Wednesday, March 31, 2010

nossa estrelinha para sempre


Ontem estive na missa em memória da menina Isabella, aliás foi na igreja em que fui batizado, e senti que o processo "pascal" a que nossa existência é convidada a todo tempo acabou de encontrar seu ápice -no contexto da presente Semana Santa- na geração de um verdadeiro símbolo de Justiça e Paz, esperança de que as trevas do tempo presente não sufocarão a centelha (Eckhart) que cintila e resplandece de amor e fé no coração dos homens de bem. Que símbolo é este? A condenação dos assassinos da criança, graças particularmente ao trabalho e competência de Francisco Cembranelli, que este monastério celebrou no post anterior. O carinho da multidão para com a mãe Ana Carolina (e como ela é linda!) e a euforia suscitada pela chegada-surpresa do dr. Cembranelli à igreja foram os dois aspectos que mais me encantaram.
Que sigamos a caminhada, e com as lutas concretas por justiça e paz em todas as searas da realidade deserta, renovados e alimentados por este símbolo, que como diria Fernando Pessoa do mito, é um nada que é tudo: que seja um "tudo" não na mera espetacularização midiática, mas sim como arquétipo vivido, a criança mítica, perseguida pelos Herodes da insânia satânica, a terrível Madrasta e o pai demiurgo covarde e cretino dos contos de fada e e da gnose, entidades demoníacas que devoram feito a Baleia de Jonas a Sofia de amor redimida por obra de um Herói, Filho enviado pelo Deus além-deus,Pai silencioso. A Criança divina, nascida, assassinada e ressuscitada no "céu" do coração dos mortais, foi encarnada em Isabella, graças aos mecanismos de "participação mística" (a participation mystique segundo Lévy-Bruhl), de que a mídia se utiliza, mais ou menos inconscientemente, mas não os inventa, eles são ancestrais, típicos da mentalidade primitiva. "Nossa estrelinha para sempre", diziam as camisetas das milhares de pessoas que lotavam a igreja ontem. Bela estrela isa-bella, que você brilhe no céu de nosso coração e na névoa espessa de nossa cegueira e nos guie e nos faça sentinelas, novos "cembranellis", promotores da Justiça e da Paz no Reino dos Céus e das estrelinhas que começa aqui.
-Unzuhause-
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A Páscoa da Terra Crucificada
(por LEONARDO BOFF)

