domingo, julho 29, 2012

Resenhas para a Folha de S. Paulo, 28/07/2012


Guia Folha - Livros, Discos, Filmes
-Caio Liudvik-

OS ANALECTOS

A "Era Axial", entre 900 e 200 a. C, foi, segundo Karl Jaspers, um período de mutações espirituais decisivas para toda a história futura da humanidade. Em diferentes centros como a Índia, a China, o Oriente Médio e a Grécia, sábios, filósofos e profetas convocam o homem a se voltar para dentro de si, fazendo da pureza de coração, mais que a mera observância externa de ritos, o núcleo da vida moral e religiosa e o palco da salvação.
Os Analectos de Confúcio, que saem agora em tradução direta do chinês arcaico, se destacam neste contexto pela ausência de credos sobre Deus ou vida depois da morte e pela exigência de virtude na vida particular e política –com uma retomadado conceito tradicional de "nobreza", não como privilégios de sangue, mas como exercício ético no dia a dia. De valor atemporal, embora ligados a um sábio de 2.500 anos atrás, seus aforismos são os fundamentos intelectuais da civilização chinesa e, portanto, um documento chave para quem queira entender este novo protagonista da geopolítica globalizada.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO



TIGRES NO ESPELHO

É rara a combinação que George Steiner alcança entre erudição, generosidade com que se entusiasma e honestidade intelectual com que polemiza, em suas críticas culturais. Tais qualidades, que lhe valeram a admiração de Susan Sontag e Edward Said, estão patentes em Tigres no Espelho, coletânea a partir dos ensaios publicados por ele na revista "The New Yorker" entre 1967 e 1997.
"Tudo o que ele olha constantemente vibra de possibilidades, de perspectivas genuínas de se revelar fresco, palpitante, surpreendente ou purificador", assinala Robert Boyers no prefácio, em palavras que retratam bem o prazer de (re) abrir, com o crítico parisiense, obras sobre as quais muito já se disse, como 1984, de Orwell – cujo título provisório, O Último Homem na Europa, de menos impacto, teria sido amplamente justificável, segundo ele, pelo viés tipicamente eurocêntrico da terceira via que Orwell (como outros luminares da intelectualidade nos anos 40, a exemplo de Sartre e Camus) propugnava entre o totalitarismo soviético e o capitalismo à la EUA, alvos da sátira no romance.
Outros pontos altos da coletânea são a crítica à superficialidade e falta de originalidade pretensiosas que vê em Cioran; a discussão da correspondência entre Walter Benjamin e Gershom Scholem, ou a apresentação esclarecedora que faz da hermética obra de Lévi-Strauss para um grande público.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO



SABINA SPIELREIN – DE JUNG A FREUD
O filme "Um Método Perigoso", de David Cronenberg, nos deu um retrato da russa  Sabina Spielrein (1885-1942) um tanto frio (objeto de divergência entre dois "gentlemen") e caricatural , com as projeções de queixo exageradas da atriz Keira Knightley (mesmo no papel de uma histérica grave). Mas teve ao menos o mérito de lançar luzes sobre sua importância histórica para a psicanálise, como paciente e amante de Jung e um dos pivôs da ruptura dele com Freud, entre 1912 e 1913.
Assim também o faz Sabine Richebächer na cuidadosa biografia "Sabina Spielrein – de Jung a Freud". Ela porém vai além do episódio escandaloso, mostrando a trajetória excepcional de Sabina, da infância na Rússia à morte trágica em mãos nazistas. Praticamente desconhecida até fins dos anos 70, quando da descoberta de suas anotações pessoais e correspondência com os dois grandes mestres, Sabina teve, como mostra o livro, insights seminais para a psicanálise de crianças, antecipou o conceito freudiano de pulsão de morte e foi quem, pela força de seus atrativos físicos e intelectuais (de tirar o rumo de casa), deu corpo ao arquétipo junguiano da "anima" (dimensão feminina da psique do homem).
AVALIAÇÃO – ÓTIMO



