Saturday, March 22, 2008

hurricane!


SENSACIONAL--- Cate Blanchett brilhante no papel do genial Bob Dylan no filme "I'm Not There", em cartaz em São Paulo. Já que estamos em plena Semana Santa, esta é uma bela chance de testemunhar e render aleluias rs ao trabalho de um ator santo, no sentido grotowskiano. Artista em estado de "hurricane" (furacão; título de uma das músicas de Dylan, além de se aplicar muito bem à personalidade e conjunto da obra do próprio)

Tuesday, March 18, 2008

Jacques Lacan e o analista cidadão

O psicanalista Jorge Forbes

O que é a "orientação lacaniana"? Esse questionamento foi a mola propulsora de uma bela conferência de Jorge Forbes, quarta-feira passada (12 /03/ 08), no Centro Clínico Pinheiros; o evento marcou a abertura do Seminário da Orientação Lacaniana de 2008, promovido pela seção paulista da Escola Brasileira de Psicanálise.
O seminário versará sobre o curso ministrado atualmente em Paris por Jacques-Alain Miller , o grande difusor mundial da psicanálise lacaniana após a morte de Lacan, de quem aliás é também genro.

Forbes, por sua vez, é um dos mais conhecidos e qualificados expoentes da psicanálise brasileira, foi analisado por Lacan e é colega, parceiro intelectual e amigo pessoal de Miller. Diretor do Instituto da Psicanálise Lacaniana (Ipla), ele tem portanto as credenciais privilegiadas de um partícipe, testemunha ocular e continuador da revolução psicanalítica representada por Lacan.
Uma revolução, alerta Forbes, que não pode se deixar capturar por enclausuramentos e padronizações conceituais rígidas. Daí a importância de voltar sempre às perguntas supostas "triviais", de ousar perguntar o "básico", de modo a descompletar o saber já sabido e desestabilizar as torres de marfim dos especialistas agarrados a verdades eternas e a chichês que parecem querer se validar "cientificamente" quanto mais forem confusos e alheios à vida e à linguagem cotidianas.
Por isso a importância da pergunta sobre o que faz do adjetivo lacaniano algo mais que um termo rotineiro e desgastado, desses tanto mais usados quanto menos compreendidos em sua fonte originária, tal como ocorre com kafkiano, dantesco, maquiavélico, entre tantos outros exemplos.
A orientação lacaniana, tal como entendida por Miller e apresentada por Forbes em sua palestra, reúne qualidades aparentemente paradoxais, como o extremo rigor lógico, por um lado, e a abertura ao diálogo com a vida corrente, o frescor da conversação contínua entre pares , com o grande público e, claro, com o "acontecimento Freud".
Não é a repetição automática de termos ou fórmulas –inclusive a célebre noção do"inconsciente estruturado como linguagem"- o que legitima e dá sentido à orientação lacaniana. Nenhuma concessão ao lacanês ou ao "estado avançado" dele, a lacanagem, disse Forbes, arrancando gargalhadas da platéia. Nenhum dogma, nenhum sistema totalizante e totalitário.
Trata-se da aventura, do risco de confrontar o arcabouço conceitual e metodológico com a realidade que se apresenta.
Trata-se de um discurso vivo, dinâmico, que descompleta e subverte certas tendências hegemônicas na nova ordem mundial, marcada pela chamada sociedade do controle.
Aqui se entrevê outra marca forte da fala de Forbes. Indo bem além de um comentário acadêmico protocolar, sua fala fez vibrar os imperativos éticos e políticos que se colocam ao analista lacaniano de hoje, enquanto analista cidadão. O próprio Miller, aliás, começou o atual curso em Paris três dias depois (14/11/2007) do lançamento de uma nova campanha "antidepressão" do governo Sarkozy, calcada na promoção dos interesses da indústria farmacêutica e das terapias cognitivo-comportamentais. Mais que um detalhe menor, esse dado de contexto foi então muito enfatizado pelo psicanalista francês, como exemplo dos desafios e ameaças que a psicanálise enfrenta numa época de "serial killers e serial lovers", disse Forbes, uma época em que o objeto do desejo dá lugar à proliferação dos objeto de gozo, com sua lógica compulsiva, quantitativa, massificante .
Mas Forbes não faz concessões a quaisquer lamentações elegíacas ou nostalgias reacionárias. Nisso está, mostrou ele, outra faceta fundamental da orientação lacaniana. A orientação para o futuro, para a construção do devir. A psicanálise, seja enquanto experiência no divã ou movimento cultural, é mais que uma mera rememoração do passado, é a possibilidade de fazer de uma história um passado.
Para além também do clichê do "Freud explica", o analista de orientação lacaniana "desexplica", rompe a série das certezas dadas, não acrescenta sentido e sim o esvazia, desvelando e resgatando a falta que é precípua à criatividade existencial e ao desejo. Conforme Forbes mostrou, Freud fez o diagnóstico do mal-estar na civilização moderna; Lacan apontou seus desdobramentos e exacerbações até o limiar da pós-modernidade; ser seu discípulo, hoje, é sobretudo estar comprometido com a ação: seu basta à ilimitação gozosa da sociedade de massas provém da capacidade de chamamento do sujeito à responsabilização por si mesmo, pelo sustentar-se no insustentável da leveza de seu singular modo de ser.

Sunday, March 16, 2008

por um Tibete livre

Ideograma chinês para "liberdade" ( jiyuu)

16/03/2008 - 07h30 - UOL
Dalai Lama denuncia que o Tibete está sofrendo um "genocídio cultural"Em Nova Délhi

O Dalai Lama, líder espiritual do Tibete, disse hoje que essa região está sofrendo "um tipo de genocídio cultural" e que as autoridades chinesas pretendem alcançar a paz através do uso da força.Em entrevista coletiva televisionada de Dharamsala, cidade indiana que acolhe o Governo tibetano no exílio, o Dalai Lama disse que, de uma forma "proposital ou não proposital, está ocorrendo um tipo de genocídio cultural" no Tibete.
Além disso, disse que suas reivindicações não mudaram por causa dos recentes eventos, e que continua pedindo "autonomia, não independência".O líder espiritual também pediu a ajuda da comunidade internacional, à qual atribuiu uma responsabilidade de caráter moral na causa tibetana.Em seu primeiro comparecimento público após os distúrbios da sexta-feira passada em Lhasa, a capital tibetana, o Dalai Lama voltou a expressar seu apoio à realização dos Jogos Olímpicos de Pequim este ano.Fontes oficiais chinesas indicam que estes distúrbios deixaram "10 civis mortos e 12 policiais gravemente feridos". No entanto, o exílio tibetano afirma que há pelo menos 30 mortos e precisa que recebeu informações de que este número poderia chegar aos 100.O líder máximo tibetano denunciou os impedimentos e restrições que, segundo ele, as autoridades chinesas impõem ao desenvolvimento da educação e à formação nos mosteiros tibetanos, e alertou do risco de desaparecimento do patrimônio cultural do Tibete.Além disso, expressou sua preocupação com o fato de que as autoridades chinesas tenham feito uso da "força" para conseguir a estabilidade e a paz na região tibetana.Os distúrbios em Lhasa ocorrem em meio aos protestos que acontecem desde o dia 10 protagonizados por monges budistas, e que se iniciaram para lembrar o aniversário da fracassada rebelião tibetana contra o mandato chinês em 1959, que levou ao exílio do Dalai Lama.O Dalai Lama vive em Dharamsala, no estado indiano de Himachal Pradesh, onde fica a Administração central do Tibete no exílio.Calcula-se que a Índia recebeu cerca de 130.000 tibetanos a partir de 1959.

