segunda-feira, dezembro 31, 2012

outra Iemanjá

Invocando em oração, admiração e tesão a energia de Janis como minha Iemanjá de todos os desejos do coração. Feliz 2013!  
-Unzuhause-



Y



o dia é de enxurrada de frases fofas e tristezas embriagadas (não me venham falar de esperança, esse afeto também triste, pois compartilha com a dor a presença da falta e o descontentamento com o agora). Mas no meio desses ruídos nas vastas avenidas e praias superpovoadas, protegido pelo deus dos rouxinóis, está ao canto o frágil canto do rouxinol azul royal do Logos eterno que canta o tempo que morre e renasce e é assim nele cantado por Yanni, lindo nome, entre portenho, afroxamânico e indiano, que lembra na inicial a formosura de cálice ou a beatitude embriagante do vinho de amor e omar khayyám num corpo de mulher .
-Unzuhause-

domingo, dezembro 30, 2012

apetite antropológico


Depois de anos, meu apetite antropológico aponta o tal Réveillon da Paulista como séria opção pra amanhã. Me lembro de ter ido apenas uma vez, acho que uns dez anos atrás, mas tudo ficou muito atrapalhado porque me "apaixonei" (ahh, coração vadio, adora se fazer de fácil) por um mina de 16 anos, corpo perfeito, pernas quanto vos quero, eu devia ter uns 20 e pouco, mas senti o peso da responsa, não sem o tesão a mais de transgredir. Quis revê-la no dia seguinte, sob o mesmo vão livre do Masp, e assim dar fim (não consegui até hoje) a essa sina "Antes do Pôr-do Sol" de banquetes platônicos apaixonantes mas com a marca trágica do fim iminente. Ela não voltou, e o dia primeiro de Sol a pino ficou mais escuro do que a noite dos fogos do 31. Que meu apetite antropológico dessa vez possa ir mais fundo, livre do vão da pseudo-arte de se fazer de fácil, o barato do imediato que sai caríssimo no dia seguinte.
-Unzuhause-


no alto da montanha


Amanhã é como que um aniversário da Humanidade, segundo o calendário ocidental. Isso pode nos inspirar não apenas as mandingas da expectativa individualista de sorte, amor, sexo ou dinheiro no ano que vem, mas uma conexão mais profunda com esse Aniversariante coletivo que somos nós todos, tendo por biografia a História Universal. Figuras como Luther King acorrem ao espírito ao pensar em como pode ser belo, e não necessariamente megalomaníaco, o abrir-se da pessoa à causa mais ampla dos homens, queiramos ou não ver os mandamentos de Deus por detrás do imperativo da solidariedade ao próximo e ao Todo, para além das mandingas e terrores e cobiças que a finitude e a contingência empurram goela abaixo de cada um .
"Temos dias difíceis à nossa frente, mas isso não me importa agora, porque já estive no cume da montanha. Como qualquer ser humano, eu gostaria de ter uma vida longa. A longevidade tem seu lugar, mas não estou preocupado com isso agora. Só quero fazer a vontade de Deus. Ele permitiu que eu fosse até o alto da montanha e de lá tive uma vista panorâmica. Eu vi a terra prometida. Talvez eu não chegue lá com vocês. Mas quero que saibam hoje, nesta noite, que nós, como um povo, entraremos na terra prometida. E, por isso, estou feliz esta noite. Não me preocupo com nada. Não temo nenhum homem. Meus olhos viram a glória da vinda do Senhor".
São palavras de Martin Luther King, a 3 de abril de 1968, no famoso discurso "Eu estive no cume da montanhja, em Memphis, Tennessee. Antes de começar a falar, ele recebeu uma ameaça de morte. Que se concretizaria no dia seguinte, quando foi morto na varanda de seu hotel. A morte eliminava o homem, mas cumpria sua profecia, típica de quem se permitiu ir ao cume da montanha, donde os temporais arrasadores de outrora não passam agora de temporárias chuva de verão.
-Unzuhause- 

sábado, dezembro 29, 2012

Encontro Marcado


porque a vida precisa ser celebrada sempre, não como a Santa que se idolatra de maneira boba ou escrava, mas a Dama Profunda, Insondável, que a gente deseja e corteja em nossos sonhos de baile de máscaras em juventudes imorredouras do espírito, no Réveillon, enquanto a Morte nos aguarda como Brad Pitt (podia ser Angelina Jolie) em "Encontro Marcado".

-pequena homenagem a um grande homem, que se foi há poucos dias, deixando o mundo menos carismático, mas não menos belo, vide a família que sua obra construiu e seu passamento ratificou, como se estivéssemos no tempo antigo da "bela morte" dos Heróis, esses homens raros e memoráveis pelo caráter, amplidão, coração. Encontro Marcado entre os que se amam pelas eternidades.
-Unzuhause- 






Nietzsche e o cavalo de Turim


Ele acorreu ao cavalo na praça de Turim e o abraçou, chorando e protetor. Era o surto do qual Nietzsche nunca mais voltaria, mergulho definitivo na loucura que lhe perpassa toda a vida pregressa como sombra que, se mais ou menos efetiva nos escritos, nós podemos apenas conjecturar. Certamente uma potencialidade presente. Escritor das estados limítrofes (borderline) do Ser, enamorado das cisões (esquizo) do espírito (frenos), explorador infatigável dos segredos até então invioláveis de nossos dogmas religiosos, morais e científicos que tornavam a vida suportável mas constrangedoramente inautêntica.  O grande erro existencial: não a paixão por Lou, mas querer impor-lhe o esquema convencional de um casamento burguês, logo Nietzsche, e logo a Lou, considerada por seu séquito de gênios amantes e / ou admiradores uma verdadeira vampira, demônio em estado puro. Nisso a "sensatez" também faltou a nosso filósofo, e a vida lhe arremessou de volta em bumerangue essa lesa infração que é querer estar entre os homens sem já sê-lo, estando além deles -Super-Homem!- porém ainda cativo de uma Lois Lane (Lou). O castigo do crime veio em forma do doloroso calvário do amor, cavalo de Tróia dos deuses vingativos abrindo as portas da fortaleza para a ruína, o cavalo do cavalgar solitário e quixotesco do coração sangrante, que parece sina de tantos pensadores. Por quê?
-Unzuhause-

"Era um escritor peculiar, é claro, provavelmente mais peculiar que a maioria, mas também mais generoso, pelo menos em vida. Seu isolamento por vezes incentivava um maníaco senso de contradeterminação de se tornar real. A posição inferior na vida incentivou seu orgulho e seu sentimento de superioridade, no qual reconhecia sua própria afinidade com os protagonistas oprimidos do romancista russo Dostoiévski.
(...)

A vida, para Nietzsche, era a linguagem que ele usava para inventá-la, uma linguagem sempre musical e pictórica. A própria vida era uma forma inventada. Seus livros, tão ligados a essa vida, transmitem uma sensação de improviso: são assimétricos, descontínuos, estritamente concêntricos e ao mesmo tempo desprovidos de um centro nítido. São o produto de uma mente feroz e uma personalidade divergente. Eles devem ser lidos através de suas iluminações, suas inspirações súbitas, desenhos e prazeres fugazes. Seu estilo consiste de esmerados instantâneos mentais, muitas vezes brilhantes."


Lesley Chamberlain,

Nietzsche em Turim

cinquenta tons da corveia


todo meu apoio! sei bem como é tentar fazer jus à corveia da existência e ainda por cima, bola de ferro na perna direita, ter de olhar pra colega ao lado e me abismar em seu poder de atração, em seu hipnotismo em coxas e decotes, em suas carnes frescas e joviais, reforçando em tinta de amargura e pinceis de melancolia meus cinquenta tons da corveia.
-Unzuhause-

O caso da mulher demitida nos EUA por ser "muito atraente"
http://www.advivo.com.br/node/1204386


Enviado por luisnassif, sex, 28/12/2012 - 07:55




Mulher é demitida nos EUA por ser "muito atraente"
Folha de S.Paulo
DA REUTERS
A Suprema Corte do Estado de Iowa, nos Estados Unidos, decidiu que os empregadores do local podem, legalmente, demitir funcionários que eles considerem muito atraentes.
Em uma decisão unânime, o tribunal indicou que um dentista não violou as leis do Estado ao demitir uma assistente que a mulher dele considerava ser uma ameaça ao seu casamento.
A assistente, Melissa Nelson, trabalhou para o dentista James Knight por mais de dez anos e nunca tinha flertado com ele, de acordo com os testemunhos de ambas as partes.
Mas, no julgamento, Knight disse que tinha reclamado diversas vezes que as roupas da funcionária, classificada no processo como "irresistível", eram muito apertadas e "reveladoras".
Em 2009, ele começou a trocar mensagens SMS com Nelson. A maior parte dos torpedos era relacionada ao trabalho, mas alguns eram sugestivos --em um deles, de acordo com os dados do processo, o chefe perguntou à assistente com que frequência ela tinha orgasmos. Ela não respondeu a mensagem.
No fim daquele ano, a mulher do dentista descobriu os torpedos e mandou o marido demitir a funcionária, em razão de ela ser "uma grande ameaça ao casamento" dos dois.
No começo de 2010, Nelson foi demitida e entrou com um processo contra o chefe, dizendo que não havia feito nada de errado, que considerava Knight uma figura paterna e que havia sido mandada embora apenas por ser mulher.
O dentista argumentou que a assistente não havia sido demitida por ser mulher, já que todas as funcionárias de sua clínica são do sexo feminino, mas sim porque o relacionamento entre os dois colocava seu casamento em risco.
Os sete juízes da corte de Iowa, todos homens, decidiram que chefes podem demitir funcionários "muito atraentes" e que a medida não representa discriminação.

mãos trêmulas de rojões esfuziantes


ANO-NOVO


-Ledo Ivo (1924-2012)-

Como os homens são loquazes!

