstancial, indo à Fonte: a doutrina fala de um Bem essencial, cuja realização empírica decide do sofrimento ou do bem-estar de um indivíduo, família, sociedade, humanidade global. Isso fica claro neste tópico dos Meios Retos de Subsistência.
Mesmo sendo "budista" aos fins-de semana, o homem dificilmente caminha no sentido do alvo ensinado pelo Mestre se volta pra casa e segue a rotina de açougueiro,  assassino,  traficante,  cafetão,  charlatão da adivinhação do futuro. Não há mantra nem zazen que resistam à contaminação da consciência pelos hábitos arraigados que atentam contra esse sentimento íntimo do que é o correto, do que é o Bem.
Além das profissões ou atividades más em si, o bom caminho se torna mau para o homem mau. O sacerdote, o professor, o artista, o jornalista, tem à disposição meios excelentes de subsistência, enquanto potencialidade de disseminar uma cultura de paz e de transformação pessoal e coletiva. Mas o espírito encardido emporcalha qualquer ação. O hábito corrompe os méritos atraídos pela atividade que poderia ter sido nobre. Espremida entre o hábito arraigado e o valor primordial, causando sofrimento ao próprio agente do mal, está sua consciência.
Uma voz da consciência, diria Heidegger, insiste e nos incomoda mesmo que perdidos e inconscientes numa vida desperdiçada, num dia dissipativo. Buda é quem despertou do sono e do sonho das confusões existenciais. E o Despertador foi a consciência, essa que gostosamente preferimos "desligar" para fugir ao nosso dever de cada dia. No budismo, um dever não associado a deuses, que no fundo são como os sonhos do dorminhoco dogmático (Kant também acordou deste sono, graças às sacudidelas de Hume). Um dever inscrito na própria condição cósmica e humana, portanto na nossa consciência moral "imanente", segundo a linguagem filosófica.
No catolicismo, por mais "moderno" que o queiramos -e o Vaticano segundo, um "segundo Vaticano", é momento forte de rejuvenescimento e abertura à modernidade-, a verticalidade transcendente se mantém. Deus é Amor, Deus é o Bem. Embora "em nome de Deus" muitos sejam os açougueiros, assassinos, traficantes, vendilhões envenenadores da alma de si e de quem tenha de suportá-los de perto ou de longe.
-Unzuhause-


Constituição dogmática sobre a Igreja no mundo contemporâneo, «Gaudium et Spes», §§ 16-17


«Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará»
No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que o chama constantemente ao amor do bem e à fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faz isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado (Rm 2, 14-16). A consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. [...]

Só na liberdade é que o homem se pode converter ao bem. Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que lhes agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Pois Deus quis «deixar o homem entregue à sua própria decisão» (Gn 1,26), para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele. A dignidade do homem exige portanto que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão. [...] O homem atinge esta dignidade quando, libertando-se da escravidão das paixões, tende para o fim pela livre escolha do bem e procura a sério e com diligente iniciativa os meios convenientes. Mas a liberdade do homem, ferida pelo pecado, só com a ajuda da graça divina pode tornar plenamente efectiva esta orientação para Deus.

segunda-feira, março 18, 2013

avivamento





http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/the-new-york-times/2013/03/17/opiniao-novo-papa-impressiona-e-pode-recuperar-a-igreja-em-crise.htm?cmpid=cfb-internacional-news&fb_action_types=og.recommends&fb_source=timeline_og

