Wednesday, June 30, 2010

a blue mixture blessing


Muito interessante o texto a seguir, que colho no blog do dr. Jairo Bouer. Aparentemente se trata de uma ilação óbvia (solitários adoecem mais), mas nada melhor para fugirmos da verdade dura do que considerá-la óbvia. Vira "informação" cristalizada, e não mais conteúdo que interpela para o pensar e o agir concretos na urgência e emergência do agora. Solitários adoecem mais.. sobretudo quando não sabem fazer de si mesmos sua melhor companhia. Aqui no Mosteiro, vivo por vezes a agonia da ambiguidade entre liberdade e isolamento. Mas se a vida por aqui pode ser difícil, "lá fora", quando Caio me leva para seus passeios na planície, a vida me parece insuportavelmente mais chata, achatada, plana e "óbvia", sem espírito, sem alma. O Sol da esterilidade por vezes faz meu corpo queimar e descascar de desilusões, e preciso, sem eloquência, apenas voltar. Casa. Quarto. Quatérnio. À meia-noite, à meia-luz, no escuro do meu quarto, como dizia a música (brega de se citar nos cercadinhos da hipocrisia esclarecida, ótima de se ouvir e compreender nas rodas mandálicas do íntimo) de Guilherme Arantes:
Nessa solidão não morro doenças, revivo em convalescência do que a pseudocompanhia dos homens vulgares tirou de mim, e faço-me apelo, sem "afetação" mas afetado de profunda humilhação, pelos socorros do Espírito. Como diria Goethe sobre o romantismo, a solidão é doentia, mas não me venham tirá-la de mim ou melhor, me tirar dela. A não ser, e se é que aqui se abandona a solidão, quando o encontro com o outro é intenso, verdadeiro, portanto rasgante, portanto cátaro (palavra que quer dizer puro, assim como "catarse" é purificação), sob a bênção de minhas musas "Catarinas", na solidão pura comungada com outras almas errantes deste planeta difícil.
-Unzuhause-
++++
Solitários têm mais problemas de saúde
http://drjairobouer.blog.uol.com.br/arch2010-06-27_2010-07-03.html

Uma pesquisa feita na Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, mostrou que pessoas solitárias apresentam mais problemas de saúde. Foram entrevistados 265 adultos de 19 a 85 anos. Os questionários abordavam perguntas sobre suporte social, solidão, estresse, comportamentos relacionados à saúde e a saúde propriamente dita.
Os resultados mostraram que o sentimento de solidão estava mais associado ao número de relações próximas do que ao número de contatos em redes virtuais de relacionamento. Além disso, a solidão estava mais vinculada com menor apoio social e mais problemas de saúde. As pessoas solitárias dormiam com menos qualidade e tinham menor aderência a tratamentos médicos, o que explica parte da maior prevalência de problemas de saúde.
Para ler mais sobre a pesquisa acesse
http://www.informaworld.com/smpp/content~db=all~content=a922585101~frm=titlelink.
Escrito por Jairo Bouer as 10h35

Wednesday, June 23, 2010

o mais lindo uniforme de todas as copas do mundo


Lothar Matthaus, meu ídolo, líder e craque da seleção alemã campeã mundial de 1990
Tempos mágicos daquela Copa do Mundo de 90, com meus avós percorrendo, atrás da bendita e difícil camisa da Alemanha, distâncias tão imensas quanto o amor deles pelo netinho e o amor e torcida do netinho por aquele esquadrão, amor intuitivo e fulgurante que já se estendia confusamente para o "Geist" (espírito) alemão, antes mesmo de eu vir a conhecer melhor e me identificar com o romantismo, a filosofia, a mística, a música da terra de Goethe, minha Alemanha interior, pátria sem fronteiras, território unzuhause por excelência (já meu nome vem de meus ancestrais germânicos rs). Pra acompanhamento da contemplação do mais lindo dos uniformes de Copas do Mundo, sugiro o mais lindo dos hinos nacionais, adivinhem de quem rs:

Wednesday, June 16, 2010

memória do futuro - uma medieval teologia da libertação


Caríssimos,
Aprender História é fundamental para não sermos prisioneiros de miragens fixas de nosso próprio deserto pata-agônico de preconceitos, inseguranças e ausência de experiência vital.
Viajar muito? Meu sonho. Mas viajar sobretudo no tempo, ou via tempo, no aprofundamento Histórico do Ser que eu mesmo sou mas que me ultrapassa. Viajar no espaço, além de me tirar do adorado Monastério e Biblioteca, me incomoda conceitualmente: vejo o turismo superficial como mais um sintoma da maléfica cultura da "mobilização" (Sloterdijk), a pressa de ter mais pressa, se mexer para se mexer mais, consumindo e colecionando paisagens, variante, em plena sociedade capitalista do lazer e prazer alucinado, do velho "divertissement" de Pascal e alienação de Marx.
E as viagens Históricas têm isso de fascinante, entre outras coisas: não serem mera mobilização cerebral -a variante pseudo-intelectual do divertimento, este à base da heroína de leituras sem viço, sem vida, compulsivas-, mas retorno a nós mesmos, num nível do Eu mais profundo, transpessoal. Falo em viagens Históricas a modo de peregrinações espirituais que nos fazem acessar uma memória não do passado morto e empalhado, e sim acontecimento adiante de nós mesmos, abertura para o kairós que alquimiza o ontem e o agora num devir, incerto, contingente, livre, sem precisar de mobilização artificialesca, espiral de recuos a novos futuros possíveis, inaugurantes provocações (palavra tão desgastada na boca infecta de nossos pinguins do paletó preto, em raivosa campanha para sair da geladeira de sua casinha de origem e serem colocados, em vertiginosa ascensão social!!!, em cima das geladeiras militares da Direita reacionária).
Um exemplo de viagem Histórica que eu menciono como especialmente fascinante, para a busca da espiritualidade, segue aqui: pequeno estudo sobre os cátaros, heresia esmagada, submetida a Holocausto -o sofrimento e a injustiça estão longe de serem privilégios de um só "eleito"- pela Direita reacionária medieval. Destroçada pelos egoísmos instituídos de sua época, a utopia cátara segue contudo ainda viva, sim, uma insurreição espiritual e, por consequência, política, viva como arquétipo medieval retomado, por exemplo, no século XX pela teologia da libertação, ainda que a índole de revolta político-social desse movimento teórico e pastoral tenha parentesco mais direto em outra das heresias medivais, a dos anabatistas.
Mas nem a teologia -contemplação amorosa de Deus-, nem a libertação podem ser congeladas ou separadas em compartimentos, são Tudo ou Nada, ou ambos, são a paz profunda e a guerra contra os satanases da alienação, da opressão, da vaidade mesquinha e insegura, da morte, em suas dimensões materiais e anímicas.
É viagem no Tempo rumo ao além-Tempo, re-volta que volta ao reino do Pai silencioso, para além das ilusões impostas pelo Mau Demiurgo encastelado em nossas almas, corpos e em nossa natureza corrompida pelo pecado, pecado maior e único, o pecado de não amar. Amém. Amem!
-Unzuhause-
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OS CÁTAROS
(imagick.org.br)