E sua estridência sobe ao céu

que se desfolha em luz e rajada.

Na beira da praia, o Ano-novo nasce entre fetiches brancos
 brancas sombras estrepitosas que se movem na areia
até que amanheça e o dia seja

a nuvem que passa.

Certa mão habituada à incerteza
tenta mais uma vez atingir o coração da matéria:
o veio onde o mistério da vida

lateja na sombra como uma galáxia.

Embora o amanhã cante na voz das sereias

sabemos que algo nos foi arrebatado

e jamais nos será devolvido.

quebra-quebra



Batidíssima citação musical (youtube, acima) , mas nem por isso menos necessária, pra exprimir o mal-estar que me vem desse destino "nerd" de ser, em que inoculei a escola como paradigma de significado e segurança, réplica intelectual, talvez, do regime matriarcal dos afetos. Animal faminto de atrair prazer e repelir dor, não mudaria de rotas se não fossem as derrotas. E a vida aqui fora, após a Era da Escola, tem se mostrado anormalmente  difícil, dolorosa e chata. Fáustica no sentido de desespero que por vezes me vem de amar tanto os livros e funcionar tão mal fora deles. Não conseguindo uma análise como eu gostaria, por exemplo; me analiso diretamente com Jung, Freud, Reich, como dizia pra uma amiga hoje. Ou seja, não me analiso, se considerarmos a auto-análise impossível. Problema é que meu confronto é com os "caras", os Freuds e Jungs, meu amor é por eles, minha competição é por e contra eles. Fora, tudo conversa fiada. Não por incompetência dos profissionais, mais pela sede infinita de saber e de poder que me assola. Pela vontade de quebra-quebra contra os muros da livraria e da escola e do consultório de explicações pra nunca mais saber quem eu sou. Libertação sem teologia. Sexo metafísico e sujo. Vida!
-Unzuhause-

sexta-feira, dezembro 28, 2012

seeing dead people


Nota pessoal depois de rever "O Sexto Sentido" agora há pouco: claro que um filme de supense, assim como toda noite escura dos sentidos, lembrando São João da Cruz, e que tenha impacto de trauma duradouro (deveria haver uma palavra para os traumas de êxtase), nunca é a mesma coisa depois da primeira vez. Mas pode ser outra coisa, sem ser menos intensa. como a paixão que, sacramentada naquela Ur-noite, que empiricamente pode ser uma, ou várias, se cultiva depois no dia-a-dia do milagre discreto da vida. tanto nesse filme, como nos dramas do amor, a resposta, a saída, a vitória do amor sobre a morte (ou conciliação dos dois) pode estar em escutar o outro lado.
-Unzuhause-


néon

capítulo de ontem da busca de Deus nas placas de néon das ermas autoestradas do mundo (mística beat, segundo Kerouac): olhar da funcionária do Mcdonald's ao me entregar meu café e, dois goles depois, me perguntar: está bom? Sim, muito bom.
-Unzuhause-

quinta-feira, dezembro 27, 2012

jeeesus cristo, tu estás aí?


Meu presente de Natal atrasado é ler essa obra-prima do meu bruxo teatral supremo, ao lado de Antunes Filho, Mario Bortolotto. Ambos tão diversos, ambos tão fundamentais. Mario é meu sonho encarnado, minha projeção pessoal do meu querer ser beatnik em plena recessão pós-moderna. Ele não precisa querer ser nada, ele já é: plena budeidade católico-kerouaquiana. Eu tenho uma longa estrada se quiser não querer mas ser, à procura de Deus nas placas de néon das autoestradas mais ermas, como ouvi Mario anos atrás na peça "Kerouac", uma de minhas epifanias de espectador teatral. Os dizeres de Mario me encantam ainda mais pela sincronicidade com a sessão de hoje no meu analista, na qual acabo dizendo algo há muito reprimido: meu cansaço de apelar pra Deus. Cara, como diria o Duda Mendonça, deixa o Homem trabalhar! Deus, faz o teu que eu faço o meu. Jeeeesus Cristo, eu estou aqui, mas você está aí? Não, pois aqui e aí, vontade e realidade, suplicante e suplicado, se relativizam na aceitação profunda, no amor fati de Nietzsche, já  não suplicante, já não mendicante de nada, nem de amor nem de autoconservação (os medos essenciais do homem quando ainda não foi iniciado: solidão e morte) mas plena em niilitude.
-Unzuhause-

Telefone II
...
Não sei revelação, ou vozes do além. Resumindo o código: Fé: "Deus não gosta de orações ou rezas constantes. Se eu não gosto que o meu telefone toque mais de três vezes na semana, por que deveríamos tocar o telefone na cabeça de Deus o tempo todo? As pessoas deveriam aprender a deixar Deus em paz. Milhões de vozes, em diferentes idiomas, chamadas incessantes -eu sei dos esquizofrênicos e do incômodo. Silêncio é muito importante. O telefone deve ter apenas o código de emergência. Pequenas chamadas, muito às vezes".

(Jorge Cardoso)

Eu sou do tipo que acredita, sabe como é. Sou católico e ex-seminarista, e embora não freqüente mais igrejas (só bares) sei que ele tá por aí (junto com o mal que mora em mim). Tenho reservas na maneira que Ele conduz as coisas, mas aí eu acho que o problema é Dele por me conceder livre arbítrio e uma inteligência razoável a ponto de perguntar “E aí, Brother? É assim mesmo?”
Mas não sou de rezar. Acho que Deus tem mais o que fazer do que ficar atendendo meus pedidos de merda. Até tentei algumas vezes, mas Ele ignorou completamente, ou não ouviu mesmo, sei lá. Acho que Deus também quer ser deixado em paz de vez em quando e a rapaziada não respeita. Acho até que Ele gostaria mesmo que a gente fizesse como Edvaldo Santana e Paulo Leminski : “Dá um tempo, Deus, cuide dos seus assuntos que eu cuido dos meus”. Ou como diria Catalau: “Valeu Deus, fico te devendo mais essa, no final a gente se acerta”.

Tropa de Elite, carnavalização e violência


Ontem uma noite quente e à toa no sofá da sala, meus dedos se enganam de botão e controle remoto me bota diante de "Tropa de Elite", o primeiro. Acho que se eu deixasse no mudo seria capaz de dizer em voz alta as falas de cada cena, antecipando inclusive as marcações da cena seguinte.. de tanto que já vi, de tanto que adoro esse filme. Melhor que o segundo: menos politicamente correto. O segundo já é filtrado e autocensurado (no sentido psicanalítico, inclusive) pelas acusações de "fascismo" que choveram contra o Capitão Nascimento. Que do primeiro pro segundo, envelhece, perde a mulher -e justamente pro bonzinho-mor da consciência social-, assim como o Bope já não é representado como a "seita" jovem, forte e pura que parecia no primeiro filme. Sim, o primeiro é beeem melhor. Também mais sarcástico: "pede pra sair", "nunca serão", "vai voltar pro saco", "filho, você me dá licença de revistar sua casa, posso ficar à vontade?" e outras tantas falas que me fazem gargalhar. A dinâmica interna à polícia corrupta é simplesmente hilária. É, evidentemente de um jeito torto, Rio de Janeiro no que tem de mais poderoso, cafajexxxte (sotaque maravilhoso) inexplicavelmente sedutor, alma tesuda e louca de um Brasil que tantos gostariam de brochar e lobotomizar. Nas invasões de favela, o gesto de Nascimento girando o dedo pro alto lembra um diretor de escola de samba na Sapucaí. Algo de delirante e extático paira no ar, vide as cenas "iniciáticas" em que Nascimento coordena um curso em busca de um substituto à altura de sua mestria. Sem dúvida o filme faz carícias ao ressentimento da classe média que baba de vontade de ver os bandidos apanhando e morrendo. Mas isso diminui o valor de verdade artística da obra? Mesmo que censurar a "Divina Comédia" pelo quanto ela tem de raiva e violência cristã contra os "hereges" da moral e da religião ditas verdadeiras. A violência é inerente à vida, como não o seria ao espelho transfigurativo dela, a grande Arte?
-Unzuhause-


quarta-feira, dezembro 26, 2012

desembagulhando geral


Amei um verbo que acabo de ver no facebook: desembagulhar, no contexto de um pós-relacionamento (no caso, de uma ex-militante petista em relação ao partido que lhe partiu o coração); "chega, vou correr, desembagulhar pós-PT". Faço minha filhote adotiva essa palavra, desembagulhando geral após o casamento depressivo com o nirvana e em franco processo de mundanização, de férias da academia da cachola e de corpo e alma na academia dos músculos.
-Unzuhause-


hard times, furious dancing


terça-feira, dezembro 25, 2012

coração beat

Allen Ginsberg, mestre da geração beat

D. H. Lawrence assim tangenciou o que poderíamos chamar de a dimensão sagrada do sexo, um dos eixos espirituais que eu pouco pus em prática até hoje, mas que por um espírito beat tardio -que igualmente me empurra pra carreira de viajante- sinto como um chamado dolorosamente irrecusável: "Deus pai, o impenetrável, o desconhecido, nós trazemo-lo na carne e encontramo-lo na mulher. Ele é a porta pela qual entramos e saímos. Através dela voltamos ao Pai, mas fazemo-lo como aqueles que assistiram cegos inconscientes à transfiguração". Quanto à religiosidade em geral, o escritor "obsceno" sintetiza, num credo que é também cada vez mais o meu, desfeitas as bolhas espiritualistas em que sufoquei até aqui: "A minha religião é a fé no sangue e na carne, que são mais sensatos que o intelecto".

