Saturday, December 29, 2007

sabedoria andarilha


"Se percorrermos todos os caminhos, não haveremos de encontrar os limites da alma, tão profunda é sua razão".
HERÁCLITO

Wednesday, December 26, 2007

renovação

Salvador Dalí, Criança geopolítica assistindo ao nascimento do novo homem
Nietzsche certa vez definiu a vaidade como "a pele da alma". Como de hábito, estava inspirado ao fazê-lo. Quem disser que não é vaidoso ou bem está se enganando, ou tentando nos enganar, ou talvez -como ensina a bela definição nietzschiana- esteja com a alma e a auto-estima feridas.
Pois um bom motivo para mim de envaidecimento sadio , este ano, foi a publicação de meu livro: Sartre e o Pensamento Mítico, pela editora Loyola. E, até pela minha falta de tempo, nesta semana, para maiores escrevinhações por aqui, terei de me permitir outra "vaidade" rs, a de citar uma passagem do meu livro, a propósito do Ano Novo que se aproxima, ao invés de articular uma reflexão ampla noutras e novas palavras.
Trata-se de um trecho do capítulo 4, onde eu exploro o significado antropológico e religioso das festas de Ano Novo a partir do contexto nas culturas arcaicas. A linguagem é acadêmica, inevitavelmente, mas a idéia por detrás é clara, ao meu ver: o Ano Novo é uma das expressões mais importantes do desejo dos homens de abolir, periodicamente, o tempo profano (decadente, desgastante, corruptível) e voltar às Origens míticas, ao marco zero sagrado, a uma espécie de "Fonte da Juventude" que faça novas todas as coisas e que deixe reluzir uma vez mais as esperanças que foram pouco a pouco empoeiradas pelo cotidiano.
Em muitas sociedades ditas primitivas, a celebração do Ano Novo implicava uma momentânea "regressão" do Mundo ao Caos original, e um combate entre o deus ou herói civilizador com o monstro que quis no princípio, e que quer de novo, impedir o mundo de se fazer e de perdurar. Goethe, a propósito, chama o demônio Mefistófeles, no Fausto, de der Vater aller Hindernisse, “o pai de todos os impedimentos”.
Penso que tais representações e símbolos são parte do nosso inconsciente coletivo, estando vivos, ainda hoje, de formas mais ou menos explícitas.
Que, para além dos tediosos clichês que povoam a mídia e as ruas nesse período, cada um de nós faça uma experiência profunda de "renovatio" do mundo, do nosso próprio mundo pessoal -o que certamente favorecerá as tão urgentes transformações do mundo externo, do mundo compartilhado. Se preciso, que revisitemos, como faziam os povos arcaicos, nossos próprios "demônios" , o lado escuro da alma, as águas caóticas no fundo sem-fundo do Ser, numa viagem, mergulho, batismo que permitirão o advento de um Cosmos-consciência renascido e fortalecido.
Feliz 2008 a todos.
(...) O Ano Novo é considerado um reinício do tempo, portanto uma repetição da cosmogonia. Concretiza, ritualmente, a “abolição do tempo” e a restauração do tempo forte dos Primórdios, da passagem do Caos ao Cosmos.
Vejamos, rapidamente, o exemplo, fartamente explorado por [Mircea] Eliade, do Ano Novo babilônico. Durante os 12 dias da celebração, recitava-se solenemente, várias vezes, o épico babilônico da Criação, o Enûma elis, no templo de Marduque: “Dessa maneira era reatualizado o combate entre Marduque e Tiamat, o monstro do mar –combate que tinha sido realizado in illo tempore e colocara um fim ao caos graças à vitória final do deus. Marduque teria criado o Cosmo com os fragmentos do corpo dilacerado de Tiamat, e procedido à criação do homem a partir do sangue do demônio Kingu, ao qual Tiamat tinha confiado as Lâminas do Destino (Enûma elis, VI, 33, apud Eliade, M., Mito do Eterno Retorno, p. 58).
A gesta de Marduque era não apenas rememorada, mas sim revivificada, como se vê pelos rituais e pelas fórmulas recitadas durante as cerimônias: dois grupos de atores “atuam” e “atualizam” o combate entre Tiamat e Marduque; o celebrante, a certa altura, exclama: “Que ele [Marduque] continue a vencer Tiamat e a encurtar seus dias!”. Para Eliade, isso sinaliza que se considerava que “o combate, a vitória e a Criação aconteciam naquele preciso instante” .
Um dos momentos da trajetória de Marduque no Ano Novo é sua “descida aos infernos”: o deus era feito prisioneiro da montanha, isto é, das regiões infernais, o que correspondia ao um período de luto e jejum para toda a comunidade e de “humilhação” para o rei. O ciclo se fechava com uma hierogamia [casamento sagrado] do deus com Sarpanitu, evento que o rei mimetizava com uma escrava no templo da câmara da deusa, simultaneamente à ocorrência de uma orgia coletiva.
LIUDVIK, Caio, Sartre e o Pensamento Mítico - Revelação arquetípica da liberdade em As Moscas. S. Paulo: ed. Loyola, 2007.

Wednesday, December 19, 2007

rumo ao Natal


"O drama da vida de Cristo nos dá uma descrição, através de imagens simbólicas, daquilo que se passa tanto na vida consciente como na vida que está além da consciência do homem, o qual é transformado por seu destino mais alto"
C. G. JUNG
in: Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade
Até mesmo um ateu ferrenho como Jean-Paul Sartre, quando prisioneiro dos nazistas, em 1940, reconheceu a força do simbolismo natalino: criou uma versão pessoal do nascimento de Jesus, com a qual pôde camuflar e alegorizar o sentido político que tinha em mente, isto é, seu protesto contra a ocupação "romana" (alemã) da terra dos judeus (a França), e seu chamado à Resistência. Assim escreveu, dirigiu e atuou na montagem, em pleno campo de prisioneiros, do seu primeiro texto teatral, Bariona.
A emoção que Sartre viu estampada no rosto de seus companheiros de prisão, cristãos e não-cristãos, o convenceu de que o teatro autêntico é um ritual, segundo ele, "religioso" - uma re-ligação de todos com todos, para além das diferenças de cada um, num Todo que celebra e con-sagra a experiência da liberdade.
Esse acontecimento foi crucial para os rumos tomados por Sartre ao voltar do cativeiro, tanto na vida como na obra, que, nele, não se dissociavam. Sartre deixou de lado o antigo individualismo e indiferença política, percebeu que de nada vale o homem ser essencialmente livre, se não concretiza essa liberdade historicamente, se a História persiste sendo o reino da alienação e da opressão.
Liberdade não é um estado dado de uma vez por todas, mas sim contínuo processo de se libertar. Processo que implica, por um lado, certa separação dos outros -só com independência pessoal descobrimos quem somos ou queremos vir a ser-, mas, por outro lado, nos leva ao engajamento público, "político" (não necessariamente partidário). Em termos técnicos, diríamos: o sujeito é Para-si, mas também Para-Outro, sendo ambas as dimensões um só e igual chamamento à libertação radical. E igualdade das liberdades é fraternidade, o que nos traz de volta à tríade da Revolução Francesa, este salto de consciência da história da humanidade.
Ao meu ver, o episódio que contei sobre Sartre ilustra também a diferença entre um culto cristão apenas convencional e reservado aos "bonzinhos, " e a experiência do Cristo interior, de mil nomes possíveis e inominável, a Luz divina que quer sempre de novo nascer, no centro de nós mesmos e nas periferias marginalizadas do mundo- portanto, nas manjedouras da existência humana, mas não em meio a vaquinhas de presépio, e sim como inspiração de sujeitos fortes, singulares, conscientes de si e crentes de todos os credos (sempre cremos em algo, ainda que em nada). Cristo, como Buda, ou Krishna, ou tantos outros deuses imaginados pelo gênio religioso da espécie humana, é símbolo da Individuação, isto é, do congraçamento entre consciente e inconsciente na auto-realização, na evolução rumo ao Ser que somos.
Que o Bom Velhinho das crianças nos alegre e nos presenteie muito rs, mas não esqueçamos da Criança que, ela sim, vem para as crianças de todas as idades, como o presente adulto e maior: o amor e crescimento existencial. Feliz Natal para todos.

