Thursday, November 29, 2012

tudo o que ama é sagrado


É sempre muito unheimlich (Freud - o estranho, o sinistro, ao mesmo tempo íntimo) testemunhar um sujeito às voltas com o próprio preconceito, numa época que aparentemente vem abolindo (ao mesmo tempo que abismando) as nossas diferenças. Estes dias tive um choque assim, ao me sentar num point de café & leitura, minha paradisíaca combinação de todos os dias, muito mais comum em Buenos Aires, segundo uma linda amiga portenha.. Bem, mas tentando me focar nos textos, fui é arrebatado pelas falas ao meu lado, um rapaz e sua amiga, ele contando de um affair gay, e entrando (sem trocadilhos) em, digamos, muito detalhe sobre a dor e o prazer que ele sente em determinadas práticas. Me levantei atordoado, com medo, não sei, quase que protestando internamente, me queixando dos modos carnavalescos do Brasil ano inteiro, assim por diante. Voltei ao meu vade-mécum de existência, os livros do dr. Jung, ELE é meu analista, meu corruptor, pelos sonhos dele fui (des) encaminhado pro bem e pro mal -só os idiotas do pensamento excludente fariam dicotomias caricaturais com este par amoroso de tudo o que é vivo. Melhor dizendo, voltei a um dos poucos junguianos que escreveram sobre o tabu do amor gay. Recomento muito a leitura:  Jung, Junguianos e a Homossexualidade, de Robert Hopcke, autor também de um excelente guia de leitura das obras de Jung, publicado pela Vozes. Bem, ainda me é cedo pra sequer esboçar um comentário ao livro, mas desde já me tocou pela potência do discurso junguiano em nos abrir espelhos mágicos, dos de Hermann Hesse, pra tudo o que há também de não mágico, de grotesco e mesquinho, em nossas almas. Por exemplo o veneno do preconceito. Cabe lembrar que o próprio Jung, varão, viril, sedutor de tantas valquírias (suas discípulas), passou ele próprio, na adolescência, por experiência de "subjugação", não se sabe com qual grau de consentimento. Mais um motivo, ao meu ver, pra que sua teoria e seu exemplo venham à tona com força nos debates contra e desmascaramentos da homofobia. O quanto, aliás, sua teoria da anima/animus, mostrando a bissexualidade arquetípica de todo homem / mulher, não captou e antecipou as profundas transformações "sociais" em torno do "natural" (outra dicotomia clássica dos idiotas do pensamento excludente) do desejo homoerótico? O quanto a enunciação mesma, por Jung, dessas descobertas, não está latente e operando em nossa cultura, no inconsciente coletivo, num sentido de mostrar que tudo o que move e o que ama é sagrado? Só por muito preconceito enrustido veríamos espiritualidade como pretexto pra amordaçar o desejo maldito, ou vice-versa..
-Unzuhause-

mas que coisa fuleca!

essa palhaçada de futebol brasileiro (mas será só do futebol?) recebeu de fora a melhor definição  para sua essência mais íntima: FULECO! já entrou pro meu vocabulário! obrigado Fifa!
-Unzuhause-


Wednesday, November 28, 2012

tuitando- lua cheia

minha cabeça anda tão sobrecarregada de linguagem que até a beleza gratuita de uma noite de lua cheia me chega aos olhos -seu luar, meu olhar- com o travo amargo do haicai do grande poeta:
"lua à vista

brilhavas assim

sobre auschwitz?"

-Leminski, P.-

Tuesday, November 27, 2012

a alma da videocassetada

exemplo de estêncil

Gostaria de tomar a palavra (ou dar-me a ela, em versão menos arrogante) para externar efeitos em mim da fala, agora há pouco, aqui no faceworld, de um amigo, talentoso analista junguiano, sobre o erro de impor à Mulher e ao Feminino em geral o estêncil da Anima, espécie de "feminino essencial". Me vi meditando em quanto perrengue já passei pela mania de ver a figura arquetípica da Anima em tudo e em todas. Quanta videocassetada psicológica. Quanta incapacidade de deixar ser não "a" Mulher, que não existe, mas essa e aquela singularidade. Talvez porque dê muito medo tudo o que é radicalmente singular. Talvez porque muitos homens, ou muitas porções complexuais do meu ser homem, prefiram ancorar o tesão explosivo na delícia visual e mais segura do degustar a maciez das pernas, ao invés do imiscuir-me contagioso na obscuridade úmida, rubra, ambígua, para muitas mulheres desagradável mesmo, do mais íntimo. Uma bela perna feminina é Eros enquanto puro poeta, ninguém consegue fazer com ela, em sua essência, piadas nem lhe impor os apelidos chulos de nossos genitais.  A perna não tem os cheiros e excrementos de nossos genitais. A depilação que nas pernas é sublime e adulta, no mais íntimo beira à confissão do desconforto de ser corpo e vontade de ser criança. Em termos de Lacan, dir-se-ia que meu quadro (entre renascentista e à la Bosch) é de pulsão escópica, cativeiro sob o corpo imaginário de mim e de meu amor, apalavrado nos meus pactos solipsistas, condenados porém ao desacato do Real. Daí à videocassetada é um passo, ou melhor, o primeiro escorregão ridículo, que vai dar no vômito sentado no canto de uma balada afogando a frustração. Ou nas buscas obsessivas, a cada Mcdonalds da Paulista, dos meus emails pra ver se chegou sinal de vida da "Nise da Silveira" quando jovem, da "Lou Salomé" de Nietzsche (solitária alma romântica como eu), da mina do Rio de Janeiro de óculos escuros e aura de mistério terrificamente sedutor.
Anima: rescaldo romântico da teoria junguiana original, que me parece, pelo que senti na fala do amigo, estar hoje sob crescente questionamento crítico entre os próprios junguianos. Sinal de vida, não de crise, quando um "sistema" de pensamento pode ser criticado pelos que amam o pensador!
-Unzuhause-