Opinião: Novo papa impressiona e pode recuperar a igreja em crise

David Brooks

A Igreja Católica no norte da África estava em crise no início do século 4. O imperador romano Diocleciano havia perseguido os cristãos, e muitos bispos e padres haviam colaborado com o regime. Sacerdotes entregaram cristãos aos magistrados pagãos. Bispos entregaram escrituras sagradas para serem queimadas em praça pública. Um ar de corrupção e devassidão pairava sobre a igreja.
Dois movimentos de reforma rivais surgiram para restaurar a integridade do catolicismo. Os do primeiro movimento, os donatistas, acreditavam que a igreja precisava se purificar e voltar à sua identidade essencial.
A missão da igreja, na visão donatista, era fornecer uma alternativa sagrada para um mundo profano. Os donatistas queriam expulsar os traidores do sacerdócio.
Depois que eles reduziram seus membros, os donatistas queriam fechar a hierarquia para criar uma comunidade de fiéis comprometidos. Eles iriam se separar da impureza, restabelecer seus princípios fundamentais e defendê-los contra as forças hostis.
Os donatistas acreditavam que, em tempos difíceis, a primeira tarefa era defender a lei cristã de modo que ela não fosse diluída por concessões. Com essa postura defensiva, os donatistas ao menos construiriam uma arca resistente para todos aqueles que queriam ser cristãos.
Esta tendência donatista --de fechar a hierarquia e voltar defensivamente aos princípios originais-- pode ser vista hoje sempre que um movimento enfrenta uma crise. Os donatistas da atualidade emergem sempre depois de cada derrota republicana: conservadores que acham que a principal tarefa é limpar e purificar. Há donatistas modernos em departamentos de ciências humanas, que se fecham à medida que perdem relevância no campus.
É possível vê-los no movimento sindical em decadência: pessoas que apostam pesado na história e em suas tradições. Você pode vê-los na Igreja Católica Romana atual, que se sente cercada num mundo hostil. Você pode identificar os donatistas modernos porque eles sentem que a história está escapando deles, e quando eles fazem fofoca é sempre sobre rivalidades comunitárias com as quais ninguém de fora do seu mundo se preocupa.
No século 4, outro movimento de renovação se levantou, abraçado por Agostinho, que foi bispo de Hipona. O problema com os donatistas, argumentou Agostinho, é que eles são muito estáticos. Eles tentam lacrar uma arca para enfrentar a tempestade, mas acabam se fechando dentro dela. Eles se isolam de novas circunstâncias e do crescimento.
Agostinho, como seu magistral biógrafo Peter Brown coloca, "estava profundamente preocupado com a ideia da unidade básica da raça humana". Ele reagiu contra qualquer esforço de dividir as pessoas entre os que estavam dentro da igreja e os que estavam permanentemente fora.
Ele queria que a igreja partisse para a ofensiva e engolisse o mundo. Isso envolveria engolir as impurezas bem como o que era puro. Isso significaria utilizar aqueles que são imperfeitos. Esse era o preço a ser pago para ter uma igreja ativa convivendo com os pecadores, disciplinando-os e repreendendo-os.
De acordo com essa visão, a igreja exerceria atração porque estava faminta e sedenta por se desenvolver. Longe de ser uma arca estável, a igreja seria uma rede dinâmica em constante mudança, impulsionada para as ruas por suas próprias tensões. Agostinho tinha essa personalidade profunda e volátil. Sua igreja ideal era firmemente enraizada na doutrina, mas ansiosa por descobertas.
Essa segunda tendência também é encontrada em movimentos que estão em crise, mas é rara porque exige uma falta de defesa, e a confiança de que a sua identidade está segura mesmo em meio à crise.
Como a maior parte do mundo, eu não sei muito sobre o papa Francisco, mas é difícil não ficar impressionado com alguém que diz que prefere uma Igreja que sofre "acidentes nas ruas" a uma igreja que está doente porque se fecha em si mesma.
É difícil não ficar impressionado com alguém que se posiciona a favor do ensino católico tradicional, mas daí sai e visita Jeronimo Podesta, um ex-bispo que se casou para desafiar a igreja e que estava morrendo pobre e esquecido. É difícil não ficar impressionado com alguém que repreende ferozmente os sacerdotes que se recusam a batizar os filhos de mães solteiras.
É difícil não ficar impressionado com alguém que parece sentir uma necessidade compulsiva de andar de ônibus, que se recusa a viver nas residências oficiais, que envia os seus sacerdotes para as fronteiras e que uma vez disse que morreria se ficasse trancado no Vaticano.
Vou deixar para os católicos decidirem se Francisco é bom para a igreja. O assunto aqui é como reavivar um movimento em crise. O instinto natural é se transformar em donatista, construir uma arca e defender o que é precioso. A estratégia mais bem sucedida, porém, é seguir Agostinho e explorar um momento de fraqueza tornando-se ainda mais vulnerável, indo para fora em direção à complexidade, engolindo o puro e o impuro, contra-atacando a crise com um golpe de evangelização.
Tradutor: Eloise De Vylder

