quarta-feira, janeiro 27, 2010

dos talk-shows à metafísica do sexo


"O fato de a humanidade fazer amor como faz quase tudo, isto é, estúpida e inconscientemente, não impede que seu mistério continue a manter a dignidade que lhe corresponde".
S. Peladán,
La science de l' Amour
***
"A mulher [na mídia, na publicidade, na indústria pornô] é apresentada sob mil aspectos, para constantemente atrair o homem e o intoxicar sexualmente. O strip-tease, costume americano trazido para a cena e oferecendo o espetáculo duma jovem que lentamente se despe, despojando-se uma a uma das peças de vestuário mais íntimas até ao mínimo necessário para manter nos espectadores a tensão própria a esse 'complexo de espera', ou estado de suspense, que a nudez imediata, completa e impudica destruiria, tem o valor dum símbolo que resume tudo aquilo que nos últimos períodos da civilização ocidental se produziu em todos os domínios sob o signo do sexo. Utilizaram-se para este efeito os recursos da técnica. "
Julius Evola,
A Metafísica do Sexo
***
Tinha com um caro amigo de infância e adolescência, o Luís Henrique, o hábito de, nas baladas, promover o que chamávamos de nossos "talks-shows": abordagem de meninas interessantes, porém sem as fórmulas chulas do xaveco de balada, em que aliás nunca fui craque.
Claro que a escolha das entrevistadas tinha que estar à altura. Meninas que estivessem minimamente lúcidas (sem olho vidrado de droga nem baba de bebida) e com a reflexividade necessária para um bom papo, sobretudo de tipo introspectivo. Daí -com o perdão do parênteses estapafúrdio rs- o encanto que, tempos depois, já na universidade, eu viria a ter com festas noturnas ou mesmo conversas de cafezinho com grupos deleuzianos, nos quais é incrível a incidência estatística de mulheres atraentes, joviais e de conversa sofisticadíssima - não em sentido de afetação, mas de profundidade e vitalidade.
Pois bem, tudo isso pra registrar a inesperada reedição, no último fim-de-semana, desse saudável e saudoso exercício do talk-show, não em balada, que tô sem saco pra frequentar muito (SP me cansa até nisso hoje em dia, o que é grave), mas no meu lugar predileto da cidade, a Livraria Cultura da Avenida Paulista. Ela é o que chamo de versão condensada de minha utopia urbana: livros, cds, café, teatro, cinema, gente pensante. E, claro, meu fetiche rs, as belas pernas femininas de sempre, respirando à mostra nesses cálidos dias de verão.
Mas não foi nas pernas, foi no espírito de uma dessas frequentadoras que os meus olhos pousaram dessa vez. Uma francesa em intercâmbio no Brasil. Em pauta, possibilidades de estudo conjunto etc. Falamos de tudo, mas a hora mais interessante foi a da "sociologia" (não de butequim, mas de cafeteria rs) que esboçamos sobre relacionamento entre os sexos no Brasil e na Europa.
O que ela me disse, em suma, foi de seu susto de ver como aqui as coisas são, digamos, mais "diretas ": desde a iniciativa dos caras (quando não das próprias meninas), passando pela resposta, até a consumação dos beijos e do "ir além", como ela disse. Expressão aliás que, por si só, me levou ao riso, por me fazer entrever como aquilo que pra alguns se resumiria a uma mera trepa, no floreio francês virou esse "ir além". E não por acaso pra mim a melhor Erótica de todas, e a ciência da libertinagem, vêm da França: civilização das luzes, que também por isso torna as "trevas" do instinto selvagem um caminho mais longo,autossuperação, um desafio mais inquietante, mais denso, menos vulgar. Não algo dado, e sim a ser conquistado.
A francesa que eu "entrevistei" no sábado também falou de sua surpresa com o machismo das brasileiras, isto é, a aceitação tácita do predomínio do homem, e sujeição voluntária à grosseria nos modos de dizer e fazer dos caras . O que pra mim é absolutamente abominável, e chego até a dizer, quase impossível, ante minha natural propensão por mulheres fortes, decididas, de poder felliniano sobre minha imaginação e conduta.
Entre as várias outras impressões legais que fomos trocando, essas me tocaram em especial. Pois me fizeram entender melhor, em retrospectiva, justamente o que eu gosto de procurar nas minhas "entrevistadas" desde meus tempos de aventura baladeira com o Luís Henrique, meus primeiros tempos de penosa (e ainda inconclusa) educação sentimental: a busca das curvas, não só do corpo, as curvas e sinuosidades espirituais que tornam o encontro dos sexos uma verdadeira experiência metafísica, como diria o mestre italiano Julius Evola. Metafísica, portanto nada retilínea, pois é na curvatura imprecisa e obscura da vida, que se podem encontrar, nos encontrar, os tesouros mais preciosos.
Claro que generalizações do tipo "o brasileiro" é assim, "o francês" é assado, são tolas e inúteis quando se quer sair da prancheta e ir pra vida. Mas a vida mesma me trouxe e me traz, às vezes na forma de frustrações e desencontros, a percepção de que não só o sexo (atividade sexual), mas os sexos (gêneros), a diferença sexual, são possibilidades que não devem ser desperdiçadas no impulso vulgar que no dia seguinte se revelará em lençois sujos e consciência pesada.
Sexo vem de secção, separação. Experiência que pode ser dolorosa, como o era na sociedade vitoriana reprimida, como é nesta atual civilização abrasileirante do strip-tease e do desbunde. Mas o seccionar do sexual também pode ser convertido em via mágica, "misterial" (no sentido dos Mistérios arcaicos de transformação da personalidade, de iniciação no reino do espírito, passagem do ego ao Self, em linguagem junguiana). Pode ser senda de auto-realização de corpo e alma. Dialética de reunificação e reencontro do que se separou na secção dos sexos de que falava Platão. Androginia espiritual tão bem retratada, porém aqui mais no registro da ternura do que no do furor sexual, no belíssimo Cerejeiras em Flor, que vi esses dias, perto da Livraria Cultura .

