Thursday, October 29, 2009

um "a-luno" no te-ato de Marilena Chaui


Marilena Chaui
Minha Nossa Senhora da Filosofia...amo-te tanto, Mulher-colosso, amo-te com a angústia de quem ama, porque quem ama é refém de algo que transborda e escapa de toda reles capacidade de apreensão do amado pelo amador... ao invés de apreender, fico apreendido, fico apreensivo, inquieto, querendo ser Super-Homem o bastante pra parar o tempo, reverter a sina, girar a Terra ao contrário e assim poder estar no banco escolar ou nas barricadas da Maria Antônia, onde fosse, mas ao teu lado, engajado nas tuas lutas, lutas que mais que tuas, são da Humanidade, mas que graças a ti ficam mais belas, mais densas, mais dignas de nosso suor e sangue.

Ao te escutar, me vem à mente um misto de delícia pelo privilégio, mas de carência, que ligo, por livre associação, sem base "científica", à etimologia (que muitos linguistas detestam e contestam) de "aluno" como ente "sem-luz" , segundo o sentido de negação da partícula "a".

Sim, "a-luno" sem luz porque esmagado pelo sentimento de te dividir com sombras de multidões outras de admiradores "alunos"... e como meu amar é egoísta, como meu amar é ciumento e caprichoso!! rsrsrs. Porque os holofotes, não os da vaidade tola, mas os da hosana espinosana da alegria de ser, incidem sobre ti, fazem da tua aula palco, acontecimento, rito, e minha ânsia de ator salta na boca querendo que as coisas que tu dizes se transmutassem em carne, incêndio e ação, e que eu estivesse nesses enredos, enredado ardente nas batalhas e engajamentos que afinal dão sentido e espessura histórica à figura (hoje tão desgastada, banalizada, quando não folclorizada pelo servilismo fácil e chacrinha) do intelectual.
Te assistir é como assistir a Zé Celso Martinez Correa, não é teatro, é "te-ato", me ata, me amarra e me arrasta, mexe com meu corpo, desvela uma cidadania de alma que contudo não é minha, "só" minha, não existe na privatividade do ego privado (privado "de"..., despossuído). Minha interioridade agostiniana sangra no furo da angústia, me descubro fora de mim, numa cena coletiva de que infelizmente nunca dei muita sorte de participar com felicidade, "cidadão" privado que sou num aion pessoal e coletivo de isolamentos, pânicos privados e temíveis massas barulhentas e caóticas de gente e coisas. Entre o estar privado de público e a privada pública, a política é sufocada, degenera na fedorenta politicagem miúda dos pavões apavorados, e com o fim da política se esvai a vocação (chamamento) do ser a se realizar em ato. Te-ato.

Fico então num silêncio e numa virtualidade que correm a descarregar suas tensões no refúgio do mais ler, do mais escrever, calado, até porque qualquer coisa que eu dissesse, no espetáculo de tua presença, seria apofaticamente um desperdício. Fazer "perguntas" a ti numa sala de aula, numa palestra, sempre me parece algo completamente supérfluo, como quem quebrasse o magnetismo do Sagrado. Não por alguma intolerância tua em responder, mas simplesmente porque já nos lançaste, quando chegado o momento protocolar das perguntas, a outra dimensão de questionamentos e perplexidades, que a mera linguagem banal de nossas imaturidades "alunas" só faria apequenar.

Amo-te Marilena. Que Deus te preserve sempre em saúde e pujança de alma e de corpo, e que eu tenha (ou melhor, hospede) o mais possível tais dons pra ser-te fiel, sempre "aluno" ante ti, mas emissário da Luz que és tu mas que não é só tua, e que eu possa fazer pão e peixes das migalhas de sabedoria que eu mereça recolher de ti e deste banquete socrático de que fazes parte junto ao seleto grupo dos grandes da História.