Friday, December 14, 2007

homenagem ao dia de São João da Cruz, 14/12

"O Cristo de São João da Cruz", por Salvador Dalí

luminosa fontescuridão
CANTAR DA ALMA QUE SE ALEGRA EM CONHECER A DEUS PELA FÉ (1578)
São João da Cruz


1. Aquela eterna fonte está escondida.
mas bem sei onde tem sua guarida,
mesmo de noite.
2. Sua origem não a sei, pois não a tem,
mas sei que toda a origem dela vem,
mesmo de noite.
3.Sei que não pode haver coisa tão bela,
E que os céus e a terra bebem dela,
mesmo de noite.
4. Eu sei que nela o fundo não se pode achar,
E que ninguém pode nela a vau passar,
mesmo de noite.
5. Sua claridade nunca é obscurecida,
E sei que toda a luz dela é nascida,
mesmo de noite.6.Sei que tão caudalosas são suas correntes,
Que céus e infernos regam, e as gentes,
mesmo de noite.7.A corrente que desta fonte vem
É forte e poderosa, eu sei-o bem,
mesmo de noite.8. A corrente que destas duas procede,
Sei que nenhuma delas a precede,
mesmo de noite.9.Aquela eterna fonte está escondida
Neste pão vivo para dar-nos vida
mesmo de noite.10.De lá está chamando as criaturas
Que nela se saciam às escuras,
mesmo de noite.
11. Aquela viva fonte que desejo,
Neste pão de vida já a vejo,
mesmo de noite.


ÁGUA VIVA

Raul Seixas / Paulo Coelho


Eu conheço bem a fonte

Que desce daquele monte

Ainda que seja de noite

Nessa fonte está escondida

O segredo dessa vida

Ainda que seja de noite

Êta fonte mais estranha,

que desce pela montanha

Ainda que seja de noite

Sei que não podia ser mais bela

Que os céus e a terra bebem dela

Ainda que seja de noite

Sei que são caudalosas as correntes

Que regam céus, infernos

Regam gentes

Ainda que seja de noite

Aqui se está chamando as criaturas

Que desta água se fartam mesmo às escuras

Ainda que seja de noite

Ainda que seja de noite...

Eu conheço bem a fonte

Que desce daquele monte

Ainda que seja de noite

Porque ainda é de noite

No dia claro dessa noite

Porque ainda é de noite

No dia claro dessa noite

Sunday, December 09, 2007

o bruxo de Viena

Com a jornada de debates que ocorreu ontem na minha instituição de psicanálise, está encerrado mais um ano de meu processo de formação nesta área. Encerrado, pelo menos, em termos acadêmicos, pois o essencial para todo analista em formação é seu próprio divã, sua vivência pessoal de analisando. E minha análise ainda prossegue nos próximos dias.
De todo modo, fica já o sentimento de grande satisfação pelo que pude aprender e formular sobre a ciência de Freud ao longo do ano. A ponto de eu ter podido cometer a ousadia de, em meu trabalho de conclusão do ano, ter me voltado para meu próprio mentor, Carl Gustav Jung, transformando-o em tema de estudo psicanalítico.
Jung, como se sabe, foi uma das figuras principais na história da psicanálise, até a dramática ruptura com Freud em 1913. A partir de então seguiu rumo próprio e fundou a chamada psicologia analítica, com outras bases teóricas, metodológicas e terapêuticas.
Não o abordei porém por estes papéis e títulos já muito conhecidos. Estudei a experiência de vida de Jung, que muito me é cara e inspiradora, até porque nela se revela um homem tempestuoso, contraditório, errático, que nada tem a ver com os estereótipos da indústria da auto-ajuda esotérica.

Falando em esoterismo, ou melhor, na magia enquanto autêntica concepção de mundo, descobri uma interessantíssima referência que Freud faz a ela, em palavras de 1890, tempo em que ainda chamava de Seelenbehandlung, "tratamento da alma", o que depois batizou de psicanálise.
São palavras com que Freud deixa muito claro o caráter libertador da ciência que estava por inventar. O caráter de crítica radical por parte de uma obra que, como a de Marx, veio não destruir a razão, mas exigir seu cumprimento mais amplo, justo e adequado aos anseios profundos do humano.
Freud é um convite à travessia de nós mesmos, pela admissão de que "minha casa não é minha", como diz a música de Milton Nascimento. De que não se é dono, mas hóspede, de um corpo de afetos que vai sempre além do que concebemos de nós mesmos.
Freud é o despertar para a dura realidade de que somos atravessados por vetores não só de criação, de luz, mas também de noite escura e dissolução: Eros e Tânatos. Freud é a sabedoria da palavra e do silêncio. Palavra que nos faz acessar e dar voz a dimensões internas antes represadas; silêncio que nasce do encontro com o não sentido, com o Real (Lacan), o vazio - a Falta que faz o Outro uma vez que somos lançados no mundo, arrancados do ventre paradisíaco do Ser.
Mas se é ruptura, Freud, assim como Jung, é também religação: reatamento dos laços do homem moderno com suas Origens, pessoais e coletivas; daí o aceno simpático que o "bruxo de Viena" pode fazer a essa forma ancestral de conhecimento e prática que é a magia:

"'Tratamento psíquico' significa "tratamento que tem origem na alma, tratamento –de perturbações psíquicas ou corporais- com a ajuda de meios que agem primeiro e imediatamente sobre a alma do homem. Tal meio é antes de tudo a palavra, e as palavras são o instrumento essencial do tratamento psíquico. O profano achará, sem dúvida, dificilmente concebível que perturbações mórbidas do corpo ou da alma possam ser dissipadas pela 'simples' palavra do médico. Ele pensará que lhe pedimos para acreditar em magia, no que não está totalmente errado: as palavras de nossos discursos cotidianos são nada além de magia sem cor"

SIGMUND FREUD

Friday, December 07, 2007

Wednesday, December 05, 2007

presentes de Natal

Albert Camus

Jean-Paul Sartre
Este reino Unzuhause registra, com felicidade, a notícia de uma dupla floração de minha pa-lavra -lavra da palavra- no mundo das idéias: a tradução que fiz do excelente estudo de Ronald Aronson, Camus e Sartre - O Fim de uma Amizade no Pós-Guerra (editora Nova Fronteira) e meu próprio livro, baseado no mestrado, Sartre e o Pensamento Mítico - Revelação Arquetípica da Liberdade em As Moscas (editora Loyola). A tradução já está circulando; e pelo que fui avisado ontem, meu livro está saindo do forno e chega às livrarias até meados deste mês. Portanto, desde já Boas Festas e boas leituras a todos rs!

