Tuesday, August 30, 2011

resposta a Jó

"Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra?
Dize-mo, se é que sabes tanto.
Quem lhe fixou as dimensões? - se o sabes-,
ou quem estendeu sobre ela a régua?
Onde se encaixam suas bases,
ou quem assentou a pedra angular,
entre as aclamações dos astros da manhã
e o aplauso de todos os filhos de Deus"


(Jó 38, 4-7)


São exíguas, numa sociedade como a nossa, as possibilidades de transcendência. Não só pelo imanentismo agressivo das rotinas -contas pra pagar, escritórios com bolas de ferro na perna, violência, trânsito, metrô.. Mas também porque o suposto "avesso" disto tudo, hoje em dia, está codificado e pasteurizado pela própria indústria cultural contra a qual o espírito quer se erguer. E o espírito vira assim "espiritualidade" rasteira, de auto-ajuda, discurso fake que vai da ecologia ao sexo tântrico, mas que no fundo não mexe em nada com a alma profunda, individual e coletiva. Por isso os raros mestres da negatividade, no passado e no presente, são fundamentais, e precisamos agradecer por sua existência e escutar com a coragem e a reverência que merecem.
A Violência de seus meios retóricos, e o Mal de sua visão de mundo, no fundo se articulam como método e pedagogia de um niilismo necessário, porque "nadificador" de nossa crosta maciça de clichês e falsas esperanças -este vício de esperar, esperar, e nunca viver, como nos alerta Pascal.
Derrotadas as vãs esperanças de "libertação" coletiva e ideológica, é tempo de aprender com os silogismos da amargura da lógica da vida, nem sempre simpáticos a nosso ideário infantil de conforto, paz e abundância. De justiça e "retribuição" por sermos supostamente melhores que o vizinho. 
O Mal assim se faz senda inevitável e valiosa. O Mal "está entre nós", é preciso aceitá-lo com coragem heróica e despojamento, fazer o itinerário entre melancolia e graça que um filme como "A Árvore da Vida" representa com tanto brilho. E não por acaso ele parte da citação acima do "Livro de Jó".
Da inesgotável sabedoria bíblica, talvez Jó esteja entre os arquétipos que mais têm a nos ensinar hoje. Não os "modernizando", ao contrário, somos nós que devemos nos pôr à escuta do que resiste aos milênios como verdade eterna da condição humana. Verdade de sofrimento absurdo, mas também da pujança, esplendor e encanto do próprio fato de haver Ser. É o que pra mim sobrevém, no filme, do espetáculo de sons e imagens com que um drama familiar aparentente corriqueiro é redimensionado e elevado à dignidade dos grandes eventos cósmicos. É a "resposta a Jó", o pronunciamento de Iahweh ante as injúrias e revolta de Jó, justo sofredor, drama que se repete, de modo similar, no filme, culminando numa via "estética", mais do que ética, de auto-justificação divina e de
enfrentamento de uma das questões mais difíceis para a humanidade de todas as eras: como explicar o Mal, se há Deus? Como explicar Deus, se há o Mal?
Ser e Nada. Melancolia e Graça. Pai e Mãe, em eterno conflito em nossa alma, como confessa o menino que, adulto, será encarnado pelo fenomenal Sean Penn.
Cabe porém destaque especial a Brad Pitt. Está espetacular no filme, e seu personagem me encanta também pelo não maniqueísmo. Não é um bêbado canalha, perverso. É um homem rígido, sim, mas que ama sua família, e quer preparar seus filhos para as lutas (físicas e anímicas) necessárias para sobreviver na selva da realidade.
Já a mãe.. sem palavras, até porque sou suspeito, pra mim se há o Deus que imagino que haja, sua "resposta a Jó" (título de ensaio célebre de Jung) me chega sobretudo através do maravilhamento não só pela minha mãe, mas por todas as mães do mundo, de pássaros, onças e gente.
A força do Pai é outra metade dessa equação, por mais revoltas edipianas que nutramos contra ele. Mas não há revolta, pra mim, sem amor secreto. E não há Bem sem Mal, Graça sem melancolia, Mistério sem a evidência do que é tal como é.
 São as "respostas a Jó" que trago pra casa da experiência magnífica propiciada pelo filme do misterioso Terrence Malick. Algumas das respostas, outras dormitam e germinam, para vir à luz nas trevas de êxtase e de desespero que a vida ainda há de me oferecer. Este é um filme não para morrer na pizza da saída do cinema, mas para ser levado vida afora, vida adentro, filme de vida, no sentido em que se diz que o Tao te king, por exemplo, é um livro de vida. E sem "espiritualidade" barata. Dura e doce a vida como ela é.
-Unzuhause-