Saturday, November 24, 2012

resenhas para a Folha - 24/11/2012



FOLHA DE SÃO PAULO,
 GUIA FOLHA - LIVROS DISCOS FILMES
-Caio Liudvik-


BALAIO DE TRANSGRESSÕES
Se na religião implicava inferno, e no código penal, levava à cadeia, a "transgressão", ao entrar para o vocabulário da arte, adquire conotação positiva. Mais que isso, vira valor obsessivo, questão de vida ou morte, sucesso ou ostracismo do artista, que se obriga ao atormentado script dos gênios-para-si mesmos (na expressão de Álvaro de Campos, heterônimo de Pessoa) viciados na novidade absoluta da obra, marca da singularidade inimitável do indivíduo criador.
Essa é a do crítico e poeta Carlos Felipe Moisés em "Tradição & Ruptura". Além de Sartre, traduziu o crítico cultural Marshall Berman, que em "Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar" mostra o significado profundo de obras como o "Fausto" de Goethe como símbolos da modernidade. Dá no mínimo para suspeitar de uma forte ressonância faústica no subtítulo da obra de Moisés: "O Pacto da Transgressão na Literatura Moderna".
De fato, é de um "pacto" demoníaco que se trata, na medida em que a cultura da transgressão, na perpétua condenação ao "velho", se condena a si própria à inconsistência frenética. Ideias radicais logo reduzidas a clichês. Teatro dos "burocratas da contestação", polêmicas cretinas logo devolvidas, com seus polemistas, ao anonimato que para eles é pior que o inferno ou a prisão. De fato, chega a ser divertido acompanhar as diatribes com que o livro de Moisés passa de crítica estética que também é (analisando nomes como Pound, Octavio Paz, Cruz e Sousa) a obra de moralista, no sentido francês clássico.
Já em "Balaio – Alguns Poetas da Geração 60 & Arredores", Moisés, que estreou na poesia em obra publicada em 1960, de certo modo rastreia sua própria trajetória examinando obras de colegas como Hilda Hilst (embora ela tenha começado um pouco antes), Rubens Rodrigues Torres Filho, Roberto Piva e Ana Cristina Cesar. Sem condescendência com uma "geração espremida entre o ufanismo e a derrota", tampouco a reduz a uma escola doutrinária homogênea –ela foi antes plural e diversa como seu próprio espírito libertário o exigia.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

A MÁQUINA DO POETA
O "mais constante, generoso e fecundo estímulo à atividade literária por mim recebido em toda a existência" de, na sua auto-definição, "homem tímido e desarvorado". Assim Carlos Drummond de Andrade anuncia a importância da relação com Mário de Andrade, no início do livro (hoje raro) "A Lição do Amigo", coletânea das cartas do autor de "Macunaíma" para um então principiante poeta, triste pelo atraso cultural do país e inseguro sobre sua própria vocação artística. É esta situação que Nelson Cruz, em seu belíssimo "A Máquina do Poeta", resgata em imagens e texto. Ilustrador e artista plástico já premiado com o Jabuti, reconta e "re-imagina" o que foi a crise do jovem Carlos, pelos idos de 1926, retornando à Itabira natal e a ponto de quase dar fim à pretensão ao ofício do verso. Na obra, vemos o poeta diante do precipício, e dali de fato se atirando, mas lhe sobrevivendo pelas forças do inconsciente e pela bronca afetuosa do amigo Mário, que lhe diz um doce "Precisa trabalhar, hem, Carlos" e, como terapeuta, o convoca a reagir, a buscar sua força interior e não se deixar tragar pela terra e pela morte -um tema que aliás voltaria obsessivo, e em diversos sentidos, na obra madura, e para sempre vivíssima, de um de nossos maiores poetas.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO

Monday, November 19, 2012

a jornada Jesus


Os atos ou pensamentos de cada um determinarão a categoria dos espíritos que o acompanha; por isso, meus amados irmãos, tende sempre presente essa grande verdade porque evitareis muitos dissabores e apressareis a vossa ascensão até os pés do Mestre Jesus.
-Eurípedes Barsanulfo-

Queridos irmãos, elevemos nosso mais puro sentimento de gratidão a Jesus por tudo o que temos recebido em nossas vidas.
Façamos de nossos dias um hino de amor a Deus, sejamos o Evangelho Vivo de Nosso Senhor Jesus amando, perdoando, sendo caridosos, pacientes, benevolentes, tolerantes...
Que Jesus seja nosso Caminho, por todo o sempre.
-Casa Prece Chico Xavier-

meus pêsames, bugre

Sunday, November 18, 2012

Jung na África



Canção de Peter Gabriel inspirada nas aventuras africanas de Carl Gustav Jung na década de 20  - que serviram ao mestre de Küsnacht como documentação etnológica de suas descobertas psicológicas sobre o "homem arcaico"  não só ancestral, mas coetâneo íntimo de todos nós, no inconsciente coletivo.
Jung, nessas viagens ao mundo "primitivo", reencontrava os primórdios, a cosmogênese da consciência humana, a psiquificação da matéria, pálpebras que se abriam para que o Deus sive natura (Deus, ou seja, natureza) tomasse consciência de si, viesse a fazer sentido, como que por analogia ao nosso fazer amor. Tudo maravilhoso, ainda que seja uma visão etnologicamente enviesada por certa ideia de exotismo bem pouco aceitável para nosso chato tribunal do politicamente correto.

-Unzuhause-

Peter Gabriel - The Rhythm Of The Heat


Looking out the window
I see the red dust clear
High up on the red rock
Stands the shadow with the spear