Monday, December 03, 2007

queda para o alto


"Agora os homens que convictamente
vêem no grande Zeus o vencedor final
desfrutam do conceito de mais sábios,
pois Zeus sem dúvida foi quem levou os homens
pelos caminhos da sabedoria
e decretou a regra para sempre certa:
'O sofrimento é a melhor lição'"
ÉSQUILO
Agamêmnon
Lembro-me um dia, eu muito criança ainda, que virei pra minha mãe e pai dizendo, com uma seriedade que destoava da minha idade mas não da minha personalidade ou caráter, este é precoce e definitivo: "Não façam tantos planos, eles podem não dar certo".
Nunca abandonei essa certa "cautela" em relação a fazer muitos planos, a contar muito com a sorte. Não se trata de ficar resmungando que tudo vai dar errado, detesto isso. Não: o que desenvolvi, e influencia inclusive meus rumos na filosofia, é um "sentimento trágico da vida" (Unamuno), e o trágico não necessariamente é o triste, às vezes é o oposto disso, é o máximo de alegria gozosa da e pela vida, como Nietzsche mostrou tão bem em O Nascimento da Tragédia.
Tais pensamentos me ocorreram numa longa e silenciosa caminhada pela Avenida Paulista, ontem à noite, após a confirmação do rebaixamento do Corinthians para a Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.
Seria tolice me gabar disso, mas há tempos eu tinha a certeza íntima de que isso aconteceria. Tanta a esculhambação que dirigentes bandidos e incompetentes, e jogadores ridículos, vinham aprontando. A primeira vez que dei esse prognóstico, creio, foi com a Thaila, essa "pequerrucha" que é ótima companheira de papos futebolísticos, existenciais, culturais etc etc.
Parênteses. Acho que o pessimismo, além de uma certa forma "adulta" de ver a realidade, é também um jeito (infantil?) de se proteger dela. Um rito mágico com essa estranha lógica: não querer ser "surpreendido" por um mundo sabidamente imprevisível e hostil. Querer, como criança mimada, fazer carinha emburrada para que os pais, ou Deus, ou a realidade em si, nos tragam um doce, nos comprem o brinquedo, nos façam ver que a vida é bela, que não precisávamos nos preocupar tanto.
Claro que esse raciocínio é pouco razoável, que acabamos por sofrer demasiado. E teria como, em sendo assim, eu me apaixonar por outro time que não o Corinthians?
Não sei se há outro lugar no Brasil, ou no mundo, em que o cara te pergunta teu time, vc diz que é um "sofredor", e ele imediatamente conclui: "é corintiano" rs.
Nas arquibancadas do Pacaembu, do Morumbi, ou escutando, em casa, José Silvério na rádio Jovem Pan, tive alguns de meus momentos mais sublimes como criança e adolescente: pirando de alegria ou de tristeza com esse time cuja história é tão gloriosa quanto turbulenta, tão vitoriosa quanto "loser".
Síntese dessa contradição foi o longo jejum corintiano de 23 anos sem títulos, quando as humilhações não faziam diminuir, mas sim crescer em número de pessoas e em devoção essa torcida que é a do povão dos tantos Brasis de São Paulo e do país afora. A festa do título que deu fim à agonia, em 13 de outubro de 1977, foi, segundo me contam -eu tinha poucos meses de vida, acho que eu e meu pessimismo mimado rs demos sorte ao Timão, vindo ao mundo naquele mesmo ano-, um dos acontecimentos mais comoventes da história desta cidade.
Mas sempre vem um tempo em que os truques do mágico se esgotam. Já não posso mais me dar ao luxo de emburrar a cara e esperar pelo mimo dos pais. Nem posso contar mais com a voz rouca do meu avô –palmeirense..- dizendo, depois de uma derrota do Corinthians, que aquilo não foi nada, que no final "seríamos" campeões (e de fato fomos várias vezes, nos últimos anos de meu vô, os primeiros de meu corintianismo).
Como ficou dramaticamente claro agora, antever o mal não nos livra de que ele aconteça mesmo, para desconsolo do pessimismo. Aliás, os anos têm me feito aprender a ter mais serenidade estóica -ou talvez budista- do que propriamente pessimismo. Até porque tenho mais responsabilidades, não há tempo a perder com dúvidas ou receios, na luta pelos meus objetivos. Tenho brincado o jogo da vida como o enxadrista que mexe suas peças segundo seus próprios cálculos mas também se adaptando aos lances alheios, no caso da existência, os lances do acaso ou do destino.
Foi com serenidade amarga que encarei o desfecho deste ano horrível da história do Corinthians. Como em tudo na vida, nas piores e nas melhores coisas, vejo nisso uma chance –para cada corintiano e para o clube em si- de aprender e de evoluir.
E o "grand finale" de ontem teve para mim um componente a mais de poesia concreta: minha TV misteriosamente desregulou nos minutos finais do jogo. Não pude ver o apito final que decretou o rebaixamento. Pensei que era coisa da NET, mas não. Devo ter apertado algum botão do meu (des) controle remoto.

Saturday, December 01, 2007

caminho do meio

O papa da proibição da camisinha disse ontem que não é a ciência mas sim a "fé" o que salva. O Ocidente é mesmo chegado aos dualismos rígidos e maniqueístas. A boa vida está no caminho do meio, na desarmônica harmonia dos contrários. Por exemplo, ciência E fé. Fé no homem e engajamento nas suas lutas de libertação. A Aids é uma delas. Triste retrato da fragilidade humana inevitável e das muitas injustiças humanas evitáveis -vide o cenário da doença nos lugares mais pobres do mundo, notadamente na África. Mas há o outro lado, sempre. Esse pesadelo nos ajuda a despertar para a sempre urgente necessidade de solidariedade universal. De apoio aos doentes. De investimento maciço na pesquisa de vacinas e na melhoria do acesso aos medicamentos. E de prevenção e responsabilidade, condições não para castrar, mas sim aprofundar a experiência do amor e do desejo. De novo, o caminho do meio: entre o princípio do prazer ilimitado e o princípio da realidade restritivo, advém a via da segurança -concretizada no preservativo e no respeito a si e ao outro.

Sunday, November 25, 2007

outro céu não esperes


Recomendo aos caros visitantes deste reino a peça Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett, em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Belíssima montagem para um dos textos fundamentais da dramaturgia do século XX.
Esperando Godot (1948) subverteu os padrões estéticos do teatro ocidental, por exemplo os cânones lógico-verbais do discurso e a estrutura dramática, até então baseada em ações e acontecimentos que evoluem rumo a um desenlace definido. E explicitou como poucas obras o dilaceramento trágico da condição humana num mundo hostil, sem deuses, sem valores, sem projetos, sem amanhã que não seja a morte e a eterna repetição do mesmo hoje absurdo. Há críticos que chegaram a falar, aliás, num gênero de "teatro do absurdo", em alta em meados do século XX e que teria nesta peça de Beckett uma de suas expressões mais radicais.
Dois vagabundos de traços clownescos, Vladimir e Estragon, vivem, numa estrada qualquer, desoladora e deserta, a infinita espera pelo misterioso Godot, e enquanto isso compartilham migalhas de comida e de palavra e despistam o tédio e o vazio de suas existências, apelando a mil e um subterfúgios, quase que números circenses, os "divertimentos" (Pascal) com que o homem camufla de si mesmo sua miséria.
Das muitas interpretações já tentadas para o nome "Godot", uma das mais plausíveis é a que aponta o radical inglês God (Deus) mais o sufixo francês "ot", diminutivo de intimidade, como em Charles-Charlot (Carlos-Carlitos). Alusão, talvez, à falsa familiaridade do homem com seus deuses, à tentativa melancólica de tornar a existência menos estranha ao lhe doar um significado forjado à nossa própria imagem e semelhança narcísicas.
A montagem em cartaz no Centro Cultural é do grupo Boa Companhia -de egressos das Artes Cênicas da Unicamp. E faz jus à riqueza e dificuldades do texto beckettiano, num trabalho que revela muita pesquisa, maturidade e competência técnica. Atores com grande expressividade, jogo cênico ágil e bem integrado e capacidade de explorar as ambivalências de um tipo de teatro que Beckett chamava de comitrágico. O riso não como artifício alienante, mas como alívio e "celebração" da angústia. Há momentos do espetáculo verdadeiramente memoráveis, um dos quais, neste sábado, foi saudado pelo público com aplauso em cena aberta.
A montagem consegue assim salientar a atualidade do texto de Beckett, a força de seu chamamento não tanto ao derrotismo auto-complacente, mas à responsabilidade humana pela construção de nossos próprios caminhos, ao invés de agonizar nas encruzilhadas da ilusão, da expectativa por um "Outro" -deuses, coisas ou pessoas- que viesse nos redimir do fardo e da ventura de sermos quem somos.

EL INSTANTE
(Jorge Luis Borges)

? Dónde estarán los siglos, dónde el sueño
De espadas que los tártaros soñaron,
Dónde los fuertes muros que allanaron,
Dónde el Árbol de Adán y el otro Leño?
El presente está solo. La memória
Erige el tiempo. Sucesión y engano
Es la rutina del reloj. El año
No es menos vano que la vana historia.
Entre el alba e la noche hay un abismo
De agonias, de luces, de cuidados.
El rostro que se mira en los gastados
Espejos de la noche no es el mismo.
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
Otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.

