quinta-feira, maio 31, 2012

Medusa, Perseu

Como o troglodita que culpa o decote da vítima pela selvageria canalha do estuprador, a mitologia grega faz de Medusa, antiga sacedotisa do templo de Atena, a culpada por ter sido violada por Posêidon..
Daí ser escorraçada do templo -onde ocorreu a profanação-, perder a função sacerdotal, reservada às virgens. Ser destituída da beleza suprema entre todas as mortais. Ter tomado as feições de um cadáver em vida, com os sedosos cabelos convertidos nas horríveis serpentes.  Ter sido isolada do mundo a ponto de transformar em pedra quem apenas a olhasse. Ter virado o bicho-papão desenhado no forno pra que a criança não o tocasse, e mencionado pela mãe para obrigar o filho a comer a janta.."Olha que a Cuca vai te pegar".
Ah, e Perseu, filho de Zeus, ao derrotá-la, com a célebre estratégia de fazê-la olhar pra própria face, estava movido era pelo desejo de salvar sua mãe das garras gulosas de um rei mortal.
Precisava consumar uma proeza impossível para os demais, vide os tantos guerreiros que haviam sucumbido ao poder paralisante do monstro forjado pela raiva incompreensível e injusta (segundo nossos padrões civilizados) da "pura" deusa olímpica Atena. E Perseu conseguiu, trazendo consigo a cobiçada cabeça de Medusa.
Amor que encara a morte. Que vai aos infernos, ao ventre da "puta" -a outra que não a santa- que nos pariu, para salvar o tesouro precioso de uma vez única na vida, outra na morte. Eu me jogaria em frente da mamãe, como certa vez pareceu que seria preciso. E era eu, hein, esse egoísta e medroso! Ah, mamãe, amor que forja destinos heróicos..
Notações de cor (ação) que recordo e elaboro a partir de um programa da excelente History Channel, hoje à noite.
-Unzuhause-

terça-feira, maio 29, 2012

tuitando - Wagner e Renato Russo

cara, tributo do Wagner tá servindo só pra uma coisa: lembrar como Renato era mesmo único em genialidade de voz, paixão e mente.. como festa tá valendo, vai! saudades, meu Renato 'Rousseau"..


rindo com Freud

Rindo muito aqui com a piada do Freud ("Observações sobre o amor de transferência", 1914) sobre a visita do pastor cristão à casa de um moribundo vendedor de seguro, já muito inseguro sobre quanto tempo de vida lhe restava. Tava mesmo nas últimas. A família triste, mas a visita do homem de deus trazia o vento da esperança,  pelo menos da redenção da alma daquele vendedor iconoclasta, senão também de um milagre de cura e libertação do corpo. Enfim, que ele aceitasse de algum jeito a salvação, em nome de Jesus! O pastor chega, pede que todos o deixem a sós com o paciente. Na sala, os parentes ficam em oração e espera. Minutos e minutos. A porta do quarto enfim se abre, o pastor sai. A expectativa geral querendo se concretizar em comoção pela conversão do pobre doente. Mas o pastor, com sua apólice de seguro garantida, foi o único que se deixou convencer de alguma novidade -de alguma boa nova- na conversa.
-Unzuhause-

segunda-feira, maio 28, 2012

a dia-gnose do Divino Cirurgião

Em comunhão com a Igreja Católica, retransmito o trecho evangélico previsto para as missas de hoje no mundo inteiro. E o faço com especial alegria, por se tratar de uma das passagens mais belas, simples, diretas, do mito (o que não quer dizer mentira, e sim arquétipo) de Jesus Cristo:

Evangelho segundo S. Marcos 10,17-27.
Naquele tempo, ia Jesus pôr-se a caminho, quando um homem correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?»
Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus.
Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe.»
Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude.»
Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.»
Mas, ao ouvir tais palavras, ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens.
Olhando em volta, Jesus disse aos discípulos: «Quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que têm riquezas!»
Os discípulos ficaram espantados com as suas palavras. Mas Jesus prosseguiu: «Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus!
É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.»
Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode, então, salvar-se?»
Fitando neles o olhar, Jesus disse-lhes: «Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.»

