Saturday, September 29, 2012

Resenhas para a Folha de S. Paulo, 29/09/12


Fidelidade ao infiel
-Caio Liudvik-
Guia Folha -Livros, Discos, Filmes

"Cara Leyla, estou me debatendo na organização do seminário (...) não esqueço seu desejo de voltar a ele; preferiria não inscrevê-la, pois está horrivelmente lotado. Mas deixando você livre para vir, por assim dizer, como excedente, 'hors concours', isto é, claro, como amiga".

Talvez não seja excessivo ver nesta carta de Barthes a Leyla Perrone-Moisés mais do a afetividade pessoal que o ligava à professora da USP, crítica literária, tradutora de Barthes e sua maior divulgadora no Brasil. Vemos também uma síntese do que a própria professora Leyla "traduzirá" tão bem, em outro trecho de seu livro "Roland Barthes": a grande inimiga do semiólogo francês é a Doxa, opinião pública, "o Espírito majoritário, o Consenso pequeno-burguês, a Voz do Natural, a Violência do Preconceito".

Na carta, é possível pressentir o temor de Barthes de estar sendo, ele próprio, aprisionado pela Doxa, pelo desconforto físico de ter suas aulas convertidas em "comício", dada a multidão de alunos. Ao discurso do clichê, do senso comum, da institucionalização generalizante e banal, ele contrapõe a singularidade de um "fragmento de um discurso amoroso", para evocar uma de suas obras mais célebres: a amizade que faz de Leyla uma "hors concours".

"Com Roland Barthes" é a síntese de um "trabalho em comum": reunião da maioria dos textos que ela dedicou a seu grande mestre, além das cartas que ele lhe dirigiu. A convivência pessoal entre eles se estendeu de dezembro de 1968 até pouco antes da morte de Barthes em março de 1980.

Barthes elogia em Leyla a "fidelidade" com que o comenta e traduz, atributo paradoxal para um autor que ela própria destaca ter como marca intelectual a "infidelidade" radical a esquemas, doutrinas, conceitos e modelos fechados. "Roland Barthes, o infiel", é título de um artigo de jornal publicado por ela em 1970 e incluído agora no livro. Sua fidelidade ao infiel não implica porém que ela seja a "última a saber", nem que o petrifique, o achate e converta em biscoito fino de banquete acadêmico insosso.

A coletânea é preciosa por mostrar -com indisfarçável gozo pela aventura intelectual de que a autora é participante ativa-, no calor das publicações e controvérsias de Barthes na França, a trajetória inquieta, sempre mutante, de um autor que parte do credo estruturalista numa "ciência da literatura" para desembocar na escritura como singularíssima "ciência dos gozos da linguagem, seu kamasutra".

Não por acaso esta evocação de Barthes à "sagrada escritura" indiana do amor. A noção de escritura tem importância nas diversas fases da obra de Barthes, e sobretudo a partir de "O Prazer do Texto". Leyla registra essa ressonância religiosa, de "sagrada escritura", que a literatura assume para Barthes, como inauguração estética de um mundo, "vita nova", utopia e ruptura, portanto forma de amor, ainda que reduzida, na modernidade, à condição de fragmento discursivo ante a "totalidade" totalitária da falsidade do social.
A crítica, para esse"infiel", era em núpcias com a criação literária, não só pelo amor –inabalável- a seu objeto, mas pela capacidade de transmutar-se ela própria em escritura, portanto criação, metáfora, jogo teatral dos significantes, quebra da instrumentalidade cotidiana ou científica do dizer.

É o que Leyla explica a propósito do livro "S/Z", em que Barthes, mais que comentador bem comportado da novela "Sarrasine", de Balzac, transborda as fronteiras e se transmuta em escritor, pela excelência criativa como leitor. Barthes aliás, em carta de abril de 1970, faz elogio específico ao olhar de Leyla para seu "S/Z", dizendo que é de uma qualidade e seriedade em falta na própria imprensa francesa de então.

Escritura implica o individual contra a generalidade abstrata, o corpo contra o conceito, o prazer contra a sisudez acadêmica, uma prática erótica, trapaça, "logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem", dirá em sua aula inaugural no Collège de France, em 1977. Está aqui a quintessência das aspirações revolucionárias de Barthes, o anarquista, não só para os livros, mas para o texto da vida, inclusive a social.
AVALIAÇÃO- ÓTIMO 



CADERNOS DA VIAGEM À CHINA

Inimigo radical dos clichês da linguagem, não poderia ser sem distanciamento e decepção que Roland Barthes descobriria por dentro a "revolução" chinesa já codificada, instituída, estereotipada nos gestos, permissões e proibições cotidianas.

Barthes viaja ao país de Mao em 1974, com seus amigos da revista "Tel Quel", como Philippe Sollers e Julia Kristeva. A experiência está registrada em seus "Cadernos da Viagem à China", que acaba de sair em coleção organizada por Leyla Perrone-Moisés. Com olhar fotográfico para as miudezas do dia-a-dia, o relato é muitas vezes anódino, impregnado de certo tédio com as coreografias enrijecidas e o pouco espaço para o surpreendente e o transgressivo, portanto também o discurso amoroso em palavra ou em ato, o Eros nos gestos, olhares e roupas que ele observa com especial atenção, sem perder de vista os "desvios" homossexuais em plena revolução cultural maoísta.

AVALIAÇÃO – BOM

Thursday, September 27, 2012

fé e política


Religião e política no Brasil: o novo paradigma dos movimentos sociais.

Entrevista com Nadir Lara Junior

http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=21937&cod_canal=41  

"A partir da minha pesquisa, posso dizer que os movimentos sociais estão abandonando o discurso religioso, utópico, marxista-cristão e assumindo aos poucos, o discurso pragmático-capitalista neoliberal. Então, o discurso da maioria dos militantes é praticar uma política pragmática, embora muitas vezes eles nem se deem conta disso", afirma o pesquisador do PPG em Ciências Sociais da Unisinos.
Confira a entrevista.

Num país como o Brasil, em que 92% dos brasileiros se declaram religiosos, é difícil desvincular a religião do debate político. Essa relação de proximidade pode ser explicada, em parte, pela religiosidade popular e pela influência que o catolicismo e as religiões protestantes tradicionais exerceram na constituição dos movimentos sociais brasileiros a partir da década de 1980, sob influência do marxismo e da Teologia da Libertação.

Apesar da influência religiosa, na última década os movimentos sociais “estão abandonando o discurso religioso, utópico, marxista-cristão e assumiram o discurso pragmático-capitalista neoliberal”, assinala o psicólogo e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, Nadir Lara Junior. Segundo ele, três fatores explicam a mudança na atuação dos movimentos sociais: a eleição do presidente Lula à presidência da República com a incorporação dos movimentos sociais ao Estado; as ações políticas administrativas do Papa João Paulo II, que culminaram num recuo da Igreja em relação às Comunidades Eclesiais de Base – CEBs; e a ascensão dos evangélicos no cenário religioso. Novamente, a religião voltou a exercer influência na política, a partir do boom do movimento neopentecostal, que chegou aos movimentos sociais “com um arcabouço político, ideológico, religioso de sua matriz neopentecostal, que é extremamente pragmática”.

Diante dessas mudanças conjunturais, a formação dos militantes dos movimentos sociais passou a ser “instrumental, ou seja, uma formação para ensinar o militante a se movimentar dentro das burocracias das políticas públicas. (...) De certa forma, os movimentos sociais se reduzem a formarem seus quadros não na oposição, na crítica, na política, mas sim numa certa subserviência travestida de participação política. A política pública virou a participação política”, avalia.

Na entrevista a seguir, concedida pessoalmente à IHU On-Line, o pesquisador também comenta a ascensão da bancada evangélica no Congresso e a influência da religião nas eleições municipais deste ano. “Não adianta os candidatos laicos criticarem os candidatos religiosos, ainda mais num momento em que o Estado laico está mostrando uma dimensão de desonestidade política muito assustadora. Quando você debate com um candidato assim, não sabe se ele é de esquerda, de direita, de centro, se ele está agradando você porque ele quer seu voto ou porque quer lhe ludibriar. Então, essa diluição da fronteira política no Estado laico faz com que os candidatos religiosos cresçam, porque eles não omitem a sua ideologia”, aponta.

Nadir Lara Junior (foto) é graduado em Psicologia, mestre e doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, com a tese A mística do MST como laço social. É professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Historicamente, como as religiões e a religiosidade influenciaram a formação política e constituíram o núcleo ideológico dos brasileiros?

Nadir Lara Junior – Várias pesquisas demonstram como a questão da religiosidade marcou a formação do povo brasileiro. A professora Maria Isaura Pereira de Queiroz apontou as experiências messiânicas existentes no Brasil desde os indígenas e como eles traziam esses elementos religiosos, os quais serviram de referência para criar um sentimento de revolta e indignação contra a opressão portuguesa.

