Tuesday, October 30, 2007

além do princípio do niilismo

Acontece até a próxima quinta-feira o X Encontro Nacional de Pesquisa na Graduação em Filosofia da USP. Além de palestras e minicursos de professores, estão previstas mesas-redondas com participação de graduandos de diversas universidades do país. Eu fui coordenador de uma dessas mesas, na manhã desta terça. O tema era filosofia e literatura.
Um dos alunos articulou Kafka e Nietzsche no âmbito da questão do niilismo (nihil, "nada"), mostrando como a ficção de um e a reflexão teórica de outro, respectivamente, abordam um mesmo problema crucial, o da crise de sentido e de valor da vida humana, após a derrocada da civilização cristã-iluminista. E discutindo como, nos dois casos, se opera uma crítica da vontade de Verdade -essa ilusão, que herdamos de Sócrates, de tamponar a dimensão trágica da vida humana apelando para uma pretensa explicação racional de todos os mistérios e contradições do real.
A outra aluna tratou do conto "A causa secreta", de Machado de Assis, investigando a questão do sadismo, central nesta narrativa, na tripla vertente da obra literária, da filosofia e da psicanálise freudiana. Ela também deu grande destaque à denúncia nietzschiana do processo civilizatório, que ao invés de luzes, produz sombras, ao mascarar e reprimir as dimensões instintivas da natureza humana.
As duas falas geraram bastante discussão com o público. Eu fiz pontuações sobre como esta cultura niilista de que ambos trataram acaba por se refletir no próprio tema geral de nossa mesa, a relação entre filosofia e literatura: em tempos de descrédito na Razão de tipo tradicional, à la Hegel, abstrata e sistemática, cresce a importância da literatura como via de acesso filosófica à experiência humana concreta, que é sempre particular a cada um de nós e universal a todos, e, além disso, não é apenas raciocinada, mas imaginada e sentida.
Como se dizia nas pichações em Maio de 68 em Paris, "as estruturas não descem às ruas", os conceitos teóricos não fazem passeata, não se apaixonam, não choram junto aos entes queridos que se foram, não sonham.
Além de ter voltado a pôr um relógio no pulso séculos depois rs –devido à necessidade de zelar pelos tempos das comunicações e debate-, saí ganhando pelo intenso momento de troca e de aprendizado, e também por ter ido além de meu crônico niilismo acerca dos rumos deste pobre país. Com jovens como estes que conheci hoje, dedicados, inquietos e motivados para o exercício do pensamento crítico e libertador, nem tudo será imbecilidade e opressão nos tempos vindouros.

Saturday, October 27, 2007

transfiguração gloriosa

Ressurreição de Jesus Cristo: símbolo arquetípico de uma redenção do espírito e da carne

Isaac Newton segundo o olhar de William Blake: ambivalência entre a atenção do espírito e o encapsulamento do corpo


"Em profunda escuridão caem aqueles que seguem a ação. Em profunda escuridão caem aqueles que seguem o conhecimento".
Esse verso dos Upanixades pode ser iluminador para aqueles que se debatem com a difícil relação entre teoria e prática na vida de todos nós, e dos intelectuais em especial.
Tanto a ação quanto o conhecimento, se isolados, são caminhos estéreis, de "profunda escuridão". A ação sem conhecimento se move na ignorância repetitiva, o conhecimento sem ação se degrada numa erudição vazia.
Em nível metafísico, conhecer, para os hindus, implica a negação do mundo, na medida em que os pólos opostos se anulam e o véu de Maya se rompe. Ora, agir é sempre agir no mundo, e nesse sentido é uma afirmação de algo e de si.

De modo que temos aqui uma unidade paradoxal entre a renúncia e a participação no mundo. Como ensina a Tradição, o Samsara (mundo ilusório, a roda das reencarnações) já é o Nirvana (cessação, extinção, beatitude atemporal), e o Nirvana já é o Samsara. No mar sem se emaranhar. Estar no mundo sem mais esquecer que não se é do mundo.
Nesta tensa relação repousa a possibilidade de evitar, entre outras coisas, as idolatrias que coreografam na forma de símbolos alienantes uma Unidade ainda não vivenciada por inteiro, uma evolução sempre invisível e duvidosa, sempre a caminho e posta em questão.