A história do monasticismo cristão, a começar de Antão e de outros santos ébrios de Deus na abstinência do deserto, não teria sido a mesma -talvez não tivesse sido, simplesmente- sem esse encontro comovente. Quantos homens e mulheres descobriram o sentido, a cura para suas vidas insípidas, na dia-gnose (reparem que o diagnóstico contém em si a noção do "gnóstico", o sabedor) do Divino Médico e ação cirurgicamente eficaz que ele quer operar em nós: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.»
Não por receitas e poses de engajamento do intelectual, mas pela reforma do entendimento e do coração: assim brotará, talvez não para nós!, um tempo novo de missionários do Senhor, autenticamente desapegados de tudo o que nos sobra, em nome da única coisa que nos falta: a Falta mesma, a abertura ao Vazio, a sustentação em si mesmo do homem das dores, do homo viator da angústia, na Pobreza Essencial que torna possível a descoberta e o cuidado do pobre em nós e fora de nós. 
-Unzuhause-

PS:
Comentário ao Evangelho do dia feito por
São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero em Antioquia, depois bispo de Constantinopla, doutor da Igreja

Homília 63 sobre São Mateus; PG 58, 603ss.
«Que devo fazer para alcançar a vida eterna?»
Não foi um ardor medíocre que o jovem revelou; estava como que apaixonado. Enquanto outros se aproximavam de Cristo para O pôr à prova ou para Lhe falar das suas doenças, das dos seus pais ou ainda de outras pessoas, ele aproxima-se de Jesus para conversar sobre a vida eterna. O terreno era rico e fértil, mas estava cheio de espinhos prontos para sufocar as sementes (Mt 13,7). Reparai como o jovem estava disposto a obedecer aos mandamentos: «Que devo fazer para alcançar a vida eterna?» [...] Nunca nenhum fariseu manifestou tais sentimentos; pelo contrário estavam furiosos por terem sido reduzidos ao silêncio. O nosso jovem, porém, partiu de olhos baixos de tristeza, sinal inegável de que não tinha vindo com más intenções. Simplesmente, era demasiado fraco; tinha o desejo da Vida, mas deteve-o uma paixão muito difícil de superar. [...]
«'Falta-te apenas uma coisa, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois vem e segue-Me.' [...] Ao ouvir tais palavras, [...] retirou-se pesaroso». O Evangelista mostra qual é a causa desta tristeza: é que «tinha muitos bens». Os que têm pouco e os que vivem mergulhados na abundância não possuem os seus bens da mesma maneira. Nos últimos, a avareza pode ser uma paixão violenta, tirânica; qualquer nova posse acende neles uma chama mais viva, e os que são atingidos por ela ficam mais pobres do que antes. Têm mais desejos e, no entanto, sentem com mais força a sua pretensa indigência. Em todo o caso, reparai como aqui a paixão mostrou a sua força: [...] «Como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.» Cristo não condena as riquezas, mas condena aqueles que as possuem.