Tuesday, October 27, 2009

água paralítica



Rio sem Discurso
João Cabral de Melo Neto

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

Friday, October 23, 2009

nas catacumbas


Dom Hélder Câmara (1909-1999), nascido há 100 anos

Os profetas são exceções, assim como o são as eras proféticas: uns e outras são estrelas que surpreendem, com seu apelo e sua prática da justiça e da misericórdia, o céu escuro da pesada Lei histórica, lei da ordem e da mera adaptação, habitat darwinista e maquiavélico, de cargos e verbas e poder abocanhados pelos espertos, covardes e seus conchavos.
Rezo a Deus que me poupe de ressentimentos contra minha Santa e Pecadora Madre Igreja. E que em troca me conceda o dom paradoxal da resignação ativa, o otimismo prático e pessimismo teórico que partem do princípio de que, das altas hierarquias, sempre houve e haverá mesmo muito pouco a esperar. O que nem por isso legitima a preguiça gorda de nada fazer ou pior, de me aproveitar da acomodação com fins de gloríola pessoal. Ao contrário, a situação mais opressiva é aquela, como dizia Sartre, em que o homem mais é livre, e portanto mais responsável por si e por todos.
Um João XXIII só poderia mesmo ser um estranho no ninho na mesma cúpula que, poucos anos depois, se vê ocupada por gente do naipe de Ratzinger.
Os "sinais dos tempos", grito dos oprimidos que nos anos 60 e 70 os profetas -relembrando a tradição judaico-cristã mais autêntica- exigiam que fosse escutado pela Igreja instituída, na verdade falavam, e falam hoje e sempre à Alma em vias de evolução "histórica" interior e exterior.
Falam portanto não às moscas e bozos da praça pública, mas nas catacumbas da História, nos espaços de refúgio e resistência da individualidade e da comunidade, jardins floridos da fé vivencial. Il faut cultiver notre jardin!
E para tanto o profetismo nos ilumina, como memória revolucionária viva. Daí minha vontade de compartilhar o seguinte material com meus irmãos de fé. Vejam bem, não se trata de "irmãos" de credo nem de cruz-credo, mas daqueles que, das ideologias e temperamentos mais diversos, não obstante vivem (tanto mais quanto menos se preocupem em o nomear e conceituar) o espírito de Cristo.
Esse mesmo espírito de Cristo que santo Agostinho exigia daquele que ousa pôr as mãos no Texto Santo, daquele que se aproxima dos tesouros da fé e da Tradição sem a mera "curiositas" parasitária ou a cobiça da apropriação filistina.
O material abaixo, eu dizia, se destaca entre os tesouros da memória revolucionária dos amigos de Cristo de todas as eras.
Que mais que letra morta ou prato de cupim acadêmico, ou ainda consolo comido com a baba água-com-açucar das nostalgias bobas, seja inspiração de fogo que queima e exige ação dos que ouvem o chamado do Redentor nas catacumbas e manjedouras da pobreza em que nasce sempre de novo o Menino-Deus .
Amém - Amem

***

A igreja das catacumbas

por Maria Clara Lucchetti Bingemer
http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=13407&cod_canal=47
Neste ano em que se celebra o centenário de Dom Helder Camara, muitas lembranças e recordações do grande Dom, que foi um dos presentes maiores de Deus à Igreja do Brasil têm sido desentranhados e trazidos à luz novamente. Limpos da poeira do esquecimento por nossa às vezes curta e ingrata memória, brilham como estrelas de primeira grandeza realimentando nossa vida espiritual e nossa capacidade ética.Talvez um dos mais importantes seja a re-visita do chamado Pacto das Catacumbas. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio Vaticano II, cerca de 40 Padres Conciliares celebraram uma Eucaristia nas catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus. Após essa celebração, firmaram o "Pacto das Catacumbas" .O documento é um desafio aos "irmãos no Episcopado" - aos bispos presentes, portanto, - a levarem uma "vida de pobreza", a construir uma Igreja que se queria "servidora e pobre", como sugeriu o papa João XXIII. Os signatários - dentre eles, muitos brasileiros e latino-americanos, sendo que mais tarde outros também se uniram ao pacto - se comprometiam a viver na pobreza, a rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral.
O texto teve forte influência sobre a Teologia da Libertação, que despontaria e floresceria nos anos seguintes.Um dos signatários , propositores e mesmo articuladores do Pacto foi Dom Hélder Câmara. O belo texto do Pacto é altamente inspirador para toda a Igreja hoje como ontem. Aqui o transcrevemos do livro "Concílio Vaticano II", Vol. V, Quarta Sessão (Vozes, 1966), organizado por Dom Boaventura Kloppenburg, pp. 526-528.