Cátaros. Estranha palavra... desconhecida de muita gente, graças ao sistemático labor de promover seu esquecimento, pelo extermínio de seus representantes, pela queima de seus livros, pela perseguição de seus simpatizantes...
(...) a tragédia cátara é mais um exemplo, eloqüente ao extremo, da luta entre os valores progressistas, liberais e inovadores, baseados na essências das coisas, contra os valores conservadores, estáticos, calcados nas aparências. Há um quê de paradoxo nesta polaridade... A instância liberal e renovadora tenta restaurar o que é prístino, original, primordial, enquanto que a instância conservadora intenta manter e conservar a distorção perpetrada, ao longo dos milênios, dos valores primevos.
Essa eterna luta entre opostos está presente em tudo. Foi magistralmente descrita no Bhagavad-Gitã, na luta entre Kurús e Pandavas, entre lunares e solares; manifestou-se na política, expressa pelos pólos das "esquerdas" e das "direitas"; na Lenda de Teresópolis se apresenta como Gurupiaras e Caacupês; é Rama contra o gigante Ravana, do Ramayana; é Blavatsky, ao lado de Garibaldi, contra o Papado, nas guerras italianas de unificação; são os primitivos gregos, já arianos, contra a vergôntea atlante decadente; é a lide do demônio contra o macaco, do simbolismo dos Arcanos X e XI- A Necessidade e A Coragem; é a nossa luta interna, que nos faz, ora progredir, ora retroceder, na caminhada evolucional.
No evento cátaro, as forças conservadoras, reforçadas pelos valores desagregadores do ciclo decadente, levaram a melhor... materialmente falando. Perto de um milhão de pessoas, notem bem, UM MILHÃO de pessoas, entre cristãos cátaros, simpatizantes de sua Causa, e os próprios católicos, por habitarem uma cidade cátara, morreram queimados, mutilados, empalados, esquartejados, e eviscerados por aqueles que se também se intitulavam "cristãos", mas que, como sói acontecer até os dias que correm, tinham uma conduta oposta aos postulados mais básicos da Divina Mensagem do Excelso Jeoshua.
Pouca gente sabe disso, mas o extermínio dos cátaros, também chamados de "albigenses", por ser Albi uma das cidades cátaras, inaugurou um gênero novo de estratégia militar, a Cruzada. Pelo sucesso da tentativa, promoveu-se depois as conhecidas Cruzadas contra o Islã. O que passa desapercebido é que a Cruzada contra os Cátaros foi a única Cruzada DE CRISTÃOS CONTRA CRISTÃOS...
O cenário é a França do Século XII. O Sul da atual França era então formado de inúmeros feudos. Região rica e progressista, com acesso irrestrito ao Mediterrâneo, senhora de uma unidade étnica e filológica próprias, caracterizada, como é até hoje, por um espírito mais aberto e tolerante e um clima mais ameno, o Sul prosperava, e se abria à liberdade de espírito. A região do Langue d'Oc (literalmente, da língua ocitânica, falada até hoje, e inclusive ensinada, ao lado do francês, nas escolas da região), reuniu, efetivamente, uma mistura explosiva: riqueza, sentimento separatista da Coroa Francesa e Liberdade de Pensamento...
No que concerne à liberdade de pensar, o catarismo espalhou-se rapidamente na região. Provindo de um amálgama entre os postulados de Mani, eivados da Sabedoria Oriental e do Zoroastrismo, e os ensinamentos de Jeoshua, o catarismo (de kathar, grego, que significa, "puro") teve grande aceitação, principalmente entre a plebe. Entretanto, curiosamente, os nobres e senhores feudais da região, se não o adotavam como religião, o apoiavam, pois a filosofia cátara não os incomodava com os dízimos, as obrigações e as chantagens características do clero católico corrompido. Patrocinados pelo bom senso, todos viviam em paz...
O catarismo não admitia posses materiais. Não possuía igrejas, senão a que se encontrava sob a abóboda celeste. Seus representantes eram Instrutores, que, à cavalo, iam de cidade em cidade, promovendo debates sob as árvores, cantando, como trovadores ("troubadours") os mistérios divinos, curando com ervas medicinais, doando Amor e Compreensão, sem pedir nada em troca. Podiam casar, ter filhos, uma vida normal, repartindo o que tinham em excesso e recebendo graciosamente aquilo que necessitavam. Obedeciam a três normas básicas, que na língua ocitânica são: PRETZ, PARATGE e CONVIVENCIA.
PRETZ significa literalmente "preço". Era a honra, a palavra, a generosidade até o sacrifício, o respeito, a igualdade.
PARATGE é o impulso místico, a honra pela presença do Espírito Divino em cada ser, a homenagem ao outro, a consideração ao próximo.
CONVIVENCIA é a tolerância, e o sacrifício por sua manutenção.
Obedeciam a um único Sacramento, chamado "CONSOLAMENT". Os que o recebiam, abandonavam a vida marital, tornavam-se castos e passavam a ser chamados de "PERFEITOS". Observemos que este "grau avançado" era acessível a todos, inclusive às mulheres, que ocupavam todas as funções, em igualdade com os homens.
Como podemos ver, os cátaros eram "avançados" demais para sua época...
No que tange à Cosmologia que adotavam, podemos respigar que pregavam a existência de 7 Céus em torno da Terra e 9 Hierarquias, quais sejam: Anjos, Arcanjos, Arqués, Potências, Virtudes, Dominações, Tronos, Querubins e Serafins. As Virtudes, 5a. Hierarquia, era governada por "Satã"... Senhor das 4 Hierarquias anteriores... Qualquer semelhança NÃO É mera coincidência...
