domingo, abril 29, 2012

o professor


A noite passada ainda não terminou, e já são quase onze da matina. Não, não enchi a cara (como faria anos atrás, nas baladas em busca torta do amor impossível). Não, não contei as horas pilhado pela insônia. Essa segunda opção até seria plausível. Tem ocorrido muito. E ontem era prato cheio, dadas as decepções e irritações no duro "romance de aprendizagem" da vida adulta e profissional. Ser jornalista é particularmente difícil para uma alma pesada e solitária como a minha: fica difícil sustentar as idealizações, e, quando elas se revertem em dor, fica impossível não me culpar e não me odiar. Minha única consolação, quando acho que querem que eu me entristeça, quando fazem tudo pra que eu fique triste, é saber que nunca odiarei ninguém nem nada senão a mim mesmo. Triste privilégio da santidade niilista da fraqueza.
A noite passada não terminou, eu dizia, porque meu mestre e amigo e ídolo -Marcelo Coelho, o maior ícone do jornalismo cultural brasileiro- me deu a honra de citar meu nome e meu trabalho em seu blog:
http://marcelocoelho.blogfolha.uol.com.br/2012/04/28/a-era-de-t-s-eliot/
Fui literalmente às lágrimas. Talvez também pela tensão do dia inteiro, que subitamente se convertia em alegria. Mas sobretudo por curtir um momento desses em que o tempo parece dar um tempo para nossos sonhos atemporais. Nas asas da memória, voltei às horas míticas em que assistia Marcelo na sala de aula, no seu generoso grupo de estudos (que por burrice e depressão eu não consegui usufruir devidamente), ou me dando força com meu TCC na Cásper Líbero, de onde surgiu tudo o que venho escrevendo e pesquisando há anos. Aliás, o trabalho que ele cita -resenha para a Folha sobre o conservadorismo norte-americano- na verdade é muito fruto dele também: pois em todo o artigo fui inspirado por algo que ele me falou, na saída de uma aula áurea: será que os grandes símbolos, mitos, tradições, que você tanto ama (antes de buscar formação psicanalítica, como agora, eu era um junguiano amador, isto é, leigo, ingênuo e apaixonado rs) não são apenas ideologias como as de hoje, apenas revestidas de autoridade ilusória pela pátina do tempo? Eu nem sabia o que era "pátina", mas nunca mais esqueci a palavra rs. Como esquecer qualquer coisa que um grande homem fale, e nos fale? Não apenas o tempo, o espaço também se anulou nesta noite que não acabou: pois me vi, não eu aqui e ele lá, mas nós juntos para que eu desse um forte abraço nesse gênio. Obrigado, professor Marcelo!
-Unzuhause-

terça-feira, abril 24, 2012

mente sã para a crise das mãos de alface


Nossa, imagens do Globo Esporte de hoje: Julio Cesar Mãos-de-Alface cabisbaixo, trocando palavras com o advogado, ops, o treinador de goleiro,  distantes de nós, ao fundo, atrás de um alambrado. Só faltou o som de helicóptero pra completar o tom de show de TV do caso Nardoni. Calma, minha gente!
Eu gosto de afetos loucos, de efervescência revolucionária, de acender meu cigarro na lona do circo em chamas. Como bem mostrou polêmico artigo de mestre Renato Janine Ribeiro anos atrás -se minha memória falha não me faz baratear demais o argumento do meu mestre -, as emoções não merecem  ser automaticamente proibidas da vida pública. Não se faz justiça sem amor à justiça, e não há amor sem ódio, no caso, ódio ao crime. Mas com respeito às garantias legais do (suposto) criminoso. A indignação cívica tem sim pulsões profundas, violências animais, agindo por trás, e não por isso ela precisa automaticamente ser banida. Justiça é sim vingança! Mas a vida civilizada -e portanto a vida possível, como ensina Hobbes- tem um preço,  é um contrato que precisamos renovar a cada crise. O mecanismo clássico é o bode expiatório, talvez tão antigo quanto os primeiros macaquitos que desceram da árvore e aprenderam a caminhar e falar e matar uns aos outros. Mas o rito sanguinário, com o tempo, se espiritualiza, ganha corpo ético. O corpoético (errei ao juntar, mas acertei no erro) é transpessoal, é o meu é o do outro, é o do outro-eu. Se isso vale para um escroto assassino, ainda mais para um rapaz gente boa como Júlio, bode da vez cujo único delito é não ter condições de ser titular do maior clube do Brasil. Sobretudo o esporte, ao nos permitir a vivência atenuada dos afetos de guerra, pode ensinar a paz, a tolerância, e o respeito da mente até a quem nosso estômago não suporta. Assim deve ser nessa "crise das mãos de alface", nação!
-Unzuhause-

segunda-feira, abril 23, 2012

salve, guerreiro santo



Oração do Guerreiro Santo
-homenagem ao 23 de abril, dia de São Jorge-

Ó São Jorge, meu guerreiro, invencível na Fé em Deus, que trazeis em vosso rosto a esperança e confiança abra os meus caminhos. Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer algum mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrar. Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, a Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meus inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel cavalo meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Ajudai-me a superar todo o desanimo e alcançar a graça que tanto preciso: (fazei aqui o seu pedido) Dai-me coragem e esperança fortalecei minha FÉ e auxiliai-me nesta necessidade. Com o poder de Deus, de Jesus Cristo e do Divino Espírito Santo. Amém!