The land here is strong

Strong beneath my feet

it feeds on the blood

it feeds on the heat

The rhythm is below me

The rhythm of the heat

The rhythm is around me
The rhythm has control

The rhythm is inside me

The rhythm has my soul

The rhythm of the heat

The rhythm of the heat

The rhythm of the heat

The rhythm of the heat

Drawn across the plainland

To the place that is higher

Drawn into the circle

That dances round the fire

We spit into our hands

And breathe across the palms

Raising them up high

Help open to the sun

Self-conscious, uncertain

I'm showered with the dust

The spirit enter into me
And I submit to trust
Smash the radio

No outside voices here

Smash the watch

Cannot tear the day to shreds

Smash the camera
Cannot steal away the spirits
The rhythm is around me

The rhythm has control

The rhythm is inside me

The rhythm has my soul



Olhando pela janela
Eu vejo a poeira vermelha clara
Alta sobre a rocha vermelha
Ergue-se a sombra com a lança
A terra aqui é forte
Forte debaixo dos meus pés
Ele se alimenta do sangue
Alimenta-se do calor
O ritmo é abaixo de mim
O ritmo do calor
O ritmo é em torno de mim
O ritmo tem controle
O ritmo está dentro de mim
O ritmo tem a minha alma
(O ritmo do calor ((repete)))
Traçada através da terra plana
Para o lugar que é maior
Atraídas pelo círculo
Que dança em volta do fogo
Nós cuspir em nossas mãos
E respirar através das palmas
Criá-los para o alto
Ajudar a abrir so sol
(Repetição)
Auto-consciente, incerto
Estou regado com o pó
O espírito entrar em mim
E eu
Submeter
Para confiar
Esmagar o rádio
Sem vozes lá fora
Esmagar o relógio
Não pode rasgar o dia em pedaços
Esmagar a câmera
Não pode roubá-los, eles são espíritos
O ritmo é em torno de mim
O ritmo tem controle
O ritmo está dentro de mim
O ritmo tem a minha alma

Thursday, November 15, 2012

monstros e quimeras

Jardim das Delícias, de Hyeronimus Bosch
Fim de semestre na minha escola, trabalho de aproveitamento lido e devolvido, vou reproduzir dele um trecho que tratava do paralelo que Lacan sugere entre os quadros de Bosch e os quadros de despedaçamento psicótico decorrentes da ruína do "estádio do espelho". Conceito que aliás, no artigo, eu tomo também na acepção tão brasileira da palavra estádio, conforme o outro trecho por mim destacado a seguir .
-Unzuhause-

(...)

Bosch (1450?- 1516), pintor holandês, foi um "inventor de monstros e quimeras", como disse o espanhol Felipe de Guevara na mais antiga apreciação de sua obra, em 1560. Se cada época reinventa o passado segundo relações "especulares" com a contemporaneidade, não surpreende que apreciações mais recentes tenham resgatado a obra de Bosch, reconhecendo-lhe uma significação profunda, ainda que muitas vezes enigmática. Alguns chegam a apontá-lo como uma prefiguração do surrealismo. Num dos seus quadros mais célebres, "O Jardim das Delícias", há quem tenha visto, no século XX – como o crítico Wilhelm Fraenger-, uma espécie de libelo hedonista ou mesmo, como diria Norman O. Brown, uma ilustração pictórica de certa "sexualidade terapêutica" (cf. Bosing, W., 1991, p. 8). Fraenger alude a possíveis ligações de Bosch com correntes heréticas medievais, com a "Congregação do Espírito Livre", também chamada de movimento adamista, pois pregaria o regalo do desejo como via de restauração da pureza adâmica pré-Queda.
Mas os indicadores históricos disponíveis, como mostra Walter Bosing, são de que Bosch deve ter sido um cristão ortodoxo. Era inclusive ligado à Confraria de Nossa Senhora, associação de clérigos e leigos dedicada ao culto da Virgem Maria. Quadros como "O Jardim das Delícias", desse modo, se alinhariam à denúncia tradicional, na Idade Média, do falso paraíso representado pelo pecado. "Como a Nave dos Loucos, a Morte do Avarento e o Carro do Feno, também este quadro desempenha o papel de um espelho onde vemos a tolice humana", com as pessoas se dedicando despreocupadamente a jogos amorosos, e incorrendo assim no "pecado mortal da Luxúria. Tal como Fraenger, poderíamos objetar que Bosch não utilizaria provavelmente cores e formas tão encantadoras para um objeto que queria representar como condenável. Para o homem do final da Idade Média, no entanto, a beleza física era mais suspeita do que para nós, pois aprendera que o pecado se apresentava à sua vítima sob o mais atraente aspecto mas que por trás dessa beleza física e carnal se escondia muitas vezes a morte e a condenação" (ibid., P. 56).

Assim, por mais subversiva que pareça, sobretudo a olhos modernos, a arte de Bosch parece mais um capítulo do intenso uso da imagem como instrumento teológico, conforme comentado em entrevista a nós pelo historiador Jérôme Baschet (Folha de São Paulo, caderno Mais!, 17 de setembro de 2006). "À diferença dos dois outros grandes monoteísmos, a cristandade medieval se converteu á imagem. Ela se caracteriza pela difusão de imagens cada vez mais diversificadas e por uma extraordinária inventividade iconográfica". Podemos retomar nesse nível a discussão lacaniana da função unificadora da imagem do grande Outro enquanto "estádio do espelho" cultural em operância religiosa na Idade Média, sendo a unidade de Cristo, e a unidade da Igreja, o corpo místico do qual cada homem era membro, ou seja, parte de um Todo maior e ela mesma um "todo" interior.

Tal totalidade era sempre ameaçada, podemos inferir pelo testemunho de Bosch, pelo assédio corrosivo do desejo ("O Jardim das Delícias"), caminho tortuoso cujo paradeiro aparece noutro quadro famoso do pintor holandês, "O Juízo Final". Tal quadro, aliás, pode ser um bom exemplo do que Lacan tem em vista ao mencionar Bosch como imagem pictórica do despedaçamento do corpo, do esfacelamento do Espelho moral e psíquico que ameaça os que se afastam da Ordem simbólica.
(...)