coreografia do inaudito

Últimos dias foram dominados por releituras em torno da minha amada Escola de Frankfurt. Em especial o arco que vai da bílis negra da Dialética do Iluminismo de Adorno e Horkheimer ao novo otimismo emancipatório de Jürgen Habermas e sua Teoria do Agir Comunicativo.
Nascido clássico -quem disse que não os teríamos no tempo presente, embora ser clássico seja sempre um juízo retrospectivo?-, o livro de Habermas é uma defesa (talvez possamos dizê-lo na chave freudiana dos mecanismos de defesa) da razão contra sua denúncia desesperada -por Adorno e Horkheimer- ou alegrinha -pelos "pós-modernos" à la Lyotard.
É um conceito de razão não mais calcado no cogito monológico de um sujeito pensante, tipo Descartes e Kant, mas antes na capacidade interativa dos sujeitos -no plural da esfera pública que nos constitui inclusive em nossa condição privada em seus nós e privada do nós, mas só até certo ponto, pois os nós em tudo amarram. Como diria o poeta do youtube, o jardineiro é Jesus e as árveres somos nozes rs.
Bem, se mera utopia ou não, o constructo habermasiano é um caminho sofisticado -vide o livro de mais de mil páginas e de cerrado debate com a tradição filosófica e sociológica, Teoria do Agir Comunicativo, que acaba de ser lançada (que atraso!) no Brasil. E não deixa de ser muito interessante, ao evocar como novidade uma aposta que é a chupeta e o leite materno da filosofia desde o berço: a capacidade de dialogar, do jogo de argumentos nos arrancando da irreflexão, do "cada qual com seu cada qual", do achismo estreito, para o caminho público do entendimento e da verdade..
E foi esta capacidade, não numa aula na USP, nem no precoce clássico de Habermas, mas numa praça de alimentação de shopping da Paulista, que testemunhei ontem. Dois rapazes, horas a fio. Posso confirmar que foi mais de uma, pois se passaram em meio às minhas próprias horas na companhia de meus livros, na mesa ao lado, acelerando tradução (este meu jeito de ser médium e psicógrafo de meus mortinhos amados, os pensadores).
E, entre um café e outro que eu tomava para mediador de mim mesmo em minhas "psicografias", eu vi: sem pegação sexual à vista (aparentemente), sem sequer café ou pão de queijo de mediadores. Nem celular, a não ser como detalhe, coisa, e não "pessoa" imaginária mais real que a que está à nossa frente. Coisa que um dos caras ficava passando de uma de suas mãos para outra. Os dois, olho no olho,sem insinuações outras, falando da vida e vivendo a fala, seus encantos. Dos riscos, da falha.
Como é lindo o ritmo de nossas cabeças no gesto da concordância que fazemos durante ou após cada fala do interlocutor.. Como é lindo o bicho homem quando põe sua cabela para fora de sua couraça, de sua casca da tartaruga materna (vide post abaixo), e se humaniza ao se (ex)por à verdade falhada da fala, ao ritmo coreografado de inaudito, nas concordâncias ritmadas das mentes pra fora da casca. Ponto para Habermas, embora meu aplauso venha de um coração repleto é da bílis negra de Adorno.
-Unzuhause-

domingo, maio 27, 2012

delírios ao mar




Deparei há pouco com uma antiga anotação de caderno de estudos, mas que de "intelectual" nada tinha ( a nota), a não ser as inevitáveis citações:
"tô mals de sublimação: pra mim é tiro fulminante no coração, é rendição e volta à infância dos desejos inadiáveis e perverso-polimorfos, ver uma mulher todo-poderosa, ainda mais se bela, se inteligente e sobretudo, se tem a malemolência do sotaque carioca -poética do sotaque que, mal comparando, eu compararia ao fascínio pela Itália dos alemães depressivos: 'Itália' solar e carnal para meu pesado espírito fáustico-paulistano rs".
Des-encadeando conexões por auto-análise, chego ao meu suspiro de hoje de manhã, ao lembrar da linda música de Caymmi, ao pensar em como sou NADA se não pelo e enquanto amor que minha mãe ensina e encarna. É minha mãe, o arquetipo Mãe, a Iemanjá em cujos doces braços quero pousar .. redimido e limpo
do fardo de ter sido.


 Será por sincronicidade pisciana que a metáfora aquática também acaricie em mim a imagem desta mulher do sotaque carioca, a morena da praia, corpo de bronze, escultura tesuda de coxas, seios, olhar, palavra?
Dormir (meu vício), morrer (ideia fixa), como queria Hamlet..
Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer..., dormir... dormir... Talvez sonhar... É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis morosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte - terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou - que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem." Ato III, cena I
Mas nada vingar, em ninguém me vingar, pois o inimigo impalpável, senão nas rugas que me faça,  e soberano, porém usurpador, é o maldito tempo que ameaça me arrebatar o vínculo sagrado com a Mãe Iemanjá. Que eu parta sem ser partido, que eu volte ao teu colo definitivo sendo mar-inheiro entregue e ceifado, antes que o Ceifador eu veja ceifar, Mãe, mas não sem cumprir minha missão marinheira, como tu profetizaste hoje.
-Unzuhause-