A páscoa é uma festa comum a judeus e a cristãos e encerra uma metáfora da atual situação da Terra, nossa devastada morada comum. Etimologicamente, páscoa significa passagem da escravidão para a liberdade e da morte para a vida. O Planeta como um todo está passando por uma severa páscoa. Estamos dentro de um processo acelerado de perda: de ar, de solos, de água, de florestas, de gelos, de oceanos, de biodiversidade e de sustentabilidade do próprio sistema-Terra. Assistimos estarrecidos aos terremotos no Haiti e no Chile, seguidos de tsunamis. Como se relaciona tudo isso com a Terra? Quando as perdas vão parar? Ou para onde nos poderão conduzir?
Podemos esperar como na Páscoa que após a sexta-feira santa de paixão e morte, irrompe sempre nova vida e ressurreição?Precisamos de uma olhar retrospectivo sobre a história da Terra para lançarmos alguma luz sobre a crise atual. Antes de mais nada, cumpre reconhecer que terremotos e devastações são recorrentes na história geológica do Planeta. Existe uma "taxa de extinção de fundo" que ocorre no processo normal da evolução. Espécies existem por milhões e milhões de anos e depois desparecem. É como um indivíduo que nasce, vive por algum tempo e morre. A extinção é o destino dos indivíduos e das espécies, também da nossa.Mas além deste processo natural, existem as extinções em massa. A Terra, segundo geólogos, teria passado por 15 grandes extinções desta natureza. Duas foram especialmente graves. A primeira ocorrida há 245 milhões de anos por ocasião da ruptura de Pangeia, aquela continente único que se fragmentou e deu origem aos atuais continentes. O evento foi tão devastador que teria dizimado entre 75-95% das espécies de vida então existentes. Por debaixo dos continentes continuam ativas as placas tectônicas, se chocando umas com as outras, se sobrepondo ou se afastando, movimento chamado de deriva continental, responsável pelos terremotos.
A segunda ocorreu há 65 milhões de anos, causada por alterações climáticas, subida do nível do mar e aquecimento, eventos provocados por um asteróide de 9,6 km caído na América Central. Provocou incêndios infernais, maremotos, gases venenosos e longo obscurecimento do sol. Os dinossauros que por 133 milhões de anos dominavam, soberanos, sobre a Terra, desapareceram totalmente bem como 50% das espécies vivas. A Terra precisou de dez milhões de anos para se refazer totalmente. Mas permitiu uma radiação de biodiversidade como jamais antes na história. O nosso ancestral que vivia na copa das árvores, se alimentando de flores, tremendo de medo dos dinossauros, pôde descer à terra e fazer seu percurso que culminou no que somos hoje.
Cientistas (Ward, Ehrlich, Lovelock, Myers e outros) sustentam que está em curso um outra grande extinção que se iniciou há uns 2,5 milhões e anos quando extensas geleiras começaram a cobrir parte do Planeta, alterando os climas e os níveis do mar. Ela se acelerou enormemente com o surgimento de um verdadeiro meteoro rasante que é o ser humano através de sua sistemática intervenção no sistema-Terra, particularmente nos último s séculos. Peter Ward (O fim da evolução, 1977, p.268) refere que esta extinção em massa se nota claramente no Brasil que nos últimos 35 anos está extinguindo definitivamente quatro espécies por dia. E termina advertindo:"
um gigantesco desastre ecológico nos aguarda".O que nos causa crise de sentido é a existência dos terremotos que destroem tudo e dizimam milhares de pessoas como no Haiti e no Chile. E aqui humildemente temos que aceitar a Terra assim como é, ora mãe generosa, ora madrasta cruel. Ela segue mecanismos cegos de suas forças geológicas. Ela nos ignora, por isso os tsunamis e cataclismos são aterradoras. Mas ela nos passa informações. Nossa missão de seres inteligentes é descodificá-las para evitar danos ou usá-las em nosso benefício. Os animais captam tais informações e antes de um tsunami fogem para lugares altos. Talvez nós outrora, sabíamos captá-las e nos defendíamos. Hoje perdemos esta capacidade. Mas para suprir nossa insuficiência, está ai a ciência. Ela pode descodificar as informações que previamente a Terra nos passa e nos sugerir estratégias de autodefesa e salvamento.
Como somos a própria Terra que tem consciência e inteligência, estamos ainda na fase juvenil, com pouco aprendizado. Estamos ingressando na fase adulta, aprendendo melhor como manejar as energias da Terra e do cosmos. Então a Terra, através de nosso saber, deixará que seus mecanismos sejam destrutivos. Todos vamos ainda crescer, aprender e amadurecer.
A Terra pende da cruz. Temos que tirá-la de lá e ressuscitá-la. Então celebraremos uma páscoa verdadeira, e nos será permitido desejar: feliz Páscoa.

Sunday, March 28, 2010

cembranelli para presidente!!!!

Promotor Francisco Cembranelli, grande vencedor no júri que decretou a condenação do casal Nardoni. Há acontecimentos que têm a contundência o bastante pra resumir toda uma época e seus matizes morais e emocionais. A dor pela barbárie perpetrada contra a pequena Isabella, a compaixão pela mãe Ana Carolina e família, a perplexidade pela realidade doente em que estamos e que individualmente também somos e ajudamos a se reproduzir, minha angústia pela falta generalizada de referenciais paternos neste mundo permissivo e desbundado, têm ao menos a companhia, no meu coração, do sentimento de profunda admiração por este homem, na plena acepção do termo. Obrigado dr. Cembranelli!


Monday, March 22, 2010

quaresma V - santidades possíveis

Cartaz de Invictus, libelo humanista e hagiografia profana consagrada a Nelson Mandela, o reconciliador da nação sul-africana; o filme é o segundo "conto de fadas da era de Obama" por Clint Eastwood, logo depois de Gran Torino (cf. Unzuhause, 25 de março de 2009, http://unzuhause77.blogspot.com/2009_03_01_archive.html); na foto abaixo Barack Obama, teólogo da libertação



21/03/2010 - 23h45
Câmara dos Estados Unidos aprova reforma da saúde proposta por Obama
Do UOL Notícias*Em São Paulo