domingo, janeiro 24, 2010

a viuvez infernal dos domingos

Montagem combinada de imagens de Arthur Rimbaud e de Jean-Paul Sartre; a frase em destaque reúne frases célebres de ambos: "O inferno são os outros", de Sartre, e "Eu é um outro", de Rimbaud, donde "O inferno sou os outros".
Os poetas de sete anos
(por ARTHUR RIMBAUD)


E então a Mãe, fechando o livro do dever,


Lá se ia satisfeita e orgulhosa, sem ver


Em seus olhos azuis, sob as protuberâncias


Da face, a alma do filho entregue a repugnâncias.


***


O dia inteiro ele suou de obediência; que


Inteligente! e entanto, uns tiques maus, um quê


Já demonstravam nele acres hipocrisias.


No escuro corredor, junto às tapeçarias


Mofadas, estirava a lingua, os punhos fundos


Nos bolsos e, fechando os olhos, via mundos.


Sobre a noite uma porta abria-se: na rampa da


Escada, a resmungar, o viam, sob a lâmpada,


Como um golfo de luz a pender do teto. E no


Verão, abatido, ar estúpido, o menino


Teimava em se trancar no frescor das latrinas


Para pensar em paz, arejando as narinas.


***


Quando o jardim de trás de casa se lavava


Dos odores do dia e, no inverno, aluarava,


Jazendo ao pé do muro, enterrado na argila,


Para atrair visões esfregava a pupila


E ouvia o esturricar das plantas nas treliças.


Pobre! para brincar só com crianças enfermiças


De fronte nua, olhar vazio que lhes erra


Pela face, escondendo as mãos sujas de terra


Nas roupas a cheirar a fezes, todas rotas,


Falando com essa voz melosa dos idiotas!


E quando o surpreendia em práticas imundas,


A mãe se horrorizava; o menino, profundas


Carícias lhe fazia, a apaziguar-le a mente.


Era bom. Ela tinha o olhar azul, - que mente!


***


Aos sete anos compunha histórias sobre a vida


No deserto, onde esplende a Liberdade haurida,


Florestas, rios, sóis, savanas! Recorria


A revistas nas quais, encabulado, via


Italianas a rir e espanholas bonitas.


Quando vinha, olhos maus, louca, em saias de chitas,


A filha - oito anos já - do operário ao lado,


A pirralha infernal, que após lhe haver pulado


Às costas, de algum canto, a sacudir as roupas,


Ele por baixo então lhe mordiscava as popas,


Porquanto ela jamais andava de calcinha.


- Cheio de pontapés e socos, ele vinha


Trazendo esse sabor de carne para o quarto.


***


Da viuvez infernal dos domingos já farto,


Junto à mesa de mogno, empomadado, a ter de


Recitar a Bíblia encadernada em verde


E a sofrer a opressão dos sonhos maus em que arde,


Já não amava Deus; mas os homens, que à tarde,


Via, sujos, chegando em suas casas baixas,


Quando vinha o pregoeiro, entre ruflar de caixas,


A ler seus editais entre risos e pragas.


- Sonhava as vastidões de prados onde as vagas


De luz, perfumes bons, douradas lactescências


Se movem calmamente e evolam como essências.


