segunda-feira, setembro 26, 2011

la petite de vampire


Um de meus bons momentos da semana é a hora de conversação com "la petite française", a jovem francesinha que divide comigo a leitura do primeiro livro de Cioran, em romeno "Pe culmine Disperari" (Nos Cumes do Desespero),  na edição francesa das obras completas do vampiro. Claro que é tentar organizar o mundo à base de clichês a associação simplista "franceses=racionalismo cartesiano", como brasil carnaval, como alemães e cerveja. Todo pensamento habitualizado, desdentado do imprevisto e do surpresivo, tende a  fazer do que era uma chave um mero chavão, engordado pelo aumentativo e fora de forma para adentrar portais do real. Mas neste caso específico a sombra do reclamo cartesiano por "idéias claras e distintas" parece mesmo pairar nos ombros da francesinha enquanto transcorre nossa leitura, parágrafo por parágrafo, entre seus muxoxos, bufadas (daquelas que só os franceses sabem fazer), questionamentos e perplexidades com o lirismo desesperado e a torrente e ode a insônias, angústias, delírios e doenças de que o vampiro fez sua filosofia. Eu, mais sortudo com livros do que com pessoas, e geralmente privado de boas companhias nessa cultura broxa, bêbada, burra e canábica que hoje se cultua como suprassumo de liberdade e "festa", nesse azedume de claudia leite borrifado de mangueira à macacada pulante do porre in rio, eu me alegro duplamente, ainda que com os olhos de espelho d' água amarelecidos de quem se sabe morto pra essa vidinha vigente, eu, que de anjos prefiro o mais Augusto deles, eu, nesses momentos epifânicos ao lado do vampiro e da petite, apetite que me vem não de convencer ninguém mas fazer implodir todas as coordenadas da razão e entregá-la, a razão e a petite, ao apetite de meu trago e iniciação às trevas da minh' alma e de meu vampirovirgílio.
-Unzuhause-

quarta-feira, setembro 21, 2011

vôo, cruz e esconderijo reparador

"Mas como, no espaço celeste, um falcão ou uma águia, após ter voado de cá para lá, fatigado, recolhe suas asas e volta ao esconderijo, assim também o espírito procura apressado aquele estado em que, adormecido, não mais sente apetite e não mais vê a imagem do sonho".

Brihadâranyakaq-Upanishad

apud JUNG, Tipos Psicológicos, parágrafo 344

segunda-feira, setembro 19, 2011

ensaios de ser

James Hillman
"Essencial para o cultivo da alma é o cultivo da psicologia, moldar conceitos e imagens que exprimam as necessidades da alma assim como emergem em cada um de nós.
Já que minha alma, minha constituição psicológica, difere das de Freud e de Jung, assim minha psicologia será diferente da deles. Cada psicologia é uma confissão, e o valor de uma psicologia para outras pessoas não está nos pontos em que se pode identificar com ela porque satisfaz nossas necessidades psíquicas, mas porque ela nos provoca elaborar nossa própria psicologia como resposta. Freud e Jung são mestres psicológicos, não porque podemos segui-los tornando-nos freudianos e junguianos, mas porque podemos segui-los tornando-nos psicológicos. Aqui a psicologia é concebida como uma atividade necessária da psique, que constrói vasos e os quebra parfa aprofundar e intensificar as experiências".
JAMES HILLMAN