sábado, maio 26, 2012

Resenhas para a Folha de S. Paulo - 26/05/2012

Horkheimer e Adorno, em primeiro plano; ao fundo e à nossa direita, Habermas

Caio Liudvik
in: Guia Folha -Livros, Discos, Filmes

TEORIA DO AGIR COMUNICATIVO
Em conversas no ano do lançamento (1981) de "Teoria do Agir Comunicativo", Jürgen Habermas deixa claro que "este monstro" representava o momento maior de um ajuste de contas com a Escola de Frankfurt, de que ele é o maior herdeiro.
 Habermas rompe com a denúncia desesperada da razão em "Dialética do Iluminismo" (título tão mais contundente que "Dialética do Esclarecimento", da tradução brasileira) de seus mestres Adorno e Horkheimer. No auge da Segunda Guerra, esta "aula-magna" para um pessimismo de esquerda avançava a tese de ser o terror totalitário ou "democrático" da sociedade de massas não uma anomalia, mas sim plena realização, do projeto iluminista, que eles datam não do século 18, mas, com anacronismo provocativo (muito conhecido do teatro de protesto), do regresso de Ulisses da Guerra de Tróia em Homero.
Já Habermas reinvindica, a partir de um profundo diálogo com pensadores os mais diversos, de Weber a Piaget, de Hegel e Gadamer aos lingüistas anglo-americanos, que a racionalidade ocidental não é apenas instrumental. Não é só "sistema" manipulador. É também, quando regida pela ação comunicativa, um "mundo da vida" dotado de símbolos, valores, sujeitos capazes de interagir argumentativamente em busca de recíproco entendimento crítico, não coagido pelas tutelas irracionalistas do passado.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

Hilda Doolittle

POR AMOR A FREUD – MEMÓRIAS DE MINHA ANÁLISE COM SIGMUND FREUD
Ernest Jones, grande biógrafo de Freud, acreditava que este livro da poeta norte-americana Hilda Doolittle (1886-1961) foi o testemunho mais completo já escrito sobre a prática clínica do pai da psicanálise. Batizada com o pseudônimo "H.D" por Ezra Pound, de cujo círculo vanguardista participou intensamente, este tributo a Freud é de todo modo um documento precioso sobre a recepção histórica da psicanálise, nos tempos áureos e sombrios da primeira metade do século 20, como via de libertação, transgressão (como a homossexualidade de H.D.) e de mergulho nas fontes primevas da criatividade humana.
Freud, que ela encontrou pela primeira vez no ano crítico de 1933 (ascensão nazista), a considerou tanto paciente quanto aluna, das mais capazes de compreender suas teorias e técnicas –talvez porque, justamente, vivenciadas com ímpetos de arte, não como receituário burocrático de regras de reajustamento social. A edição conta com correspondência de ambos e valioso prefácio de Elisabeth Roudinesco.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

ISTO A QUE FALTA UM NOME
"Amor, o amor, se existe, é tão somente / a falta súbita de outra palavra". "Chamarmos alma isto a que falta um nome / em nada muda sua condição/ o mesmo se dizermos coração/ ou o que quer de involuntário, insone". "Que uma palavra é só uma coisa em que outra some (...) como a sensação / de que a morte nos move ou nos consome". De São Paulo a Lacan, dos místicos medievais a Wittgenstein, o leitmotiv "a letra mata, o espírito dá vida" parece também perpassar os versos, densos de angústia metafísica, do carioca Cláudio Neves em " Isto a Que Falta um Nome". O tempo, este "altar sem Deus" –sendo o agora nossa única roupa, que parece "emprestada nem sabemos de quem"- é outra das obsessões que a cada repetição se renovam, e nunca deixam de surpreender pela dicção, musicalidade sutil, sobriedade do ritmo e pelo inesperado das imagens e metáforas, como assinala Ivan Junqueira.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


