Thursday, May 31, 2007

Narciso Gautama, parte 3

Narciso Gautama não resistiu e caiu em profundo sono. Que parece ter durado séculos. Quando acordou, ainda aturdido, notou que seus trajes de servente estavam encharcados de chuva. Era início de um novo dia, embora entre o Sol dos homens –Narciso Gautama- e o Sol do céu houvesse agora a espessura escura das árvores e folhas.
Confuso, Narciso Gautama tenta se levantar, ainda num cansaço pétreo. Toca no rosto e repara em algumas rugas que nunca percebera. Encontra à esquerda quatro nozes espalhadas no chão, que lhe atenuam um pouco a fome.
Passavam-lhe pela retina do espírito, repetidamente, imagens vagas de uma mulher vestida de azul claro, tiara rósea e dourada, de um sorriso angelical, que subitamente despenca no vazio, e que enquanto cai grita uma agonia geradora de monstros.
Agora silêncio. Mais silêncio, naqueles instantes, do que talvez em toda sua vida de alegrias e festas e versos no palacete.

Mas eis que o silêncio se quebra pelo som de tambores, a princípio tênues, e cada vez mais intensos. Narciso Gautama, já em farrapos, calvo, ancião–a despeito dos 30 anos que comemorava no dia da partida- se levanta e caminha coxeando, com dificuldades, em direção do ruído.
Recosta-se junto a uma árvore, cai de novo, extenuado pelos poucos passos que dera, quase pega no sono novamente, olhos inertes. Os tambores então tocam mais alto. Ele, num esforço supremo, se põe (pateticamente) a engatinhar, abrindo caminho como pode, em meio aos bichos e plantas. Percebe uma encosta, que dali a alguns metros conduz, lá embaixo, a uma cena que o deixa perplexo. Um rito bizarro, comandado por um ser sinistro, de nome "Satur", em vestes e chapéu negro, numa mão um cajado com uma caveira na ponta, tocha de um brilho violáceo na outra mão, e que repetia, com sua voz gutural, o mantra: "Kama, Namuci, papiyan" ; Satur, percebia Narciso Gautama, era o vulto que o rei vira pouco antes de des-acordar.

Ainda mais bizarras são as formas que, batendo palmas, dançam ao som agora frenético dos tambores.A festa chega ao êxtase no momento em que as formas bizarras abriram espaço para que um cortejo de formas similares, mas de cores de roupa distintas, se aproximasse de Satur. Um cortejo que trazia uma criança: era o próprio Narciso Gautama!
Sim, o cacheado loiro de seus cabelos, a pintinha no braço esquerdo e o sorriso largo do menino não deixavam dúvidas! O velho rei, agachado e debilitado, em suas vestes de servente, não entendia o que se passava, mas estava hipnotizado, transido.
A criança é trazida no colo para junto do palco central. É então tomada por Satur, levantada como uma taça, e mergulhada por ele numa bacia repleta de um líquido ácido do qual sai muito vapor; conforme é mergulhada, a criança alterna o sorriso largo e gritos de desespero, similares ao da mulher do sonho do velho Narciso. Que então tentou, ele também, gritar, mas seu grito foi abortado pela fragilidade que agora lhe roía de vez cada osso e carne, e também os olhos, que viam cada vez menos nítido. Mas viam ainda o suficiente para perceber, a poucos metros, um papel em cima de um arbusto. Um papel amarelecido e esburacado.
Sim, era o papel caído na sala do palacete! Com a diferença de que agora Narciso Gautama pôde, miraculosamente, e num último suspiro antes do sono eterno, compreender os dizeres, assinados apenas "C. B.", sendo que de cada uma das letras da sigla despontava um chifre:
Vida anterior

"Muito tempo habitei sob átrios colossais
Que o sol marinho em labaredas envolvia,
E cuja colunata majestosa e esguia
À noite semelhava grutas abissais.

O mar, que do alto céu a imagem devolvia,
Fundia em místicos e hieráticos rituais
As vibrações de seus acordes orquestrais
À cor do poente que nos olhos meus ardia.

Ali foi que vivi entre volúpias calmas,
Em pleno azul, irmão das vagas, dos fulgores
E dos escravos nus, impregnados de odores,

Que a fronte me abanavam com as suas palmas
E cujo único intento era o de aprofundar
O oculto mal que me fazia definhar".