Depois de 1950, quando o cristianismo já tinha se alastrado e criado um tipo de religiosidade mais sincrética, misturando elementos das religiões afro e indígenas, que denominamos de religiosidade popular, que constitui o universo simbólico do povo brasileiro. Posteriormente, a partir de 1960, a Igreja Católica introduz a Teologia da Libertação, quando passa a observar a experiência das comunidades mais pobres do Brasil e a fundamentar isso teoricamente, numa experiência cristã mais aprofundada. A Igreja assume essa realidade não como um elemento negativo, pejorativo da cultura, mas como um elemento religioso e político, porque a Teologia da Libertação sofre uma influência do cristianismo e do marxismo. Então, aqueles aspectos que já faziam parte da cultura brasileira são sistematizados pela Teologia da Libertação, que começa a organizar o povo a partir desta experiência de religiosidade popular, que já estava presente na cultura. Tanto que os métodos usados por essa teologia são ler a Bíblia a partir da realidade, ensinar as pessoas a ler e escrever, alfabegtizar, capacitá-las a compreender seus direitos a partir da experiência de Jesus Cristo, que é visto como o libertador da opressão que está instalada historicamente.

Movimentos sociais e a Teologia da Libertação


A partir da sistematização da Teologia da Libertação e das leituras que os teólogos fizeram a partir dela, nasceram muitos movimentos sociais e atores políticos: o Movimento dos Sem Terra, Movimento dos Sem Teto, o Partido dos Trabalhadores, a Central Única dos Trabalhadores. São todas organizações políticas que nascem nessa efervescência de algo que já estava presente na cultura brasileira e que também foi impulsionada pelos teólogos e teólogas da libertação.

Particularmente falando, eu estudo política, não religião. Porém, para falar de política no Brasil, não posso ignorar a influência religiosa que sempre esteve presente. De acordo com o último censo, 92% das pessoas se declaram religiosas no país. E o próprio conceito de não declarar-se religioso no sentido de não estar vinculado a uma religião não significa que a pessoa não seja religiosa. Estamos em um país que é religioso; então, como falar de política cerceando a religião?

IHU On-Line – Qual foi a influência das religiões no processo de constituição da identidade e do discurso político dos movimentos sociais brasileiros? O senhor menciona que há uma crescente apropriação de elementos religiosos por parte dos movimentos sociais. Do que se trata especificamente?

Nadir Lara Junior – Boa parte dos movimentos sociais brasileiros nasce de uma influência cristã e da religiosidade popular, assim como de uma influência marxista. Esses são elementos fortes que marcam os movimentos sociais das décadas de 1980 e 1990. Entre os fenômenos político-religiosos, destaca-se a mística, que está presente no MST e que articula, dentro desse fenômeno, elementos religiosos, políticos e culturais. A mística é uma encenação, um ritual coletivo em que as pessoas cantam, celebram, elaboram hinos do próprio movimento para se prepararem e conseguirem alcançar seu próprio objetivo dentro do movimento e fora dele. Portanto, a mística é um elemento de constituição da identidade coletiva do MST e de outros movimentos que a assumem como elemento fundamental e estruturante. Trata-se de um elemento próprio do movimento que, assumidamente, faz política costurando esses elementos cristãos e marxistas.

IHU On-Line – Qual a raiz desta relação do catolicismo brasileiro com o marxismo? Por que parte da Igreja brasileira buscou elementos teóricos em Marx?

Nadir Lara Junior – Essa situação é complexa e central para compreender a trajetória da Igreja no Brasil. Na década de 1960, vivia-se a chamada guerra fria e o mundo estava dividido entre socialistas e capitalistas. Nesse período, a América Latina começa a ser influenciada por pensadores marxistas nas correntes intelectuais existentes. Essa influência se deu tanto pela vinda de operários europeus para as grandes cidades brasileiras – que trouxeram o marxismo e o anarquismo – como pelos intelectuais latino-americanos, que haviam estudado na Europa. Nessa época, o marxismo era um movimento intelectual que estava pairando pelas universidades europeias, onde os intelectuais brasileiros e latino-americanos estudavam e, portanto, ele exerceu muita influência aqui, especialmente porque havia uma tentativa de pensar uma ciência para a América Latina. É com esse objetivo que diversos intelectuais formularam teorias para tentar compreender a realidade latino-americana.

Paulo Freire, com sua pedagogia do oprimido, deu o grande “pontapé” no movimento intelectual da Libertação através da educação; Gustavo Gutierrez deu início à Teologia da Libertação; Enrique Dussel, na Argentina, iniciou os estudos da Filosofia da Libertação; e Ignacio Martín-Baró, que morreu junto com Ignacio Ellacuría, fundamentou a Psicologia da Libertação. Então, iniciou-se um movimento para pensar a ciência a partir de um jeito de ser latino-americano, o qual foi fortemente influenciado pelo marxismo.

Os teólogos latino-americanos, quando chegaram à Europa e estudaram marxismo, compreenderam que a visão de comunidade, de viver sem opressão – o que o marxismo propõe –, estava próximo das propostas do cristianismo. A partir daí começaram a ver uma grande semelhança entre o comunismo e o comunitarismo cristão. A própria ideia de Jesus libertador é a do materialismo histórico, ou seja, a de trabalhar com questões da realidade. Em outras palavras, a Teologia da Libertação torna o Jesus metafísico em um Jesus material, sem perder a dimensão mística. Eles conseguem trazer Jesus para a materialidade e passam a atuar com uma força muito grande, especialmente nas periferias.

IHU On-Line – Quais foram as principais transformações no campo religioso e político da última década, e como elas influenciaram a prática e o discurso político dos movimentos sociais?
Nadir Lara Junior – Na última década ocorreram três mudanças muito significativas: o número de evangélicos saltou de15% para 22%, gerando um boom demográfico; um ex-sindicalista (Lula), que atuava junto às Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, à Central Única dos Trabalhadores – CUT e ao sindicato, chegou ao poder; e houve um recuo da Igreja Católica em função de uma ação política administrativa do Papa João Paulo II, que determinou o recuo de incentivo às CEBs, deixando também de nomear bispos ligados à Teologia da Libertação – assim, os seminários saíram das mãos de padres da Teologia da Libertação –, e incentivando o movimento pentecostal dentro da Igreja Católica.

Esses três elementos começam a circular na sociedade brasileira e afetam principalmente os movimentos sociais porque, antes de Lula assumir a presidência, eram justamente os membros da Igreja Católica, das igrejas protestantes históricas, partidos políticos e dos sindicatos que ofereciam formação política para os integrantes dos movimentos sociais. Com a chegada de Lula ao poder, há uma mudança radical: um recuo dos sindicatos, partidos e dos movimentos sociais e uma associação deles com o governo. Diante dessa nova conjuntura, um ex-líder sindical vira ministro e passa a negociar a greve com o amigo que deixou no sindicato. Criou-se um problema, porque as principais lideranças dos movimentos sociais começaram a ser chamadas para participar do governo e a representar os movimentos sociais que, até o dia anterior às eleições, eram contra o Estado e, dias após as eleições, se tornaram o próprio Estado. A partir desse momento, surge um problema de identificação, de quem são os movimentos sociais e de quem é o Estado. O Estado, que foi sempre o inimigo (“fora FHC, fora FMI, fora neoliberalismo”), de repente começa a chamar membros dos movimentos para compor secretarias, cargos de confiança etc.


Formação instrumental

Diante da nova configuração, há um recuo na formação política, e o movimento social passa a ter de prover a formação política para seus membros. Este é o tema da minha atual pesquisa, e já pude constatar que a formação dos movimentos sociais da última década estão se tornando instrumental, ou seja, uma formação para ensinar o militante a se movimentar dentro das burocracias das políticas públicas. Não nego a importância das políticas públicas. O que afirmo é que os movimentos sociais, de certa forma, se reduzem a formar seus quadros não na oposição, na crítica, na política, mas sim numa certa subserviência travestida de participação política. A política pública virou a participação política. Com isso acaba-se com toda a história de contestação dos movimentos sociais, reduzindo-os a um quadro técnico. O próprio movimento acaba profissionalizando uma pessoa na política pública, e o Estado contrata a mão de obra qualificada pelo movimento, e assim ele fica fragmentado. Isso gera um problema porque os movimentos vão perdendo a dimensão da crítica.

IHU On-Line – Essa mudança diz respeito aos movimentos sociais e sindicatos do mundo todo ou está restrita ao Brasil?

Nadir Lara Junior – Essa é uma característica brasileira. Inclusive a atuação dos movimentos sociais no país é bem característica, e bastante diferente do que existe no exterior. Diante da crise econômica surgem outras formas de manifestações, como o Movimento dos Indignados, da Espanha, ou Occupy Wall Street, dos EUA. Os movimentos de ocupação são uma tentativa de organização popular longe do Estado e dos partidos para demarcar uma fronteira.

IHU On-Line – Esses novos movimentos sociais não têm representatividade política. Como poderão fazer a diferença?

Nadir Lara Junior – A atuação dos antigos movimentos deixou de herança uma concepção para os novos movimentos: é preciso mexer na estrutura do Estado. Por isso a ideia de revolução novamente volta à pauta. Fazer revolução ou falar de mudança social hoje em dia é um escárnio. Parece uma ideia de pessoas ultrapassadas, mas nunca se teve tão em voga como hoje a necessidade de se discutir dois elementos: ideologia política, porque ela foi sepultada junto com a aproximação dos movimentos sociais com o Estado; e o que é revolução hoje, ou seja, que tipo de mudança social queremos.

Esses aspectos são importantes porque o Estado brasileiro, desde seu surgimento, nunca foi reconstruído; ele vive de reformas e está sempre reformando a educação, a saúde. Basta ver que até hoje o país está reformando o Estado da ditadura militar. E nós, intelectuais, não paramos para provocar, no cenário político, uma discussão. Já vimos que não há como fazer alianças com este Estado, mesmo estando no poder um ex-sindicalista, porque seremos sempre engolidos.