Estádio do Maracanã, palco da final da próxima Copa do Mundo

Gostaria de finalizar retornando rapidamente ao texto de Lacan. A formação do eu (Je), diz ele, "simboliza-se oniricamente por um campo fortificado, ou mesmo um estádio". Sugere-se assim que "estádio" não se reduz simplesmente a uma palavra permutável por "estágio", etapa biológica, pois não é apenas uma fase temporal: é como que uma estrutura espacial, uma arena (ibid. p. 101), como que um gramado de futebol demarcado em lados opostos e antagônicos, os times do "caos" e da "ordem", e nossa retranca, o eu e seus mecanismos de defesa, "defesa que ninguém passa", como canta o otimista hino do hoje quase rebaixado Palmeiras (escrevo em meados de outubro), muitas vezes falha até comete gols contra. Tudo sob a batuta do juízo do Outro, muitas vezes um "filho da outra" nos berros de nossa torcida fanática. Nessa medida, poderíamos entender o espelho não como um episódio pontual e logo ultrapassado no desenvolvimento pessoal, mas um campo sob permanente utilização ao longo da vida, ao longo de nossas copas do mundo existenciais, é o nosso ilusório jogar "em casa" quando sabemos que nossa morada é sempre fora de casa, é no desabrigo do mundo, é no descompasso – a barra sobre o sujeito do inconsciente, o "moi" minúsculo empurrando pra baixo a Outra cena que não a de nossas distra (i) ções narcísicas- entre o teatro do eu e o caldeirão sem símbolos apaziguantes que ferve no mundo subterrâneo à nossa espera.
LIUDVIK, CAIO,
O "estádio do espelho" e nossa copa do mundo entre céu e inferno
trabalho de aproveitamento no segundo semestre de 2012 do CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos)

Monday, November 12, 2012

miss tragédia apoia o guarani da capital


Segundona se aproxima,
minh' alma se rejubila,
essa vida que atordoa
por vezes má, mas sempre boa
pois na sua sina ela ensina
que mal assim sempre termina
toda arrogância cretina.
ÃO
ÃO
ÃO
SEGUNDA DIVISÃO!
-Unzuhause-

Sunday, November 11, 2012

estação paraíso


Tô na linha verde esperança do metrô nosso de cada noite, livro de Jung a tiracolo, e no banco ao lado mãe, pai e menino bebê, uns 4 anos, acho. E ele vai repetindo nomes de estações ditas pela voz metálica. Na " brigadeiro" faz água na boca, já na "paraíso" a curiosidade parece ecoar a metafísica dos adultos, mas o pai logo esclarece. "É a estação Paraíso, filho". Ahh, pra mim isso doeria mais que ver meu pai pondo às escondidas a barba de papai noel. Pena que o doce e o sonho, o brigadeiro de todas as fomes, o paraíso dos ecos da tradição, talvez sejam só isso mesmo, nome de estações. E sem consolação no ponto final.
-Unzuhause-


Saturday, November 10, 2012

reportagem psíquica- pastor Kierkegaard e algo de podre em nossa Dinamarca interior


A pedido dos amigos, retorno para alguns fragmentos a mais de reportagem psíquica sobre a melhor das aulas a que assisti este ano: a do Franklin, esta semana, sobre Kierkegaard.
A pouca cotação que tenho dado à maioria das aulas é sintoma de que minha paciência anda bem pouca, ao contrário de minhas (muitas e obsessivas) consultas ao relógio do celular, quando preciso estar em sala de aula. Tem crescido em mim um tropismo pelo silêncio, pela conversa direta com o saber, e  pela luz calma e clara de uma boa biblioteca ou sala de leitura improvisada, suspendendo o fluxo barulhento e sem sentido da multidão de cabeças e pernas ao meu redor.
Fragmento de reportagem psíquica é pleonasmo: ela é necessariamente fragmentária e por livre associação, como uma sessão de análise. É um retrato de um evento duplo: o que ocorreu e aquilo que "me" ocorreu do que ocorreu.
Já nisto me sinto gravitar na esfera existencialista de Kierkegaard: segundo Franklin, a grande novidade do dinamarquês nem é tão nova assim, se pensarmos na crítica pascaliana a Descartes: as exigências do coração (Pascal), a verdade na interioridade (Agostinho), a denúncia do racionalismo abstrato e da pseudo-universalidade forjada por conceitos, que no tempo de Kierkegaard eram embriaguez encarnada preferencialmente no sistema dialético de Hegel, maior adversário e estimulador da construção de seu próprio pensar.
Pensar que nem sequer se define como estritamente filosófico, se considerarmos que o esforço da razão, para Kierkegaard, é sobretudo o de uma autonegação em prol da fé. Não uma razão serva da teologia  no esquema escolástico: mas uma razão que é levada ao extremo para, diante do abismo, "confessar-se" impotente e frágil na situação do mistério.
"Diante de": Franklin mostrou toda a força desta noção. Como o confronto de Jung com o inconsciente, ou o de Jacó com o Anjo de Deus, o homem kierkegaardiano passa pela provação iniciática crucial à autorrealização,  que o leva ao abandono de ilusões (estádio estético), de falsas seguranças (estádio ético) para enfim se ver lançado no estádio religioso, isto é no escancarado desabrigo do mundo, como ser finito em apelo desesperado pelo Infinito, pelo "verdadeiramente oculto", conforme Isaías, e inspirado nele os luteranos, proclamam ao falar (santa ousadia) do Bem-Amado último e latente de nossos difíceis amores.
Algo de podre no reino da Dinamarca: não há cristãos, nessa Igreja assujeitada ao Estado, à burocracia do espírito e aos caprichos do racionalismo hegeliano, que bem à moderna reduz a religião a "figura" ainda incompleta do Espírito absoluto, que na sua odisseia dialética deveria ainda despir-se da imperfeição da fé e alcançar o "universal concreto" na organização estatal e na racionalização científico-filosófica da vida.
O que para Hegel é coroamento do universal concreto, do particular plenamente identificado com o universal, para Kierkegaard não passa de esquema delirante (paranoico, diríamos hoje), quase completo: só lhe falta realidade.
Pois a realidade é o individual, e aqui voltamos ao conceito da reportagem psíquica: evento que só é se e enquanto é para mim. A Verdade está na subjetividade, a interioridade é a verdadeira senda do cristão, isto é, do homem que aspira à autorrealização na travessia das sombras da morte. A angústia como o avesso da experiência mística, mas talvez "mística" em si mesma, em sua negatividade radical, sem garantias -talvez mesmo sem a garantia da existência de Deus, não para o pastor Kierkegaard, mas para nós filhos bastardos de um mundo cada vez mais inóspito, desagradável, desprazeroso: haver Deus por detrás de roteiros horríveis desse naipe me faz pensar ser melhor não haver Diretor nenhum no filme caótico, senão nós e nossas míopes lentes de contato naturais.
Voltando ainda aos três estádios, queria marcar meu agrado pelo relato de Franklin das vicissitudes pessoais de que Kierkegaard partiu ao projetar esse filosofema (ou quem sabe a filosofia o ajudou a projetar a própria vida?). Estádio estético: idade dos prazeres, hedonismo de don Juan. Estádio ético: tentativa de se amoldar à sociedade burguesa, "constituir família" - noivado com Regina Olsen.  E as tensões e rachaduras dessa comédia hipócrita, acarretando enfim o fim do noivado, e o sim à fenda, ao abismo, à aventura do cavaleiro da fé, estádio religioso, cruzada não para matar os outros em nome de nossa certeza, mas para nos ressuscitar sob o fardo da auto-insuficiência. Nossa pobreza (a Igreja verdadeira é a da opção preferencial por nós "pobres"), a escassez não-renovável de nossos próprios recursos, o absurdo de confiarmos ( hybris trágica) em nossa precária -e ridícula, quando recalcada- condição.
-Unzuhause-


reportagem psíquica - pastor Kierkegaard (1)