FIM







Wednesday, May 30, 2007

Narciso Gautama, parte 2


Narciso Gautama não conseguiu impedir a rainha Maya de se retirar com o papel. Não houve tempo. E o atraso dele foi, em grande parte, devido à perplexidade que o tomara ao ver Maya, sempre tão serena e suave, falando e agindo de modo tão brusco e virulento. Minutos depois, corria já no palacete a notícia da execução sumária do escravo leitor, que praticamente vira Narciso nascer, e por meio de quem os versos da Sabedoria foram sugados pelo pequeno príncipe tão cedo na vida quanto o leite materno.
Esses fatos desnortearam o rei. Sobretudo a folha amarelecida e esburacada não lhe saía dos pensamentos. Mesmo sem entendê-la. Narciso Gautama se impressionara com a feição estranha e selvagem daqueles signos.
Ele se pôs desde então, dias a fio, num sorumbático silêncio, que chamou a atenção em toda a corte. A rainha Maya tentava de todas as formas apaziguá-lo. Mesmo ciumenta como era, não hesitou, entre tantos outros agrados, em duplicar o staff de mulheres escravas do rei, encarregadas das frutas e das carícias. Tudo para que ele voltasse a ser aquele rei iluminado e solerte que ilumina a Terra como o Sol ao céu.
Não. Narciso Gautama dava cada vez mais sinais de inquietante perturbação do comportamento. Frases desconexas, piadas fora de hora e de contexto, gestos de moleque nas festividades mais solenes. Até que, certa madrugada, quando o Sol já começava se preparar pra sair do regaço marinho, o rei se antecipou ao Astro e saiu do regaço do palácio. Dissera à rainha, no leito, que iria pegar um leite na dispensa. Mas, disfarçado em roupas de um reles servente, fugiu. Saiu pela primeira vez desacompanhado do palácio, em seus longos 29 anos de vida. Aliás, o dia que escolheu para a fuga foi, justamente, o de seu trigésimo aniversário, que vinha sendo preparado com toda pompa pela rainha Maya.
Logo nos seus primeiros passos fora, Narciso Gautama já não sabia onde estava. Sempre tivera escravos para levá-lo e trazê-lo em suas andanças –raríssimas, aliás, e sempre em ocasiões festivas- pelo Reino. Agora estava só, impulsionado por um indefinível mal-estar.
Ainda disfarçado, o rei caminha a esmo, e toma grandes sustos, ao deparar com crianças esquálidas pedindo farinha na porta de casas, com mendigos de olheira arroxeada, com um ato de assalto violento, com famílias chorosas em torno de um túmulo. Nada disso constava dos relatórios semanais de que o Ministério da Paz Social lhe punha ao par, e combinava muito menos ainda com os minutos de Sabedoria que aleitaram o eleito dos deuses desde tão cedo.
Cada vez mais atormentado pelo que então testemunhava, e pelos dizeres incógnitos da folha amarela, e pelos traços de raiva demoníaca que entrevira na doce Maya, Narciso Gautama, o rei disfarçado de servente, anda, anda, anda. As casas e pessoas vão escasseando, o matagal escuro ganha o espaço. Mas Narciso não pára, parece estar em busca de algo muito precioso que se perdera. Não sabe bem o quê. Quando os resíduos de habitação humana já haviam sumido por completo, o rei, já fragilizado pela sede e fome e cansaço, pressente ao longe um vulto, que não sabe se real ou produto de sua imaginação debilitada.
(continua)