***


E como saboreava antes de tudo arcanas


Coisas, se punha, após baixar as persianas,


A ler no quarto azul, que cheirava a mofado,


Seu romance sem cessar em sonhos meditado,


Cheio de plúmbeos céus, florestas, pantanais,


Flores de carne viva em bosques siderais,


Vertigens, comoções, derrotas, falcatruas!-


Enquanto progredia a agitação nas ruas


Embaixo, - só, deitado entre peças de tela


De lona, a pressentir intensamente a vela!

quinta-feira, janeiro 21, 2010

caleidoscópio, pietà, verão no Rio Tietê



O tempo presente multiplica meios de comunicação e esvazia seus fins. Vazio. Twitter, orkut, torpedo de celular e vazio, ausência da voz. Cego em meio a tiroteio. Desejo que anda, cresce mas se sonha e pára numa cena de Pietà, consolado para sempre, como um cátaro que no Ventre materno reencontra a Pureza perdida na poluição do mundo Tietê. Tradução: esforço árduo, chato, solitário, embora solidário com a nobre função de levar mensagens cifradas de uma margem a outra. Eu gosto de traduzir não como profissão mecânica, mas profissão de fé: o monge copista que precisa salvar a Palavra da corrosão do tempo e da estupidez dos homens do tempo. Viver no e-terno faz ver todo ano como igual ao outro (Roman Polanski, Lua de Fel). Zorba o Grego: que maravilha de cântico de libertação contra o intelectual encruado, frustrado e empedernido que tenho horror de vir a ser. Viagem, pra dentro e pra fora, como no belo corpo de uma mulher, entrando e saindo dela em sístoles e diástoles de amor. As coxas das paulistanas no verão me deixam cariocamente maluco, mas engarrafado, na congestão no congestionado, no Rio sem praia, Rio Tietê. Enchente dos apetites. Como se concentrar pra trabalhar? rs
Traduzir, traduzir-se. Mestre Ferreira Gullar, cronista de nossa época, pensador cujo brilho vem antes da serpentina jogada sobre si mesmo (prótese da serpente recusada feito demônio), obra que vem antes do nome, e o nome antes da assinatura, não como nos mortos-vivos, nos gays ontológicos, que se recusam tragicamente o serem gays, anulados para os quais o sangue alheio, sugado no ritmo de uma vez por semana quando se sai do caixão da anonímia para a "consagração" do olhar do Outro, compensa a anemia interna (embora eu conheça uma Vampira linda, que nada tem de parasitismo, ao contrário, uma das Mulheres mais belas e inteligentes do mundo, maior psicanalista do Brasil).

TRADUZIR-SE

(Ferreira Gullar)
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
**
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
**
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
**
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
**
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
**
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte ,
linguagem.
**
Traduzir-se uma parte
na outra parte-
que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

quarta-feira, janeiro 20, 2010

vai Coringão, vai Ronaldo, vai Zina!!!!!!!!!!


Hoje tem Coringão em campo, com Ronaldo e Roberto Carlos, no Pacaembu. É o ano do Centenário começando a pegar fogo. Espero que não seja na pira da auto-incineração pela labareda cega de uma ansiedade alucinada em torno do título inédito da Copa Libertadores.
Eu testemunhei in loco, quatro anos atrás, nesse mesmo Pacaembu, o triste resultado de uma expectativa mal trabalhada que deságua em frustração: a derrota para o River Plate, a invasão do campo pela massa, o risco iminente de uma tragédia. Pane adminstrativa no clube. Escândalos. Rebaixamento. Que esse pesadelo não se repita, por favor, senhor Andrés Sanchez (que tá falando demais pro meu gosto, ultimamente)!
Para qualquer grande aventura um pré-requisito fundamental é não só o desejo de vencer, mas estar pronto também para perder. Perder, doer, ferir-se mas recomeçar. E não se desmantelar, como naquela outra derrota, para o Palmeiras (pqp, justo pra quem), quando a torcida foi insensata a ponto de forçar a saída de de craques como Edílson e o fim de um dos maiores esquadrões da história do Coringão.
Hoje o jogo é pelo Paulistão, mas cumpre já ter a máxima atenção para esse horizonte mais amplo, que pode significar a glória ou a desgraça de mais esse épico que vamos encarar: a luta pra dar fim a mais um grande jejum histórico (o de títulos sul-americanos), depois das provações que nós, os grandes santos ascetas do futebol, já passamos: 23 anos sem título paulista, 11 anos sem ganhar do Santos, 19 anos sem título brasileiro. E mesmo assim, um time que só fez crescer em paixão e carisma e, em seguida, vitórias e títulos. É porque, como diz Washington Olivetto, o Corinthians é único por ser uma torcida que tem um time, enquanto os outros são times que têm torcida..
Ao contrário da diretoria viada do São Paulo -e aqui, insisto, "viado" é um qualificativo ontológico, o viado ontológico como fraude e afetação arrogante, nada contra os homossexuais "empíricos", o que me irrita é a arrogância viada que tenta se esconder de si e dos outros, e tenta botar no lugar de sua miséria afetiva, de sua natureza (orientação sexual) amaldiçoada e reprimida, a compulsão de poder, de se achar mais "importante" que os outros; ao contrário da viadagem são-paulina, eu dizia, o Timão não precisa de marketing de resultados, não somos dependentes de títulos a mostrar para os outros e a provar pra nós mesmos que existimos, como os RGs da sociedade "burrocrática" e do "sabe com quem está falando". Campeão ou não, és a maior paixão, meu Coringão rsrs.
Que seja Campeão! Mais uma vez! Mas sem neuroses impostas de fora pra dentro, introjetadas como atestados existenciais, "necessidades" artificiais de auto-afirmação pra inglês (ou pra argentinos e bolivianos, no caso) ver ...Aliás, vem cá.. campeonatinho chinfrim é essa libertadores viu! até outro dia ninguém no Brasil dava a mínima pelota. E agora querem lhe dar um status de Champions League da "América Latrina". Quer saber? Fodam-se, latrinólatras. Se é pra falar em título, somos os primeiros campeões mundiais oficiais, pela Fifa, glória que está fazendo aniversário de 10 anos.. Hora de repetir a dose rs.
Esse texto, e esses votos do coração para um bom ano do Timão, são minha singela homenagem ao grande Zina (Ronaldo! E brilha muito no Corinthians). Preso esses dias, pela segunda vez em poucas semanas, Zina é síntese da tragicidade brasileira: alegria e criatividade viris de um lado, fragilidade por todos os outros lados; Zina foi diagnosticado esquizofrênico, ele toma 12 remédios psiquiátricos ao dia.. E foi num surto desse gênero que -causa de sua nova prisão, na outra vez foi por consumo de drogas-, Zina saiu atirando para o alto, em inconsciente imitação do que André Breton dizia ser o "ato surrealista mais simples" (cf. Breton, Segundo Manifesto do Surrealismo).
Que nessa hora difícil Zina encontre amparo, apoio, e não a exclusão e a repressão que vitima tantos "zinas" que sequer chegam a ter a sorte grande, como este corintiano (representante típico da alma profunda de todo verdadeiro corintiano, do povão à classe A) que foi descoberto ao acaso pela TV, sorte grande de deixar aflorar a criatividade e a graça, soterradas no nosso sofrimento severino e enlouquecedor de cada dia.
Vai Coringão! Vai Ronaldo! Vai Zina!!!!!!

