terça-feira, setembro 30, 2008

obscura claricexistência

Clarice Lispector
"Ontem no entanto perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho. Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra- como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?"
CLARICE LISPECTOR
A paixão segundo G.H.
********
.......enclaves do semântico na desordem do somático, diá-logos de diá-bolos, os farrapos e cacos, arco teso de atos que não há. Furos alvos. Lentes de fumaça, cores e rabiscos esparsos. Exaustão. Gaiolas invisíveis, canto do estar exilado em lugar nenhum. Quinquilharias de explicação, palavras de mormaço, mordaça, mordida, serpente gorda de um paraíso tedioso.
-Unzuhause-

quinta-feira, setembro 25, 2008

não sou petista, mas vou de Marta

A candidata à prefeitura de São Paulo pelo PT, Marta Suplicy

Desde meu tempo de graduação em Ciências Sociais na USP, eu era nota destoante, entre meus colegas, devido à nítida simpatia por figuras como Mário Covas, Montoro, Fernando Henrique Cardoso. Sim, ligação a figuras, a individualidades atraentes sob um prisma intelectual e / ou administrativo. Embora tivesse também interesse no ideário social-democrata, tal como concebido na Europa e trazido ao Brasil, em termos de plataforma, pelo PSDB.
Eu reconhecia, em silêncio e a contragosto, que na prática o partido foi cada vez mais desfigurando esse ideário, construindo ou "tirando do armário" sua vocação elitista e conservadora, do agrado de velhas e novas direitas - daí a aliança que se firmou com o PFL, em franca agressão à tendência (que seria bem mais saudável e compreensível) de aproximação ao PT ou, no mínimo, de um melhor diálogo com as forças progressistas da sociedade civil e da política. Por sinal, a atual briga de foice entre tucanos e demos (!), shakespeariana rixa de irmãos em torno do trono e da grana, só escancara a pequenez de horizontes dessa "família" desde a sua origem.
Já o PT, em seus primeiros tempos de governo federal, radicalizou traços que me causam total irritação - uma certa postura de "sindicalista novo-rico" que quer esfregar na cara dos outros sua superioridade. "Vejam, eu vim de baixo e olhem onde estou agora, seus babacas". Show de arrogância, de esperteza, de desprezo pelo recato político.
O primeiro governo de Lula teve, ao meu ver, essa marca. Exemplos disso? O mensalão e os ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e da Casa Civil, José Dirceu. Mas sobretudo a conduta do próprio presidente, que "de nada soube" sobre o que se passava perto dele, e que, sempre que apertado, culpava a "herança maldita" de seu predecessor, Fernando Henrique, a quem, aliás, deu continuidade em muitas coisas boas.
Tais excessos, erros mais de forma que de conteúdo, mais de postura que de prática efetiva, têm sido atenuados após a reeleição de Lula, talvez pelo susto da "derrota" que foi ter havido um segundo turno com Geraldo Alckmin na última eleição presidencial, quando todos esperavam vitória esmagadora do candidato petista.
Por outro lado, em São Paulo o governo de Erundina, primeiro, e de Marta primaram pelo que o PT tem de mais bacana: o compromisso com a inclusão social e com a participação popular e o apoio maciço à educação e cultura. Não é pra qualquer um ter entre seus secretários de governo gente como Paulo Freire e Marilena Chaui.
Pesando tudo isso, e sem prejuízo de minha antigas simpatias tucanas-sobretudo de natureza individual, insisto -, merecidas também por Alckmin, eu quero declarar minha convição de que o melhor pra cidade de São Paulo, nessa eleição, é a vitória de MARTA SUPLICY! Meu voto é dela.

