domingo, maio 31, 2009

para suar, saudar e dançar o novo mês



Em meio à enxurrada de pomposas abobrinhas que vejo, leio ou escuto por toda parte, que bom quando os céus se desanuviam, e brechas se abrem para o ar puro do pensamento sério. Não é toda hora que isso é possível, nem na companhia de qualquer um.
Não me entendam mal, longe de mim querer aqui cair em preconceitos elitistas - clichês cujos portadores, em geral, se dão patéticos tiros no pé ao final extenuante de giros de peru louco. Quem somos nós para cagar tanta regra e nos imaginarmos porteiro sa (G) rado na boate do paraíso, decidindo quem entra e quem não entra, "contemplando" famintos a saia justinha das minas, que não pagam nada até meia-noite?
Nada mais danoso do que a soberba, ainda mais no caminho da mística e santidade verdadeiras, da boca pra dentro. Afinal, como diz o clássico espiritual Imitação de Cristo, "Deus fala-nos de diversas maneiras e por mui diferentes pessoas", não importa a classe, cor, nível de instrução, religião professada, rótulo brega ou cool. Muitas vezes é entre a gente mais simples, e não entre os doutos pavões, que mais aprendo e me desintoxico das tolices e miasmas kármicos, as minhas e as do mundo que me rodeia e me cerca e me é. Meeééééé, como diriam os carneiros de gravata borboleta, batina, giz de cera e óculos de fundo de garrafa da sonambúlica sociedade vigente.
Afora o Altíssimo em si -representação antropomórfica do Ser-, outro que nos fala sempre e de muitas formas, em especial no silêncio, é nosso daimon, "demônio", entre os gregos; nada que ver com o diabo cristão.
Desde situações as mais triviais até as grandes provações, tudo é aprendizado, portanto idioma de ação do daimon, o gênio interior, ou, no mito bruxo, o Anjo Guardião e condutor, atuante no fogo cerrado de minhas fraquezas e méritos, na briga de foice das minhas misérias e virtudes, no torpor de nossa preguiça de ser, no sopro da graça que nos perdoa, nos sustém e nos faz caminhar.
A propósito, "recomendação" de um sonho meu de ontem: dançar! Nas boates mundanas e democráticas do prazer e do esforço de crescer e de compartilhar. Praticar a radical convivialidade (Papa Paulo VI) com os outros e consigo, suando o santo suor da solidão solidária.
Boa semana e bom mês de junho a todos!

sábado, maio 30, 2009

galáxias da alma

"Tornar-se um 'verdadeiro' cristão, para mim, não é mais do que se tornar um 'ser humano crístico', um ser humano que alcançou a verdadeira iniciação espiritual. Um ser humano em quem o Senhor é Rei e governa; um ser humano em quem o Eu espiritual tornou-se o princípio unificador e integrador da psique e dos pensamentos, emoções, desejos, palavras e ações: um ser humano, então, que se torna um outro Cristo vivo."

Peter Roche de Coppens
Divine Light and Fire: Experiencing Esoteric Christianity

SOS
(por Raul Seixas)

Hoje é domingo missa e praia céu de anil

Tem sangue no jornal, bandeiras na avenida Zil
Lá por detrás da triste linda Zona Sul
Vai tudo muito bem, formigas que trafegam sem porquê
E das janelas desses quartos de pensão
Eu como vetor, tranqüilo tento uma transmutação
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, prá onde você for
Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí.
Andei rezando para tótens e Jesus
Jamais olhei pro céu, meu disco voador além
Já fui macaco em domingos glaciais,
Atlantas colossais, que eu não soube como utilizar
E nas mensagens que nos chegam sem parar
Ninguém, ninguém pode notar
Estão muito ocupados prá pensar.
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, prá onde você for
Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que vem tanta estrela por aí.

segunda-feira, maio 25, 2009

semana do saco cheio


ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ...............

quinta-feira, maio 14, 2009

a comuna de Jerusalém




"A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum.
Com grande poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor, e todos tinham grande aceitação.
Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores das vendas, e os depunham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então a cada um, segundo sua necessidade".
At 4, 32-35