(El otro, el mismo)



O INSTANTE
(trad. José Neumanne Pinto
)

Onde estarão os séculos, onde o sonho
De espadas que os tártaros sonharam,
Onde os fortes muros que aplainaram,
Onde a Árvore de Adão e o outro Lenho?
O presente está só. A memória
Erige o tempo. Sucessão e engano
É a rotina do relógio. O ano
Não é menos vão que a vã história.
Entre a alva e a noite há um abismo
De agonias, de luzes, de cuidados.
O rosto que se mira nos gastos
Espelhos da noite não é o mesmo.
O hoje fugaz é tênue e é eterno,
Outro Céu não esperes, nem outro Inferno.
(O outro, o mesmo)

Sunday, November 18, 2007

mente obesa, espírito livre


A imagem acima corresponde à carta "O Criador", do Tarô Zen de Osho, tirada por mim na tarde deste domingo. Retrata um mestre zen que aprendeu a arte de dominar o fogo e utilizá-lo para fins criativos, superando o potencial para a cega destruição.
Ontem à noite, em conversa com uma amiga, pouco antes de entrarmos no teatro, eu falava sobre a ironia que é, muitas vezes, constatar que determinados tipos de mal-estar derivam do emprego ruim ou descontrolado de uma qualidade positiva que temos. Do ser usado por um recurso, ao invés de usá-lo em benefício da vida.
Ambos estudiosos de filosofia, nossa conversa girava em torno do poder que o pensamento tem de criar mundos paralelos, o que pode propiciar descobertas magníficas, mas também isolamento e delírio.
O louco vive de uma triste maneira o que o gênio também experimenta na carne e na alma: o sofrimento de ter razão sozinho. Metaforicamente, eis o fogo que pode ser arte criadora ou monstro devorador.
E o que vale no âmbito pessoal se estende ao plano sócio-cultural. O Fausto de Goethe - que comecei a reler estes dias, na nova e excelente edição de Marcus Mazzari- é um dos "dossiês" essenciais a quem queira investigar o Ocidente, o que somos e como viemos a ser o que somos. E, não por acaso, o livro conta a tragédia do intelecto insaciável, arrogante e desconectado das coisas, expõe as agruras e vícios da mente obesa de elefantíase conceitual: um "antro vil" , "maldito e abafado covil", como Fausto chama seu próprio quarto de trabalho. Lugar apertado, obscuro e suarento, com vidros foscos que embaçam a luz e rechaçam a chuva e o sopro do Real. Treva de carência e frustração. Início da Noite Histórica que estamos vivendo até hoje, neste cenário tétrico de crescente miséria, violência, inchaço demográfico, piora da qualidade de vida e desastre ecológico que nos vitima e que preparamos para as futuras gerações.
Que o Ser esquecido, com sua fragrância e frescor, com sua estrela da manhã, umidade de orvalho, raiar de desejos, faça cessar a Noite Histórica, ilumine, suavize e restaure o quarto e o tempo dos homens e cure o elefante mental das palavras sem vida, tão sem vida quanto o deserto que este ânimo-animal decadente pisoteia e alastra em escala mundial.
"O espelho é totalmente despersonalizado e desprovido de razão. Se surge diante dele uma flor, ele a reflete; se é um pássaro, ele também o reflete. O belo diante dele é belo, o feio nos aparece como feio. Tudo ele revela como de fato o é. Não possui poder de discriminação, nem consciência própria. Se alguma coisa se aproxima, ele a reflete; quando se afasta, ele se limita a deixar que o objeto se afaste... sem que fique um só vestígio. Essa total indiferença, essa ausência mental, ou a livre existência do espelho, pode ser aqui comparada à pura e lúcida sabedoria de Buda"
Zenkei Schibayama, moderno escritor zen
"Não pense: olhe!"
Ludwig Wittgenstein, filósofo austríaco
"Há mais de um limiar, em nossa vida, que o pensamento, apenas entregue a si mesmo, jamais nos permitirá transpor. Requer-se uma experiência –uma experiência de pobreza e de enfermidade..."
Gabriel Marcel, filósofo existencialista francês

Tuesday, November 13, 2007

mandamentos do evangelho de Nietzsche

Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche

Anos depois, reencontro em meu caminho o livro O Anticristo de Friedrich Nietzsche. Muitas vivências entre o agora e a primeira tentativa de lê-lo. "Tentativa", digo, devido ao fato de naquela época eu estar muito imerso no cristianismo eclesial, a ponto de mais me irritar do que aprender com as marteladas nietzscheanas. E Nietzsche, quando bem lido, ou seja, quando escutado na mesma sintonia de coração que a dele, não me irrita, pode no máximo me desestabilizar e convidar ao movimento.
Hoje, como naquela vez, o leio sem estar ideologicamente de seu lado em várias coisas. Mas isso aconteceu mesmo quando de minhas grandes e apaixonadas leituras de Nietzsche. E não creio que isso seja um empecilho, e sim um fator enriquecedor e intrínseco à experiência de diálogo e confrontação com esse pensador. O tempo todo seu discurso supõe uma alteridade radical, a diferença, a provocação por e a quem lhe é diferente..
No caso presente, a diferença que estrutura meu campo de leitura provém de Cristo, sim, mas também de outro "íntimo" adversário de Nietzsche: Arthur Schopenhauer. Vivo afetos schopenhauerianos por exemplo na admiração que tenho a este tipo de genialidade que é a do santo, o santo como gênio moral e metafísico, gênio enquanto superador das misérias da Vontade cega.

Ao contrário do que diria Nietzsche, a compaixão débil não cabe a esse gênio.. nem o fingimento de que se é amigo de tudo e de todos, ou a sustentação imaginária de sentimentos por "amigos" ex-amigos, como se fossem membros-fantasma do amputado.
A santidade é, ao contrário, uma integridade faltosa, precária, o fragmentário corpo íntegro do Sim à vida e do não à mediocridade contagiosa que nos ronda em nós e fora de nós. Em termos nietzscheanos, é uma perspectiva própria, uma maneira peculiar de se ter o pathos da distância e da seletividade -maneira bem conhecida dos monges, ascetas, eremitas, e que não exclui uma compaixão ativa e altiva pela tragédia do mundo, que afinal é a tragédia de nós mesmos.
Como diriam os indianos, tat-tvam-asi: "isto é tu". O outro ser humano, mesmo e sobretudo o mais humilhado, não é um "não-eu" em relação ao forte: é, diríamos com Schopenhauer, um "eu mais uma vez" .
Mas isso é papo pra outro dia.
Quero registrar os princípios que Nietzsche estabelece, no Anticristo, para o entendimento do que seu texto diz. Requisitos válidos, segundo o filósofo, para quem queira vivenciar as coisas do espírito de um modo geral.
Mandamentos, por assim dizer, que são muito reveladores de que a experiência-Nietzsche não é assim tão incompatível com a dos grandes mestres morais e religiosos da humanidade. Eis os princípios:

-ser honesto até a dureza, para suportar "a minha seriedade, a minha paixão"
-estar habituado a viver nos montes – a ver abaixo de si a deplorável tagarelice atual da política e do egoísmo de nações
-haver se tornado indiferente
-jamais perguntar se a verdade é útil, se ela vem a ser uma fatalidade para alguém...
-uma predileção, própria da força, por perguntas para as quais ninguém tem a coragem
-a coragem para o proibido
-a predestinação ao labirinto
-uma experiência de sete solidões
-novos ouvidos para nova música
-novos olhos para o mais distante
-uma nova consciência para verdades que até agora permaneceram mudas.
-a vontade para a economia de grande estilo
-manter junta sua força, seu entusiasmo...
-a reverência a si mesmo
-o amor a si
-a incondicional liberdade ante si mesmo

-isso implica falar não a todos, mas a alguns, os poucos preparados a nos escutar.. o resto é resto, o resto é a humanidade.. e ler Nietzsche, segundo o próprio, é ter a "fisiologia" anímica apta para se estar acima da humanidade banal pela força, pela altura da alma – pelo desprezo...