Outra hora volto pra expor minha "reportagem psíquica" da magnífica aula do professor Franklin na Maria Antonia esta semana. Por ora registro apenas um de seus desdobramentos: a curiosidade pelos protestantismos históricos, tipo luteranismo, calvinismo, ancestrais do que hoje conhecemos como os "crentes" (neopentecostais), evidentemente em contextos sociais e teológicos muito diversos.
Kierkegaard pastor, profeta bradando no deserto contra a arrogância do racionalismo filosófico e deplorando a decadência da Igreja. Cristão houve um só, e morreu na cruz, parece dizer o pai do existencialismo, assim como o diria Nietzsche, o anticristo atormentado pela fé não admitida. Mas meu 'pastordinamarquês', fera sem a qual não teríamos tido crias da cepa de Sartre, Heidegger e Camus, ele nada tinha de anticristão, em absoluto, mas admitia não "conseguir" ainda ser cristão, mas se esforçar por sê-lo. De fato trata-se de uma conquista, a maior de todas na vida, até mais importante do que a crença mesma em quaisquer deuses. Entre Cristo no inferno e a Verdade no céu, se um dia me provassem serem coisas diversas, eu ficaria com o primeiro, isso se Ele me aceitasse e à minha infinita miséria de ente finito.

Perguntei pro Franklin, e vi que é isso mesmo, se a decadência da Igreja, na visão arquiindividualista de Kierkegaard, não seria algo de inerente, inevitável. Não  há que lamentar nada se o lamento embutir qualquer esperança de "reformas" e "melhoramento" da instituição. Ela é ruinzinha mesmo, conversa fiada e tentar se compor com ela, e com seus representantes e lacaios, é preferir, a viajar e ver, ficar no quarto de casa, gorduchinho de meia-idade, comendo pão pullman com ricota e contemplando esperançoso uma foto amassada e embolorada de qualquer das maravilhas do universo.
Os evangélicos de hoje, netos dos grandes reformadores (esperançosos de um tempo que ainda permitia esperanças) me cativam pelo amor à Palavra bíblica, pelas fortes canções, como a do enérgico Thalles Roberto,  e pelas lindas cantoras, como a que persegue minhas noites. Então, em homenagem a eles, e no espírito de Kierkegaard, vos convido a ouvir comigo uma dessas músicas.
-Unzuhause-

Thursday, November 08, 2012

diário de uma formação analítica 06/11/2012


Tema da hora clínica esta semana em minha escola foi altamente estimulante:  sonhos. A aluna que levantou a pergunta desde logo pontuou que hoje o uso do material onírico parece mais enfatizado pela escola junguiana. Qual seria então a permanência -ou não- da validade da técnica de interpretação psicanalítica dos sonhos desde o livro clássico de Freud que fundou a psicanálise?
Tenho frustração pessoal a esse respeito: sonho mal, se é que se pode dizer assim: recordo pouco. Talvez porque meu dormir, em si, é sofrido, é difícil, e ainda por cima bombardeado de estímulos conscientes: livros na cama e televisão ligada. Tive já melhores épocas, em que chegava a anotar os sonhos e tal. Mas desde que começaram os barulhos na vizinhança -a região passou por um salto imobiliário desde a chegada do metrô-, minhas "tensões" (atributo essencial do estar consciente, segundo Janet) tiraram da noite qualquer possibilidade plácida de habitar o inconsciente. Creio que meu pensar cotidiano e meu filosofar são muito nutridos do inconsciente - bom pisciano que sou, fantasio demais de olhos abertos-, então é como se o Self, por uma estranha compensação, me deixasse à míngua na hora e local - madrugada e cama- mais propícios para as revelações oníricas diretas.
O que me ficou mais marcado da conversa em sala foi que, sim, o sonhar continua a ter o mesmo "prestígio" que Freud lhe conferia ao chamar o sonho de a via régia para o inconsciente. Mas sobretudo no contexto "distrativo" que a sessão analítica deve criar para nos induzir à confissão do segredo, do inconveniente, da palavra cheia imersa nos escombros das palavras vazias mais adiposas e pomposas. Boa analise é aquela que nos traga a sensação equívoca de quem entregou na hora errada o segredo de uma festa surpresa que estava preparando. 
Não se trata de um contexto policialesco, de tipo foucaultiano. Psicanálise é arte de investigação e tratamento do sofrimento. Mais que Weltanschauug genérica ou correia de transmissão da repressão social. Ou melhor, sabe ser mais que tais enganos, se o analista, além das qualidades de vida imaginativa pessoal (repertório cultural, convívio íntimo com literatura, artes plásticas, cinema, fotografia, música ), é suficientemente desalienado para entender que o Mal está inscrito também na sociedade de que ele e seu paciente são embaixadores e prisioneiros.
E quem entende o discurso freudiano sobre os sonhos entende praticamente a essência do método inteiro. Mas não se trata de forçar a barra, nem na estimulação de que o paciente nos conte sonhos toda semana, e muito menos na tentativa de "interpretá-los". Porca dá mil nós no seu rabo nessa hora. Não há dicionário universal que poupe o sonhador do preço a pagar pelos seus próprios significados pessoais. A responsabilidade, a implicação, a "construção" mesmo que é o inconsciente estão no pólo do sujeito, não de alguma sabedoria pseudo-universal que o terapeuta da Verdade pudesse assacar para iluminar imaginariamente os buracos do real. Hoje, como bem pontuou o professor Júlio, a tentação do analista parece menos a de dar "respostas" -a ingenuidade não chega a tanto-, mas a procurar as "sínteses". Ora, psicanálise não é psicossíntese. Se sonhei com um elefante vermelho perseguindo um haitiano, cabe decompor -analisar!- parte por parte, não correr logo para o catálogo do "sonho de perseguição". Mas por que elefante? Por que vermelho? Por que haitiano? Elefante vermelho, agora, me faz associar com elefante branco, o belo e duro filme com Ricardo Darín, em cartaz em S. Paulo. Quem disse que os argentinos não têm favelas? E não têm padres corajosos e comprometidos com a libertação integral do ser humano, em tempos de indigência simbólica e violência?
Indigência simbólica e violência que são também de meu cotidiano pessoal, na medida em que o inconsciente continue sempre traduzido no que eu dizia acima: pensamento filosófico. Não que o filosofar seja mero delírio paranoico -há tanta diferença assim entre Spinoza e Schreber?-, racionalização secundária, fuga. Mas o inconsciente não é só representação, é vontade, diria (já filosofando) com Schopenhauer. É pulsão, energia que quer ser saciada. Que adianta minha televisão à noite me impor a ducha cerebral de programas evangélicos se de repente num deles me sinto terrivelmente atraído pela cantora do coral e a boto em cena comigo e com as mulheres do filme pornográfico que passa na mesma hora?
O sonho pode ser excelente insumo para a regra de ouro da psicanálise: fale o que lhe ocorre. Filme sem censura. Saber enfim ter o direito de dizer as palavras que queremos dizer, mas que no dia-a-dia somos adestrados a minimizar, disfarçar, torcer. Somos "torcedores" contumazes.Mas o inconsciente é sem torcida, e sem fé, é desumano. É sem partido. É anarquista, mas hostil também aos embaideirados do anarquismo. É politicamente incorreto, é animicamente sacana (trickster). O inconsciente é coisa, o inconsciente é isso.
-Unzuhause-