Entre os cátaros, os ministros do culto eram escolhidos entre os crentes instruídos e inteligentes; dotados de vontade, levavam vida ascética, ensinavam a doutrina que extraíam dos Evangelhos e abandonavam por completo o orgulho sacerdotal, a vaidade e o fausto. Não havia hierarquia em sua Igreja; o diaconato e o episcopado eram termos que correspondiam a funções administrativas e não a títulos honoríficos. Praticavam efetivamente a IGUALDADE, estendida também à mulher - numa época em que esta não estava autorizada a tomar a palavra perante clérigos. Acreditavam firmemente que só aquele que conseguiu avançar muito longe no caminho do aperfeiçoamento moral é capaz de ver entreabrir-se a porta do Mundo Espiritual. Só aquele que tem, mercê da paciência, a doçura, a lealdade e o amor alcança a perfeição moral, só ele encontrará a parte de sua individualidade que permanece divina, a parcela de Espírito que ele traz em si, o Paracleto.
Para os cátaros, a visão do mundo espiritual, da vida supraterrena,era portanto, uma questão pessoal, de que nenhum intermediário podia participar... ainda que fosse "ordenado". Ora, se preces, doações e cerimônias não podiam substituir o esforço individual, o mundo eclesiástico perdia o seu crédito... Seu poder temporal, o domínio exercido sobre os fiéis diminuía... e por fim, tendia a desaparecer... Para a religião oficial, evitar que se propagasse o catarismo e tais crenças era um dever imperioso! Urgia conjurar o perigo!
Pois bem, tanta harmonia, bom senso, inteligência e bom convívio só poderia despertar a ira da Igreja e da Coroa. A da Igreja pela recusa à corrupção dos ensinamentos de Jeoshua, adaptando-se às regras rígidas de um clero materializado; a da Coroa, por fomentar a semente da separatismo: língua própria, riqueza própria, religião própria, modo de vida próprio.
Antes do extermínio, a Igreja enviou seus mais hábeis debatedores às terras cátaras, de modo a que, pelo debate, pudessem converter os hereges. Baldados foram seus esforços... Na discussão, não havia ninguém melhor que os cátaros, acostumados a pensar, meditar e interpretar os textos cristãos. Além do mais, como se constata, a ausência do dogma reveste as pessoas de uma clareza mental inigualável. Tentaram minar a fé cátara enviando um São Domingos, que, imitando o modo simples e despojado dos hereges, e forjando milagres, fez de tudo para "reconciliá-los" com a "Santa Madre Igreja", mas foi em vão...
Constatada a impossibilidade de competir com a pureza, a honradez e a agudeza mental dos cátaros, resolveram apelar para o bastão... "Onde não valer a benção, prevalecerá o bastão. Instigaremos contra vós príncipes e prelados" - Domingos de Guzmán ("São Domingos")
Assim, irmanados para a destruição, o Rei de França e o Papa, mancomunados, constituíram um exército de mercenários, formado por cerca de 200.000 homens, que saíram de Paris rumo ao Sul, dispostos a tudo arrasar... E assim o fizeram... cidade após cidade... Arnaud Amaury, legado da Igreja, à frente do exército, deixou Montpellier e chegou à cidade de Béziers a 22 de julho de 1209. O bispo da cidade exortou suas ovelhas, reunidas na Catedral de Saint-Nazaire a entregar os cátaros aos cruzados; os católicos biterrenses rejeitaram com indignação esse pedido, e as portas da cidade foram fechadas. Apesar de uma tentativa de defesa pelos burgueses e pela guarnição, a cidade foi logo tomada e invadida; os habitantes se refugiaram nas igrejas, lugares considerados asilos invioláveis nessa época. E o massacre principiou nas ruas, nos edifícios religiosos; houve sete mil mortos na igreja da Madalena; os refugiados da catedral de Saint-Lazare foram massacrados e queimados; a cidade foi incendiada. No dizer do próprio Arnaud Amaury, massacraram-se mais de vinte mil pessoas de todas as idades e de todas as crenças.
Os legados, em sua carta ao papa, mostravam-se orgulhosos "desse enorme massacre", assim como do incêndio e do saque da cidade. "Não creio", diz a Canção da Cruzada, "que jamais que tão selvagem morticínio tenha sido decidido e consumado desde o tempo dos sarracenos". Foi em Béziers que Arnaud Amaury teria pronunciado as terríveis palavras hoje contestadas: "Matai-os todos, Deus reconhecerá os Seus"... expressão de um estado de espírito que reencontraremos no ano seguinte, quando da tomada de Minerve, e, um pouco mais tarde, em Marmande.
E assim, a carnificina foi seguindo, ano após ano... durante perto de 50 anos. Os barões e senhores feudais da região, que davam asilo e apoiavam o catarismo tiveram suas terras confiscadas e seus bens tomados. Para administrar suas riquezas, o conluio Coroa-Igreja escolheu entre seus asseclas um jovem baronete de grande ambição chamado Simon de Monfort, que se tornaria, em poucos anos, o grande carrasco da etapa final do extermínio cátaro. Mais quatro cruzadas contra os cátaros foram então organizadas, ampliando ainda mais a destruição de espíritos e corpos.
Capítulo à parte foi o cerco à Montségur, local sobre o qual vale a pena determo-nos um pouco. Montségur é um castelo em ruínas, de formato pentagonal (pois o número 5 era sagrado entre os cátaros), postado no topo de uma montanha, nas faldas dos Pirineus, outrora praticamente inacessível. Era um refúgio e um retiro para a meditação, lugar mágico, cercado de montanhas nevadas. Templo solar, Montségur era um local de adoração ao Sol, ou seja, o Cristo, irradiador de luz e vida, dispensador das forças solares matizadas segundo os doze signos do Zodíaco. Hoje , Montségur ainda atrai, inexplicavelmente, inúmeros turistas que vêm de diferentes países para subir sua escarpa e se deparar com a atmosfera, ao mesmo tempo, triste e pacífica, que ali se encontra. Entre esses turistas, esteve há 4 anos atrás, este que vos escreve estas linhas...