POSTAIS DA TERRA DE NINGUÉM
Jacob Todd é um jovem de 17 anos, dividido entre a opressão pelas reprimendas paternas, ambivalências sexuais, "humores de rato" – melancolia, autodepreciação, impulsos suicidas- , e a paixão (com justificável autoprojeção) pela heroína do "Diário de Anne Frank", um dos testemunhos mais candentes do horror nazista. O livro infanto-juvenil "Postais da Terra de Ninguém", de Aidan Chambers, nos faz acompanhar Jacob em sua primeira viagem ao exterior, mais exatamente a Amsterdam, aonde ele foi como emissário de sua avó para a comemoração da batalha dos aliados pela libertação holandesa, em que seu avô lutara 50 anos antes. Na cidade em que "nada é o que parece ser", como lhe adverte um bilhete enigmático, cidade dos "círculos infernais" retratada por Camus em "A Queda", Jacob viverá sua própria catábase (descida aos infernos) existencial, autodescoberta e aceitação da ambigüidade que embeleza a vida, pelas revelações que uma velha paciente terminal tem a lhe fazer.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO

sexta-feira, maio 25, 2012

G-O-L!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Amigos, tenho estado ausente por um série de empecilhos, um dos quais a decrepitude progressiva de meu amado PC, companheiro de tantas jornadas em anos luz e anos sombra da vida virtual que sob tantos aspectos tem sido mais "erótica" -no sentido das pulsões freudianas de eros e tânatos- do que a modorra  eremiterial, ceremiterial dos dias banais na necrópole interna que me suga. Se o que é "só" promessa de vida -e o homem é virtual desde que aprendeu a prometer e contar com essa dívida paga- pode falhar, quem sabe o cotidiano falhado do real possa de novo engrenar?
Como o pulso ainda pulsa, na cova o alento brota, flor das alegrias raras, a mais gritada delas, mas não menos íntima, nesses dias -daí minha voz rouca e alma latejante até hoje rs- é este instante mágico de quarta-feira no Pacaembu, magicamente também, e tão bem, retratado por essa capa polêmica, criticada, mas pra mim felicíssima. Foi exatamente esse o palavrão que 11 entre 10 corintianos bradaram, no desabafo, dor no peito, eletricidade e êxtase que só esse time pra desacarregar em e através de seus fiéis. Não só os que o amamos, Timão, mas os devotos no ódio a nós -eles também falaram essa mesma expressão, razão porque o jornalismo nesse caso soube tocar a paixão unânime do povo rs.
CHORAAAAAAAAAA VASCO!!!!!!!!!!!!!!! (DE NOVO rs)
CHOREM OS (IN) FIÉIS (SEMPRE rs)
TIMÃOOOOOOOOOOOOOOO EOOO TIMÃOOOOOOOOOO EOOOOOOOOOOO
-Unzuhause-

sábado, maio 19, 2012

Like a Rolling Stone





Like a rolling stone
-Bob Dylan-

Once upon a time you dressed so fine
You threw the bums a dime in your prime, didn't you ?
People'd call, say, "Beware doll, you're bound to fall"
You thought they were all kiddin' you
You used to laugh about
Everybody that was hangin' out
Now you don't talk so loud
Now you don't seem so proud
About having to be scrounging for your next meal.
How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone ?
You've gone to the finest school all right, Miss Lonely
But you know you only used to get juiced in it
And nobody has ever taught you how to live on the street
And now you find out you're gonna have to get used to it
You said you'd never compromise
With the mystery tramp, but know you realize
He's not selling any alibis
As you stare into the vacuum of his eyes
And say do you want to make a deal?
How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone ?
You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns
When they all come down and did tricks for you
You never understood that it ain't no good
You shouldn't let other people get your kicks for you
You used to ride on the chrome horse with your diplomat
Who carried on his shoulder a Siamese cat
Ain't it hard when you discover that
He really wasn't where it's at
After he took from you everything he could steal.
How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone ?
Princess on the steeple and all the pretty people
They're drinkin', thinkin' that they got it made
Exchanging all precious gifts
But you'd better take your diamond ring, you'd better pawn it babe
You used to be so amused
At Napoleon in rags and the language that he used
Go to him now, he calls you, you can't refuse
When you got nothing, you got nothing to lose
You're invisible now, you got no secrets to conceal.
How does it feel
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone ?

domingo, maio 06, 2012

a doença incurável

"Aquele cuja doença se chama Jesus é incurável"
-Ibn Arab, místico do século XIII-




terça-feira, maio 01, 2012

Resenhas na Folha de S. Paulo, 28/04 (II)


Moralidade sobrenatural
(Russell Kirk "A Era de T. S. Eliot - A Imaginação Moral do Século XX"; T. S. Eliot, "Notas para a Definição de Cultura").