Wednesday, November 07, 2012

Tuesday, November 06, 2012

Freud, cultura prostituta e marketing do Mal




O texto que reproduzo adiante reforça uma verdade que a TV, este domingo, também ratificou ao dar destaque à modelo que se autopromoveu posando em frente às desgraças de Nova York inundada: o Mal tem mercado.
A história da menina que vendeu para o mundo a virgindade me fez lembrar o burburinho, meses atrás, em torno de uma opinião de nosso campeão da polêmica, Nelson Rodrigues, segundo a qual toda mulher teria algo assim como uma vocação prostituta. Evidente hipérbole rodrigueana com fins marqueteiros, mas que ressoa em tons de senso comum -um "todo mundo sabe que"- uma tese que, vale frisar, tem alguma sustentação científica, se ainda insistirmos em ver Freud como ciência. Tendo,  cético à la Montaigne como sou quanto aos poderes da Razão, a ver no bruxo de Viena tanto a ciência possível (de seu tempo e para além de seu tempo) quanto literatura, filosofia e.. uma boa dose de marketing também, o que está longe de ser o oposto da honestidade intelectual. Quer golpe de gênio mais contundente do que erigir a sexualidade a fundamento último da natureza e da cultura humanas, numa época vitoriana doida pra sair do armário? De mulheres literalmente doidas por terem e merecerem o direito à palavra, e palavra do desejo? Pra se desalienarem das repressões absurdas que nos apartavam do sagrado direito a amar sem cartilha de papai-mamãe quer procriar, o "sexo-do-papa"? 
Nos "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade", como no conjunto da obra freudiana, parece haver tanto a observação clínica quanto a vontade de chocar, que remonta a um mito pessoal: Freud se via como Aníbal, um conquistador "ímpio" (judeu) da Roma cristã, superando a humilhação paterna -agressão sofrida sem reação nas mãos de um antissemita- e prevalecendo como o Édipo de nosso tempo. Édipo que ele aliás ajudou a erigir em arquétipo de nosso tempo.
Nesse texto de 1905, Freud sugere a fantasia prostituta como latente em número bem maior de mulheres do que aquelas que efetivamente rodam a bolsinha. Assim nos rouba a ilusão patriarcal e cristã de nossas "virgens marias", como nos tomara nossos anjinhos assexuados que eram as crianças pré-freudianas. Antecipou o que Nelson retomaria em letras garrafais e de fácil leitura -aquelas de que dependemos cada vez mais, em nossa era intelectual de cinzento produtivismo acadêmico de um lado e vontade multicolor de aparecer e nos vendermos a qualquer custo, de outro.
-Unzuhause-


Catarinense que leiloou a virgindade na internet desfilará no Fashion Rio http://mulher.uol.com.br/moda/noticias/redacao/2012/11/06/catarinense-que-leilou-a-virgindade-na-internet-desfilara-no-fashion-rio.htm   A catarinense Catarina Migliorini, que ficou famosa por leiloar sua virgindade na internet, fará sua estreia nas passarelas da moda no desfile da TNG, que encerrará o primeiro dia de Fashion Rio, nesta quarta-feira (7), no Píer Mauá, região portuária do Rio de Janeiro.
A menina de 20 anos participou do leilão promovido por um reality show da produtora "Virgins Wanted" (ou "Procura-se Virgem") e teve sua virgindade comprada por um japonês, que desembolsou cerca de R$ 1,5 milhão pela primeira noite da brasileira. O evento foi repercutido em todo o mundo e contou também com o leilão da virgindade de um rapaz, Alexander.
“Decidi convidá-la para mostrar que o universo fashion, tão cheio de diversidades , não é preconceituoso”, disse o diretor da TNG, Tito Bessa Jr.
Nascida em Itapema (SC), Catarina mora atualmente na Austrália, de onde virá especialmente para o desfile Inverno 2013 da marca. A TNG é conhecida por colocar celebridades em sua passarela a cada temporada, com foco em estrelas globais. Nesta edição de Fashion Rio, a jovem catarinense desfilará ao lado do ator Rodrigo Lombardi.

fute-bolando obviedades


Gesto lindo da torcida do Cruzeiro no sábado, durante o massacre que seu time levou de Neymar e cia: aplaudiu de pé e gritou o nome do craque do Santos. Quem não gosta desse 'muleque'? Futebol, como a vida, precisa de ídolos. Uma imagem importa mais que mil palavras, um craque mais que mil meros bons jogadores;  o herói é o que move o jogo da História, como bem ensinava Carlyle. Quanto a mim, toda admiração e gratidão por poder assisti-lo jogar ainda no Brasil; e simpatia tanto maior por termos vencido você em nossa caminhada gloriosa ao título da Libertadores.Assim minha memória estará para sempre livre do travo ruim de te res-sentir em mim como símbolo de frustração.
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Ahhhh Porcão, que estão fazendo com vossa tradição? Com vossa história? E essa palhaçada de pedirem anulação de jogo por terem tido anulado um gol de mão? Depois não venham me dizer que o Timão é o antro da maracutaia. O "mal" está por toda parte, só fica mais ou menos em evidência conforme os méritos e desesperos da vez de cada ator deste grande Teatro do Absurdo que é a vida. Fluminense espetacularmente campeão é a bola da vez nas acusações de ser time ladrão. Elementar!
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 O significante é o que representa o sujeito para outro significante, ser corintiano é o que me representa antagonicamente para um palmeirense, mas vou quebrar a cadeia da linguagem -e a linguagem tende, fechando-se em si mesma, a uma funesta lei de talião- e admitir minha compaixão. Não lucro em nada com a desgraça do Outro; o primeiro rebaixamento de vocês prefigurou o nosso, mais uma prova de que rivais tendem a compartilhar destinos e identidades de fundo, aliás por isso se odeiam tanto (Freud - narcisismo das pequenas diferenças).
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Pena do Adriano. Sinistro destino oposto ao de Neymar, até agora. O modo como jogou no lixo a última Copa do Mundo já era péssimo augúrio. O jogador parece já ter morrido, agora é a pessoa que precisa urgentemente de apoio para ser salvo de sua vontade aparentemente irrefreável de morrer também.

Monday, November 05, 2012

o demo no meio do redemunho

Jaguncim Guimarães Rosa

Descoberta chocante pra mim, em busca da minha cinderela psicanalítica ideal para me apaixonar em transferência e me curar do meu desamor de viver a vida-que-aqui-está e virar enfim as páginas mais obsessivas de meu romance ontológico depressivo que reduz toda vida a mero caminhar para a morte. Uma neta de Guimarães Rosa é destacada, convicta e militante psiquiatra do time da terapia cognitivo-comportamental. Do lado de cá do fla-flu entre TCC X psicanálise, TCC é terapia (termo por si só muito mal visto entre os analistas) sinônima de mecanicismo, simplismo, adestramento e esquecimento da subjetividade, o "demo no meio do redemunho" para nós admiradores da psicanálise - da cura pela magia da palavra, mesma lavra e lava de que o gênio-vulcão de Rosa se nos extruiu um jeito novo, único, pessoal e arquetípico de pensar Brasil e existência.
-Unzuhause-

direita e esquerda


Acho que ando lendo demais os textos desse bruxo, Freud. Bruxo? Sim, conforme eu mostrei vários anos atrás: http://unzuhause77.blogspot.com.br/2007/12/o-bruxo-de-viena.html . O bruxo de Viena reconheceu explicitamente, antes de Lévi-Strauss e Lacan levarem a descoberta à sua plena radicalidade, a "eficácia simbólica" ,e as origens mágicas, que tornam tão poderoso o ato da palavra, a palavra em ato, eficácia de ferir e de curar. Chave das fendas. Dizia estar lendo demais, por quê? Por me fazer ver de outro prisma a "infância" como mito social e como vivência minha.
Nos "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade", me delicio com a destruição anárquica de toda ideia "angelical" de criança, essa maquininha mirim de busca de prazeres por todos os poros, e no cocô e no xixi e no sugar e no gritar e no mandar - a arrogância, para seguirmos nas metáforas políticas do psíquico, é já a doença infantil do esquerdismo pós-anárquico, a caminho de se "endireitar" e sair de vez do armário das hipocrisias. Ahh crianças, lindas de se contemplar, mas não me vejo como vosso cuidador. Nisto me socorro da ideologia gnóstica em que fecundar é um crime, aliás dois: o de compactuar com o arconte maligno que domina este mundo e assim fazer "crescer e multiplicar" -o velho Yahweh não pensava como Malthus- o Mal.
A destruição freudiana de nossas ilusões infantis sobre o infantil é tão anárquica quanto nosso corpo primevo, anarquista convicto, na perversão polimórfica de sua libido e de suas vivências de insatisfação antes da instauração monoteísta, monogâmica, monolítica, do Eu e da normalidade genital (o sexo do papa, papai-mamãe querendo procriar).
Com a história do pequeno Hans, me vejo eu próprio criancinha e inquieto pelos saberes que não têm nome nem juízo nem nunca terão. E me obrigo a aceitar conscientemente determinados constrangimentos, não por mero registro intelectual (conscientizar, nesse caso, é mais que saber, é ir a fundo nas consequências, e desvelando complexos). Por exemplo, ter um dia acreditado, e comentado com coleguinhas de colégio, na mais tenra e "inocente" idade, que sexo oral é quando a gente diz pra mulher que ela é gostosa! Eu até hoje talvez ache mais gostoso o sexo quando falado, do que nas angústias do fazê-lo: o menino é pai do homem, cada vez mais minhas duas lentes de contato me fazem ver duas pessoas em cada pessoa: à direita (toda direita é mesmo fabricada, forjada, pra ser "direito"), a pessoa da idade atual; à esquerda (a "sinistra"), a criancinha, viva, falante e atriz em tudo o que o holograma mais velho parece estar deliberando e falando e atuando em nosso aqui-agora.
-Unzuhause-