terça-feira, maio 12, 2009

a peste e os porcos




Ao narrar (vide texto abaixo) os acontecimentos que marcaram a emigração forçada em 1941, por navio, após a ocupação nazista da França, Lévi-Strauss observa grande diferença nas reações dele e de seus companheiros de bordo, muitos dos quais professores que até então levavam vida "pacata", cuidando de suas carreiras e ganâncias e puxa-saquismos e mediocridades de cada dia, reservando talvez alguns instantes, entre o jantar e a sobremesa, ou quem sabe palitando os dentes, para palavras inteligentes sobre o "mal" do mundo. Nada que lhes dissesse respeito muito de perto, claro. Achavam que a História conspirava a favor deles, sussurrando piscadelas cúmplices, inclusive nos acontecimentos desagradáveis que por ventura atingissem os outros. Lei sagrada do darwinismo social: sobrevivência dos mais aptos. Ao vencedor as batatas.. Até eles descobrirem que o absurdo que lhes dava tapinhas nas costas ontem é o mesmo que lhes passa a rasteira amanhã.
Palavras de outra natureza encontramos em espíritos como Claude Lévi-Strauss: palavras amargas, sim, mas vividas, concretas, palavras de uma verdade contundente e profética, se se pensar não só na nova epidemia globalizada, vinda dos porcos, mas em tudo quanto é espírito de porco na ordem globalizada vigente, sem esperança, sem utopia, miseralvemente conformada a seus horizontes mesquinhos e a suas consolações forçadas. Mundo inchado, sem distâncias, onde a horizontalidade da competição pede a verticalidade da mentira, do puxar o tapete e do puxar o saco. Caldo de cultura (ou de barbárie) para todos os vírus, como o do oportunismo e da hipocrisia.

"Pois, para os meus companheiros lançados na aventura após uma vida no mais das vezes pacata, essa mescla de maldade e de asneira afigurava-se um fenômeno inacreditável, único, excepcional, a incidência, sobre as próprias pessoas e sobre as de seus carcereiros, de uma catástrofe internacional como até então jamais se produzira na história. Mas, para mim, que correra o mundo e que, nos anos anteriores, vira-me metido em situações pouco banais, uma experiência desse tipo não era de todo desconhecida. Sabia que, lenta e traiçoeiramente, elas se punham a brotar, qual uma água traiçoeira, de uma humanidade saturada por sua própria imensidão e pela complexidade cada dia maior de seus problemas, como se a sua epiderme estivesse irritada com a fricção resultante de intercâmbios materiais e intelectuais ampliados pela intensidade das comunicações. Naquela terra francesa, a guerra e a derrota só haviam apressado a marcha de um processo universal, facilitado a instalação de uma infecção duradoura, e que jamais desapareceria por completo da face da terra, renascendo em um ponto qualquer quando enfraquecesse em outro. Todas essas manifestações estúpidas, execráveis e crédulas que os grupos sociais segregam como um pus quando começa a lhes faltar distância, eu não as encontrava naquele dia pela primeira vez".
Claude Lévi-Strauss
Tristes Trópicos (1955)

sexta-feira, maio 08, 2009

espelho, espelho meu

"Nós nascemos originais e morremos cópias"

C. G. JUNG

Um dos fardos da vida solitária, por outro lado tão vantajosa, é você desenvolver uma sensibilidade excessiva com relação a tudo quanto ameace, real ou imaginariamente, a singularidade de seu existir. Sim, o Tao que tem nome não é Tao, e se preocupar em ser original é já não ser original, ou no máximo pertencer ao rebanho dos "originais".
Desde criança tenho horror a ser plagiado, ou a me sentir como tal.
Com o tempo, as ilusões perdidas e os tapas na cara, vim descobrindo o quanto tal resistência é ilusória, afinal a vida civilizada é vida languageira, portanto é comum-nicação, tornar e tornar-se comum. O Outro que nos espreita, o Outro da linguagem, é também o Outro que nos permite ser o que somos, em movimentos de a-próprio-ação, apropriação, transformação do comum em algo próprio, sem que porém o próprio deixe de ser comum. O nome próprio é comum.... somos quantos Josés e Marias "únicos", Silvas e Souzas "únicos"? A não ser, claro, quando os pais partem pra invenções de nomes delirantes, que os filhos carregarão como cruz de gozações o resto da vida.
Stirner, em O Único e Sua Propriedade, nos dirá que o "eu" é ponto de partida do Ser, mas conquista tardia da existência. Somos "Hamlets" indecisos por muito tempo, nos defrontando com fantasmas que odiamos ou amamos copiar. Super-ego nasce de espelhamentos ideais. Falando em Hamlet me ocorre -lá vou eu imitar rsrs- o grande especialista shakespeariano, Harold Bloom, que nos fala da angústia da influência: o criador que sofre entre o seu desejo de originalidade absoluta e a opressão pelos seus modelos e inspirações pretéritas. Aquela ânsia de falar o novo, o nosso, e sentir que já se falou tudo.
Penso que uma das soluções intermediárias inventadas pela ética (e a ética é sempre solução intermediária) é, ao menos, a franqueza da menção, da citação de nossas fontes. Claro que não estou pregando aquela liturgia acadêmica chata da compulsão de citação- desespero que leva ao argumento de "ôtoridade" tão a gosto dos medievais-, mas sim um mínimo de decoro intelectual. O interlocutor que foi qualificado a participar de nosso texto não será assim, desonestamente, desqualificado pela ocultação.

Amigos e inimigos, admiradores e imitadores, espero que este singelo texto lhes sirva para algo. Bon apetit!

segunda-feira, maio 04, 2009

tiamo timão



CAMPEÃO PAULISTA INVICTO 2009