O TENENTE GUSTL
Hoje, a ofensa "garoto bobo" talvez suscitasse não mais que um sorriso de canto de boca, tamanha a ingenuidade. Mas para um militar da Viena "fin-de-siècle" de Arthur Schnitzler, foi ousadia de um padeiro capaz de desencadear uma crise moral que empurra o protagonista para a beira do suicídio.
"Honra perdida, tudo perdido!... Não tenho outra alternativa a não ser carregar meu revólver e...", sentencia num monólogo interior, então inédito em língua alemã, antecipando o fluxo de consciência que consagraria autores como James Joyce e as associações livres de Sigmund Freud, de quem, aliás, é considerado o duplo literário. O processo movido contra Schnitzler pelas autoridades militares, por conta dessa novela de 1900, é sintoma do quanto era corrosivo o desnudamento psíquico da autoridade - e do que a autodefesa autoritária faria de "miasmas" incômodos (como a psicanálise) sob Hitler. Antissemitismo crescente, misoginia, luta de classes, a paranoia antissocialista são outros conteúdos que afloram nesta que é considerada a obra-prima de Schnitzler.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


TEMPOS DE REFLEXÃO-DE 1954 A 1989
Com a autoridade de quem foi uma das maiores vozes contra o apartheid e a censura, a escritora Nadine Gordimer, Nobel de Literatura em 1991, tinha a coragem e lucidez, em plenos anos de chumbo, de defender que a liberdade do artista sofre outro tipo de ameaça, "que provém da própria força de oposição do escritor à repressão da liberdade política". No caso, a ameaça pela própria consciência "do que é esperado dele"; o conformismo a uma ortodoxia de oposição, a um "jargão de luta" que vale para o palanque público, mas que empobrece o compromisso específico com a verdade do poeta, do contista e do romancista.
A reflexão sobre tais dilemas é só uma das facetas do imperativo de liberdade  que permeiam também as lembranças que ela entretece de sua trajetória em meio aos horrores da segregação racial, neste primeiro volume de "Tempos de Reflexão", que traz ensaios escritos entre 1954 e 1989.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

mestre Paulo Freire


“Não se pode separar prática de teoria, autoridade de liberdade, ignorância de saber, respeito ao professor de respeito ao aluno, ensinar de aprender…”




“É na minha disponibilidade permanente à vida a que me entrego de corpo inteiro, pensar crítico, emoção, curiosidade, desejo, que vou aprendendo a ser eu mesmo em minha relação com o contrário de mim. E quanto mais me dou à experiência de lidar sem medo, sem preconceito, com as diferenças, tanto melhor me conheço e construo o meu perfil.”

sábado, julho 28, 2012

perturbação criadora

"Se eu não fosse perturbado, estaria jogando vôlei na praia e não escrevendo livros. Então, por favor, não espere linearidade de mim."
Daniela Lima, escritora, via facebook, hoje

segunda-feira, julho 23, 2012

curso Maria Antonia (USP), primeira chamada



Minha cara "sangha" (comunidade espiritual, para os indianos), ou seja, todos os diletos unzu e faceamigos, parem as máquinas! Primeira chamada para um curso que darei em agosto, no Centro Universitário Maria Antonia (USP), com (possível) participação especial de Manuel da Costa Pinto, um dos grandes caras do jornalismo cultural brasileiro. Por favor, divulguem, falem bem por aí rs, e sobretudo, FAÇAM COMIGO (sou como Sartre nesse aspecto, me é insuportável, por baixa auto-estima rs, assumir-me em posição de autoridade qualquer, prefiro os coletivos participativos, libertários e igualitários, inclusive na sagrada comunhão ou prosaico piquenique entre amigos do Saber.



Morte de Deus e Ressurreição do Mito


Com Caio Liudvik; participação especial – Manuel da Costa Pinto


8, 15, 22 e 29 de agosto


quartas, 16 às 18h
Centro Universitário Maria Antonia

Rua Maria Antonia, 258 e 294- Vila Buarque
01222 010 - São Paulo - SP
tel 11 3123 5201
fax 11 3255 5230


O curso pretende explorar um paradoxo aparente da era moderna. Por um lado, a crise do fundamento metafísico e moral da existência com a "morte de Deus" e o dilaceramento niilista testemunhado por um Dostoiévski, Nietzsche ou Cioran. Por outro lado, um amplo "retorno do recalcado" mítico – via camuflagem do sagrado- na própria reflexão filosófica sobre o absurdo e a liberdade, na criação artística, na política e nas balizas de autocompreensão do homo psychologicus de nosso tempo.