Em setembro de 1241, o misterioso castelo foi sitiado, a exemplo do que acontecera com muitos outros. Embora tivesse sido feito para habitação de poucas pessoas, devido à exigüidade de espaço no alto do pico, nele se encontravam, à época do cerco, muito mais, pois, durante tantos anos de massacres, Montségur tornou-se lugar de refúgio para aqueles que fugiam da catástrofe. No fim de fevereiro de 1244, entabularam-se conversações entre os sitiantes e Pierre-Roger de Mirepoix, chefe da defesa do castelo. As condições da rendição, foram fixadas assim:
- Os cavaleiros armados serão libertados depois de confessar suas faltas e sofrer ligeiras penitências;
- Os crentes serão absolvidos de suas faltas, e serão "reconciliados" com a Igreja (promessas ilusórias, já que mais tarde, todos crentes, provindos de outros cercos, seriam submetidos às terríveis condições reservadas aos "reconciliados" e muitos deles terminariam seus dias nas masmorras inquisitoriais);
- Os "revestidos" bons-hommes e bonnes-femmes cátaros (sinônimos de adepto do catarismo, num grau mais avançado) que renegarem sua fé serão também "reconciliados"; os que persistirem em sua fé, serão queimados imediatamente.
Apenas uma condição, emitida pelos sitiados, foi aceita pelos carrascos. A de se postergar, por quinze dias, a decisão final. É que, naquele ano, o Equinócio de Primavera caía a 14 de março...
Pois bem. Em 16 de março de 1244, TODOS os cátaros de Montségur, homens, mulheres, crentes e cavaleiros armados receberam o "consolament", ou seja sua "Iniciação", desceram a montanha e se encaminharam de livre e espontânea vontade, com as mãos dadas, para as fogueiras que tinham sido armadas no sopé do pico, para nelas penetrarem conscientemente. Duzentas e cinco pessoas preferiram, assim, ser queimadas vivas, à corromper sua consciência... Enquanto as chamas, num acampamento preparado para esse efeito, queimavam os cem montes de faia e as vítimas do fanatismo e da intolerância, os soldados do "bom rei São Luís" e os representantes da Igreja de Roma cantavam o "Veni creator spiritus"...
Um monumento erigido pela Sociedade para a Memória e o Estudo dos Cátaros marca atualmente o local do holocausto. Numa espécie de altar, encimado pela conhecida estrela cátara, está escrito: "A todos os mártires do puro Amor Cristão, 16 de março de 1244".
A queda de Montségur marca o fim da igreja cátara organizada. O catarismo ainda subsistiria nos "carolas" espanhóis, e em locais como a Córsega, a Itália e a Bósnia. Mas, tinha sido ferido de morte. Os representantes do "puro Amor cristão" estavam dizimados.
Setenta anos depois, quase no mesmo dia, a 13 de março de 1314, morria, também queimado, o Grão-Mestre da Ordem dos Templários, numa fogueira armada na Île de la Cité, em Paris, vítima também da Igreja e de sua milenar intolerância...
Desde sua fundação, a Igreja Romana lutou contra o que ela chamava "heresias". Mas, em momento algum, ao que parece, a repressão assumiu o caráter de violência que marcou o período das cruzadas contra o catarismo. Os cátaros eram cristãos, mas jamais aceitaram uma fé cega, baseada em dogmas impostos, muitas vezes cristalizados, e não raro obscuros como o pecado original. Ansiavam por uma crença baseada no Conhecimento, que faziam-nos reconhecer e aceitar a constituição tripartite do ser humano, composto de corpo, alma e Espírito, e compreender a função do Mal ou de Oposição na evolução terrena. Queda na matéria e retorno à Jerusalém Celeste eram temas de exame e meditação. Tentavam responder à tríplice e persistente questão humana, proposta eternamente pela Esfinge: afinal, quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?
Mas, este ensaio não poderia ser finalizado sem o ponto principal, que encerra grande mistério... Diz uma famosa pesquisadora dos cátaros, Lucienne Julien:
"Consta que na noite que precedeu a rendição de Montségur, quatro homens se esgueiraram do castelo, levando um fardo precioso e seguiram pela vereda de Saint-Barthélémy rumo ao castelo de Usson, em Ariège, na direção de Montréal-de-Sos. Como o tesouro em ouro e prata fora evacuado de Montségur oito semanas antes, é lícito supor que os quatro homens transportavam um bem que os sitiados haviam querido conservar junto de si até o último momento, mas que não deveria cair nas mãos dos inquisidores. Rituais? Textos de doutrina? Ensinamentos secretos? Depois de Usson, perdemos a pista do precioso fardo; segundo alguns pesquisadores, o depósito teria sido levado para Aragão, ou para o norte de Huesca, ou, mais provavelmente, para San Juan de la Peña, onde, no monastério real levava existência contemplativa, desde o século X, uma ordem monástica que teria dado impulso ao movimento do GRAAL"...
Seria, perguntamos nós, tão precioso fardo, uma reprodução da Taça do Graal? Teriam os cátaros liames com o Rito Graalino, espinha dorsal de nosso Movimento Iniciático? Mistério...
O que parece ser certo é que os cátaros foram, efetivamente, um elo na corrente de Iniciados de todas as épocas, e, como tal, mais uma tentativa da Lei Justa e Perfeita de se implantar ou de restaurar na Terra o Reino de Deus - "Adveniat Regnum Tuum".