São Jorge rogai por nós!

o om de Lynch e o de Nietzsche e os seios feios da Noite de Michelangelo



O artista que se "explica"quase sempre se reduz.. o Lynch propagandista de meditações transcendentais me parece -sem que as tenha praticado e avaliado os resultados- um tanto quanto banal, perto do mago de "Mulholland Drive". Me recuso, por minha ética da perplexidade, a achar que um é explicado pelo outro. Enigmas me fascinam como forma de morada provisória no caminho entre o nada que não tenho (minha definição de passado) e o nada que não vejo (minha definição de futuro). Não tenho e não me vejo com a menor vocação para respostas últimas, de calmantes bastam os da farmácia. O espírito existe, isto é, se põe em jogo,  porque é inquieto, enquanto o é, não apesar de sê-lo. Meu "om" em  espírito é de quem não consegue estar "off" da própria máquina, e sei que por isso ele é falho.. maquinaria que "progride" de ansiedade em ansiedade, em jogo de perde-ganha de soma zero, pois o que ganhei entre uma e outra estação é quase sempre é o mesmo que perdi: ilusões. Acho que meu niilismo é muito aquele denunciado por Nietzsche: o do malogrado, da fraqueza, do cansaço, da miséria. Niilismo passivo, mais do bigodudo dos anos finais, digno de  pena, do que o indigno personagem de "junker" enfurecido que queria reeditar as arenas de Nero e liquidar a compaixão e os dignos da compaixão.

Eu vos amo, Nietzsche, por saber que nisto ia muito de ódio contra vós mesmos, e por isso me reconcilio e me sinto literalmente irmanado a vossa sorte cruel e vossa sina de melancolia. Convosco me sento na varanda da casa de vossa mãe e vos observo, me observo,  em vossa cadeira de rodas, em vosso off  de ausência presente, e em vosso dionisíaco "om" desamparado, om sem Salomé, peitos feios da "Noite" celibatária de Michelangelo, peito imaginado e não tocado, até porque mulher que posasse devia ser puta, restando a estátua de pedra para decorar o leito de morte, desilusão e silêncio, o som do om que me invade como o mantra de Lynch, e sua cidade de sonhos e delírio em que sou livre "cidadão" prisional, sem refúgio transcendental.
-Unzuhause-

ilusionistas da geração facebook

domingo, abril 22, 2012

inteligência, entusiasmo e força


Instrúyanse, porque necesitaremos toda nuestra inteligencia. Conmuévanse, porque necesitaremos todo nuestro entusiasmo. Organícense, porque necesitaremos de toda nuestra fuerza.
-Antonio Gramsci-

domingo, abril 08, 2012

Páscoa: o Reino em missão


"Nós ignoramos o tempo da consumação da terra e da humanidade e desconhecemos a maneira de transformação do universo. Passa certamente a figura deste mundo deformada pelo pecado, mas aprendemos que Deus prepara morada nova e nova terra... Contudo, a esperança de uma nova terra, longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra. Nela cresce o Corpo da nova família humana que já pode apresentar algum esboço do novo século... O Reino já está presente em missão aqui na terra. Chegando o Senhor, ele se consumará".