-Unzuhause-

October Project - Wall of Silence



I've seen that life
Touches us with pain
And we change
Becoming strangers to our friends
Tell
me what happens along the way

I thought of us

Hard to talk these days

Did we change

Or were

we strangers all along

Tell me what caused us to turn away


CHORUS

There's a wall of silence

Miles

across

A wall between us

Holding back

Holding back our loss

I moved ahead

Thinking you'd

be there

But it changed

And now we're strangers to our past

How did I lose you along the way

CHORUS

I've

seen that life

Touches us with pain

And we change

Becoming strangers to ourselves

Tell

me what happens along the way

How did I lose you along the way

segunda-feira, dezembro 24, 2012

fogos pra embriagar o vazio


Começo a sentir, ao som dos latidos assustados da nossa buldoguinha, a angústia que me sobe e faz nó de gravata borboleta na garganta, o mal-estar com os fogos de artifício que quem torce pra outro time, ou pra ninguém, deve aturar nas noites (e longas madrugadas) de comemoração esportiva. Não sei se por extrapolação do vazio existencial, e carência espiritual, que me assombram esta noite, pressinto nos festeiros em êxtase um vazio igual a esse meu, que se tenta tapar, encharcar até transbordar à base de cachaça e comida goela abaixo e rojões estourados contra o céu - também ele vazio.

-Unzuhause-

feliz aniversário a todos




minha pequena homenagem ao Aniversariante desta Noite, figuração (que figuraça!) individual do sujeito coletivo - Humanidade- que aniversaria de 31 pra primeiro. dois aniversários que são quiçá um só e nosso. abraços a todos, boas festas!
-Unzuhause-

domingo, dezembro 23, 2012

o despertar dos músculos



redescobrindo a musculação como compromisso com certa "fortitude" do corpo muito diferente do querer ser o "fortinho" narcísico na superfície sarado mas profundamente doente em sua alma hemorrágica. a musculação, como ouvi de um saradão muito interessante, quase como uma prática meditativa, um metabolismo, acrescentaria, consciente entre o corpo e seus pesos, revertidos de fardo inútil em aparato de despertamento, o tônus de uma individuação muscular.
-Unzuhause-

terça-feira, dezembro 18, 2012

tuitando - lágrimas no cartório

duas horas de esperas num cartório hoje de manhã, na venda de imóvel da família: tédio absoluto quebrado aqui e ali por lembranças em forma úmida e salgada, disfarçadas o melhor que pude, de vidas que restam apenas como atestados de óbito na minha mão.

segunda-feira, dezembro 17, 2012

infância enrugada


conversando com amigos agora há pouco, me ocorreu uma imagem estranha mas que me deu o que pensar: uma infância com rugas, adolescência de cabelos brancos. Algo disto sinto ter herdado de minha propensão à ansiedade pelos resultados esportivos (leia-se: corintianos). Nada mais fluido do que eles; a história que culmina em vitória sendo apenas o início da história seguinte de derrota. Por isso me
forcei com o tempo a uma atitude de mais ataraxia, tranquilização da alma pela depuração dos venenos do desejo e da aversão. Tentativa de equanimidade interior entre os extremos opostos e igualmente possíveis na sarabanda das coisas. Isso não elimina em um milímetro sequer a alegria e transcendência do que vivi de ontem para hoje com nosso time (auto-projeção minha em chuteiras, cores, escudo, atabaques e bandeirão).Mas ensina a modéstia fundamental ante o devir na paixão do torcer. O mais prazeroso contudo vai além da vitória contingente: minha torcida maior é pra que a seriedade com que estão tratando o Corinthians, de dentro pra fora, permaneça, não ceda terreno à soberba, aos rachas, à mediocridade e inescrupulosidade de tantos de nossos cartolas. Somos a maior torcida, somos o campeão do mundo, mas "ibope" nenhum deste gênero suplanta o dever do cuidado com o "projeto-Corinthians". Quanto ao torcer esportivo propriamente dito, meu encanto com o relato de um amigo santista sobre o que presenciou num estádio argentinp. Não era a Bombonera, não era o Boca, era time menor e tals, mas mesmo assim ficou impressionado pelo clima de transe coletivo, entre cantorias e drogas, fazendo os movimentos dentro das quatro linhas apenas detalhes a mais de um espetáculo que vai muito além. Assim encaro a dimensão do ser Corinthians, era o que quis buscar ontem na sede da Gaviões, não fosse o pânico e chantagens emocionais do povo querido de casa, adorável mas receoso demais em relação às dimensões mais viscerais da existência. Venceu a sensatez e o assistir solitário e analítico; ano que vem quero fazer diferente.
-Unzuhause-

domingo, dezembro 16, 2012

Resenhas na Folha - 15 /12/12 (II)



FOLHA DE S. PAULO
Guia Folha Livros, Discos, Filmes

A MÍSTICA PARADOXAL DE BENJAMIN
-Caio Liudvik-


Se melancolia é a sombra do objeto perdido que se abateu sobre a alma e congela o tempo, e o ser de esquerda, o sonho caloroso e mobilização ativa por um mundo melhor, nada mais paradoxal do que a equação pessoal da obra de Walter Benjamin (1892-1940), maior de nossos "melancólicos de esquerda". Um materialista histórico que parece caminhar à sombra (a ocultação esotérica tradicional) de poderosa energia místico-messiânica não nomeada (para não ser perdida). Tais forças díspares perpassam a coletânea "O Anjo da História", em tradução do renomado português João Barrento, com notas de contextualização e excertos de diálogos de Benjamin com Adorno e Horkheimer, entre outros.

Entre os ensaios em destaque, figura "Sobre o Conceito da História", espécie de testamento do pensador judeu-alemão pouco antes do suicídio na fronteira da Espanha para escapar às mãos da Gestapo. Como que ecoando a aposta kafkiana numa esperança que existe, mas não para nós, Benjamim toma, com sua peculiaríssima articulação de filosofia e crítica cultural, materiais como o "Angelus Novus" de Klee para pensar a catástrofe do terror nazista e da guerra. Mas não poupa a superstição do "progresso" que leva certa esquerda otimista (que se acredita inserida na mão certa dos acontecimentos) à traição dos ideais em nome de um pragmatismo ingênuo, senão hipócrita. No "Fragmento teológico-político", por sua vez, Benjamin explicita (tanto quanto vela) um pouco mais o anseio messiânico, porém o afasta de qualquer ideário de teocracia política, vendo antes o niilismo como a verdadeira senda profana que o tempo que nos foi dado viver nos dá como chance de salvação.
Já em "Benjamin e a Obra de Arte", vemos que esta espécie de mística paradoxal em torno de uma história sombria (Nachtgeschichte), tão forte também no amigo cabalista Gershom Scholem, não impede Benjamin de ser moderno, ou melhor, modernista, numa ruptura mas identidade profunda com seu tempo. Daí a celebração da queda da "aura" distância sagrada e pureza autêntica nos objetos estéticos, conforme o ensaio fundamental "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica", reproduzido –também ele- e comentado no livro por importantes especialistas na obra benjaminiana.