A Câmara de Representantes dos Estados Unidos (equivalente à Câmara dos Deputados do Brasil) aprovou em votação histórica e apertada na noite deste domingo (21) a polêmica reforma da saúde proposta pelo presidente Barack Obama. A nova lei foi aprovada por 219 votos contra 212. Eram necessários pelo menos 216 votos favoráveis. Ao todo, 34 deputados democratas --do partido de Obama-- votaram contra a reforma, que passa a beneficiar mais de 30 milhões de norte-americanos que não tinham cobertura médica.
Aprovada na Câmara, o projeto segue agora para votação no Senado, em um procedimento chamado de "reconciliação", que permite a aprovação por maioria simples de 51 votos, o que deve ser conseguido com facilidade pelos democratas. O texto deve ainda ser sancionado por Obama.
A reforma do sistema de saúde é uma das principais bandeiras da política interna de presidente Barack Obama e é considerada uma das maiores reformas sociais da história do país.
A votação ocorre após um ano de confronto e de uma dramática semana, na qual Obama fez intensa campanha para obter apoio ao projeto, fundamental para seu futuro político.
Antes aprovação, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos havia aprovado, no início da noite deste domingo, as regras para a votação final do projeto. A definição das regras foi aprovada com 224 votos a favor e 206 contra, numa prévia do que seria a posterior votação da reforma.
Também antes do início da votação, milhares de ativistas protestaram do lado de fora do Capitólio (Congresso dos EUA) portando faixas amarelas dizendo "Não Pisem em Mim" e gritando "matem a proposta". Muitos entraram no Congresso e ficaram passeando pelos corredores para atrapalhar os procedimentos da Câmara.
Neste domingo, o presidente Obama se comprometeu a assinar documento que reafirma a vigente proibição aos abortos com dinheiro público, o que ampliou sua margem de apoio à reforma entre os democratas conservadores.
O projeto visa, principalmente, a ampliar a cobertura médica a 32 milhões de americanos que hoje não têm qualquer tipo de assistência. Com a lei, 95% dos quase 300 milhões de habitantes dos EUA terão cobertura médica, após uma reforma que custará US$ 940 bilhões de dólares em 10 anos.
O sistema americano de saúde sofre críticas há quase um século. Gerações de presidentes, desde Theodore Roosevelt (1901-1909) a Bill Clinton (1993-2001), não conseguiram aprovar seus projetos para modificar a situação.
As empresas de plano de saúde se opuseram fortemente ao projeto, que acabará com práticas da indústria médica como a recusa de cobertura a pessoas com doenças pré-existentes.
Críticos republicanos dizem que o projeto é uma intromissão no setor dos planos de saúde e que causará aumento de custos, do déficit orçamentário e redução na escolha dos pacientes.
A iniciativa passou pelo Senado no final de dezembro, e desde então sofreu numerosas modificações.
No sábado, Obama foi pessoalmente ao Congresso para pedir apoio à reforma: "se vocês acreditam de alma e consciência que não vamos melhorar a situação atual (...) então votem não (...), mas se estão de acordo sobre o fato de que o sistema não atende mais as famílias modestas, se vocês conheceram as mesmas histórias que eu por todo o país, me ajudem a consertar este sistema".
"Não façam isto por mim, não o façam pelo Partido Democrata, façam pelo povo americano".
Chamado da história
Na noite deste domingo, após a aprovação da proposta, Obama voltou a se manifestar a respeito do projeto e agradeceu os votos dos parlamentares favoráveis ao projeto. Durante pronunciamento, o presidente dos Estados Unidos assegurou que a histórica aprovação na Câmara de Representantes (Deputados) da reforma do sistema de saúde "responde aos sonhos de muitos americanos".
"O voto de hoje não foi fácil para muitos dos congressistas, mas é o voto correto. Esta noite nos elevamos acima da política... E demonstramos que somos capazes de fazer grandes coisas", disse Obama. "Esta noite respondemos ao chamado da História", completou.
"Não afastamos nossas responsabilidades, as abraçamos. Não nos acovardamos perante o futuro, lhe damos forma", declarou Obama, que antes de sua breve declaração, após a qual não aceitou perguntas, tinha ligado para a presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, para felicitá-la.
O primeiro dos projetos de lei aprovado esta noite, que contém o grosso da reforma e que já recebeu o sim do Senado em dezembro do ano passado, passa agora a Obama para sua assinatura e conversão em lei.
O segundo irá para o Senado, que deve vê-lo esta semana e possivelmente votá-lo na sexta-feira (26) ou no sábado (27).
A Casa Branca informou que Obama assinaria a lei esta terça-feira (23). O presidente deve se deslocar esta semana fora de Washington para promover a medida.
Segundo explicou o porta-voz presidencial, Robert Gibbs, Obama acompanhou a votação do salão Roosevelt da Casa Branca, em companhia de cerca de 40 funcionários.
Quando a reforma foi aprovada houve "vivas e aplausos" e "abraços generalizados", enquanto Obama cumprimentava seu chefe de Gabinete, Rahm Emanuel, segundo Gibbs.