CONCÍLIO VATICANO II - Constituição Gaudium et Spes 

Penei pra encontrar alguma imagem que fosse adequada à força das palavras proféticas do Vaticano II. Que traduzisse com mais vitalidade a "Ressurreição" que o teatro litúrgico de todos os anos celebra hoje. Imagens de um Jesus bonzinho subindo pro céu me cansam. Pois a Ressurreição é a descida definitiva do Senhor dos Exércitos -e da Misericórdia- para a História dos homens, e a ascensão desta História a um estatuto cósmico e redentor.
Acabou o tempo da lamúria, frustração e espera infinita do messias. Ele está entre nós. Ele está em nós. Ele é o Magneto que  congrega em harmonia dolorosa meus trezentos, trezentos e cinquenta (Mário de Andrade) fragmentos de eus. Ele é consolação dos desesperados, porque sua Realeza não se envergonha, nem é recalque, nem se esconde da fraqueza. Pelo contrário, ele desceu ao fundo de nossa miséria, comunicando a brecha de libertação que pode nos conectar, como a cruz,  em duplo sentido (direção): na vertical, com o transcendente; na horizontal, com nosso próximo e com o "pobre" em nós.
 Do Carpinteiro de Nazaré e do Poverello de Assis à Opção Preferencial pelos Pobres da Igreja moderna, atravessa a história cristã um vetor poderoso de messianismo imanente. Não a alienação covarde, chega de resignação ao vale de lágrimas, tão oportuna para os proprietários privados deste latifúndio. Mas a subversão da lógica injusta e massacrante que preside o mundo. A reviravolta que faz dos primeiros os últimos, dos últimos os primeiros.
A solidariedade com os deserdados, a revolta individual e coletiva em prol da justiça, da liberdade, da igualdade de oportunidades. Cumpre-nos hoje percebermos o sinal dos tempos, nas pequenas e grandes lutas, nas decisões cotidianas e definitivas, nos gestos, palavras e pensamentos.
No respeito a nós mesmos, ao outro, à Terra - o "sentido da Terra" exigido por Zaratustra. O sentido da Terra é o mesmo do Céu. O Reino é agora. Foi o que Jesus pregou, e por isso o pregaram à cruz. Mas ele dá um golpe de Estado revolucionário na morte, não mais soberana. E nós, seus camaradas de insurreição, seremos  com ele mais que vencedores. Feliz Páscoa. Não a do teatro. A da existência.
-Unzuhause-

sábado, abril 07, 2012

o Aleluia da vida

A ressurreição como insurreição

por LEONARDO BOFF

http://leonardoboff.wordpress.com/2012/04/07/a-ressurreicao-como-insurreicao/

07/04/2012

Há uma questão da existência social do ser humano que atormenta o espírito e para a qual a ressurreição do Crucificado pode trazer um raio de luz: que sentido tem a morte violenta dos que tombaram pela causa da justiça e da liberdade? Que futuro têm aqueles proletários, camponeses, índios, sequestrados, torturados, assassinados pelos órgãos de segurança dos regimes despóticos e totalitários, como os nossos da América Latina, em fim, os anônimos que historicamente foram trucidados por reivindicarem seus direitos e a liberdade para si e para toda uma sociedade?
Geralmente a história é contada pelos que triunfaram e na perspectiva de seus interesses. A nossa, a brasileira, foi escrita pela mão branca. Só com o historiador mulato Capistrano de Abreu apareceu a mão negra e mulata. O sofrimento dos vencidos quem o honrará? Seus gritos caninos que sobem ao céus quem os escutará?

A ressurreição de Jesus pode nos oferecer alguma resposta. Pois, quem ressuscitou foi um destes derrotados e crucificados, Jesus, feito servo sofredor e condenado à vergonha da crucificação.

Quem ressuscitou não foi um César no auge de sua glória, nem um general no apogeu de seu poderio militar, nem um sábio na culminância de sua fama, nem um sumo-sacerdote com perfume de santidade. Quem ressuscitou foi um Crucificado, executado fora dos muros da cidade, como lembra a Carta aos Hebreus, quer dizer, na maior exclusão e infâmia social.

Mas foi ele que herdou as primícias da vida nova. Pois a ressurreição não é a reanimação de um cadáver como aquele de Lázaro. A ressurreição é a floração plena de todas as virtualidades latentes dentro de cada ser humano. Ela revela o sentido terminal da vida: a irradiação suprema do “homo absconditus” (o humano escondido) que agora se faz o “homo revelatus”(o humano revelado).

A ressurreição de Jesus mostrou que Deus tomou o partido dos vencidos. O algoz não triunfa sobre sua vítima. Deus ressuscitou a vítima e com isso não defraudou nossa sede por um mundo finalmente justo e fraterno que coloca a vida no centro e não o lucro e os interesses dos poderosos. Só ressuscitando os vencidos, fazemos justiça a eles e lhes devolvemos a vida roubada, vida agora transfigurada. Sem essa reconciliação com o passado perverso, a história permaneceria um enigma e até um absurdo.

Os injustamente executados voltarão, com a bandeira branca da vida. O verdadeiro sentido da ressurreição se mostra como insurreição contra as injustiças deste mundo que condena o justo e dá razão ao criminoso.

Agora pode começar uma nova história, com um horizonte aberto para um futuro promissor para a vida, para a sociedade e para a Terra. Dizem historiadores que o mundo antigo não conhecia o sorriso. Mostrava a gargalhada do deus Baco ou o riso maldoso do deus Pan. O sorriso, comentam, foi introduzido pelo Cristianismo por causa da alegria da Ressurreição. Só pode sorrir verdadeiramente quando se exorcizou o medo e se sabe que a grande palavra final é vida e não morte. O sorriso, portanto, é filho da Ressurreição que celebra a vitória da vida sobre a morte, testemunha o encantamento sobre a frustração e proclama o amor incondicional sobre a indiferença e o ódio.