ESQUEMA DAS AULAS
1) Desencantamento do mundo, niilismo e morte de Deus – de Dostoiévski a Cioran
2) O mitologismo moderno como um princípio de leitura transversal para múltiplos sintomas de cultura e de barbárie, em searas como a filosofia (de Rousseau a Marx, de Nietzsche ao existencialismo), literatura (Joyce, Thomas Mann, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues), ciências humanas e fenômenos políticos como os totalitarismos nazista e o comunista.

3) Protótipos míticos na psicologia profunda de Freud e Jung.

4) Morte de Deus e mitologismo moderno no existencialismo.

CAIO LIUDVIK
Colaborador da Folha de São Paulo e revista Cult. Doutor e Pós-doutorando em filosofia pela FFLCH-USP, sociólogo e jornalista, estudioso em processo de formação profissional em psicanálise no CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos), autor de Sartre e o Pensamento Mítico (Loyola) e tradutor de As Moscas, de Sartre, entre outras obras.



sábado, julho 21, 2012

gênio da palavra

Noto certa banalização de uma palavra que, como todas, ou como a Palavra em si, deveria ser sagrada (me corrigo, não todas, pois se todas fossem sagradas, alguma o seria?). A palavra em questão é "gênio". Mas não tem como não pensar nela ao verificar o, ops, gênio de Edgar Allan Poe, sua façanha de intuição literária, ao antecipar a hipótese do Big Bang no seguinte poema em prosa:

http://www.textlog.de/poe-eureka.html
Claro que por si só a teoria do Big Bang, relato da explosão cósmica antes da qual nada havia -nem o antes, porque é noção temporal, ou será que o tempo e o espaço "seriam" antes de o Ser ser?-, essa teoria, eu dizia "antes" de  me interromper,  é daquelas criações em que ciência e mitologia mais se parecem entre si: ambas esforços humanos de dar sentido, finalidade, unidade e sobretudo "origem" ao Real. Adaptando a canção, "como fui feliz naquele mês janeiro, pois tudo pra mim era primeiro".. Bem, mas tal interface promíscua, no jargão dos moralistas, ou báquica, para quem brinda o brincar de saber, não seria o que permite ao escritor fazer ciência, sem saber, ou ao cientista estar na "verdade" fazendo ficção, sem querer?
-Unzuhause-

qualidades do olhar

Só descobri a poeira nos meus óculos na hora em que sentei pra escrever.

quinta-feira, julho 19, 2012

Poderoso Timão: sofrimento e glória (1)


Caríssimos,

Convite tanto para corintianos como para os antis: estou começando no meu blog uma coletânea de momentos históricos do Maior de Todos, intitulada "Poderoso Timão: Sofrimento e Glória". Sem prazo nem periodicidade fixa, na cadência das lembranças e afetos, sobre o ontem, o hoje e o eterno. Não pretendo tampouco uma história chapa branca, até porque somos preto e branco, e episódios de frustração pedem inclusão, como cicatrizes que embelezam ainda mais este corpo glorioso.
-Unzuhause-




CORINTHIANS 2 x 2 REAL MADRID
MUNDIAL DE CLUBES DA FIFA / 2000
FICHA TÉCNICA
CORINTHIANS: Dida, Índio, João Carlos, Fábio Luciano e Kléber; Rincón, Vampeta (Edu), Ricardinho (Marcos Senna) e Marcelinho; Edílson e Luizão (Dinei). Téc.: Oswaldo de Oliveira
REAL MADRID: Casilas, Salgado, Hierro, Karembeu e Roberto Carlos; Redondo, Guti (Morientes), Geremi (McManaman) e Raúl; Anelka e Sávio. Téc.: Vicente Del Bosque
Local: Estádio do Morumbi - São Paulo (SP)
Data: 07/01/2000
Árbitro: William Mattus Veja (Costa Rica)
Gols: Anelka (19 - 1º), Edílson (28 - 1º), Edílson (19 - 2º) e Anelka (25 - 2º)

quarta-feira, julho 18, 2012

tuitando - Cultura agonizante

que saco esse café da Livraria Cultura tá se tornando, meu Pai! queda de qualidade de atendimento, funcionárias impacientes e aquela superlotação q faz pensar em metrô da sé das seis, não num oásis para a Cultura / o culto / o cultivo do espírito em meio ao inferno e barbárie da necrópole.