Daí que meu espanto com as graves denúncias (pedofilia) que foram levantadas esta semana, contra Júlio Lancelotti - uma figura importantíssima da Igreja Católica de São Paulo e um dos padres mais ligados à causa da promoção dos excluídos- possa trazer um aprendizado já válido em si, ainda que ao final se comprove a inocência do acusado.
Aprendizado de certas obviedades fáceis de se esquecer, por exemplo, a fragilidade brutal de todo ser humano, sobretudo dos funcionários papais do Bem absoluto; assim também a felicidade e a urgência de uma redenção espiritual que não represente a negação , e sim transfiguração gloriosa, do corpo, pois violência só gera violência: não são só os menores de rua de Júlio Lancelotti que viram criminosos numa sociedade agressiva e injusta, também os nossos "menores" inconscientes -as pulsões desnutridas, esfomeadas, largadas na esquina do deus-não-dará- se armam até os dentes para se vingarem de um estilo de vida repressivo, unilateral, inatural, caso desta regra eclesiástica do celibato obrigatório.

Tais impasses teriam, provavelmente, melhor encaminhamento se a teoria e a prática estivessem mais irmanadas: desse modo a renúncia ao mundo, pela graça de Jesus Cristo, pelo estado búdico, pelo êxtase do xamã, ou como quisermos chamá-la, alcançaria a nobreza que merece, não se confundiria com um tolo, hipócrita, moralista e, subterraneamente, criminoso embotamento dos sentidos.

-Unzuhause-

Monday, October 22, 2007

vida carneira e o equilíbrio "Zén"

"Oi, eu sou o Zén"
Wagner Moura em espetacular atuação como Capitão Nascimento, do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro), no filme Tropa de Elite

Ontem foi para Zén (Zé Ninguém) um grande dia: voltou a se aventurar pelas sendas do banal. Nos últimos meses seu cansaço com a rotina, e a opção pelo recolhimento, fizeram com que até mesmo os gestos corriqueiros tomassem, ao serem praticados, um peso, uma dificuldade adicionais, como que se ele fosse um carneiro sem pele e assim desprotegido para o convívio habitual com as coisas da vida.
É que ficara claro para Zén, a partir de certo instante, a desagradável obviedade de seus scripts, e o invisível número que se gravara em seu peito e costas desde que a mãe lhe trouxera ao mundo, o número de carneiro a mais do pasto do "Todo mundo". O que Todo mundo pensa, o que Todo mundo gosta, o que Todo mundo quer, o que Todo mundo sonha, o que Todo mundo acha um absurdo, o que Todo acha um luxo: era esse o cobertor quentinho que agasalhava o Zén nos prados da segurança de existir.
Mas Zén se indignou e se afastou. Dir-se-ia que o calor da massa ficou quente demais, com perdão da redundância. Até o céu parecia a seus olhos acometido de certa prisão de ventre, sem umidade outra senão a do suor pela chuva travada que ele não conseguia descarregar, Sol impiedoso, verão ano inteiro. O tempo, em suma, foi ficando um inferno. "Aqui é o inferno para pensamentos de eremitas; aqui, os grandes pensamentos são refogados vivos e cozidos picadinhos", ouviu o Todo Mundo dizer. Era uma citação dessas que Todo Mundo gosta de (se) fazer para aparentar que quer que tudo mude desde que tudo fique como está. Zén gostou da citação, sentiu nela um ventinho que por contraste acentuou o abafado das cobertas. E então ele as tirou e se retirou. Pensou que acharia esse frio e neblina e chuva do verso de Nietzsche em algum canto ainda poupado pelo meio-dia universal do Todo Mundo.
Mas ontem não resistiu, até o frio pode às vezes também matar de calor. E a reestréia de Zén foi em grande estilo, resolveu logo encarar a mais óbvia das obviedades hoje em cartaz, o filme Tropa de Elite, hit parade do Todo Mundo, filme destes que você pode tranquilamente dizer que amou ou odiou sem ter ido ao cinema (nem pirateado), tantas são as opiniões divergentes prontinhas na prateleira.
Zén particularmente (se esse advérbio ainda cabe na gramática do Todo Mundo) gostou do filme. E mais, saiu encantado pela performance de Wagner Moura, ator que faz de uma pessoa possivelmente escrota -o Capitão Nascimento, virulento homem do Bope, polícia de elite do Rio de Janeiro-, um personagem complexo, humanizado e, inclusive, capaz de despertar simpatias perversas em nós, assim como o Hannibal Lecter de Anthony Hopkins.
Tirando os vinte minutos de trailer ("que absurdo esse Espaço Unibanco, vou reclamar para o jornal", ruminou alguém ao lado), tirando a lotação das ruas, o aperto geral, a prisão do ventre do céu e da terra - ameaçava e só ameaçava chover alívio no deserto-, tirando a necessidade de pagar táxi a poucos metros de chegar em casa, devido a tipos suspeitos no meio do caminho.. tirando tudo isso, a aventura de Zén foi muito legal, sempre bom saber que o pasto do (Todo) mundo segue na santa ordem, nem que à base de muita polícia de choque e sedativo, e que a caravana passa e a carneiragem fica.