PACTO DAS CATACUMBAS DA IGREJA SERVA E POBRENós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:
1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.
2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.
3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.
4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.
5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.
6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.
7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.
8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.
9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.
10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.
11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:• a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres; • a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria. 12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:• esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles; • suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo; • procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...; • mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10. 13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS. Com essas humildes e fervorosas palavras terminavam os bispos seu pacto. Elas precediam suas assinaturas. Que a mesma prece habite nosso coração e que o pacto das catacumbas, devidamente adaptado a nosso estado de vida, quer sejamos leigos, religiosos ou clérigos, possa ser o norte de nossas vidas.

Monday, October 19, 2009

meeeeeeeengoooooooo !!!!!!!!!



Meu mestre Nelson Rodrigues (vejam bem, não é Nerso da Capitinga) cunhou, em Otto Lara Resende ou Bonitinha mas Ordinária, uma frase célebre e apimentada (vejam bem, não é forçação de barra de quinta categoria, comprada no Paraguai): "O mineiro só é solidário no câncer".
Todo mundo tá CARECA de saber que piada só é engraçada se tiver algum pecadilho. Não sei se no Paraíso dos chatos e dos clínicos trágicos do Mal haveria ainda gargalhadas... suspeito que não.
É que a gargalhada é uma abolição provisória das censuras morais, dos sofrimentos e ressentimentos de que se nutrem e engordam os divãs trágicos dos clínicos trágicos.
É o instante em que nos permitirmos afetos primitivos que nossa própria consciência moral reprovaria.
Posso muito bem simpatizar, e simpatizo, com muitas pessoas que na cama preferem gente do mesmo sexo, mas por serem legais, não pela preferência na cama, que pouco me importa, e posso ser a favor dos direitos dos gays (e grande parte dos gênios da humanidade eram gays) e rir de um esculacho na bicha enrustida e seu modo tradicionalmente agressivo de tratar os outros.
Como bem sabem os clínicos, trágicos ou não, os outros são espelhos distorcidos em que essa bicha pode gostosamente descarregar tragicamente o ódio e inconformismo trágicos que tem contra si própria.
Voltando ao mestre Nelson, e à sua frase deliciosa "o mineiro só é solidário no câncer": expressão bem-humorada de um profundo pessimismo acerca da generosidade humana.
E eu descobri como isso funciona num terreno caro a Nelson: o futebol. Sim, Nelson não tinha vergonha de se assumir do povo, não negava suas raízes num macunaímico delírio de grandeza e autopurificação na água regeneradora da farsa e do cruz-credo trágicos.
Que descoberta futebolística foi essa, caro leitor (sem puxa-saquismos tá? rs) ? Quando do rebaixamento do Timão em 2007, vi espalhada pelo país uma alegria perversa, de todas as torcidas, não só a das BICHAS e dos porcos. Desde então, em retribuição (pois ódio só gera ódio), jurei que, afora a paixão pelo Timão, jamais simpatizaria novamente com esse ou aquele time, um por ser popular, o outro por ser alvinegro, um terceiro por jogar futebol de qualidade e de garra, enfim, por times que lembrassem palidamente, em algum traço qualquer, o insuperável Sport Club Corinthians Paulista.
Mas confesso: não dá. Ainda mais depois da vitória de ontem em pleno Chiqueirão, EU SOU MENGOOOOOOOOOOOO NESSA RETA FINAL DO BRASILEIRÃO.
Pois nós corintianos estamos já de férias, esperando a Libertadores do ano que vem; o campeonato atual já não nos interessa, desde que, claro, não tenhamos a arrogância burra (e todo arrogante é tragicamente um BURRO TRÁGICO) de entrar com pé mole nos jogos e perder até ir para o buraco (deus me livre!) do birrebaixamento.
O Flamengo tem uma linda torcida, tem uma energia fantástica, é síntese do Rio que eu adoro, do sotaque carioca que às vezes eu gostaria de ter rsrs.
Gosto do Andrade, craque da geração dos anos 80 e ser humano de uma extrema humildade, apesar dos preconceitos que ainda incidem em pleno futebol brasileiro contra os técnicos negros (absurdo, não?).
E além disso estou tendo a chance de saldar uma dívida histórico-familiar: por ter um primo flamenguista fanático, eu fui induzido a um sentimento de rivalidade mortal contra aquele que é nosso co-irmão mais parecido, time do povo no Rio, torcida quase tão grande quanto a nossa rsrs. Sempre tive uma tendência altamente competitiva (sobretudo com a cuecada, ou com os machões de calcinha, pois as mulheres eu me contento em amar e admirar, e tanto mais quanto mais lindas e inteligentes forem rsrs). Mas hoje, caro Dennis, superei essas antigas rixas e tô contigo no apoio ao teu querido Flamengo!
Em suma, renegando nesse aspecto e nesse momento a sabedoria de mestre Nelson, SOU SOLIDÁRIO COM VC MENGÃO, VAI COM TUDO, PAU NOS PORCOS E NAS BICHAS!!!