IHU On-Line – Mas como fugir dessa negociação, se o Estado é constituído pelas oligarquias?

Nadir Lara Junior – Saber disso já é alguma coisa. Foucault fala do saber e do poder. Saber que precisamos colocar na pauta a mudança do Estado já é uma transformação imensa. Mas hoje ninguém quer saber disso. Está todo mundo fascinado com o Estado, porque a economia brasileira está estável, todos querem aumento salarial, e todo mundo está satisfeito com essa “coisa” que o Brasil vive – e eu digo “coisa”, porque não sabemos descrever isso. Estamos fascinados e não paramos para avaliar o Estado.

Entra campanha, sai campanha, todos os políticos falam de reformar a saúde, a educação, a moradia e a segurança. Se os políticos resolvessem esses quatro problemas, não teriam o que dizer nas campanhas políticas, porque só falam disso. Não se fala em aperfeiçoamento de saúde, educação, mas do primário. Quer dizer, fala-se de as pessoas terem um teto para morar, de as crianças terem banheiros nas escolas, e do mais elementar: do fato de que essas oligarquias continuam com as mesmas políticas há séculos. O nosso grande desafio é saber disso, diante de uma sociedade que insiste em não querer saber.

IHU On-Line – O que distingue o discurso dos movimentos sociais brasileiros hoje de uma década atrás?

Nadir Lara Junior – A partir da minha pesquisa, posso dizer que diante da interpelação do Estado, os movimentos sociais estão abandonando o discurso religioso, utópico, marxista-cristão e assumindo o discurso pragmático-capitalista neoliberal. Então, o discurso da maioria dos militantes é praticar uma política pragmática, embora muitas vezes eles nem se deem conta disso. Alguns intelectuais dizem que o pragmatismo é necessário. Concordo, desde que se saiba o que se está reproduzindo com ele. Quando se assume, nesse contexto específico, um discurso neoliberal, está-se depondo contra esse processo histórico de formação dos movimentos e favorecendo as oligarquias, o Estado capitalista e o mundo desigual.

IHU On-Line – Essa é uma tendência crescente no mundo do trabalho.

Nadir Lara Junior – Sim, porque retiramos do mundo do trabalho as discussões ideológicas que nos unem e nos afastam: quem é esse Estado? Quem é nosso patrão? Quem é esse governo? A geração atual está pegando o mundo que a geração anterior deixou: muitos que eram de esquerda hoje estão abraçados com os de direita. Como os jovens irão acreditar nesse modelo? Diante de tal conjuntura novas manifestações estão surgindo. As pessoas estão falando e criticando o sistema de outro jeito, usando as redes sociais, por exemplo. Existem novas formas de pensar e que ainda são embrionárias.
IHU On-Line – Como ocorre a relação entre política e religião no cenário político atual? Nesse sentido, como vê a atuação da bancada “religiosa” no cenário político brasileiro?
Nadir Lara Junior – O boom do movimento neopentecostal chegou aos movimentos sociais e nas políticas públicas. Como eles chegam a estes lugares? Com um arcabouço político, ideológico, religioso de sua matriz neopentecostal, que é extremamente pragmática. O neopentecostalismo nasce com uma experiência da periferia dos EUA, e o governo estadunidense se apropria disso, fazendo um canal para divulgar as ideologias neoliberais com seus elementos: individualismo e pragmatismo. Essa combinação ideológica de neoliberalismo e neopentecostalismo entra no movimento social e torna tudo muito pragmático. Em geral, o evangélico participa do movimento social, porém não quer discutir questões mais amplas relacionadas à política, mas sim o acesso a casa, a universidade etc.


Bancada religiosa


Há poucos dias li a tese de doutorado de Bruna Dantas sobre a bancada evangélica no Congresso. Ela analisa a ideologia da bancada evangélica, hoje, e mostra como os evangélicos se estruturam para pautar algumas políticas dentro do cenário nacional baseados em ideias religiosas. Por isso que uma série de temas com implicações morais não são aprovadas, como a questão do aborto e a da homossexualidade.

Muitos votos começam a ser direcionados aos pastores das igrejas. Começamos a remontar um novo tipo de voto de cabresto, como tinha antigamente no interior do Brasil. Mas como disse, não podemos culpá-los nem praguejá-los, porque estão exercendo tudo aquilo que o Estado lhes permite fazer. Da mesma forma que os evangélicos defendem questões morais, os ruralistas defendem pautas de seus interesses. Só os trabalhadores não se organizam para se fazer representar.

IHU On-Line – São os membros evangélicos, e não as igrejas, que se relacionam com os movimentos sociais? A atuação é diferente daquela do catolicismo?

Nadir Lara Junior – É diferente. O pastor vai aos encontros do movimento para rezar, dar um apoio, mas ele não representa o apoio da igreja ao movimento. A igreja apoia o seu fiel para que ele consiga algo pontualmente.
IHU On-Line – A influência evangélica cresce em diversos movimentos sociais?
Nadir Lara Junior – Sim. O MST há muito tempo tem uma influência evangélica; os movimentos de moradia de São Paulo também. Da mesma forma, os evangélicos se aproximam dos movimentos LGBT, nos cultos específicos.

IHU On-Line – Como vê a representatividade das igrejas tradicionais junto dos movimentos sociais?

Nadir Lara Junior – A Igreja enquanto instituição se retira dessa discussão, mas isso não quer dizer que padres, freiras e religiosos façam o mesmo. Ainda há um grupo importante de padres e religiosos que dão suporte a esses movimentos. Tenho um colega antropólogo que estuda a relação das freiras nas favelas do Rio de Janeiro e a liderança que elas ainda exercem nesses locais. Isso demonstra que têm muitos religiosos resistindo, especialmente no interior e nas áreas de fronteiras. A Igreja Católica e as protestantes históricas ainda são referência nessas questões enquanto congregações.

IHU On-Line – Quais os limites da interferência religiosa no cenário político? Como fica a discussão acerca do Estado laico no Brasil?

Nadir Lara Junior – Nós temos de entender o Brasil. Somos um Estado laico com 92% de pessoas que se declaram religiosas, cujo lema nas cédulas de dinheiro é “Deus seja louvado”. Então, temos uma realidade própria e só sabemos fazer política se tivermos os atravessamentos religiosos. Não quero ser reducionista e dizer que a política é de um jeito ou de outro, mas temos de considerar as questões que estão postas. O Brasil é um país complexo, porque na Europa, se observarmos os teóricos políticos, há uma ideia de que as coisas são mais divididas, disciplinadas, organizadas. Foucault mostra como o disciplinamento na Europa aconteceu muito cedo, só que nós vivemos em um país em que o ordenamento social é outro: as pessoas pensam e se relacionam de outro jeito, e a política ainda é muito embrionária, porque o país saiu de uma ditadura há pouco tempo. Tudo no Brasil é muito próprio e característico. Não sou um defensor da religião, mas temos de olhar para ela, porque exerce influência.

IHU On-Line – Como o senhor vê o uso do espaço público, como a televisão, pelas religiões?

Nadir Lara Junior – Vivemos num Estado democrático capitalista. O que isso significa? Significa que quem paga tem, e quem não paga não tem; quem tem dinheiro faz o que quer, e quem não tem dinheiro não faz nada. Os evangélicos neopentecostais entenderam muito bem essa linguagem. Eles pagam para ter acesso a determinados horários na televisão, no rádio. E dentro de uma sociedade capitalista, quem vai regular isso?

Em um país em que há liberdade religiosa, como dizer que eles estão errados e que não podem utilizar esse espaço? Tem de cuidar para que não se crie uma guerra religiosa. Por isso não podemos ficar restritos a essa questão, temos de ampliar o debate, discutir se esse Estado está funcionando para todos. O capitalismo e o neoliberalismo que estamos implantando a cada dia na universidade, na escola, estão formando que tipo de sujeito?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde – OMS, a doença do século XXI são as doenças mentais. Temos visto pelas notícias da imprensa que quanto mais capitalistas são os Estados, mais psicopatas eles formam. E aí eu pergunto: Como vamos formar uma geração sem valores, sem escrúpulo? Nesse sentido, Marx ajuda a compreender algumas coisas a partir da realidade histórica, material. O capitalismo cria ideologias para que se considere um psicopata como algo normal, natural, parte do cenário, um fraco e único culpado parte da história, da mesma forma que ser oprimido pelo patrão é natural, e o importante é consumir. Vivemos a base de ideologias desse tipo, que nos fazem viver num engodo praticamente irreversível.

IHU On-Line – A religião determina o voto? Como explicar ascensão de candidatos evangélicos, como Celso Russomanno em São Paulo?
Nadir Lara Junior – O ministro José Eduardo Cardozo já disse que é preciso fazer uma reforma política, mas não se pode tocar em questões religiosas. Isso diz alguma coisa. Como pode um ministro de um Estado laico fazer esse tipo de afirmação? O candidato à prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, é abertamente um candidato da Igreja Universal do Reino de Deus. Uma igreja que está fazendo aquilo que sempre quis fazer e se propôs a fazer: formar lideranças políticas e chegar ao mais alto dos cargos possíveis. Eles estão fazendo isso com muita competência, com muito dinheiro, e estão chegando lá.
Gostaria de destacar que não sou contra ou a favor dos evangélicos; apenas estudo o fenômeno político. A sociedade democrática é feita por disputas, e elas são vencidas por quem está melhor organizado. Por que os movimentos sociais estão pagando seu preço? Porque eles se retiraram das periferias mais pobres, se retiraram dos debates mais prementes, e assim acabam negando as origens políticas que os colocaram no poder.


