quarta-feira, janeiro 31, 2007

literatura e fal-ânsia

Albert Camus

"Dizia Donne que ninguém dorme na carreta que o conduz do cárcere para o patíbulo e que, no entanto, todos dormimos desde a matriz até a sepultura, ou não estamos inteiramente despertos. Uma das missões da grande literatura: despertar o homem que viaja com destino ao patíbulo".
Comungo inteiramente com essas palavras de Ernesto Sabato, e nelas reconheço a atitude que me (co) move à literatura. Mais do que acúmulo de erudição vazia, trata-se de uma busca existencial, uma ruptura com o que chamo de a fal-ânsia cotidiana (ânsia de falatório, impulso verborréico de vomitar irrelevâncias, falência da linguagem). Trata-se de uma abertura às vozes e silêncios com os quais a experiência humana imemorial vem à tona em cada grande obra de arte. Pra mim, o discurso da literatura pode transcender a fal-ânsia na medida em que incorpora o silêncio de que trata Camus nesta passagem de A Peste: "No começo dos flagelos e quando eles terminam, faz-se sempre um pouco de retórica. No primeiro caso, não se perdeu ainda o hábito, e no segundo, ele já retornou. É no momento da desgraça que a gente se habitua à verdade, quer dizer, ao silêncio. Esperemos".
A experiência literária me parece se situar neste intervalo entre as retóricas, intervalo no qual a verdade do silêncio, solidão e tragédia humanas pode vir à tona, como que um instante de surpreendente nudez, ante o espelho, de um ator que esquecera do próprio corpo após centenas de ensaios e apresentações com seus mil figurinos e máscaras...
Mas minhas considerações, contrárias à fal-ânsia cotidiana, não devem pender para uma outra forma de mistificação –a velha quimera falastrã de uma "Literatura" grandiloqüente, soberba. É assim que muitos jovens são afastados das boas obras na sala de aula, quando , com olhos atônitos ou já viciados pelo cinismo e indiferença, se sentem esmagados ou chantageados pelos habituais elogios pomposos que seus professores, esses auto-complacentes sacerdotes do Saber, adoram entoar aos gênios inalcançáveis que escreveram "monumentos" enigmáticos também conhecidos como: romances, poemas. Histórias. Experiências humanas. Um garoto de quinze anos vai topar digerir um abacaxi enorme e matusalâmico (certamente de sabor duvidoso) desses, ou preferirá o hambúrguer e o joguinho de computador com os amigos?
A mais autêntica e frutífera rebelião pela cultura está em resgatar o mais difícil, na escrita de nossa própria história e na escuta de histórias "alheias": a simplicidade.
Pensei nessas coisas ontem, por ocasião de mais um delicioso papo com a "pequena" grande Thaila, esse ser iluminado que cruzou o meu caminho há alguns meses, e que, mais ou menos uma vez por semana rs, compartilha comigo momentos –ao menos para mim rs- extraordinários de reflexão, troca, alegria pelo conhecimento, cumplicidade. Linda, sensível e inteligentíssima, além de futura colega farmacêutica de minha mãe, ela só tem um defeito: não torcer pelo Corinthians! (e sim pelo Atlético Paranaense, esse auto-considerado Furacão que está mais para brisa ultimamente rs.)
A Thaila me disse estar acompanhando esses meus rascunhos de blog e, mais ainda, disse que tem gostado!!!! rs Pelo grau de franqueza e exigência -a despeito da pouca idade- dessa paranaense esclarecidíssima (mais um motivo para a minha admiração pelo povo do Sul do Brasil), só posso ficar muito orgulhoso. E comentei com ela, mais ou menos nesses termos: "Escrever no blog me tem sido possível, e prazeroso, por eu conseguir baixar a bola da auto-censura e da pretensão excessivas. Quero simplesmente contar coisas, espelhar sentimentos, da forma turva como eles me acontecem". Thaila então me lembrou exemplos como Hemingway, Camus, Tchekhov, em apoio à tese dela (e minha tb rs) de que, como ela disse, "a simplicidade é um dos grandes segredos da escrita".
Eu completei com uma lembrança de meus tempos de estudante de teatro: " quando menos estou me preocupando em representar, mais atuo... penso que isso tem a ver com a escrita. Esquece que estás escrevendo, e escreverás".

