terça-feira, abril 27, 2010

forever JUNG

Jung, louco, gênio, meu mestre, meu spiritus rector; reparem, na imagem, o anel negro usado na mão esquerda: símbolo da gnose

Prezados, minha "personalidade número 1", Caio Liudvik, acaba de publicar artigo numa das mais importantes revistas de psicanálise do país, a Percurso. Discuto ali, em chave lacaniana e existencialista, os abismos limítrofes entre sofrimento psíquico, delírio e criação intelectual, conforme foram pensados, sentidos e habitados pessoalmente por Carl Gustav Jung, o descobridor do inconsciente coletivo. O Unzuhause da Psicologia. Boa leitura!
cf. REVISTA PERCURSO http://www.livrariaresposta.com.br/v2/produto.php?id=161787



Jung entre a angústia e o mito – o inconsciente coletivo como sinthoma
CAIO LIUDVIK
Cientista social e jornalista. Mestre e Doutorando em Filosofia pela Universidade de São Paulo.


RESUMO:


O presente artigo é um estudo sobre o capítulo "Infância" da autobiografia Memórias, sonhos, reflexões, de Carl Gustav Jung. Pretendemos elucidar o mito pessoal, de tipo profético, com o qual o psicólogo suíço representa a si mesmo ali, para então tentarmos articulá-lo com a postulação, por Jacques Lacan, de que o conceito junguiano de inconsciente coletivo é um synthoma, isto é, uma resposta, aqui de tipo teórico, e comparável à obra literária de James Joyce, a uma situação pessoal de extrema angústia ou mesmo de uma psicose latente.

sábado, abril 17, 2010

só podia ser corintiano...

Juca, pelo amor de Deus, onde acho esse tesouro???


Coragem, candidatos!

por JUCA KFOURI



Que aspirante à Presidência do Brasil anunciaria a desistência em fazer a Copa e a Olimpíada no país?
PRIMEIRO , foi São Paulo que submergiu sob as chuvas de verão.
Depois, o Rio, devastado pelas águas do outono.
A fragilidade de nossas duas principais cidades, e do seu entorno, ficou, mais uma vez, dolorosa e dramaticamente evidenciada.
Faz sentido investir em estádios para a Copa do Mundo?
Faz sentido investir em estádios e acomodações para a Olimpíada?
Sim, sabemos que não investir no supérfluo não garante o investimento no essencial.
E que já houve experiências lucrativas em países que receberam tanto um quanto outro evento.
Mas um país que permite, e estimula, o surgimento de favelas sobre lixões, e de bairros sobre pântanos, está apto a ser olímpico?
Teria José Serra a coragem de dizer que entre as suas prioridades não estão a Copa do Mundo e a Olimpíada e que desiste delas?
E Dilma Rousseff? Viria a público, mesmo que lamentando, para dizer que o país deve abrir mão dos dois eventos porque ainda não é a nossa hora de fazê-los?
Marina Silva seria a candidata a botar o dedo nessa ferida?
Ninguém nega a importância que eventos desse porte têm para um país emergente. Ninguém nega.
Mas e num país submergente? Dá para encarar?
Esqueça o refrão da corrupção, faça de conta que tudo será feito com lisura.
Ainda assim, depois de tudo que passou o eixo Rio-São Paulo, o mais rico e influente do Brasil, faz sentido Copa ou Olimpíada?
Desnecessário repetir que houve um terremoto no Chile e em seguida se fez a Copa do Mundo de 1962 no país andino.
Ou a mesma coisa em relação ao México, em 1986.
Porque, se catástrofes naturais são o que são, o fato é que não se pode comparar a magnitude do que houve lá com o que as chuvas, por fortíssimas que tenham sido, e foram mesmo, causaram por aqui.
Esperar que os céus nos poupem em 2014 e 2016 porque, afinal, as festas esportivas se darão em meses de estiagem, será confiar demais no destino.
Como confiaram os desgraçados do Morro do Bumba, no Rio de Janeiro, ou do Jardim Pantanal, em São Paulo.
A situação em que ficaram as piscinas do São Paulo Futebol Clube e o Maracanã e o Maracanãzinho deveria servir para convencer até os mais teimosos sobre a aventura em que estamos entrando e que ainda podemos evitar.O que aconteceria com um candidato que anunciasse ao Brasil que, se eleito, abriria mão dos dois eventos e poria o dinheiro, por exemplo, na erradicação das favelas?
E no saneamento básico.
E na educação.
E na saúde.
Perderia votos? Ou ganharia?
Eis aí uma boa pergunta para as pesquisas que todos os candidatos fazem em seus comitês. Suspeito que o resultado venha a ser positivo.
Sim, você dirá que sou um sonhador ou um ingênuo, até porque vou ainda mais longe: afirmo que, mesmo que uma pesquisa revelasse perda de votos, ainda assim, um verdadeiro líder, destemidamente a favor do Brasil, bancaria a decisão.
E, então, alguém se habilita?
O meu voto, ao menos, ganharia

