quinta-feira, agosto 30, 2007

Fabíola


Cena de Amarcord, de Federico Fellini

Redonda como uma matriarca de Fellini
Fértil e feroz como Gaia,a mãe terra de mil tetas e crias
Olhos ariscos, desafiadores

Castanhos como teu cabelo liso
Castanhos como teu jeito escuro e esfíngico
Irreverência ferina e felina
Eu te admirava à distância
Meio que com medo de meus complexos de adolescente nerd
E ria, chorava de rir com teus sarros e armações

Me fazias voltar a face para trás,
Para ver coisas bem mais alegres do que aquela lousa chata
Lideravas a turma do fundão
Pois és tu mesma enviada da profundeza
Tua inteligência não admitia cabrestos
Nem precisava de atestados de bom comportamento
De provas de que eras uma garota exemplar
És exemplar justamente por ser única
E vives ainda em minha memória
De quando em vez imagino te ver em algum rosto na rua

Mas não, não eras tu ainda
Não sei onde estás
Mas sei que estás em mim

Rio contigo a cada vez que rio de mim
Sempre que me permito ir além
Diva, vida que ainda busco nos meus divãs
Tentando reviver o que me ensinaste
Filha de Abraxas indomável, o que me ensinaste?

Não eras pedante o bastante para bancar a pedagoga
Mas o que (pobre de mim, pretensioso mortal!) acho que aprendi contigo
É o que depois li no verso do imortal Blake
Verso arrebatador que uns lêem, e outros fazem ser
Quem sabe um dia eu o faça ser e seja:
Que o caminho do excesso leva ao templo da sabedoria


sábado, agosto 25, 2007

estrela que dança no abismo


"Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: há ainda caos dentro de vós"
Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

...............Caos, Confusão, Com-Fusão, Aflição, Ficção, Fricção, Atrito, Tritura, Tortura, Torpedo, Tor-pede, Pedido, Fedido, Fendido, Fudido, Caído, Cansado, Sado, Maso, Mastro, Astro, Agape, Adaga, Draga, Dragão, Virtude, Vidraça, Corte, Cachaça, Sono, Perigo, Fugindo, Fungando, a Puta, Escroto, Leproso, Esgoto, a Treva, Treme, Tantra, Tanto, Temo, Gema, Ovo, Geme, Gozo, Peito, Bunda, Perna, Terna, Boca, Afta, Barreira, Contato, Contágio, Integridade, Entrega-idade, Labirinto, Labi-rito, Mito, Imito, Minto, Mente, Mete, Mico, Ob-sessivo, Ob-sexivo, Abcesso, Dói, Esfrega, Beija, Pedala, Dedada, Dá, Come, Respira, Pira, Fogo, Foge, Volta, Abre, Levanta, Goza, Sua, Minha, Mia, Late, Fode, Ode, Piranha, Te amo, Gostosa, Gozosa, Terra, Erra, Erro, Er, Rosna, Ronca, Pia, Salva, Saliva, Uva, Enterro, Renasço, Faço, Crio, Cio, Interno, Inferno, Ínfimo, Íntimo, Infinito-simal, Símio, Vírus, Vênus, Sujeira, Sujeita, Jeito, Manha, Manhã, Amanhã, Hoje!, Agora, Ora, Gora, Hora, Agonia, A-gosto, A-gozo, Evitação, E-vida-ção, Porão, Pulsão, Pulso, Firme, Urso, Cadela, Cadeia, Cabeça, Carcaça, Casca, Asco, Desejo, Ensejo, Em cima, Embaixo, Por trás, De frente, Chupa, Morde, Arranha, Aranha, Piranha, Banho, Banheira, Sabão, Ensaboa, Sabor, Saber, Exploda, Torra, Torre, Frita, Derrete, Barrete, Cacete, Amansa, Amasso, Abraço, o Laço, Macia, Germe, Verme, Vermelha, Sangue, Furor, Horror, Bênção, Batina, Arranca, Batida, Bate, Assim, Belisca, Assim, A- Sim, simmmmmmmmmmmmmm...........................