Friday, November 09, 2007

de mulheres, sintomas e seguro de vida

Jacques Lacan profere um de seus seminários

Medéia mata seus filhos

Começou nesta sexta, e vai até a tarde de amanhã, um congresso de psicanálise aqui em São Paulo, organizado pela instituição lacaniana em que faço formação. O tema, "Mulher-Sintoma, Homem-Devastação", é extraído de uma formulação teórica feita por Jacques Lacan em seu Seminário 23, dedicado a James Joyce.
Estão previstas mesas-redondas sobre casos clínicos, além de conferências da argentina Graciela Brodsky, um dos mais importantes nomes da cena psicanalítica contemporânea. Uma das conferências dela foi esta noite.
Ela falou sobre um dos pólos em questão no título, o "homem-devastação", ou seja, as maneiras como um homem pode representar uma devastação psíquica para uma mulher.
Excetuando-se a forma como foi realizada a tradução da palestra –a tradutora quebrava muito o ritmo da conferencista, ao interrompê-la para traduzir frase por frase, e muitas vezes sem necessidade, até por se tratar da língua espanhola-, o evento foi muito interessante. Graciela começou fazendo um mapeamento da palavra "devastação" ao longo da obra de Lacan, em seus diferentes níveis.
Um parênteses aqui: do meu ponto de vista, ser lacaniano é, ao invés de macaquear um estilo hermético -o que muitas vezes resulta em discurseira chata e vazia-, fazer jus à capacidade daquele mestre para causar desconcerto.
Ele o causava, aliás, inclusive por criticar fortemente a figura do mestre, a alienação intrínseca ao discurso do mestre, daquele que sabe e impõe seu saber goela abaixo de seus pupilos. O discurso do mestre é, segundo Lacan, o oposto do discurso do psicanalista, este seguidor moderno daquilo que o pensador religioso Nicolau de Cusa chamou de "douta ignorância", isto é, o saber não saber, para assim deixar emergir o novo, o singular, o inaudito da verdade de cada sujeito que vem a nós com pedido de análise.
E Graciela se revelou ontem bastante "lacaniana", nesse sentido, ao desmontar estereótipos e surpreender. Por exemplo, ao dizer que a mulher, enquanto mãe, ocupa uma posição masculina, a posição do ter (ter o seu filho e, mais tarde, ter o seu neto, experiências com as quais ela sonha em tamponar a ferida da castração e enfim obter o falo que a anatomia, a mãe, o pai, o marido não lhe deram); vide a paixão proprietária com que a mãe lida por toda vida com "seus filhinhos", mesmo os marmanjões, fato bem conhecido pelas pobres noras..
Um dos momentos mais sugestivos (e até engraçados) foi quando Graciela explorou dois exemplos extremos de vingança de mulheres pela frustração matrimonial: o mito grego de Medéia –a feiticeira que mata seus filhos após ter sido abandonada por Jasão- e a história do escritor André Gide com sua esposa Madeleine: esta queimou as cartas de amor que lhe haviam sido escritas pelo marido, e o fez em represália por ele ter se apaixonado por um dos jovens que costumava seduzir no transporte público de Paris . O detalhe é que a mulher conhecia e aceitava essa, como disse Graciela, "pequena perversão" (em sentido clínico, não moral) de Gide, o que não suportou foi a rivalidade propriamente amorosa...Gide, por sua vez, diz que este gesto da mulher foi um golpe fatal contra sua motivação e inspiração existencial enquanto escritor.
Assim como no caso dos filhos de Medéia, a mulher, privada do falo, parte aqui para a denúncia do semblante fálico, do poder masculino (falo) enquanto ilusão, e o faz do modo mais virulento possível, pela escolha de objetos do mais alto valor para a consumação da vingança.
Lacan -na esteira do próprio Freud, que acreditava numa "inveja do pênis" pela menina- foi bastante acusado de falocentrismo, e até de machismo, pela maneira como formula a questão homem/mulher. Não entrarei nesta seara hoje. Acabo pela menção ao arremate precioso que a psicanalista argentina deu aos casos de Madeleine e Medéia. Gerando risos na platéia, mas falando em tom sério, Graciela afirmou: "Pois bem, isso mostra como é preciso fazer um seguro de vida antes de se relacionar com uma verdadeira mulher"...

Tuesday, November 06, 2007

lua de prata no céu


Mais um dia faminto, suspira ele ao bater ponto na repartição pública de sua casa, tarde da noite. No caminho até o sofá da sala, ainda tem tempo de retirar o paletó, mas não a camisa, a calça, sapatos. Desaba. Alguns minutos de rostos risonhos na televisão e faz-se o breu. Sono profundo. Ele ronca, e o controle remoto sobre seu peito vai zapeando arbitrariamente, involuntariamente, ao ritmo da respiração.
Ante os olhos fechados dele, uma outra tela se abre, ou melhor, as cortinas roxas de um recinto que se assemelha a um palco de teatro, mas que confusamente remete a cenários de iniciações arcaicas. Incenso, névoas, jasmins por toda parte. Jasmins no cabelo da dançarina. Atabaques. Instrumentos árabes.
O peito dele zapeia dormindo, a barriga dela dança e desperta em ritmo firme e suave, dir-se-ia que uma serpente encantada sai de sua saia vermelha e preta e se ergue, se ergue, até enrolar-se no pescoço da dançarina, descer pelos seios, roçá-los e voltar para dentro da saia. Coxas, quadris, braços, o corpo todo da dançarina é agora uma orquestra corporal una e múltipla, pulsante de graça e desejo em todos os poros. Holofotes emanam luzes também roxas e douradas, que se alternam entre si, realçando a silhueta sombria da dançarina.
Ele então abre os olhos que continuam, por fora, fechados, e se vê face a face com ela. O suor escorre do corpo dela, e começa a escorrer do rosto dele. Olhares. Eles parecem hipnotizados de tesão. Atabaques se aceleram, assim como os movimentos da fêmea, que ri o riso do êxtase. Chamas. Chamados. Agora são os cílios dela que descortinam e abismam a visão por entre portas e portas infinitas que vão se escancarando como que por ordem de uma ventania de aromas.
É alta noite e estão contemplando o luar à beira-mar. Ao lado dele, a bailarina, agora com trajes recatados, mas que mal são capazes de conter a libido irradiada por cada centímetro de seu corpo. A lua cheia e de prata no céu não é páreo em brilho e beleza com relação às duas luas que piscam nos olhos da dançarina. Silêncio. Faltam palavras. Não, o que falta é necessidade de palavras. O homem e a mulher se conheciam há muito, desde pelo menos os sonhos infantis de um e outro, e mal haviam acabado de se apresentar.
A cena quase selvagem do palco mágico agora se transmutou num certo romantismo tímido, mas não ingênuo. Nada ingênuas são as mãos dele,que dançam na dançarina, a acarinham e acariciam, sem pressa, sem ansiedades, mas com alguma insegurança. O acanhamento aumenta quando ele não consegue mais resistir ao impulso de beijá-la. Mas não sabe bem como "pedir". Eis que um buquê de jasmins miraculosamente surge ao seu lado, ele o toma, cheira e a convida a cheirar o delicioso perfume, e põe uma das flores sobre a orelha direita da dançarina, depois de algum sussurro quase incompreensível mas que gera risos em ambos.
E enfim a timidez se desfaz, eles se beijam, a princípio beijos curtinhos, que vão se alongando, crescem em voluptuosidade. Ele, com uma mão, abre o zíper da calça da dançarina, com a outra andarilha por dentro.. movimentos leves.. umidade quente. Ele se reclina sobre o corpo dela, numa intensidade inumana, tem o aspecto de um sátiro com pernas de bode, o que assusta e excita ainda mais a dançarina bacante.. mas eis que, ao se dobrar sobre sua caça suculenta, o que o homem-bode depara é com o chão da sala: sozinho, com sua "roupa-social" , cai do sofá, e com ele o controle remoto espatifa-se no chão. Na tela da TV, o arco-íris típico de fim de programação.
-Unzuhause-

Sunday, November 04, 2007

fé demais não cheira bem



Reza forte em Jerusalém

Em Jerusalém, uma repórter vai ao Muro das Lamentações para se encontrar com um velho judeu e entrevistá-lo. Chegando, e vendo que ele está rezando, aguarda. Depois de uma hora, o ancião pára de rezar, e ela o aborda:
- Bom dia, senhor! Eu sou a repórter da TV AL JAHZEERA que queria entrevistá-lo.
- Ah, sim, minha filha, não tem problema. Diga-me, o que quer saber?
- Disseram-me ser o senhor a pessoa que vem diariamente rezar aqui no Muro há mais tempo. Há quanto tempo o senhor vem aqui para rezar?
- Ahh... Há uns 80 anos...
- Nossa!... 80 anos! E, nesses 80 anos, o senhor tem rezado pedindo o quê?
- Rezo pedindo Paz no mundo, Paz no Oriente Médio, Paz entre judeus, cristãos e ismaelitas. Rezo para que cessem o ódio e a guerra, e para que nossos filhos cresçam juntos, em Paz e Amizade.
- E como o senhor se sente após 80 anos de orações diárias no Muro?
- Sinto-me como se estivesse falando com uma parede !

