sexta-feira, junho 29, 2007

o banquete


Gostaria de registrar e compartilhar com os visitantes deste reino o belíssimo recado que recebi esta semana de uma amiga muito cara, a Patrícia, terapeuta junguiana e mulher de grande sabedoria e sensibilidade.
Que as palavras a seguir ressoem, para todos nós, como inspiração no caminho de Aberturas do Amor, este banquete para o corpo e para a alma.
Muito obrigado, Patrícia!
beijos,
Unzuhause


"A alma também tem sua virgindade e deve sangrar um pouco antes de dar frutos." (George Santayana)

Caio, não sei dizer porque, mas estava procurando um pensamento entre os que tenho copiados para enviar a um amigo, e lendo esse, tive vontade de enviá-lo a você... a flor vem antes do fruto, e florescer, além da sua beleza, traz consigo a dor de dividir com o mundo o que antes era tão íntimo, tão nosso, e que paradoxalmente só se torna acessível a nós - como fruto que se possa saborear - ao vir para o mundo, num auto-sacrifício, quase que numa confissão de que sem o outro não há eu capaz de sustentar o fio da existência retesado num ponto em que possa vibrar a canção que a nossa alma escolheu para dançar...Bom, de qualquer forma esse pensamento é muito bonito, não é? E eu espero que você esteja em pleno florescimento, preparando frutos que transformem a sua vida num delicioso e dionisíaco banquete!!!
Beijos

sábado, junho 23, 2007

a alma e a lama

Helena Petrovna Blavatsky

A ministra dondoca nos manda relaxar e gozar em pleno caos. O ministro babaca nos diz que o caos é sinal do progresso. Enquanto isso, os bandidos correm soltos e fagueiros pelas ruas e palacetes, tomando de seqüestro o Estado oficial e paralelo que manda e desmanda nos planaltos, esplanadas, favelas e esgotos. E o povo assiste a tudo bestializado, como diriam os cronistas que narraram a proclamação da República tu-pinica.
Em tempos bicudos como estes, de absoluta degradação do sentido da política e da esfera pública, um pequeno alívio tive ao ler uma entrevista de Plínio Marcos, sobre sua então recém-estreada"Madame Blavatsky", de 1985, e ao devorar em seguida o texto desta peça teatral.
Como sugere o título, "Madame Blavatsky" é um olhar lançado sobre a vida e pensamentos da ucraniana criadora do movimento teosófico moderno em fins do século XIX.
É aliás muito surpreendente tal iniciativa por parte de um autor como Plínio Marcos. O que ele, dramaturgo engajado, politizado, voltado a contar sem pudores nem frescuras o cotidiano brutal dos grandes centros urbanos, em suma, um Jean Genet da Paulicéia, o que ele teria em comum com "HPB" (iniciais de Helena Petrovna Blavatsky), além da fama de "autor maldito"?
Visionária? Louca? Charlatã? O "amódio" (amor/ódio) que cerca a figura de Blavatsky já rendeu a ela esses e muitos outros rótulos, que, enquanto rótulos, são meios empobrecidos de captar o fenômeno complexo que é essa feiticeira que, envolta em aura de mistério e de poderes ocultistas, resgatou e sintetizou a sabedoria ancestral dos povos do Oriente e do Ocidente.
A ela cabem bem as palavras de Jung citadas por Plínio na peça :"Pensar de modo diverso do aceito pela corrente do momento tem sempre um caráter clandestino e danoso, quase indecente, doentio, blasfemo e por essa razão socialmente danoso para o indivíduo. Aquele que pensa por conta própria está nadando insensatamente contra a corrente".
Jung, aliás, não é apenas mencionado, ele "aparece" no palco, uma imagem dele é projetada ao fundo fazendo essa afirmação. Também surgem as figuras de Gandhi, Einstein -leitores entusiasmados da autora de A Doutrina Secreta- e de Fernando Pessoa, que traduziu de HPB o texto A Voz do Silêncio para o português.
A peça retrata a vida de HPB como um amplo processo iniciático que culminará na sua Opus (isto é, sua obra, não só em termos de papelada intelectual a mofar em bibliotecas, mas sim em termos de auto-realização pessoal e comunicação erudita do que se aprendeu da, na e com a vida).
Essa iniciação existencial e espiritual passa pelo combate das potências escuras da própria alma e do mundo externo: foram inimigos afrontados por Blavatsky desde a truculência do pai e a do marido até o colonialismo britânico na Índia, passando pelo sensacionalismo da mídia e a intolerância de setores da Igreja.
Plínio fala de uma morte e renascimento simbólicos de sua heroína. Para tanto, retoma imagens belas e terríveis do Livro Tibetano dos Mortos, descrição da viagem das almas para o além-morte, e assim simboliza o embate de Blavatsky com as suas próprias ilusões, inclusive as mais caras, como a doce e combativa mãe, uma feminista antes do tempo, que legou a Blavatsky muito de sua coragem de nadar contra a corrente. Mas, ensina o budismo tibetano, mesmo os objetos de nosso amor e respeito mais puros ameaçam gerar apego e reter o processo evolutivo. Por isso, na peça, até o Mestre que abriu muitos caminhos para Helena é uma imagem da qual ela precisa se libertar. Excelente alegoria das dores de um processo terapêutico. No Livro Tibetano dos Mortos, a alma que reconhece suas ilusões se prepara para ingressar no reino da Clara Luz do nirvana, e não mais reencarnar no reino do samsara.
Na entrevista que acompanha o texto da peça, Plínio nos brinda com reflexões importantíssimas, e atuais, sobre a diferença entre o homem político –que, mesmo se governante, é um escravo do poder- e o homem de religiosidade:
"Sou um homem à procura da religiosidade. Dispensa-me dos rótulos, por favor, e eu te explico que a busca da religiosidade nada tem a ver com seitas, Igrejas, grupelhos carolas, fanáticos acorrentados a dogmas e superstições. A religiosidade nada tem de alienação, conformismo ou adaptação a um sistema político-social-econômico injusto. Aliás, a religiosidade é altamente subversiva. A religiosidade leva ao autoconhecimento. E o autoconhecimento leva o homem à subversão". Daí a atração por Blavatsky, sem precisar pô-la em qualquer pedestal sacrossanto: "(...) de repente, a Blavatsky me arrebatou de vez. Viajei com ela. Viajei de várias maneiras. A favor, contra, junto. Com amor, ódio, paixão inflamada, desprezo, escárnio. Sempre conduzido por ela. Doida visionária, poeta utópica, embusteira de mil e um truques de ilusionista de mafuá, mas sempre grandiosa e de extrema generosidade. Sempre no caminho. Ansiosa por se encontrar e sem nenhum medo de se perder. Ansiosa para despertar o próximo, sem nenhum medo da solidão".
Em meio a este inferno social e político que vivemos, este circo de poderes corruptos e idiotas - projeções da fraqueza e da incompetência de todo um povo que hiberna morto no reino da negação da cidadania-, sobram religiões mas talvez falte religiosidade, a religiosidade radical do conhecimento que liberta.

sexta-feira, junho 22, 2007

saudação ao inverno

CÉU NUBLADO

Charles Baudelaire

Dir-se-ia teu olhar coberto de uma bruma;

Teu olhar misterioso(é azul, verde ou se esfuma?)
Às vezes terno e sonhador, às vezes cruel,
Reflete a palidez e a indolência do céu.

Lembras os dias brancos, mornos e velados,
Que em prantos põem os corações enfeitiçados,
Quando, desperto por torção desconhecida,
Os nervos tensos zombam da alma adormecida.

Não raro imitas essas cores vaporosas
Que fulguram aos sóis das estações brumosas...
Como resplendes, horizonte assim molhado
Quando a flama do sol aquece o céu nublado!

Ó mulher perigosa, ó climas sedutores!
Hei de adorar a tua neve e os teus rigores?
E como arrancarei do inverno em que me enterro
Mais agudo prazer que os do gelo e do ferro?

terça-feira, junho 19, 2007

a nau dos insensatos

Quadro "Jardim das Delícias", de H. Bosch (clique na imagem para ampliar)

Esta foi uma grande noite. Acabo de voltar de uma apresentação de "Carmina Burana" na belíssima Sala São Paulo. A ópera, de Carl Orff, se baseia em texto literário da Idade Média, que, na contramão dos valores cristãos dominantes, exaltava o amor mundano, o jogo, o vinho , além de consagrar a Deusa da Fortuna como sendo a injusta, volúvel e cruel tirana no mundo. O texto e a música são , no limite, uma poderosa denúncia da condição trágica do ser humano, e fazem do prazer carnal a válvula de escape que resta. Dá-se voz até a uma queixa masculina para lá de prosaica: "Hoje tenho cabelo, amanhã serei calvo".
Mas, se isso eu já sabia antes de ir ao espetáculo, algo lá me desviou o pensamento para uma outra direção. Um grupo de umas cinco freiras estava na platéia, e elas chegaram tão sorridentes quanto saíram. Eu pensei: "Mas como? Não ficam chocadas com tudo isso?"
Claro que, mente maliciosa que tenho, pensei em hipóteses mais picantes, como elas serem refugiadas de algum convento, tendo dito para a madre superiora que iriam comprar barbante para fazer terços, por exemplo.
Mas, voltando a um terreno mais realista de cogitações, me dei conta de algo que eu mesmo já havia discutido na minha instituição de psicanálise: a estrutura invertida pela qual a cultura medieval propagandeava os valores cristãos. O gênero "nau dos insensatos", digamos assim: relatos de como "la nave va", de como as tolices humanas viajam alegremente rumo à perdição. Pelo espetáculo da ruína do homem decaído, sugeria-se o pano de fundo da Salvação.
É o caso da Divina Comédia de Dante, e também dos quadros de Bosch, por exemplo. Muitos intérpretes apressados viram em Bosch uma declaração dos direitos universais do hedonismo, ignorando "detalhes" como o pertencimento pessoal do pintor holandês (ancestral do surrealismo) a grupos tradicionais da Igreja Católica.
Também se adotava muito, na arte medieval, o procedimento de pintar, no mármore, cenas de sexo, para, no reverso das obras, mostrar os mesmos casais, nas mesmas cenas sexuais, só que com os belos corpos agora transformados em esqueletos. Interessante antecipação da lei psíquica que faz Lacan juntar amor e morte no conceito de "amorte".
Claro que uma obra de arte autêntica, em qualquer época e lugar , não se reduz a nenhuma interpretação exclusiva, é obra aberta, diria Umberto Eco. Mas o silêncio sorridente das freirinhas da Sala São Paulo fez minha nau de opiniões sobre "Carmina Burana" se deslocar para rumo surpreendente. Não poderia pedir mais nada desta noite, não bastassem a beleza e força do espetáculo que assisti, com destaque para o coro, que devia ter umas cem pessoas, além de um segundo coro só de crianças.

domingo, junho 17, 2007

asas de libélula


Esses dias têm sido muito especiais pra mim, do ponto de vista de contato com pessoas interessantes. Na quinta, por exemplo, tive o prazer de um fim de noite com muitas gargalhadas, brindes de cerveja e discussões sobre os mais diversos temas, desde as loucuras do Gerald Thomas no teatro, passando pelo filme Show de Truman (que eu adoro e defendi de acusações como a de ser "hollywoodiano" rs) até a filosofia de Adam Smith (a turma tinha muitos economistas rs).
E neste sábado, não bastasse o papo fantástico com uma amiga, após vermos um filme (A Vida Secreta das Palavras, título pra lá de lacaniano rs), tive a ocasião, antes de ela chegar, para um de meus divertimentos mais caros (em todos os sentidos rs): dar uma olhada nos livros de um sebo próximo.
Não por acaso os livreiros estão entre as pessoas com quem mais papeio, caso do atendente de ontem. Esse rapaz, o Marcelo, tem comigo a brincadeira de, sempre que me vê na avidez costumeira folheando algum dos livros dele, me indagar: "E aí, já decifrou o enigma da vida?" Ontem fui eu que cheguei soltando essa pergunta, ao que ele me respondeu: "Não, cara, acho que se houver uma resposta, levarei algumas encarnações pra encontrar".
Ocorreu-me então um "relâmpago" em forma deste comentário que lhe fiz: "Meu, pra muita gente é por NÃO haver resposta é que se leva tanta encarnação". Rimos. Nem eu entendi bem o que eu quis dizer rs. Me ficou um sabor de koan, aquelas charadas zen feitas pra desarrumar nossa caixa de certezas mentais.
Anyway, essa associação com o zen me fez perguntar ao Marcelo: "Cara, você tem aquela biografia do Leminski sobre o Bashô?" Bashô é um dos grandes nomes do hai-cai japonês. O hai-cai é aquele gênero de poesia com três versos (5-7-5 sílabas, respectivamente), e que tem a ver com o zen no sentido da captura de flagrantes da vida concreta, sem muita abstração conceitual. Ele disse que já teve, assim como já teve coisas do próprio Bashô, mas não atualmente. Fiquei com água na boca, aliás o livro do Leminski se chama Bashô- A Lágrima do Peixe.
Mas eis que a surpresa maior estava reservada para o final: meu caro amigo livreiro, que também é poeta de mão cheia, me presenteou com um haicai de sua própria autoria:

Leve lamento
Asas de libélula
Voam ao vento
(por Marcelo Alvarez)

Obrigado Marcelo! Fez-me ver, ou pressentir, que "A Resposta" para "O Enigma da Vida" talvez seja bem menos importante, a despeito de tantas aspas e termos maiúsculos, do que curtir os minúsculos grandes enigmas do viver, leves como as asas de libélula, livres das aspas das citações alheias: por exemplo, o prazer dos bons encontros do cotidiano, em que nós tenhamos tempo de deixar voar , no céu da companhia fraterna entre os homens, as asas da imaginação, a voz própria, o poetar próprio de cada um.

sexta-feira, junho 15, 2007

porão


Porão
Onde o porão?
Menino bate à porta
Mão já vermelha de tanto bater
Voz no pó
Quer que o ouçam
O velho se ergue
Tira o algodão dos olhos e ouvidos
Põe os óculos
E afinal vem abrir
Suspensórios azuis
Manga arregaçada
Barbado de três dias
Dá a mão ao menino
Colo, colorido
Saem a sorrir
Tudo passado
O pó era passado
Perdão, reconciliação
Fragrâncias, flagrantes
Bar, brindes
Colegas tanoeiros
Tocos de cigarro
Tacos de bilhar
Névoa na mesa,
Galhofas, garrafas
Horas altas
Jogam cartas
Lançam dados
O menino olhando
Olhos reféns
Ainda receio
Bar fechado
Olho vermelho do velho
Olho vermelho do semáforo
E o carro, por um triz
Cicatriz
O velho barbado
A velha indiferença
Escadas
Pra baixo
Frio
Mãos frias
De novo
Escuro
Portão
Porão
Onde o porão?

quarta-feira, junho 13, 2007

a gente se vê por aqui



Panis Et Circenses
Mutantes


Composição: Caetano Veloso

Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e leões nos quintais
Mas as pessoas da sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
Mandei fazer
De puro aço luminoso punhal
Para matar o meu amor e matei
Às 5 horas na Avenida Central
Mas as pessoas da sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
Mandei plantar
Folhas de sonho no jardim do solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes, procurar, procurar
Mas as pessoas da sala de jantar
Essas pessoas da sala de jantar
São as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas da sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

segunda-feira, junho 11, 2007

dia de na-morar





Para os que nesse 12 de junho brindarão a busca e os (des) encontros do Amor, sobretudo daquele Amor que na-MORA no temp(l) o íntimo de cada um.

Stay On These RoadsContinue Nestas Estradas
A-Ha


The cold has a voice
O frio tem uma voz
It talks to meEle fala comigo
Stillborn by choice
Natimorto por escolha
And it airs no need to holdE não transmite nenhuma necessidade para refrear
Old man feels the cold
O velho homem sente o frio
Oh baby don't,Oh, baby, não,cause I've been toldPois me foi ditoStay on these roadsContinue nestas estradasWe shall meet, I knowNós deveremos nos encontrar, eu sei
Stay on, my love
Continue adiante, meu amor
We shall meet, I know, I know
Nós deveremos nos encontrar, eu sei, eu sei
Where joy should reignOnde a alegria deveria reinarThese skies restrainEstes céus reprimem
Shadow your love
Obscurecem seu amor
The voice trails off again (2X)
A voz diminui aos poucos novamente (2X)
Old man feels the coldO velho homem sente o frioOh baby don't,Oh, baby, não,
cause I've been told
Pois me foi dito
Stay on these roadsContinue nestas estradasWe shall meet, I knowNós deveremos nos encontrar, eu seiStay on, my loveContinue adiante, meu amorYou feel so weak, be strongVocê sente-se tão fraca, seja forteStay on, stay onContinue adiante, continue adiante
We shall meet, I know, I know
Nós deveremos nos encontrar, eu sei, eu sei
I know, my love, I knowEu sei, meu amor, eu sei
Feel the cold
Sinto o frio
Winter's calling at my homeO inverno está chamando na minha casaStay on these roadsContinue nestas estradas
We shall meet, I know
Nós deveremos nos encontrar, eu sei
Stay on, my love
Continue adiante, meu amor
We will meet, I knowNós nos encontraremos, eu seiSo stay onEntão continue adiante
I know
Eu sei
Stay, my loveContinue, meu amorStay onContinue adiante
We will meet, I know
Nós nos encontraremos, eu sei

domingo, junho 10, 2007

pôster: As meninas de Avignon, 100 anos

Há 100 anos Pablo Picasso compunha o quadro que revolucionou a linguagem da pintura ocidental e viria a ser o marco fundador do cubismo. A obra, chocante sob todos os aspectos na época, também chamou a atenção por incorporar motivos da arte dita primitiva (as máscaras africanas de duas das personagens, à direita). Apesar do título, "As meninas de Avignon" se referem às prostitutas de Barcelona.

quinta-feira, junho 07, 2007

sexo sem amor é mundo sem música



Werner Horvath, "Friedrich Nietzsche -As três metamorfoses" *

*trata-se de uma referência a Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche: "Das três metamorfoses do espírito eu vos falo: como o espírito se torna um camelo; e o camelo, um leão; e o leão, finalmente, uma criança".


Inicio semana que vem um novo ciclo de estudo e trabalho (tradução) em torno da obra de Friedrich Nietzsche. A oportunidade me é gratíssima. Pelo presente que propicia e pelo passado que evoca.
Nietzsche foi uma descoberta fundamental e revolucionária em minha vida. O Nascimento da Tragédia, em especial: foi a leitura deste livro que me impulsionou à experiência de fazer teatro. O laço entre teoria e prática, nesse caso, foi tão estreito que eu literalmente atravessei a última página de O Nascimento da Tragédia na manhã de um sábado no qual estrearia como ator: Sábado de Aleluia, com uma Paixão de Cristo a ser encenada numa paróquia aqui de São Paulo. Eu, barbudíssimo rs, fiz o apóstolo Pedro, personagem que sempre me fascinou pela contradição entre a virilidade espiritual e a fraqueza humana que o canto do galo tristemente revelou (o episódio das renegações de Cristo pelo que veio a ser considerado o primeiro papa).
A música que vos convido a escutar, pelo link abaixo, é também um símbolo do que Nietzsche significou para meus passos confusos naquele momento crucial de minha vida, em que estava cansado de um saber meramente livresco.
"Vivo per Lei" (Vivo por Ela), a ode de Andrea Bocelli ao grande amor de sua vida –a música-, sempre me ressoou profundamente nietzschiana. Afinal, quem mais, senão o autor de Assim Falou Zaratustra, afirmou que: "Tudo o que não se pode compreender com relações musicais, produz em mim (...) realmente nojo e repugnância". Quem mais teve a coragem de, ao derrubar a golpes de martelo todas as formas idolátricas de caluniar a existência, afirmar que "sem música a vida seria um engano"? Quem - nisso seguindo as pegadas de seu mestre Schopenhauer-celebrou a ópera de Wagner como uma porta que se abre à "câmara do coração da vontade do mundo", uma experiência dionisíaca, quase orgástica, em que o ouvinte só não perde completamente a consciência individual (principium individuationis) graças às ilusões apolíneas da palavra e das imagens plásticas?
Como diz Rüdiger Safranski, "toda a filosofia de Nietzsche é uma tentativa de manter-se vivo ainda que a música tenha acabado. Nietzsche quer musicar do melhor modo possível com linguagem, pensamentos e conceitos".
Pianista de mão cheia, Nietzsche, certa vez, em fevereiro de 1865, estava sozinho na cidade de Colônia. Pediu então a um guia que o levasse a um restaurante. A "refeição" em que o auxiliar pensou foi outra rs: levou-o a um bordel. E quem nos conta o que houve ali é o próprio filósofo: "De repente eu estava rodeado por meia dúzia de aparições em gazes e lantejoulas, que me olhavam expectantes. Fiquei ali parado por um momento, perplexo. Depois instintivamente fui até um piano como a única criatura com alma naquele grupo e toquei alguns acordes. Eles me liberaram da minha paralisia, e saí dali".
Sexo sem amor é mundo sem música.

http://www.tempoesia1.hpgvip.ig.com.br/midi/italia/Andrea_Bocelli/Vivo_Per_Lei.mid

domingo, junho 03, 2007

crepúsculo


O psicólogo Rollo May descrevia assim o que considerava ser uma epidemia emocional em alta a partir de meados do século XX: Uma "sensação de vazio", que provém, dizia, "da idéia de incapacidade para fazer algo de eficaz a respeito da própria vida e do mundo em que vivemos. O vácuo interior é o resultado acumulado, a longo prazo, da convicção pessoal de ser incapaz de agir como uma entidade, dirigir a própria vida, modificar a atitude das pessoas em relação a si mesmo, ou exercer influência sobre o mundo que nos rodeia. Surge assim a profunda sensação de desespero e futilidade que a tantos aflige hoje em dia. E, uma vez que o que a pessoa sente e deseja não tem verdadeira importância, ela em breve renuncia a sentir e a querer. A apatia e a falta de emoções são defesas contra a ansiedade".
Tais palavras bem poderiam ser epígrafe para qualquer uma das três peças curtas do irlandês Samuel Beckett que foram reunidas pelo diretor Rubens Rusche sob o título geral de Crepúsculo, e que vi neste sábado, aqui em São Paulo. As peças são: Solo, Passos e Improviso de Ohio.
A primeira delas, como o nome sugere, é um monólogo. Na calada da noite, um recitante de cabelos longos e desalinhados, envelhecido, profere olhando para o nada uma espécie de ladainha com obsessivas imagens poéticas de decrepitude e aniquilamento, desde a frase inicial: "Seu nascimento foi sua morte".
Esses traços, e o ambiente sombrio –que a montagem concretiza muito bem, graças ao excelente trabalho de iluminação- se mantêm nas outras esquetes. Personagens em vias de decomposição física e espiritual, derrotados pela vida -e tão fracassados que não conseguem sequer acabar de morrer-, perdidos "dentro" de si, se é que resta ainda alguma interioridade, alguma distinção entre o dentro e o fora. Pois o dentro e o fora, a alma e o mundo são, em Beckett, uma só e mesma terra devastada, são o lixo de uma civilização destroçada. Cabe lembrar: o principal da produção de Beckett, assim como de Rollo May, tem por pano de fundo o cenário de ruínas deixado pela Segunda Guerra Mundial.
E o que May diagnosticava na clínica, Beckett expunha no palco: esse vazio abissal que rasga os homens, vazio que ia além, segundo May, do quadro de repressão neurótica dos pacientes vitorianos de Freud. Mesmo com boa parte dos tabus sexuais eliminados, mesmo com a oferta de prazer mais abundante que nunca, carências fundas gritam mal abafadas pela multidão solitária e seus divertimentos de massa.
Beckett assistiu certa vez a uma conferência de Jung, e saiu impressionado pelo que o grande mestre suíço declarou: "Nosso problema não é que vamos morrer, e sim que ainda não nascemos completamente".
Não nascemos completamente nem como indivíduos nem como sociedade, estamos ainda na cruel pré-história, fugindo amedrontados dos perigos da natureza ou daqueles inventados pelo animal mais mortífero que há, o próprio homem. Desperdiçamos muito de nós mesmos com limitações auto-impostas, com mil artifícios e adiamentos do direito a ser feliz já. E isso considero de uma enorme e inquietante atualidade.
Mas tanto em Beckett quanto em May resta uma mesma esperança naquele que é o instrumento vital tanto da arte quanto do divã: a linguagem. Os personagens beckettianos –vide Esperando Godot- não acabam nunca de morrer e tampouco de silenciar, eles perseveram na Palavra, ainda que reduzida a poeira e fiasco, tentam com ela, senão nomear "o Inominável" (título de um romance do autor), ao menos criar brechas de sentido no absurdo. Assim é também na clínica: pela associação livre (entre aspas), com palavras que nem sempre primam pelo revestimento lógico ou belo que se busca na vida cotidiana, o Tempo se levanta do túmulo cronológico e religa (religare=religar=religião) passado, presente e futuro, religa corpo, afetos e representações, religa os sonhos perseguidos pela censura aos sonhos ninados pela Utopia. E quem sabe assim se abram frestas para o novo, para além da ditadura desesperadora da repetição.
Mas não há, em Beckett, qualquer Palavra da Salvação. Ele, e nisso também é profundamente atual, não nos propõe, ao contrário de nossa indústria da auto-ajuda e da fé de (fé demais não cheira bem rs) mercado , quaisquer lavagens cerebrais com duchas de catecismo. O que talvez seus textos dolorosos apontem é a possibilidade de certa Salvação pela Palavra.