quinta-feira, julho 31, 2008

sonhos, mulheres, escadas

William Blake, O Sonho de Jacó

Numa das fantasias e sonhos examinados por Jung em seu livro Psicologia e Alquimia, uma "figura feminina oculta em véus está sentada nos degraus de uma escada".
O comentário de Jung, que aparece no livro ao lado da imagem que acima eu reproduzi, é deveras interessante: "O tema da mulher desconhecida que tecnicamente designamos por anima aparece pela primeira vez aqui. É uma personificação da atmosfera psíquica ativada. (...) Como o processo que se desenrola em tais sonhos tem uma analogia histórica com os ritos de iniciação, não seria supérfluo lembrar que a escada planetária de sete graus desempenha um papel considerável nesses ritos, segundo nos relata por exemplo Apuleius. As iniciações do sincretismo no fim da antiguidade, fortemente impregnadas pela alquimia, ocupam-se especialmente com o movimento 'ascensional', isto é, com a sublimação".
Como estou envolvido atualmente numa ampla pesquisa sobre a personalidade e a obra de Jung, decidi também ter uma vivência prática na área, comecei recentemente uma terapia junguiana, simultânea a minha formação em psicanálise. Evidentemente, isso implica uma atenção toda especial aos meus sonhos, retomando antigo hábito de anotá-los num caderno.
E um de meus primeiros sonhos lembrados, neste início de processo, me chamou muito a atenção e ocupou boa parte da sessão de ontem. Eu estava num aeroporto e precisava, para chegar ao avião, atravessar uma escada em espiral e ascendente.
Desejo e receio se mesclavam em mim ante aquela imagem, sobretudo pela altura, pela aparente estreiteza dos degraus, e pelos contornos, que davam vertigem.
Ao levar o sonho para a terapia, fiz uma associação com minha viagem a Belo Horizonte, primeira vez que, vencendo antiga e insistente cisma, usei avião na vida, quando de uma matéria de jornal.
Naquela viagem, me marcou muito a Igreja da Pampulha, de Niemeyer, que inclusive me rendeu meu primeiro furo de reportagem (as rachaduras que ameaçavam o monumento). Mas curiosamente, no fluxo de associações que entreteci, emergiu uma característica específica de Niemeyer, a sinuosidade e as curvas de suas edificações modernistas, uma homenagem, entre outras coisas, ao elemento cósmico feminino, o yin chinês.
Pelas linhas tortas, senão da escrita de Deus, ao menos de nossa imaginação interior, "in-Ventei" o vento inspiracional de pensar que a viagem em questão, desejada e arriscada, é também símbolo de uma mais que urgente viagem às profundezas do inconsciente (o pessoal e o coletivo), personificado, no caso do homem, na anima, sua contrapartida psíquica feminina. Viagem à matéria, ao viscoso, ao obscuro do desejo. Lilith!
Por tudo isso, me alegrou hoje topar com esses argumentos e essa imagem de Blake, no livro de Jung. Mais uma vez, a leitura de Jung se revela como mais que comum leitura. Um auto-sismo-grafar. Jung meu spiritus rector, magistro, Irmão Maior, como se diria na Tradição oculta.