Saturday, October 17, 2009

horror

Hélio Oiticica (1937-1980)

Um paciente vem a Lacan com o rosário de misérias que tem a declarar sobre si mesmo. Ele se considera, em resumo, um verme. Mais que tudo se acusa de ser um péssimo marido. E antes de prosseguir o infinito do gozo da auto-vitimização à procura da graça consolatória do mestre, é barrado por Lacan, o anti-mestre: "Sim, e você dizer que é um péssimo marido não impede você de realmente ser um péssimo marido".
Ahhh as artimanhas do escapismo... Adoramos nos xingar para nos aliviarmos da culpa de sermos assim, ou quem sabe pra driblar nossas verdadeiras culpas, e para quem sabe "espaçar" e "temporalizar" um intervalo entre o escroto objeto e o sapiente sujeito deste nosso discurso: mesmo sendo sujeito e objeto a mesma pessoa.
Tudo isso me vem à tona porque uma das coisas pelas quais me culpo é ter investido muito, afetiva e economicamente, nos livros, uma das maiores paixões da minha vida. Mas por que me culpo? Porque acho, como os cínicos à la Diógenes, como Cristo, Buda, como os verdadeiros mestres, que não levaremos nada dessa vida, e quanto mais leve nossa bagagem, ao longo dos trabalhos que são também os modos de cada um evitar e esperar a "indesejada das gentes" e seu barqueiro Caronte, melhor a viagem final que faremos. Mas ainda assim me apego, e acho que a culpa é uma das formas pelas quais magicamente torço para que esse apego não seja arruinado pela desgraça.
Apaixonado pela minha biblioteca, como pelos meus entes queridos, pelos meus bichos, morro de medo da morte. Não só da morte em si, mas de suas pequenas e grandes irrupções no e durante o vivo: as destruições imprevisíveis que também são criações daquilo que somos. Falasser, Falta-a-ser. No caso da biblioteca, o pesadelo maior que me assombra é o incêndio. A perda irracional de alguns de meus "maiores amigos", daqueles sem os quais a vida pra mim não tem sentido: os Livros.
Daí também a dor pela notícia que reproduzo abaixo. Nem preciso dizer que é uma dor "objetiva" por se tratar de grave agressão à memória da cultura brasileira, e isso em plena "cidade olímpica" (ahhh, nem só de pão viveria o homem brasileiro, isso quando tem pão, mas de tantas palhaçadas...) . Como é possível um patrimônio da importância do acervo de Hélio Oiticica estar tão vulnerável, tão mal protegido ante os riscos do absurdo?
Mas, espaço de divã, di -vão livre para associações "livres" , como é este cantinho do Monastério, tenho de confessar que a dor por Oiticica é também dor antecipatória e conjuratória, mas por mim mesmo. Pelos meus fantasmas. Aliás, a dor pelos outros não tem sempre algo de fantasmático? Muito de projeção pessoal, de antecipação da verdade, real e imaginada, -todo fantasma é verdadeiro e ilusório- de que esse mesmo mal nos ameaça? Não poderíamos falar, sem ironia, num certo "egoísmo benigno" da compaixão?