Friday, October 19, 2007

do príncipe sapiens ao homo sapo








Ontem de madrugada, horário típico para eu pedir licença às superfícies do mundo e abrir as portas do reino Unzuhause, foi estranho. Abri de fato as portas, vontade de escrever, mas o que saía eram só linhas em branco. Comprovação da distância entre querer e estar inspirado. Aliás, diferença radical, a começar da forma ativa de um, e passiva do outro. O sujeito quer, a inspiração NOS quer. O homem moderno recalca um pouco essa diferença, na medida em que sua tecnologia e sua vontade de poder transformam, como diria Heidegger, a terra em mundo: o homem moderno fabrica, com interesses materialistas, um território de guerra, exploração e planificação naquilo que antes era campo aberto de possibilidades e de auto-oferecimento do Ser aos que estivessem entusiasmados o bastante para recebê-lo. Entusiasmo, vale lembrar, quer dizer: estar repleto do divino. Estado de poesia.
Eu sei que, no meu querer inesperado e ininspirado, só me vinha -como ainda me vem- um impulso: "O pulso" dos Titãs.

Sempre adorei essa música, embora muitos a considerem bizarra ou rePULSIva rs. Mas o pulso, o impulso, a pulsão, não são também – repulsivas?
Nesse desfile de enfermidades do corpo e da alma, a música canta algo que vive e insiste por debaixo. É o medo que o filósofo autêntico sente e confronta ao invés de apelar para a alienação no mundo das "Idéias". É Dionísio e sua gargalhada trágica nas ruínas do mundo e no reemergir da terra. É o macaco ventríloco que faz do humanídeo seu brinquedo de civilidade, é o bobo da corte que interrompe o jantar da nobreza e declara a destituição de Sua Majestade Sapiens, é o tombo que a devolve ao lodo pútrido sob e atrás do palácio, é a ducha que lava o príncipe nu com a sujeira da lama regeneradora (assistam ao filme Lúcia e o Sexo). Do sapiens ao sapo.