Monday, August 29, 2011

o sorriso nas paisagens aniquiladas

Vampiro Cioran me leva, como o Mefistófeles de Fausto, ou o Virgílio de Dante, em périplo pelo cosmo da existência, no caso, cosmo destruído e que resta como ruínas da História. A beleza que ele apresenta e encarna, com seu terno brilhante como o corvo, com suas mãos e rosto enrugados, fazendo lembrar a maquiagem de um ator aposentado,  e olhos como que de um espelho d' água amarelecido, tal beleza, eu dizia, é o silêncio dos cemitérios, apaziguamento inatingível enquanto viventes, como meros "mortais", no dizer de uma Vampira que passou por mim enquanto eu mendigava  como monge perdinte pelas ruas escuras, e que me contagiou mesmo sem me morder rs. 
Mas quem disse que, mesmo antes de morrer,  Cioran era um mortal? Não; desde sempre escreveu "do lado de lá" metafísico, se nos dirige como Brás Cubas. Suas linhas nos fazem pressentir, ao invés dos antiquados céus e infernos, fantasmas holográficos de alturas e profundidades que só miraginamos porque purgamos o pecado de existir.Olhem que maravilha isto: "O espetáculo do homem - que vomitivo! O amor - encontro entre duas salivas... Todos os sentimentos extraem seu absoluto da miséria das glândulas. Não há nobreza senão na negação da existência, em um sorriso que domina paisagens aniquiladas". Ou ainda isto aqui: "Outrora tive um 'eu': agora sou apenas um objeto... Empanturro-me de todas as drogas da solidão; as do mundo foram fracas demais para me fazer esquecê-lo. Tendo matado o profeta em mim, como terei ainda um lugar entre os homens?".
Com Vampiro Cioran, chego ao impossível da paixão de amar o mundo e a mim por mais fracassados que sejamos, e o somos em última instância, eu e o mundo, ou o mundo como minha representação. Fracasso, perdedor, sofredor, corintiano sem libertador (es). E é, como outro vampiro certa vez me ensinou em sonho e eu o citei em colóquio na USP, é o mesmo fracasso e sorriso perdedor de Raskolnikóv, ao fim de sua carreira na revolta. Fracasso que, como a epilepsia, é (im) precisamente o que salva um herói russo, convulsão dos condenados ao amor de Deus, maldição de Eleição.
-Unzuhause-

FORA TITE! (até ficar de cabeça inchada de nos escutar)

Sunday, August 28, 2011

Zbigniew Preisner, "Lacrimosa" (do filme "A Árvore da Vida")




a bênção, Doutor da Graça


Me sinto, por imaginação ativa de Jung, e nas asas da voz da querubínica Enya, pra dentro desta imagem (veja acima), no papel de um peregrino confuso, que acha que sabe pra onde deve ir, mas ansioso aponta o dedo pra lá e pra cá. Já o Santo sinaliza que a resposta é o Alto, antes de toda pergunta -Alto que vem a nós, como Graça, antes de irmos aonde quer que seja, por nossa vontade e linguagem. Mas sua fisionomia sugere que além de "falar (por gesto) sobre" o Alto, ele pede diretamente ao Alto a santa paciência necessária pra não me dar um bom esporro, e a inspiração pra me escutar e me orientar, apesar de minha teimosia. Santo Agostinho, neste dia em que a Igreja te celebra, e eu com ela, não desista de mim!
-Unzuhause-


Saturday, August 27, 2011

querido Martins

O sociólogo e professor da USP José de Souza Martins, que acaba de lançar sua autobiografia

Professor queridíssimo, de uma inteligência e seriedade cativantes, José de Souza Martins me ensinou muito do sempre pouco  que sei e posso já praticar da sagrada arte do "artesanato intelectual" (Wright Mills). Foi em suas aulas de sociologia da vida cotidiana e sociologia visual, no caso, a fotografia como documento de inestimável valor sociológico.
Martins tem sido, nos corredores da FFLCH, ao menos, muito criticado por supostamente trair suas origens proletárias e ideologia progressista, por "se render ao sistema", ao defender veementemente o governo de Fernando Henrique Cardoso, seu colega de sociologia, amigo de longa data, mas político de triste fama como um "presidente neoliberal".
Não só refuta tal rotulação dos anos FHC;  Martins vai além: exige um marxismo amadurecido pelo retorno à letra de Marx, de que Henri Lefebvre, mais que Lênin ou Althusser, seria o melhor e mais profundo intérprete. E Martins tem a tranquilidade e coragem de, ao menos como lembro das suas aulas,  mostrar a seus pupilos a importância e, por que não (em minha palavra), beleza da tradição conservadora em ciências sociais, de Tocqueville a Émile Durkheim.
Durkheim, aliás, que ao lado de minha primeira namorada na vida rs, foi a minha  paixão fulminante de estréia na academia. Vide o apelidinho que os colegas me aplicavam, quando das aulas de Sociologia II: o "Durcaio".
Mesmo militante de causas como a dos sem-terra (a sociologia rural foi eixo de seu primeiro grande ciclo de estudos), inevitavelmente próximo às comunidades eclesiais de base e teólogos da libertação, Martins quebra maniqueísmos ao tecer elogios à qualidade teológica (não sei se pastoral também) do papa Bento XVI.
Uma lição para mim, que por uma questão de origens e apegos afetivos e imaginantes tenho (ou elas me têm?) crises de fobia, que evoluíram hoje ao estágio de stress pós-traumático, ao mirar a figura do teólogo sinistro "que pôs Leonardo Boff no banco dos réus da Inquisição, a mesma cadeirinha em que sentaram Galileu".
 Não conheço pessoalmente nem Ratzinger, claro, nem Boff, dizem até que o papa é excelente pessoa, e muito recatado e tímido, o que me agrada, mas sofri por identificações e contra-identificações, como se fossem, essas duas figuras, o teólogo brasileiro e o alemão, respectivamente um êxtase e um golpe para mim. Exageros inerentes a uma vida solitária, que tende a pôr idéias e ideais, esta "lepra lírica" da utopia, no dizer de Cioran, à frente das realidades carnais.
É tempo, como as aulas do caríssimo Martins já me alertavam há anos, de renunciar a meras palavras de ordem, a dicotomias simplistas, a um esquerdismo de afetos infanto-juvenis . É possível, no meu caso específico, ser de esquerda e adulto? Para além dos traumas e luto inconformista por uma concepção de esquerda que vinha mais da mística que de teorias? É possível ser um melancólico de esquerda? É possível ser de esquerda e confessar minha admiração e senso de amizade por alguns de nossos inteligentíssimos autores conservadores?
Não sei, mas o pouco que sei por agora é que amo de paixão esse grande mestre que agora nos brinda com sua auto-biografia, exemplo prático, segundo diz o artigo a seguir, de sociologia sem pretensões positivistas, entranhada na vida, obra de arte.
-Unzuhause-