quinta-feira, julho 24, 2008

rosa de vidro

"(...) com quanto desagrado nós nos lembramos de coisas que ferem violentamente os nossos interesses, o nosso orgulho ou os nossos desejos; com quanta dificuldade nós nos decidimos a propor tais coisas ao nosso intelecto para exame exato e sério; com quanta facilidade, ao contrário, nos desviamos de tais fatos, esgueirando-nos deles, ao passo que circunstâncias agradáveis espontâneamente penetram na nossa consciência, tanto assim que, mesmo afastados por nós, insistem em assediar-nos... Naquela resistência da vontade de admitir que o adverso se apresente à luz da inteligência, reside o ponto em que a loucura pode irromper no espírito. Todo novo incidente adverso tem de ser assimilado pelo intelecto, isto é, tem de receber um lugar no sistema das verdades que se referem à nossa vontade, aos nossos interesses, e isso ainda que fosse necessário reprimir para tal fim coisas mais satisfatórias [o termo "verdraengen" para "reprimir" foi adotado por Freud] ... Se, todavia, em determinado caso, a resistência da vontade em face da aceitação de dada verdade alcança tal grau que aquela operação (da assimilação) não pode ser levada a efeito: se, portanto, certos incidentes e circunstâncias são sonegadas ao intelecto, porque a vontade não pode suportar-lhe a visão; se então, por causa do necessário nexo, a lacuna ou brecha é preenchida a bel prazer: neste caso estamos diante dum caso de loucura. Pois o intelecto renunciou à sua natureza de agradar a vontade; o homem imagina o que não é... A origem da loucura pode ser considerada, portanto, como um violento 'expulsar para fora da consciência" de qualquer fato, o que só é possível "pela inserção na consciência de qualquer outra idéia que não corresponde à realidade' ".
ARTHUR SCHOPENHAUER
-xxxxxxxxxxx-
Genial antecipação de Freud, em pontos como a "fuga para a doença", as formulações de Schopenhauer acerca da loucura são excelente roteiro filosófico para se acompanhar Rosa de Vidro, peça que acaba de estrear no Centro Cultural São Paulo.
Com primoroso texto de João Fábio Cabral e direção de Ruy Cortez, o grupo Cia. da Memória encena, através do drama de Rose -uma menina oprimida pela mãe obsessiva e dominadora e pelos sonhos amorosos frustrados - justamente a via da insanidade como fuga de uma realidade insuportável, o "amparo" possível para o espírito quando as verdades que se impõem à consciência se resumem a misérias e impotência.
Sem idealizar indevidamente o universo dos transtornos mentais, a peça contudo traça, de maneira muito interessante, um paralelo entre arte e loucura: se Rose se entrega a uma "poética" de fantasias autônomas, uma enxurrada de conteúdos inconscientes que acabam por levar a frágil rosa da consciência ao colapso, tal com um brinquedo de vidro espatifado -psicose-, o irmão dela, por sua vez, se sustenta na escrita poética como possibilidade de remediar as angústias da vida que leva em casa e no trabalho, agravadas pela homossexualidade não assumida. Ele por fim conseguirá dar uma guinada, ainda que ao preço da covardia de largar a irmã às garras maternas e manicomiais.
A mãe, por sua vez, abandonada pelo marido outrora -mais uma atitude de escapismo abordada pela peça-, agora veste um luto permanente, que simboliza a esterilidade existencial que ela sofre e na qual se "refugia" para se dar o direito de também arruinar o destino dos filhos.
O tom intimista do espetáculo, a sutileza psicológica das personagens e conflitos, remetem muito a Tennessee Williams, um dos maiores dramaturgos americanos do século XX.
Rosa de Vidro, para resumir, é uma chance infelizmente rara, cada vez mais rara -dado o marasmo, mesmice e o frufru oco que grassam por todo lado, nos palcos de SP- de fazer no teatro, e do teatro, uma experiência profunda de mergulho em nós mesmos e de acirramento de consciência acerca das situações-limite da condição humana.