Já sofri bastante -um custo inclusive em termos de amizades estremecidas - devido a isto que as palavras de Hillman me ajudam a verbalizar: o olhar "psicológico" para a vida. Psicológico não no sentido estrito da palavra, confinado a uma especialidade acadêmica historicamente recente e própria de uma das partículas do universo total do humano, o assim chamado Ocidente moderno.
Psicológico enquanto estudo, amor e cultivo da alma.
E com este olhar psicológico sobre mim (narcisista confesso rs) e sobre a vida, acabo abordando outros teóricos ("psicólogos" ou não) nesta mesma chave. Psicologias em obra. E acabo me entusiasmando por eles, por mais diversos e contraditórios que sejam entre si, na medida em que minha alma se aperceba enamorada das suas almas, de seus discursos profundos, tão singulares e "necessários" ao que essas almas são. Teorias à imagem e semelhança do que nos cabe ser e inventar enquanto "la nave va" e a morte não nos colhe, meros grãos de trigo que somos. Daí que não hesite, por exemplo, em admirar ou mesmo amar pensadores de ideologias muito diversas, que talvez não pudessem ser reunidos numa mesma conferência (para evitarmos constrangimentos e agressões). Os admiro e amo na medida em que minha alma se sente mexida pela deles, sintonizada em nossas respectivas "psicologias" (necessidades internas de representação e afeto entre o espontâneo e o refletido), re-voltada no bom sentido - virada de ponta-cabeça, voltada para si e para além. Respeito-os em suas singularidades, obras próprias, percursos incomensuráveis, mas me surpreendo por elas me serem similares e comunicantes, em alguma preciosa região intermédia entre nós. Por isso, caros amigos, não se assustem e  não se percam de mim devido a aparentes oscilações bruscas de opinião da minha parte: são necessidades de uma alma em permanente construção e reconstrução, enamorando-se de almas as mais distintas, porém incomparavelmente similares em beleza e profundidade, instigantes não para serem imitadas mas para impulsionarem minha singularização,  edifícios em si que peço licença para trabalhar como argamassas de meu opus psíquico para consumo interno, de um eu à la Edward Mãos-de-Tesoura arrastando com os ombros e as costas a pedra de Sísifo do existir separado de Deus,  eu que machuca o próprio rosto ao se limpar do suor, mas se regozijando pelo mero esforço de "tentar" ser-daí minha paixão particular pelos "essais", ensaios, tentativas, forma flexível e plural, não-sistêmica e aberta, na vida e na escrita.
-Unzuhause-

sexta-feira, setembro 16, 2011

o dia em que a maconha parou a PUC

Tiveram que fechar a PUC hoje para evitar um festival da "cultura da maconha" com mais de 6.000 jovens já confirmados por internet.. E olho pras minhas Mãos de Tesoura , e para o espelho, e para as Mãos, e me sussurro, sem tristeza, mas com sorriso trágico, o de Diógenes, o de Nietzsche: Edward, seu reino não é deste mundo..
-Unzuhause-



quinta-feira, setembro 15, 2011

trapos e alma

W. B. Yeats (1865-1939)

"Aquela não é terra para velhos. Gente
jovem, de braços dados, pássaros nas ramas
— gerações de mortais — cantando alegremente,
salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,
peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente
tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.
Ao som da música sensual, o mundo esquece
as obras do intelecto que nunca envelhece.



Um homem velho é apenas uma ninharia,
trapos numa bengala à espera do final,
a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria
sobre os farrapos do seu hábito mortal;
nem há escola de canto, ali, que não estude
monumentos de sua própria magnitude.


Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância, em busca da cidade santa de Bizâncio.
Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado,
como se num mosaico de ouro a resplender,
vinde do fogo santo, em giro espiralado,
e vos tornai mestres-cantores do meu ser .
Rompei meu coração, que a febre faz doente
e, acorrentado a um mísero animal morrente,
já não sabe o que é; arrancai-me da idadepara o lavor sem fim da longa eternidade. 

 Livre da natureza não hei de assumir
conformação de coisa alguma natural,
mas a que o ourives grego soube urdir
de ouro forjado e esmalte de ouro em tramas,
para acordar do ócio o sono imperial;
ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
pousado em ramo de ouro, como um pássa-
ro, o que passou e passará e sempre passa".

W. B. YEATS,
"VIAJANDO PARA BIZÂNCIO"
Tradução: Augusto de Campos

quarta-feira, setembro 14, 2011

mímesis

Conta-se que na Grécia antiga dois pintores cobiçosos travavam uma discussão sobre quem fazia uma arte melhor. Então resolveram decidir isto no braço, ou melhor, nas mãos: cada um faria um quadro e depois comparariam para ver quem imitou (Aristóteles: mímesis) melhor a realidade. O primeiro fez e apresentou um quadro de cacho de uvas tão deliciosas que os passarinhos vinham bicar a tela. O segundo, preocupado e com amor-próprio ferido, se afastou, e voltou com uma cortina fechada. O primeiro falou: ok, pode tirar a cortina, o que tem por trás dela? O segundo: nada. A cortina era já pintada, era a pintura. O segundo venceu.