Este fato é religioso é somente acessível mediante a ruptura da fé. Admitindo que a ressurreição realmente aconteceu intra-historicamente, então seu significado transcende o campo religioso. Ganha uma dimensão existencial, social e cósmica. Na expressão de Teilhard de Chardin, a ressurreição configura um “tremendous” de dimensões evolucionárias, pois representa uma revolução dentro da evolução.

Se o Cristianismo tem algo singular a testemunhar, então é isso: a ressurreição como uma antecipação do fim bom do universo e a irrupção dentro da história ainda em curso do “novissimus Adam” como São Paulo chama a Cristo: o “Adão novíssimo”. Portanto, não é a saudade de um passado mas a celebração de um presente.

Depois disso, cabe apenas se alegrar, festejar, ir pelos campos para abençoar os solos e as semeaduras como o faz ainda hoje Igreja Ortodoxa na manhã de Páscoa.Entoemos, pois, o Aleluia da vida nova que se manifestou dentro do velho mundo.
Leonardo Boff é autor de A nossa ressurreição na morte (Vozes).

sexta-feira, abril 06, 2012

Paixão de Cristo – Paixão da Terra


Paixão de Cristo – Paixão da Terra

por LEONARDO BOFF
http://leonardoboff.wordpress.com/2012/04/06/paixao-de-cristo-paixao-da-terra/
06/04/2012

Para os cristãos a Sexta-feira Santa celebra a Paixão do Filho do Homem. Ele não morreu. Foi morto em consequência de uma prática libertadora dos oprimidos e de uma mensagem que revelava Deus como “Paizinho”(Abba) de infinita bondade e de ilimitada misericórdia que incluía a todos até “os ingratos e maus”. Antes de ser executado na cruz, foi submetido a todo tipo de tortura. Segundo alguns intérpretes sofreu até abuso sexual.

Como referem os relatos do Novo Testamento, usando palavras do profeta Isaias, “foi considerado a escória da humanidade, o homem das dores, pessoa da qual se desvia o rosto, desprezível e sem valor, tido como castigado, humilhado e ferido por Deus; mas ele, justo e servo sofredor, se ofereceu livremente para ficar junto aos malfeitores, tomando sobre si crimes e intercedendo por todos nós”.

Desceu até o inferno da solidão humana, gritando nos extertores da cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste”? Porque desceu até ao mais profundo, Deus o elevou até ao mais alto. É o significado da ressurreição, não como reanimação de um cadáver, mas como uma revolução na evolução, realizando nele, antecipadamente, todas as potencialidades escondidas no ser humano. Ele irrompeu como criatura nova, mostrando o fim bom de todo o processo evolucionário.

Mesmo assim, como dizia Pascal, Cristo continua em sua paixão,agonizando até o fim do mundo, enquanto seus irmãos e suas irmãs, a Terra que o viu nascer, viver e morrer, não forem finalmente resgatados. Já dizia a mística inglesa Juliana de Norwich (1342-1413): “ele sofre com todas as criaturas que sofrem no universo”. Outro contemplativo inglês, William Bowling, do século XVII, concretizava ainda mais afirmando:"Cristo verteu seu sangue tanto para as vacas e os cavalos quanto para nós homens”.

Hoje a paixão de Cristo se atualiza na paixão do mundo, nos milhões e milhões de sofredores, vítimas de um tipo de economia que dá mais valor ao vil metal que à dignidade da vida, especialmente da vida humana. O Cristo se encontra crucificado na Terra devastada; suas chagas são as clareiras de florestas abatidas; seu sangue são os rios contaminados.

A rede de organizações que acompanham o estado da Terra, a Global Footprint Network, revelou no dia 23 de setembro de 2008, exatamente uma semana após o estouro da crise econômico-financeira que, neste exato dia, se tinham ultrapassado em 30% os limites da Terra. Chamaram-no de The Earth Overshoot Day: o dia da ultrapassagem da Terra. Esta notícia não ganhou nenhum destaque nos meios de comunicação, ao contrário da crise financeira que até hoje ganha a primeira página.

Com esta ruptura, a Terra já não tem condições de repor os bens e serviços necessários para a manutenção do sistema-vida. Em outras palavras, a Terra perdeu a sustentabilidade necessária para a nossa subsistência. Por causa disso, milhões e milhões de seres humanos são condenados a morrer antes do tempo e entre 27-100 mil espécies de seres vivos, segundo dados do conhecido biólogo Edward Wilson, estão desaparecendo a cada ano. Este fato inaugura aquilo que alguns cientistas já denunciaram como sendo uma nova era geológica. Foi chamada de antropoceno, na qual o grande meteoro rasante e destruidor da natureza é o ser humano.