sexta-feira, julho 13, 2012

exemplos de superação - alguns heróicos campeões de copa do brasil

Guarani da Capital- 2012

 Vice da Gama - 2011

Paulista de Jundiaí - 2005


Santo André - 2004



quarta-feira, julho 11, 2012

retuitando - os Irmãos Maiores

"A história da nossa humanidade é feita de inflexões sempre tidas como impossíveis de acontecer, mas que acontecem." Por isso... "mande sua necessidade de explicações lógicas passear um pouco, mande-a encontrar sua alma lá na esquina e, enquanto isso, deposite sua confiança na perspectiva de tudo ter outro lado maior que acena por trás dos bastidores da lógica que corrompe o mundo, avisando que não se deve montar um cenário do futuro sobre essa lógica, mas que é o que está oculto e acuado (por ser minoria) o que tem o apoio amigo dos Irmãos Maiores... e que amigos são esses!" :)
-do sábio dos símbolos astrais, Oscar Quiroga, via facebook da minha amiga Paula Diniz-


e filha do meu maior sacerdote do rock..

Frances Bean Cobain

segunda-feira, julho 09, 2012

Sartre na Cult

prezados, não percam o imperdível: a Cult deste mês, com dossiê especial sobre o existencialismo. Colaboro com um artigo, "Filosofia da Insurreição", sobre o livro A Obra de Sartre - Busca da Liberdade e Desafio da História de István Mészáros, conforme mostra o link a seguir:
http://revistacult.uol.com.br/home/2012/07/filosofia-da-insurreicao/

sábado, julho 07, 2012

minha outra libertadores

uhuuuu, indicado para o Prêmio Capes nacional de teses!! A filhote se chama Evangelhos da Revolta - Camus, Sartre e a Remitologização Moderna. Meu Deus, e se soubessem do sofrimento insano que a pariu..

-Unzuhause-

sexta-feira, julho 06, 2012

massa e vida aos ossos secos do semi-etéreo



 Veio sobre mim a mão do SENHOR, e ele me fez sair no Espírito do SENHOR, e me pôs no meio de um vale que estava cheio de ossos.
E me fez passar em volta deles; e eis que eram mui numerosos sobre a face do vale, e eis que estavam sequíssimos.
E me disse: Filho do homem, porventura viverão estes ossos? E eu disse: Senhor DEUS, tu o sabes.
Então me disse: Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do SENHOR.
Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis.
E porei nervos sobre vós e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o SENHOR.
Então profetizei como se me deu ordem. E houve um ruído, enquanto eu profetizava; e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, cada osso ao seu osso.
E olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles espírito.
E ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam.
E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo.
Então me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; nós mesmos estamos cortados.
Portanto profetiza, e dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu abrirei os vossos sepulcros, e vos farei subir das vossas sepulturas, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel.
E sabereis que eu sou o SENHOR, quando eu abrir os vossos sepulcros, e vos fizer subir das vossas sepulturas, ó povo meu.
E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o SENHOR, disse isto, e o fiz, diz o SENHOR
Ezequiel 37:1-14