(História contada por Zizek, e ontem discutida pelo professor Vladimir Safatle, em aula sobre Hegel na USP)

-Unzuhause-

terça-feira, setembro 13, 2011

zarpar!

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saüdade.

Mas a chamma, que a vida em nós creou,
Se ainda ha vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas ocultou;
A mão do vento pode erguel-a ainda.

Dá o sopro, a aragem, -ou desgraça ou ancia-,
Com que a chamma do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância-
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

-Fernando Pessoa, "Prece"-

domingo, setembro 11, 2011

o coração do Morcego



Empréstimo junto ao amigo orkutiano e grande junguiano Charles Alberto Resende. Vôo de morcego pra dentro da alma de um dos mais fantásticos super-heróis. Herói justiceiro, que da fobia infantil aos morcegos, recolheu o símbolo de sua futura supermissão.  E que da tragédia pessoal hauriu a força que, para fazer o Bem, descobre ser necessário honrar o Mal. Saudades da Morcega que bateu asas e partiu, e saudações ao Vampiro Cioran recém-chegado à turma barra pesada do meu botequim filosófico que, entre livros e brejas, medita o amar-gor da existência mas sabe também deixar o radinho ligado no Coringão (sem TV, que mostra tudo e não revela nada) e no seu maior contador de histórias, a voz eletrizante de Zé Silvério, o de minhas lembranças de tempo de jovem-pan, quando as vinhetas do momento do gol eram mais bonitas e o tônus da voz do gol, maior. E talvez os gols em si também fossem mais mágicos, enquanto desenhos de minha própria mente jovem-pã se driblando fantasmas de um mundo por descobrir rumo ao êxtase do chute certeiro e da bola dentro. Vampiro Cioran, eu dizia, e minha turba oculta de celebração e perplexidade com os gols da mente, a beleza das "minas" e com o ouro da vida. Isto antes de voltar para as vielas escuras e solitárias, onde, com radinho silenciado e livro fechado e minas distantes, todos os afetos são pardos e só o (A) mor-cego tem visão.
-Unzuhause-

sábado, setembro 10, 2011

quinta-feira, setembro 08, 2011

bodas místicas com a melancolia de Von Trier



Tanto já se falou sobre "Melancolia" de Von Trier, que não me aventuro, a esta altura da montanha dos falares interessantes da indústria da cultura,  senão a uma notinha pessoal: de gratidão por este raro encontro comigo mesmo, bodas simbólicas com alguns de meus "espíritos", para evocar a anatomia politeísta da alma de Dante. Espíritos vorazes de devoramento, de ressecamento, de aridez anterior a todo deserto místico produtivo. Não, esta melancolia é a paralisia, é o engodo profundo, é o uso de "Tristão e Isolda" em quimeras amorosas como aquelas em que dissipei minha juventude no contágio incorpóreo com meus próprios medos e ideais projetados em vampiros de mim mesmo. É o não sentir, nada saber, não querer saber, vaidade tola de todo e qualquer dizer, o suor inútil e adiposo da andança com a bola de ferro na canela me arrastando enquanto a arrasto - no presídio a céu aberto. É o desgosto repetitivo com os falatórios cotidianos, as imagens, as "sacadas" de marketing da carência se maquiando de diva no facebook, msn e twitter, as frase de efeito, as citações de impacto, "essa coisa toda" de imprevisibilidade, complexidade interior e senso aventureiro de nossas vidinhas insossas. É a fila no Unibanco, a espera da valiosa mesinha na cafeteria da Livraria Cultura, é o verão chegando pra me torrar (a paciência), são as baratas e ratos saindo desnudos dos córregos domésticos vindo "pra praia" nas ruas inundadas.  
Ante tudo isto, que é nada, o Nada (diferença do mero "rien" empírico para o filosófico Néant), meu analista quer reforçar o coquetel anti-depressivo.. Eu digo pra ele que as sedações já cumprem seu papel no nível em que estão. O "resto" -e é como resíduo que o espírito aspira, sem violência, a sua possibilidade de ser, de des-ser num mundo onticamente saturado de seres que não precisariam estar onde estão, que são demasiados- deve caber à Arte. Não como grife do lady-gagaísmo do trágico, mas como bálsamo, migalha de banquete reservada a nós pobres,  verdadeiro anti-depressivo e provisão vital enquanto não se cumpre, enfim, o fim anunciado. 
Abençoado, pois Von Trier, não o tolo tagarela se marqueteando como pró-nazista ("eu entendo Hitler") e antissemita ("os judeus são um pé no saco", disse ele, entre outras barbaridades) sob os holofotes do festival cool, roda mesquinha em que o polêmico é incitado a se autopromover com mais "polêmica", até os organizadores do festim da polêmica darem um basta e retirarem "hórrorizados" o elemento estranho e tão familiar..
Não é este seu lado ladygagá do trágico que é meu igual, meu irmão, mas o jovial criador atormentado que volta às raízes românticas dos delírios totalitários (não por acaso "Tristão e Isolda" de Wagner pontuar como leitmotif todo o filme).
Abençoada sua "Melancolia", planeta e catástrofe com que a heroína -sem droga- se acasala e eu me faço noivo também, sem a droga de sonhos com a Beatriz que não virá, pois habita na verdade paupérrima de meu coração e na ilusão portentosa da arte e do mito.
Abençoada a Beatriz e a "Vita Nuova" de Dante - que na vida velha ao meu redor e em mim cavou súbito um sulco de contentamento, ontem à noite, antes do filme, antes pois de rever, em espetáculo, o fim do mundo que meus espíritos corruptores saudariam se de fato acontecesse e afogasse na puta que nos pariu essa nau de demiurgos arrogantes e cadáveres adiados que arrotam e saltam como macacos confiantes enquanto "la nave va" no oceano sombrio.
-Unzuhause-