"'Tratamento psíquico' significa "tratamento que tem origem na alma, tratamento –de perturbações psíquicas ou corporais- com a ajuda de meios que agem primeiro e imediatamente sobre a alma do homem. Tal meio é antes de tudo a palavra, e as palavras são o instrumento essencial do tratamento psíquico. O profano achará, sem dúvida, dificilmente concebível que perturbações mórbidas do corpo ou da alma possam ser dissipadas pela 'simples' palavra do médico. Ele pensará que lhe pedimos para acreditar em magia, no que não está totalmente errado: as palavras de nossos discursos cotidianos são nada além de magia sem cor".
SIGMUND FREUD

Sunday, November 04, 2012

sem amor todo respeito é árduo


Antes de passar a palavra a São Bernardo - o teóforo (portador de Deus)  do amor místico e o líder das cruzadas sangrentas- , queria registrar minha reação espontânea ao que nele acabei de ler. Meu singelo sermão dominical sobre amor e gentileza, para cristãos sem religião e muitas vezes sem deus pra cultuar -a alma é que é naturalmente cristã, não as igrejas:


Sim, confesso ser muito difícil pra mim o imperativo de amar ao próximo como a nós mesmos. Do ponto de vista da natureza humana, egoísta, interesseira, violenta mesmo, só podemos concluir que amor é algo que reservamos para poucos, pouquíssimos, é parte de nosso radar seletivo -em termos mais técnicos, narcisismo- e de nossa "aristocracia" interior. Jung já nos comunicava que a natureza é aristocrática, como um grande analista junguiano pontuou estes dias em conversa pessoal. Minha resposta à provocação foi: sim, a natureza não nos quer iguais, e isso que nos reacionários é pretexto oportunista, em Jung é sabedoria trágica sobre os limites da vida e da condição humana. Ao falar em não nos querer iguais, cometi a esperteza de "deslocar" o fundamento da aristocracia (nossa, gostei da digitação falha que acabei de corrigir: artistocracia) para a ideia das diferenças, não da hierarquia, se bem que eu ache que todo eu minimamente são -mesmo sem a auréola de um "são" fulano ou sincrano de igreja- precisa ser hierárquico, senão ele mesmo "dança" sob o coro báquico da pulsão de morte.
Gosto da lucidez laica de André Comte-Sponville ao recomendar que, na impossibilidade de amar, sejamos ao menos polidos: polidez como a virtude que elogia o amor na falta dele. Amor sequer deveria ser visto como "virtude". Não no sentido que falamos que ser honesto não é virtude, é obrigação. Não: nem virtude, nem obrigação. Espontaneidade radical da alma. Numinosidade arquetípica das vivências do sagrado. Mas que, de tão esplendorosa, é rara, e a vida organizada em sociedade, a vida ética, não pode depender só dela. Sejamos então polidos (imagem interessante essa por sua ressonância na dimensão material: a lente "polida", para melhor enxergar). Sejamos, no que possível, gentis. Quem sabe não estaremos nisto já amando, sem saber?
-Unzuhause-

São Bernardo (1091-1153), monge cisterciense, doutor da Igreja


Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, nº 83

«Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração»

Li que Deus é amor (1Jo 4,16) e não que Ele é honra ou dignidade. Não é que Deus não queira ser honrado, visto que disse: «Se Eu sou Pai, onde está a honra que me é devida?» (Ml 1,6). Fala aqui como Pai. Mas, se Se mostrasse como esposo, penso que mudaria o Seu discurso para: «Se Eu sou Esposo, onde está o amor que Me é devido?» Pois já anteriormente tinha dito: «Se Eu sou Senhor, onde está o respeito por Mim?» (ib.) Ele pede pois para ser respeitado como Senhor, honrado como Pai, amado como Esposo.
Desses três sentimentos, qual é o mais valioso? O amor, sem dúvida. Pois sem amor o respeito é árduo e a honra fica sem retribuição. O temor é servil enquanto o amor não o vem validar, e uma honra que não é inspirada no amor não é uma honra, é adulação. Claro que só a Deus são devidas a honra e a glória, mas Deus só as aceita temperadas com o mel do amor.
O amor é auto-suficiente, agrada por si mesmo, é o seu próprio mérito e a sua recompensa. O amor não quer outra causa, outro fruto, senão ele próprio. O seu verdadeiro fruto é ser. Amo porque amo. Amo para amar. [...] De todos os movimentos da alma, de todos os seus sentimentos e afectos, o amor é o único que permite à criatura responder ao seu Criador, senão de igual para igual, pelo menos de semelhante para semelhante (cf Gn 1,26).

Thursday, November 01, 2012

você tem razão de sofrer

Imagem clássica dos primórdios da psicanálise, em 1909. Freud e Jung à nossa esquerda e direita, respectivamente, em primeiro plano

"O paciente tem sempre razão. A doença não deve ser para ele um objeto de desprezo, mas, ao contrário, um adversário respeitável, uma parte do seu ser que tem boas razões de existir e que lhe deve permitir obter ensinamentos preciosos para o futuro".
S. Freud

Nossa, não me lembro de palavras tão "junguianas" da parte, logo de quem, de mestre Freud. As razões do paciente ante o analista, destituído do pedestal de poder dos hipnotizadores, dos terapeutas da Verdade etc; as razões (de ser) da doença para o doente, destituído, também ele, da soberania sobre si mesmo, que ele achava que tinha nos ilusórios tempos de tranquilidade psíquica. A ética do Mal, do sofrimento, tão bem compreendida por Jung ao nos propor a existência (errática, incerta, precária) como travessia da sombra na jornada de autorrealização teleológica (individuação). Nossos tempos pragmáticos, anestésicos, querem isolar e estigmatizar o sofrimento como coisa de católico, de masoquista etc. Patologizam a patologia, sobrecarregando quem sofre como um fracassado ao sofrer. Não admira que declarem tantas vezes que Freud morreu. Freud sim, como todo mortal morreu ou morrerá (por vezes uma boa redundância vem a calhar). A obra não. Vivíssima e aberta. Fechado é nosso inconsciente quando o domesticamos, o mecanizamos, o adaptamos à mediocridade instituída. Obras como a de Freud morreriam somente quando morresse o imorredouro mistério da dor, que desafia nosso senso do justo (por que logo comigo?!), que nos convida a ver a ética que há no próprio sofrer: Sócrates infeliz ou porco feliz? Ou porco infeliz?
-Unzuhause-