BICHOS DA CIDADE
Poeta, professor, jornalista, editor, Heitor Ferraz Mello é também um transeunte da metrópole atento a todo "bicho escondido na paisagem da grande selva de pedra". Não como um caçador que mata, mas como um criador que dá vida, transfigurando a nossa. No divertidíssimo "Bichos da Cidade", ele consegue ver e versejar com talento, compaixão e ironia o besouro que há no helicóptero, a tartaruga-fusca, os passarinhos brancos rodopiando no céu da maquina de lavar (passarinhos-cuecas, passarinhos-meias, passarinhos-calcinhas), os motogrilos, o telefone celular que é sapo-boi que não para de tocar, os guarda-chuvas morcegos que se preparam, em nosso dezembro, para invadir as ruas no tempestuoso verão paulistano. Tão paulistano quanto o amor corintiano que coroa o poema final. Em perfeito diálogo com as imagens de Béa Meira, o livro encanta a criança em todos nós, a educa a fazer por si própria mais desses exercícios. Revela um novo jeito de, por metáforas animais, construir pontes até sobre o incômodo e o odioso na cidade grande, como a agressão visual e auditiva, o incômodo permanente, a redução do homem a gado mal-tratado.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO

ALTA AJUDA
Vem de José Miguel Wisnick a ideia de "alta ajuda" que dá título a este livro de ensaios de Francisco Bosco, doutor em teoria da literatura pela UFRJ, professor e colunista de jornal. A alta ajuda como abordagem com espírito filosófico dos problemas da existência cotidiana. Em contraste com a "auto-ajuda" fundada no mantra do pensamento positivo.
Bosco não se detém na litania fácil contra a literatura também fácil da consolação. Não tem tempo para ódio e auto-promoção arrogante. Fala, com lucidez espantosa  dos temas mais diversos, como a fadiga amorosa de um casal ou o sentido da amizade, e sempre com profundidade de ideias e prosa agradabilíssima. Destaque para a magnífica (e muito realista, o resenhista pode comprovar) descrição dos tormentos de um insone; sem precisar aqui recorrer explicitamente a Cioran, clássico transilvânico, Bosco mostra o insone como uma espécie de vampiro que só pode dormir à luz do dia, como que um "imortal de olheiras", que resiste a morrer como também a sonhar.
Aliás, uma "interpretação da insônia" parece uma via tão ou mais frutífera de acesso à alma desértica de hoje quanto a "Interpretação dos Sonhos" foi para os vitorianos grávidos de símbolos reprimidos do tempo de Freud.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO



Resenhas na Folha - 15/12/12

James & Nora

FOLHA DE S. PAULO
Guia Folha Livros, Discos, Filmes
-Caio Liudvik-

EPIFANIAS DO PERPÉTUO EXILADO
"Em ventre de mulher o verbo se fez carne, mas em espírito do criador toda carne que passa se torna a palavra que nunca passará". Aqui poderíamos pressentir o fundamento do projeto estético-filosófico subjacente à obra de James Joyce. E de suas "epifanias", em particular. Elas seriam uma espécie de "instante decisivo", para lembrar Henri Cartier-Bresson, linha de evanescência para súbita iluminação desencadeada por falas, gestos, imagens às vezes as mais banais, corriqueiras. Pode estar, por exemplo, na vizinha que Joyce flagra puxando a corrente de descarga da privada no apartamento ao lado. Pode estar no prolongado uivo triste do cão solitário sob as nuvens, lamentação em que os passantes parecem recordar de seus próprios pesares amortecidos na rotina de "servos de dias trabalhosos". Conforme vemos na seleção de esquetes que leva este título, em tradução de Piero Eyben, Joyce tinha por estas cenas um bizarro entusiasmo que já o fez candidato potencial à camisa-de-força entre não poucos analistas de reputação. Não por acaso essas escolas de tradução teórica da alma ficam tão mais interessantes quando vistas, elas sim, da linguagem primordial e artificial do irlandês louco que revolucionou a literatura moderna, com obras-primas de talento e ininteligibilidade como "Finnegans Wake", repleta de epifanias.

A maior delas talvez não esteja na obra, mas na vida de Joyce: o encontro com Nora Barnacle, no 16 de junho de 1904 depois imortalizado como o dia mítico da odisseia de misérias e epifanias de "Ulisses". "Como odeio Deus e a morte, como gosto de Nora", diz com uma intensidade que perpassa suas "Cartas a Nora", organizadas por Sérgio Medeiros e Dirce Waltrick do Amarante. A "mais bela e simples alma do mundo", moça da roça, Irlanda profunda de olhos estranhos, levada no peito pelo perpétuo exilado, "anima" (Jung) diante de quem Joyce se via como um mero seixo guardado nas mãos da Grande Mãe-Amante. Para além das "cartas sujas" em que trocavam "safadezas" quando estavam sem se ver, a coletânea tem destaques como a autodefinição de Joyce como "teu Irmão Cristão na Luxúria", que declara ódio e guerra à Igreja de que se separou. Retratos do artista quando jovem revoltado que diz à amada -imaginemos o susto da mocinha que lia tal cartão de apresentação- que não podia "fazer parte da ordem social senão como um vagabundo".

O HORROR DE DUNWICH
Certo grau de imaginação e capacidade de distanciamento da vida cotidiana: pré-requisitos, segundo H. P. Lovecraft, para a devida fruição estética do tipo de literatura que o consagrou: o horror, o "macabro espectral" com tinturas de ocultismo, mitologia e ficção científica. Visto como grande continuador de Edgar Allan Poe, o escritor americano (1890-1937) se tornou, ele próprio -por virtudes patentes no ciclo cosmogônico que inventou, de que "O Horror de Dunwich" é integrante- um totem cultuado entre iniciados em sua literatura.
Mais um sinal do quanto soube penetrar nos nossos mais primitivos sentimentos, o  medo difuso e o pesadelo de não passarmos de tolas criaturas tardias, lesmas falantes, desnecessárias na economia indiferente das potências primordiais do cosmos.
Nessa novela, ele se serve da lenda dos bacuraus, aves noturnas, que rondam as casas habitadas por velhos e doentes à beira da morte. Intervêm também obsessões lovecraftianas como o sinistro grimório (livro de feitiçaria) "Necronomicon" (nekros: cadáver; nomos: lei; eikon: imagem). Lovecraft conjuga elementos lendários "reais", ou seja, já alucinados pela tradição, com outros de sua própria lavra, do modo típico do mitologismo moderno.

AVALIAÇÃO – ÓTIMO


O TIGRE NA SOMBRA
Um resenhista afetado poderia parasitar um fenômeno best-seller como Lya Luft para desancar o gosto do grande público, a literatura "didática" etc. Mas isso seria não querer ver que o que vende muito pode também ser muito bom. Em "O Tigre na Sombra", Lya retorna ao gênero romanesco, mas leva consigo marcas de suas crônicas filosóficas sobre nosso cotidiano (pouco) "familiar". O livro tem como protagonista Dôda, ou Dolores, "nome escuro, de sombra e pranto", diferente do nome de flor da irmã Dália, de quem ela é sombra - subalterna nos afetos da mãe-, Doda é problemática, desajustada
mas com dons de comunicação com o mistério, o profundo, um outro mundo. Em aliança secreta com um tigrezinho de olhos azuis, mantido escondido porque os adultos, se dele soubessem, certamente o aprisionariam no zoológico, como retêm a menina e seu defeito que a classifica, cegos à excepcionalidade que a singulariza.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO




quinta-feira, dezembro 13, 2012

temporal e vazio


O temporal que peguei na saída do consultório parecia pronunciamento dos céus, em palavras de ruptura, esvaziamento e purificação, sobre o quão forte havia sido aquela hora com meu analista-mestre.. hora que começou pela confissão de que tô mimetizando o psiquiatrês (psique a três?) dele que tanto adoro, ambiguidade proposital: adoro os dois, o mestre e sua linguagem. E acabou por minha evocação da passagem devocional em que o monge pede ao discípulo: se encontrares o Buda na rua, dá-lhe um belo dum pé na bunda. Jeito bacana, e bem lacaniano (apesar do folclore que há em torno do Jung oriental, imagem menos forte pra mim que o Jung gnóstico) , de "furar" todos os ídolos, chover todas as neuras e descobrir (em si) o grande Vazio.
-Unzuhause-


as fórmulas prontas


aja naturalmente.. mas eu não sou natural
ouça seu coração.. ixi, meu coração fala japonês

obedeça a intuição.. mas ela é casca da banana

não perca a cabeça: mas pensar é se render ao banana da casca..
AFFE.. FICO ÓRFÃO DE PAI E MÃE EM MATÉRIA DE FÓRMULAS PRONTAS.. SEM SABER MUITO BEM ONDE ESQUECI AS MINHAS PRÓPRIAS!
-Unzuhause-

quarta-feira, dezembro 12, 2012

nós temos razão de delirar


O poético espreita onde menos contamos com ele: por exemplo nas sisudas taxonomias de Kraepelin para as múltiplas variantes do sofrimento mental, na virada do século XIX para o XX. No caso da distinção do que hoje conhecemos como esquizofrenia e paranoia (o grande par conceitual da psicose), Kraepelin enfatiza que uma das diferenças básicas é que no caso do paranoico o delírio tende a ser parcial, pontual, afetando um determinado aspecto do raciocínio e dos afetos do indivíduo, que de resto parecerá perfeitamente "normal" e ajustado as convenções objetivas e interpessoais que definem para nós a medida da realidade , a qual é muito diferente do que, décadas depois, o genial "terrorista" que se disse ser Lacan chamaria de o Real.
O delírio opera como um desvio singelo, um erro de premissa que não obstante pode ser uma bola de neve de raciocínios logicamente impecáveis. O paranoico, pode-se dizer, sofre de excesso de razão, não de falta dela. Quanto ao poético no discurso psiquiátrico, pressinto no momento em que Kraepelin, talvez o maior psiquiatra da história, fala de outra característica que distingue o "delírio" (paranoico) e as "alucinações" da demência precoce (termo na época para esquizofrenia).
 O conteúdo do transtorno delirante não apenas é mais circunscrito na economia total da alma, como também, por mais mórbido que certamente é (delírios de perseguição, eróticos, de referência etc), ele tangencia em muito a fragilidade mesma da vida "real": há no delírio, diferentemente dos voos fantásticos do esquizofrênico, "uma notável concordância com aqueles medos, desejos e esperanças, que mesmo nas pessoas normais procedem do sentimento da incerteza e da busca da felicidade".
Os critérios do DSM- IV (American Psychiatric Association, 1994)trazem aos dias de hoje os paradoxos do delírio, ao colocar logo no critério A para definição do transtorno paranoico que esses constructos mentais patologicamente distorcidos sejam, contudo, "não bizarros... envolvendo situações que ocorrem na vida real, tais como ser... seguido, envenenado, infectado, amado à distância, ou traído pela esposa e amante, ou ter uma doença".
O poético que pra mim perpassa toda loucura -faço meu o "elogio da loucura" de Erasmo aos surrealistas- se adensa, no delírio paranoico, da dramaticidade mesma da condição humana, ambígua e opaca demais, perseguidora, infectante e erotomaníaca para nossos frágeis direitos (quem os deu?) de integridade, saúde e amor.
-Unzuhause-