domingo, abril 11, 2010

chico e o chicote

O silêncio profundo da platéia, ao final, era sinal: vimos mais que um filme, tivemos uma experiência. É assim que entendo Chico Xavier, o filme de Daniel Filho, estrelado por Nelson Xavier e com a participação de, entre outros, Toni Ramos e Christiane Torloni (linda, linda e comovente no papel da mãe enlutada que procura no médium o consolo de saber que o filho desencarnado está bem e está próximo).
Podem-se, é verdade, discutir os méritos do filme como obra de arte: creio que a narrativa fica bem aquém da tarefa de retratar personagem tão complexa e multifacetada, inclusive em seus aspectos sombrios, no sentido que Jung dá ao termo "sombra", isto é, todos os componentes reprimidos, rejeitados, "inferiores", da personalidade de todos nós.
Embora aqui e acolá, como no episódio saboroso da decisão de usar peruca, se insinue uma concessão mundana de Chico à "fraqueza" da vaidade, a sombra, no sentido mais denso da palavra, será apenas dita, não mostrada (o que é um defeito para uma arte como o cinema, essencialmente imagética), já nos últimos minutos do filme, quando Chico, belissimamente interpretado por Nelson Xavier, ex-ateu comunista seduzido pelo médium que tão bem ele "encarnou", fala da alegria que tinha em fazer o bem ao próximo, e dessa maneira irradiar aos outros um pouco da paz que ele nunca teve. A frase me soou enigmática e a léguas de distância do estereótipo, tão difundido, de um velhinho bonzinho e pacato.
Aliás, só mesmo um tempo alheio e arrogantemente hostil ao ideal e ao programa de vida da santidade, como o nosso, para julgar que o aperfeiçoamento espiritual seja a negação da condição humana no que tem de contraditória, imperfeita, encarnada nesse pobre antropóide pensante que somos nós.
Defeitos à parte, o filme se impõe como convite a conhecer melhor a mais importante referência do espiritismo brasileiro. Ficam de minha parte mais algumas anotações de índole pessoal: afora os gestos de amor e devoção de Chico por sua mãe desencarnada, o que mais me encantou foi a cena, entre hilária e sublime, no bordel: o pai, inquieto com as esquisitices do jovem Chico, o leva lá para realizar a devida "iniciação" ao mundo adulto. A funcionária mais gostosona do pedaço é chamada pra dar um jeito no rapaz. Mas enquanto o pai aguarda, confiante, conversando com a dona do puteiro, ouvimos do saguão um murmúrio inusitado: era Chico e todas as "mulheres da vida", de mãos dadas, ajoelhados, felizes e rezando o pai-nosso. Cena de uma beleza próxima às parábolas de Jesus, e ao que se supõe verídica, o filme se baseia num livro biográfico; cena que, além de lembrar a célebre passagem do jovem Nietzsche se socorrendo no piano do bordel em que um guia turístico o levou sem avisá-lo, vem desmontar a idéia de que ser como "freira no bordel" significa a vaidade (esta sim grave, não a da peruca) de se considerar apartado do mundo escroto e condená-lo em nome de uma pretensa pureza moral. Se já o primeiro milagre de Cristo foi numa festa, e envolveu o sagrado direito de todos a um bom vinho, não seria Chico, um de seus maiores discípulos modernos, que ficaria atrás: a santidade se exerce à luz do mundo, não escondida no recesso obscuro e arfante nos cubículos e "celas" e sob as chico-tadas de alguma cartilha farisaica do certo e do errado.
A chicotada que me dói ao sair do filme, porém, é não ter podido conhecer um homem deste porte moral e espiritual, é essa eterna admiração elegíaca pelo inacessível, pelo que já se foi, é a enorme falta que me faz poder exercer a espiritualidade junto a pessoas, não só junto a livros, num grupo de estudos kardecista por exemplo, embora seja atraído pelas mais diversas religiões; tô cansado de "cursos", me sinto anos-luz mais velho a cada vez que, ao me interessar por dado campo temático, vou atrás e deparo com informações sobre os "cursos" de sei lá quantos semestres. A anos-luz, ou anos-trevas, me sinto também da simplicidade de experiências como a de um grupo de estudos e práticas espirituais tal como o de Chico, segundo apresentado no filme.
O que sei é que, cada vez que vejo do lado de lá da janela uma imagem celestial como a de um Chico Xavier, a cela aqui dentro fica mais pesada, o chicote mais cortante, o mundo mais medíocre -a vida como está, não as coisas como são, diria mestre Renato Russo, gênio também já distante, mas quem sabe também presente, como Chico, como nossos amigos da espiritualidade, essa expressão tão doce dos discípulos de Kardec.