Friday, November 02, 2007

anseios de peregrino



"Porque nos seus corações a Natureza assim se agita,
As pessoas anseiam partir em peregrinação,
Para vagar em busca de praias distantes,
De remotos e famosos santuários em terras diversas"
Geofrey Chaucer


"Para as pessoas do mundo todo, a peregrinação é um exercício espiritual, um ato de devoção que visa encontrar uma via para a regeneração ou cumprir uma penitência. É sempre uma jornada de risco e de renovação. Porque uma jornada sem desafio não tem significado; e uma sem propósito não tem alma"
Phil Cousineau

Eis a resposta do I Ching (milenar oráculo chinês) à minha pergunta, hoje de manhã, sobre se este é um tempo propício para uma grande viagem:
"Do perigo somente se pode sair como a água de um vale: deixando fluir, adaptando-se à situação em cada instante".
As linhas específicas do hexagrama traziam advertências suplementares, como a de que "o importante é uma atitude completamente sincera e verdadeira", para além de convencionalismos e formalidades; e também: "Quem, em meio ao perigo, perde seu próprio caminho, seus ideais e suas normas morais, atrai sobre si a desgraça. Impõe-se a reflexão".
Se as cascas da metamorfose estão prontas para quebrar, que venha o vôo do novo, nas asas do amor ao que se foi e ao que virá.
Águas cristalinas do devir, purificai-me dos medos tolos, dos fardos ilusórios, das confusões obstrutivas. Limpai-me do suor e da fuligem do espírito da retenção, com seus calores asfixiantes de fingimento e desperdício. Que eu fique embebido e embriagado uma vez mais do sopro refrescante de renascimento que vem de se ir além.
Além. Amém. Amem.

Tuesday, October 30, 2007

além do princípio do niilismo

Acontece até a próxima quinta-feira o X Encontro Nacional de Pesquisa na Graduação em Filosofia da USP. Além de palestras e minicursos de professores, estão previstas mesas-redondas com participação de graduandos de diversas universidades do país. Eu fui coordenador de uma dessas mesas, na manhã desta terça. O tema era filosofia e literatura.
Um dos alunos articulou Kafka e Nietzsche no âmbito da questão do niilismo (nihil, "nada"), mostrando como a ficção de um e a reflexão teórica de outro, respectivamente, abordam um mesmo problema crucial, o da crise de sentido e de valor da vida humana, após a derrocada da civilização cristã-iluminista. E discutindo como, nos dois casos, se opera uma crítica da vontade de Verdade -essa ilusão, que herdamos de Sócrates, de tamponar a dimensão trágica da vida humana apelando para uma pretensa explicação racional de todos os mistérios e contradições do real.
A outra aluna tratou do conto "A causa secreta", de Machado de Assis, investigando a questão do sadismo, central nesta narrativa, na tripla vertente da obra literária, da filosofia e da psicanálise freudiana. Ela também deu grande destaque à denúncia nietzschiana do processo civilizatório, que ao invés de luzes, produz sombras, ao mascarar e reprimir as dimensões instintivas da natureza humana.
As duas falas geraram bastante discussão com o público. Eu fiz pontuações sobre como esta cultura niilista de que ambos trataram acaba por se refletir no próprio tema geral de nossa mesa, a relação entre filosofia e literatura: em tempos de descrédito na Razão de tipo tradicional, à la Hegel, abstrata e sistemática, cresce a importância da literatura como via de acesso filosófica à experiência humana concreta, que é sempre particular a cada um de nós e universal a todos, e, além disso, não é apenas raciocinada, mas imaginada e sentida.
Como se dizia nas pichações em Maio de 68 em Paris, "as estruturas não descem às ruas", os conceitos teóricos não fazem passeata, não se apaixonam, não choram junto aos entes queridos que se foram, não sonham.
Além de ter voltado a pôr um relógio no pulso séculos depois rs –devido à necessidade de zelar pelos tempos das comunicações e debate-, saí ganhando pelo intenso momento de troca e de aprendizado, e também por ter ido além de meu crônico niilismo acerca dos rumos deste pobre país. Com jovens como estes que conheci hoje, dedicados, inquietos e motivados para o exercício do pensamento crítico e libertador, nem tudo será imbecilidade e opressão nos tempos vindouros.

Saturday, October 27, 2007

transfiguração gloriosa

Ressurreição de Jesus Cristo: símbolo arquetípico de uma redenção do espírito e da carne

Isaac Newton segundo o olhar de William Blake: ambivalência entre a atenção do espírito e o encapsulamento do corpo


"Em profunda escuridão caem aqueles que seguem a ação. Em profunda escuridão caem aqueles que seguem o conhecimento".
Esse verso dos Upanixades pode ser iluminador para aqueles que se debatem com a difícil relação entre teoria e prática na vida de todos nós, e dos intelectuais em especial.
Tanto a ação quanto o conhecimento, se isolados, são caminhos estéreis, de "profunda escuridão". A ação sem conhecimento se move na ignorância repetitiva, o conhecimento sem ação se degrada numa erudição vazia.
Em nível metafísico, conhecer, para os hindus, implica a negação do mundo, na medida em que os pólos opostos se anulam e o véu de Maya se rompe. Ora, agir é sempre agir no mundo, e nesse sentido é uma afirmação de algo e de si.

De modo que temos aqui uma unidade paradoxal entre a renúncia e a participação no mundo. Como ensina a Tradição, o Samsara (mundo ilusório, a roda das reencarnações) já é o Nirvana (cessação, extinção, beatitude atemporal), e o Nirvana já é o Samsara. No mar sem se emaranhar. Estar no mundo sem mais esquecer que não se é do mundo.
Nesta tensa relação repousa a possibilidade de evitar, entre outras coisas, as idolatrias que coreografam na forma de símbolos alienantes uma Unidade ainda não vivenciada por inteiro, uma evolução sempre invisível e duvidosa, sempre a caminho e posta em questão.

Daí que meu espanto com as graves denúncias (pedofilia) que foram levantadas esta semana, contra Júlio Lancelotti - uma figura importantíssima da Igreja Católica de São Paulo e um dos padres mais ligados à causa da promoção dos excluídos- possa trazer um aprendizado já válido em si, ainda que ao final se comprove a inocência do acusado.
Aprendizado de certas obviedades fáceis de se esquecer, por exemplo, a fragilidade brutal de todo ser humano, sobretudo dos funcionários papais do Bem absoluto; assim também a felicidade e a urgência de uma redenção espiritual que não represente a negação , e sim transfiguração gloriosa, do corpo, pois violência só gera violência: não são só os menores de rua de Júlio Lancelotti que viram criminosos numa sociedade agressiva e injusta, também os nossos "menores" inconscientes -as pulsões desnutridas, esfomeadas, largadas na esquina do deus-não-dará- se armam até os dentes para se vingarem de um estilo de vida repressivo, unilateral, inatural, caso desta regra eclesiástica do celibato obrigatório.

Tais impasses teriam, provavelmente, melhor encaminhamento se a teoria e a prática estivessem mais irmanadas: desse modo a renúncia ao mundo, pela graça de Jesus Cristo, pelo estado búdico, pelo êxtase do xamã, ou como quisermos chamá-la, alcançaria a nobreza que merece, não se confundiria com um tolo, hipócrita, moralista e, subterraneamente, criminoso embotamento dos sentidos.

-Unzuhause-

Monday, October 22, 2007

vida carneira e o equilíbrio "Zén"

"Oi, eu sou o Zén"
Wagner Moura em espetacular atuação como Capitão Nascimento, do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro), no filme Tropa de Elite