Adversário político

Os que se opõem aos evangélicos não devem percebê-los como um inimigo a ser destruído, mas como um adversário. É legítimo se opor a eles no cenário político, debater, porque eles sempre disseram de onde vêm, o que fazem e o que vão fazer. O Edir Macedo nunca negou que queria chegar à presidência da República. Eles nunca deixaram de cobrar dízimo; foram sempre explícitos. O que quero relativizar nesse sentido é que esses fatos são públicos, e todo mundo sabe. O que não é público é o nome do político que rouba a merenda escolar. Quero colocar o debate na instância política. Então, não adianta os candidatos laicos criticarem os candidatos religiosos, ainda mais num momento em que o Estado laico está mostrando uma dimensão de desonestidade política muito assustadora. Quando você debate com um candidato assim, não sabe se ele é de esquerda, de direita, de centro, se ele está agradando você porque ele quer seu voto ou porque quer lhe ludibriar. Então, essa diluição da fronteira política no Estado laico faz com que os candidatos religiosos cresçam, porque eles não omitem a sua ideologia – isso não quer dizer que eu concorde com ela.

IHU On-Line – Diante da atuação política dos evangélicos, o que podemos esperar para as próximas eleições municipais? Uma ascensão de políticos religiosos?

Nadir Lara Junior – Sim, e o Russomanno, em São Paulo, é a prova cabal disso. Este candidato está derrotando – a princípio, as pesquisas mostram isso – candidatos tradicionalíssimos, como José Serra, e está desbancando inclusive o candidato do PT, mesmo com o apoio de Lula e de toda a máquina governamental. Isso quer dizer alguma coisa. O que isso quer dizer? Que o Russomanno, em nenhum momento, nega sua filiação à Igreja Universal, e isso mostra uma honestidade política – não quer dizer que eu concorde com isso. Ele nunca disse que deixará de defender os valores da bancada evangélica. Então o povo começa a perceber que entre ele e os outros, há ainda um princípio de honestidade que falta nos demais políticos.

IHU On-Line – Quais as relações entre religião e política no cotidiano? Como essa relação, de um lado, emancipa os cidadãos e, de outro, aliena?

Nadir Lara Junior – O nosso cotidiano está recheado de questões religiosas. Há algum problema nisso? Não, depende do uso que se faz disso. A nossa religiosidade está sendo leiloada pelo marketing, pelo governo, ou por pessoas que já entenderam que essa pré-disposição religiosa rende lucro ou voto. Esse é o grande problema. Com esse recuo da formação política nas bases, a propensão da religião alienar aumenta muito, e há um cenário muito fértil para que religião seja tomada como ópio do povo. Estamos diante de um problema gravíssimo que precisa ser pensado.
Fonte: Unisinos

Wednesday, September 26, 2012

espelho, espelho meu


Professora veio uniformizada e pra guerra na aula de ontem: como eu, parece adorar o preto como cor essencial, foi em todo caso a que ela escolheu desde o sapato ao adereço do rabo de cavalo, passando até pelo sutiã -vi não por alguma tara, mas por mera coincidência óptico-geométrica entre nossos dois lugares e pela característica da blusa, quando nossa guerreira levantava os braços em suas explanações. Haviam falado mal para a direção, sobre a primeira aula dela sobre Estágio do Espelho, o que talvez explique o belicismo. Mas a única mudança notável, em meio às banalidades, generalidades da outra vez, foi mesmo a da agressividade, do tom insuportavelmente arrogante, primeiro sinal pra mim de alguém que já não merece sequer crítica, mas perdão porque não sabe o que faz, não sabe o que diz, não sabe o que sabe.
-Unzuhause-

Tuesday, September 25, 2012

cadeia natural


o duelo do luto


Vejo pelas traduções freudianas a palavra "luto" convertida em "duelo", no espanhol.. belíssima conexão de significantes transculturais de cujo embate brota um significado universal: a dimensão de agonia (palavra ligada à ideia de "luta", também), o que Freud chama em várias ocasiões de "Arbeit", trabalho psíquico. Radical e imprevista conexão transdisciplinar com o destaque também dado à palavra "trabalho" na visão marxista do ser humano como ser social. É que a alma e o mundo são espelhos associados um ao outro, na dura sina de ser humano e portanto sem sentido quando desassociado. Somos o único "nada", furo retumbante em meio aos maciços do Ser, e esse nada ou trabalha ou morre. Ou se junta para pisar ou é pisoteado. E trabalha também para bem morrer, ou ao menos bem "matar", na alma, os objetos, os fantasmas com os quais o mundo nos entreteceu outrora, mas que agora a vida rasgou, dissociou de nós, os nós. Daí o "duelo" do luto, para que, em termos de teoria freudiana, não se degrade em covardia melancólica -a sombra do objeto que cai sobre nós, o homem marxiano que se aliena no trabalho morto e na soberania dos mortos sobre o vivente.
-Unzuhause-

vendo as pedras que secam sozinhas no mesmo lugar





As cadeias de linguagem internas de cada pessoa são como formiguinhas que andavam em fluxo contrário até se esbarrar: se tocam as cabecinhas de leve e prosseguem viagem, feita a misteriosa troca de informação -se isso já não for exagero antropomórfico meu, afinal que sabemos, nós, os propalados cérebros do mundo,  a Natureza devinda consciência, que sabemos nós sabichões do que se passa dentro da cabecinha de uma formiga?
As palavras também "batem cabeça" em nossas cabeças, e seguimos viagem, por vezes sem saber de nada do que se passou. Eu, mergulhado nas Confissões de Agostinho, e estudando a Introdução ao Narcisismo, de Freud (leitura básica do meu curso de psicanálise, este semestre), não posso não estar profundamente sensível aos desvãos e vãs aporias da interioridade. Por isso me apercebo mais desses entrechoques, ou os invento em novos significados, que é o que o atrito de informação, no jogo consigo e com o mundo,  gera no animal simbólico que somos.
Falei ontem, de passagem, no "Medo da Chuva" de Raul, a propósito da minha própria pluviofobia, se é que isso existe. O dia acabou sem chuva, mas com atritos domésticos. Confronto de palavras ásperas e batida de telefone na cara com o grande primeiro e eterno amor da minha vida, a Grande Mãe -esposa arquetípica do odiado Grande Inquisidor/Castrador. Foi o que bastou para ressignificar toda a cena simbólica do meio-dia, e ver que, como na música de Raul, o medo aqui é sobretudo de viver. E viver, ensina a música (e eu não atentara pra isso, ontem) é trair. É preciso ser adúltero ao menos uma vez: assim pressinto me falando em seu tom oracular a voz rouca de Nelson Rodrigues, nosso gênio centenário. O amor desmedido, mesmo o de Mãe, pode ser um desastre pedagógico: produz indivíduos severamente comprometidos em sua capacidade, justamente, de assumir compromissos. Em fazer "contratos sociais", a não ser estando de fora deles, como Rousseau. Fica muito difícil se inserir produtiva ou remuneradamente no teatro social, com suas máscaras, egoísmos e calculismos profissionais. Fere demais. Eu não suporto a mínima contrariedade em relação ao meu padrão absolutista (na minha gíria junguiana, padrão "arquetípico") de fidelidade. O motorista que, no ponto lotado, prefere parar o ônibus longe de mim, já é causa de profundo desgosto. Um amigo que não corresponda, uma universidade com olhar burocrático para uma demanda, tudo isso me é francamente perturbador. Nos parâmetros de amor total que eu sorvi com o leite de minha mãe, e que me fez diferente, fica difícil tolerar qualquer quoeficiente de indiferença.  Ontem eu estava pensando num olhar burocrático universitário desse naipe, enquanto esperava no ponto lotado -demora infinita pra merda de um ônibus- e deparei com o que imaginei ser a cena, ao longe de uma possível colisão naquela rua, buzinas estridentes e caminhão fechando o caminho. Fui me "trabalhando" em viés TCC (terapia cognitivo-comportamental) para suportar com olhar frio mais aquele transtorno urbano que porém só estava na minha cabeça, neste caso. 
A questão é o adultério. O matricídio simbólico que Klein e Jung ensinam de diferentes modos, mesmo que não haja Pai ou ele me seja objeto abjeto. A questão é aceitar que o paraíso dos carneiros (forma afetiva como me referia na infância imorrida à minha mãe) pode ser, depois de seu tempo, ou fora de seu lugar próprio, um perigoso delírio com final em precipício: se não tão dramático -eita vontade de apocalipse, derradeira autoafirmação do símbolo delirante contra a realidade mesquinha, "depois de mim, o dilúvio"- ao menos um campo estagnado sem chuva, casebre caindo aos pedaços, sem grana pra conta da luz, pedra que seca sozinha no mesmo lugar.
-Unzuhause-