Monday, June 14, 2010

o trágico style de ser do pinguim medieval-chic


O Pinguim do Paletó Preto: vamos falar um pouco dele?
Junto com Madame Satã (não sei se é a mesma bicha disfarçada de um uniforme sombrio mais ao gosto do "style" medieval-chic com que o Pinguim gosta de tropeçar pela vida), ele é outra presença constante nas redondezas, camuflada entre os amigos visitantes de meu singelo monastério. Se até Deus tinha de aturar Satanás entre os filhos que vinham ao seu encontro nas alturas celestiais , segundo o Livro de Jó, não seria eu, neste triste mundo sublunar entregue ao próprio Satã e suas madames, que teria conseguido fugir completamente, neste meu retiro e refúgio ante o insuportável da vida presente, dos homens presentes, me afastar de tantos lixos-parecidos-com-gente que infectam o pobre meio ambiente atual, lixos cujo teor, odor e relevância para o que quer que seja (salvo encher o saco, de pau murcho na mão e charuto na boca) só me merecem uma coisa: abrir a tampa pra vomitar dentro.
Devo ter feito alguma desfeita terrível a Saturno pra que o deus da melancolia me reserve pelo caminho, de vez em quando, uns bostas sarnentos desse naipe. Fujo deles ansiosamente, fujo até por absoluta exigência de minhas narinas insuportavelmente sensíveis a um bosta desses, farejo à distância e com tonturas e enjôo um traveco ontológico, eles chegam por uma porta eu tento sair pela outra, e quando não dá mais, e eles ameçam se aproximar com aquele olhar de bunda mal-barbeada, eu finjo que tô falando no celular. Já tô craque nisto, invento na hora alguma conversinha rápida e intercalo com concordâncias com a cabeça e na base do hum-rum.
Mas o infortúnio humano nos espreita sempre, por mais que nos poupemos. E os maus encontros também, tanto mais ridículos porque, na minha santa inocência, às vezes sou eu quem os vou procurar... Sim, no caso da Madame e do Pinguim (aindo suspeito que eles possam ser a mesma pessoa, ou lixo-parecido-com-pessoa, dependendo da hora e do pileque; talvez sejam um casal) fui euuuuuuu, este tolinho que se confessa a vós (meu staretz me permitiu compartilhar esse momento de confessionário com minhas poucas testemunhas), fui euuuuu que os procurei, nos tempos idos do Seminário, achando que nos dois -Satã e o Pinguim; são dois?- encontraria professores com algo pra passar , quando o que eles têm pra passar por suas bocas infectas é só micróbio, o lutuoso (daí paletó preto) Mal da impotência, da inveja, da insegurança- insisto, insegurança que nesses casos, tá na cara, é a segurança escondida de ser a merda que se é e não se suporta ser , sonhando-se ser mais homem (sim, mais homem, pois "melhor homem" essa gente já sabe ser impossível, não são e têm raiva de quem queira ser) .
Fui procurá-los, dizia, e o que encontrei, afora alunos muito legais e esforçados, que não tinham culpa da merda que os "lidera", grande chefe avante rumo à consagração definitiva, foram dois (dois?) professores fracos, ridículos, limitados, caricatos, com quilos de bibliografia pra arrotar e pra usar na arte canhestra de julgar os outros e se auto-classificarem no mundo, pomposos escritores de teses chupadas (uiiii, aí eles gostam) de comentadores de comentadores, bostas consagrados em definitivo, clássicos escondendo suas taras e suas insuficiências na forma de conceitos filosóficos que, a julgar da merda gasosa que sai de suas bocas e escorre de suas bundas, devem ter sido comidos estragados.
Estragados pela própria incapacidade, estragados pelo veneno do que o professor mesquinho mais teme, velho da turma, condenado a três penas de morte em sala de aula: 1) entregar a merda que sabem para alunos melhores e mais novos que ele, que chegaram pra lhe tomar o lugar; 2) aturar burros tão burros quanto ele, e se lamentar de não terem sido algo mais útil, travecos de rua augusta por exemplo; 3) assistir sua própria decadência, sua insuficiência como homem sendo levada à enésima (im) potência, presentificada na lenta agonia da miragem, cobiçando em desespero e em segredo a exuberante garotada (que no caso do Pinguim do Paletó Preto, todos já sabemos de que sexo) e voltando pra velha mediocridade impotente domesticada. Às vezes, e por algum tempo, essas tristes fachadas de professor encontrarão imbecis que escutem e acreditem (creio porque é aburdo! ensinam em sua dialética trágica) o que esses travecos ontológicos travestidos de mestres gostariam de saber e ser, em suas aventuras ousadas com corpos nus e ereções. O Pinguim do Paletó Preto, nosso medieval-chic, coitado, de pornográfico não tem mais do que a própria careca pelada esperando por alguma "G Magazine para as carecas" que a embeleze -ele adoraaaaaa um bom flash que cubra de algum brilho, peloamordedeus, essa vidinha vagabunda de fachada que ele leva na Patagônia medieval. De aventura rodrigueana com ereções, o Pinguim do Paletó Preto não tem mais que o pobre charuto das brincadeiras solitárias, ao menos algo de ereto a natureza cruel o deixou tocar e sentir em profundidade, na falta de potência de comer e de coragem para se dar ao que se é.
O Pinguim do Paletó Preto.... Perdoai-lhe, Senhor, ele não sabe o que é. Ou finge que não sabe. Ele é uma tragédia.