Monday, October 15, 2007

paraísos artificiais


"Eu te procurava fora de mim e não te achava, porque estavas em mim mesmo".
Apesar da advertência de Santo Agostinho –um dos pais fundadores da cultura cristã-, penso que o homem ocidental acabou por desenvolver, desde suas raízes religiosas, um modo de vida, uma mentalidade e uma espiritualidade por demais "extrovertidas", isto é, voltadas para fora. Vide o preconceito empirista segundo o qual a mente é uma página em branco que só vem a "conhecer" o que recebe do mundo externo, nada haveria no intelecto que não tivesse passado antes pelos sentidos... Disso é um pulo para o fetichismo consumista e capitalista que diz que você é o que você tem.
Também nossa concepção de Deus é a de um "Outro" transcendente, que nada tem a ver com nossas fragilidades e imperfeições, um totem a ser cultuado com ritos, credos e dízimos. Por mais que compremos livros de auto-ajuda que citem palavreados "orientais" e técnicas de ioga, meditação etc, o fato é que estamos ainda distantes da experiência ensinada por Buda, ou pelos Upanixades, da Iluminação como processo interior, em que sacrifício, sacrificador e Deus a quem se sacrifica revelam-se como Um.
Na história do pensamento ocidental moderno, Espinosa –que não por acaso foi excomungado e, pouco tempo antes, talvez fosse mandado à fogueira- é uma das poucas exceções a nos apontar para um caminho alternativo, ao enunciar a célebre fórmula "Deus sive Natura": Deus, ou seja, a Natureza; Deus como a Substância única,de que todas as coisas são modos ou variações, o Criador que não criou e deu as costas para o mundo, num céu de perfeições e barbas brancas, pois é um Criador presente em todas as suas criaturas.
Esses pensamentos me ocorreram nesta madrugada, numa situação bem "prosaica": faltou luz em casa! Eu sou de dormir tarde, separo essas horas da noite para o sagrado hábito das leituras, navegações internéticas, filmes.. olha, foi complicado suportar a privação de tudo isso.. e o mais patético era eu apertando, váaaaarias vezes, o botão do celular, e não só para fins práticos (não dar canelada em nada ao caminhar, por exemplo) – não, parecia sorver de meu gesto algum significado de "consolação", de amparo.
Como urbanóide viciado nos confortos tecnológicos, e perdido sem eles, eu inconscientemente usei das pobres baterias do meu celular numa espécie de micro-rito tipicamente ocidental, extrovertido, em honra e súplica da Luz que "está fora", que está ali, e não na escuridão de si.

Friday, October 12, 2007

dia da criança


Paulo Autran (1922-2007)

Stanislávski dizia que o grande ator é sobretudo um homem de fé: fé cênica, crença que permite viver e corporejar não a mera representação, mas sim a presentificação de um mundo outro que não o dos olhos literais. Um mundo para olhos literários.
E a fé cênica, prosseguia o teórico russo, se nutre das forças elementares do humano, é a loucura lúcida que impulsiona o menino em sua brincadeira com uma vassoura que ele, num passe de mágica, transforma em cavalo, para após épicas batalhas, converter em vassoura de novo e largar num canto, quando a mãe chama a criança para tomar o milk-shake. Fé cênica de entrar e sair do mundo da imaginação quando bem quiser, com a leveza e a franqueza de quem não teve ainda a mente turvada pelas claras certezas e cobranças da Razão envelhepobrecida.
Pois neste Dia das Crianças o Pai é que te chamou, menino Paulo, para tomar milk-shake no céu e lá brindar, brincar e descansar. Não descansar muito, que seria chato e nem combinaria contigo, ator cujo fogo criador fez com que participasse de exatas 90 peças, fora cinema e televisão. Gerações de profissionais e de espectadores devem muito ao teu exemplo, carisma, fé cênica , fé na arte, fé no homem.
Obrigado, mestre . Que tua alma seja acolhida no alto Olimpo dos bem-aventurados que cumpriram sua missão, e que teu corpo e a tua vassoura -de menino e de bruxo- nos irradiem proteção e inspiração desde o fundo da terra, como Édipo em Colono.
Ouçam, pelo link abaixo, Paulo Autran recitar Carlos Drummond de Andrade:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u336321.shtml

Tuesday, October 09, 2007

imagens do despertar


Antiga imagem hermética da abertura do homem para a Transcendência

Uma das cenas finais do filme O Show de Truman, quando o herói subiu as escadas que o levarão ao mundo real (true man= homem verdadeiro)

Sunday, October 07, 2007

OBRIGADO MEU SÃO JORGE !!!!!! rs



CORINTHIANS 1 X O SÃO PAULO
(aos 41 minutos do segundo tempo, quebrando tabu de 4 anos, em meio à pior crise da história do Coringão, ameaçadíssimo de rebaixamento, jogando contra um time 30 pontos na frente e já praticamente campeão etc etc etc)
sei que esta tarde de domingo entra pra história aqui no reino Unzuhause por um grito animalesco, desvairado, que me tirou a voz toda mas que fez meu dia feliz..
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLL!!!!