domingo, janeiro 28, 2007

A época das lágrimas Parte I


Não há mais ingressos para o teatro. Os últimos acabam de ser vendidos. Também, mais de 9 e quinze da noite, o prudente seria eu ter chegado, como de hábito, lá para umas oito, tomar meu café, ler um pouco e aguardar. Não deu. Mesmo assim, vou para a lanchonete, compro meu capuccino e me sento à mesa. Não sem ter presenciado, no caixa, um diálogo ríspido entre o que –pensei a princípio-era um cliente, aparentemente argentino, e a funcionária. Razão? Logo vim a saber: não havia sido pago pelo fornecimento de uns doces, biscoitos, que havia entregue. A funcionária lhe diz que o gerente, responsável pelo tal pagamento, não viera. O homem de sotaque portenho se irrita, ainda educado, se retira uma primeira vez e volta, em tom de voz mais agressivo, exigindo o telefone do gerente. Sai em definitivo, com o papelzinho e o número consigo. Um outro funcionário observa, em voz baixa, que deviam ter explicado ao fornecedor o motivo da ausência do gerente: uma irmã infartada, e não descaso ou algo assim.
Estou agora na companhia de meu café e de alguém com quem gostaria de ter estado em cafés de Paris: Albert Camus. Releio A Peste. Estou no capítulo do célebre discurso do padre jesuíta Paneloux, que em seu sermão dominical explica para seu rebanho que a tragédia que estava se passando ali em Oran –uma enxurrada de ratos contaminados, trazendo mortes em massa, mais uma das negras pestes da história- era castigo merecido e um chamado do Altíssimo. "Deus, que durante tanto tempo baixou sobre os homens desta cidade o seu rosto de piedade, cansado de esperar, desiludido na sua eterna esperança, acaba de afastar o olhar. Privados da luz de Deus, eis-nos por muito tempo nas trevas da peste!".
Disse acima que estou relendo A Peste, mas poderia ter dito: ela me relê. Assim é toda grande obra: em seu aspecto físico de livro, somos nós que a apanhamos; enquanto correnteza de signos, é ela que nos agarra e arrasta para as paisagens que lhe aprouver - e que, no caso de uma segunda leitura, certamente serão novas em relação às que conhecemos na primeira: são outras as águas e outros os pés no mesmo rio a cada vez que nele entramos, como disse Heráclito, este morador genuíno do reino do Logos.
Quem é o livro aberto e quem está debruçado sobre ele, quem lê e quem é lido, naquela mesa da lanchonete? Já não sei. O fato é que os ingressos esgotados, a briga no caixa, tudo aquilo se esfumaçava na minha memória, tomada que ela está por um fluxo confuso de sensações, uma estranha serenidade estóica com nuances de aflição. Meus adjetivos proliferam, em vão, mas Camus não precisava de adjetivo algum para transmitir o absurdo daquele sermão e para revelar o desamparo humano –o meu desamparo- ante à fúria surda e muda e pestilenta que por vezes parece se apossar do mundo, um vazio ainda mais cortante quanto mais preenchido das palavras explicadoras dos sábios. Prossegue Camus, "o sermão tornou mais evidente para alguns a idéia, vaga até então, de que estavam condenados, por um crime desconhecido, a uma prisão inimaginável. E, enquanto uns continuavam a sua vidinha e se adaptavam à clausura, para outros, pelo contrário, a única idéia foi, a partir desse momento, evadirem-se dessa prisão. (...) subitamente conscientes de uma espécie de seqüestro, sob a tampa do céu em que o verão começava a crepitar, sentiam confusamente que esta reclusão lhes ameaçava toda a vida e, chegada a noite, a energia que recuperavam com o frescor lançava-os por vezes a atos de desespero".
Livro e leitor, porém, têm de voltar para casa, e é o que fazemos. À saída do teatro que não vi, do programa que foi outro que o esperado, não deixo de olhar, de relance, para a escura "tampa do céu" de meu próprio verão cálido e amordaçado.