Tuesday, May 29, 2007

Narciso Gautama, parte 1



O Sol já voltara do regaço marinho e brilhava imponente com seu cetro no centro do céu. Assim como, no trono nos homens, e em seu lindo palacete de jade, lá estava novamente o rei Narciso Gautama. Amante das letras, deleitava-se em mais um sarau particular, degustando divinas quitudes da Sabedoria universal, servidas para ele por um escravo que se limitava a reproduzir em voz alta palavras que mal compreendia. Eram versos, aforismos, citações vindas de todos os cantos do mundo, de todas as colônias do Reino, pérolas admiravelmente coincidentes, uníssonas em entoar loas à beleza e justiça profundas do Universo .
Mas subitamente o escravo leitor - que estava secundado por umas oitenta mulheres que serviam frutas ao rei e o acariciavam- pára e se agacha para pegar uma folha que se desprendera. Já enfiara a folha no meio do ramalhete da Sabedoria e recomeçava o trabalho, quando o rei Narciso Gautama ordena que ele lhe traga justamente aquele papel decaído. A cor dele, amarelecida, além dos rasgos, destoavam da brancura e integridade das demais folhas, e foi isso que despertou a atenção do soberano.
Mas nem Narciso Gautama, nem tampouco o escravo, conseguiu entender o que estava escrito, parecia de uma língua estrangeira e ignota, distinta das tantas línguas já catalogadas pelos censores e pesquisadores do Reino Universal de Narciso.
O rei Narciso Gautama se sentiu abalado com o incidente, até pelo fato de que tinha, para todos seus súditos, a imagem de um ser excepcionalmente bem dotado para as coisas do espírito, que tudo sabia, e essa lacuna de saber o feria gravemente em seu amor-próprio.
Ao incômodo se somou a irritação por não haver ninguém na corte, mesmo entre os mais doutos, que se mostrasse à altura daquele enigma.
Ainda mais inquietante foi a reação da esposa, a exuberante rainha Maya, quando Narciso Gautama lhe mostrou aquele estranho papel. Por mais auto-controlada que a linda rainha tenha sempre sido, ela não conseguiu esconder, mesmo que por breves segundos, um nítido mal-estar ao bater os olhos naqueles signos. Ela se retirou da sala com o intento de se livrar do papel e jogá-lo fora, dizendo, com constrangido sorriso, "mas que bobagem isso, meu querido, algum escravo incompetente deve ter feito esse garrancho absurdo e posto no meio de vossos brinquedos, vou descobrir quem foi e arrancar-lhe a cabeça".
(continua)

Saturday, May 26, 2007

Nirvana, Aletheia

Buda, que quer dizer "o Iluminado"


"O Zen apenas reconhece uma vida ampla que abarca todos os tipos de contradição em uma harmonia profunda.
A noite apresenta-se em harmonia com o dia,
a vida está em harmonia com a morte,
e a Terra em harmonia com o Céu.
A presença está em harmonia com a ausência;
Esta harmonia imensa,
esta sincronicidade,
é o Manifesto básico do Zen.
É esta a única maneira de viver que respeita e ama,
e que nada rejeita, nada condena".
OSHO

"O
buda não é monopólio de ninguém, ninguém tem direitos autorais sobre ele. Ele é a nossa natureza mais íntima. Você não tem de ser um budista para ser um buda. Ser um buda transcende todos os conceitos das religiões; é um direito de nascimento de cada um de nós. Convença-o a caminhar com você, a estar presente em suas atividades diárias, e então tudo em sua vida transforma-se em meditação, em graça, em beleza, em bênção".
OSHO

Inspirado pela nova música-tema deste Reino Unzuhause, "Nirvana Sagrado", resolvi, nesse frio fim de noite de sábado (e enquanto aguardo as lutas de vale-tudo no Sportv rs), abrir meu Tarô Zen. Há meses que eu o trouxera para minha Biblioteca Alexandrina rs, mas vinha me faltando o kairós (tempo oportuno) para explorá-lo.
São muitas as possibilidades de jogo. Escolhi hoje a mais simples, que é tirar do baralho uma única carta como tema de meditação, sem ter feito qualquer pergunta específica.

E a carta que me saiu foi extremamente significativa. Fala, como aliás é a essência de toda a mensagem Zen, da necessidade de integração dos opostos, de evolução para além das ilusões da mente dualista, as quais, no Ocidente são fruto de uma cultura cristã e cartesiana que não entende suas próprias raízes, e muito menos o solo que as ultrapassa. Um solo de que o inconsciente não cessa de nos enviar prenúncios, mediante sua linguagem simbólica, inclusive nos "tarôs" da vida mais cotidiana.
Sím-bolo, aliás, designa a moeda una que é partida em duas metades que servirão ao futuro re-conhecimento de que se pertencem. Dois amigos, por exemplo, poderiam ficar com essas metades, para se saudar, e celebrar a unidade entre eles, mediante os dois fragmentos complementares. E se o Símbolo designa a unidade do diverso, dia-bolos, de que vem nossa noção de "diabo", é etimologicamente essa bipartição, essa cisão do sim-bólico. É, eu diria, o não-bólico rs. No Fausto de Goethe, o demônio se apresenta como o "gênio que sempre nega"...
Será que, para além do simbólico da integração original e do diabólico da negação, o homem não pode experimentar o autêntico dia-logos, ou seja, uma dualidade dos logos, das razões, das palavras, mas uma dualidade tal que permita a comunicação e o convívio das diferenças?