Vidas feitas de silêncio e rupturas
Em Uma Arqueologia da Memória Social, José de Souza Martins entrega as chaves da compreensão de um mundo que funde tradições além-mar, cultura caipira e o duro encontro com a racionalidade da fábrica, no ABC paulista


Sábado, 27 de agosto de 2011
Laura Greenhalgh - O Estado de S.Paulo [Caderno Sabático, p. S4]

Pode haver literatura na sociologia? A indagação não é nova, nem tampouco superada, mas José de Souza Martins toma partido: pode, deve haver. Um dos mais eminentes sociólogos da Universidade de São Paulo, que em 2008 lhe concedeu o título de professor emérito, ele não vacila ao admitir que em seus livros e artigos para a imprensa desenvolveu, sim, um estilo literário, fortemente influenciado por mestres que o antecederam na negação da sociologia relatorial e cientificista. Mestres como o belga Claude Lévi-Strauss, que introduziu a cadeira na jovem USP dos anos 30, substituído depois pelo francês Roger Bastide, para Martins "a figura maior da sociologia uspiana", que por sua vez ampliaria a linhagem com nomes como Florestan Fernandes, Antonio Candido, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso. Martins ainda convoca grifes de fora - o americano Charles Wright Mills e o austríaco Alfred Schütz - ao respaldar a opção bastidiana por um pensamento sociológico aberto, não arredio à imaginação e ao poético, mais próximo das pessoas. Em suma, literário.
É esse pensamento que permeia as 464 páginas de Uma Arqueologia da Memória Social, livro lançado e autografado esta semana, com um desafio no intertítulo: Autobiografia de Um Moleque de Fábrica. Trata-se de obra de memórias que se dispõe a entregar, a partir do relato de vida do autor, as chaves da compreensão de uma certa realidade social, vivida por uma camada da população, num determinado momento histórico. O período percorrido abrange da infância do autor, nascido em São Paulo, em 1938, até o desaparecimento de Vargas nos anos 50, numa coleta de histórias e personagens recortados de sagas de imigrante e do cotidiano do operariado paulista, num tempo de expansão da indústria. Em entrevista ao Sabático sobre o livro, Martins confessa ter hesitado em publicar este trabalho, fruto de longos anos de pesquisa:
"Um amigo chegou a me dizer "você não é ilustre, não inventou coisa alguma, por que contar sua história?". No Brasil não temos a tradição do livro de memórias de quem não é ilustre, nem figurão, tanto que o livro de Ecléa Bosi, "Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos" (de 1979), um trabalho muito importante, a meu ver, veio na contramão disso tudo. Também pensei no americano Oscar Lewis, seguramente o maior nome da antropologia da pobreza, autor de clássicos como "As Cinco Famílias", "Os Filhos de Sánchez", "Pedro Martínez". Pesei também o incentivo das filhas, e daí pensei como sociólogo: sou um arquivo de informações sociais e culturais que, se não publicadas, vão se perder. Hora de colocar no papel".
O livro reafirma, página por página, a curiosidade do autor por suas origens, curiosidade latente, desassossegada a ponto de levá-lo para lonjuras com o objetivo de descobrir de onde vieram os avós imigrantes - por parte de pai, portugueses de um povoado antigo chamado Santiago de Figueiró, que chegaram ao Brasil fugindo das convocações militares da 1.ª Guerra; e espanhóis, do lado materno, moradores de uma aldeia à beira do Mediterrâneo, não distante de Gibraltar, "onde em dias claros se divisa a África". Foram atraídos para São Paulo pela promessa de trabalho nas lavouras de café. Os avós portugueses acabariam se fixando em São Caetano, no ABC paulista, e os espanhóis, depois de tentar a vida na Argentina, de regressar à Espanha e então transferir a família para o Brasil, erguem uma casa de pau a pique num sítio no Arriá, bairro de Pinhalzinho (SP). A arqueologia dessas memórias seguiria sem sobressaltos por esses dois veios não fosse um "achado" do autor, em 1979, quando regressava de uma temporada de estudos na Universidade de Cambridge. Ao visitar pela primeira vez Santiago de Figueiró, moradores da aldeia, meio século depois de seus parentes terem deixado o lugar, identificam elos familiares e lhe revelam o maior segredo de sua vida: Martins era neto do sr. Reitor, o padre Manuel Justino Teixeira Carvalho.