domingo, agosto 12, 2007

o sexto sentido


Como você pode ajudar uma pessoa se não acredita nela?
Entre tantas palavras e imagens marcantes de O Sexto Sentido, esta pergunta do garotinho Cole (Haley Joel Osment) ao psiquiatra Malcom (Bruce Willis) é uma das descargas elétricas que mais seguem "zunindo" em meu espírito, após eu ter assistido na manhã deste domingo ao filme. Já o vira ontem, tarde da noite, tentei rever em seguida, mas o cansaço falou mais alto e deixei para hoje o "bis". Mas nada compensaria meu atraso de oito anos (o filme é de 1999). Não assistir a um filme destes é como levar a vida à base dos cinco sentidos e só descobrir tardiamente que essa mesma vida teria sido outra, se tivéssemos nos apercebido de um sexto sentido sempre presente, mas ignorado. Que sentido é esse?

Claro que a resposta imediata, para quem assistiu, seria: a percepção extra-sensorial, no caso, a comunicação com o mundo dos mortos.
Já essa questão é por demais fascinante. Sou muito interessado nos achismos, nas charlatanices, nas esperanças, nas pesquisas, em tudo o que liga, sempre ligou e ligará o homem ao sobrenatural. O homem, como diz um personagem de Shakespeare, é "most ignorant of what he' s assured, his glassy essence" (mais ignorante a respeito do que acredita mais conhecer, sua essência de vidro).Eu diria até que nossa essência é mais frágil ainda que o vidro, pois o vidro simplesmente quebra (e quando quebra pode nos machucar), enquanto o homem morre, seu fim é algo absolutamente singular, não é idêntico à desaparição inevitável de tudo o que aparece, à decomposição certa que aguarda a tudo o que é composto. E é o espanto com a morte, a perplexidade e mal-estar da morte, que em boa medida nos impulsionam às crenças sobre o além-vida (inclusive às crenças que negam as crenças).
Mas penso que o excelente filme de M. Night Shyamalan nos reserva outras dimensões interessantíssimas de reflexão. Inclusive sobre o que é este "sexto sentido". E ele me parece insinuado na indagação do menino (aliás, uma das mais fantásticas interpretações infantis –e não-infantis- que já testemunhei). Trata-se do sexto sentido da compaixão.

Não falo em termos banais, de uma caridade demagógica e boazinha. Compaixão no (sexto) sentido forte do sentir junto a paixão e o sofrimento do outro (com-paixão). De uma capacidade de se pôr no lugar do outro, e ao menos imaginar (porque nosso lugar nunca é exatamente o do outro) o que esse outro sente ao fazer o que faz e dizer o que diz. E nessa medida "acreditar" nele, apostar nesta verdade outra em que o Outro habita, se move e é. Por mais absurdo e estranho o mundo a que o outro nos quer levar. Por mais que esse mundo novo nos desloque do terreno seguro de nossas convicções, de nossos rótulos, de nossas "crenças" mais sólidas. Isso, evidentemente, não se limita, mas é especialmente indicado, a quem tem a vocação de atuar pela cura alheia. Como Malcom.
Esse psiquiatra infatil (Bruce Willis também num trabalho excepcional! ), no filme, tem enorme reputação, é premiado e reconhecido como um nobre filho da cidade de Filadélfia. Mas cometeu um erro que acabaria sendo fatal para ele próprio: o de se acomodar a um diagnóstico científico, para o qual a dor de um outro menino, que conhecera outrora (mas muito parecido com Cole) era um "case" a mais. Malcom se serviu de uma ciência que tenta, do alto de um pretenso saber já adquirido, catalogar, julgar, falar "sobre" a vida, e não dialogar com a vida. E tratar do novo menino –"comunicar-se" com ele, em todos os sentidos- será a chance para Malcom aprender com esse erro passado, "redimir-se" e evoluir (o filme tem evidente afinidade com a doutrina espírita de Allan Kardec).
E é o sexto sentido da compaixão que fará o próprio menino lidar melhor com sua dor, que é fruto na verdade de um dom até então experimentado à revelia, como um fardo, o sexto sentido sobrenatural. Ele aprenderá, graças ao que ensinou a Malcom, a "acreditar" naqueles a que deve ajudar –os mortos que o atormentavam. Aprenderá a vencer seu próprio medo ao escutar o que os mortos queriam dele, que tipo de ajuda estava destinado a prestar a eles. Assim se dá, no dia-a-dia, em nossa relação com o inconsciente, o qual é de certa forma o nosso mundo dos "mortos-vivos", que vêm puxar nosso pé debaixo da cama toda noite: sendo prestativo com ele, ele será prestativo conosco, será parceiro e não inimigo mortal.
Igualmente a história de Malcom com sua esposa é belíssima, não envolve, tampouco, a expiação de um pecado -as velhas categorias morais, assim como as categorias científicas engessadas, não dão conta dos dramas da existência-, mas sim uma aprendizagem e evolução pelo que os antigos chamariam de "gnose" (um conhecimento que não se reduz a intelectualismo, a episteme).
Que, mais que curiosidade escapista que nos tire deste mundo e nos leve ao além, tenhamos a coragem de aprendermos mais e mais o sexto sentido que faz de nosso próprio mundo um outro, feito, não de concórdia universal (aparentemente impossível), mas de afeto, companheirismo, aposta em si e no outro, ambiente propício a que a dor de cada um troque a letra final e se transforme em dom para todos.