Medo da Chuva
Raul Seixas

É pena
Que você pense que eu sou seu escravo
Dizendo que eu sou seu marido
E não posso partir
Como as pedras imóveis na praia
Eu fico ao teu lado sem saber
Dos amores que a vida me trouxe
E não pude viver
Eu perdi o meu medo
Meu medo, meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra
Traz coisas do ar
Aprendi o segredo
O segredo, o segredo da vida
Vendo as pedras que choram
sozinhas no mesmo lugar
Eu não posso entender
Tanta gente aceitando a mentira
De que os sonhos desfazem
Aquilo que o padre falou
Porque quando eu jurei
Meu amor eu traí a mim mesmo
Hoje eu sei
Que ninguém nesse mundo
É feliz tendo amado uma vez
Uma vez
Eu perdi o meu medo
Meu medo, meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra
Traz coisas do ar
Aprendi o segredo
O segredo, o segredo da vida
Vendo as pedras que choram
sozinhas no mesmo lugar
Vendo as pedras que choram
Sozinhas no mesmo lugar
Vendo as pedras que sonham
Sozinhas no mesmo lugar

Monday, September 24, 2012

intelecto em ereção



Estirado na cama, lia indolente o ensaio de Julia Kristeva sobre Melanie Klein, até que soou literalmente a voz do trovão. Eram umas vinte para meio-dia, muito cedo pra sair de casa, para os meus padrões notívagos e  insones. Me vesti, lavei a cara, peguei carteira, objetos de pesquisa, saí assustado, imaginando as terríveis cheias que estariam finalmente chegando. Almoço sem fome e acorro ao metrô, mas a chuva já havia parado. Havia durado míseros minutos, era só de brincadeirinha que o Deus da Ira mandava um de seus dardos, suficientemente "fálicos", contudo, para me botar em ereção o intelecto ativo, a função pensamento  (arquetipicamente masculina, yang) para sair da yin in-dolente e vir para o mundo da vida ganhar do dia o pão.
Mais tarde, a intuição in-dolente ganha terreno e me faz rever tudo com lentes do símbolo. E deparo com o trovão incluído na cena macônica das três viagens da iniciação. Especificamente na primeira viagem, a mais árdua, porque o viajante ainda reluta em energia moral, ainda faz do yin in-dolência, ainda vem buscar em dicionários simbólicos o significado vivo e cortante que o trovão tem no céu, nos grandes homens e mulheres, não na miséria ilustrada por livros.
**
Falando em mulheres trovânicas, valquírias em que o yin é de ímpeto, reencontro Lou-à-Lacan ontem em pleno domingo, no consultório dela. Já esse gesto de marcar em dia tão improvável foi encantador: a hora para os desajustados, os confusos, os "perdidos no espaço" (e no tempo) conforme anos atrás eU me autonomeava, antes de unzuhause, na miséria de conversas de internet madrugada adentro. Fui viciado nisso. Meu Deus, que ilhamento virtual é este de vida toda, um dos fatores que aliás me afogam em "medo da chuva" (toca Raul!), como se o ilhamento físico em alguma enchente não fosse senão a tradução material de uma solidão calvinista maior -leio hoje no artigo de Pondé na Folha interessante alusão a esse arquétipo religioso do isolamento e do repúdio ao mundo. Repúdio da chuva também, medo de me sujar na água que deveria limpar, mas que no meu imaginário sólido - o corpo em ruínas- vem contaminada da podridão e dejetos do mundus i-mundus.
Do encontro de ontem, guardo o perfume e morenice agora em elegante cabeleira chanel, de uma das mulheres mais inteligentes e belas que já conheci de perto. Sonhara no sábado com ela, euforicamente, e liguei ainda na cama, pegando no celular que toca no dela porque não, meu corpo não tocava em seu corpo, pedindo algum horário algum dia desses, sem imaginar que pudesse ser logo no dia seguinte, e logo um domingo.. Que saibam que todo este erotismo esteve sempre em mim, na transferência, pois da parte dela sempre senti toda a ética lacaniana de não amor-tecer o desejo, não nos acovardarmos diante dele, mas sim tomá-lo para o interesse da perlaboração clínica. Mas retomar uma análise, ela disse bem, não seria prioridade para mim agora, no fundo não é isso que peço de meus rituais com Lou.Também não é o corpo dela, senão esse corpo fantasmático que minhas torturas calvinistas me esfregam na cara, me ardem nos olhos, me proíbem pra sempre.
-Unzuhause-

Thursday, September 20, 2012

com meus botões


Que o futebol no Brasil e no mundo já foi coisa muito mais legal, eu, minha melancolia, minha nostalgia, meu amor a tudo que é de 2000 pra trás,  estamos todos de acordo. Mas ver essa merda chamada de Seleção Brasileira é dose pra jumento.....é a contrafação mais mentirosa, é o Falso absoluto -vide a correria desinteressada e desorganizada da bateção de bola no campo, vide a impostação ministerial (e de ministro inglês) do técnico, vide a empolgação forçada  da televisão, e seus "comentários" e gritos de gol insossos ao extremo, vide ainda o absurdo de nos impor a torcida para que esqueçam do nosso time a cada vez que vem essa merda de convocação pra ferrar os clubes e o campeonato brasileiro. O futebol nasceu em mim no ou com o imaginário do botão, e eu fico assim com meus botões corintianos Paulinho, Ralf, Cássio: NÃO chamem, se chamarem NÃO escalem, se escalarem OS SUBSTITUAM LOGO! Preciso com urgência, falando em botões, e em nostalgia, reabrir minha linda mesa de jogo de botão! Grande, bela, daquelas repartidas em faixas verde claro e verde escuro, redes deliciosas de se estufar com todo o meu talento provavelmente perdido pelos anos de inatividade.
**
Russomanno em SP é a terra em transe! Confesso minha emoção por ver que a política volta a incomodar, volta a ASSUSTAR! Os niilistas russos melhoraram o mundo combatendo a servidão e preparando a queda do Czar; vem deles o ensinamento de que tudo tem que piorar muito, antes de melhorar de verdade. Por isso faziam os atentados, espalhavam os boatos,  rastilhos da desordem. Simbolicamente relido para os dias de hoje, esse ensinamento é: terapia do Caos! O mundo não pode ser deixado em sua mediania pseudoconfortável. A política que não assusta não nos educa. No temor a Deus e à vida começa a busca do pensar -forma por excelência de nossa silimitude com o Criador-, do pensar com reverência (Heidegger: Denker ist Danker, pensar é agradecer) e do viver com cuidado (Heidegger: Sorge).
 Especialmente para meus botões eclesiais, origem kleiniana de meu jogo amoroso com a Igreja de Pedro, é hora  de sair da inatividade,vestir o meião e a chuteira e ir à luta, em busca do tempo inativo. Querem eleger o Russomanno pra prefeito, o Edir Macedo pra papa? Pois muito bem (porque muito mau, com u)! Não será culpa nossa, de nossas escolhas, por exemplo a de não escolher, a de se omitir, como se a política fosse questão de se querer ou não ser político? Bem, o que eu sei é que o Russomanno arquétipo do Mal é algo que me excita, não por um complexo de Mal-Amado, cruzes! Mas por formação niilista e cabalista, ambas as quais apontam a Verdade num grau zero, num grau nada, de nossas covardias e acomodações.
-Unzuhause-

cubra você os seus olhos!

amei, AMEI!
sacerdote islâmico, no Irã, corre na rua atrás de uma mulher e a aborda, com palavras e empurrões, pra que se cubra devidamente, ou seja, se esconda melhor. Ela se desvencilha, ele cai e recebe vários chutes na bunda da turba. Mas o lindo foi a resposta dela para o sacerdote: cubra você os seus olhos!

Wednesday, September 19, 2012

dança da chuva


A passagem bíblica a seguir, tema das missas católicas -tá sendo preciso especificar isso cada vez mais, (in)felizmente-. no mundo todo nesta quarta, vem sincronisticamente ao encontro da minha manhã: me revirava na cama, depois no sofá, insone desse calor abafado -prenúncio de trágicas cheias, sem nenhuma "medidinha certa" como os tolos que ficam se queixando do tempo todo o tempo, é porque faz sol, é porque venta, é porque chove, é porque seca.
Inerte em meu aquário seco, eis que o imaginário se fez água salvadora ao me trazer um filme do Telecine: "Footloose". Tudo muito, mas muito anos 80, no espírito do tempo captado pela tela, nas músicas de danceteria, nas roupas, cabelos, até no fusquinha remanescente dos 70, do ator principal (Kevin Bacon). Que é um dançarino que chega na cidade pequena, apaixona a filha do Pastor, incendeia nos jovens o desejo de dançar, e assim abolir o veto que pairava contra as festas desse gênero - não porque o Pastor, figura mais poderosa do pedaço, fosse simplesmente um "mau" (com u). Maniqueísmo é coisa pro gênio religioso de outrora e de hoje em dia (nos evangélicos) ou então para otários. Ninguém é simploriamente bom ou mau, a não ser os simplórios. Em "Footloose" não foram convidados para o baile da vida. O Pastor, nem bom nem mau (com U), em viés de clichê, perdera o outro filho, justamente numa noitada de festa, bebedeira e acidente de carro. "Não foi acidente", diria a bela campanha de hoje em dia contra a irresponsabilidade no trânsito e a leniência das leis.  Mas para aquela cidadezinha, e para o pastor, meio que "pai" de todos, não fora acidente porque fora obra do demônio, o mesmo espírito que gostaria de voltar à tona pela dança e, claro, pelo sexo, arrebatando inclusive a filhinha nada virgem (como a certa altura, em pleno templo, berra para o pai) do Homem Sagrado. Passagem bonita do filme é a reunião do conselho municipal quando, orientado pela filha do Pastor, Bacon argumenta com as armas do adversário, recorrendo à Bíblia, Salmo 149, para justificar a dança como celebração da vida, portanto oração do corpo. E eis que deparo mais tarde com o trecho do Evangelho em que Cristo fala justamente disso: "'Tocámos flauta para vós, e não dançastes! Entoámos lamentações, e não chorastes!' (...)  Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: 'Aí está um glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos e de pecadores!'"
Senhor Cristo, arquétipo como Shiva da dança -como a chuva-  criadora e destruidora da Vida, iluminai nossas cidadezinhas rancorosas e estáticas, trocando essa estática negativa pelo extático Amor. Enquanto isso, vento forte bate as portas e anunciando que o dilúvio está próximo...
Por outro lado, uma faculdade que adoro, e não está sozinha nisto, mostra o lado sombrio da liberação juvenil nascida nos anos 60, radicalizada nos 70, consolidada nos 80 e assimilada de lá para cá: é som alto todo dia, é piscina em plena rampa de acesso central, é um relaxamento geral, é desrespeito à catedral biblioteca que precisa, sim, de silêncio e quietude. Cada coisa em seu tempo e lugar, moçada!
-Unzuhause-