"Descobri que minha avó foi mãe solteira, numa relação tida como incestuosa; que a família no Brasil sabia do caso, mas não ousava comentar, afinal, mesmo analfabeta, ela era a matriarca; que se casou com aquele que eu chamava de avô não por amor, mas por conveniência; que Manuel Justino assinou os papéis do casamento dela, assim como havia assinado os papéis de nascimento do meu pai, mas pediu para outro padre ministrar os sacramentos, para não enfrentar o julgamento da paróquia; e que meu pai, ao dizer ao pai-sacerdote que emigraria para o Brasil, ganhou dele um punhado de moedas atiradas ao chão, em sinal de menosprezo. Além do choque, a descoberta me propiciou ouvir pessoas e pesquisar documentos, oportunidade fantástica de compreender o que era aquele familismo aldeão. Também pude testemunhar a transformação de uma região muito pobre que, com o fim do salazarismo e o declínio econômico em que mergulhou, viu parte de sua população emigrar para La Rochelle, na França. Esses portugueses trabalharam muito, enriqueceram e voltaram para a terra natal, onde puderam construir suas belas casas. Estive lá no ano passado e vi como o cemitério de Santiago de Figueiró vem ganhando lápides em francês."
Boa parte do livro brota da observação infantil guardada na memória do autor, observação de um "sujeito" cuja vida facilmente se dilui no cotidiano da casa ou na desimportância da infância, afinal, como se diz com frequência, "criança não tem biografia". São olhos atentos aos modos da gente da roça, pelo lado materno, e do proletariado de subúrbio, pelo lado paterno, com seus corpos extenuados no trabalho, manifestações de afeto contidas, conversas racionadas. "O tempo todo parece que estou escavando silêncios", admite Martins. Paradoxalmente, descobriu que ouviu muito durante a infância. Gravou na cabeça, e transcreveu sem alterações no livro frases inteiras dessas pessoas sem escolaridade, que pouco ou nada liam, mas buscavam pronunciar corretamente o que diziam, seguindo a tradição dos sermões de igreja (em especial, a protestante). Havia a liturgia da palavra bem pronunciada. Quanto à recomposição das histórias do menino observador, retrabalhadas pelo sociólogo em que se converteria, resta a certeza de que as rupturas foram mais efetivas do que os períodos de continuidade.
"Um dia, já rapaz, sentei na frente de Mamá, minha avó materna, e lhe propus o seguinte: "Vamos lembrar". Quem é quem nessa história?, perguntei. Ela sabia muita coisa, recordava idades, datas, assim fui montando uma cronologia que me fez concluir o seguinte: Mamá teve contato com parentes que haviam convivido com pessoas que por sua vez viveram na época da Revolução Francesa. Ou seja, ela puxava memórias que partiam do século 18! Só que Mamá não tinha a visão dos fatos históricos, mas dos acontecimentos familiares. Na aldeia em que nasceu, foi criada desde pequena para servir na casa dos marqueses da Guadalmina, os mais ricos e poderosos do lugar. Então minha avó, que só circulava na área de serviço da casa senhorial, a não ser quando era recrutada como "brinquedo" dos filhos dos patrões, aprendeu palavras em francês que repetiria aqui no Brasil - veja a força de uma ruptura. Um dia ela me disse: "Os marqueses e os reis de Espanha se frequentavam". Ora, desde quando isso é jeito de pobre falar?"
Rupturas fincaram marcos na reconstrução dessa memória familiar e social. Martins perde o pai aos 5 anos, dois a mais que seu único irmão. Reviravolta na vida: a mãe precisou se empregar numa fábrica em São Caetano, deixava os filhos em creches e acabaria se casando com um homem culturalmente diferente dos dois veios familiares. O padrasto, sábio da roça, mas desenraizado na cidade, falava nheengatu adaptado ao português. Para Martins, salta como o grande personagem do livro. Sentia-se tão fora do ninho no subúrbio que passou seguir as recomendações de um manual de feitiçaria, O Verdadeiro Livro de São Cipriano, na tentativa de virar um ente invisível e assim se proteger das forças malignas de um mundo que não era o seu. Martins também escava as vulnerabilidades extremas de um operariado que começava a se constituir em São Paulo rumo ao que seria o apogeu da Vargas, porém ainda marcado pelo ferro quente do atraso social.
São momentos em que repassa as dores das sovas em crianças, o trabalho infantil mal a família divisasse no rebento a possibilidade de ter algum dinheiro a mais em casa, os pés de menino quase sempre descalços, a "fome de carne que não passa". Como é que o autor, protagonista dessas situações, lida sociologicamente com elas?