Saturday, October 06, 2007

carrinho de rolemã


Túnel, a infância que se despe e se despede, ensurdeço com tropas de fuzilamento e o ruídos do circo das placas de néon na noite escura da alma. Alma? Troço obscuro de corpo, esquisito, algo que cresce como aquilo que entumesce quando vejo a vizinha morena saindo pra passear com seu vestidinho curto preto, vento quente que me sobe e que não sei de onde vem e para onde vai. Nietzscheando horas em que só no silêncio é possível persistir amigo da sabedoria. Schopenhauer falando do homem que é o mais poderoso e mais sofredor dos animais porque é ciente de seu poder e de seu sofrer. Cãozinho atmã pulando revolto e quebrando meu dente.
Eu vejo quadriculado, o portão está trancado e sobe ao céu e eu espero por são pedro descendo de lá e são pedras que fecham o túmulo, quando elas rolarão? o túmulo está oco e o portão só está encostado, o cadeado está aberto, então por que se fazer de tão pequeno, por que não abrir o portão e sair, na tempestade que seja, no temporário do sendo, caindo na vida, deixando o carrinho de rolemã levar aos prazeres e vertigens da verdade do Homem? Carrinho de rolemã por entre corredores de palavras que não bastam, de ditos e ensinos que só me fazem escorregar mais, porque todo jeito de pensar é possível mas nem todo jeito de pensar é pensar, e não ser pensado.
A mulher do café e sua sabedoria de que trabalha para viver e não vive para trabalhar, rindo riso forte da advertência de um orixá. Deus meu, mas é preciso desvestir o personagem. Deus que dança, alma que entumesce, caminho do meio. Do meio do corpo da vizinha morena que quero pra mim quando passa com sua sainha preta e suas coxas torneadas e seu riso maroto. Túnel. Da lua quimérica que brilha luzes emprestadas rumo ao Sol que transborda de si, em si, excitado.

Thursday, October 04, 2007

clara-idade da escrita

Krankheit ist wohl der letzte Grund
Das ganzen Schöpferdrangs gewesen;
Erschaffend konnte ich genesen,
Erschaffend wurde ich gesund.
[Imagina-se Deus dizendo: 'A doença foi sem dúvida a causa final de todo anseio de criação. Criando, pude recuperar-me; criando, tornei-me saudável']
HEINE, citado por Sigmund FREUD

Interessante que, em nossa língua, o termo ESCRITA tenha também uma conotação de destino ou tabu. Um exemplo futebolístico, evidente e infelizmente impossível de se concretizar: no próximo domingo, o Corinthians tentará "quebrar a escrita" de só perder para o São Paulo nos últimos anos (aliás, se não tomar mais uma goleada vergonhosa já me darei por satisfeito rs..)
Pois essa ambigüidade entre escrita-ação (de escrever) e escrita-destino me toca de modo especial neste momento. Foi este um dia propício para tanto, talvez pela sessão analítica -sempre um encontro vertiginoso com a linguagem e o aquém- , talvez pelo cansativo e tumultuado transitar, ao longo das horas, por diversos papéis, que no meu caso são diversas (e exigentes) formas de trabalhar com palavras - do nascer ao pôr do sol, fui hoje, sucessivamente, jornalista, tradutor, analisante, estudante, agora blogueiro rs.... Ufaaaa! rs Cansaço, mas felicidade de ter combatido o bom combate, como diria o Apóstolo.

Na palavra -tentando, nunca bem o bastante, exercê-la ou recebê-la na profundidade que ela merece-, sinto-me menos falho, menos falto. Quase diria que, com e na escrita-ação, me sinto "em casa". Mas não digo, pois, como Unzuhause de batismo, sou um não-estar em casa irremediável, é essa minha escrita-destino, minha escrita-sortilégio. O que aliás é errância só agravada pela palavra certeira, palavra re-bela-da. Bela e revoltada. Palavra que queima e que sangra, forma que não me con-forma.
Aquele que retiver sua vida, perdê-la-á, e o que entregá-la por mim, esse viverá eternamente. Assim falou a Palavra, o Logos encarnado.
A palavra me solicita por inteiro na pira sacrificial impiedosa com os extravios. Chamas que me chamam a um banquete à luz de velas no trem-fantasma em disparada. Clara-idade de sair do ventre opaco da passividade iletrada ou encharcada de letras vazias.
Criando, meus vãos não são em vão.