Me lembro ainda daquela tarde de domingo, ano passado,  no Cemitério do Araçá em "laboratório", como se diz no teatro, para minha nova pesquisa sobre filosofia e morte. No Sócrates platônico prisioneiro já condenado à cicuta, elas são duas experiências correlatas, "filosofar é aprender a morrer" porque nos antecipa, em sabedoria, a libertação da alma do cárcere mortuário da matéria. Ascensão para o etéreo da Ideia. Mas a surpresa foi, entre tantos ossos secos, sobretudo os meus, sentir o ecoar repentino da voz da massa, isto é, da Fiel torcida que lotava o Pacaembu. Jogo com o Cruzeiro, perdemos nossa invencibilidade aquele dia, mas o campeonato brasileiro seria nosso ao fim - diferente da Libertadores de ontem só por este detalhe: o título de agora foi sem perder de ninguém. Mas não me importavam resultados. Ganhar e perder não é para nós, no sentido ralo das obrigações ou orgulhos de boca pra fora. Celebramos é teu ser e o te amar. O que me mexeu foi por não imaginar os dois, estádio e cemitério, tão perto a ponto deste ressoar. Meu laboratório se evaporou.
Ontem, de novo, estádio e cemitério, conjunção dos opostos em meu espírito. Renascendo, não como tempos mortos, mas vivências outras, a corintianidade originária com meu avô cristão-novo nesta confraria (era palmeirense até minha chegada, no 77 mágico do título com Basílio). A corintianidade protegida pelos olhos doces da minha vovó, outra convertida pela minha insânia; com Luiz Henrique, chapa de jogos e de mulheres (a quem dávamos notas na balada e nos estimulávamos reciprocamente para a "partida" em conquista); com o jogo de botão, o de brincar em casa e o de tamanho ampliado, no gramado, botões de chuteira correndo em frenesi por mim e contra mim, as arquibancadas, copo de mijo de que eu dava gargalhada quando jogado contra algum zé-mané; o banheiro imprestável, o palavrão (adoro xingar os meus botões vivos, mandinga pra fazê-los render mais a meu favor), o grito uníssono, as redes de gol, a bola estufando-as, os bandeirões tremulando, as letras eletrônicas lindas do placar enorme do Morumbi, o alambrado do Pacaembu,

o Cláudio Ribeiro cotonete -assim apelidado pela PM, por que será? rs-, todo o drama, todo o êxtase, a voz do Silvério –nome do vô, nome do Zé, esse meu Monteiro Lobato radiofônico me ensinando, fazendo de mim um Pedrinho em meio aos trabalhos de Hércules na ágora, as peripécias heróicas de amar e chorar por este time, alegoria de minhas agonias e alegrias. Por palavras que lia esses dias num livro sobre Dostoiévski, diria de mim mesmo hoje: estou na vida da margem de lá de quem morreu. E no que "restou", passou de lúdico a trágico. Buraco hemorrágico semietéreo, em que as pulsões escoam por Ideias, a força com braços cruzados, a alma com dedos cruzados no peito, as vozes emurchecidas, diluídas, desligadas, a não ser via televisor insosso,  melancolia, paralisia, mas que, como o paralítico correndo para o jogo ontem em cadeira de rodas abraçado pela bandeira , pelo escudo, é chamado, é desperto, nas vozes do estádio,  no ressoando de massa , o grupo em fusão de Sartre, este outro renascido do cárcere, como Dostoiévski, como Sócrates, não tanto para a petrificação de morte em vida, mas para a tensão específica de viver e morrer que é já o existir, isto é, o se engajar, se libertar,  os carandirus sociais, politização (imersão na pólis) que não me faz mais bonzinho, menos egoísta, mas abre apetites,  o tesão multiplicado em orgia, em ressonância com esses tantos citadinos indiferentes, quando não detestáveis, se desvestidos do manto sagrado, perdidos numa multidão alienada em ocupações "sérias" povoando as cabeças em série do metrô das seis da tarde, mas que no Pacaembu das dez da noite se fazem em mim um mesmo ser, bem-vindo ao clube, um só time, uma só tribo, é mesmo um rito, e antropofágico, e de libertação. De libertadores de si próprios, ossos secos chamados ao despertar pela massa, na voz forte do povo, dos gabirus, carandirus, dos sem voz não mais porque amordaçados, mas quando roucos de tanto gritar, te empurrar, fraternidade de coalizão, libertários e libertos,  igualitários sempre, esta "democracia corinthiana" do afeto, como aquela da ágora outrora comandada pela sabedoria em ato do gênio do calcachar -mestre Sócrates que baixou em Danilo no passe do primeiro gol de Emerson. Sócrates de meias e camisa brancas, e chuteiras e shorts pretos, em yin, e yang, e indo e vindo, no gramado, ensinando, até do céu, com São Jorge, que a vontade de voltar pra lá é pra cá, pra agora, é no concreto, é num bom porre, no ressoar do estádio que balança e chama pra dança e mudança até os ossos secos do semietéreo.
-Unzuhause-

segunda-feira, julho 02, 2012

abismo que incita


desejo, na etimologia: desidus = de (privação, ausência) + sidus (estrela). Ausência da estrela, distância imponente, abismo que incita, vertigem da falta.
-Unzuhause-