segunda-feira, setembro 22, 2008

o mestre bad boy

O jovem Friedrich Nietzsche

"Assim sou eu, assim mesmo eu quero ser: − e ide ao diabo vós todos!"
Nietzsche
A Vontade de Poder, parágrafo 349
***
O dia de hoje marca o desfecho, para mim, de um difícil e forte período de absorção na vida e obra de Friedrich Nietzsche -acabo de traduzir um dos primeiros e mais significativos livros em língua inglesa escritos sobre ele, no início do século XX -autoria de H.L. Mencken, jornalista e ensaísta que marcou época pelo talento da escrita e verve crítica do olhar.
Quis registrar no reino Unzuhause esse abençoado instante de meu ego profano com a citação acima, colhida num dos livros mais importantes de Nietzsche.
Nesse pensamento, o filósofo condensa o que considero talvez a essência de uma experiência psicanalítica autêntica. Tornar-se o que se é, descobrir os eus que eu quero, não os eus que eu devo. Aliás, mostra Nietzsche na Genealogia da Moral que a noção de dever enquanto culpa provém da noção (econômica) de dever enquanto dívida.
Os eus que eu quero: nem sempre os eus de que gosto, mas certamente os eus que fruo, os eus pelos quais aceito o que der e vier, o dito e o inaudito, o viver, morrer, gozar, negar, afirmar, sangrar, sagrar. Amor fati!
Condenados à liberdade. Responsáveis pela delícia e fardo de sermos o que somos. Nome próprio. Rostidade do nosso rosto, face que tínhamos antes de nascer.
Caminho para poucos, e que certamente desagradará a muitos. Somos incômodos para o rebanho. Damos água na boca (a baba mole e venenosa) dos ressentidos e imbecis. Só tenhamos cuidado para não sermos pisoteados pelas patas dos falsos. Que se lixem.
Não esperes no caminho de ti próprio a bajulação dos covardes e oportunistas. Não esperes, fora do círculo dos teus amados, muita festa e muita cerveja (de que aliás Nietzsche, o dionisíaco, curiosamente não gostava ). Não esperes, nada esperes - a esperança é um afeto irmão siamês do medo, ensina Espinosa.
A frase de Nietzsche também encanta pelo ar adolescente que sopra sobre os seus leitores, melhor dizendo, seus cúmplices. Adolescente no melhor sentido da revolta, do inconformismo, da necessária porta fechada com força quando nossos pais, escola, sociedade, Estado se excederem no direito (?) de encher nosso saco com suas cobranças e "impostos" (imposições).
Falando nisso.......Affffffffffeeeeeee, tantos cursos picaretas de psicanálise, caça-níqueis, com professores burros, medíocres e gatunos.........anos de "formação" que não valem a beleza e potência de uma linha de Nietzsche, ou melhor dizendo, de um verso de Nietzsche, mestre dos mestres Freud, Lacan, Jung, primeiro "psicanalista" em espírito, ainda que não em termos de uma prática clínica mediada pela transferência.

terça-feira, setembro 16, 2008

oscar de factóide cultural 2008


Por enquanto o maior candidato à nobre estatueta de principal bobagem "cult" do ano é o filme Ensaio sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, que assisti neste domingo . Frio, insosso, chato; um desperdício do talento de um bom diretor, de grandes atores, de um forte argumento -o livro de José Saramago-, e da potência da palavra originária de um Nobel de literatura, infelizmente orgulho tão escasso para nós falantes desta pobre e linda última flor do Lácio. Tendo diretor brasileiro, baseado em magistral romance português, com cenas rodadas em São Paulo, é vertido para a língua ianque, em clara jogada comercial. E vejam, estou longe de alguma ranzinzice patrioteira, de qualquer espírito policarpo-quaresmento. Apenas vejo nisto um sinal, não dos menores, do artificialismo da coisa toda.

terça-feira, setembro 09, 2008

veneno antimelancolia



"RASKÓLNIKOV não estava habituado a multidões e, como já foi dito, vinha evitando qualquer tipo de companhia nos últimos tempos. Agora, porém, alguma coisa o impelira de repente para o convívio humano. Alguma coisa de aparentemente novo se passava dentro dele, e ao mesmo tempo experimentava certa sede de gente. Estava tão cansado de todo aquele mês de melancolia consumidora e excitação obscura que queria passar ao menos um minuto respirando em outro mundo, fosse lá qual fosse, e era com satisfação que ia ficando na taberna, apesar de toda a sujeira."
Dostoiévski - Crime e Castigo. Primeira Parte, cap. II

quinta-feira, setembro 04, 2008

espelho, espelho... meu?

Pablo Picasso- Mulher ao espelho

Manhã de cansaço, ontem trabalho penoso. Encontro tempo para afinal ler um livrinho, Lacan e o Espelho Sofiânico de Boehme, que muito me chamava a atenção há tempos: que relação via ele entre o "estádio do espelho" de Lacan e as especulações místicas de Jacob Boehme sobre a criação do mundo a partir do auto-espelhamento de Deus em suas criaturas?
Como sempre em meus momentos afadigados, a pesquisa esotérica é refúgio, alívio, anseio por aquela forma de conversão existencial que os antigos chamavam de despertar búdico e Jung, de metanóia (meta=além, nous=intelecto).
Mas e as coisas? Elas insistem.. trazem consigo um "resto" material sutil e escabroso, que reaparece aqui, acolá, em todo lugar. Que sobre-cansativo, por assim dizer, é ver estilhaçados os espelhos harmônicos do ego ideal........Pois ao cansaço no mundo se soma o cansaço em relação ao mundo.
Porém os alquimistas bem sabiam das coisas, ou pensavam saber: chamavam purificatio de mundificatio. Mundus enquanto oposto ao imundus....... a autêntica purificação não é lavagem a modo das lavagens cerebrais, essas sim te apresentam um i-mundo coeso de certezas falsas. Purificação é mundificação, molhar as mãos, cabeça, corpo todo na cristalina lama /ama/alma do mundo.
Já o mundo.........espelho em que a parte é o todo e o todo, profusão alucinante de partes que se conciliam -ou não, se Deus estiver em seus dias de Picasso rs.