"Lá em São Caetano, naqueles anos 40, muitas crianças iam descalças para a escola, não era só eu. Iam de uniforme, mas descalças. Famílias economizavam os sapatos porque eles custavam caro. Viúva, minha mãe recebia pensão de 60 cruzeiros por filho, portanto, 120. Que na minha cabeça eu convertia em picolés vendidos a 50 centavos cada um. Mas um sapato custava 100 cruzeiros. Quando meu pai morreu, ela logo destinou a mim o único par de calçados que ele tinha. Esperei meu pé crescer e os usei até furar. Já a "fome de carne" me remete aos anos em que vivemos num sítio em Guaianazes, período muito duro para todos, em que minha mãe saía para trabalhar e meu padrasto fazia a comida da casa. Era sempre arroz, feijão e repolho cru. Uma vez ou outra tínhamos caça, o que me fez odiar para sempre esse tipo de carne. Meus avós trouxeram referências culinárias de Portugal e Espanha, mas a pobreza era tanta que elas se transformaram em comidas rituais, só para datas específicas."
A acomodação ao universo caipira e a socialização discrepante dos imigrantes - como a da própria mãe do autor, filha de espanhóis que não tomava café com medo de "ficar negra", mas cujos pais trabalharam na lavoura estigmatizada pela escravidão - vão constituindo seres culturalmente híbridos, que acabam se defrontando na São Paulo operária com a racionalidade da grande indústria - experiência fascinante, ao mesmo tempo dura demais para quem vinha, como lembra Martins, "do mundo mágico e místico de uma transição inacabada entre campo e cidade". As fábricas, em seu processo de modernização, iriam se tornar uma espécie de Disneylândia dos pobres naqueles bairros do ABC. Neste ponto e a certa altura do livro, o autor faz sua crítica a Marx, pois "ele se esqueceu de que o operário não é unicamente o ser humano no processo produtivo, no interior da fábrica, a extensão da máquina, da produção fragmentada e setorizada. (...)Fora da situação de trabalho, na sua vida cotidiana, os operários dos diferentes setores de uma mesma fábrica conversam entre si. São vizinhos, viajam no mesmo trem ou no mesmo ônibus. Muitas vezes em conversas de botequim a inteireza do processo de trabalho se torna evidente e consciente".
As memórias da fábrica têm a ver com os anos em que o autor trabalhou, ainda jovem, ou "de menor", como se dizia, na Cerâmica São Caetano, indústria modelo que investia na formação de certos empregados - entre eles, Martins - para criar uma geração que pudesse entender a língua dos engenheiros. Pois foi com a ajuda da fábrica que o autor fez os estudos que o levaram à USP e à sociologia. E foi lá que ele presenciou, como descreve neste livro, embora já tendo analisado em outro, uma rebelião de operárias digna do melhor realismo fantástico, motivada pela aparição do demônio na fábrica. Explica-se: quando a empresa iniciou um processo de mudança tecnológica radical, uma divisão de operárias acusou um problema na linha de produção, ou seja, os ladrilhos saíam trincados dos fornos. As cores das peças davam diferença, também. Jamais "aquilo" acontecera. As operárias se estressaram, passaram a ver o demônio num canto da fábrica e, juravam, ele se parecia com os engenheiros! Algumas desmaiavam de pavor. Outras se rebelaram. A solução foi trazer o padre da paróquia para benzer o lugar. O demônio sumiu e os engenheiros acharam o que havia de errado nos fornos. Milagre.
"Como procuro tratar no livro, o conservadorismo proletário é instintivo e autodefensivo. A verdade é que nunca houve uma revolução realmente proletária no mundo, nem mesmo a Revolução Russa. Marx escreveu o que escreveu por inspiração de uma operária analfabeta de origem irlandesa, Mary Burns, que revelou a Engels o mundo opressivo da classe trabalhadora na Inglaterra. Então o proletário de Marx é teórico! Quando atravessa fase boa e estável, o proletariado não quer mudar nada...e mesmo aquele operariado do ABC só se manifestou, na passagem para os anos 80, porque havia grandes transformações em curso nas fábricas, gente sendo substituída por máquina, e eles viram a ameaça aos empregos. Mas, hoje, quem são os carecas do ABC? Quem são esses jovens ultraconservadores? São justamente os filhos dos sindicalistas que fizeram assembleias em Vila Euclides. Até Lula, o operário que foi ao topo do poder, provou que é e sempre foi conservador. Comportou-se na Presidência como na mesa de negociação da empresa."

Friday, August 26, 2011

o hipoglos

Eu vi! Ele, por descuido, nunca se sabe, esqueceu de tirar o hipoglos da bochecha. Foi para a loja, tomava um café e lia despreocupado. Até que interrompido por uma mulher nem velha nem moça, nem feia nem bela, nem isso nem aquilo, apenas um tanto "boazinha abobalhada", por assim dizer, nas maneiras e embargo de voz, mas de olhinhos generosos, olhinhos que  fotografaram e emolduraram o rapaz do hipoglos, por causa do hipoglos, isto é, do gesto do hipoglos, que ela reconheceu como seu - o gesto, o hipoglos, talvez mesmo o rapaz também, tal a felicidade e "familiaridade" que ela irradiava por ter encontrado uma alma gêmea, quiçá, pois ela também, como lhe disse eufórica, não é de ficar em casa para deixar o hipoglos na cara, ou tirar da cara o hipoglos pra sair de casa, a casa, a cara, contradição ou espelho, quem é que disse que tertium non datur?! Pois ela sai com hipoglos na cara, contradição resolvida, talvez não apaziguada entre tantos juízes que nos condenariam pelo hipoglos. Mas ela, em seu despojado, ou em seu desleixado, nem feia nem bela, nem isto nem aquilo, ela reconheceu ser o rapaz a sua (dela) cara, e no hipoglos na cara do rapaz, como que a moeda partida e partilhada entre os dois amigos na antiga Grécia, forma de reconhecimento futuro, ao regressarem. Essa partida com moeda partida e partilhada, para depois ser reunificada, é a origem da idéia de "símbolo". 
-Unzuhause- 

vampiro na Folha


O CASTELO DO TERROR METAFÍSICO
by CAIO LIUDVIK
FOLHA DE SÃO PAULO- GUIA DA FOLHA, 27 agosto 2011


"Só uma geração desiludida poderia se entusiasmar por uma visão tão negativa da história. Só da história? Da existência em geral. É preciso reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir um sentido ao que visivelmente não tem".
Nesta carta a José Thomaz Brum, tradutor dos seus quatro livros recém-reeditados pela editora Rocco, Emil Cioran (1911-1995) ajuda-nos a entender o crescente fascínio despertado por esse filósofo trágico e sombrio, de que se comemora o centenário de nascimento este ano. A carta, incluída na edição brasileira de "Silogismos da Amargura" (o título já indica o pathos negativo de seus aforismos) é de 1990, contemporânea, pois, do colapso do socialismo real, último suspiro da "epilepsia" (metáfora tão dostoievskiana, e amada mas conjurada por Cioran) ideológica que banhou de sonhos e sangue o século XX. E a crise das projetos de transformação messiânica da sociedade, à direita e à esquerda, é um dos temas centrais do pensador franco-romeno. Nascido na vampiresca Transilvânia, o castelo tenebroso de suas idéias niilistas e pessimistas parece despertar até no leitor mais prevenido a sedução paradoxal do "brilho do nada de tudo o que vive". Inimitável em sua riqueza e autenticidade, Cioran faz mais do que rebaixar toda utopia a fanatismo sanguinário, e toda ideologia "forte" a totalitarismo –uma de suas obsessões, foco de seu "História e Utopia", evocado no desencantado filme "As Invasões Bárbaras", de Denys Arcand. Este livro, segundo alguns comentadores, pode ser lido como um mea culpa de Cioran, que na mudança para a França deixou para trás não só sua língua natal, mas um obscuro passado de militância fascista. Quanto à língua, aliás, cabe destacar que o "Breviário de Decomposição", o primeiro dos seus livros em francês, foi reescrito quatro vezes antes de publicado em 1949. O que indica não mais se tratar de um jorro juvenil de conteúdos anímicos elementares, mas construção calculada, um tanto alheia ao desespero de seu cerne, embora não devamos cometer com Cioran a injustiça que ele faz a Sartre de acusá-lo de ser um "empresário das idéias".
Mas houve sim para ele uma notável convergência entre oferta e procura. Numa Paris ainda traumatizada pelo desastre da guerra e da ocupação nazista, e que entrava no debate apaixonado sobre o engajamento de esquerda (contra o qual a direita usou sistematicamente o recurso de igualar nazismo e comunismo), todo seu entusiasmo vitalista de outrora cede lugar à crescente amargura e cansaço metafísico. Seu alvo é não só o "terror da História" (tema que ele compartilha com o conterrâneo Mircea Eliade), mas a própria existência, desnudada como ilusão, farsa e gozo sádico de um gênio maligno, figura mítica que já não é mais mera hipótese, como para o otimismo racionalista de Descartes. Mais aparentado a um Pascal, Cioran vê a raiz de grande parte de nossos males (os deliberados, afora aqueles aleatórios e inerentes à vida enquanto tal) na nossa incapacidade de ficarmos sozinhos e quietos no quarto. 
Como que um místico para uma geração órfã de Deus e dos desejos de libertação coletiva, Cioran em alguns momentos parece radicalizar a tradicional teologia apofática (que busca o transcendente mais pela recusa de seus falsos semblantes). Mas o recolhimento contemplativo que ele favorece se esvazia dos antigos conteúdos dogmáticos. Restam vivos, como instrumento de meditação imanente, os mitos, por exemplo o dos gnósticos, heresia que denunciava o deus do Antigo Testamento como um demiurgo canalha, mas mais eficaz, por isso mais ativo na História, do que o deus "bom" de Jesus Cristo.

E resta também uma notável capacidade de empatia e afeto, como se vê nos seus "Exercícios de Admiração", auto-retratos camuflados nos perfis que traça de amigos (entre eles Samuel Beckett) e "aliados" ideológicos (sim, a ideologia não morreu...) como o ultra-direitista Joseph de Maistre, mas também de autores que o atraíam por contraste, como Eliade e Fitzgerald.
-Unzuhause-


vinde, Emanuel!




Vinde, Emanuel!
Conosco habitai
Preencha-nos
vosso vazio,
vosso som
vossa voz
vosso om
vosso sou,
Paz a louvar
Num respirar
Prontidão, trabalhar
Saber o sabor 
destino de chão
na dança mudança
no mudo deleite
de ver sem venda,
justiça de espírito,
naquele que,
nega-se a si,
reveja-se em ti
Vinde Emanuel..

Wednesday, August 24, 2011

fé murcha

A pesquisa que leio hoje na Folha -falando da queda de católicos e crescimento de evangélicos mas sobretudo dos "sem-religião"- me inquieta, entre outros motivos, pela sincronicidade em relação a uma conversa ontem na USP. Um velho amigo livreiro, grande ateu de guerra, adorado e engraçado interlocutor.
Entre suas muitas virtudes, o pessimismo cioranesco ante todas as utopias, sobretudo as que moveram sua própria vida, integrante que foi da Libelu (Liberdade e Luta, movimento trotskista) nos áureos tempos de resistência anti-chumbo ditatorial. Ouro e chumbo sempre convivendo na polis-poiesis alquímica das coisas. Foi guerrilheiro e prisioneiro. Recentemente lançou o primeiro volume de sua auto-biografia, que já no título brinca com o irrecuperável  "tempo perdido" perseguindo miragens de que a sociedade pudesse chegar a um nível mais decente, mesmo se fosse contra a vontade do papai do céu e da "natureza humana". Falando em pai, meu caro amigo tinha um pai tão radicalmente anti-clerical quanto ele (no sentido incendiário, dramático desse tipo de posição na Espanha de Franco, onde o pai militou pela causa anarquista). E o pai costumava lhe dizer, como o judeu contra o palestino, como o cristão contra o pagão, e vice-versa: "Não dê trela pra esses padrecos, sobretudo os de bom coração", os generosos, os que praticam o evangelho na vida, na partilha do pão e da oração. Isso porque esses sacerdotes, como exemplos do Verbo que se faz carne, seriam um anti-exemplo mais grave do que os inimigos caricatos para a redenção do homem ante toda a baboseira religiosa. Seriam um "atraso" do cronograma da desalienação. Homens de fé autênticos tornam sua fé mais bela, sedutora (sedução= desvio, na etimologia) e por isso, do ponto de vista ateu, "perigosa" para a nova catequese. É por isso, prossegue meu velho amigo e mentor uspiano, embora melancólico quanto aos rumos da História, que podemos ao menos comemorar uma pequena vitória:  um papado como o atual. Desastres como Ratzinger mereceriam de qualquer ateu um pai-nosso e mil velas de gratidão, são figuras meticulosamente adequadas à ruína da mentira encarnada por essa instituição, que  parece, atualmente, estar se limpando de seus desvios de esquerda, e querendo crentes de melhor qualidade, mesmo que em menor quantidade, "gente diferenciada", ou seja, carneiros tosquiados à feição de suas misérias.
Dei muita risada escutando, mas quanto a mim não sei; sou radicalmente pluralista, pra mim a riqueza do cristianismo, desde as origens, está também na sua diversidade, conflito, inculturações múltiplas. Não haveria o charme juvenil da heresia sem a sombra da mão pesada da ortodoxia. Mas que a pesquisa de hoje vem a calhar para uma argumentação como a de meu desencantado amigo cioranesco, lá isto é fato.
-Unzuhause-  

Queda de católicos atinge todas as classes



De 2003 a 2009, a queda na proporção de brasileiros que se dizem católicos, de 74% para 68%, ocorreu em todas as classes sociais. Ao mesmo tempo, aumentou a porcentagem dos sem religião em todos os grupos de renda.
Esses são dados de um estudo divulgado ontem pelo economista Marcelo Neri, da FGV, feito a partir da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), do IBGE.
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2408201112.htm

Tuesday, August 16, 2011

fica, Andrés!!!

Pode ser pavio curto, falastrão, aparecido -características em si neutras, mas virtuosas ou não conforme o modo, direção,  indivíduo que delas faz uso, daí a diferença de Andrés para um Roque Citadini. Pode errar muito e até ser amigo do Ricardo Teixeira. MAS É UM PRESIDENTE SENSACIONAL PARA O TIMÃO, é O MAIOR DE TODOS OS TEMPOS, AO LADO DO MEU AMADO VICENTE MATHEUS. FICA ANDRÉS!!!!!!!! No futebol brasileiro, MEDIOCRIDADE, INCOMPETÊNCIA E BANDALHEIRA SÃO UM MONSTRO SEMPRE À ESPREITA, podem dormitar por um tempo mas logo vemos sua mão podre se reenguendo no pântano. Por isso essa transição eleitoral do final do ano me preocupa muito. Andrés levantou um clube destroçado e humilhado, que agora se reencontra com sua vocação de superpotência. Bocudo, toscão, inteligentíssimo, trouxe de volta para nós filhos de São Jorge o direito à ambição criativa, de que o Itaquerão,o novo  centro de treinamento, Ronaldo Fenômeno, o departamento de marketing são grandes sintomas. Corintiano pode assim se dedicar a sua sina, sofrer, mas dentro das fatídicas quatro linhas que resumem um mundo, pode seguir viagem entre infernos e alturas,  ganhando e perdendo, perdendo e ganhando, porém animicamente forte. Com a grandeza essencial refeita de maior, mais dramático, mais polêmico, mais intenso time do Brasil.
-Unzuhause-

Thursday, August 11, 2011

lodo, sol e pastorinhas



Tal como Santa Mônica para Agostinho, Mamãe Unzuhause foi decisiva à minha (re) conversão. Não para algum retorno conformista a esta ou aquela instituição, não quero religião que adestra a macacada , não quero teologia que tampone o escândalo da vida, não quero psicanalista grosso berrando para me moldar a suas pesadas vontades, ops, verdades,  não é papa nem pastor, não é bolinho de pão em mãos sujas, é o Deus obscuro que mata e que salva. Me entendo com a música e sensualidade mística do Evangelho, me converto a pastorinhas cantantes. Uma Fernanda Brum me comove mais que mil provas de deus e tickets do céu. Depõe minhas armas críticas. No lodo escuro e pegajoso do pecado, estava eu afundado, sangrado e desesperado, e escutei o cântico sussurrado, doloroso e compassivo, não com essas mesmas palavras: filho, como você pôde descer tanto? Por que chegou até isto? E seu amor por Santo Agostinho? De lá pra cá, ainda com as chagas mal cicatrizadas, me arrasto sob a sombra do Senhor, no rastro da flauta órfica das pastorinhas e sob a frágil lamparina originária daquela noite com minha mamãe Mônica, em busca de con-sol-ação pelo meu pecado, remediamento para minha hemorragia, e força para a vitória.
-Unzuhause-

Friday, August 05, 2011

cultura prostituta

Depois de ter contado com o brilho de um Yves Saint-Laurent, etiqueta do advento da mulher moderna, e que está comemorando 75 anos, a "liberação" feminina de hoje em dia (cada geração tem os ídolos que pode, não os que quer) se festeja a si própria  com o uniforme (existencial) da prostituição glorificada.. como o grunge, o skatismo, a capoeira etc: os trajes da "cultura marginal", no caso, os das prostitutas, tornados uniforme geral, e seu potencial contestatário assimilado e barateado pelo status quo imoral, pela cultura prostituta. Depois vão reclamar de nossas criancinhas prostituídas pela volúpia assassina de adultos, crianças sem pai nem mãe nem respeito nem pudor..
-Unzuhause-

05/08/2011 - 07h00


Prostituta com poderes sobrenaturais será destaque em "Fina Estampa", próxima novela das nove


MICHELE GOMES


Colaboração para o UOL, do Rio
 
Joana Lerner, de 27 anos, ficou emocionada ao ouvir Aguinaldo Silva falar publicamente de sua personagem - e somente de sua personagem - durante o projeto "Cenas de um autor", que aconteceu no dia 18 de julho, no Rio de Janeiro. "Tem uma personagem muito especial, ela tem uma sensibilidade fora do normal e vai ser um dos destaques da nova geração", disse o dramaturgo, que assina "Fina Estampa", próxima novela das nove da TV Globo, que estreia dia 22 de agosto. Joana será Luana, uma prostituta, que se veste de maneira exótica e provocante, com direito a dreads no cabelo e maquiagem muito pesada. O mais curioso, no entanto, é o fato de ter algum poder especial: "Ela tem uma sensibilidade mais apurada e vai começar a sentir coisas e prever situações, mas não vai gostar nada disso", revelou a atriz, em entrevista ao UOL.





(...)

Monday, August 01, 2011

leão de Deus


Em memória do leãozinho Ariel, cuja agonia e morte deixaram meio mundo de coração partido, semana passada. Soube de detalhes da trajetória do bichano numa matéria na TV agora há pouco, que já conseguiu me deixar ébrio (de dor e lágrimas) em plena manhã de segundona dia primeiro. Compaixão por Ariel, nome hebraico para "leão de Deus". Compaixão por nós, por mim também, ser precário ainda mais miserável por saber-me (ou supor-me) o eu do mundo, como imagino ou suponho que os outros o façam em relação a si próprios. Dukkha satya, "tudo é sofrimento", ensinava o Mestre do Oriente: o que não preciso de letras de só ler pra ouvir na "paixão" crística -lembrou-me o leãozinho sacrificado das crônicas de Nárnia- da criaturinha inocente cujas feições "humano-ideais" negritam e sublinham, no contraste do irreversível apagamento das letras e canções amorosas do eu, a crueldade de toda doença incapacitante e mortal - heterônimos de horror da Artista bacante, amável quando quer, chamada Natureza.
-Unzuhause-