terça-feira, janeiro 19, 2010

brincar com as palavras




Convite (José Paulo Paes)


Poesia


é brincar com palavras


como se brinca com bola, papagaio, pião.


**


Só que


bola, papagaio,pião


de tanto brincar se gastam.


**


As palavras não:


quanto mais se brinca


com elas


mais novas ficam.


**


Como a água do rio


que é água sempre nova.


**


Como cada dia que é sempre um novo dia.


**


Vamos brincar de poesia?

sábado, janeiro 16, 2010

Zilda Arns, doutora do Amor


"Apesar de tudo, como é admirável o ser humano, essa coisa tão pequena e transitória, tão seguidamente esmagada por terremotos e guerras, tão cruelmente posta à prova em incêndios, naufrágios, pestes, mortes de filhos e pais.
Sim, tenho uma esperança demencial, ligada, paradoxalmente, à nossa atual pobreza existencial e ao desejo, que descubro em muitos olhares, de que algo grande nos consagre a cuidar com empenho da terra em que vivemos."

Ernesto Sabato
Resistência
PS: Programa da Globonews sobre a trajetória de dona Zilda:

domingo, janeiro 10, 2010

a voz de Wotan



Minha nossa senhora, escutem isso (links abaixo).. se Caetano cantou a impossibilidade de filosofar a não ser em alemão, eu chegaria quase a esse ponto ao dizer que não há língua gutural, selvagem e pesada mais perfeita para o rock do que a de Goethe (não por acaso criador, ou porta-voz, do demônio mais importante da história da literatura, em seu Fausto; já viram como o gesto típico dos metaleiros lembra os chifres do diabo?).
O que sei é que esses caras do Rammstein me impressionaram muito pela força do seu som e a contundência performática de sua presença em palco. E acabei de descobrir essa banda, vi um concerto deles na MTV na madrugada de sexta pra sábado. Os links remetem a esse mesmo evento.
Acho que Jung ficaria em êxtase ao escutar, nesse rock mefistofélico, a presença de viva voz de Wotan, o deus pagão que, anos antes da Segunda Guerra, ele, com base em sua própria escuta clínica e análises culturais, percebeu que renascia no inconsciente coletivo dos alemães, a começar dos devaneios de Nietzsche acerca de "Dionísio", nome que Nietzsche, filologista e helenista, teria encontrado em seu próprio repertório intelectual pra designar uma experiência e uma potência que segundo Jung eram na verdade radicadas na psicologia história dessas tribos bárbaras, recém-cristianizadas , que compunham a recém-formada nação alemã, naquela época. Claro que os nazistas acabaram por abastardar, com sua política odiosa e chula, todo esse cadinho de transformações psíquicas, potencialmente revolucionárias em relação à chata e broxa civilização burguesa, dita cristã, que nos assola há séculos. Mas o próprio advento do rock, para além de sua domesticação como um mero entretenimento a mais, é sintoma, não dos menores, da revolta que volta, de algo que retorna.. transfusão nas veias anêmicas da vida moderna do sangue do espírito primitivo.
E chega de blablablá, que tô num lap top pra lá de desconfortável (meu PC deu pau desde sexta-feira), e quero agora é escutar esses monstros rs.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