É como dia-logos, afinal, que a filosofia nasce em Platão. Sem o consolo protetor de dogmas religiosos, a razão humana então afirmava o conflito como caminho para a verdade, que em grego se diz aletheia. Lete é esquecimento, a aletheia é pois rememoração. A dia-lética do diá-logo produz a emergência da Verdade una na cisão que se rearticula, na arena da dú-vida, da vida dos pontos de vista que se medem e se enriquecem sem o falso consenso autoritário.
Por isso o Nirvana de Buda e a Aletheia de Platão, a unidade dos opostos e a dialética das razões talvez sejam dois nomes para o mesmo Sol que arde na saída da caverna de nós mesmos, caverna da ignorância, do medo, do egotismo e da superficialidade.

Thursday, May 24, 2007

A Morcega Que Ri


"VAI-SE POR MIM À CIDADE DOLENTE,
VAI-SE POR MIM À SEMPITERNA DOR,
VAI-SE POR MIM ENTRE A PERDIDA GENTE.

MOVEU A JUSTIÇA O MEU ALTO FEITOR,
FEZ-ME A DIVINA POTESTADE, MAIS
O SUPREMO SABER E O PRIMO AMOR.

ANTES DE MIM NÃO FOI CRIADO MAIS
NADA SENÃO ETERNO, E ETERNA EU DURO.
DEIXAI TODA ESPERANÇA, Ó VÓS QUE ENTRAIS".
(Dante, Inferno)


Há um ano, dia 25 de maio passado, eu entrava no castelo de Vampira Olímpia pela primeira vez. E ali, à custa de não poucos sustos rs, e na travessia de múltiplas portas, ferrolhos, espelhos, fiz e faço a experiência fantástica de uma amizade profunda e imensa.
Imensa e i-mansa (pra aproveitar o erro de digitação que eu ia cometendo agora mesmo rs), imansa porque nada mansa, nada conformista, nada previsível. Nada, nada que é tudo, como diria Pessoa sobre o ser do mito.
Um mito autêntico é essa Rainha poderosa. Já para além da vida e da morte, já para além do bem e do mal, Olímpia é a Morcega Que Ri (para lembrar aqui do "gato que ri" de Lewis Carroll). Seu riso é forte, destemido, daqueles que humilham os idiotas e erguem os feridos, daqueles que fazem tremer a carcaça dos fracos e que encorajam a alma dos hesitantes. Seu riso não é alienado como o do "respeitáveeeeeelllllll púuuublico" rs dos circos do cotidiano banal. É um riso alerta e que alerta, que prende e surpreende. Morcega me ensinou e me ensina demais com seu jeito moleca e sério, com sua e-terna disposição de brincar e pensar e sua volúpia de citar Einstein e ouvir Jung rs (não, essa falha ela ainda tem, resiste a Jung rs) às quatro da manhã, num telefonema com DDD e tudo rs.
Enfim, muito a ser dito, nada a ser dito, tudo a ser celebrado e agradecido.
Uma pessoa fantástica, que faz toda a diferença pra quem a adora e a admira, como eu. Um ano, data convencional. Muitas encarnações antes, e outras muitas que ainda virão. A esse devir e a esse tempo sem tempo das grandes amizades, um brinde. A esses seres iluminados como vc, um brinde. UM BRINDE A TI, MORCEGA OLÍMPIA NITA NIETZSCHE NYX.