domingo, dezembro 09, 2012

o dedão do sol


Os heraclitólogos (sim, os há, como os sartrólogos, nietzschólogos, ufólogos etc) adoram se digladiar entre si e com quem queira se meter a falar dele, e meter a colher em caldos de mistério e bizarrice como a sentença: O sol é do tamanho do pé humano. Do dedão do pé, pode-se dizer. Não me ocorre aforismo mais brilhante, mais "solar", acerca da preguiça obesa -meu analista me advertia esta semana contra afetos obesos, demandas obesas de amor etc. Preguiça obesa que nos impede de desconfiar da primeira impressão, de manter espírito crítico com o que parece "evidente", de ir além, procurar, procurar, como na música Panis et Circenses. Que aliás é excelente retrato musical das pessoas na sala do jantar medindo, de barriga para o alto, palitando os dentinhos e de bem com a vida, o tamanho do lustre pelo dedão do pé.
-Unzuhause-


o menino super-homem


A irmã de Nietzsche entrou pra História como uma verdadeira judas do Anticristo, aquela que traiu a pureza apolítica do irmão forjando nele um adepto do nazismo avant la lettre. A monumental biografia de Domenico Losurdo trata de mostrar que nada é tão simples como quer certo nietzschianismo de cátedra, de hermeneutas da inocência, como ironiza o importante crítico italiano, que neste estudo mostra tanto sua qualidade pessoal de erudito marxista quanto a capacidade de não se fazer de cego ante a grandeza desconcertante, pro bem e pro mal, ou para além do bem e do mal, do profeta do Übermensch -que por algum medo tolo de redução do gênio a gibi, preferimos traduzir de modos esquisitos como "Além-do-Homem", ao invés do simples e poderoso Super-Homem. Mas tudo isto me ocorre por conta de um estímulo totalmente diverso, o testemunho de Elizabeth sobre a personalidade e a demora do pequenino "Fritz" em aprender a falar, num contexto de mimos e regalos de mãe e irmã, entre outras expoentes de um clã matriarcal após a morte precoce do pai de Nietzsche:
"Fritz está demasiadamente bem cuidado e bem servido. Ao menor sinal que faz, todo mundo atende a sua vontade. Por que então precisaria esforçar-se para falar?"
Gostei desta articulação entre linguagem e desprazer, entre a necessidade da palavra e a sensação psíquica prévia de mal-estar, de abismo (que a vida só vai agravar, quanto mais adulta, isso no caso de indivíduos saudáveis) entre quem (ou o que) quer e o que (ou quem) se quer. Lembrando-se que desejo expressa privação: de+ sidus, não-estrela, não ter a estrela, perdê-la, como o poeta solitário rememorando e dizendo a dor do raiar do dia (e da consciência), já sem a estrela que se escondeu na claridade excessiva do dia.
-Unzuhause-

inconsciente e os sequelados do existir


Falando do "termo genérico 'o inconsciente', o analista e psiquiatra junguiano Anthony Stevens observa, não sem um tom de empirismo e pragmatismo anglo-saxões que era também do próprio Jung, apesar da tentação metafísica e romântica do, sgundo rumores, "bisneto bastardo" (espiritualmente porém legítimo, mais que isso, favorito) de Goethe:

"Este é [o inconsciente], sob muitos aspectos, um termo muito infeliz da nomenclatura, pois supõe que o inconsciente seja algo parecido com a glândula pineal ou um lugar como Paris ou o Mar Cáspio. Com efeito, o inconsciente não é nem um objeto e nem um lugar: trata-se de um processo que possui um dinamismo todo sui generis, sobre o qual o ego consciente cavalga, qual jóquei: 'O inconsciente', por conseguinte, nada mais é do que uma hipótese. Sua existência não pode ser definitivamente comprovada, mas apenas deduzida, com base em suas manifestações através dos símbolos, dos sintomas e do comportamento. Entranto, demonstrou ser uma hipótese útil, sem a qual nenhum analista pode trabalhar".
Não só porque estudei Sartre no mestrado e doutorado, mas "o inconsciente" sempre me pareceu um conceito algo pesado, desajeitado, para pensar e viver os conflitos da existência. Como "sequelado do existir", sou atento a todas as linguagens que apontem para o mistério do Mal e do sofrimento, nesse sentido a ideia de inconsciente me atrai. Porém o existir concreto, na sua precariedade, arbitrariedade, contingência, me parece excessivamente explicado quando se apela demais a uma instância psíquica oculta, totipotente, densa de significados que escapam ao frágil ego consciente e o predeterminariam, desde o passado e rumo ao futuro. Ouve-se um claro estribilho religioso -o que não é de todo mau rs- nesse tipo de autoexplicação que o homem do século  XX inventou ou descobriu para e sobre si. Nisto "o inconsciente" se arrisca à má sorte de todos os símbolos quando vão se banalizando, virando o "freud explica" da vida cotidiana, perdendo o poder de assombrar, fundamental a todo despertar para um conhecimento efetivo e transformador. Saco cheio de, como sequelado da existência, ficar apelando toda hora pra simboloterapias como id, pulsão de morte, libido, anima, sombra e assim tentar apaziguar o que não tem paz nem nunca terá. Então, como bom místico niilista -que redescobre no Nada a instância primeira, dúvida hiperbólica, de "fundamentação" de todo significado- peço sempre de mim esse cuidado, de não falar em vão os sagrados nomes pelos quais Freud, Jung e Lacan (minha santíssima trindade) revolucionaram a linguagem, a ciência e a religião. Melhor ser agnóstico, melhor ainda quando este pequeno "a" cai e viramos gnósticos. Melhor nos deixarmos surpreender, como eu dizia pra mamãe ao pedir pra ela me trazer da rua o último gibi do Homem-Aranha: faz essa surpresa mamãe! rs Melhor não crer, mas saber e ser. Mas que existem, existem..
-Unzuhause-

sexta-feira, dezembro 07, 2012

mandala, estádio



Amigos junguianos, lacanianos, narcisistas como eu: estádio do espelho é uma expressão muito estudada pelo espelho, mas pouco pelo estádio. Arena. Praça de jogos, dualidades em confronto. Dualidade de festa e de tristeza. Na teoria lacaniana, é a hora H da passagem do infans ao pequeno ego, indivíduo unificado pelo dedo da mãe que aponta para o espelho entre ambos: olha você ali! Quando o espelho não é a própria pupila da mãe em que "sua majestade o bebê" se locupleta pelo reinado amoroso vigente entre a criaturinha e sua criadora. Corresponde a uma fase mais "imaginária" do trajeto de Lacan, não por acaso marcada pela acolhida, entre outros, aos conceito junguianos de complexo e de imago. Imago não é a mãe ou o pai ou o irmão, são eles em mim. É o que "me" ocorre em tudo o que ocorre. Pois bem, pensar o estádio do espelho com ênfase no "ESTÁDIO", estrutura circular, é se aproximar perigosa e deliciosamente do conceito junguiano de MANDALA, em sânscrito "círculo", que espontaneamente aparece em sonhos, devaneios, desenhos de pacientes de Jung.
O mestre suíço a interpretou como uma forma psíquica por excelência, isto é, autorretrato da psique que está em busca de auto-integração e articulação dos opostos cujo dilaceramento levara à neurose ou psicose. A mandala era muito usada como instrumento de meditação entre os indianos.
Enfim, me inquieta que Lacan recorra à imagem de estádio. Poderia ter simplesmente falado em "estado", ou fase. Mas isto poria a perder, em nome de um etapismo biopsíquico, a dimensão de "locus", do espaço permanente e estrutural dos jogos do eu com sua imagem sempre à beira da evasão ("peril of the soul", em Jung). O estádio como arquétipo. Não quero um ecletismo do crioulo doido. A autoconstituição do eu é mais ilusória e superficial em Lacan do que a autocura do inconsciente profundo o é em Jung. Mas que a analogia dos círculos me encanta, e pode esconder coelhos nessa toca, ahh isso é fato.
-Unzuhause-


quinta-feira, dezembro 06, 2012

Reportagem sobre obra de Niemeyer

Era meu começo na Folha, primeiros passos de jornalista, engatinhando e já tendo que voar: era minha primeira viagem de avião. Era a sensação inigualável de quando viajo, no real e no simbolismo da palavra (ah, não viaja, dizem as vozes sensatas)  e me solto de mim e me descubro mundo. Foram várias páginas assinadas no caderno de "Turismo", pro qual o tímido iniciante no caderno "Mais!" fora convocado pra mergulhar na "Minas cultural". Foi meu orgulho a sensação de "furo" jornalístico -depois reconhecida internamente, e pela reportagem que o "Jornal da Globo" foi fazer no nosso rastro. Furo de texto decorrente de rachaduras no templo e do tempo: as que infestavam de descaso típico de Brasil a obra genial típica de Niemeyer. Foi minha primeira conversa, em papel de jornalista, com alguém "grande". Muito grande. Obrigado, Niemeyer.
-Unzuhause-