do TOC ao divino toque


Escutei outro dia, na entrada de um cinema, uma moça que falava com duas amigas sobre uma determinada festa em que estivera dias atrás. "Não estava me sentindo muito bem lá. Os homens pra um lado, olhando as mulheres, as mulheres pra outro lado, olhando os homens. Mas sem poderem se aproximar. Pareciam temer algum contágio. O contágio da liberdade". Poeticamente inquietante desfecho.
Peixe a léguas d' água naquela festa, a moça, ao que parece, se submeteu a esse constrangimento por se tratar das pessoas que lhe dão hospedagem na cidade nessas férias.
Segundo seu relato, era um grupo de uma determinada confissão cristã, que não creio precisar mencionar aqui. Pois o equívoco essencial não está nessa ou naquela religião, e sim na sua manipulação como escudo e esquiva contra a vida.
Inclusive se pensarmos nas"religiões" de um só integrante (sacerdote, fiel e cordeiro imolado) suscitadas pela fobias, pânicos e transtornos obsessivos-compulsivos, "lepras da alma" em alta pandêmica nesta sociedade infectada de brutalidade, , competição, isolamento, incultura, perversidade, inchaço demográfico, ruína ecológica.
Esses pensamentos randômicos me vêm à mente ao meditar na mensagem trazida pelo Evangelho de hoje, nas missas católicas, juntamente com o belo comentário dele por um dos principais pensadores da Igreja primitiva.
Que o exemplo -simbólico como tudo nas Escrituras sagradas das diversas religiões, esses grandes poemas do inconsciente coletivo- do toque de Deus, ou como queiramos denominar a Transcendência, seja o sutil e poderoso "toc-toc" anti-TOC que nos faça abrir os portais de nós mesmos e e superar os medos à flor, ou nos espinhos, da pele.
***


"Encontrando-se Jesus numa das cidades, apareceu um homem coberto de lepra. Ao ver Jesus, caiu com a face por terra e dirigiu-lhe esta súplica: 'Senhor, se quiseres, podes purificar-me.' Jesus estendeu a mão e tocou-lhe, dizendo: 'Quero, fica purificado.' E imediatamente a lepra o deixou. Ordenou-lhe, então, que a ninguém o dissesse; no entanto, acrescentou: 'Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés ordenou, para lhe servir de prova'. A sua fama espalhava-se cada vez mais, juntando se grandes multidões para o ouvirem e para que os curasse dos seus males. Mas Ele retirava-se para lugares solitários e aí se entregava à oração.

Evangelho segundo S. Lucas 5,12-16.


Comentário por : São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero em Antioquia e posteriormente Bispo de Constantinopla, Doutor da Igreja

"Jesus estendeu a mão e tocou-lhe, dizendo: 'Quero, fica purificado.' Jesus não disse simplesmente: 'Quero, fica purificado.' Fez mais e melhor: 'Estendeu a mão e tocou-lhe.' Este é um facto digno de atenção. Dado que podia curá-lo por um acto da Sua vontade e pela palavra, porque lhe tocou com a mão? Pela única razão de mostrar, quero crer, que não era inferior mas superior à Lei; e também para mostrar que, dali em diante, nada é impuro para quem é puro [...]. A mão de Jesus não ficou impura no contacto com o leproso; ao invés, o corpo do leproso ficou purificado pela santidade dEssa mão. Cristo veio não apenas para curar os corpos, mas para elevar as almas à santidade; Ele ensina-nos aqui a cuidarmos da nossa alma, a purificá-la, sem nos preocuparmos com abluções exteriores. A única lepra a temer é a da alma, isto é, o pecado [...].Quanto a nós, devemos dar continuamente a Deus acções de graças. Agradeçamos-Lhe não apenas pelos bens que nos concedeu, mas ainda pelos que concedeu aos outros: poderemos assim destruir a inveja, manter e fazer crescer o nosso amor ao próximo [...]."