quarta-feira, agosto 01, 2007

gaia ciência

Imagem do "Espírito Brincalhão" do Tarô Zen de Osho
Um dos conceitos mais fascinantes da psicologia de Jung é o de sincronicidade . Trata-se de "um princípio de conexões acausais": abrange as coincidências "inexplicáveis" entre fatos que têm entre si uma relação de significado, sem que um tenha sido causado pelo outro; o conceito se refere em especial à confluência de sentido entre um estado psíquico do observador e algum acontecimento externo, simultâneo e independente.
Noutras palavras, a sincronicidade consiste naquilo que, no dia-a-dia, pode nos ocorrer na forma daquela surpresa: "Affff, se tivéssemos planejado não teria dado tão certo".
Acabo de ter um pressentimento da sincronicidade –digo assim porque essas coisas são mais da ordem da intuição do que de uma certeza racional, já que estamos nos referindo a uma "lógica" não-consciente, portanto para além dos limites do cognoscível, no limiar da coisa-em-si kantiana que é explorada por Jung segundo a noção de inconsciente coletivo.
A "coincidência" em questão veio de um hábito que me é caro, a consulta ao tarô zen de Osho. Ele já me propiciou resultados interessantíssimos, verdadeiras fotografias da minha situação interna no instante respectivo (sim, pois somos não uma coisa fixa, mas sim fluxo incessante; "eu sou eu e minhas circunstâncias", segundo Ortega).

E não foi diferente desta vez. A carta que tirei: Espírito Brincalhão, com uma mulher vestida de palhaço, em postura dançante e celebrativa. Muito interessante, primeiramente, que se trate de uma mulher: o feminino que habita o homem, a "anima", é a porta de entrada por excelência para o inconsciente. A mãe é a primeira portadora da anima na vida do menino, e a tendência, com a evolução pessoal (estudada por Freud ao pensar o "Complexo de Édipo"), é que ela se desloque dessa primeira projeção e encontre novas formas, criativas, de expressão. Jung diz que o homem aprisionado na anima materna padece de infantilismo, mas que aquele que perde contato com a anima corre risco ainda mais grave, o de esterilidade espiritual.
O fato de ser a figura do tarô ser uma palhaça é pra mim também algo rico de significado. Hoje mesmo, numa comuna de Vampira Olímpia no orkut, eu recordava o mestre Michelangelo Antonioni (morto ontem), e em especial a cena final do filme Blow Up, quando o fotógrafo assiste a um "jogo" de tênis de palhaços – um jogo sem bola! Magnífica alegoria da falta, do vazio no qual os homens constroem, pela iMAGIAção (a magia da imaginação, segundo termo cunhado num mosteiro que fica aqui no reino Unzuhause), o lúdico, o prazer.
Minha carta traz afirmações como: "No momento em que você começa a enxergar a vida como uma coisa não-séria, como uma brincadeira, toda a pressão sobre o seu coração desaparece. Todo o medo da morte, da vida, do amor – tudo desaparece". Resta então o vácuo. Resta então brincar, a exemplo dos palhaços de Antonioni, e celebrar a vida, à imagem e semelhança da palhacinha do tarô.

Nem preciso dizer o quanto tal carta, assinada pelo Inconsciente (ou o que os antigos chamavam de "deuses"), encontrou endereço divinamente (in) certo ao chegar à soleira de minha consciência!