orar, pensar e trocar o fusível da igreja

Era uma vez um franciscano, um dominicano e um jesuíta que celebravam uma missa em comum. Era já tardinha, início da noite. E eis que desfez-se a luz, e ficaram em trevas. Ante o incidente, três reações distintas e típicas. O franciscano agradece a chance de poder rezar uma missa com mais simplicidade. O dominicano se empolga a fazer um sermão erudito sobre como Deus é a Luz do mundo. Enquanto isso o jesuíta já descia ao porão para trocar o fusível.. Anedota reveladora sobre a diversidade de estilos ("carismas") da espiritualidade católica. Diz também da diversidade de tendências no templo que é a nossa alma. Desenvolva os três carismas e deixará de ser um tipo para se tornar um todo. Qual o seu tipo, pra mim, náo é apenas ocasião, sem dúvida pertinente, de me divertir com amigos ou me ver no espelho identificatório de alguém que "é"de Peixes, "é"brasileiro etc.  É sim a ponderação crítica sobre limitações provisórias ou definitivas, sempre porém conversíveis em tarefas evolutivas. É a pergunta sobre "de onde você vem na busca comum a todos de se tornar quem é?". O tipos psicológicos junguianos sempre me dizem náo uma mensagem de conformismo idiota, mas de provocaçáo: o tanto que perco, da totalidade psíquica, ao me habituar e me sedimentar numa dada atitude Introversáo ou extroversáo) e função de consciência (pensamento ou sentimento, intuição ou sensação)
-Unzuhause-

papa Francisco, o sonhar e o agir


"Aconteceu que ao terminar Jesus essas palavras, as multidões ficaram extasiadas com o seu ensinamento, porque as ensinava com autoridade e não como os seus escribas" (Mt 7, 28-29). O texto sagrado marca aqui a diferença entre a comunicação carismática e a do funcionário religioso. Por mais erudito que seja, o funcionário não traz "boa nova", seu compromisso é por  definição com a groselhada velha.
O homem carismático, ao contrário, comunica-se com autoridade não porque manda, mas porque fala ao coração das pessoas. Fala por palavras e pela postura. Fala por imagens. Nada mais "pós-moderno", portanto, do que a cena da multidão em fascínio ao  final do Sermão da Montanha, já que a pós-modernidade é tempo de vínculações por desejo, não por obrigação. É tempo de desejo por boas novas. A gente "fica" com ideias que nos agradem, um pouco à maneira como Diderot se definia como apaixonado infiel, gigolô por ideias-amantes, senão mesmo ideias mulheres de vida fácil. Os tempos atuais, segundo renomados estudiosos da Igreja, favorecem um modelo de fiel no "caminho do meio". Não obedece às cegas qualquer mandamento da figura de batina e autoritária de antigamente. Nem se revolta a ponto de abandonar a Igreja, Submete ao tribunal da consciência pessoal os mandamentos, por um lado, e as situações concretas, por outro. É o "terceiro crente", nem Ratzinger servil nem Boff revoltado. E segue as orientações eclesiais conforme significativas para sua própria existência. O profeta não ignora esses fatos. Ele tem competência para lançar iscas espirituais no burburinho da multidão, convidando a massa a voltar a ser indivíduo, chamado pelo nome por Jesus Cristo vivo. Tudo isso me parece ter pesado muito no fracasso de Ratzinger e na boa acolhida que vem sendo dada ao papa Francisco. Eu confesso que este homem me redesperta meus instintos mais clericais, e de maneira nova, um sonhar franciscano e um agir pragmático jesuíta, reedição do velho dilema, a ser convertido em núpcias segundo a imagem do jesuíta papa Francisco, entre introversão e extroversão.
-Unzuhause-

Jung e os pançudos do saber abstrato

Caríssimos, acaba de ser lançada minha nova tradução, na prestigiosa coleção Reflexões Junguianas, da editora Vozes: "Sincronicidade - Natureza e Psique num Universo Interconectado", de Joseph Cambray. O livro discute a fascinante ideia junguiana das conexões de sentido acausais (a "mera coincidência" não é tão reles quanto parece). O livro vai bem além do contexto clínico, que de resto nunca limitou a ambição do Jung pensador da alma, do mundo e do nexo entre ambas, mestre na linhagem hermética dos que veem "assim em cima como embaixo", os espelhamentos simbólicos entro o macro e o microcosmos. Cambray traça paralelos científicos, como a teoria da relatividade, e também históricos, como a irrupção da democracia na Grécia e a conquista da América. Um gesto que, a despeito da veracidade empírica, tem um sentido retórico peculiar: insatisfeito de apenas repetir o que Jung disse, ele também busca o lastro mais racional possível para um conceito que, como inconsciente coletivo e individuação, fez muita gente projetar, em elogio ingênuo ou crítica safada, um Jung meramente "místico", sob medida para ser descartado dos banquetes doutos dos donos da Verdade. Isso como se a própria mística não ocultasse (ela é sempre "ocultista") paradigmas de pensamento racional riquíssimos e pouco acessíveis para os pançudos dos saber abstrato.
-Unzuhause-