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17/10/2009 - 09h12
Incêndio atinge casa do artista plástico Hélio Oiticica e destrói acervo no Rio
colaboração para a Folha Online

Um incêndio atingiu a casa da família do artista plástico Hélio Oiticica no Jardim Botânico, zona sul do Rio, na noite de sexta-feira (16). Quase todo o acervo do artista ficou destruído.
O fogo atingiu uma sala localizada no primeiro andar da casa, local onde estavam guardadas as pinturas e esculturas do artista.
No momento do incêndio, a família estava reunida do terceiro andar da casa, mas quando sentiram o cheio da fumaça, as obras já estavam em chamas.
"Sinto que eu fracassei porque minha missão, depois que me aposentei, era cuidar da obra dele, da divulgação e da guarda da obra dele", disse a jornalistas César Oiticica, irmão do artista plástico.
Segundo ele, o fogo destruiu 90% da obra, e o prejuízo pode chegar a US$ 200 milhões, de acordo com a Globonews.



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Saiba mais sobre Hélio Oiticica, um dos mais importantes artistas brasileiros
colaboração para a Folha Online
Um
incêndio no Rio que só foi controlado neste sábado destruiu quase todo o acervo do artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), segundo sua família. O artista tem entre suas obras mais importantes a "Tropicália", que inspirou e deu nome ao movimento cultural brasileiro que revolucionou a música, o cinema, o design, a moda e as artes do país nos anos 70.
O artista, que compareceu a uma escola pela primeira vez aos dez anos, teve sua formação influenciada pelo pai, José Oiticica Filho --um dos mais importantes fotógrafos brasileiros-- e pelo avô José Oiticica, intelectual filólogo, professor, escritor e jornalista.
Em 1953, Oiticica começou a estudar pintura com Ivan Serpa, após tomar contato com a obra de Paul Klee, Alexander Calder, Piet Mondrian e Pablo Picasso durante a II Bienal do Musel de Arte Moderna de São Paulo. Em 1954, entrou para o Grupo Frente e junto fez a sua primeira exposição no Museu de Arte Moderna.
Nessa época, Oiticica começou a conviver com artistas e críticos, como Lygia Clark, Ferreira Gullar e Mário Pedrosa. Sua obra desse período, entre 1955 e 1957, são pinturas geométricas sob guache e cartão, que resultou em 27 trabalhos nessa técnica, intitulados 'Secos', que foram expostos no Rio de Janeiro, na Exposição Nacional de Arte Concreta.
Em 1959, convidado por Lygia Clark e Gullar, integrou o Grupo Neoconcreto do Rio de Janeiro e passou a realizar pinturas a óleo sobre tela e compensado. São obras monocromáticas que incluem pinturas triangulares em vermelho e branco.
Também em 1959, o artista participou da V Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1960 trabalhou como auxiliar técnico de seu pai, José Oiticica Filho, no Museu Nacional.
A partir do início dos anos 60, Oiticica começou a definir qual seria o seu papel nas artes plásticas brasileiras e a conceituar uma nova forma de trabalhar, fazendo uso de maneiras que rompiam com a ideia de contemplação estática da tela. Surgiu aí uma proposta da apreciação sensorial mais ampla da obra, através do tato, do olfato, da audição e do paladar.
Entre as obras os "Penetráveis", criados para serem vivenciados (ou penetrados) pelo espectador. Nestas obras, o artista passa a criar espaços de convivência que rompem com a relação formal entre arte e observador e pedem presença ativa e distendida no tempo.
Parangolé
Em 1964, o artista aproximou-se da cultura popular e passou a frequentar a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, tornando-se passista e integrando-se na comunidade do morro. Vem dessa época o uso da palavra "parangolé" que passou a designar as obras que estava trabalhando naquele momento.
Os primeiros parangolés se compunham de tenda, estandarte e bandeira e P4, a primeira capa para ser usada sobre o corpo. São obras que causaram polêmicas e ele definia como "antiarte por excelência".
Em 1965, o artista começou carreira internacional e realizou a exposição --Soundings Two-- em Londres, ao lado de obras de Duchamp, Klee, Kandinsky, Mondrian, Léger, entre outros.
Em 1967, iniciou suas propostas supra-sensoriais, com os bólides da "Trilogia Sensorial", além dos penetráveis PN2 e PN3 que faziam parte da obra Tropicália, mostrada na exposição Nova Objetividade Brasileira, no MAM, Rio de Janeiro.
Em 1972, usou o formato super 8 e realizou o filme Agripina é Roma - Manhattan. O cinema passou a ser uma referência, e em 1973 criou o projeto Quase-cinema, com a obra "Helena inventa Ângela Maria", série de slides que evocam a carreira da cantora Ângela Maria.
Uma nova série de penetráveis intitulados Magic Square e os objetos Topological ready-made landscapes foram mostrados na exposição Projeto construtivo brasileiro, MAM, Rio de Janeiro, em 1977. Em 1979, criou o seu último penetrável chamado "Azul in azul". Neste ano, Ivan Cardoso realizou o filme "HO", retratando a obra de Hélio Oiticica.
No dia 22 de março de 1980 o artista morreu após sofrer um acidente vascular cerebral no Rio de Janeiro.