A época das lágrimas Parte II

Ao entrar em casa, porém, a surpresa: uma fada sentada na janela do meu quarto! Uma fada com tiara de flores no cabelo, um vestido com listras brancas e vermelhas e um jeito diferente de falar: sabe aqueles balõezinhos em que ficam as falas dos personagens dos HQs? Pois é, as falas da fada saíam assim, em balõezinhos... Com um olhar forte e ao mesmo tempo meigo, e um sorriso saindo dos lábios sensuais, ela me pergunta, sem explicar nada, se eu já havia visto a Lua naquela noite. Não! Eu vira a tampa do céu, mas não a Lua. A fadinha parece esboçar um condescendente "tsc tsc" de desaprovação, e tento consertar essa gafe. Vou até aquela janela onde a fada estava, peço licença e ponho a cabeça para fora: nuvens. Tento na janela do outro quarto: prédios. Tento no quintal: nada. Volto sem jeito para falar de meu fracasso, mas a fadinha já sabia o que eu iria lhe dizer. E me explica:
-Simplesmente ela se esconde hoje. Porque é o dia em q ela muda seu curso, ou seja....começa uma nova fase na Terra.
O sorriso luminoso e sensual não desaparece, mas seu rostinho está mais preocupado, quando ela afirma:
-Marque bem o que eu vou te dizer...
Digo que farei isso. E ela:
-Daqui pra frente,o calor vai aumentar...muitas coisas vão marcar esse ano...Porque simplesmente a cada minuto que passe,uma pessoa,um ser vivo,de uma simples forma, por um simples gesto, afeta o curso da vida com um ato de desamor à natureza, ao seu próximo...Então quando você achar a lua no céu, vai perceber que ela está amarelada, como tô vendo daqui (a fadinha me aponta com sua varinha para o céu, mas não vejo nada além da tampa). E muitas nuvens em volta dela!
A fada então ajeita sua tiara, que fora desarrumada por uma lufada de vento, e me fala, com um ar um pouco mais triste, um restinho do sorriso no canto da boca:
- Você vai ver,começa aqui uma nova época...você vai ver!
-Como chama essa nova época?
- Hum... podemos chamar de"a época das lágrimas"...
Cessaram então seus balõezinhos de palavras. A fadinha põe a mãozinha direita com a palma para cima, junto do queixo, e assopra sobre mim milhares de pequenos corações. Meu quarto está mais arejado do que nunca, nem parece aquele verão amordaçado. Eu fico zonzo, a preocupação pelo que ouvi se mesclando a um estranho prazer, um prazer inconsistente, sem palavras, líquido. Chego a perder os sentidos por alguns instantes. Quando acordo, mais ninguém ali. Só eu, o teto do quarto e a tampa do céu. Ar parado e muito quente, me fazendo suar. Ah, sim, e a Lua, amarela, despontando entre as nuvens.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

feliz aniversário, São PÃ-ulo


Pã-ulistanos, parabéns para nós, filhos do Grande Pã, isto é, do grande Todo , síntese das grandezas e misérias de um país e de um mundo. Pã-ulistanos, parabéns para nós, que, assim como os sertanejos de Euclides da Cunha, somos antes de tudo uns fortes - por sabermos ainda desbravar clareiras de vida, veredas de Tao, no Ser-tão- tão -sem-Ser da selva de pedra e de seus Pâ-nicos mortais.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

o unzuhause das alturas



Apresento-vos a ave Unzuhause -o Albatroz-, em seu primeiro vôo após ter sido devidamente batizada, em rito solene. O oficiante do rito, vos devo informar, foi um importante bispo da Fraternidade Liudvikiana e beberrão incorrigível das festas de meu Reino. O batismo, aliás, foi numa destas festas, quando, subitamente, o conviva em questão subiu na mesa, com (mais) um copo de vinho nas mãos, e criou e entoou, de improviso, este canto elegíaco às mil formas de poeti-cidade submersas, qual Atlântida, pelos tsunamis do horror e boçalidade da "civilização" prosaica, a horda de calça jeans nas pernas e nada no espírito. O bispo beberrão nos convidou a todos, após isso, a vir para fora, no pátio do palácio: vislumbrou este albatroz que estava então de cabeça baixa, encolhido; repetiu-lhe a poesia-oração, fez o sinal sagrado da Fraternidade, e a ave Unzuhause, como que por milagre, levantou este vôo magnifíco e fulminante na escuridão.