quarta-feira, janeiro 06, 2010

a águia do sertão


"Lula, O Filho do Brasil". Assistam! Pela estréia promissora de Rui Ricardo Diaz no papel principal. Por Glória Pires, comovente no papel de dona Lindu, mãe de Lula. E, sobretudo, pelo valioso testemunho que dá a respeito das origens, no rude sertão pernambucano, e imensa proeza existencial do maior líder político da história do Brasil. O filme não aprofunda os aspectos políticos e sociológicos do enigma Lula, e não aborda o fascinante contexto da gênese do partido dos Trabalhadores no burburinho criativo de vozes múltiplas e concertadas da classe média, intelectuais, operariado sindical e comunidades eclesias de base no início dos anos 80. Mas, como bem sabiam os estudantes de 68, "as estruturas não descem às ruas", nem fazem piquete nem se elegem presidente: algumas das qualidades pessoais, singulares, únicas de Lula - inteligência, carisma, pragmatismo- tão marcantes desde os tempos de suas lutas sindicais no ABC, e antes disso, em suas conquistas amorosas rsrs, são muito bem retratadas por Fabio Barreto.
Sugestão de leitura de acompanhamento, desdobrando em linguagem simples e fecunda o drama da auto-descoberta do homem sob o fardo de uma conjuntura histórica adversa: A Águia e a Galinha, de Leonardo Boff.
***
"Lula, O Filho do Brasil"
A história de um homem comum, sua família e a extraordinária capacidade de superar dificuldades.
Com direção de Fábio Barreto (O Quatrilho), e baseado no livro homônimo de Denise Paraná, Lula, o Filho do Brasil traz para as telas o percurso de Luiz Inácio Lula da Silva, do seu nascimento, em 1945, até 1980, quando era um líder sindical consagrado. A data marca também a morte de uma pessoa extremamente influente em sua vida e em sua forma de pensar: Dona Lindu (Eurídice Ferreira de Mello), que criou oito filhos, sozinha, e tinha como lema "Nesta família ninguém vai ser ladrão ou prostituta". E cumpriu.
Filmado em dois estados (Pernambuco e São Paulo), sete cidades e 70 locações, entre 20 de janeiro e 18 de março de 2009, Lula, o Filho do Brasil percorre os principais pontos da trajetória humana de Lula, do árido sertão pernambucano, onde nasceu, à periferia de Santos, onde cresceu, e por fábricas e sindicatos do ABC paulista, onde viveu intensas transformações pessoais (como a perda da primeira mulher e do filho), e profissionais (como o emocionante discurso no estádio lotado da Vila Euclides, realizado sem sistema de som, quando 80 mil operários repetiram suas palavras para que todos pudessem ouvi-las).
No elenco de 130 atores destacam-se Rui Ricardo Diaz, que em sua estreia cinematográfica, interpreta Lula dos 18 aos 35 anos; Glória Pires como Dona Lindu, Cleo Pires (Lurdes, primeira mulher de Lula), Juliana Baroni (Marisa Letícia). Milhem Cortaz (Aristides, como o pai violento). As filmagens contaram ainda com 3.000 figurantes.
Lula, o Filho do Brasil tem fotografia de Gustavo Hadba, direção de arte de Clóvis Bueno, figurinos de Cristina Camargo, roteiro de Daniel Tendler, Denise Paraná e Fernando Bonassi, música de Antônio Pinto e Jaques Morelenbaum.
"Não fizemos um filme sobre um político ou o presidente da República, mas sobre um homem comum, sua família e a extraordinária capacidade de superar dificuldades," define o produtor Luiz Carlos Barreto, idealizador do projeto.
Produzido pela LC Barreto / Filmes do Equador, e Intervídeo Digital, produção Paula Barreto e produção executiva de Rômulo Marinho Jr, Lula, o Filho do Brasil foi realizado sem leis de incentivo municipal, estadual ou federal. Entre seus patrocinadores estão SENAI, Camargo Corrêa, GDF Suez, EBX, OAS, Ambev, Odebrecht, Volkswagen, Souza Cruz, Hyundai, Grupo JBS- Friboi, Estre Ambiental, Neo Energia, CPFL, Grendene e Oi.
Sinopse:
1945, sertão de Pernambuco. Menos de um mês depois da partida do marido Aristides para tentar a vida em São Paulo com uma moça bem mais nova, Dona Lindu dá a luz ao seu sétimo filho, Luiz Inácio da Silva, que logo ganha o apelido de "Lula". Sozinha, Dona Lindu, uma mulher simples e de rígidos valores morais, enfrenta as dificuldades sem se queixar.
Durante a seca de 1952, a pior da história do Nordeste, a família recebe uma carta de Aristides, chamando mulher e filhos para viverem a seu lado em São Paulo. Dona Lindu vende tudo o que tem e parte com os filhos, sem saber de que se tratava de uma carta falsa: cansado de apanhar do pai, Jaime forjara uma carta convocando a família. Na verdade, Aristides queria distância da primeira mulher e de seus sete filhos.
A viagem em pau-de-arara do sertão até Santos dura 13 dias e 13 noites. Durante o longo percurso, Lula testemunhou situações de grande miséria e crueldade, e também a integridade e compaixão da mãe.
Santos foi a primeira parada da família, onde Aristides vivia com outra mulher e sobrevivia como estivador. Dona Lindu e seus filhos viviam em condições precárias, agravadas pela crescente violência do pai que passou a beber cada vez mais. Dona Lindu insistia para que os meninos estudassem, enquanto o pai proibia esse 'luxo': "Filho de pobre tem que trabalhar e não estudar" dizia. O pequeno Lula ia à escola, vendia frutas na rua e confrontava o pai. Um dia Dona Lindu toma uma atitude audaciosa: abandona o marido e vai para São Paulo em busca de uma vida melhor para os filhos.
Em 1963, Lula oferece uma enorme felicidade à mãe: conclui o curso profissionalizante do SENAI. Como todo jovem de sua idade, vai ao cinema, bailes, e passa a namorar Lurdes, irmã de Lambari, seu melhor amigo.
Uma nova mudança leva os Silva para o ABC paulista. Lula passa a exercer a profissão de torneiro-mecânico da indústria automobilística. O casamento com Lurdes e uma casinha modesta pareciam selar um final feliz para o jovem migrante. A mãe envelhecia e via seus filhos cumprirem seu lema - nenhum deles saiu da trilha: Vavá, Ziza, e Lula tornaram-se operários qualificados, Zé Cuia motorista, Jaime continuou estivador. Marinete, Maria e Sebastiana casaram-se. A felicidade de Lula, no entanto, sofreu um golpe trágico: por falta de assistência médica, ele perde a mulher, grávida de nove meses, e o filho.
Sempre apoiado pela mãe, Lula demora a se recuperar. Volta-se cada vez mais para a militância sindical, que a princípio rejeitou. Em mais um lance do destino, um motorista de táxi lhe fala da nora, Marisa Letícia, uma jovem viúva, com um filho. Pouco depois, no Sindicato, conhece Marisa Letícia, que seria sua segunda mulher, com quem teria quatro filhos.
Na década de 70, o percurso de Lula passa por profundas transformações pessoais e profissionais. Como líder sindical ele emerge como uma força política renovadora. Dona Lindu estava certa quando batia na cabeça do menino e dizia: "Este aqui vai ser gente. Vai ter uma profissão".
"Lula, o Filho do Brasil" conta a saga da família Silva, uma saga igual a de tantas outras famílias Silva do Brasil.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