Sunday, June 13, 2010

Jorge Forbes e a ética do desejo



Você está em análise?
Por Jorge Forbes
Você está em análise? Etâ perguntinha difícil de responder; vejamos.
Primeiro, não basta você dizer que vai a um psicanalista bem titulado, tantas vezes por semana. O carteiro do analista também vai lá com frequência e nem por isso está em análise. Ficou conhecida a história de um paciente que após um bom tempo diz a "seu analista" que está chegando ao fim de seu trabalho. Este lhe responde: - "Engano seu, penso que o senhor está prestes a começar". Entrar em análise é mudar de posição subjetiva: a pessoa para de referir suas queixas às cenas atuais de seu cotidiano e passa a se entender em uma "Outra Cena", como dizia Freud. Isso é difícil de conseguir, pois a realidade sempre alivia o comprometimento de cada um em seu mal-estar, razão pela qual muitas pessoas adoram viver um inferno de vida. Se quisermos traduzir em conceito, entrar em análise é sair de uma moral dos costumes e se instalar na ética do desejo.Segundo, há que se conhecer a diferença entre Psicanálise e o mar de psicoterapias que são oferecidas. Se até para o profissional, nem sempre é clara, imagine para o leigo. O termo "Psicanálise" adquiriu certo valor de mercado e acaba sendo o cobertor genérico de corpos disciplinares muito diferentes, o mais das vezes, opostos. Em síntese, praticamente todas as psicoterapias seguem o modelo da ética médica: um se queixa, o outro trata; um não sabe, o outro sabe; um é paciente, o outro é atuante. Arrisquemos uma definição: no fundamento do que se chama Psicanálise está sempre - sim - sempre responsabilizar o sofredor em seu sofrimento. Não culpar, atenção, responsabilizar e de uma responsabilidade muito diferente da responsabilidade jurídica, que se baseia na consciência dos fatos. Seria até engraçado que a prática do inconsciente exigisse a responsabilidade consciente. A responsabilidade em Psicanálise, contrariamente à jurídica, é a responsabilidade frente ao acaso e à surpresa. Não dá para ninguém se safar de uma situação dizendo: - "Ah, só se foi o meu inconsciente", como se ele fosse 'um moleque irresponsável que não tem nada a ver comigo'. A Psicanálise se define por sua ética, como queria Lacan, e a ética da Psicanálise é o avesso da ética médica, por conseguinte, das psicoterapias. Isso não quer dizer que uma coisa seja melhor que a outra, mas que é fundamental reconhecer as diferenças para que haja uma colaboração efetiva entre os campos clínicos e não mútuo borrão, como soe acontecer.
Terceiro, finalmente, fazer análise hoje é igual aos tempos de Freud? Sim e não. Sim, no que tange ao fundamento do inconsciente; não, na diferença de sua expressão. Desde Freud até muito recentemente, digamos há uns trinta anos, fazer análise era se conhecer melhor e, por isso, agir de maneira menos infestada de comprometimentos psicopatológicos. O se "conhecer melhor" se obtinha na análise do Complexo de Édipo, matriz da significação do comportamento humano, verdadeiro software genial que Freud inventou para entender como uma pessoa pode operar o hardware mundo, que não lhe é em nada natural. Por quase cem anos acreditamos que o mundo era edípico, e era mesmo, se edípico é um mundo que institui um padrão de significação vertical e superior, no caso, o Pai. O paciente de ontem, por viver em um mundo padronizado, sabia onde queria chegar e se perguntava sobre o que lhe amarrava a sua vida, daí o foco no passado. Entramos, agora, em uma nova configuração do laço social: a globalização privilegia a horizontalidade sobre a verticalidade constituindo uma sociedade em rede, muito distinta da piramidal da qual nos afastamos no bonde da História. Se hoje o Édipo ainda funciona, sua abrangência de leitura do fenômeno humano é mais restrita e, em decorrência, uma clínica nele centrado também o é. Necessitamos de uma clínica além do Édipo. O paciente de hoje, mais que do passado, quer saber do seu futuro. Ele não se pergunta o que o impede de chegar a um objetivo, pois o problema, quando se quebram os padrões, é saber qual é o seu objetivo entre as inúmeras possibilidades, fato que o angustia. Paradoxalmente, uma análise vai lhe mostrar que há um limite ao conhecimento e que fazer uma análise não é conhecer mais, mas se defrontar com o impossível de tudo saber, frente ao qual só resta uma possibilidade: a de inventar uma solução e a de publicá-la, suportando o risco de seu desejo. Uma análise hoje, pós-edípica, deverá ser capaz de transformar a angústia imobilizadora em criativa; a rigidez em flexibilidade; a moral da necessidade em ética do desejo.

(artigo publicado na Revista Psique – número 51)
Link: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/51/artigo168584-1.asp

Tuesday, June 08, 2010

A SuperTerapeuta

Nise da Silveira no histórico encontro com Carl Gustav Jung, em 1957



Minha manhã começou maravilhosa, com o presente que me deram e que quero compartilhar aqui:
http://www.megavideo.com/?v=CZNOO6CF

É um depoimento com a grande Nise da Silveira (1905-1999), gravado em 1991. Fita de uns 50 minutos, mas que passam feito ave faminta que risca o céu à procura de sua presa: nosso coração. Nise, pequenina gigante, davi, dádiva, vida em sopro a inspirar e a ser inspirada como ar puro montanhâes, vindo dos Alpes suíços de Jung, mestre de Nise, amado Jung. Amada Nise, contestadora, rompendo paradigmas da política, inclusive uma das esferas de microfísica do poder mais insidiosas, tão bem desmascarada por Foucault: a velha psiquiatria policialesca, arrogante, ou melhor, arrotante de um saber que não tinha e que queria impor como forma de colonização dos territórios selvagens da alma humana. Ao invés de lobotomias e eletrochoques ou sedativos, Nise aprendeu com seus outros e maiores mestres, os próprios sofredores psíquicos, a expressão que deveria redefinir a Psiquiatria não como "terapia ocupacional", mas como Emoção de Lidar. Lidar com a argila, com a madeira, com os pincéis, lidar consigo mesmo pelas vias intemediárias e libertárias, comunicantes, herméticas do símbolo e da arte (Hermes: deus da comunicação do céu e da terra, deuses e homens, Si e ego). Outros aliados herméticos do doente, e "co-terapeutas", também introduzidos pela revolucionária pequenina gigante alagoana: cachorros, gatos, natureza, o amor enfim. Cura pelo amor.