domingo, julho 20, 2008

homenagem ao dia da amizade

Era uma vez um ancião que fizera de sua longa jornada na Terra um exemplo de virtudes. Amor, desprendimento, generosidade, gentileza. Era como pensava, pensava como era, e seu ser e seu pensar compunham uma só melodia de glória a Deus e à vida no que ela tem de mais luminoso.
Só não virara monge porque suspeitava que, em troca da renúncia às tentações mundanas, cairia de cabeça nas tentações celestiais, como a do tédio, melancolia, antigamente, entre os medievais, conhecida como acídia, um dos piores pecados.
Seguiu firme e evangelizante no mundo, semeando a Palavra nos terrenos que o destino lhe propiciou: trabalho, família, filhos, homem entre homens. Passando, é claro, por dificuldades, dores, chorando como até o Filho de Deus teve de chorar, no que aliás deve ter sorvido o cálice amargo da experiência, por outro lado também deliciosa, de ser Filho de Deus e Filho do Homem, Luz de toda luz e Lágrima de nossa lágrima.
Uma das piores dentre essas dores ainda latejava no peito de nosso ancião: a perda de uma companheira de muitos anos, sua simpática e mais que fiel cãozinha.
Seus familiares e admiradores chegaram a se espantar em ver como o santo homem, aparentemente campeão em maturidade moral e religiosa, caía em prantos, feito criança, ao recordar pequenos gestos, odores, espaços, tudo o que lhe remetesse à sua "melhor amiga", como o velho gostava dolorosamente de dizer de si para si, em voz baixa. A morte da cãozinha foi como que um augúrio de que a própria e inteira vida do ancião, no que tinha de mais precioso, definido, se desfazia feito um sonho pacífico ou turbulento quando do impiedoso raiar da manhã.
E de fato, chegou o dia do ancião. Ou melhor, a Noite. Áurea hora de despertar. Viagem ao Céu.
Na porta do paraíso, estava um São Pedro sorridente, de braços abertos para cumprimentar o forasteiro que à pátria natal retornava. O velho, um tanto confuso, olha para trás, para os lados, para todo lado, procura não sabe bem o que, e balbucia a primeira coisa que lhe ocorre: "Minha cachorra está aí dentro?". Sentiu-se mal mesmo antes de completar a frase, tamanha a sensação de ter falado uma bobagem.
E a reação de São Pedro não ajudou muito a dissipar a sensação de gafe ou mesmo de ridículo. Porque o Apóstolo de imediato desfez o sorriso, abaixou os braços, ajeitou o molho de chaves preso à cintura.......e, após segundos de rígido silêncio, disse: "Como ousas? Não sabes que o Paraíso é só daqueles que foram criados à imagem e semelhança de Deus, os homens? Como pensas, nesta hora que deveria te ser tão auspiciosa, na ignomínia de que um reles CÃO estaria do lado de cá do Sagrado Portal?".
O ancião, tomado de uma raiva que quase nunca sentira em vida, de uma escuridão que jamais imaginara ser capaz de haver na mais espessa das sombras, grita em voz abafada, quase inaudível: "De que vale um Paraíso que não tem lugar para uma cãozinha?". E dá as costas a São Pedro e sai, sabendo bem do lugar que lhe restava ao ter tomado a direção do desacato à Autoridade divina.
É quando Pedro lhe diz: "Espera! Passaste pela derradeira de tuas provações! De que valeria um Paraíso que não tivesse lugar para criaturas como você, capaz de renunciar ao próprio Paraíso em nome da amizade de uma cãozinha?". E o ancião se voltou, em êxtase, ao som de uma ofegância e de um latido conhecidos, que se aproximavam.

sexta-feira, julho 18, 2008

a pança e a merda do Leviatã


Os recentes episódios de truculência policial contra alvos civis ("meros" cidadãos, inclusive crianças indefesas, alvejadas em burras e cegas perseguições a bandidos) chocam, mas não surpreendem.
Alvo civil é linguagem de guerra. E, no Brasil, há tempos vivemos uma guerra não-declarada. Guerra de todos contra todos? Hobbes e seu Leviatã devem estar se revirando no fundo dos abismos........ Mas também guerra do próprio Leviatã (o Estado) contra aqueles que ele supostamente deveria proteger. Isso remonta, é óbvio, à ditadura pós-64 (para restringir a cadeia kármica de nossas misérias, que em si é infinita), pois vem da ditadura militar essa concepção de polícia militar feita não para proteger e fortalecer a sociedade civil, e sim para reprimir os "inimigos", internos e externos, e, por extensão, os "desviantes"-classicamente, os pretos e pobres, mas hoje em dia a força bruta é mais democrática, pode querer esmagar quase que qualquer um, "pega um, pega geral, também vai pegar você"..
Neste país a cidadania é uma mentira, o Estado devora nossos impostos e se locupleta em banquetes corruptos para seus poucos escolhidos..... o que nos sobra, a nós "meros" cidadãos, nos intervalos entre essas refeições em clima de baile da Ilha Fiscal e de Comilança , filme escatológico de Marco Ferreri, estrelado por Marcelo Mastroianni? Resposta: o excremento que esses pançudos donos do poder, do dinheiro e do cassetete produzem (sim, meus caros, essa cambada faz alguma coisa além de comer) e dejetam na nossa cara.

sexta-feira, julho 11, 2008

Yelena nas alturas......