Com sua voracidade e obsessão de crescer mais e mais para consumir mais e mais está se transformando numa força avassaladora dos ecossistemas e da Terra como um todo. Comparece como o Satã da Terra quando deveria ser seu anjo da guarda.
A Avaliação Ecossistêmica do Milênio, organizada pela ONU entre os anos 2001-2005, envolvendo cerca de 1.300 cientistas do mundo inteiro, além de outras 850 personalidades das várias ciências e da política, concluíram que dos 24 serviços ambientais essenciais para a vida (água, ar puro, climas, alimentos, sementes, fibras, energia e outros) 15 deles se encontravam em processo acelerado de degradação. Quer dizer, estamos destruindo as bases físico-químico-ecológicas que sustentam a vida sobre o planeta.

Agora não dispomos mais uma Arca de Noé que salve alguns e deixe perecer os demais. Desta vez, ou nos salvamos todos ou todos corremos o risco de perecer.

Neste contexto vale recordar as sábias palavras do Secretário Geral da ONU Ban Ki Moon, proferidas no dia 22 de fevereiro de 2009 referindo-se à crise econômico-financeira em relação à crise ecológica:”Não podemos deixar que o urgente comprometa o essencial” É urgente encontrar um encaminhamento à crise dos mercados e das finanças, mas é essencial garantir a vitalidade e a integridade da Terra. Sem esta salvaguarda, qualquer outra iniciativa ou projeto perdem sua base de sustentação.

Temos que transformar a paixão da Terra num processo de sua ressurreição na medida em que suspendermos a guerra total que movemos contra ela em todas as frentes. Isso somente se alcançará refazendo o contrato natural que se funda da reciprocidade: a Terra nos dá tudo o que precisamos para viver e nós lhe retribuímos com cuidado, respeito e veneração, pois é nossa grande e generosa Mãe.

Esta é o desafio e a mensagem que cabe assumir na Sexta-feira Santa do presente ano de 2012.


Leonardo Boff é ecoteólogo e da Comissão Central da Carta da Terra.

quarta-feira, abril 04, 2012

Semana Santa (V): saindo do armário do armazém de secos e molhados

Eu vos amo, irmão Leonardo. Sois um dos grandes mestres da história da Igreja, um católico "protestante" na insurgência contra todo princípio-poder, dentro ou fora de nós. Na vitória profética contra o demônio que sufoca o princípio-esperança e reprime o carisma criador que sopra onde quer. Sois avatar de Francisco, e portanto do próprio Nazareno, anunciando no tempo-espaço de nossas angústias particulares a mensagem eterna de que a salvação vem pelo amor, pela justiça, pela solidariedade com todos os pobres, a começar do pobre em nós -amar ao próximo como a nós mesmos é este convite dúplice e autorreflexivo, de resgate dos pobres e ajuda em suas próprias libertações.
Eu vos amo, e me assumo vosso discípulo, como sempre fui, sabendo que o primeiro perigo no caminho é justamente a beleza de vossas palavras.
Para principiantes como o eu é um perigo que a barriga ronque mais alto do que canta o coração, que o eu se contente em comê-las, as palavras, sozinho, estufado e triste, sem a "forma" que vem do compartilhar o pão da vida.
Palavras também perigosas porque belas demais para o fechamento eclesial, a começar da alma-ecclesia que trazemos em cada um de nós. Coletiva é a alma e ela, ao se auto-impor tiranos como se isso fosse "vontade do Espírito Santo", confunde auto-conservação com egoísmo, prudência com covardia, universalismo com lavagem cerebral para carneiros da fé.
Cristão que é cristão é utópico e de oposição, o resto é armazém de secos e molhados, parafraseando o grande Millôr.
Outra tentação que recuso é a raiva e intolerância contra quem pense diferente. Não é hora de palavras que ferem, mas sim de ação e contemplação, com silêncio, no que possível, diálogo, no que necessário, e amor sempre, ou melhor, no sempre ampliável limite de nossas forças (e amar é para os fortes que todos somos sem saber).
Eu vos amo, irmão Leonardo, dedico a vós esta minha "semana santa", minha própria provação, lava-pés, prisão, dor e morte, rito em que sou a um só tempo algoz, vítima e espectador da crucificação, e discípulo de Emaús que o Senhor brindará com a certeza de que o Império, ali mesmo onde derrotou  o Amor, esmagou a esperança, postergou a justiça, ali mesmo cumpriu os desígnios do Ser Supremo que não se alcança sem renúncia,  que não se recebe se não se dá, que não se vive sem morrer e renascer para a vida eterna.
-Unzuhause-


"Jesus devolveu o homem a si mesmo superando assim profundas alienações que se haviam incrustrado nele e em sua história: nas questões importantes da vida nada pode substituir o homem, nem a lei, nem as tradições, nem a religião. Ele deve decidir-se de dentro para fora, frente a Deus e frente ao outro. Para isso ele precisa criatividade e liberdade. A segurança não vem da observância minuciosa das leis de sua adesão irrestrita às estruturas sociais e religiosas mas do vigor de sua decisão interior e da autonomia responsável de quem sabe o que quer e para que vive. Não é sem razão que o eminente filósofo pagão do século III Celso via nos cristãos homens sem pátria e sem raízes que se colocavam contra as instituições divinas do império. Por seu modo de viver, dizia este filósofo, os cristãos levantaram um grito de revolta (fone stáseos). Não porque eles eram contra os pagãos e os idólatas. Mas porque eles eram a favor do amor indiscriminado a pagãos e cristãos, a bárbaros e a romanos e desmascaravam a idologia imperial que fazia do Imperador um deus e das estruturas do vasto Império algo de divino. "