L´ Albatros
(Charles Baudelaire)

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à coté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poëte est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.



O Albatroz
(Charles Baudelaire, tradução Ivan Junqueira)
Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de voar.

domingo, janeiro 21, 2007

Ave, Maria!



Ave Maria

(22 /01/07 - by Unzuhause)
Ave Maria
Dourado albatroz
Angústias, na foz,
Renascem poesia

Gemes teu saque
Como quem faz amor
Raquete atabaque
Do júbilo odor

No topo dos pódios
É que fica teu ninho
Ao abrigo dos ódios
Deste mundo mesquinho

Um ícone russo
Dionisíaco impulso
Ave Maria
Sharapova magia


Extra! Extra!
Se a madrugada deste sábado foi, aqui em Unzuhause, dedicada à vigília pascal em companhia do tenebroso Saturno, o domingo nasceu loiro e de olhos verdes. Ave, Maria! rs

21/01/2007 - 11h25
Com derrota de rivais, Sharapova volta a ser a número 1Das agências internacionais
Em Melbourne (Austrália)

A russa Maria Sharapova garantiu neste domingo a volta ao primeiro lugar do ranking mundial feminino de tênis. A musa, que ainda vai jogar as oitavas-de-final do Aberto da Austrália, foi beneficiada pela derrota de suas rivais nas oitavas-de-final em Melbourne.
Na madrudada brasileira, a francesa Amelie Mauresmo perdeu para a jovem tcheca Lucie Safarova, de 19 anos, namorada do tenista tcheco Thomas Berdych, que também se classificou no Aberto da Austrália. A outra que poderia assumir a liderança da lista, a russa Svetlana Kuznetsova, também foi eliminada, pela israelensa Shahar Peer.Atual número 1 do ranking da WTA (Associação mundial de tênis feminino), a belga Justine Henin-Hardenne não está jogando em Melbourne. Desde o anúncio de sua ausência, sua posição ficou a perigo, com três tenistas com chances de assumir a liderança: Mauresmo, Sharapova e Kuznetsova.Mesmo que for eliminada nas oitavas por sua compatriota Vera Zvonareva, Sharapova aparecerá em primeiro lugar no ranking do dia 29 de janeiro, o próximo a ser divulgado pela WTA. A única vez em que apareceu na posição foi em agosto de 2005. Na ocasião, se manteve no topo por sete semanas.

Porque hoje é Satur-day (dia de Saturno)

Goya, Saturno
"Estudiosos medievais e renascentistas associavam Saturno a um dos quatro humores da antiga medicina e, o que não é surpreendente, Saturno regia o humor melancólico. Temos aí uma boa metáfora para a influência depressiva de Saturno. Marsilo Ficino prevenia seus colegas magos da Renascença contra o poder sombrio de Saturno sobre filósofos e estudiosos. De acordo com Ficino, homens de estudo tinham mais tendência do que os outros mortais para sofrer de aflições saturninas. (...) Mas, se a melancolia do sábio era associada a Saturno, a sabedoria também o era. O pai Tempo traz serenidade, assim como ansiedade. E sua sabedoria é a sabedoria da própria terra".
Ariel Guttman & Kenneth Johnson, Astrologia & Mitologia
"(...)
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado".
Vinícius de Moraes, O Dia da Criação