11/07/2008 - 18h39
Isinbayeva bate recorde mundial em Roma
(fonte: UOL Esporte)


A russa Yelena Isinbayeva bateu o recorde mundial do salto com vara nesta sexta-feira, na terceira etapa da Liga de Ouro, torneio disputado em Roma, na Itália. A atleta atingiu os 5,03 m, batendo sua própria marca.

Após diversas tentativas de passar a marca dos cinco metros, Isinbayeva comemorou muito a façanha com seu treinador Vitaly Petrov. Seu recorde anterior era de 5,01 m, alcançado no mundial de Helsinque em 2005.Com o novo recorde, a russa de 26 anos chega a sua 22ª quebra de recorde mundial. Esta foi a primeira vez que Isinbayeva bateu sua própria marca desde que mudou de treinador.Nestas 22 vezes que Isinbayeva alcançou as melhores marcas, 12 delas foram em torneios outdoor, como esta em Roma, e dez em competições indoor.A atleta não esconde de ninguém que seu grande sonho é igualar o recorde do lendário ucraniano Sergei Bubka, que por 35 vezes superou a melhor marca de salto com vara."Obrigada a todos", foram as primeiras palavras que a russa pronunciou a uma torcida em entusiasmada em Roma. Isinbayeva saudou a platéia, que incentivou muito a atleta para que ela conquistasse mais um recorde em sua carreira. Atual campeã da modalidade nos Jogos de Atenas-2004, Yelena Isinbayeva confirma com mais este título, seu grande favoritismo nas Olimpíadas de Pequim.Ainda na prova de salto com vara disputada em Roma, duas participações brasileiras. A melhor qualificada foi Fabiana Murer, que terminou na quinta colocação, com 4,65 m. Ela havia saltado 4,80 m no Troféu Brasil no útlimo mês de junho, sua melhor marca na carreira. Já Joana Costa atingiu a marca de 4,35 m.Completaram ainda o pódio com a russa recordista Monika Pyrek, da Polônia, com 4,75 m e a alemã Silke Spiegelburg, que saltou 4,70 m.


CRONOLOGIA DOS RECORDES

4,88 m: Svetlana Feofanova (RUS), 04/07/04 em Heraklion (GRE)
4,89 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 25/07/04 em Birmingham (ING)
4,90 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 30/07/04 em Londres (ING)
4,91 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 24/08/04 em Atenas (GRE)
4,92 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 03/09/04 em Bruxelas (BEL)
4,93 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 05/07/05 em Bruxelas (BEL)
4,95 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 16/07/05 em Madri (ESP)
4,96 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 22/07/05 em Londres (ING)
5,00 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 22/07/05 em Londres (ING)
5,01 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 12/08/05 em Helsinque (FIN)
5,03 m: Yelena Isinbayeva (RUS), 11/07/08 em Roma (ITA)

quinta-feira, julho 10, 2008

super-nietzsche

"Um filósofo que percorreu muitas saúdes e sempre as torna a percorrer passou igualmente por outras tantas filosofias: ele não pode senão transpor seu estado, a cada vez, para a mais espiritual forma e distância -precisamente esta arte da transfiguração é filosofia ... temos de continuamente parir nossos pensamentos em meio à nossa dor, dando-lhes maternalmente todo o sangue, coração, fogo, prazer, paixão, tormento, consciência, destino e faltalidade que há em nós. Viver -isto significa para nós transformar continuamente em luz e flama tudo o que somos, e também tudo o que nos atinge..."

NIETZSCHE - A Gaia Ciência