domingo, março 17, 2013

abc de budismo - Ação Reta


Entramos agora em mais um princípio do Nobre Caminho Óctuplo dos budistas: a Ação Correta (samyak karmanta). Me impressiona aqui, em especial, a natureza prática do budismo. Uma disciplina de psicologia, mais que "filosofia" ou "religião" no sentido banalizado desses termos no Ocidente. Se filosófica, esta disciplina teria mais a ver com as escolas ocidentais da Antiguidade, quando filosofia era sobretudo a busca da boa vida, entendido o bem em nível ético (virtude) e eudemonístico (felicidade, bem-estar).
E de fato, a ação correta tem por protagonista e destinatário o corpo. Envolve a não-violência contra si mesmo e contra os outros (humanos e não-humanos). É a reverência sagrada pela vida traduzida em gestos. Gentileza, generosidade, proteção de todas as criaturas.
O Buda médico volta a assomar com tudo: embora tendo a impermanência e a morte como horizontes inescapáveis, o ser humano tem potencialidades imensas para desfrutar e compartilhar de vida e vida em abundância. O deprimido que apela a algum budismo vulgar para nada fazer de bom, afinal tudo passa e tudo morre, está severamente desviado do verdadeiro espírito do Mestre.
As escolas "hinayana" e "mahayana" do budismo divergem, entre outros aspectos, na ênfase da salvação (nirvana) como objetivo estritamente pessoal ou como compromisso coletivo. O bodisatva, conceito eminentemente mahayana, tem o altruísmo típico desta escola: é uma figura já espiritualmente avançada que, contudo, se volta para o mundo e os outros e prefere compartilhar-se com todos do que se "iluminar" sozinho. Não admira que, na interpretação do monge Thich Nhat Hanh, a Ação Correta acabe por tomar uma dimensão fortemente social, lembrando o nosso cristianismo latino-americano de libertação ao atacar as estruturas sociais que privilegiam o sofrimento e a exploração dos pobres e da Terra.
O novo papa traz de volta à tona essa questão, até pelo simbolismo franciscano que assumiu para si, e sua origem na periferia latino-americana. Não, como vi Leonardo Boff falando ontem na Globonews, repisando jargões ultrapassados e propostas pragmaticamente inviáveis, como "desmembrar" a Igreja em múltiplos cristianismos segundo as diferentes culturas. O discurso boffiano é de um ecossocialismo utópico que, de aparência pacifista, tem efeitos intencionalmente beligerantes: parece feito para irritar o establishment, gerando contra-ataques e enredos dramáticos de vitimização, vide a saída bombástica de Boff da Igreja. Talvez sem estes excessos retóricos e, no fundo, vaidosos, de setores eclesiais locais, a Igreja universal (não a do Edir Macedo, vejam bem!) tivesse sido poupada dos desastrosos anos de Ratzinger no poder, esta sombria compensação coletivo-institucional que, graças a Deus, padre Francisco veio consertar.
Creio que não é o momento para belicismos vaidosos de direita ou de esquerda. Creio que o próprio capitalismo de ponta, e suas melhores cabeças, estão muito mais sintonizados hoje com os compromissos que temos não só com lucro burro imediatista.
Mais consensual entre os budistas é o arco de cuidados pessoais implicados pela Ação Reta; a chave ética aqui é a responsabilidade, mais que culpa. Responsabilidade nas escolhas, o que é inevitável para se assumir o protagonismo adulto sobre nossas vidas que, na sua ambiguidade, estão repletas de oportunidades para o bem e para o mal, dependendo do que se faz e do como se faz. Responsabilidade que advém da atenção plena: está com fome, come. Está com sede, beba. Mas presente ao presente do presente.
Responsabilidade para com o sexo, com os alimentos e bebidas, com o consumo em geral: como se vê, não se trata de uma censura ascética autoritária para consigo mesmo ou com nossos filhos, alunos, subordinados numa empresa, súditos políticos. Sim, é da natureza do vínculo humano, do ego com seu conjunto psíquico e dos homens entre si e com a natureza, que estamos falando aqui. E é de um paradigma de responsabilidade  que aparentemente precisamos num tempo como o nosso, esvaziado de valores pétreos, de utopias fanáticas e com um culto idolátrico do consumo que mal esconde nossa carência de paz e amor, como queriam nossos antecessores em budismo ocidental, os "hipongas" dos doces anos da transgressão.
 Buda, antes da iluminação, experimentou o ascetismo mais rigoroso, privações que o levaram à beira da morte, mas viu que aquilo não bastava para seus objetivos espirituais, e trocou pelo "Caminho do Meio". Não devemos acreditar em Buda, assim como Jó não queria mais acreditar em Deus, apenas por "ouvir dizer". Porque algum livro sagrado diz, ou porque todo mundo faz assim, ou porque tal teoria o demonstrou por A mais B. Ide e veja. Just do it. Experimente por si mesmo.
-Unzuhause-