Ontem foi para Zén (Zé Ninguém) um grande dia: voltou a se aventurar pelas sendas do banal. Nos últimos meses seu cansaço com a rotina, e a opção pelo recolhimento, fizeram com que até mesmo os gestos corriqueiros tomassem, ao serem praticados, um peso, uma dificuldade adicionais, como que se ele fosse um carneiro sem pele e assim desprotegido para o convívio habitual com as coisas da vida.
É que ficara claro para Zén, a partir de certo instante, a desagradável obviedade de seus scripts, e o invisível número que se gravara em seu peito e costas desde que a mãe lhe trouxera ao mundo, o número de carneiro a mais do pasto do "Todo mundo". O que Todo mundo pensa, o que Todo mundo gosta, o que Todo mundo quer, o que Todo mundo sonha, o que Todo mundo acha um absurdo, o que Todo acha um luxo: era esse o cobertor quentinho que agasalhava o Zén nos prados da segurança de existir.
Mas Zén se indignou e se afastou. Dir-se-ia que o calor da massa ficou quente demais, com perdão da redundância. Até o céu parecia a seus olhos acometido de certa prisão de ventre, sem umidade outra senão a do suor pela chuva travada que ele não conseguia descarregar, Sol impiedoso, verão ano inteiro. O tempo, em suma, foi ficando um inferno. "Aqui é o inferno para pensamentos de eremitas; aqui, os grandes pensamentos são refogados vivos e cozidos picadinhos", ouviu o Todo Mundo dizer. Era uma citação dessas que Todo Mundo gosta de (se) fazer para aparentar que quer que tudo mude desde que tudo fique como está. Zén gostou da citação, sentiu nela um ventinho que por contraste acentuou o abafado das cobertas. E então ele as tirou e se retirou. Pensou que acharia esse frio e neblina e chuva do verso de Nietzsche em algum canto ainda poupado pelo meio-dia universal do Todo Mundo.
Mas ontem não resistiu, até o frio pode às vezes também matar de calor. E a reestréia de Zén foi em grande estilo, resolveu logo encarar a mais óbvia das obviedades hoje em cartaz, o filme Tropa de Elite, hit parade do Todo Mundo, filme destes que você pode tranquilamente dizer que amou ou odiou sem ter ido ao cinema (nem pirateado), tantas são as opiniões divergentes prontinhas na prateleira.
Zén particularmente (se esse advérbio ainda cabe na gramática do Todo Mundo) gostou do filme. E mais, saiu encantado pela performance de Wagner Moura, ator que faz de uma pessoa possivelmente escrota -o Capitão Nascimento, virulento homem do Bope, polícia de elite do Rio de Janeiro-, um personagem complexo, humanizado e, inclusive, capaz de despertar simpatias perversas em nós, assim como o Hannibal Lecter de Anthony Hopkins.
Tirando os vinte minutos de trailer ("que absurdo esse Espaço Unibanco, vou reclamar para o jornal", ruminou alguém ao lado), tirando a lotação das ruas, o aperto geral, a prisão do ventre do céu e da terra - ameaçava e só ameaçava chover alívio no deserto-, tirando a necessidade de pagar táxi a poucos metros de chegar em casa, devido a tipos suspeitos no meio do caminho.. tirando tudo isso, a aventura de Zén foi muito legal, sempre bom saber que o pasto do (Todo) mundo segue na santa ordem, nem que à base de muita polícia de choque e sedativo, e que a caravana passa e a carneiragem fica.

Friday, October 19, 2007

do príncipe sapiens ao homo sapo








Ontem de madrugada, horário típico para eu pedir licença às superfícies do mundo e abrir as portas do reino Unzuhause, foi estranho. Abri de fato as portas, vontade de escrever, mas o que saía eram só linhas em branco. Comprovação da distância entre querer e estar inspirado. Aliás, diferença radical, a começar da forma ativa de um, e passiva do outro. O sujeito quer, a inspiração NOS quer. O homem moderno recalca um pouco essa diferença, na medida em que sua tecnologia e sua vontade de poder transformam, como diria Heidegger, a terra em mundo: o homem moderno fabrica, com interesses materialistas, um território de guerra, exploração e planificação naquilo que antes era campo aberto de possibilidades e de auto-oferecimento do Ser aos que estivessem entusiasmados o bastante para recebê-lo. Entusiasmo, vale lembrar, quer dizer: estar repleto do divino. Estado de poesia.
Eu sei que, no meu querer inesperado e ininspirado, só me vinha -como ainda me vem- um impulso: "O pulso" dos Titãs.

Sempre adorei essa música, embora muitos a considerem bizarra ou rePULSIva rs. Mas o pulso, o impulso, a pulsão, não são também – repulsivas?
Nesse desfile de enfermidades do corpo e da alma, a música canta algo que vive e insiste por debaixo. É o medo que o filósofo autêntico sente e confronta ao invés de apelar para a alienação no mundo das "Idéias". É Dionísio e sua gargalhada trágica nas ruínas do mundo e no reemergir da terra. É o macaco ventríloco que faz do humanídeo seu brinquedo de civilidade, é o bobo da corte que interrompe o jantar da nobreza e declara a destituição de Sua Majestade Sapiens, é o tombo que a devolve ao lodo pútrido sob e atrás do palácio, é a ducha que lava o príncipe nu com a sujeira da lama regeneradora (assistam ao filme Lúcia e o Sexo). Do sapiens ao sapo.

Monday, October 15, 2007

paraísos artificiais


"Eu te procurava fora de mim e não te achava, porque estavas em mim mesmo".
Apesar da advertência de Santo Agostinho –um dos pais fundadores da cultura cristã-, penso que o homem ocidental acabou por desenvolver, desde suas raízes religiosas, um modo de vida, uma mentalidade e uma espiritualidade por demais "extrovertidas", isto é, voltadas para fora. Vide o preconceito empirista segundo o qual a mente é uma página em branco que só vem a "conhecer" o que recebe do mundo externo, nada haveria no intelecto que não tivesse passado antes pelos sentidos... Disso é um pulo para o fetichismo consumista e capitalista que diz que você é o que você tem.
Também nossa concepção de Deus é a de um "Outro" transcendente, que nada tem a ver com nossas fragilidades e imperfeições, um totem a ser cultuado com ritos, credos e dízimos. Por mais que compremos livros de auto-ajuda que citem palavreados "orientais" e técnicas de ioga, meditação etc, o fato é que estamos ainda distantes da experiência ensinada por Buda, ou pelos Upanixades, da Iluminação como processo interior, em que sacrifício, sacrificador e Deus a quem se sacrifica revelam-se como Um.
Na história do pensamento ocidental moderno, Espinosa –que não por acaso foi excomungado e, pouco tempo antes, talvez fosse mandado à fogueira- é uma das poucas exceções a nos apontar para um caminho alternativo, ao enunciar a célebre fórmula "Deus sive Natura": Deus, ou seja, a Natureza; Deus como a Substância única,de que todas as coisas são modos ou variações, o Criador que não criou e deu as costas para o mundo, num céu de perfeições e barbas brancas, pois é um Criador presente em todas as suas criaturas.
Esses pensamentos me ocorreram nesta madrugada, numa situação bem "prosaica": faltou luz em casa! Eu sou de dormir tarde, separo essas horas da noite para o sagrado hábito das leituras, navegações internéticas, filmes.. olha, foi complicado suportar a privação de tudo isso.. e o mais patético era eu apertando, váaaaarias vezes, o botão do celular, e não só para fins práticos (não dar canelada em nada ao caminhar, por exemplo) – não, parecia sorver de meu gesto algum significado de "consolação", de amparo.
Como urbanóide viciado nos confortos tecnológicos, e perdido sem eles, eu inconscientemente usei das pobres baterias do meu celular numa espécie de micro-rito tipicamente ocidental, extrovertido, em honra e súplica da Luz que "está fora", que está ali, e não na escuridão de si.

Friday, October 12, 2007

dia da criança


Paulo Autran (1922-2007)

Stanislávski dizia que o grande ator é sobretudo um homem de fé: fé cênica, crença que permite viver e corporejar não a mera representação, mas sim a presentificação de um mundo outro que não o dos olhos literais. Um mundo para olhos literários.
E a fé cênica, prosseguia o teórico russo, se nutre das forças elementares do humano, é a loucura lúcida que impulsiona o menino em sua brincadeira com uma vassoura que ele, num passe de mágica, transforma em cavalo, para após épicas batalhas, converter em vassoura de novo e largar num canto, quando a mãe chama a criança para tomar o milk-shake. Fé cênica de entrar e sair do mundo da imaginação quando bem quiser, com a leveza e a franqueza de quem não teve ainda a mente turvada pelas claras certezas e cobranças da Razão envelhepobrecida.
Pois neste Dia das Crianças o Pai é que te chamou, menino Paulo, para tomar milk-shake no céu e lá brindar, brincar e descansar. Não descansar muito, que seria chato e nem combinaria contigo, ator cujo fogo criador fez com que participasse de exatas 90 peças, fora cinema e televisão. Gerações de profissionais e de espectadores devem muito ao teu exemplo, carisma, fé cênica , fé na arte, fé no homem.
Obrigado, mestre . Que tua alma seja acolhida no alto Olimpo dos bem-aventurados que cumpriram sua missão, e que teu corpo e a tua vassoura -de menino e de bruxo- nos irradiem proteção e inspiração desde o fundo da terra, como Édipo em Colono.
Ouçam, pelo link abaixo, Paulo Autran recitar Carlos Drummond de Andrade:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u336321.shtml

Tuesday, October 09, 2007

imagens do despertar


Antiga imagem hermética da abertura do homem para a Transcendência

Uma das cenas finais do filme O Show de Truman, quando o herói subiu as escadas que o levarão ao mundo real (true man= homem verdadeiro)

Sunday, October 07, 2007

OBRIGADO MEU SÃO JORGE !!!!!! rs



CORINTHIANS 1 X O SÃO PAULO
(aos 41 minutos do segundo tempo, quebrando tabu de 4 anos, em meio à pior crise da história do Coringão, ameaçadíssimo de rebaixamento, jogando contra um time 30 pontos na frente e já praticamente campeão etc etc etc)
sei que esta tarde de domingo entra pra história aqui no reino Unzuhause por um grito animalesco, desvairado, que me tirou a voz toda mas que fez meu dia feliz..
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLL!!!!