Evangelho segundo S. Lucas 7,31-35.
Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «A quem, pois, compararei os homens desta geração? A quem são semelhantes?
Assemelham-se a crianças que, sentadas na praça, se interpelam umas às outras, dizendo: 'Tocámos flauta para vós, e não dançastes! Entoámos lamentações, e não chorastes!'
Veio João Baptista, que não come pão nem bebe vinho, e dizeis: 'Está possesso do demónio!'
Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: 'Aí está um glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos e de pecadores!'
Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos.»

pressentimento dos ossos


Aula no curso de psicanálise ontem, reencontro com quem? COM QUEM! OUI, MONSIEUR JACQUES LACAN! Primeira de duas aulas sobre o estádio do espelho, uma das construções  mais belas dele que reconheci e ou em que me reconheci na carne -porque fala da carne, do corps morcelé, psicose primitiva do Ser, do bife com olhos que é o bebê humano antes de ser inventado e se revoltar em reinvenção como sujeito do desejo e da linguagem;  coisa bem distinta do idioma "lacanês",do qual andei resmungando em post recente. Esqueci de frisar meu fascínio pela clínica lacaniana, e por vários pensadores de influência lacaniana, naquela ocasião, talvez por não ser mesmo o foco da ab-reação que eu buscava -eu queria dizer, depois de muitas sessões de análise e aulas em escolas lacanianas, do meu, invertendo Barthes,  "(des) prazer do texto", do meu pressentimento dos ossos do Real, morte simbólica da simbólica junguiana constitutiva de meu modo (imaginário) de ser o eu que sou.
Bem, mas a aula de ontem foi prazerosa nisso mesmo que desvincula lacanês -que um só pôde inventar e exercer, imitadores disso em geral saem péssimos na foto- e pensamento lacaniano. Só um porém: o despreparo da professora para 1) articular Lacan com os que vêm antes dele, não só Freud, claro, mas Anna, Melanie, as "Mães" contra as quais Lacan faz ressurgir o Nome-do-Pai; fica um debate muito idiota, e normalmente não muito sincero, aquele em que partimos do parti pris de que nosso lado é "o" certo e o resto é besteira; 2) ao menos disfarçar o menosprezo que a professora mostrou por todo o debate, no texto do Espelho, com a filosofia existencialista. Veio com aquele ranço empirista de que tudo é "clínico", a verdade é clínica, Lacan é clínica e escambau a quatro. Ah não! Raro haver gênio psi que mais tenha pensado entranho, estranho, o que for, mas nas vísceras, a dimensão filosófica das ilusões e construções humanas. A mulher encheu a boca para dizer que adora a lógica de Frege, não a de Aristóteles, para nos iluminar com a vela da sentença de que a "topologia" lacaniana é um ramo da matemática etc. Isso para lucro da auto-estima pessoal, mas só resvalando os dedinhos, bem de leve, sobre todos esses gigantescos problemas e desafios. Ainda acho que Lacan mereceria uma edição crítica mais substancial, ao estilo de Bíblia de Jerusalém, aquela feita à medida para os que queremos ser mais que crentes, mais que crer, conhecer..
-Unzuhause-

Tuesday, September 18, 2012

144


Me falaram de um jogo de cartas que se chama "solitário", por, é óbvio, ser como meus campeonatos de botão na infância: você consigo mesmo. Meus campeonatos tinham tabela, escalações, tudinho organizado, e times com personalidade própria, eram melhores e piores entre si -a natureza não parece mesmo ser igualitária em nada, dou a mão à palmatória aos amigos conservadores. Uma vez por semestre, porém, era a grande festa, o campeonato com amigos reais, normalmente um sábado da uma da tarde até tarde da noite, muita emoção, hambúrgueres, choro e medalhas de ouro, prata e bronze. Mas os jogos "solitários" são mesmo o meu forte.. é assim que eu designo também estas escritas de Unzuhause. Mas, desde que o blog passou a informar os visitantes do dia, textos mais acessados etc, tudo mudou de figura. Me sinto escrevendo não só a um Outro vago, mas a um público. Que hoje bateu o recorde: 144 visitantes. Nada mau, apesar de também assustador, em se tratando de jogo solitário, e de solitários como eu, desses que se apavoram até de marcar festa de aniversário com medo (ou desejo, ou ambos) de falta de quórum, narcisista incorrigível que já passou da fase de se olhar, quis mesmo é mergulhar e por aqui ficar, nas profundezas abissais do lago de alma pessoal em que me aparto e me junto à Anima Mundi,. Obrigado, meu povo! Estamos juntos, nossas solidões con-federais, é essa a única República solidária e solitária que devaneio em meus sonhos platônicos diante do espelho - e toda especulação é mesmo especular, adjetivo do espelho..
Como é época eleitoral, eu vos prometo me manter fiel a meus princípios, não baixar o nível, não inventar uma caricatura de mim mesmo em que me aprisionar com a liberdade de nego que dança sapateado querendo se desviar dos tiros ao chão do público algoz.. mas, como os amigos conservadores bem sabem (dizem que me visitam muito por aqui), ninguém é bom, tudo é Mau (vejam bem, com "U"!), e eu não sou santo, então, como imagem desse texto, e para celebrar o ibope recorde de hoje, recorro ao par de pernas mais encantador da TV brasileira de hoje: Ellen Jabour! Aliás um concurso das mais lindas coxas fêmeas deste mundo de deus (ou do outro) não cairia nada mal por aqui, que vcs acham?
-Unzuhause-

nas fogueiras da Inquisição intelectual


"Pela decisão dos anjos e julgamento dos santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos Baruch de Spinoza...Maldito seja de dia e maldito seja quando sai, maldito seja quando regressa... Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia algo escrito ou transcrito por ele."


Excomunhão de Spinoza.

Monday, September 17, 2012

transferência negativa (fluxos surto-mudos de consciência)



Transferência negativa não é só uma palavra mais chique para o velho "não vou com tua cara". Não é só uma carta-fetiche a se roçar com os dedinhos, pegar do baralho da alta cultura, guardar bem guardado, de mão leve e sem consciência pesada, botar no bolso para ocasiões de afetação erudita.  
É, eu dizia, um amor que merece mesmo um termo especial, dada sua complexidade: não querendo aqui conceituar, mas taquigrafar meu sentimento, é um gostar desgostando, algo assim, um odiar sem poder ficar longe. Acho q sou assim com Lacan.. só fiz análise lacaniana (ou tentativas de..) a vida toda, nem penso em buscar coisa diferente, mas borbulho e babo de rancor na boca e na alma mal abro um livro dele e vejo algum matema,  grafo de desejo esquema L ou escambau parecido.. Impostura! Frescura! Tio chato de aula mal dada de matemática!,  são os adjetivos mais leves para minha regressão emocional nesses instantes -os poucos intantes em que suporto um "Seminário" ou "Escrito" que esteja aberto diante e gozando de minha cara, me transportando às piores agonias de minhas apostilas de "exatas", misteriosamnte ressurgentes no discurso lacaniano. Amo lógica, matemática, física, mas desde que no lugar certo, o de ferramentas da filosofia, não encheção de saco que fica nisso e não sai. Ao mesmo tempo pressinto mistério sob as opacidades do lacanês, não sei se como uma ovelha ideal do rebanho do Grande Inquisidor assistindo embevecido a uma missa em latim e entusiasmado por "significantes" ressequidos, sem símbolo, sem hermenêutica, a arte de Hermes, deus da psicologia junguiana. Sério, acho Lacan um pensador dos mais desafiantes, complexos, interessantes nisso mesmo que têm de inassimiláveis, tal como a chata mas incontornável prosa de Joyce, prosa do século, do homem sem qualidades, alma sem símbolos, a não ser  vagos ecos cacofônicos de homero aqui e lenda irlandesa acolá. 
 Bem, isso para dizer que minha última infidelidade rodrigueana, dessas de ter mais tesão de esfregar na cara do cônjuge, do que talvez no ir pra cama com a amante, é ler Melanie Klein e me voltar para o analista lacaniano silencioso que há em mim (temos todos o tio chato da angústia a nos visitar semanalmente com presentinhos do Real) e dizer para ele o quanto estou amando a experiência adúltera.. ahh! que mulher poderosa, deliciosa, interessante.. queria uma kleiniana assim na vida real, que não os tios punitivos chatos com as sinetas angustiosas do Real - uma que fosse assim deliciosa, poderosa, absorvente (hmm.. tabu da feminilidade me ressoando a sineta angustiosa do Real) ah! texto gozoso, em sentido de Roland Barthes, o mestre do "prazer do texto", aliás amigo de Lacan, e mais, seu cúmplice de aventuras (pós-)estruturais..ah dr. Lacan, és como Aquele que eu levanto a pedra e lá estás, mergulho na cachoeira e lá estás também?
-Unzuhause- 