Sunday, March 21, 2010

pintando palavras

"O pintor Kramskói [Ivan N. Kramskói (1837-1887)] tem um quadro magnífico chamado O Contemplador. Representa um bosque no inverno e, numa trilha do bosque, um mujiquezinho embrenhado, metido num caftan esfarrapado e calçando lapti [calçado de cascas de tília]: está parado sozinho na mais profunda solidão, postado e como que mergulhado em meditação, só que não está pensando e sim 'contemplando' algo. Se alguém o tocasse, ele estremeceria e o olharia como se tivesse despertado, mas sem compreender nada. É verdade que voltaria a si no mesmo instante, mas se alguém lhe perguntasse em que estava pensando ali postado, ele com certeza não se lembraria de nada, mas seguramente conservaria em si a impressão sob a qual se encontrava durante a contemplação. Essas impressões lhe são caras e é provável que ele as venha acumulando, sem se dar conta e até sem tomar consciência – e também sem saber, é claro, por que e para quê. Súbito, depois de haver acumulado impressões durante muitos anos, pode largar tudo e ir para Jerusalém em peregrinação e tentando salvar a alma, como também pode, num átimo, atear fogo à aldeia natal e pode igualmente fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Há bastantes contempladores no meio do povo. Pois Smierdiakóv [personagem do romance] era com certeza um desses contempladores, e provavelmente também acumulara suas impressões com avidez, quase sem saber para quê".

Fiódor DostoiévskiOs Irmãos Karamazov

Wednesday, March 17, 2010

quaresma IV - uma nova ascese

Nigredo ou mortificatio (mortificação), a sombria etapa preliminar da busca do "opus" e do renascimento espiritual, para os alquimistas

Enjôo, tontura, letras girando, biblioteca balança. Ando pra lá e pra cá, calça apertada, camisa apertada, jovens belas sorrisos e pernas. Ahhh, sempre as pernas. Tontura, desejo? Ensejo. Que seja! O táxi, o motorista em ternas palavras no viva voz com suas criancinhas. "A gente recebe o que deu", me diz depois, todo orgulhoso do amor, da preocupação, do afeto que aquelas vozinhas estremecidas traziam via eletrônica. Família! Sem "Álbum de Família" como no inferno dantesco dentro de nós e de nossa cultura apodrecida de valores de esgoto e esgotamento. Exausto. Excesso de café, excesso de trabalho. Nêmesis do corpo. Em casa, a terra tremendo, me pesam as palavras de ontem sobre o Haiti, o Haiti é aqui. Big Brother, futebol, livros de cabeceira, nada dá conta, a conta não é essa, não tem tabuadas. Eu vomito. A princípio é pouco, ponho o dedo na boca para estimular que saia tudo de uma vez. Alívio.
Como diz Caio Fernando Abreu, nas horas cruciais da vida, e são todas, não esqueça de notar a câmera que está ligada. O que em tempos de Big Brother e câmeras de celular chega a mudar muito de sentido, chega a cair no sem-sentido do banal. A câmera do Caio é o Eu impessoal que assiste às (des) venturas de seu ego no palco do mundo. É exercício 'metafísico" de vida cotidiana, atenção profunda ao não profundo, à superfície do Ser que é fenômeno (aparição de si, manifesto, nada escondido num mundo além), ainda quando as superfícies revolvem e se agitam em tontura no "dentro" do corpo. Dentro? Tudo é roupa, e em tempos de nudismo alucinado, o corpo nu é a roupa mais espessa, a que mais esconde. Tampona o corpo, o frágil, as fezes, o vômito, o amor das criancinhas a seu Pai.
-Unzuhause-
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Quaresma: Em busca de uma nova ascese
Maria Clara Lucchetti Bingemer