Falo em amor, em cura, em Nise, e me lembro que uma das meninas mais inteligentes que já conheci, e que até hoje "revejo", faltosa, na ausência de todas as presenças em que a busco e nunca encontro. Na Terapeuta Perfeita, minha variante pessoal da busca do graal d' "A" Mulher que não existe, segundo Lacan. Ah Lacan... Não existe como? Pergunte aos sonhadores platônicos se não existe...

Minha proto-Terapeuta, perdida pra sempre, era uma jovem psicóloga, brilhante intelecto, ainda mais "diabólico" porque acompanhado de formas corpóreas sedutoras. Bati os olhos nela, primeiro por fotos, e depois pessoalmente, numa festa na Faculdade de Psicologia. Nunca mais fui o mesmo. Voltei pra casa com uma cratera no peito, dessas que em mim só mesmo as grandes paixões conseguem cavar e destrancar, ultrassando a barreira de um de meus eus mais fortes, sólido ascético feito pedra que fecha minhas comportas e as padroniza em "comporta-mentos".

Ela trabalhava no Hospital das Clínicas, setor psiquiátrico, eu a visitava, ficava "louco" (rsrs) de vê-la com tamanha "autoridade" sobre o espaço, autoridade não arrotada, como gostam os impotentes inseguros (ou pior, secretamente seguros de seu fracasso e esterilidade). Autoridade no sentido de uma detentora do que os australianos aborígenes chamam de "mana". Não sei por quê, a memória que tenho dela é vestida toda de branco, o que evidentemente pode ser realista, por ela trabalhar em hospital, mas que confesso, é uma visão de incerta verossimilhança, já não é uma "lembrança" em forma de foto, mas de quadro, na "emoção de lidar" que Nise considera ser a arte como via de terapêutica da psique. A brancura da minha jovem Nise resplandece como o loiro de seus cabelos, numa pureza absurda, mas que, porque absurda, é plenamente digna de crença, como na fórmula "creio porque é absurdo", de meus predecessores Padres da Igreja. Até hoje te procuro como utopia dos alquimistas que sonham ouro (cor de seus cabelos) na latrina. Ainda hoje "creio" em você, onde quer que você esteja, casada, com filhos ou não, gorda, careca, o que for: você terá em mim o retrato e um espelho onde se poderá enxergar para sempre como deusa, como musa, como Nise.
Sim: sonho dentro do sonho, vi naquela psicóloga recém-formada a própria Nise em jovem avatar. Não por suas afinidades intelectuais, ao contrário de Nise, essa moça nada tinha de junguiana, ao contrário, tratava meu mestre com uma distância, frieza e certa braveza engajada (ela é mais Freud), que só a tornavam mais arredia, arisca e incendiária de meus devaneios. As projeções não precisam do consentimento da realidade, ao contrário se nutrem, as mais fortes, é do desacordo.
Nem preciso dizer da paixão que me tomou, paixão mítica, que jamais ousei enunciar no mundo vil das palavras e dos gestos interesseiros, sou cátaro, maniqueísta radical, contra mim mesmo, condenado por livre, espontânea e fatídica vontade própria a sonhar com musas, nises, divas, divãs em que eu seja escutado pelas "Mães", não a mãe edipiana pessoal, ou não só ela, paixão de minha vida, mas pelas Mães do Mundo, Mães do Destino, Mãe Kali-Maria, Vida e Morte, iminente Hospital das crises limítrofes. Mãe também Nise, divina pitonisa dos reinos obscuros das patologias, por ela redefinidas (contra os chatos da psiquiatria policialesca) com a poética expressão: Estados do Ser. E tu, jovem Nise de meus delírios doentios, és símbolo de um desses meus estados: estado de milagre, estado de quixote, estado de quimera, estado de desejo .