Sunday, September 16, 2012

os dedos e os anéis


Túnel do tempo: depois do longínquo grupo de pesquisa de antropologia no Cebrap, nos idos de 97 ou 98, eis-me de volta aos textos de Leonardo Boff. Recordo a dificuldade emocional que eu tinha, graduando iniciante, em controlar em mim os afetos, afastar de mim ressonâncias que pareciam feitas para mim, e em troca poder compartilhar palavras min-imamente objetivas sobre esse autor, seus problemas, sua dimensão, quanto mais traduzir tudo isto em conceitos, e assim necessariamente perder sentidos sob o crivo reducional (diferente de reducionista) inevitável à construção de qualquer conhecimento científico, mesmo, ou ainda mais, nas ciências sociais.
Acabei, sintomaticamente, afastando o foco para outro lugar: de Boff a Paulo Suess, da teologia da libertação à da inculturação, que parecia mais "atual" e mais diretamente ligada ao campo de interesse do grupo de pesquisa, sobre a atuação missionária da Igreja Católica junto aos índios.
Perdi nessa troca. Não por desinteresse no que escolhi, mas pelo interesse demasiado naquilo a que renunciei. Para perder os dedos, dei junto os anéis dourados. Droga dessa (assa) sina que me faz fugir quando a emoção é demasiada.
No fundo, somos sempre "índios" para outrem: matéria de observação científica possível, ou no mínimo de alguma interpretação distanciada. Estudar cientificamente você, Leonador [nossa, ato falho sugestivo, não vou corrigir!] , será aceitar vê-lo como meu "índio". Apaixonado como é pelas culturas nativas e ancestrais que formam nossa América humilhada e sonhadora, acho que você não desgostará de todo, não?
-Unzuhause-

Como se formou o poder monárquico-absolutista dos Papas

-por LEONARDO BOFF-
16/09/2012

Escrevíamos anteriormente neste espaço que a crise da Igreja-instituicão-hierarquia se radica na absoluta concentração de poder na pessoa do Papa, poder exercido de forma absolutista e distanciado de qualquer participação dos cristãos, criando obstáculos praticamente intransponíveis para o diálogo ecumênico com as outras Igrejas.
Não foi assim no começo. A Igreja era uma comunidade fraternal. Não havia ainda a figura do Papa. Quem comandava na Igreja era o Imperador pois ele era o Sumo Pontífice (Pontifex Maximus) e não o bispo de Roma ou de Constantinopla, as duas capitais do Império. Assim o imperador Constantino convocou o primeiro concílio ecumênico de Nicéia (325) para decidir a questão da divindade de Cristo. Ainda no século VI o imperador Justiniano que refez a união das duas partes do Império, a do Ocidente e a do Oriente, reclamou para si o primado de direito e não o do bispo de Roma. No entanto, pelo fato de em Roma estarem as sepulturas de Pedro e de Paulo, a Igreja romana gozava de especial prestígio, bem como o seu bispo que diante dos outros tinha a “presidência no amor” e o “exercia o serviço de Pedro” o de “confirmar na fé” e não a supremacia de Pedro no mando.

Tudo mudou com o Papa Leão I (440-461), grande jurista e homem de Estado. Ele copiou a forma romana de poder que é o absolutismo e o autoritarismo do Imperador. Começou a interpretar em termos estritamente jurídicos os três textos do Novo Testamento atinentes a Pedro: Pedro como pedra sobre a qual se construiria a Igreja (Mt 16,18), Pedro, o confirmador da fé (Lc 22,32) e Pedro como Pastor que deve tomar conta das ovelhas (Jo 21,15).

O sentido bíblico e jesuânico vai numa linha totalmente contrária: do amor, do serviço e da renúncia a todo domínio. Mas prevaleceu até hoje a leitura do direito romano absolutista. Consequentemente Leão I assumiu o título de Sumo Pontífice e de Papa em sentido próprio. Logo após, os demais Papas começaram a usar as insígnias e a indumentária imperial (a púrpura), a mitra, o trono, o báculo dourado, as estolas, o pálio, a cobertura de ombros (mozeta), a formação dos palácios com sua corte e a introdução de hábitos palacianos que perduram até os dias de hoje nos cardeais e nos bispos, coisa que escandaliza não poucos cristãos que leem nos Evangelhos que Jesus era um operário pobre e sem aparato. Então começou a ficar claro que os hierarcas estão mais próximos do palácio de Herodes do que da gruta de Belém.

Mas há um fenômeno para nós de difícil compreensão: no afã de legitimar esta transformação e de garantir o poder absoluto do Papa, forjou-se uma série de documentos falsos. Primeiro, uma pretensa carta do Papa Clemente (+96), sucessor de Pedro em Roma, dirigida a Tiago, irmão do Senhor, o grande pastor de Jerusalém. Nela se dizia que Pedro, antes de morrer, determinara que ele, Clemente, seria o único e legítimo sucessor. E evidentemente os demais que viriam depois dele.

Falsificação maior foi ainda a famosa Doação de Constantino, um documento forjado na época de Leão I segundo o qual Constantino teria dado ao Papa de Roma como doação todo Império Romano. Mais tarde, nas disputas com os reis francos, se criou outra grande falsificação as Pseudodecretais de Isidoro que reuniam falsos documentos e cartas como se viessem dos primeiros séculos que reforçavam o primado jurídico do Papa de Roma. E tudo culminou com o Código de Graciano no século XIII tido como base do direito canônico, mas que se embasava em falsificações de leis e normas que reforçavam o poder central de Roma, não obstante, cânones verdadeiros que circulavam pelas igrejas.

Logicamente, tudo isso foi desmascarado mais tarde sem qualquer modificação no absolutismo dos Papas. Mas é lamentável e um cristão adulto deve conhecer os ardis usados e forjados para gestar um poder que está na contra-mão dos ideais de Jesus e que obscurece o fascínio pela mensagem cristã, portadora de um novo tipo de exercício do poder, serviçal e participativo.

Verificou-se posteriormente um crescendo no poder dos Papas: Gregório VII (+1085) em seu Dictatus Papae (“a ditadura do Papa”) se autoproclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo; Inocêncio III (+1216) se anunciou como vigário-representante de Cristo e por fim, Inocêncio IV(+1254) se arvorou em representante de Deus. Como tal, sob Pio IX em 1870, o Papa foi proclamado infalível em campo de doutrina e moral pelo Concílio Vaticano I.

Curiosamente, todos estes excessos nunca foram retratados e corrigidos pela Igreja hierárquica. Eles continuam valendo para escândalo dos que ainda creem no Nazareno pobre, humilde artesão e camponês mediterrâneo, perseguido, executado na cruz e ressuscitado para se insurgir também contra toda busca de poder e mais poder mesmo dentro da Igreja. Essa compreensão comete um esquecimento imperdoável: os verdadeiros vigários-representantes de Cristo, segundo o Evangelho (Mt 25,45) são os pobres, os sedentos e os famintos. No momento culminante da história serão eles nossos juizes.

Monday, September 10, 2012

o espelho do abismo


"Da mesma forma que o homem extrai, com o perigo de sua vida, os metais mais perigosos das entranhas das minas, bem abaixo da superfície tranquila da terra, da mesma forma o artista só descobre a verdade mais brilhante, no último conhecimento dos abismos mais perigosos de sua natureza".
Stefan Zweig,
Dostoiévski

Sunday, September 09, 2012

em busca do Inconsciente Espiritual: os surdo-mudos do falatório



Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano de Estrasburgo
Sermão 49, 1º para o 12º domingo depois da Trindade

«Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos»*

Temos de examinar de perto o que torna um homem surdo. Por ter escutado as insinuações do inimigo, por ter ouvido as suas palavras, o primeiro casal dos nossos antepassados foi o primeiro a ficar surdo. E nós também, a seguir a eles, de modo que já não conseguimos ouvir ou compreender as inspirações amorosas do Verbo Eterno. E, no entanto, sabemos bem que o Verbo Eterno está no fundo do nosso ser, mais inefavelmente perto de nós e em nós do que o nosso próprio ser, na nossa própria natureza, nos nossos pensamentos; nada do que podemos nomear, dizer ou compreender está tão perto de nós e nos está tão intimamente presente como o Verbo Eterno. E o Verbo fala sem cessar no homem. Mas o homem não consegue ouvir, devido à grande surdez que o aflige. [...] Do mesmo modo, foi de tal maneira atingido nas suas outras faculdades que também se tornou mudo e já não se conhece a si próprio. Se quisesse falar do seu interior, não conseguiria fazê-lo, pois não sabe qual é a sua situação e não reconhece o seu próprio modo de ser. [...]

O que é então esse murmurar incomodativo do inimigo? É toda a desordem cujo reflexo ele te mostra e te persuade a aceitar, servindo-se do amor ou da procura das coisas criadas, deste mundo e de tudo o que lhe está ligado: bens, honrarias, até mesmo amigos e pais, até a tua própria natureza, resumindo, tudo o que te traz o gosto dos bens deste mundo decaído. É disso tudo que é composto o seu murmurar. [...]
Então vem Nosso Senhor: mete o Seu dedo sagrado no ouvido do homem, aplica-lhe saliva na língua, permitindo-lhe recuperar a palavra.