A Quaresma já vai avançada. Daqui a pouco mais de duas semanas terá início a Semana Santa, que culmina com a celebração da Paixão e da Páscoa. Durante este tempo, a Igreja convida os fiéis à penitência e à conversão, enquanto acompanham Jesus de Nazaré em seu caminho para a Paixão.Não se trata de uma prática antiquada e sem sentido para os dias de hoje. Trata-se de um tempo especial de purificação que prepare para viver o grande mistério da morte e ressurreição do Senhor. E neste processo, a ascese é de fundamental importância, embora a palavra esteja em desuso e possa provocar repulsa ou estranhamento.Vivemos em uma cultura movediça e cambiante onde os sentidos são acossados diariamente com estímulos constantes, para nos levar ao consumo desenfreado, à tirania do prazer, à avidez do ter e do possuir, aos quais é muito difícil resistir. Há profissionais talentosos regiamente pagos para descobrir nossas fragilidades e atingi-las.Esta cultura transtorna nossa interioridade, pois trabalha fundamentalmente em nossos sentidos, provocando sensações às vezes tão intensas, refinadas e contínuas, que podem entrar em nós sem tornar-se percepções conscientes, e muito menos elaboradas com um pensamento próprio. Há, portanto, para cada um de nós, cidadãos da pós-modernidade, um risco constante de viver permanentemente no fluxo contínuo das sensações que chegam aos nossos sentidos.Essas sensações começam a circular dentro de nós, nos seduzem e passam a formar parte de nosso universo interior. São direcionadas a nossas fomes e sedes naturais, e excitam as fomes e sedes artificiais e fictícias provocadas pelo mercado. Sutilmente ou mesmo grosseiramente, vão se apropriando de nossos sentimentos e de nossas decisões. Esta maneira de viver, submetidos a adicções criadas e mantidas artificialmente, começa a impedir-nos de enfrentar a realidade e seus desafios. Vai gerando em nós alienação, e condutas viciadas e compulsivas.Na contramão dessa cultura do consumo e do bem-estar, a Igreja propõe a ascese. A palavra grega ascese quer dizer exercício. Trata-se de exercitar-se para recuperar o domínio de si e não ser joguete dócil da propaganda e da cultura de sensações. Exercitar o corpo e o espírito a fim de não se submeter a todas as adicções que a sociedade nos apresenta incessantemente.Sob esta luz, portanto, o jejum tem pleno sentido. Assim também os exercícios físicos na justa medida. Abster-se de comida, de álcool, de fumo e também do uso imoderado da internet e da televisão, do jogo, da droga, do alucinógeno não apenas permite ao corpo e ao espírito estarem mais disponíveis para a oração e o serviço. O corpo em jejum e adestrado, o espírito vigilante e diligente são terra árida para as compulsões do consumo. Fazem-nos mais livres e dispostos para aquilo que é realmente importante, deixando de lado o que aliena e anestesia.Tem também sentido a oração, caminho de gratuidade que não controlamos nem manipulamos, onde um Outro absoluto conduz e tem as rédeas de uma experiência que não podemos produzir, mas apenas esperar, dispor-nos, acolher agradecidamente. Em uma cultura onde tudo está ao alcance de um “clic” e se consegue em segundos entrar mais a fundo nos tempos de Deus, que se move em ritmo de eternidade, é um excelente e sadio exercício.Assim também o despojamento pessoal expresso na esmola dada ao pobre, na ajuda ao necessitado, em todas as obras de misericórdia: visitar os doentes, vestir os nus, alimentar os famintos e dar de beber aos sedentos, fazer-se presente nos cárceres vários de cada dia, cuidar das crianças, atender os idosos. Tudo isso nos tira de nós mesmos e nos volta para os outros, na contramão de uma cultura que nos ensina que há que guardar, acumular, entesourar, investir, multiplicar os próprios bens.A razão de ser de todo esse exercício ascético nos será revelada em uma vida mais livre, em um coração mais aberto e disponível para acompanhar Jesus que, à frente de seus discípulos, caminha para Jerusalém tendo diante dos olhos apenas a vontade do Pai e o desejo de realizá-la. Para segui-lo em uma cultura como a nossa é imprescindível exercitar-se. A Quaresma pretende ser uma ocasião propícia para isso.