Caio Liudvik
in: Guia Folha -Livros, Discos, Filmes


"Que vida tendes se não viveis em comunhão?/ Não há vida que floresça sem comunidade / E comunidade não há que perdure sem louvar a DEUS".
Estes versos de "The Rock" (A Rocha), ilustram o que faz do poeta, dramaturgo e ensaísta T. S. Eliot exemplo de obra de arte dotada de "imaginação moral", segundo a monumental biografia literária de Russell Kirk (1918-1994).
Bardo das ruínas da "terra desolada" e dos "homens ocos" do século 20 de totalitarismos e carnificinas, Eliot tem aqui a vida e a obra estudadas não só com formidável erudição, mas com uma empatia nutrida de profunda amizade pessoal e afinidade político-espiritual.
Diríamos afinidade "ideológica", se isto não soasse a heresia em se tratando da matriz de pensamento conservadora a que pertence Kirk, que entendia a ideologia como "messianismo político" dos filhos da Revolução Francesa. Ideologia como o fanatismo secular que pretende abolir as verdades da fé e da tradição.
Kirk, o "Cavaleiro da Verdade", desembainha a espada da imaginação moral contra essas mentiras modernas e contra a "desagregação normativa" que elas acarretam. A "imaginação moral" não é, para ele, apenas uma ideologia mais velha. Ao contrário, nas verdades conservadoras reluz a autoridade sobrenatural da revelação divina e a moral não corresponde a uma questão de gosto pessoal ou de época histórica, mas sim algo de intrínseco ao homem, tão "natural" quanto nossa necessidade de "ordem": ordem da alma e ordem da sociedade e do Estado, conduzindo à harmonia com a ordem cósmica e sobrenatural.
Outro aspecto da obra poética de Eliot (cuja suposta simpatia pelo fascismo é desmentida por Kirk), mesmo de antes de sua conversão cristã, o inscreve nessa linhagem conservadora: as terríveis visões infernais , aliás presentes também nas histórias de terror do próprio Kirk.
Não é a essas profundezas abismais, porém, que Eliot nos conduz em outro lançamento da (excelente) Editora É: suas "Notas para a Definição de Cultura", publicadas pouco depois da Segunda Guerra, são de uma sobriedade que muitas vezes beira o enfadonho, exigindo paciência do leitor para garimpar entre pormenores escolásticos os insights mais incisivos, sobretudo aqueles que a leitura de Kirk nos prepara a escavar: o vínculo indissolúvel de cultura e "culto" (religioso), a crítica ao pensamento político moderno e caricatura (bem simplista, por sinal, mas de longa carreira nesta tradição) que tenta fazer da luta político-social por igualdade um mero "dogma" secular impulsionado pelo inveja.


AVALIAÇÃO
Kirk - ÓTIMO
Eliot - BOM

Resenhas na Folha de S. Paulo, 28/04 (I)


Caio Liudvik
in: Guia Folha- Livros, Discos, Filmes


ESCRITOS EM VERBAL DE AVE

Em "Escritos em Verbal de Ave", seu novo livro de poesias , Manoel de Barros retoma de obras anteriores o personagem Bernardo, agora recém-sepultado, que "morava de luxúria com as palavras", fazia brinquedos com elas, as "dementava", levando-as de volta à infância, aos inícios do mundo, em que o discurso não tinha os grilhões das regras. "Significar / reduz novos sonhos/ para as palavras". Bernardo era inventor de "desobjetos" impossíveis -como guindaste de levantar vento, presilha de prender silêncio, água viciada em mar. Sua poesia se verte em trincas que remetem ao haicai, inclusive pelo efeito de iluminação abrupta e imaginação concreta de palavras entranhadas nas coisas. Em belíssima edição, o livro nos oferece de novo -sem com isso passar a sensação de fórmula gasta- a experiência típica do universo de Manoel de Barros, aqui marcada pela alusão à brevidade da vida (morte de Bernardo), menos como tragédia absurda do que como leveza do partir de um passarinho (antigo símbolo mítico da alma) para o céu.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO



A CARTUXA DE PARMA

Soldado de Napoleão, a quem conheceu pessoalmente, Stendhal via e cultuava nele a encarnação da virtude por excelência, a "energia" do homem de gênio que vem do nada, vence os obstáculos e conquista o mundo. Aspectos dessa mitologia pessoal marcam toda a produção de um dos maiores escritores da França. Em "napoleônicos" 53 dias escreveu esta que, ao lado de "O Vermelho e o Negro" é considerada a sua obra-prima. Publicado em 1839, o romance "A Cartuxa de Parma" é marcado também pelo encantamento de Stendhal pela Itália, em especial pelas paixões sem rédea, pelos conflitos e heróis fora-da-lei da época renascentista, que em sua projeção imaginária se contrapõe à mediocridade, hipocrisia e filistinismo burguês que grassam na França pós-napoleônica. Em foco, as peripécias de um jovem vibrante, idealista e imaturo, Fabrice del Dongo, que decide se unir ao exército do Imperador, inclusive enredando-se na batalha de Waterloo -cuja recriação valeu a Stendhal o elogio entusiasmado de Balzac e Tolstói, que nele se inspirou diretamente em "Guerra e Paz".

AVALIAÇÃO - ÓTIMO


Napoleão Bonaparte

ESCRITAS DO DESEJO - CRÍTICA LITERÁRIA E PSICANÁLISE
De Sócrates a Chico Buarque, passando por Rousseau, Machado de Assis, Breton e Clarice Lispector. É farto e saboroso o banquete de gênios estudados ao longo dos onze ensaios deste livro, organizado pelas professoras da USP Cleusa Rios P. Passos e Yudith Rosenbaum. Em foco, as convergências e conflitos entre os campos psicanalítico e literário. Nesse sentido vale sublinhar a perspectiva de Camila Salles Gonçalves, que desvela os recursos ficcionais intrínsecos ao discurso freudiano, não apesar mas em articulação com o rigor científico. Destaque também para textos como o de Leda Tenório da Motta, que explora a ideia de que o inconsciente é um "poeta simbolista" e propõe uma arqueologia do pensamento de Lacan à luz da influência surrealista em conceitos como "objeto a", gozo e foraclusão. Já Renato Mezan discute, com base no estudo freudiano da relação entre o chiste e o inconsciente, os aspectos da mente que são estimulados pela narrativa policial. Maria Rita Kehl relê o personagem machadiano Rubião, de "Quincas Borba", a partir de "Madame Bovary", de Flaubert, e Leyla Perrone-Moysés disseca a "fala esvaziada" na obra de Nelson Rodrigues.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO


O TEMPO EM ESTADO SÓLIDO

Jovem escritora, professora adjunta de Letras na Universidade Federal do Ceará, Tércia Montenegro lança "O Tempo em Estado Sólido", com que venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria ficção (contos). A epígrafe provém do escritor russo Varlam Shalamov, prisioneiro dos campos de concentração soviéticos da era stalinista: "Aqui o tempo é quase um minério - compacto e sólido, estendido à nossa frente". As prisões, mais impalpáveis, da temporalidade interna e externa em foco no livro são as do nosso mundo contemporâneo. São as das personagens ou caricaturas de nós mesmos que somos na multidão solitária, errantes, esquivos, opacos em sucessivos (des) encontros entre si e com a solidão, o ciúme, a carência, o desejo. Com pleno domínio da técnica narrativa, a escritora oferece imagens fortes para o que, de outro modo, poderiam permanecer abstrações filosóficas da angústia - como a "descoberta do mecanismo do tempo" pressentido por Alessandro -personagem da primeira das dezoito histórias- no velho carro do avô, carro agora na sucata, com portas e janelas ausentes que parecem gritos escancarados. Notável ainda ainda o "botãozinho do alerta", o escudo invisível, a "estratégia de escorregar por contínuas desatenções", com que outra das protagonistas foge de uma estranha de respiração ofegante e angústia nos olhos.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO