sexta-feira, julho 30, 2010

Jagunça Sherazade


Minha cara-metade é uma Jagunça Sherazade, e Diadorim das vendettas em nome de Alá e nossa mãe Maria com os pés sobre a serpente e beata beatriz da travessia dos umbrais do inferno do sultão fechado em seu próprio rancor antes de reaberto pela lavra que vem da pa-larva e se transmuta em Pa-lavra fecunda de outros caosmos hipoteticamente reais. Assomação assombrada que me faz suportar céus e lodos à procura dos lótus de alguma alquimia que não seja mera fraseologia bem intencionada do condenado no estéril. Sarjetas e templos, castelos e oásis, os íncubos e súcubos da longa jornada de mil e uma vezes noite a-dentro (no dentro e em seu oposto, sem dialética), mãos dadas com a mão invisível não da quimera hipócrita, mas da doce inverdade poética incubadora da Jagunça Sherazade me contando a mim mesmo, em gestas épicas e gestos sutis.
-Unzuhause-
PS: palavras que me vieram ao sopro da seguinte canção:

sábado, julho 24, 2010

desabafo na arquibancada vazia


Até dormi mal de ontem pra hoje, tamanha a inquietação com a notícia que veio a se confirmar na manhã deste sábado: não contente com o lixo de campeonato brasileiro e de seleção brasileira que impõem goela abaixo de todos, a CBF acaba de fazer o favor de nos tomar o técnico responsável pelo renascimento do Timão após o caos do rebaixamento. 
Minha torcida pelo Brasil se encerrou na derrota nos pênaltis para a França, na Copa de 1986. Não pela derrota em si, aquele jogo foi tão maravilhoso e passional que o resultado fica sendo de menos. Os grandes espetáculos , na arte ou no esporte, justificam-se por si mesmos, justiça e injustiça, bem e mal, vitória e derrota ficam aquém do significado que explode e se vive.
Refiro-me a tudo o que se seguiu dali em diante, na virada dos anos 80 para os 90, por efeito da maldita globalização neoliberal e mercenarização geral: êxodo maciço dos jogadores, consequente perda de força dos clubes e de identidade da seleção, era Dunga, era Parreira, seleção, ou melhor, o time da CBF, virando sinônimo de balcão de expropriação e exportação (os torcedores de clubes sabem que, quando um jogador do seu time é chamado, é hora de dizer "good-bye" para ele, arrancar aquela foto do álbum afetivo, pois ele nem voltará da convocação, sendo negociado imediatamente com o estrangeiro) e o dourado da antes gloriosa camiseta tricampeã do mundo desbotando, empalidecendo, perdendo a graça que não foi recuperada, nem de leve, mesmo com os outros dois títulos "burrocráticos "que vieram a acontecer. Mais recentemente, esse lixo de Brasileirão, esse Arrastadão, com seus times medíocres e fórmula insuportável, monótono amontoado de joguinhos, sem o crescendo das fases decisivas e da grande final - um atentado a todos os cânones da dramaturgia viva do futebol. E hoje, a nova expropriação cebefedorenta. Não bastassem as tantas incompetências e arrogâncias. O vôlei mais forte do mundo é o brasileiro (e, ele sim, conta com meu respeito, amor e identificação patriótica), e nele, além da maioria dos jogadores jogarem no próprio país, um técnico genial como Bernardinho não tem que ficar coçando o saco e convocando jogadores para amistosos vagabundos até a época da Copa.. podem permanecer trabalhando em times, se dividindo perfeitamente bem entre as duas funções. Bernardinho abrilhanta a Liga Nacional feminina de clubes, e nem por isso deixa de ser o mestre supercampeão que é da seleção masculina há tantos anos. 
Que o time da CBF perca a final da Copa de 2014 para a Argentina no Maracanã!

segunda-feira, julho 19, 2010

o místico do silêncio (19 de julho, dia de Santo Arsênio)

Santo Arsênio, "fundador dos anacoretas e animador dos eremitas, no século IV da era cristã"


Deus fala no silêncio!


CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro


As sagradas páginas da Bíblia testemunham e exaltam o Verbo Divino, Encarnado no ventre da Virgem Maria, expressando, de modo admirável, a ação benevolente de Deus, cujo designo consistiu em revelar-se a si mesmo e manifestar o seu amor por meio do seu Filho unigênito, trazendo, assim, a salvação aos homens. Tendo constatado a precisão com que Deus falou, outrora, a nossos antepassados por meio dos “profetas” e nesses, que são os últimos tempos, o modo como fala-nos por meio de seu Filho único (cf. Hb 1,1), as Sagradas Escrituras não deixam de acenar para a necessidade do silêncio humano diante de tão grande mistério. “O Senhor é bom para os que nele esperam e o buscam; é bom esperar em silêncio a salvação do Senhor; tudo irá bem ao homem que suportar o jugo desde jovem” (Lm 3,25-27).
Definitivamente, o silêncio conquistado por Nossa Senhora, em sua vida, não era inato, nem sequer estático, mas, sobretudo, dinâmico, de atitude diante de tudo o que era revelado (cf. Lc 2,19). Canta-se, com insistência, em nossas comunidades à Virgem do silêncio: “Virgem, que sabe ouvir o que o Senhor te diz, crendo, geraste, quem te criou. Ó Maria, tu és feliz!”
O silêncio espiritual, portanto, não pode ser considerado como mera passividade diante das grandes turbulências da vida, tampouco como a inércia psicológica estruturada pelo misticismo.
Ora, a Tradição da Igreja preserva inúmeros testemunhos da riqueza espiritual, vivenciada pelos santos, através do silêncio. A respeito disso, destacamos a expressiva e contundente consciência de Arsênio, fundador dos anacoretas e animador dos eremitas, no século IV da era cristã: encontrou respostas precisas sobre o silêncio no imperativo divino, que norteou sua vida e suas instruções: “Foge, cala e repousa [FUGE, TACE, QUIESCE]” (Arsênio, 1.2).O primeiro imperativo de Arsênio é uma resposta bastante coerente para os cristãos, em especial para aqueles que vivem em grandes centros metropolitanos, como é o caso da vida proposta pela agitação carioca. Opõe-se sensivelmente à proposição psicológica da fuga da realidade ou da angustiante insanidade do espiritualismo desencarnado e insiste na atividade da consciência humana, que é orientada para a realização última do homem. Ao invés de escapar para o deserto em busca de uma estrutura fantasiosa, o eremita era impulsionado a encontrar um lugar de estabilidade e segurança, por meio do qual sua vida era centralizada nos ensinamentos de Cristo, orientada pela graça e confirmada pela comunidade eclesial, com a qual nunca perdera os laços.
A experiência dos Apóstolos no lago de Genesaré face à tempestade e, em especial, a provação de São Pedro, caminhando sobre as águas, traduzem o valor da exortação para o refúgio na quietude: nunca se limitou em superar as agitações, o medo, os barulhos, a escuridão da noite ou a violência das circunstâncias, porém, a partir da virtude da fé, o imperativo “fugir” se verificou na firmeza inspirada e assegurada por Cristo (cf. Mt 14,26-33). Portanto, o primeiro passo na mística do silêncio é a centralidade da vida cristã firmada em Jesus Cristo.Ademais, ao recomendar a quietude, Santo Arsênio apreciará o silêncio como domínio das más inclinações do espírito humano e fundamento das virtudes. O silêncio acentuado pelos santos facilita ao fiel o detectar das raízes da soberba e da prepotência em si mesmo, para, assim, continuar crescendo na fé. Havendo ressentimento em seu coração, por aquilo que o silêncio indica, os seus sentimentos serão purificados e reordenados. Assim, diante do aquietar-se o homem enxerga os ideais de conversão, propostos pelas bem-aventuranças, abrindo-se cada vez mais à vida nova, oferecida por Deus.A terceira e incisiva exortação do monge anacoreta é a necessidade do repouso. Como os outros imperativos, também este precisa ser entendido para além das noções de passividade. Esse repousar segue o percurso da doação extrema, da entrega absoluta. A capacidade de silenciar é verificada pela disposição da doação sincera, que conduz à quietude. Não é aquele silêncio estimulado pelas monótonas recitações e repetições viciadas, por vezes necessárias à vida de oração, que acabam por se converter em descanso e sono. Esse silêncio supera a rotina e rompe com a preguiça. É, portanto, a força da voz de Deus na vida do homem. Palavra ofertada, Verbo Encarnado, Deus, feito homem... Comunhão! O silêncio revela a vivacidade e a eficácia da palavra de Deus, que “é mais penetrante que a espada de dois gumes, penetra até a separação da alma e espírito, articulações e medula, discerne os sentimentos e os pensamentos do coração” (Hb 4,12). Esse silêncio é mais expressivo que as línguas e qualifica a caridade: “o amor é paciente, é afável; não é invejoso nem fanfarrão, não é orgulhoso nem faz coisas inconvenientes, não procura o próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acabará...” (1Cor 13,4-8a). Tudo o que se opõe a isso é considerado metal estridente, címbalo que retine, não pertence ao silêncio.
Foge para estabilidade, cala em função do domínio de teus impulsos e repousa, a fim de seres generoso! Ouve a voz do teu Divino Mestre e tudo o que fizeres, faze em segredo, em silêncio, e o Pai celestial, que tudo vê e conhece, te recompensará! Silencia, para vencer o amor próprio e o egoísmo(Mt 6,4), cala-te, para alcançar a comunhão com teu Deus e com teus irmãos (Mt 6,6) e aquieta-te, para que cresças e, em tuas fraquezas, encontres a força espiritual de que precisas (Mt 6,18), para avançar, sempre mais, no caminho da intimidade com Deus e da santidade.