sábado, janeiro 20, 2007

sobre cores, licores e ópios



Amarelo, vermelho, azul, por Kandinsky,
A religião é o ópio do povo, dizia Marx. Ou platonismo para o povo, completou Nietzsche. Pois o escritor argentino Ernesto Sabato, num ensaio sobre o conterrâneo Jorge Luis Borges, obtém uma admirável síntese entre essas duas fórmulas, quando define como "ópio platônico" as viagens literárias de Borges pelos mundos abstratos, pelas formas arquetípicas, em detrimento dos temporais do mundo temporal. Hoje, em minha análise, esse tema apareceu fortemente, mas sem referências intelectuais, com exceção da lembrança de um dito de Lacan: "a beleza é a última defesa contra o horror".
Uma das dúvidas que me vieram no divã foi, porém, se poderíamos suportar a completa abstinência em relação a algum "ópio platônico". Penso que não. Mesmo quando estamos despertos, nosso corpo pede que fechemos os olhos milhares de vezes durante o dia: descanso fugaz, sutil umedecimento, metonímia das águas uterinas e pacíficas em que estávamos protegidos da aridez deletéria do real imediato. Assim também, a mente pede cor, li-cor e repouso em relação ao Sol desértico do "mundo imundo" e de suas verdades cinzentas e cansativas.
A angústia que me faz "unzuhause" (fora de casa) me desapropria de todos os tempos e lugares nos quais a maioria dos mortais se sente abrigada; nada me é próprio, a não ser o próprio Nada rs. Mas não sou de ferro, sou de carne, e a carne quer espírito: por isso em plena madrugada de sexta para sábado estou aqui, e curtindo o som melancólico do Doors enquanto i-magio (o imaginar como magiar) as "doors of perception" extáticas de Huxley (as quais, como se sabe, inspiraram o nome da trupe de Jim Morrison). No caso de tantos leitores de Huxley, portas literalmente químicas. Meu ópio no momento é mais al-químico: a filosofia, no sentido que os velhos mestres davam à sua arte de transmutar o chumbo em ouro, o horror no esplendor.
Mas não fica de fora de minha euforia sonhada o senso de que ela me acontece, mas não me pertence. Não me é própria: a esperança existe, mas não para nós (Kafka). Não para já. Quimera a ser reverenciada à distância, colorido licor, que sei tomar, quando preciso (quando inevitável) , junto com o amargo comprimido da lucidez. Com os acres e negros pós de agonia que Borges, a despeito de todo ópio platônico, sabia pôr nos li-cores de sonho que tão bem pintava e tomava:
"And yet, and yet (...). Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico, são desesperos aparentes e consolos secretos [...} O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real; eu, desgraçadamente, sou Borges".

quarta-feira, janeiro 17, 2007

O Grito


(O Grito, de Edvard Munch)

A arte é um sublime e feroz grito de insatisfação solto em favor da paz individual.A poesia é um grito de "olhe no espelho" dirigido ao homem que, guiado por suas dores, parte pra tentar aliviar a própria dor, fazendo mal aos outros e principalmente a si mesmo.Mas logo após o ressonante berro, ela sussurra abraçada à humanidade : vocês podem usar o próprio sangue para ajudar os outros e a si, se o sangue manchar todo o papel do mundo com poesia.
Bruxa Morgana

Essas ilusões nebulosas, nós as recebemos com a vida como um narcótico necessário para suportá-la. Mas o que acontece conosco quando, desintoxicados, descobrimos o que somos? Perdidos entre tagarelas, numa noite onde não podemos senão odiar a aparência de luz vinda das tagarelices.
Georges Bataille

Ateliê

Ontem revi, na TV, Siron Franco, pintor que conheci numa reportagem que fiz sobre a relação que alguns dos nossos principais artistas plásticos têm com seus locais de trabalho. Mais que depositário inerte de utensílios, um ateliê é materialização de uma "poética do espaço" (Bachelard) que desdobra, amplifica e abriga a personalidade criadora. Não é mera moldura, mas obra entre outras obras. Já vos destes conta dos "ateliês" de vossas vidas? Estão eles bem cuidados, têm sido eles bons úteros da obra de arte que se chama existência, a vossa existência?
Entre outras coisas bem bacanas que ele disse na TV, destaco: "No mundo moderno, o ato de contemplar é mais sofisticado, mais profundo e exige mais conhecimento do que o ato de interagir". Ele então comentava a importância, na pintura, do ato contemplativo que se exige do espectador, experiência cuja força única explica o motivo de a pintura não ter "morrido", como muitos profetizaram no século passado, século do cinema e de tantos avanços brutais (no mau sentido desta palavra, em muitos casos) na tecnologia da comunicação e interação entre os homens.
Penso que o homem contemplativo pode, pouco a pouco, não só aprimorar o ateliê a partir do qual ele se re-presenta o mundo, mas também descobrir o próprio mundo que se nos a-presenta (se torna presente: instante e dádiva) como ateliê pessoal e coletivo, reflexo de nós mesmos, da afinação ou desleixo, perícia ou sofrimento, do nosso pintar, poetar e estar.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Blow Up