Tuesday, March 16, 2010

quaresma III -as formas do Self


É chegado o tempo de conversão, meus irmãos. Convertei-vos a vós mesmos, não ao ego delirante feito de miragens do deserto. Terra Santa do Si-Mesmo (Self, Atmã para os hindus), saída do Egito dos fetichismos da mercadoria e das alienações religiosas, alimento com os manás oferecidos não pela teoria, que mata de fome (e não mata "a" fome), o Senhor não fala só em latim nem no latido dos demônios (também eles filhos diletos de Deus), o Senhor atua no kairós, instante propício, que é sempre, pois é sempre tempo de despertar. Assumir os desertos, travessias sedentas porém autênticas, para além da falsa segurança feudal e "sede-ntária" do ego gordo, entrar em "forma" (espiritual e física) é pré-requisito, é parte integrante da conquista da enteléquia, forma própria, que nos foi destinada há muitas encarnações. Suportar os ruídos, as dissonâncias, não me apegar (ato falho digital: escrevi "apagar") num Uno que fosse supressão das diferenças, resignar-me ao ruído que fazem em meu prédio nesse instante, ao rumor venenoso das porcas desejosas de tomar, roubar, usar para si e para suas mentiras o que quer que lhes pareça ração em todos os discursos, como se reproduzir discursos fosse sinal de "dominá-los". Ora, não os discursos, o Verbo é que nos domina. Se nos permitirmos o despojamento necessário para tanto. Nunca mais a Unidade paradisíaca de antes do nascimento. Nunca mais o Silêncio, a Pureza, o mundo sem os vírus da imperfeição. Nunca mais a perfeição, mas quem sabe a completude (Jung).
Descobrir e trabalhar e "reciclar" em mim mesmo os restos de escória antes atribuídos a outras pessoas, que nos meus momentos de fantasia pervertida eu gostaria de trocar por Zilda Arns no terremoto do Haiti.. Por que é dona Zilda que se vai e esses lixos ficam aí saltitantes e rabichosas?? Por que é que um Glauco se vai por conta de um merda de um maluco que lhe cruza o caminho, babando e inútil? Por que os piores é que ficam?
Há entre os judeus, inclusive, a anedota de que os piores dentre eles, isto é, os menos corajosos, os menos heróicos, os menos visados, é que sobreviveram ao Holocausto; como são brilhantes os judeus (não por acaso Freud e Marx o eram) quando se trata de fazer a autoanálise implacável, fazer humor inteligente na corrosão das poses e afetações, sobretudo de si mesmos, não se levar demasiado a sério, trabalhar em ascese de evolução a partir do escancaramento de suas fraquezas, sem qualquer arrogância à la "Povo Eleito" e "amados preferenciais" da quimera de Deus inventada à imagem e semelhança da pança gorda da porca egóica que em nós quer usurpar o trono do Self.
-Unzuhause-
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Pâques : Chacun a son désert à traverser…

Chacun a son désert à traverser, une source à découvrir, un oasis à cultiver…
La semaine de Pâque est le moment favorable (Kairos) pour ces essentielles traversées, celle de nos peurs, de nos attentes, de nos solitudes sans doute, mais aussi le temps de découvrir que la Source ne nous a jamais quitté, enfouie dans les sables de l’oubli, elle ne cherche qu’à se donner. Si nous l’acceptons, l’oasis est possible. Nos terres dévastées deviennent terres fécondes, nos deuils ou nos échecs acceptés deviennent écoles de résurrection…
Résurrection qui est irruption de la droiture ou de la verticale dans l’homme couché, pressentiment de la vie éternelle au cœur même de nos vies dispersées…