Friday, May 18, 2007

as sementes da revolta

Jean-Paul Sartre e Albert Camus

Ontem tive uma experiência agradabilíssima: participei, juntamente com um intelectual que muito admiro, de uma mesa-redonda sobre Albert Camus na Livraria da Vila. O mote do evento foram os 50 anos do Prêmio Nobel de Literatura de Camus.
Quase duas horas de um diálogo rico e estimulante: eis o saldo do evento para mim. Isso representou, em particular, uma comprovação a mais de minha paixão pelo magistério. Desde os tempos de meus seminários de colégio e faculdade, amo esses momentos de apresentação e troca de idéias numa sala de aula, seja na condição de ouvinte ou na de expositor. Lembro com afeto dos tempos, nem tão distantes assim, em que, pouco antes do almoço, eu passeava pelo campus da USP repassando em silêncio os tópicos que iria verbalizar na aula daquele dia. Preferia seminários individuais, não gostava da dispersão e desigualdade de esforço que muitas vezes se nota nos grupos.
Dessa vez , porém, não tive a chance de me utilizar daquele rito peripatético, isto é, de pensar caminhando, como recomendava Aristóteles. Aliás, Lacan retoma esse método, e o generaliza, quando diz: "Que ele pense 'com os pés', eis o que está ao alcance de todo ser falante , desde o momento do primeiro vagido". Uma amiga queridíssima brincou, ao me ver citando essa frase de meu psicanalista predileto: "Não sabia que o Lacan era comentarista de futebol" rs.
De todo modo, minha satisfação ontem foi a de sempre, devido ao coroamento, dada a profundidade do debate e a platéia acolhedora e interessada, dos dias e dias que passei entretido com o maravilhoso O Homem Revoltado (1951), de Albert Camus. Falei sobre o livro, citei o surrealismo, Dostoiévski, Marquês de Sade, e descrevi o relacionamento explosivo de Camus com outro grande pensador e escritor do século XX, Jean-Paul Sartre. Destaquei, sobretudo, o argumento de Camus, de que a revolta, na sua gênese, é semente de libertação do homem que não aceita mais a opressão e a mentira, mas essa semente se deteriora, e dá frutos podres, quando em nome da promoção da justiça se multiplicam as violências, como no caso do stalinismo.
Talvez noutro tempo eu retome minha exposição com mais detalhes, queria apenas, hoje, registrar uma história que contei ali. Limitar-me-ei à descrição do episódio, que considero saboroso o bastante para dispensar de minha parte maiores elaborações sobre, entre outras coisas, o peso de fatores "irracionais", até mesmo (ou especialmente) na vida daqueles que dedicam a vida ao pensamento e à razão. Estava Camus numa "balada" da Paris dos anos 40, junto com sua "tchurma" toda de intelectuais engajados e brilhantes. De repente, entra no bar um crítico de cinema, já bem bêbado. Aproxima-se e brada: "Vou falar pra vocês de uma injustiça pior do que aquela que nós denunciamos coluna após coluna de nosso jornal para uma elite intelectual; essa injustiça está viva e bem em frente a nós –é Camus; ele tem tudo o que é preciso para seduzir, para ser feliz, famoso, e, além do mais, ele comete a insolência de não ser apenas talentoso, mas um gênio. Contra essa injustiça não há nada que possamos fazer!"

Sunday, May 13, 2007

jogando palavras fora

Solidéu
Solidão
Solidoa
Solidade
Sanidade
Santidade
Sonrizal
Som risada
Só nonada
Saldonada
Saldaterra
Salvaaterra
Soterrada
Soterreiro
Zombeteiro
Zootelúrio
Suportei
Sudorei
Sucurei
Suturei
Aturei
Amargura
Atadura
Armadura
Dura
Dora
Dolo
Dopa
Lapa
Letra
Azulada
Acirrada
Apertada
Atolada
Acuada
Aterrada
Esclerosado
Ex-clero usado
Expectorado
Expectativa
Rotativa
Roda roda
Roda viva
Roda morta
Giro vão
Vão livre
Vãocomdeus
Vaiamerda
Vaiame
Vai
Ai
A