Maria Sharapova, guerreira, campeã e deusa rs. Nas ruínas da cidade soterrada, se soergue sua quadra gloriosa, o quatérnio arquetípico -a temenos alquimista- da Beleza radical, ilusão balsâmica que nos redime, ainda que por instantes, do mundo podre que cai em pedaços no buraco da marginal. Beleza que nos incita àqueles jogos do gozo gratuito, no êxtase de brincar, na festa absurda dos tenistas absurdos de Antonioni. Passante pelas ruas escuras e esburacadas da cidade, olho para o lado e lá está deusa Sharapova, brincando, acima da escrotidão, irradiando seu deliciosamente suado perfume de vitória.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Like a Rolling Stone

Caros visitantes deste Reino Unzuhause, tive hoje a grata surpresa do reencontro com um clipe que assisti vários anos atrás, então um tímido e entediado estudante de um curso de inglês – o clipe de "Like a Rolling Stone", com os Rolling Stones. Lembro que me deparar com esse vídeo no "lab" da escola, minutos antes de uma aula, foi um grande alívio à chatura então rotineira de ter de me "adestrar" numa língua, ao invés de vivenciar, por ela, um modo outro de dizer e pensar o mundo. Só mesmo ao entrar em contato com essa dimensão mais lúdica e reflexiva é que meu aprendizado de línguas pôde evoluir e me propiciar as oportunidades que têm ocorrido. Fui "acordado pelos acordes" órficos de Jagger e companhia, e chamado para fora do inferno do saber sem sabor. Quando a alegria e liberdade de aprender nos acordam, fugimos dessas sonolentas estufas escolares de poeira, enxofre e teia de aranha; de volta ao céu aberto, seremos sim perseguidos pela Velha Escola, brandindo seus palavrões e ameaças ("o que cai na prova", "passar de ano", "vestibular", "empregos" etc). Mas essa vetusta ranzinza logo perderá, na corrida, o fôlego e as muletas autoritárias e tropeçará morro abaixo: like a rolling stone rs. Quero então compartilhar com vocês mais este brinde que o Youtube –enquanto não voltam a fechá-lo com o cadeado da estupidez, como semana passada (caso Cicarelli) - nos oferece. O link é este:

http://www.youtube.com/watch?v=1IVPKoCjNWk

sábado, janeiro 13, 2007

Um intelectual total

M
Muitas vezes, de fato, a melhor parte de uma festa é a espera por ela. Também com o teatro e o cinema é assim, tantas são decepções ou enganos que nos aguardam por aí. Não escapei infelizmente de uma dessas arapucas esta semana. Porém a espera pelo espetáculo, na fila de entrada, pagou o ingresso rs: tive o privilégio (que certamente não teria tido sem o pretexto da peça, devido à minha correria atual) de ler um "enorme" pequeno livro: "Diálogos com Mario Schenberg". Schenberg (1914-1990) é, muito provavelmente, o mais importante físico brasileiro de todos os tempos. Ele angariou reputação mundial com seus estudos em áreas como astrofísica e termodinâmica, foi amigo e/ou colaborador de gigantes da ciência, entre eles Enrico Fermi e Wolfgang Pauli. Mas o significado de sua vida e obra vão bem além das fronteiras de um saber especializado. Mario Schenberg foi um intelectual total, na acepção sartriana do termo: alguém engajado nos dramas de seu tempo, nas lutas pela libertação do homem. Desenvolveu forte militância política junto ao Partido Comunista Brasileiro, sendo por isso alvo da "ditaburra" brasileira. Era, por outro lado, grande conhecedor de artes plásticas e literatura, tendo convivido intimamente com nomes de vanguarda da arte brasileira do século XX, como Haroldo de Campos e Lygia Clark. Mas nem o céu era limite para seu espanto pela vida e sua fome de conhecimento: Schenberg, de família judaica, era fascinado pelas sabedorias ancestrais da China, Índia, Japão, tesouros cuja linguagem simbólica recobria verdades que só agora, séculos depois, as nossas ciências de ponta (caso em especial da física quântica) estariam começando a compreender, segundo ele insiste. O Ocidente engatinhando à procura de "seu Oriente"... Jung, o Grão-Mestre de minha Fraternidade Liudvikiana rs, certamente sorriria de orelha a orelha, com um ar de "eu já sabia", ao ler um livro assim. Como Schenberg afirma em dado momento das entrevistas do volume: "O grupo dos fundadores da mecânica quântica teve grande influência do pensamento oriental, diretamente ou através do Jung".
Voltei pra casa decepcionado com a peça, mas feliz com esta festa de antes da festa. De novo, a vida me dando menos motivo de desconsolo na antesala dos eventos, nas arquibancadas ermas e mudas dos espetáculos do espírito, nos instantes escuros em que estão fechadas as cortinas dos divertimentos murchos com que este mundo tantas vezes nos alivia de suas misérias.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Bo-Nita

Para a Morcega Bo-Nita, que trouxe ontem música a este blog e à minha noite. Para a Morcega Bo-Nita, que é musa e música em todos os meus dias e noites. E que é, como diz esta música cara aos meus dias de infância (veja o link abaixo), uma linda e poderosa Dona. Muito obrigado.
http://www.corvosong.com.br/roupa_nova-dona(2).mid

segunda-feira, janeiro 08, 2007

visão do tempo-ral



Tempo, acicate do invento
O que mata e vivifica
O que sangra e é alimento
O que sob as cinzas fica

Escrevo porque o instante existe
Já sabia a poetisa cantora
Escrevo porque a fome insiste
Serva da que da vida é doadora

Voando me esqueço sem asas
Nu me perco no tempo-ral
Tremor de mar e de casas
Ventre infante e animal

domingo, janeiro 07, 2007

para os seres da Noite

(photo by: Olivier Pasco)

"No que é noite para o ignorante, o sábio está desperto; no que é noite para o sábio, o ignorante está desperto" (Bhagavad-Gîta, II, 69)


Um presente aos visitantes deste Unzuhause, seres da Noite como eu. Com os votos de que tenhais uma ótima semana, e de que encontreis sempre em vosso próprio Desejo o farol que orienta a viagem liberta-dor-a em pleno mar escuro dos prisioneiros do dia.

sábado, janeiro 06, 2007

120 dias de Prazer



6 de janeiro. Em nome de Ishtar, este Reino Unzuhause vem comunicar que estão abertas, por 120 dias, lá na superfície do Mundo, as comemorações do Dia dos Reis, ou melhor, do DIA DO REI, Rex Caius Magus Caligulae, imperador da Roma pagã atemporal, a terra-tempo da luxúria, da loucura e da Lei da Vontade. A Roma de Caligulae está em cada um de vós, esta Roma é paraíso original dos vossos desejos não domesticados pela "outra" Roma, a Roma do Vaticano, triste Roma do pecado e do perdão, triste Roma da Repressão. Calíngua! A língua Calíngua é o IDÊS: língua do ID. Língua-palavra, língua-corpo, língua no corpo; sussurando safadezas e degustando cada milímetro da Sacerdotisa de Caligulae, a Dama escolhida como sua Serva e AMAnte, a representante sagrada de Ishtar. A escolhida para adentrar a câmara nupcial e ali atender a todos os caprichos do Monarca. Seu maior capricho, aliás, é ver sua escolhida em júbilo ao aprender e praticar com o Rei-Mago as magias da língua Calíngua, ao ser iniciada e mergulhada na língua do IDÊS. 120 Dias de Sodoma! 120 Dias de Prazer! Salve, Ishtar!