LEONARDO BOFF
JESUS CRISTO LIBERTADOR,
 ibid., p. 59

terça-feira, abril 03, 2012

Semana Santa (IV): a cruz, o jeans, as contas


Eu matutava a morte de Cristo, de Deus, do Homem, de Nietzsche -e olha que eu mesmo não vou lá muito bem rs. Relia o seguinte trecho de Leonardo Boff (veja abaixo) nas alturas silenciosas do nosso sonho teológico em comum. A  vida é sonho, o sonho é discurso, e todo discurso fala mais de nós do que do Objeto a que se refere. E eis que "contas a pagar" bateram à porta, de uma casa que nem nossa é mais, e incômodas, não tanto pelo valor em si, mas pela mensagem que traziam implícita: caia na real, deixe de drama, assuma a vida como ela é. Mas meu realismo, mesmo o mais cru, é idealista: o "mundo concreto" é cifra de significados maiores, por mais que sejam apenas o rastro de sentidos que eu gostaria que houvesse. A carência gera profundidade, quando não porque cava sulcos com seu passo pesado, a superfície desaba aos nossos pés, e a escolha é entre o mutismo depressivo que afunda ou a criação como a mão que se segura ainda na borda, não deixando que o corpo dilacerado caia e arraste de vez a mente ao buraco irreversível.
A morte de Cristo sempre me pareceu bem mais "real" do que o seu nascimento, até porque a celebro na solidão que sempre me individuou, e não há nada mais solitário do que a dor. Já o nascimento envolve a pseudo-alegria e congraçamento que a vida familiar nunca me deu a oportunidade (nem sei se a quero mais) de conhecer. A morte pervade tudo desde o nascimento. Minha biografia é tanatografia, e isto já antes da madrugada de  sábado para domingo em que de fato morri, nos idos de 2006. Minha existência é post-mortem. Não sou eu que vivo, é ela que vive em mim. Meus amigos maiores são fantasmas, santos,  monstros, mortos e o Ausente. Este, um Amigo Ambíguo, bem verdade. A cruz de Cristo me parece vestimenta mais habitual do que a calça jeans de todos os dias.  
"Libertação", como proclamam os cristãos utópicos - e o cristão verdadeiro é sempre utópico. Libertação! Mas não para nós. Ou não para mim. Ou não como a sonho. Porque há contas a pagar.
-Unzuhause-

"Tem a morte de Cristo, considerada em si mesma, relevância teológica para nós hoje? Sim, tem e muito grande. E isso pelos seguintes motivos: Toda a vida de Cristo foi um dar-se, um ser-para-os-outros, a tentativa e a realização, em sua existência, da superação de todos os conflitos, Vivendo o originário do homem assim como Deus o quis, quando o fez à sua imagem e semelhança, julgando e falando sempre a partiu dele, revelou uma vida de extraordinária autenticidade e originalidade. Com sua pregação do Reino de Deus, quis dar um sentido derradeiro e absoluto à totalidade da realidade. Em nome desse Reino de Deus, viveu seu ser-para-os-outros até o fim, mesmo quando a experiência da morte (ausência) de Deus se fez, na Cruz, sensível até quase às raias do desespero. Apesar do desastre e do fracasso total, não desesperou. Mas confiou e acreditou até o fim que Deus, assim mesmo, o aceitaria. O sem-sentido tinha para ele ainda um sentido secreto e último. O sentido universal da vida e da morte de Cristo está, pois, em que suportou até o fim o conflito da existência humana: de querer realizar o sentido absoluto deste mundo diante de Deus, a despeito do ódio, da incompreensão, da traição e da condenação à morte. O mal para Jesus não estava aí para ser compreendido, mas para ser assumido e vencido pelo amor".´