São Paulo, segunda-feira, 09 de abril de 2001


MINAS CULTURAL


Comissão analisa rachaduras na obra de Oscar Niemeyer

Igrejinha do complexo da Pampulha carece de reforma

DO ENVIADO ESPECIAL A MINAS GERAIS

A igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, é um caso típico de potencial turístico estorvado pela negligência: esse marco da cultura, das artes e até da religião modernas no Brasil está maculado por rachaduras que se espalham na sua abóbada superior.
O templo faz parte do conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, concebido por Oscar Niemeyer e que é composto também pela Casa do Baile, pelo Museu de Arte e pelo Iate Clube.
Embora tão farta de tesouros artísticos e folclóricos, a igrejinha tem sofrido pelo puro e simples descaso, hoje em dia bem visível nas rachaduras da abóbada externa do edifício.

Ainda não foi apresentada uma definição técnica mais precisa do problema pela comissão formada para discutir a questão -e que engloba representantes da Igreja Católica, do Estado e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG).

O padre Dino Barbiero, pároco da igreja na época das reformas de 1991 (por problemas de infiltração), explica que não se mexeu então nas estruturas externas da igreja, só nas internas, e que, à falta de ligas de dilatação na abóbada superior, ela tende a se enrijecer e rachar quando ocorrem mudanças climáticas bruscas.

Já o pároco atual, padre João De Bona, faz críticas veladas à própria concepção arquitetônica da igreja, em especial ao formato da abóbada e ao tamanho pequeno das pastilhas azuis ali empregadas (e que estão caindo em grande quantidade). Desmente, porém, a declaração de que "a igreja não resiste a mais uma chuva", a ele atribuída por um participante das reuniões da comissão técnica.

Padre De Bona evita a palavra "descaso", mas é veemente em comparar a atual situação a duas outras e recentes "descaracterizações" sofridas pela igreja de São Francisco de Assis: a dos jardins, reformados pelo colégio Pitágoras em 1996, mas já "sem o mesmo esplendor" da concepção original de Burle Marx, e a de 1991, que introduziu na nave uma madeira "estranha" aos propósitos de Oscar Niemeyer.


Opinião do arquiteto

Niemeyer, por sua vez, disse à Folha que enviará estudiosos ao local para verificar o que se passa, mas descarta a possibilidade de um desabamento, já que os problemas atuais seriam de superfície, não chegando a afetar a estrutura do monumento.
O arquiteto se diz confiante de que as reformas não afetarão o perfil da igreja, pois os técnicos envolvidos na reforma de 1991 "já haviam constatado as rachaduras" e lhe teriam assegurado não se tratar de nada grave.
O fato é que, à mercê de "cuidados" que não fazem jus à sua importância, a igreja de São Francisco segue cumprindo sua principal vocação atual: o turismo.

Aberta à visitação pública diariamente, ela hoje abriga bem poucos serviços religiosos. Há missa apenas aos domingos, às 10h30; os casamentos -e só "os mais bonitos", acrescenta o padre De Bona- se restringem às sextas e aos sábados.

(CAIO CARAMICO SOARES)

quarta-feira, dezembro 05, 2012

James Hillman e o fetiche de crescer


É como se não houvesse entre mim e o mundo, e portanto no mais "dentro" de mim a política, com exigências próprias, irredutíveis ao 'bem-estar' e 'auto-estima' do cliente analítico. É como se não fôssemos atravessados permanentemente pelo Outro, como se o "inconsciente" não fosse coletivo. Assim leio as críticas de Hillman -uma espécie, salvo engano, de Lacan dos junguianos, em termos de ousadia, potência de releitura e amor crítico ao legado do Mestre- ao fetiche do terapêutico como forma de alienação e apaziguamento do sujeito "são" na sociedade doente. Na psiquiatria vem de longe o dilema de apontar nas doenças mentais maior ou menor peso dos fatores ambientais e /ou biologicamente inerentes. Tipo de dicotomia fadada a não ser resolvida, mas conjugada num raciocínio complexo (no sentido de Edgar Morin). Mas enfim, vale muito ler Hillman e suas provocações ao que outro autor chamou de "triunfo do terapêutico" em nossas sociedades de massa, individualistas e secularizadas, em que Deus é pouco mais que metáfora do inconsciente, e as igrejas se mudam para o divã.
Destaco, a seguir, outra passagem do livro atualmente em minha cabeceira; o analista pós-junguiano implica, de modo muito engraçado e de um humor negro dos bons (bons a pensar), com a metáfora do "crescimento" pessoal. Na economia há fetiche parecido, como se "crescer" fosse sinônimo de boa vida; a esquerda de hoje vem com esse tipo de dados mal começa a ser questionada sobre os antigos ideais de qualidade do ser, não quantidade do ter. Triste forma -mais uma!- de se nivelar à direita neoliberal, não ao conservadorismo no sentido pleno de um resgate dos valores fundamentais, ainda que no tempo espiralado que não pára mas sempre volta.
-Unzuhause-

MICHAEL VENTURA- Então você faz uma espécie de oposição entre poder, o poder político ou a inteligência política, e a inteligência terapêutica. Muitos dos que são terapeuticamente sensíveis são politicamente silenciosos e insignificantes; se você observar as pessoas que exercem grande poder em qualquer esfera da vida, verá que em geral são aquelas cujo crescimento interior foi intensamente sustado.
JAMES HILLMAN - Você acha que as pessoas fazem terapia para crescer?
VENTURA - Por acaso a palavra crescimento não ocupa grande parte do projeto terapêutico? Todo mundo a usa, tanto terapeutas quanto pacientes.
HILLMAN - Mas a própria palavra crescimento é apropriada para as crianças. Depois de certa idade não se cresce mais. Os dentes não crescem, os músculos não crescem. Se você começa a crescer depois dessa idade, está com câncer.
VENTURA - Ah, Jim, por que não posso crescer dentro de mim durante toda a vida?
HILLMAN - Crescer o quê? Milho? Tomates? Novos arquétipos? O que estou fazendo crescer, o que você faz crescer? A resposta-padrão da terapia é: fazer crescer a si mesmo.
VENTURA - E o filósofo Kierkegaard voltaria para dizer: 'A natureza mais profunda não muda, transforma-se cada vez mais nela própria'
HILLMAN- Jung diz que individuação é ser cada vez mais si mesmo. (...) E ser cada vez mais o que se é - a real experiência disso é um encolhimento, quase sempre no sentido de um ressecamento, de perda de gorduras, de perda de ilusões. (...) mudar é uma coisa linda. É claro que não é o que diz o consumismo, mas mudar é bom. É um grande estímulo.
VENTURA - Mudar o quê?
HILLMAN - Mudar as falsas peles, perder a matéria incrustrada que se acumulou. Soltar a casca seca. Essa é uma das grandes mudanças. Coisas que não funcionam mais, que não sustentam mais, que não o mantêm vivo. Um conjunto de ideias que se tem há muito tempo. Pessoas das quais, na verdade, você não gosta, pensamentos viciados, hábitos sexuais. Estes últimos são pontos muito importantes: se aos 40 anos a pessoa faz sexo como fazia aos 18, estará perdendo algo; se aos 60 fizer amor como fazia aos 40, também estará perdendo. Tudo muda. A imaginação muda".
HILLMAN, J. & VENTURA, M.,
Cem Anos de Psicoterapia... e o Mundo Está Cada Vez Pior

terça-feira, dezembro 04, 2012

o bafo


Amo as crianças, enquanto fenômeno humano, mas me confesso uma negação como cuidador para elas. Pois sou como elas. impulsivo, auto-centrado. até quando olho pra fora procuro relances de algo que alimente minha curiosidade por mim. Falando nela, hoje no metrô fiquei contemplando um garoto dando tapões no banco azul claro, ao lado de homem mais velho, talvez pai. tapão em figurinhas, pra vê-las revirar, o que no meu tempo chamávamos "bafo". Mas o que me fisgou, no caso, não foi meu incômodo pessoal, ou de meio vagão; nos barulhos do menino me fascinava ver, à distância, o que me parecia, até pelo contexto deslocado, sem amiguinhos, o irracionalidade do gesto, o "ato gratuito" de André Gide e da turma surrealista, o gozo do puro contato com o material, a produção do som sem sentido. Quem disse que nossos sons têm de ser medidos pela métrica do sentido? faz tanto sentido assim o fulano que passa a meu lado com um celular desses com fone de ouvido, que deixam a pessoa ainda mais solta, à vontade, gesticulando e falando com algum ente invisível para nós outros? estamos cada vez mais ausentes ali onde presentes, virtual não é só internet. pois bem, voltando à criança, o que me tirou do torpor contemplativo do seu bafo foi no final da "cena", o menino ainda esfuziante,imparável, pilha duracell, rebolando acho que na mímica da dancinha do neymar. Aqui a minha posição passou da observação distanciada (a psicanálise me devolvendo antigo hábito de ator, xeretar o espetáculo da vida laica) para a risada pra dentro, quase gargalhada pra fora, devido ao olho torto do homem mais velho para a criança, provavelmente uma mosquinha mental incômoda passou-lhe pelos olhos ante a dancinha de neymar, mosquinha reprovadora e chata como essa que me faz perder tanto tempo e palavras em cena tão prosaica.
-Unzuhause-

ponte sobre a morte

Amigos, minha obsessão com a vitória tem dessas coisas: ser segundo lugar no concurso nacional Capes de doutorados e querer esconder isso até de mim mesmo, pois "menção honrosa" me soa meio tonto. aquela coisa de ser tudo igual entre ser vice e ser palmeiras, ops, ul-timão.. Mas enfim, venço o mal-estar (sem frescura perfeccionista) e fico feliz, portanto trago a notícia a vcs: pra mim falar é já sinal de felicidade, mesmo quando a "mensagem" seja triste. Ainda mais feliz por lembrar das dificuldades, mundo (mental) caindo na minha cabeça, sensação prolongada de poder estar doente -um beijo na boca numa balada vadia e o medo de ter pego AIDS nesse encontro obscuro com mulher misteriosa-, sensação ontológica da morte a caminho, solidão (pq o medo hipocondríaco afetava diretamente a dimensão do contato físico com outrem) fuga da academia, perda da forma física ideal (a única que posso aceitar de mim, não sarado, mas " curado"/ cuidado). Tese escrita num mês, o último antes da entrega, depois de brigas e choro da mãe com minha inação e depois de me encorajar ao ver o Capitão Nascimento no cinema. Um mês de escrita, claro, "incubado" por uma vida - e como ponte sobre a morte, definição de Jung para a verdadeira prece da alma.
-Unzuhause-

bush soul (meus feriados para Charlotte Gainsbourg)


Brasil, essa terra faminta de feriados, eu trocaria todos eles, a nação da tropicália também, por um só, a cada vez que fosse estrear qualquer coisa de Charlotte Gainsbourg. Deliciosa, sensual, inteligente, melancólica, densa, dessas pra se ter uma relação de perder a cabeça etc etc etc, ela é a prova viva de que o amor entre humanos ainda é possível e interessante, apesar da cultura prostituta que de tanto escancarar seios e pintos, acaba sendo mais moralista que o credo mais repressor: pois sexo, tido em excesso ou visto de perto demais, cansa, deixa de ser a ludicidade pura das formas / formosuras, pernas, rostos, afeto, para ser fricção banal entre nossos órgãos de micção.
Charlotte me propiciou "feriado" particular -descanso sabático das penas de existir- ontem à noite, ao revê-la em "A Árvore". Mais uma de suas atuações sensacionais, num filme tocante pela forma como aborda uma tragédia familiar -ahhhh mortes, como vos odeio mas vos entendo em vossa desrazão-, e a maneira como a fantasia nasce como símbolo de autocura, na alma de uma criança que não podia suportar ficar sem o amado pai (não porque pai seria amável), reencontrando-o no espírito da grande árvore perto de casa, a mesma árvore em que o pai morreu abruptamente, de ataque de coração, quando dirigia e levava a pequerrucha de volta pra casa na caminhonete.
Charlotte, na carne e espírito de Dawn (que quer dizer Aurora), é a esposa (e mãe de quatro filhos) transtornada pela tragédia -apocalipse familiar, três por quatro do que ela enfrenta nas geniais pirações escatológicas de Lars von Trier. Ela vem de uma vida toda hipotecando a própria potência para figuras masculinas fortes, o pai primeiro, depois o marido quase perfeito (não fosse a mortalidade). E está quase para repetir esse roteiro, ao conhecer um encanador tão viril quanto o marido morto. Mas o morto, ou melhor, sua "bush soul" (alma do mato, antiquíssima crença dos povos para os quais a alma humana não é a única no mundo), não parece tão receptiva a esse "adultério". Pelo menos na alma da menininha que, com sua teima, acaba por fazer a mãe ver que o caminho -de resto, imposto por um ciclone que vem destruir tudo, a casa e a árvore- era uma outra libertação, assumir o próprio "animus", reconstruir a vida com os filhos noutro lugar, aí sim fazendo do luto experiência triste mas que explode os limites e scripts da repetição melancólica (no mau sentido do termo).
Ahh Charlotte, meus feriados pra você!
-Unzuhause-

***

Em "A Árvore", Charlotte Gainsbourg encara morte do marido

Drama encontra força nas interpretações e transpira emoções verdadeiras


Reuters | 06/01/2011 17:10

Para Charlotte Gainsbourg, ser mãe é padecer no paraíso. Ao menos no cinema. Depois da mãe sofredora, e bota sofrimento nisso, em "Anticristo", de Lars Von Trier - que lhe rendeu o prêmio de interpretação feminina em Cannes 2009 -, ela encarna outra vez a figura materna no limite em "A Árvore".
A direção é da francesa Julie Bertucelli, que tem em seu currículo o longa "Desde que Otar Partiu", premiado na Semana da Crítica em Cannes 2003. O roteiro é baseado num romance da australiana Judy Pascoe e a narrativa situa-se no interior da Austrália.

Julie, aliás, é uma cineasta que costuma filmar longe de casa. Seu filme de estreia passava-se na Geórgia. Assim, ao mesmo tempo em que localiza a narrativa, ela também é uma descobridora daquele lugar, pois lhe é estranho.

Esse sentido de estranhamento é fundamental para "A Árvore", que foi o filme de encerramento do Festival de Cannes de 2010. As primeiras cenas mostram a relação familiar da personagem de Charlotte, Dawn, com o marido, Peter (Aden Young), e os filhos Tim (Christian Bayers), Lou (Tom Russell), Simone (Morgana Davies) e Charlie (Gabriel Gotting). Essa espécie de prólogo dura o suficiente para registrar o clima harmonioso da família e a relação próxima entre Simone, a filha mais nova, e o pai, que morre de um ataque do coração.
Essa ruptura transforma a família, ao ponto de que a pequena Simone passa a acreditar que o pai está dentro de uma grande figueira que há na frente da casa familiar. A ausência destroi emocionalmente os personagens, que precisam se recompor. A princípio, Dawn não se importa com a relação próxima da filha com a árvore. Devastada, ela mesma busca refúgio na solidão junto à figueira em alguns momentos.

A obsessão da menina ganha contornos mais sérios à medida em que Simone se isola cada vez mais, apegando-se à arvore. Ganhando ares de um realismo fantástico, é como se a árvore passasse a ter um ‘comportamento' estranho. É óbvio que a diretora está trabalhando com uma alegoria. A figueira no filme, que guardaria a alma de Peter, não representa apenas uma árvore, mas o sentimento da menina sobre a perda do pai.

Coincidentemente, a diretora passou por uma experiência parecida pouco antes das filmagens. Seu marido, o diretor de fotografia Christophe Pollock, morreu em 2006, deixando-a com dois filhos pequenos.

Independente dessa coincidência – ou se o longa trouxe algum tipo de expiação para Julie, "A Árvore" é um filme de emoções verdadeiras e que encontra força nas interpretações – especialmente de Charlotte e da pequena Morgana.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

carta ao povo brasileiro



[do meu texto-convite no facebook:
"carta ao povo facebookiano, não sem pedido de clemência aos meus amigos do PT, do PSOL etc, sigo vos amando e respeitando, a vós e a vossos ideais, que busco pelo viés mítico (teologia da libertação), mas o que preciso por ora é de um novo mote e de um norte na cidade dos homens"]