Wednesday, October 14, 2009

sincronicidades


Sonhos de um dentro
que soubesse
ser dentro
o suficiente
auto-suficiente
e de um fora
que pusesse
[escrevi errado, era pudesse,
mas gostei do efeito imprevisto do pusesse]
ser fora o bastante.
Pesadelos
Pesadédalos
de um dentro
que nada
faz senão
fugir dos vícios
dos vírus
do fora,
que repetem
o dentro,
os dados
e um fora
que não é
senão
extensão
sem cerca
do pasto
sem pastor
do dentro,
Totalitário
cerco
sem centro
circo
internato
do interno
carente
Totalmente
(o total mente?)
Foradentro
outrora
aurora
do Aberto.

Tuesday, October 13, 2009

travessia e eudaimonia


Desenho feito por Jung, que representa, vestido de verde, um humano (o ego) agachado em atitude de reverência profunda à árvore de fogo (o Inconsciente Coletivo) que brota do solo

"Nicht' raus, sondern durch!"
(não para fora, mas através)

C. G. Jung
***
Eudaimonia - termo grego para a felicidade; deriva de daimon, o gênio interior, o Anjo Guardião dos ocultistas. Bem-aventurados os que vivem em travessia da existência na barca de seu próprio dáimon.
Em sonho hoje à noite, estava eu num culto pagão, com ares de Rosa-Cruz, e uma televisão emitia a voz de um palestrante cristão (muitas vezes, e esta madrugada não foi diferente, eu pego no sono, de fato, com televisão ligada em programas religiosos, como na Rede Vida). O barulho da TV incomoda a todos, tal o clima de silêncio e concentração coletiva que se respira, tento fazer um movimento de apagar o aparelho, como se fosse a minha própria TV da sala, e o "líder" do culto pagão rosa-cruz aprova meu movimento de ir apagar, e diz, sem agressividade mas como quem corrige com vigor seu pupilo, para que eu não fique na beirada entre uma coisa e outra, é preciso escolher!
A cena seguinte me mostra dialogando com uma conhecida, por quem outrora cheguei a ter afetos platônicos silenciados pela timidez e certo complexo de inferioridade; eu no carro dela, ela ao volante, com a firmeza que lhe é habitual, e vou falando da experiência no ritual e também faço as reflexões que registrei acima sobre daimon e eudaimonia. Ela demonstra interesse, mas com o distanciamento de espírito que nunca consegui atravessar, e que ao mesmo tempo que barrava, me excitava e incitava. O percurso, e o sonho, acabam na garagem dela, a porta da garagem se fechando, escuro, eu dizendo de minhas doídas saudades da menina.