LEONARDO BOFF
JESUS CRISTO LIBERTADOR
Petrópolis: ed. Vozes, 1997, p. 87

segunda-feira, abril 02, 2012

Semana Santa (III) - Pane del cielo

Primeiro pecado a expurgar na Semana Santa (dos cometidos já dentro dela, os outros provavelmente lhe sobreviverão): ter xingado o vento ao deparar com os "padres cantores" da mídia monopolizando as canções que embalavam minha infância espiritual no seio da Igreja. Nada contra esses padres (mesmo já não sendo os superpadres de uma Igreja que não é mais), mas dá desgosto sentir na intimidade desta carne almada e que tem memória que sou eu a captura, a cooptação e pausterização de massas massacrando melodias de nossa particularidade. Felicidades que são literalmente paroquiais, suspensões e lágrimas que tinham rostos e afetos específicos, no segredo da descoberta vivida, antes de virarem "hits" explorados e banalizados na rixa  de egos eclesiais. Mas me penitencio porque não quero estimular em mim espírito de facção, o bom católico tem antes de mais nada o espírito da obediência aos superiores -e os rumos da História, mesmo se os consideramos um lixo, nos são de certo modo superiores a nós que a sofremos e fazemos.
-Unzuhause-




os Sentidos da Paixão


"Homens na sua angústia se chegam a Deus,
imploram auxílio, felicidade e pão;
que salve de doença, de culpa e de morte os seus.
Assim fazem todos, todos: Cristãos e Pagãos.

Homens que se aproximam de Deus quando Ele em dor,
acham-nO pobre, insultado, sem agasalho, sem pão.
Vêem-n' O por nosso pecado vencido e morto, o Senhor;
cristãos permanecem com Deus na Paixão.

Deus está com todos na sua angústia e dor.
Ele dará de corpo e alma o eterno pão.
Morre por cristãos e pagãos como Salvador,
e a ambos perdoa em sua Paixão."

-Dietrich Bonhöffer-

Semana Santa (I)

"Quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória.
 A vinda do Rei (Cristo, Símbolo do Self) para a união com a Noiva (Igreja, Alma)

E serão reunidas em sua presença todas as nações e ele separará os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos bodes, e porá as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda.
 Separar e reunificar

Então dirá o rei aos que estiverem à sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me acolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me'. Então os justos lhe responderão: 'Senhor, quando foi que te vimos com fome e te alimentamos, com sede e te demos de beber?
O anjo e sua sombra

Quando foi que te vimos forasteiro e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te ver? Ao que lhes responderá o rei: 'Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes'.

 O prisioneiro e suas máscaras
Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: 'Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos.
 Escher, "Auto-retrato"

Porque tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber. Fui forasteiro e não me recolhestes. Estive nu e não me vestistes, doente e preso, e não me visitastes'. Então também eles responderão: 'Senhor, quando é que te vimos com fome ou com sede, forasteiro ou nu, doente ou preso e não te socorremos?' E ele responderá com estas palavras: 'Em verdade vos digo: todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses mais pequeninos, foi a mim que deixastes de fazer'. E irão estes para o castigo eterno enquanto os justos irão para a vida eterna".

Mt 25, 31-46

domingo, abril 01, 2012

resenhas na Folha de São Paulo, 31/03/2012


GUIA FOLHA - LIVROS DISCOS FILMES
-CAIO LIUDVIK-

ÍON

Passou para a história da filosofia o banimento das artes, tidas, juntamente com a sofística, por mentirosas e corruptoras, na república ideal de Platão. No entanto este talvez seja mais um clichê sobre a obra platônica que pediria um olhar renovado e mais cauteloso. É o que esta tradução, direta do original grego, de "Íon" pode nos permitir. Trata-se de um dos diálogos em que o filósofo discute mais frontalmente o estatuto da poesia, seus modos de interpretação e sua relação com a filosofia. Vemos aí despontar uma nuance importante, e mesmo dramática –não por acaso a forma dialógica, quase cênica, dos textos platônicos-, do estatuto de filósofo segundo Platão: talvez não seja o poeta um mero adulterador da verdade, mas sim o filósofo que esteja privado da sabedoria, e que por isso a ama (vide a etimologia de "filósofo"). Pois procuramos o que desejamos, e desejamos o que nos falta, e o que falta ao filósofo, e o que o põe em marcha, segundo deixa ver o esclarecedor texto introdutório do tradutor Cláudio Oliveira, é a sabedoria enquanto dom divino, a Musa dos poetas "entusiasmados" (repletos de Deus), a graça, diria um teólogo cristão; é neste buraco de ausência que a razão humana lança mão de suas "técnicas" para nos relembrar do caminho a percorrer em ascensão à verdade.

AVALIAÇÃO - ÓTIMO


DIÁLOGOS
Excelente notícia para os amantes da obra de Platão, depois de quem toda a história da filosofia posterior não passa de notas de rodapé, na "boutade "de Whitehead: a republicação das traduções de Carlos Alberto Nunes, que segundo o editor Plinio Martins Filho corresponderam, nos anos 70, à "primeira publicação completa dos diálogos em língua portuguesa". Entre os volumes inicias desta edição bilíngüe, está "O Banquete", meditação sobre o amor - tema também do "Fedro", terceiro volume- e sobre esta forma específica de amar, que é filosofar. E também "Fédon", no qual a analogia do filosofar é com o morrer, pela libertação da alma do "túmulo" do mundo aparente.
AVALIAÇÃO – ÓTIMO