Friday, March 07, 2008

sarau - grandes páginas da literatura universal


HERMANN HESSE - O Lobo da Estepe. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro: s/d, ed. Record.
"Foi quando um célebre historiador e crítico de arte, de renome europeu, anunciou uma conferência na Universidade local e logrei persuadir o Lobo da Estepe a que fosse assisti-la, embora não me demonstrasse nenhum prazer em ir. Fomos juntos e nos sentamos um ao lado do outro no salão do auditório. Quando o orador subiu à tribuna e começou a elocução, decepcionou, pela maneira presumida e frívola de seu aspecto, a muitos de seus ouvintes, que o haviam imaginado como um profeta. E quando então começou a falar e, à guisa de introdução, endereçou aos ouvintes palavras lisonjeiras, agradecendo-lhes por haverem comparecido em tão grande número, nesse exato momento o Lobo da Estepe me lançou um olhar instantâneo, um olhar de crítica àquelas palavras e a toda a pessoa do conferencista, oh! um olhar inesquecível e tremendo, sobre cuja significação poder-se-ia escrever um livro inteiro! O olhar não apenas criticava o orador e destruía a celebridade daquele homem com sua ironia esmagadora embora delicada; não, isso era o de menos. Havia nesse olhar um tanto mais de tristeza que de ironia; era na verdade, um olhar profundo e desesperadamente triste, com o qual traduzia um desespero calado, de certo modo irremediável e definitivo, que já se transformara em hábito e forma. Não só transverberava com sua desesperada claridade a pessoa do vaidoso orador, ironizava e punha em evidência a situação do momento, a expectativa e a disposição do público e o título um tanto pretensioso da anunciada conferência – não, o olhar do Lobo da Estepe penetrava todo o nosso tempo, toda a afetação, toda a ambição, toda a vaidade, todo o jogo superficial de uma espiritualidade fabricada e frívola. Ah! lamentavelmente o olhar ia mais fundo ainda, ia além das simples imperfeições e desesperanças de nosso tempo, de nossa espiritualidade, de nossa cultura. Chegava ao coração de toda a humanidade; expressava, um único segundo, toda a dúvida de um pensador, talvez a de um conhecedor da dignidade e sobretudo do sentido da vida humana. Esse olhar dizia: 'Veja os macacos que somos! Veja o que é o homem!' E toda a celebridade, toda a inteligência, toda a conquista do espírito, todo o afã para alcançar a sublimidade, a grandeza e o duradouro do humano se esboroava de repente e não passava de frívolas momices!"

Saturday, March 01, 2008

um imperador pobre-diabo

Cena de L' Âge des Tenèbres
Não é tão bom quanto Declínio do Império Americano e As Invasões Bárbaras, seus filmes anteriores. E ainda recebe um título absurdo em português. Mas em L' Âge des Tenèbres (A Idade das Trevas, que um iluminado resolveu "traduzir" por A Era da Inocência, matando inclusive a alusão irônica, essencial, à Idade Média), o canadense Denis Arcand confirma seu mérito como um dos cineastas mais provocativos e interessantes da atualidade.
Neste desfecho do que podemos chamar de a trilogia da decadência, Arcand retoma, de outro modo, o tema da falência das ideologias. O espectador lembrar-se-á ainda da célebre cena de As Invasões Bárbaras na qual todas as personagens, enfileiradas, diziam um a um todos os “ismos” que abraçaram e depois se arrependeram: socialismo, comunismo, feminismo, existencialismo, homossexualismo, maoísmo, trostkismo etc etc.
Uma vez falida a engrenagem dos sonhos coletivos -e instaurado o niilismo neoliberal-, o olhar crítico de Arcand investiga este deserto de idéias numa escala mais individual. Põe em cena um everyone, um homem sem qualidades, como diria Robert Musil. Um funcionário público (Jean-Marc Leblanc, vivido por Marc Lebrèche) que passa seus dias entre a escuta, no trabalho, às misérias da população que recorre à assistência social do Estado e, em casa, o completo embotamento afetivo de suas relações com a insuportável esposa -que não larga do telefone, à caça do sucesso profissional- e com as filhas, que não largam do i-pod e dos joguinhos eletrônicos.
Para suportar tamanho horror, barata kafkiana esmagada pelo cotidiano, Leblanc se refugia na imaginação.
No reino da fantasia, fantasia-se de rei, por exemplo: em determinada cena, vira um imperador romano que faz o que quer de uma escrava que, na vida real, é sua opressiva superiora hierárquica na repartição.

Ele também recorre sistematicamente a revistas pornográficas como meio de aliviar a esterilidade conjugal; tem devaneios em que se projeta como um político poderoso, intelectual reconhecido e sedutor irresistível, a que lindas repórteres se entregam hipnotizadas.
Se, nos filmes anteriores, predominava um elemento negativo, da corrosão dos ideais, esse processo aqui é exacerbado mas, ao final, sutilmente subvertido. Arcand acaba por mostrar que, por mais inóspitas as circustâncias sociais -simbolizadas inclusive pelas máscaras de proteção que toda a população da cidade usa, contra uma terrível epidemia, em nova alusão às pestes da outra idade das trevas-, o indivíduo é, em última instância, cúmplice de seu cativeiro. E responsável pela possibilidade de mudança, desde que a imaginação deixe de operar como narcótico conformista, para impulsionar o sujeito ao risco de morrer para o velho -veja-se o simbolismo da mãe do protagonista, no filme- e nascer para o novo e o desconhecido.