Thursday, October 08, 2009

Rainha da Libertação, rogai por nós


Como entre os gregos, é a expiação da hybris (soberba) pela queda do trono e por um novo saber que provém do sofrer; na fé ancestral do povo oprimido, é a esperança dos pobres pela redenção contra as injustiças que mancham a Terra; na sabedoria de Jung, é a enantiodromia, a revolta e a viravolta que jorram feito tsunami do inconsciente para destruir e recriar, semeando novo equilíbrio profundo do Si-Mesmo, na terra devastada que restou do que eram antes as casinhas idiotas, brinquedinhos fúteis e a polícia arrogante e cega do ego obsessivo (obsessio é "ato de sentar-se diante, bloqueando a passagem", ob-cercar).
O Cântico de Maria é o Cântico da Libertação, que age em nossas almas no doloroso transtempo do vivenciar humano da Verdade eterna.
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"Maria, então, disse:
'Minha alma engrandece o Senhor,
e meu espírito exulta em Deus em meu Salvador,
porque olhou para a humilhação de sua serva.
Sim! Doravante as gerações todas
me chamarão de bem-aventurada,
pois o Todo-poderoso fez grandes coisas
em meu favor.
Seu nome é santo
e sua misericórdia perdura de geração em geração,
para aqueles que o temem.
Agiu com a força de seu braço,
dispersou os homens de coração orgulhoso.
Depôs poderosos de seus tronos,
e a humildes exaltou.
Cumulou de bens os famintos
e despediu ricos de mãos vazias.
Socorreu Israel seu servo,
lembrado de sua misericórdia
-conforme prometera a nossos pais-
em favor de Abraaão e de sua descendência, para sempre!'"
(Lc 1, 46-56)

Tuesday, October 06, 2009

isto é Diógenes

Com alguns dos caros e bem-vindos visitantes deste monastério (há outros visitantes, sinto pelo fedor do olho gordo, nem tão caros assim, e muito menos bem-vindos...), já pude compartilhar e rir desta anedota acerca de um dos grandes filósofos da Antiguidade, Diógenes:
Um dia Diógenes estava deitado no meio de um caminho tomando banho de sol quando dele se aproximou o Imperador Alexandre, O Grande e disse: "Diógenes, pede o que quiseres, eu vou conceder". Diógenes abriu um olho e desde o chão respondeu para ele: "Afaste-se um pouco, porque está tampando o sol" (vide a imagem acima).

Diógenes não tinha muita frescura pra dizer o que pensava, vide a resposta que deu a um indivíduo calvo que certa vez tentou ofendê-lo:

"Não serei desrespeitoso com você,mas devo dar os parabéns para seus cabelos por terem deixado uma cabeça tão suja".

Outra afirmação fulminante do filósofo cínico:

"Os homens são infelizes por causa de sua própria estupidez".

Caro Diógenes, que minhas gargalhadas atravessem os séculos e cheguem a ti como símbolo (palavra que, na Grécia, se referia a uma moeda partida ao meio entre dois amigos, para futuros reencontros) de minha extrema afeição, admiração por ti. És um alento e um exemplo para os vocacionados ao pensar livre e corajoso, ou seja, ao pensar em si, essa arca de Noé espiritual em meio ao mar de merda diarréica do rebanho, dos otários e dos oportunistas (pra quem filosofia é pretexto do business mesquinho com ares de maquiavélico, ou então fingimento "religioso" e congressos da conversa-fiada e da pompa inexpressiva).