quinta-feira, abril 08, 2010

o deus menor


O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais
-por LEONARDO BOFF-
O levantamento dos padres pedófilos em quase todos os países da cristandade católica está ainda em curso, revelando a extensão desse crime que tantos prejuízos tem provocado em suas vítimas. É pouco dizer que a pedofilia envergonha a Igreja. É pior. Ela representa uma dívida impagável com aqueles menores que foram abusados sob a capa da credibilidade e da confiança que a função de padre encarna. A tese central do papa Ratzinger que cansei de ouvir em suas conferências e aulas vai por água abaixo.
Para ele, o importante não é que a Igreja seja numerosa. Basta que seja um "pequeno rebanho", constituído de pessoas altamente espiritualizadas. Ela é um pequeno "mundo reconciliado" que representa os outros e toda a humanidade. Ocorre que dentro desse pequeno rebanho há pecadores criminosos e é tudo menos um "mundo reconciliado"
. Ela tem que humildemente acolher o que dizia a tradição: a Igreja é santa e pecadora e é uma "casta meretriz". Não é suficiente ser Igreja. Ela tem que trilhar, como todos, pelo caminho do bem e integrar as pulsões da sexualidade que já possui 1 bilhão de anos de memória biológica para que seja expressão de enternecimento e de amor e não de obsessão e de violência contra menores.O escândalo da pedofilia se constitui num sinal dos tempos atuais. Do Vaticano II (1962-1965) aprendemos que cumpre identificar nos sinais uma interpelação que Deus nos quer transmitir. Vejo que a interpelação vai nesta linha: está na hora de a Igreja romano-católica fazer o que todas as demais Igrejas fizeram: abolir o celibato imposto por lei eclesiástica e liberá-lo para aqueles que veem sentido nele e conseguem vivê-lo com jovialidade e leveza de espírito. Mas essa lição não está sendo tirada pelas autoridades romanas. Ao contrário, apesar dos escândalos, reafirmam o celibato com mais vigor.Sabemos como é insuficiente a educação para a integração da sexualidade no processo de formação dos padres. Ela é feita longe do contato normal com as mulheres, o que produz certa atrofia na construção da identidade. As ciências da psique nos deixaram claro: o homem só amadurece sob o olhar da mulher e a mulher sob o olhar do homem. Homem e mulher são recíprocos e complementares. O sexo genético-celular mostrou que a diferença entre homem e mulher, em termos de cromossomos, se reduz a apenas um cromossomo. A mulher possui dois cromossomos XX e o homem, um cromossomo X e outro Y. Donde se depreende que o sexo-base é o feminino (XX), sendo o masculino (XY) uma diferenciação dele. Não há, pois, um sexo absoluto, mas apenas um dominante. Em cada ser humano, homem e mulher, existe "um segundo sexo". Na integração do animus e da anima, vale dizer, das dimensões de feminino e de masculino presentes em cada um, se gesta a maturidade sexual.Essa integração vem sendo dificultada pela ausência de uma das partes, a mulher, que é substituída pela imaginação e pelos fantasmas que, se não forem submetidos à disciplina, podem gerar distorções. O que se ensinava nos seminários não é sem sabedoria: quem controla a imaginação, controla a sexualidade. Em grande parte, assim é. Mas a sexualidade possui um vigor vulcânico. Paul Ricoeur, que muito refletiu filosoficamente sobre a teoria psicanalítica de Freud, reconhece que a sexualidade escapa ao controle da razão, das normas morais e das leis. Ela vive entre a lei do dia, em que valem as regras e os comportamentos estatuídos, e a lei da noite, em que funciona a pulsão, a força da vitalidade espontânea. Só um projeto ético e humanístico de vida (o que queremos ser) pode dar direção a essa dialética e transformá-la em força de humanização e de relações fecundas.Nesse processo o celibato não é excluído. Ele é uma das opções possíveis que eu defendo. Mas o celibato não pode nascer de uma carência de amor, ao contrário: deve resultar de uma superabundância de amor a Deus que transborda para os que estão a sua volta.
Por que a Igreja romano-católica não dá um passo e abole a lei do celibato? Porque é contraditório com a sua estrutura. Ela é uma instituição total, autoritária, patriarcal e altamente hierarquizada. Ela abarca a pessoa do nascimento à morte. O poder conferido ao papa, para uma consciência cidadã mínima, é simplesmente tirânico. O cânon 331 é claro. Trata-se de um poder "ordinário, supremo, pleno, imediato e universal". Se riscarmos a palavra papa e colocarmos Deus, funciona perfeitamente. Por isso se dizia: "O papa é o deus menor na terra". Uma Igreja que coloca o poder em seu centro fecha as portas e as janelas para o amor, a ternura e o sentido da compaixão. O celibatário é funcional para esse tipo de Igreja.
O celibato implica cooptar o sacerdote totalmente a serviço, não da humanidade, mas desse tipo de Igreja. Ele só deverá amar a Igreja. Enquanto essa lógica perdurar, não esperemos que a lei do celibato seja abolida. Ele é muito cômoda para ela.Mas como fica o sonho de Jesus de uma comunidade fraterna e igualitária? Bem, isso é um outro problema, talvez o principal.