Saturday, May 05, 2007

O Vento, o Prendo e o Arre-Bento

O Papa Ratzinger, ou Bento XVI
05/05/2007 - 20h00
Papa vai encontrar Brasil menos católico, aponta Datafolha
da Folha de S.Paulo
Pesquisa Datafolha publicada em caderno especial na edição da Folha deste domingo (que já está nas bancas) mostra que Bento 16 chegará nesta quarta-feira a um Brasil com proporção muito menor de católicos do que aquele visitado há dez anos por seu antecessor. Hoje, 64% dos brasileiros acima de 16 anos se declaram católicos. Em dezembro de 1996, o último levantamento feito antes da vinda de João Paulo 2º colocava esse número em 74%. Nesse período, a participação dos evangélicos pentecostais passou de 11% para 17%. As pesquisas feitas nesse intervalo mostram que o encolhimento do primeiro grupo e o crescimento do segundo perdeu velocidade no início desta década.O Datafolha identificou ainda que as igrejas evangélicas têm muito mais influência na vida de seus fiéis do que as católicas. Entre os pentecostais entrevistados, 54% disseram já ter mudado algum hábito de sua vida por conta da religião. O número entre os católicos é de apenas 9%.A pesquisa completa e sua repercussão estão na edição da Folha deste domingo.Todas as tabelas da pesquisa estarão na página do Instituto Datafolha na internet de amanhã.



Os números do Datafolha são uma tradução objetiva para algo bastante visível, a olho nu, em qualquer missa dominical: o enfraquecimento da Igreja Católica. Mas não me refiro só ao esvaziamento (que é evidente) do público das celebrações.A Igreja, após a euforia do Concílio Vaticano II e da Teologia da Libertação, está na mais funda e deprimente ressaca. Está mais triste, mais fria, mais feia. Fechada sobre si mesma, surda aos sofrimentos e necessidades do mundo. A generosidade e vanguardismo de um João XXIII, a coragem profética de um Dom Paulo Evaristo Arns, tudo isso é passado. Quem hoje dá as cartas, ou melhor, as hóstias, é uma gente burocrática, conservadora, dotada de um discurso que reúne conformismo político ( a vontade de AMÉM) ante à barbárie neoliberal) e uma rabujice ca (te) quética e repressora (o mandamento do NÃO-AMEM rs ) na esfera da moral.
O Papa Joseph Ratzinger que está chegando em visita ao Brasil é a síntese dessa situação. Sua última pérola, de que o segundo casamento é uma "praga", não surpreende a quem acompanha a trajetória desse Cardeal sombrio desde os tempos em que estava à frente do órgão equivalente, hoje, à Inquisição. Aliás, na correta definição de um sociólogo da USP, Ratzinger pode ser considerado uma perfeita versão moderna do "Grande Inquisidor" dostoiévskiano, que certamente, em nome de Deus, mandaria à fogueira o próprio Cristo, se este por ventura voltasse à Terra e pregasse o que pregou.

Não surpreende, como comentou uma amiga comigo, que os mendigos do centro de SP estejam sendo "evacuados" para que, de mãos dadas com nossas "ôtoridades" tupiniquins, o Santo Padre e sua santa corte caminhem entre nós na mais santa paz. Se os fatos não se adequam à "Verdade", pior para os fatos. Para esse jeito de ser igreja encarnado em Ratzinger, o corpo da grande cidade, dilacerado, ferido, carente, desejante, é como o corpo de cada ser humano: algo a ser deslocado, maquiado, idealizado, reprimido, "santificado". Mas o Vento e o Tempo, na sua indomável leveza e liberdade, sempre escapam e zombam da lógica do "prendo e arre-Bento".
Essa mesma amiga, aliás, me mandou um vídeo que quero compartilhar aqui, também em homenagem ao Dia das Mães, que se aproxima. http://www.youtube.com/watch?v=CHzbLSGKQS4
Mães dignas deste nome, de todos os cantos do mundo, mães de sangue ou de eleição (o que dá na mesma), parabéns para vocês. E muito obrigado. E que a Theotokos, isto é, a Mãe de Deus, proteja e alimente a Criança Divina -rebelde como o Vento e o Tempo- que todos nós temos e somos. Que essa Mãe seja sempre, como dizem os ortodoxos, uma verdadeira HODIGUITRIA (em grego, aquela que mostra o caminho) , "no lixo dos quintais, na mesa dos cafés, Iemanjá e Virgem Maria, Glória e Cecília, na Noite Fria".
AMÉM. AMEM.