segunda-feira, setembro 05, 2011

2011, uma odisséia no espaço ao contrário

Após indicação para a Roça, Compadre xinga Raquel de "p****, traíra e sanguessuga"
(fonte: UOL)

Compadre e Joana se juntam a Raquel e Thiago na Roça "O Compadre enlouqueceu", afirma Monique "Agora a briga é entre Compadre e Raquel", especula Thiago "Raquel, não compra essa briga com o Compadre", alerta JoanaCompadre Washington ficou revoltado por ter sido indicado pela casa para a Roça desta semana. Após o fim da transmissão ao vivo, o cantor se descontrolou e começou a ofender Raquel, primeira peoa a indicá-lo para a Roça.
"Homem nenhum quer uma p*** dessas em casa. Aposto que se ela ganhar isso aqui, assim que sair vai dar o dinheiro na mão dele, porque homem nenhum aguenta isso de graça. É uma p***, falsa, traíra, sanguessuga. Fica aí me chamando de viado, mas quem toma pepino no c* é ela. Deve tomar vara, pedaço de pau. Tá acostumada aí a dar pra qualquer um por R$20", explodiu ele.
Mesmo com xingamentos tão pesados - sendo que Raquel não ofendeu o peão em nenhum momento na hora de indicá-lo para a Roça - nenhum dos peões que estavam na sala defendeu Raquel.

sábado, setembro 03, 2011

Walter Benjamin El pensador Vagabundo

perpétuo sábado

«Recorda-te do dia de sábado, para o santificar» (Ex 20,8)

by SANTO AGOSTINHO

 Agora que estamos no tempo da graça que nos foi revelada, a observância do Sábado, antigamente simbolizada pelo repouso de um único dia, foi abolida para os fiéis. Com efeito, neste tempo de graça, o cristão observa um Sábado perpétuo, se fizer todo o bem que faz na esperança do repouso que há-de vir e se não se gloriar das suas boas obras como se fossem um bem que tivesse por si mesmo, e não de algo que tivesse recebido.
Assim, compreendendo e recebendo o sacramento do baptismo como um Sábado, quer dizer, como o descanso do Senhor no Seu Sepulcro (Rm 6,4), o cristão repousa das suas obras para caminhar, desde então, numa vida nova, reconhecendo que Deus actua nele. Deus é que repousa e age em simultâneo, por um lado concedendo à Sua criatura a gestão que lhe convém e, por outro lado, usufruindo em Si mesmo de uma tranquilidade eterna.
Nem Deus Se cansou ao criar o mundo, nem refez as Suas forças deixando de criar, mas quis, através destas palavras da Sua Escritura [«Deus repousou, no sétimo dia» (Gn 2,2)], convidar-nos a desejar o repouso, dando-nos o mandamento de santificar esse dia.