Jean-Yves Leloup

Wednesday, March 10, 2010

de Karamazov e outros equívocos


Um sonho de hoje e outro de dias atrás:
Esta noite sonhei ser a voz da brisa, ou da ventania, ou do nevoeiro tipo filme de Fellini enquanto um personagem subia, subia, subia montanha num romance de Dostoiévski, acho que Os Irmãos Karamazov (sei que, no rigor dos especialistas, faltaria um acento agudo, "karamázov",mas como amo, como é forte e gostosa na boca a palavra pronunciada na maneira habitual, acho que por influência das traduções francesas em que as versões brasileiras se amparavam: com acento no "o", "karamazóv"!!). Assisti domingo a uma peça de Nelson Rodrigues, o "Dostoiévski brasileiro", com esse efeito sonoro da ventania nebulosa, o que deve ter influenciado na invenção dessa "personagem" impalpável no meu devaneio noturno. Quanto aos Karamazov, eu conversava outro dia a esse respeito com uma amiga psicanalista, e venho pensando muito sobre a questão do parricídio, tema crucial do romance.
Sonho de outro dia, ainda com ecos agora:
Anima (o princípio feminino no homem, segundo Jung), meu diabinho enigmático e indomável, sonhei de novo contigo, você numa foto em cor dourada como uma de tuas cabeleiras, você belíssima, jovial, menina, como sempre, mas com uma legenda (era foto de álbum de orkut) na qual uma amiga sua dizia algo como: "estão te levando pra um caminho errado, não abusem dela, ou não abuse (você)". Referia-se a algum excesso de bebedeira na qual você era envolvida, não talvez com a inocência que eu esperaria, mas com a ambivalência que em ti (em mim?) eu desejo, pois é também de malícias que se faz teu encanto fatal.
No rigor dos especialistas, pensar ainda em você é um equívoco, mas quem disse que o espírito se conjuga como os verbos do Cegalla, para se tirar nota 10?
Falando em notas, uma estranha numeração acompanha a "idéia" toda desses dizeres e dessa imagem do segundo sonho: não sei se 99, ou 999.

Wednesday, March 03, 2010

quaresma II- o Mar Vivo e o Mar Morto


O Mar da Galiléia


Belíssima a reflexão seguinte, de uma missionária leiga em Moçambique. Um alento, alimento, hóstia de significados vivos para o tempo forte de conversão propiciado por esta Quaresma.
-Unzuhause-


A PARÁBOLA DO MAR DA GALILÉIA E DO MAR MORTO



por Raimunda Soares, leiga missionária, direto de Moçambique


Na terra Santa encontramos dois mares conhecidos. Embora alimentados pelo mesmo rio Jordão eles sejam, no entanto totalmente distintos um do outro.

O Mar da Galiléia é de água doce e contém muitos peixes. Seu litoral é salpicado por cidades e aldeias lindas. As colinas que rodeiam o mar são férteis e verdejantes.

O outro é o Mar Morto. É célebre pela sua densidade de sais minerais. Não tem peixe e nem os vegetais tem condições de vida. Seus arredores são desertos. Não existe área verde. O Mar Morto apresenta um aspecto desolador.

Donde vem esta diferença? A explicação é simples e simbólica. O Mar da Galiléia recebe pelo norte as águas do rio Jordão, com toda a sua carga de vida e fertilidade. Porém, não guarda para si esta fertilidade. Ás águas segue seu curso rumo para o sul. É um mar que recebe a água do Hermon e das colinas de Golon. Riquíssimo em águas e em vegetação, o Mar da Galiléia não vive para si, reparte tudo aquilo que recebe de cima.

No entanto, o Mar Morto é totalmente diferente. Recebe igualmente a água do rio Jordão, mas retém esta água para si. Não possui saída. Enquanto as águas se evaporam, todos os sais minerais em suspensão se acumulam no enorme recipiente fechado. A excessiva saturação é estéril. Não permite vegetação alguma, não tem vida. É um mar que mata. É o Mar Morto.

Existem igualmente duas classes de pessoas. E para começar, encontramos pessoas que nada guardam para si mesmas, nem seus dons e nem seus talentos. Colocam tudo a disposição dos outros. Tornam-se assim bem aceitas e são estimadas pelos outros. Tais pessoas são vivificadas. Seu calor humano, sua caridade, sua disponibilidade e o seu dom de partilhar com os outros irradiam em redor delas confiança, alegria e vida. É gratificante colaborar com estas almas generosas. E tudo isso porque elas possuem a arte de nada conservar para si mesmas. Sabem partilhar os dons que o Senhor lhes concebeu.

Desgraçadamente encontramos pessoas totalmente diferentes. São aquelas que vivem mais para si mesmas. Acumulam, porém somente para si. Sofrem de uma tríplice enfermidade: avidez, ambição e dominação. Ignoram sua enfermidade, porém a fazem sofrer. E esta doença as leva a morte. Não são simpáticas e nem atraentes. Isolam-se. Não irradiam luz e nem calor humano. Deterioram, pelo contrário, o clima e ambiente. Tudo o que é vida, desaparece em redor delas. Formam realmente o Mar Morto.


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