Monday, June 07, 2010

Mãe Kali-Maria

Kali sobre Shiva


Amigos deste Monastério, bem-vindos e que deixem e que levem daqui boas energias para mais uma semana de trabalhos. Energias a pedir, inclusive, do reino das "Mães", cantado por Goethe, conhecido de poucos, vivência de pouquíssimos. Mãe Maria, Mãe Kali: rogai por nós.
Um mantra, link a seguir, para embalar estes dizeres que vêm e que vão, que não em vão, que sim um vão, pois com Nietzsche, só acredito em deuses (e em palavras) que se possam dançar e cantar!
-Unzuhause-
"Ela é aquela de que as pessoas só se aproximam tremendo. Tudo nela causa medo: os olhos, a língua que expõe, as armas, a atitude, o colar de caveiras humanas que chacoalha em torno do pescoço como troféus. Em seu templo favorito, em Calcutá, os fiéis sacrificam carneiros e cabras. O cheiro de sangue impregna o ambiente.
Habitualmente, Kali é apresentada como uma das identidades de Parvati, que é a shakti, o aspecto feminino de Shiva –mas é sobretudo um personagem que existe em si, que tem suas próprias qualidades e aventuras. Esta ligação com Shiva esclarece, mas somente em parte, o componente destrutivo da deusa. O próprio Shiva, como outras divindades indianas e como o Buda, frequentemente nos apresenta a palma da mão direita, num gesto chamado abhaya, 'sem medo'. Nada de parecido em Kali. Ela é o próprio terror.
O sentimento que provoca – e que os fiéis tentam esconjurar com o sangue, pelo qual acreditam que ela nutra uma enorme avidez- talvez encontre a raiz em sua antiguidade. Ela vem de uma época em que os deuses eram duros, em que a vida parecia sujeita a uma ameaça constante, em que a morte era a rainha absoluta. Assim, a palavra Kali significa 'A Negra' e, para os indianos, evoca imediatamente a noção de Kala, 'O Negro', imagem todo-poderosa e impiedosa do Tempo, que nos conduz à morte, o mais rapidamente possível. Quando Kali dança, dança sobre um cadáver.
O medo que ela suscita vem também de uma ausência de identidade precisa, que a torna inapreensível. Este é um traço comum a muitos deuses de tradições politeístas, mas que se agrava no caso de Kali. Ela é um terror fugidio. Ora ela se mostra como Durga, cavalgando um leão, ora como Chamunda, vestida com uma pele de elefante. Ela pode se apresentar com um ou vários braços. É como uma dessas imagens oníricas de formas perpetuamente mutantes. Quando cremos tê-la apreendido, ela logo se transforma.
Através de Kali, alguns autores tentaram analisar o terror secreto que a verdadeira feminilidade inspiraria nos homens. Mas o mito, por mais vago que seja, e talvez por causa dessa imprecisão, vai muito além da análise, ultrapassa toda inteligência. Quando olhamos, Kali desperta em nós um medo infantil. Ela tem alguma coisa de fantasma aterrorizante de desenho animado. Aliás, nas visões sumárias da Índia que figuram nos romances de aventura ocidentais, Kali é reivindicada pelas seitas de assassinos sanguinários, como os Thugs. No entanto, é possível sentir que este medo substancial, este medo fundamental, toca uma corda profunda em cada um de nós, que tentamos em vão proteger e, muitas vezes, ignorar.
Kali é o medo verdadeiro, porque não sabemos quem ela é. E ela nos toca no mais íntimo, porque não sabemos quem somos.
Abhaya. Não há medo. Ou melhor: o medo está em nós, mas nós mesmos somos uma ilusão. Então, por que ter medo do medo? Ou medo de nós mesmos? Em todas as viagens à Índia, ou a outros lugares, devemos aceitar a presença de Kali. Se ela estiver à beira da estrada esperando uma carona, é melhor parar o carro, levá-la conosco e conversar com ela.
Se passarmos adiante fingindo não vê-la, ela nos alcançará um pouco mais adiante, talvez sob a forma de um acidente.
Se nós a expulsarmos, ela retornará sob uma outra forma."
Jean-Claude Carrière,
Índia – um Olhar Amoroso
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Maha Ritual de Kali


A Deusa KALI é a personificação da impiedosa fúria feminina e sempre deixa um rastro de destruição por onde passa, Ela é uma das três esposas do Senhor Shiva, o Grande Deus do Universo. Várias escrituras descrevem Suas formas, Sua iconografia é explicada em detalhes em textos como o Karpuradi Stotram e o Maha Nirvana Tantra. Situada, em geral, no meio do campo crematório, Ela nos relembra da transitoriedade de todos os fenômenos e da inevitabilidade da morte. Seus longos cabelos emaranhados nos remetem às algemas da ilusão (Maya), que faz com que acreditemos na realidade absoluta deste universo. Seus três olhos indicam seu conhecimento do presente, passado e futuro. Sua imensa língua esticada e Seus dentes afiados demonstram Sua capacidade de devorar inúmeros universos. Sua guirlanda formada por 50 (cinqüenta) cabeças decepadas representa as 50 (cinqüenta) letras do alfabeto Sânscrito, ou seja, todo o conhecimento que pode ser descrito através de palavras. Seu saiote de mãos humanas representa todas as ações que o homem pode realizar, por serem as mãos o principal veículo do Karma; por exceção deste saiote, Ela apresenta-se nua, inalterada, original, coberta apenas pela aparência das ações humanas. Ela é representada sobre o Senhor Shiva, que permanece imóvel, demonstrando então o jogo (liilaa) entre o aspecto estático (na forma do Senhor Shiva) e dinâmico (na forma da Mãe Kaalii) do universo. Com Seu braço superior direito Ela segura o facão sacrificial (khadgam); Seu braço superior esquerdo segura uma cabeça (mundam); com Seu braço inferior direito Ela segura um tridente (trishulam) e Seu braço inferior esquerdo segura um pote com o fogo sacrificial (Senhor Agni). Com um profundo significado simbólico Seus quatro braços demonstram os atos de uma alquimia universal que leva o homem à libertação (moksha ). Sua cor é o preto e o vermelho. O MAHA RITUAL DE KALI é celebrado a cada Lua Cheia pelos xamãs ancestrais e por todos os devotos de Mãe Kali. Neste ritual é realizado o puja devocional. O puja é um ato de purificação, limpeza e devoção à Mãe Kali, são entoados seus sutras, stotras e mantras secretos em sânscrito e são oferecidos os quatro elementos (ar, fogo, água e terra), flores de cor vermelha e alimentos como reconhecimento das virtudes plenas de Mãe Kali para que sejam derramadas suas bençãos, afastando de nós espíritos trevosos e malévolos. Este é um ritual de exorcismo, de quebra de feitiçaria, macumba e trabalhos de magia negra. A Lua Cheia possui a atmosfera perfeita para realização de rituais de exorcismo, seja ele psíquico, energético, emocional, mental ou espiritual. No MAHA RITUAL DE KALI, o xamã ancestral trabalhará seu Sagrado Feminino, através dos arquétipos das Deusas Kali, Durga e Parvati, consortes do Senhor Shiva. Neste ritual Mãe Kali promete mudanças e proteções significativas em sua vida através da Bebida Sagrada dos Xamãs, Ayahuaska.