quinta-feira, janeiro 04, 2007

A alegria dos magos

"Jesus, alegria dos homens", de Johann Sebastian Bach, música que nesse momento toca em meu Reino unzuhause, me faz lembrar que depois de amanhã (dia 6 de janeiro) é Dia dos Reis-Magos. Meu amigo Caius Magus Caligulae prepara festas por toda Roma. Ele é rei-mago, e esteve, oculto, na comitiva de Belchior, Gaspar e Baltazar, que seguindo a estrela da Noite foi até a Luz que nascera na gruta de Belém. Caligulae jamais se converteu a qualquer catecismo, insiste em se manter em sua liberdade radical, por ele mesmo chamada de "absurda". Mas jamais se esqueceria da face daquela Criança, mais radiante que mil sóis, de uma radiância aliás algo tenebrosa, e nada ingênua-como tantos presépios comerciais gostariam que fosse. Caligulae, que não adorava nem seus ídolos romanos -sabe que são criações humanas-, tampouco quis se dobrar ante a manjedoura. Mas seu coração esteve e está em secreta 'sim-tonia' com aquele poderoso rei-menino. Aliás não teve medo nem inveja desse rei, como o medíocre Herodes: pois sabia que Jesus era um rei de outro mundo, que veio para nos lembrar desse outro mundo, e nos convidar, enquanto estamos neste mundo: "Sejam passantes" (Evangelho gnóstico de Tomé). Ou seja: não nos apeguemos ao que é gesso, poeira ou bolha de sabão. Cali-GULA-e continua a fazer jus a seu nome. Sua gula de viver, seu apego à Vontade (Schopenhauer), fala mais alto que o ascetismo daqueles loucos que perambulam pelo seu Reino pregando renúncia e penitência. Mas viu e respeita a magia que há no Rosto iluminado que deparou na rústica manjedoura, Rosto tão mais belo do que as máscaras maquiadas que vestem caras e almas por toda a Corte.
Ah, vejam e ouçam que maravilha:
http://www.youtube.com/watch?v=KP6ZryTwxhU

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Janis Joplin acorda no vulcão


As peças de Zé Celso Martinez Correa, com grande competência, substituem o termo "teatro" por "teATO" (de atar), mas são pra mim uma exceção. Não costumam me agradar as propostas de teatro "interativo", nas quais o público é surpreendido com a sugestão -muitas vezes a intimação- a sair de sua privacidade e improvisar uma participação na cena. Muito fácil a coisa descambar para a tolice ou desastre. Outro dia um pobre espectador, que estava ao meu lado num teatro aqui de SP, teve o olho machucado , inadvertidamente, por uma atriz que o "convidou" a ser maquiado para fazer o papel de... espectador (! ); sim, pois o que se pretendia era dar mais realismo ao programa de televisão que era ali encenado. Genial, não? rs Isso não quer dizer que atores e público tenham de estar em dois mundos à parte. E que nos caiba aquele papel bovino de a tudo assistir, dar o aplauso protocolar e sair feliz e satisfeito para a pizza da esquina. A arte deve sim mexer e revolucionar. Mas para tanto tem meios mais sutis. Os bruxos e os físicos sabem como a energia é capaz de causar impactos fortíssimos sem contato físico entre os corpos. E ontem tive uma demonstração viva disso, ao assistir na TV (canal Multishow) à interpretação de Mary J. Blige para "Piece Of My Heart", da grande Janis Joplin. Se a música (como sua autora) é por si um vulcão, o desempenho de Blige a leva a uma plena erupção, com sua voz fantástica e com um corpo em estado de transe -não no sentido de um "baixar o santo" histérico, mas sim como o ATOR SANTO de Grotowski: o intérprete que se converte em sacerdote pagão para incendiar as almas porque está, ele próprio, em combustão. E isso sem aborrecer o público com convites bobos a situações constrangedoras. Mas com a intensidade que só os grandes momentos de amor ou de fúria, na Natureza ou na Arte, conseguem alcançar.
Quem quiser sentir de perto a temperatura original do vulcão de Janis, essa "atriz santa" (numa performance deveras "demoníaca" rs) é só conferir aqui: http://www.youtube.com/watch?v=-7JVxE2SYxo

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Brindando 2007


Quero um pensamento que seja vento
Vento que desate os nós
Que disperse os pós
Num caminhar sereno e lento

Quero o corpo e o copo vazios
Inspirando lúcidos desvarios
Da alma desimpedida
De toda barreira auto-concebida

Quero vencer as provas abismais
Sorver o cálice seco dos deuses abissais
Dançar a mágica maya da ilusão
E renascer no êxtase sem redenção