ENSAIOS SOBRE O CONCEITO DE CULTURA
Zygmunt Bauman é um dos mais argutos intérpretes de nossa "modernidade líquida", marcada pela instabilidade perpétua (no dizer do filósofo Juliano Pessanha) e fluidez radical de todos os vínculos e valores. Nestes "Ensaios sobre o Conceito de Cultura", porém, voltamos a um Bauman anterior a seu célebre diagnóstico da atualidade, mas a caminho dele. O sociólogo polonês está aqui em litígio sobretudo com a perspectiva de uma certa antropologia cultural e de uma sociologia como a de Talcott Parsons, que tenderiam a reificar a cultura como um sistema de crenças e costumes arraigados, "estrutura", conservação, reprodução do existente. Em inegável afinidade com a filosofia da práxis de Gramsci (mais evidente no título original da obra, "Culture as Praxis"), Bauman reivindica para a cultura a acepção dinâmica que Rousseau chamava de "perfectibilidade": a capacidade própria do homem a transformar o real, de mudar a si e ao mundo, a cultura como revolução permanente, uma "faca pressionada contra o futuro".
AVALIAÇÃO – ÓTIMO

DE ROUSSEAU A GRAMSCI – ENSAIOS DE TEORIA POLÍTICA

Um dos maiores especialistas na obra de Antonio Gramsci (1891-1937) -responsável, inclusive, pela edição brasileira dos "Cadernos do Cárcere" -, Carlos Nelson Coutinho vai aqui na contramão da fragmentação acadêmica das ciências humanas –aliás, que ciência não é "humana"?- que levou a uma "ciência política" dissociada da sociologia, da história, da economia, da vida concreta, enfim. Por isso enfatiza que se trata de ensaios de "teoria política", no sentido totalizante que este termo aponta.  Não por acaso fazer a linhagem de Gramsci –que segue sendo seu autor central- remontar a Hegel e, em especial, à "vontade geral" de Jean-Jacques Rousseau, que é mais que a soma dos interesses particulares, fundamenta o contrato social legítimo, e abre um solo epistemológico e ético para pensar a política para além da agonia miúda das verbas e cargos, da conversa fiada; a vida pública como, no dizer do marxista italiano, catarse e "passagem do momento meramente econômico (ou egoístico-passional) para o momento ético-político".
AVALIAÇÃO - ÓTIMO

PRETO BRANCO

Não por identidades, mas por antagonismos, se constrói a harmonia profunda entre as séries fotográficas das artistas visuais cariocas Monica Mansur e Claudia Tavares em "Preto Branco". As imagens são acompanhadas do belo texto da crítica de arte Luiza Interlengui. Pela dicotomia das cores primordiais, exploram a contradição de luz e sombra, élan e inércia, vida e morte. O "lado negro" da criação fica a cargo de Mansur, que em boa parte dos trabalhos usa a técnica de pinhole, a câmera sem lente ou filme, em que a luz passa por um pequeno orifício (pin hole, buraco de agulha, em português). Aqui, a experiência estética do sublime se tange da melancolia na contemplação da estátua abandonada às trevas, ou da sanguínea carcaça. Já a série de abertura do "Branco", de Claudia Tavares, chama-se bem a propósito "Migração", com a imagem de um passarinho que parece solitário, mas que à segunda vista está na companhia de muitos, no discreto esplendor de seu voo. O duplo acesso oferecido pelo livro deixa à liberdade do leitor a escolha de por onde partir, se da luz ou das trevas, como se o ponto médio da leitura, e apogeu da experiência, estivesse no encontro e para além deste e de todos os opostos.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO


NAÇÃO E IMAGINAÇÃO NA GUERRA DO PACÍFICO
A Guerra do Pacífico é o nome que se deu ao conflito, entre 1879 e 1884, que levou o Chile vitorioso a abocanhar partes do território de Peru e Bolívia. Pouco conhecido no Brasil, sua análise histórica convencional já seria ampla justificação do tema deste "Nação e Imaginação na Guerra do Pacífico", da professora Laura Janina Hosiasson (USP). Mas não é essa a tarefa a que se propõe este livro, o que torna ainda menos "datado" do que a guerra que lhe serve de pano de fundo. O que interessa à historiadora é a forma como essa guerra foi trabalhada pela escrita, em expressões as mais diversas, e supostamente menores, como crônicas, diários de campanha, contos militares, "lembranças", memórias. Vão emergindo assim camadas surpreendentes de sentido para o grande tema do conflito de fronteiras nacionais e, mais amplamente, do próprio mito da nação no século 19, com seus processos iniciáticos , tipos heroicos (individuais ou coletivos) e custos em sofrimento humano. Tudo isso numa prosa extremamente agradável e envolvente, outra chave irresistível para que o bom historiador nos leve pela mão, na travessia rumo ao particularismo de fatos prenhes de ensinamentos universais.
AVALIAÇÃO - ÓTIMO