Assistindo hoje, não tive os choques elétricos daquela noite de 1998. Se eu não dormir hoje, não será pelos mesmos motivos eufóricos daquela vez. Minhas insônias estão menos politizadas, como aliás todo meu revolvimento, de dia e de noite, na cidade dos homens. Que pra mim, e não é de hoje, tem motivado menos que a cidade de Deus, para usar da velha e boa linguagem teológica. Falando nela, queria registrar que amei o artigo de hoje do professor Pondé, na Folha, e me identifico muito com o modo dele (pré-)sentir o sagrado na via dolorosa da angústia, não da auto-estima desta espécie ridícula que é a humana, desta bolha grotesca que é o ego individual,  quando esquecemos do que somos. Do nada ser que nos dá (nos empresta, por um tempo) precário ser. . Bem, mas não ignoro que a cidade de Deus pode ser uma quimera, que poderei chegar do outro lado e nada encontrar, ou nada merecer,se me mantiver passivo e omisso no tempo que me foi dado para conviver entre os homens. Por isso, a política. Também a política. Que está em tudo, sem ser tudo. E na política, confesso que minha história vem mais disto aqui, de emoções virtuais, como a daquela noite em que Covas destroçou Maluf e virou uma eleição pra governador quase perdida. Sou movido a emoções, mais que a cartilha ideológica. Se ideologia  tem de haver, creio que tenho o DNA dito "conservador" em certas opções fundamentais sobre a condição humana, inclusive por uma certa tendência à complexio oppositorum (Jung) entre justiça e liberdade, entre bem e mal, entre caos e ordem, individualidade e solidariedade, mercado e sociedade civil, que ideias vagas de anarquismo prenunciam, mas que uma social-democracia sólida, renovada, mais crítica e popular pode viabilizar. Não quero cargos, acho mesmo que perderei eleições e eleições (sina de "loser"), mas, ante o tipo de defesa que tenho visto dos petistas em relação ao seu líder supremo que sempre nada sabia de nada, só posso confessar, com dor e ar-dor de coração, que chega, que não dá mais, que peço o bilhete de retorno e a carteirinha de filiação e, se possível, refundação, do PARTIDO DA SOCIAL-DEMOCRACIA BRASILEIRA.
-Unzuhause-

no sonho se faz, na vida se paga


De sexta pra sábado, me vi em sonho na boca do caixa de uma farmácia, e espertamente consegui pagar -por erro da funcionária, mas omissão culpada minha- pelos meus produtos bem menos do que deveria. sei lá, seriam 200 paus e paguei 20. Na manhã do sábado, fui à minha padaria adorada de todo início de dia -dia que só "começa" depois do café e farofa no almoço que só lá existem. Pedi meu café expresso duplo de sempre, mas o funcionário agora errou contra meu bolso, cobrando dois duplos, acho que o dois e o duplo o confundiram e geraram o ato falho, pra mim uma tremenda sincronicidade em relação à minha esperteza no sonho. Bem que o café podia não despertar tanto! Como diria Dr. Jung numa tuitada direta dos Alpes: #compensaçãoinconsciente.
-Unzuhause-


domingo, dezembro 02, 2012

estrela da manhã - bate-papo com Bianca Müller


Um grande jornalista brasileiro me disse certa vez nos corredores de uma Redação: ser jornalista é aprender a dar murro em ponta de faca. Acrescento: e assoviar feliz e contente escondendo a mão machucada. Já Balzac abordava o universo da grande imprensa no clássico de título pouco animador: Ilusões Perdidas. De fato, a gente vai se desiludindo muito, não só com os sonhos juvenis sobre a profissão, mas com a matéria humana de nosso trabalho: por exemplo, colegas que tínhamos na conta de heróis e as "personalidades" com quem passamos a conviver nos papéis de fonte dos dados, de alvo dos dardos etc.
Bem, esse longo preâmbulo para dizer que nem tudo está perdido, ao menos para meu coração romântico. O amor insiste em bater à porta, agravado da tentação pisciana à identificação onírica, senão mesmo mística, com  seres-imagens que a mídia, reflexo distorcido da vida, vai nos bombardeando. Assisto pouco a televisão, mas tive esse semestre a grata surpresa da minissérie "Sessão de Terapia", no GNT. Dispensa maiores delongas a qualidade dos atores, do diretor (Selton Mello), da produção como um todo, que trouxe alguns dos obscuros meandros da psicoterapia à tona para o grande público, de um modo interessante e não banalizante.
Mas "Sessão" soube me pôr também no divã na medida em que acendeu fantasias e amores, epifania joyceana, linha expressa de néon suspensa no Nada, tracejada  de profunda identificação afetiva com a beleza, força e fragilidade de uma das pacientes do dr. Theo (=Deus?), magnificamente representado por Zécarlos Machado.
Senhoras e senhores, o nome desse amor de néon e Nada é Nina, a frágil e fortíssima adolescente, ginasta, talentosa, problemática, encantadora, que desce aos infernos em busca de uma fresta de vida nova, um novo equilíbrio, como seu corpo de ginasta instintivamente sabia buscar, e que enfim parece se entreabrir (entre, abra!) na comovente cena final no equilíbrio movente da moto, ao vento, entre o pai e as bexigas coloridas de rito de entrada na festa da vida. Tô já em luto como espectador pela partida da linda me-nina, mas melhor consolação não pude encontrar: conhecer a criadora dessa personagem magnífica, a promissora Bianca Müller, 22. Sem querer me derreter num estilo Amaury Junior, não pude escamotear a posição de fã e pretendente de Nina-quando-crescer. Por isso não chamo a conversa a seguir de entrevista, mas de bate-papo entre amigos, como espero que Bianca doravante me seja de fato, como Nina para sempre será. Dentre tantas "celebridades" idiotas, esta estrela nasce diferente, sem estrelismo,  carismática e de coração de gente. Estrela da manhã, que vem para ficar.
-Unzuhause-

1) Ficou surpresa com o tamanho da repercussão de seu trabalho?
BIANCA MÜLLER- Não sei dizer muito bem como estou me sentindo, é dificil traduzir tantos sentimentos misturados. Mas posso dizer que estou muito feliz com o resultado do trabalho, feliz com as coisas que tenho lido e ouvido por ai; ansiosa e insegura para os próximos trabalhos; "estou carente do Sessão", enfim... Saldo positivo e a esperança de programas de qualidade e sensibilidade na tv brasileira.

2) Como foi seu processo criativo com a personagem? Já veio pronto ou houve margem de invenção nas falas, reações emocionais, condutas etc?
BIANCA - Meu processo de ciração da Nina foi na maior parte interno. Acredito que é de fundamental importância não julgar a personagem e sim mergulhar na sua história compreendendo todas suas dores, medos, inseguranças... Aproxima-la de mim não foi difícil, a série em si tratas de "dramas" universais e sentimentos comuns. Sou naturalmente sensível criei uma linha tênue entre a Nina e eu durante as gravações. Acho que o mais dificil é se despedir da personagem.
Houve também a caracterização, roer unhas, não fazer sobrancelhas, corte de cabelo, rouoas mais folgadas...
Houve liberdade por parte do Selton pra que eu sentisse da forma que quisesse... Quero dizer, não havia uma obrigação para chorar em determinado momento, nós fizemos alguns ensaios e durante os ensaios ele observava os momentos de maior emoção para poder valoriza-los. Não havia muita margem para mudar o texto, porém eu tinha liberdade para dizê-lo de forma mais coloquial.


3) O q vc destaca da vivência de ser dirigida pelo Selton? BIANCA - Destaco que ele é um EXCELENTE diretor, ele é um ótimo ator e soube usar isso muito positivamente para dirigir. É um diretor sensível, objetivo, determinado e sagaz. Sabe o que, como e quando fazer. Perito! Aprendi muito com ele, principalmente a valorizar e saborear as falas, os vazios, preencher os silêncios de conteúdo interior. Aprendi que ser atriz é se redescobrir a cada dia.

4) A quimica com o Zécarlos me pareceu impressionante! Pode falar um pouco sobre isso?
BIANCA - Ela é real! Zé Carlos é um ser humano maravilhoso e um profissional excelente. Trabalhar com ele foi um prazer e uma honra. Assim como o Selton, ele é muito generoso. A química existiu desde nosso primeiro encontro e isso é magnífico. Acho que é algo que existe ou não. Não dá pra ser criado, forçado... Empatia tem mais a ver com a energia das pessoas, dos momentos e claro, de quão abertas as pessoas estão para receber umas as outras. Zé estava aberto pra mim e eu pra ele. Meu "paizão", meu herói.

5) O risco de um grande personagem, no fim de um trabalho, é "não saber morrer", como diríamos na doutrina espírita, e ficar assombrando o ator/atriz por muito tempo. Há atores muito talentosos que porém ficam sendo de um personagem só, talvez pela dificuldade de "desapegar". Vc tá preparada pra esse desafio?
BIANCA - A gente nunca está preparado pra esse desapego até a única alternativa ser desapegar. Infelizemente acredito que desapego seja meu desafio pessoal, e talvez tenha escolhido inconscientemente essa profissão para aprender a exercitá-lo e evoluir como ser, como alma, como atriz, como humana... Bom, que venham os desafios, e que venham muitos trabalhos! To pronta pra crescer.

6) Vc passa uma candura, uma humildade, rara no meio. Falo como jornalista cultural e também como ex-estudante de teatro. POr favor, nunca perca isso! (pode comentar o que quiser aqui rs) BIANCA - :) Não vou perder! Sou um ser humano perfeitamente imperfeito assim como todos os outros. Amar mais e julgar menos, eis o meu lema! "Erro e acerto", quem nunca?!

7)Voltando ao processo criativo: vc faz / fez terapia? Se sim, isso te ajudou no processo?
BIANCA - Fiz terapia aos 16 anos por cerca de 3 meses. Não gostei na época pois não houve empatia com minha terapeuta. Mais tarde tentei novamente com outra terapeuta e gostei, mas não dei continuidade.
Finalmente após as gravações da série voltei pra terapia e agora muito mais aberta, e muito feliz com a escolha da minha terapeuta.