obediente como um cadáver

Santo Inacio de Loyola, General de Cristo
Virou clichê entre os bem-pensantes de esquerda meter o cacete na Veja, mesmo sem lê-la. Sinceramente não a lia há muito tempo, talvez sob essa influência, embora tampouco leia muita coisa das bancas, é meu jeito de me manter bem (in) formado. Não vou tomar partido, ao elogiar a revista (não bastasse a herança)"maldita",  em brigas de partido, ok? Menos "mundano" no tema, e muito profundo no approach, está o número especial deste fim-de-semana, sobre papa Francisco. Li e grifei, como costumava fazer nos meus tempos de faculdade de jornalismo - bons tempos, embora muito cansativos: eu fazia facul de manhã e ia direto pra Redação, sabendo quando entrava, mas nunca a que horas sairia.
Enfim, alegria de me (in) formar neste sábado com material que se venda em banca de jornais. E a Veja de fato trouxe muita coisa, desde um perfil biográfico do novo líder da Igreja, as mentiras sobre seu envolvimento com a ditadura, os conflitos com os Kirchner (a Cristina, na foto, está a cara da Sonia Hernandes, da Renascer rs). Suas opiniões em temas polêmicos, como aborto e homossexualismo. A crítica ao aborto me cala particularmente fundo, confesso: "O problema moral do aborto é de natureza pré-religiosa. No momento da concepção está o código genético da pessoa. Ali já existe um ser humano. Separo o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico. Não permitir o desenvolvimento de um ser que já dispõe do código genético de um ser humano não é ético. Abortar é matar alguém que não pode se defender".
Claro que o papa é astucioso ao fazer falar via ciência seu credo axiológico (axiologia: relativo a valores) que, como todos os demais, é fundamentalmente "irracional" no mundo politeísta em que estamos, segundo Max Weber. Sua posição me pareceu generosa para com os ateus e agnósticos, todos "imagens de Deus", creiam ou não em Deus, e cada qual capaz, não importa a (des) crença, de todas as qualidades, grandeza e miséria de qualquer ser humano, crente ou não.
Atraente também o relato da Veja sobre a Companhia de Jesus, "tropa de choque" da Igreja, em suas lindas vestes de preto -seu líder é chamado de o "Papa Negro"-, e que já fez tremer altos poderes clericais e seculares ao longo dos séculos. Não admira que só agora a Ordem de Santo Inácio ponha as mãos no cetro do Vaticano. O que me admira, isto é, me faz admirá-los, é reler simbolicamente a coragem bélica, espírito missionário e educacional e sentido de disciplina. O jesuíta deve ser obediente como um cadáver (perinde ac cadaver, em latim). Um escândalo, claro, para nossas subjetividades liberadas, estas liberdades exuberantes e à flor da pele. Mas um imperativo que, à luz do ser-para-a-morte heideggeriano -e Heidegger é profundamente católico, o nazismo é que foi um desvio de percurso lamentável-, relido em chave sacramental, toma outra dimensão: a individualidade que se nega a si mesmo, que já se sabe "morta" , em certo sentido, dada a fragilidade inerente, o risco permanente, o aniquilamento sutil de cada dia. Morta sobretudo para o mundo e suas ilusões diabólicas. Daí a síntese mística de São Paulo: não mais vivo, é Cristo que vive em mim.  Claro que aqui faço um exercício de hermenêutica mítica, como qualquer antropólogo faria se encarasse esses mesmos fenômenos e escavasse categorias análogas numa tribo distante. Só que o que pra tribo é "Que Lindo!", nós proibimos para a Igreja!
Como em recente estudo da filosofia do treinamento esportivo de Bernardinho, o que me vale aqui, em última instância, é a pletora de metáforas sobre a individualidade forte, assertiva, atuante, com voz de comando e espírito de liderança contra os maremotos do acaso,  a frouxidão da carne. Isso, claro, sem instaurar uma tirania avessa a garantias individuais, sempre aqui pensando num registro "esotérico" isto é, transpondo os termos de uma rotina de um time, empresa, grupo qualquer, para o nível da interioridade profunda, em que nossos complexos são indivíduos anárquicos, antagônicos, muitos deles derrotistas e mortiferários, incultos, demoníacos, exigindo do guerreiro da alma a força e persuasão de auto-domínio sem as quais nossa verdade última, a morte, se presentifica no cadáver covarde que ainda caminha e respira, desobediente a tudo, servil apenas do pior de si.
-Unzuhause-