o monge natural


Emile Hirsh como Christopher McCandless em cena do filme "Na Natureza Selvagem" (2007), direção de Sean Penn


"Em todos os tempos existiu nas nações civilizadas uma espécie de monge natural, pessoas que, conscientes de suas faculdades espirituais sobressalentes, antepuseram a formação e o cultivo de tais faculdades a qualquer outro bem e, assim, levaram uma vida contemplativa,espiritual, cujos frutos se tornaram depois patrimônio da humanidade. Em conformidade com isso renunciaram à riqueza, à posse, à aparência mundana, a ter uma família própria: assim o quis a lei da compensação."

Arthur Schopenhauer
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A cada vez que assisto a "Na Natureza Selvagem", obra-prima de Sean Penn (por Deus, o que esse cara faz que não seja excelente?), mais perplexo fico com a beleza e contundência do filme. Ontem, altas horas da madrugada, a mesma hipnose se iniciava quando eu passeava meu controle remoto a esmo, e deparei com o filme no Telecine. Porém já estava quase na metade, e os grandes filmes me demandam uma liturgia de espectador , concentração e entrega que não admitiriam pegar carona na missa, ops, no filme já em andamento. Ainda mais que, em meio às minhas hesitações entre me render ou não de novo às peripécias do jovem que largou tudo, família, futuro profissional etc, para partir rumo ao Alasca, minha mãe me ligou (ela sabe de meus hábitos notívagos), chamando atenção para uma matéria sobre Maçonaria no "Fantástico" (reapresentação na Globonews). Entrevista com Dan Brown, de "O Código da Vinci", recheada de dados interessantes, por exemplo sobre o papel da Maçonaria na construção da nação norte-americana; um regalo para meu enorme interesse por esta e pelas ditas sociedades secretas em geral.
Anyway, juntando "natureza selvagem" e mística esotérica numa mesma sinfonia, encontrei essas palavras de mestre Schopenhauer, vindo coroar, sob e para além da canga rude dos conceitos verbais, o sopro perfumado do chamado (tão silenciosamente gritante e insistente para "monges naturais" como o herói verídico do filme de Sean Penn) do Deus dilacerado das tempestades destruidoras e das cachoeiras do encantamento. Entre o Alasca que sonho e o gólgota que sofro, faço minhas as lágrimas de reverência de "Christo-pher" pelo esplendor da vida, mas também verto lágrimas de impotência e horror ante a tirania da morte, lágrimas pelas lágrimas das enchentes de Angra, torrente agressiva de uma vida que insiste em não ter sentido e mesmo assim se "re-velar"(mostrar-se, velar-se de novo) quando sentida, quando amada, protegida e cristificada, redimida de e para si mesma, de sua surda onipotência dia-bólica de "pater" demiúrgico autoritário, rumo ao Reino de Amor sim-bólico no "frater" da comunhão cósmica.