sexta-feira, julho 09, 2010

escola magicka



Aleister Crowley (1875 - 1947)
Sobre a Educação das Crianças - Aleister Crowley

I. Cada criança deve desenvolver sua própria Individualidade, e Vontade, ignorando Ideais alheios. Na Abadia de Cefalú [ou seja, a Abadia de Thelema, criada por Crowley em Cefalú, comuna italiana da região da Sicília, província de Palermo] seus recursos e originalidade são testados em contraste com vários meios. São confrontados com vários tipos de problemas como nadar, escalar,tarefas de casa, e deixamos que elas os solucionem de seu próprio modo. Seus subconscientes são impressionados com composições literárias da mais alta qualidade, as quais são deixadas para infiltrar automaticamente as suas mentes sem stress seletivo ou perguntas conscientes de compreensão. Nada é ensinado, exceto como pensar por si mesmo.Elas são tratadas como seres responsáveis e independentes, encorajadas à auto-realização, e respeitadas por auto-afirmações..
II. Educar é assistir uma alma a se expressar por si mesma. Toda a criança deve ser apresentada a todas as possibilidades de problemas e deve ser permitido que ela registre suas próprias reações; isto deve ser feito com a finalidade de que ela enfrente todas as contingências à sua volta até que ela tenha superado cada uma com sucesso.Sua mente não deve ser influenciada, mas apenas lhe ser oferecido todos os tipos de alimento. Suas qualidades inatas irão permitir que ela selecione o alimento apropriado para a sua natureza.Respeite sua individualidade! Submeta todos os fatos da vida à sua inspeção, sem comentários .Verdade ensina entendimento, liberdade desenvolve vontade, experiência confere desembaraço, independência inspira auto-confiança. Deste modo, o sucesso se torna certo.

segunda-feira, julho 05, 2010

supernietzsche e a careca de adão e "erva" produções orgulhosamente apresentam: assim nasceu Madame Satã


Falava em solidão dias atrás, e Deus,ou meu diabinho (daimon), já começa a semana me dando, mal acordei, um tapete vermelho (ou casca de banana) como passarela rumo à vigília: palavras de meu maior amódio filosófico, o meu caro e solitário Friedrich Nietzsche, em reflexão sobre a sina do grande espírito que é algoz dos covardes mas também presa deles . Muito da grandeza - e da tragédia- do Super-Homem da filosofia talvez se deixem ver nestes dizeres profundamente "auto-clínicos", que comovem por mostrar justamente o oposto do que dizem: a desproteção de quem esbanjava energia mas não a guardava para sua própria proteção e sanidade, um "péssimo administrador doméstico" de si mesmo, a fragilidade de uma alma que amava se odiar e fugir de si, como vemos em seu mal-estar e cismas em relação a suas maiores paixões ideais, espelhos dele mesmo, e que ele precisou bombardear para, quebrando-se, encontrar unidade no seu próprio estilhaço: recalcava o que mais o perturbava e o instigava, a mulher (Lou), o santo (Schopenhauer), o gênio romântico (Wagner). Não por acaso sua solução e condenação: solidão. E a rendição a ideais substitutos, claramente "reativos", pra usar sua própria expressão.
Sempre somos auto-clínicos, apesar e por causa de todas as perucas desesperadas que compremos, nos vestuários e perucários socialmente disponíveis da linguagem coletiva, para a nudez culpada de adão broxa comedor de Erva (ele não era muito chegado na gostosa da Eva, preferia ficar estudando com suas ervas, as comendo e as cagando; Eva, então, sempre segundo relatos apócrifos, teve de se socorrer da serpente, não por acaso a raça de homens-víboras com as quais presenteou a Terra Santa, um dos quais "iniciou" vibóricamente o próprio Adão na resolução de seus pecados broxas de antes; assim Adão se fez Madame Satã). A calvície moral e libidinal assolando os sótãos e baratas até dos travecos filosofastros mais consagrados na arte de falar merda, de fazer merda, de ser merda. Merda Mérdieval.
Não seríamos mais belos assumindo e justificando esteticamente nossas carecas, como os metrossexuais (homossexuais sublimados, segundo os maldosos, eu discordo!) que fogem da calvície justamente se raspando todinhos, e até fazendo uma barbicha charmosérrima, compensações que embelezam o destino cruel como se fosse uma questão de escolha e style?
-Unzuhause-
"Um grande nojo provocaram-me até agora os parasitas do espírito: podem-se encontrá-los, em nossa Europa insalubre, já por toda parte, e deveras com a melhor consciência do mundo. Talvez um pouco confuso, um pouco air pessimiste [ar pessimista]; no principal, porém, voraz, sujo, espalhador de sujeira, sorrateiro, acomodado, ladrão, cheio de comichões - e inocente como todos os pequenos pecadores e micróbios . Eles vivem do fato de que outras pessoas têm espírito e o distribuem a mancheias; eles sabem como isso é próprio da essência do espírito rico, dissipar-se despreocupadamente, sem prudência mesquinha, em pleno dia e mesmo de forma esbanjadora. - Pois [e este é o incipit tragoedia existencial de Nietzsche, re-velado (mostrado e reescondido) em sua própria fala autoclínica] o espírito é um péssimo administrador doméstico e não dá nenhuma atenção para o fato de que tudo vive e se alimenta dele."

Friedrich NIETZSCHE
A Vontade de Poder