* com base em:
Evangelho segundo S. Marcos 7,31-37.
Naquele tempo, Jesus deixou de novo a região de Tiro, veio por Sídon para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-lhe um surdo tartamudo e rogaram-lhe que impusesse as mãos sobre ele.

Afastando-se com ele da multidão, Jesus meteu-lhe os dedos nos ouvidos e fez saliva com que lhe tocou a língua.
Erguendo depois os olhos ao céu, suspirou dizendo: «Effathá», que quer dizer «abre-te.»

Logo os ouvidos se lhe abriram, soltou-se a prisão da língua e falava correctamente.

Jesus mandou-lhes que a ninguém revelassem o sucedido; mas quanto mais lho recomendava, mais eles o apregoavam.

No auge do assombro, diziam: «Faz tudo bem feito: faz ouvir os surdos e falar os mudos.»

Saturday, September 08, 2012

um caos grávido da graça


Os sofrimentos interiores, em um mundo como o dostoievskiano -que é o meu e o de todos nós-, não são mero boi de traíras (piranhas morais) para os catálogos científicos da anomalia. São um caos grávido da graça, em chave espiritual, legível desde o patamar superior do modelo de homem trinitário dos gnósticos, homem este que nós modernos apenas roçamos, às cegas, com nossos bisturis de carniceiros analíticos limitados aos níveis da matéria densa e da alma emocional.
Como Aliocha, em Os Irmãos Karamazov, minha crise de fé adveio de ver a alma partir-se do corpo de meus santos, corpo sagrado que sem alma  se corrompeu impiedosamente e aos olhos alegrinhos dos inimigos -as gordas ratazanas, lacraias do Grande Inquisidor fartando-se como no filme "Comilança", na Última, não, na Primeira Ceia dos traíras que restaram da Crucifixão aprovados como que em concurso acadêmico de cartas marcadas para a longa era de hegemonia canalha. Morrerei sem o gostinho de vê-los derrotados, como os meus irmãos cristãos que sonhavam em ver a Babilônia ardendo nos infernos para assim sanar a sede ressentida. Que meu ressentimento então seja o lodo para o lótus de ideias que meus tataranetinhos reabram, protejam e brotejem.
Boca mordida esta madrugada, por minha ansiedade, durante a tentativa de dormir após leituras sobre a Mãe Igreja em seu lindo corpo jovem de anos 60, no Concílio Vaticano II: o quanto me dói a  vocação obstruída de Profeta, ao ler as agruras que já o santo padre João XXIII padecia, ao lutar pela renovação da Igreja mesmo isolado e boicotado pela burocracia. Profetas como ele não nascem por decreto nem por concílio. São exceções, na Igreja e na História, vindas para iluminar, consolar, curar o corpo individual e coletivo, Ego e População dos Egos a serem restaurados como "Povo de Deus" em cada um e em todos nós, pelo Arquétipo Político (corpo) Psíquico (alma), e Pneumático (espiritual) da Unificação nesta ou em vida melhor.
-Unzuhause-

Thursday, September 06, 2012

entre nós e o caos (ou: educação e consumo)

vou de Haddad, mas acho meio forçado e sacal o desespero e fúria, que já correm esses dias,  contra toda outra alternativa, como se o jogo das urnas fosse entre nós e o caos. não se fiem na democracia como avatar profano da apoteose do bem. é jogo, portanto conflito, alternância de fortuna e infortúnio, e aceitação do que difere de nós, por mais que nos amemos. e, além do mais, o povo, disperso como está em "população",  é sempre muito interesseiro e ardiloso. essa é a tristeza, ao meu ver, de um modelo tipo lulista de remediação social via massificação de consumo, seara de Russomanno, e não singularização pessoal e cidadã via educação, campo de Haddad, o ministro uspiano.
-Unzuhause-

Wednesday, September 05, 2012

posso te falar uma coisa?


Leio esses dias meu teólogo conservador favorito -no sentido de que uma potência intelectual que nos matura pelo choque dialético-, o  Cardeal Ratzinger. Por exemplo, sua nostalgia pelas missas em latim e com o padre de costas para o povo, orando "com" o povo diante de Deus, explica Ratzinger. É de uma beleza inegável o rito de uma missa no Mosteiro de São Bento, tão bento quanto o nome que o Cardeal tomou pra si ao virar papa por vontade do Espírito Santo. Mas, passando da monumentalidade monacal à prosa da paróquia e necessidade que o broto da fé tem da seiva da vida concreta, em seu linguajar rude mas igualmente teóforo (portador do divino), me angustio com o simbolismo de um sacerdócio que "dê as costas" para o homem.
 Ontem, em aula de psicanálise, o professor começou muito bem, quando sentado, mas resolveu se levantar e dar dois passos adiante, e de lá prosseguir a exposição. Para prejuízo de gente como eu, que estava nas extremidades da sala disposta em semicírculo. Minha conexão emocional e ideativa ficou totalmente offline. Ouvia de quando em quando palavras esparsas, como "Melanie Klein", "seio", "mãe", "bebê". 
Ao fim da aula, saí matutando a experiência, e minhas angústias com a Igreja (pra mim, mais que instituição dos outros, uma obsessão interior, um ente querido, homúnculo interior, seio materno e sacramento de salvação e elo ideal do mundo com algo superior, com a "mãe" universal, com o paraíso dos arquétipos e da voz sagrada do Senhor).
Com minha mãe, a de carne e osso conquanto divina,  falei sobre isso, e sobre Ratzinger, o latim e as costas do padre, e ela reagiu de um jeito engraçado: "Não vêem que tá tudo desabando [alusão não ao teto da Renascer, mas à fragilização católica ante o crescimento dos evangélicos em geral, na bica de tomarem o poder, depois de já terem conquistado o coração do povo],  e querem mais essa? Precisa de um comercial tipo Visa com alguém no guichê da realidade para dizer ao papa: 'Posso te falar uma coisa?'", por exemplo para a dupla de anões que se preparam para serem campeões de vôlei de praia, à frente, na fila, de dois campeoníssimos e gigantes atletas brasileiros.
-Unzuhause-

Tuesday, September 04, 2012

pavor de classe média ontológica



Chocante sob vários aspectos o depoimento que você ouvirá. Nele, Marilena Chaui tem a coragem e, no fundo, a segurança de essência para se expor sob ângulo adversário: pela adversidade do Tempo, dado da natureza, portanto em si mesmo amoral, mas convertido em arma, como o pau e a pólvora, quando cai nas mãos da gentalha incapaz de distinguir a dignidade humana sob o fracasso que paira sobre todos, que a ninguém distingue, o de envelhecer.
Foi o que mais me chamou a atenção, para além da denúncia, menos original -mas nem por isso menos premente- das mazelas morais da classe média de São Paulo. Meu reparo, a despeito de toda a simpatia  pelo recorte sociológico -que vale enquanto recorte-  , é que esse Mal não é específico da classe média, ou classe média somos todos, em sentido ontológico: entre ser e nada,  entre vida e morte, entre a besta e o bestial, entre a fera e o anjo, entre a mula e o gênio.
Coração católico vibra quando minha filósofa adorada lembra a importância da Igreja dos anos 60 a 80 para o atenuamento, senão sublimação, da monstruosidade "natural" darwinista da classe média propriamente social de nossa cidade. Naquele tempo, a fé deixou a sacramentalidade vetusta e inerte em segundo plano, arregaçou as mangas e "desceu" à realidade. Trazendo para a política um moderador ético e um horizonte sagrado que me parece indispensável, ainda que seja de modo silencioso e não impositivo. Arquétipos cuja ausência me torna a política de hoje francamente desinteressante, a não ser em momentos raros, como o de julgamento de mensalão, e ainda assim quando "lido" sob o olhar genial de Marcelo Coelho, na Folha, ou de Renato Janine, pelo que recebo no Facebook.
Outro aspecto que me toca, na classe média social desnudada, em sua mediocridade moral, política, cognitiva, por Marilena, é essa ambiguidade insegura entre a burguesia e o proletariado. Confesso que o medo da pobreza me assombra, ainda mais nestes dias particularmente franciscanos, sem um puto algum na conta bancária. Consolo é lembrar o comentário de José de Souza Martins, que sem ironia defendia muito em classe (na faculdade, digo), que nossa classe (a média, e a dos sociólogos) tem muito a ganhar com a experiência direta da penúria financeira: um olhar pra realidade que de outro modo seria impossível. Meu encanto por Marx, ao sair dos bancos escolares para a vida, se encorpou (literalmente) na lida diária com um trabalho em Redação de jornal. E hoje também, mas em viés mais anarquista e niilista, meio que "unzuhause" andarilho sem casa, meio que vadiando workaholicamente entre todas as casas do saber, à direita e à esquerda -outro dia estava interessado em pegar umas aulas num grupo acadêmico conservador, para pouco depois "recair" -meu nome traz em si a noção de queda em primeira pessoa do singular e no presente, o presente de fato sempre me aterrorizou como pedra de tropeço-, recair, eu dizia, na explicitude de meus amores pela Teologia da Libertação.
Sem casa, sem grana, sem nada.. experiência niilizante benéfica, enquanto souber abstrair -com mãe pra amparar- do horror do Monstro classe medial ameaçador porque ameaçado de naufrágio enquanto sonha com as estrelas.
-Unzuhause-