sábado, janeiro 02, 2010

tempo de despertar

Feliz ano novopor FREI BETTO*
POR QUE DESEJAR feliz ano novo se há tanta infelicidade à nossa volta? Será feliz o próximo ano para afegãos, iraquianos e para os soldados americanos sob ordens de um presidente que qualifica de "justas" guerras de ocupações genocidas? Serão felizes as crianças africanas reduzidas a esqueletos de olhos perplexos pela tortura da fome? Seremos todos felizes, conscientes dos fracassos de Copenhague, que salvam a lucratividade e comprometem a sustentabilidade? O que é felicidade? Aristóteles assinalou: é o bem maior a que todos almejamos. E alertou meu confrade Tomás de Aquino: mesmo ao praticarmos o mal. De Hitler a madre Teresa de Calcutá, todos buscam, em tudo o que fazem, a própria felicidade. A diferença reside na equação egoísmo/altruísmo. Hitler pensava em suas hediondas ambições de poder. Madre Teresa, na felicidade daqueles que Frantz Fanon denominou "condenados da Terra". A felicidade, o bem mais ambicionado, não figura nas ofertas do mercado. Não se pode comprá-la, há que conquistá-la. A publicidade empenha-se em nos convencer de que ela resulta da soma dos prazeres. Para Roland Barthes, o prazer é "a grande aventura do desejo". Estimulado pela propaganda, nosso desejo exila-se nos objetos de consumo. Vestir esta grife, possuir aquele carro, morar neste condomínio de luxo, reza a publicidade, nos fará felizes. Desejar feliz ano novo é esperar que o outro seja feliz. E desejar que também faça os outros felizes? O pecuarista que não banca assistência médico-hospitalar para seus peões e gasta fortunas com veterinários para o seu rebanho espera que o próximo tenha também um feliz ano novo? Na contramão do consumismo, Jung dava razão a são João da Cruz: o desejo busca, sim, a felicidade, "a vida em plenitude" manifestada por Jesus, mas ela não se encontra nos bens finitos ofertados pelo mercado. Como enfatizava o professor Milton Santos, acha-se nos bens infinitos. A arte da verdadeira felicidade consiste em canalizar o desejo para dentro de si e, a partir da subjetividade impregnada de valores, imprimir sentido à existência. Assim, consegue-se ser feliz mesmo quando há sofrimento. Trata-se de uma aventura espiritual. Ser capaz de garimpar as várias camadas que encobrem o nosso ego. Porém, ao mergulharmos nas obscuras sendas da vida interior, guiados pela fé e/ou pela meditação, tropeçamos nas próprias emoções, em especial naquelas que traem a nossa razão: somos ofensivos com quem amamos; rudes com quem nos trata com delicadeza; egoístas com quem nos é generoso; prepotentes com quem nos acolhe em solícita gratuidade. Se logramos mergulhar mais fundo, além da razão egótica e dos sentimentos possessivos, então nos aproximamos da fonte da felicidade, escondida atrás do ego. Ao percorrer as veredas abissais que nos conduzem a ela, os momentos de alegria se consubstanciam em estado de espírito. Como no amor. Feliz ano novo é, portanto, um voto de emulação espiritual. É claro que muitas outras conquistas podem nos dar prazer e a alegre sensação de vitória. Mas não são o suficiente para nos fazer felizes. Melhor seria um mundo sem miséria, sem desigualdade, sem degradação ambiental, sem políticos corruptos! Essa infeliz realidade que nos circunda, e da qual somos responsáveis, por opção ou por omissão, se constitui num gritante apelo para nos engajarmos na busca de "um outro mundo possível". Contudo, ainda não será o feliz ano novo. O ano será novo se, em nós e à nossa volta, superarmos o velho. E velho é tudo aquilo que já não contribui para tornar a felicidade um direito de todos. À luz de um novo marco civilizatório, há que se superar o modelo produtivista-consumista e introduzir, no lugar do PIB, a FIB (Felicidade Interna Bruta), fundada numa economia solidária. Se o novo se faz advento em nossa vida espiritual, então, com certeza, teremos, sem milagres ou mágicas, um feliz ano novo, ainda que o mundo prossiga conflitivo; a crueldade, travestida de doces princípios; o ódio, disfarçado de discurso amoroso. A diferença é que estaremos conscientes de que, para ter um feliz ano novo, é preciso abraçar um processo ressurrecional: engravidar-se de si mesmo, virar-se pelo avesso e deixar o pessimismo para dias melhores.
*CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO, o Frei Betto, 65, frade dominicano, é assessor de movimentos sociais e escritor, autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
in: Folha de S. Paulo, 31 de dezembro de 2009