Saturday, October 06, 2007

carrinho de rolemã


Túnel, a infância que se despe e se despede, ensurdeço com tropas de fuzilamento e o ruídos do circo das placas de néon na noite escura da alma. Alma? Troço obscuro de corpo, esquisito, algo que cresce como aquilo que entumesce quando vejo a vizinha morena saindo pra passear com seu vestidinho curto preto, vento quente que me sobe e que não sei de onde vem e para onde vai. Nietzscheando horas em que só no silêncio é possível persistir amigo da sabedoria. Schopenhauer falando do homem que é o mais poderoso e mais sofredor dos animais porque é ciente de seu poder e de seu sofrer. Cãozinho atmã pulando revolto e quebrando meu dente.
Eu vejo quadriculado, o portão está trancado e sobe ao céu e eu espero por são pedro descendo de lá e são pedras que fecham o túmulo, quando elas rolarão? o túmulo está oco e o portão só está encostado, o cadeado está aberto, então por que se fazer de tão pequeno, por que não abrir o portão e sair, na tempestade que seja, no temporário do sendo, caindo na vida, deixando o carrinho de rolemã levar aos prazeres e vertigens da verdade do Homem? Carrinho de rolemã por entre corredores de palavras que não bastam, de ditos e ensinos que só me fazem escorregar mais, porque todo jeito de pensar é possível mas nem todo jeito de pensar é pensar, e não ser pensado.
A mulher do café e sua sabedoria de que trabalha para viver e não vive para trabalhar, rindo riso forte da advertência de um orixá. Deus meu, mas é preciso desvestir o personagem. Deus que dança, alma que entumesce, caminho do meio. Do meio do corpo da vizinha morena que quero pra mim quando passa com sua sainha preta e suas coxas torneadas e seu riso maroto. Túnel. Da lua quimérica que brilha luzes emprestadas rumo ao Sol que transborda de si, em si, excitado.

Thursday, October 04, 2007

clara-idade da escrita

Krankheit ist wohl der letzte Grund
Das ganzen Schöpferdrangs gewesen;
Erschaffend konnte ich genesen,
Erschaffend wurde ich gesund.
[Imagina-se Deus dizendo: 'A doença foi sem dúvida a causa final de todo anseio de criação. Criando, pude recuperar-me; criando, tornei-me saudável']
HEINE, citado por Sigmund FREUD

Interessante que, em nossa língua, o termo ESCRITA tenha também uma conotação de destino ou tabu. Um exemplo futebolístico, evidente e infelizmente impossível de se concretizar: no próximo domingo, o Corinthians tentará "quebrar a escrita" de só perder para o São Paulo nos últimos anos (aliás, se não tomar mais uma goleada vergonhosa já me darei por satisfeito rs..)
Pois essa ambigüidade entre escrita-ação (de escrever) e escrita-destino me toca de modo especial neste momento. Foi este um dia propício para tanto, talvez pela sessão analítica -sempre um encontro vertiginoso com a linguagem e o aquém- , talvez pelo cansativo e tumultuado transitar, ao longo das horas, por diversos papéis, que no meu caso são diversas (e exigentes) formas de trabalhar com palavras - do nascer ao pôr do sol, fui hoje, sucessivamente, jornalista, tradutor, analisante, estudante, agora blogueiro rs.... Ufaaaa! rs Cansaço, mas felicidade de ter combatido o bom combate, como diria o Apóstolo.

Na palavra -tentando, nunca bem o bastante, exercê-la ou recebê-la na profundidade que ela merece-, sinto-me menos falho, menos falto. Quase diria que, com e na escrita-ação, me sinto "em casa". Mas não digo, pois, como Unzuhause de batismo, sou um não-estar em casa irremediável, é essa minha escrita-destino, minha escrita-sortilégio. O que aliás é errância só agravada pela palavra certeira, palavra re-bela-da. Bela e revoltada. Palavra que queima e que sangra, forma que não me con-forma.
Aquele que retiver sua vida, perdê-la-á, e o que entregá-la por mim, esse viverá eternamente. Assim falou a Palavra, o Logos encarnado.
A palavra me solicita por inteiro na pira sacrificial impiedosa com os extravios. Chamas que me chamam a um banquete à luz de velas no trem-fantasma em disparada. Clara-idade de sair do ventre opaco da passividade iletrada ou encharcada de letras vazias.
Criando, meus vãos não são em vão.

Sunday, September 30, 2007

na teia do tempo


Boa notícia! Estão sendo relançadas, agora em edições de luxo, as primeiras histórias de super-heróis da Marvel. Entre eles, o Homem-Aranha, que sempre foi o meu favorito. Gostava demais de suas aventuras, e mais que isso, de seu perfil psicológico: a fragilidade emocional de Peter Parker, sua orfandade, seu jeito isolado e mal-compreendido na faculdade. Isso tudo falava muito a mim, embora eu até tenha sido um colegial e universitário bem relacionado, pelo menos no nível epidérmico.
Sim, pois um sentimento de abismo muitas vezes vem me chamar e exigir que eu faça minhas mesuras gentis -como o ator que se despede do público ao fim do espetáculo-, peça licença e dê o fora. Tire o uniforme do ajustamento social, me vista de minha nudez, lance minha teia ao longe mais alto e saia voando pelos ares. Assim era o Homem-Aranha, e seu "a menos" de adaptação mundana era a contrapartida do seu "a mais" de poderes e de missão. Ah, então me idealizo como um super-herói?
Não, não é isso, mas a centelha do Homem Interior, daquilo que nos faz ir além de nosso personagem cotidiano, o Heróico de cada um e de todos -o Self, arquétipo do inconsciente coletivo-, nada disso dura muito sob a ventania erosiva de mediocridade do rebanho, da falação do zé-ninguém parasita, da maldade dos pobres-diabos agarrados a mesquinharias e pequenas vontades de potência. Peter Parker vive a contradição de uma força que é, necessariamente, fraqueza solitária ante a "força" opressiva da manada ingrata e sem graça. E esta contradição se desdobra em outra, uma divisão interna do espírito do herói entre a compaixão e a aversão. Tudo isso é expresso metaforicamente em superseres como o Aranha, tanto mais poderosos quanto mais humanizados. Luminosos e sombrios.
Mas o Homem-Aranha me marcou também em outro aspecto: o de sua fatídica troca de uniforme. Alguma mente brilhante resolveu, certa vez, não me lembro mais o ano (efeito do trauma, talvez rsrs), mexer no tradicionalíssimo figurino vermelho e azul do herói, e o trocou por uma coisa horrenda e "fashion", uma roupa toda negra com uma aranha branca na altura do peito.
Sei que parei de imediato de ser o colecionador e devorador assíduo e apaixonado que era das histórias do Aranha. Deixei inclusive de criar meus próprios desenhos, em que ele era um dos grandes protagonistas . Senti-me, em suma, traído rs. Nunca mais o amor voltou a ser o mesmo rs.
Hoje, vejo aquele episódio como uma antecipação ainda infantil, ingênua, do que nunca mais deixei de sentir e investigar: a corrosividade do Tempo, a corrupção inevitável de tudo, inclusive de nossos objetos de apego mais intenso. Coisas, hábitos, contatos, relacionamentos, nada resiste, só nós é que resistimos ao que é inerente à vida: o fluxo criador e destruidor.
-Unzuhause-

Friday, September 28, 2007

Romeu e Julieta além da vida e da morte

Romeu e Julieta, de Auguste Rodin

Chegam-me aqui no reino Unzuhause, diretamente da superfície da terra, notícias a respeito da morte de André Gorz, intelectual francês de renome– sociólogo e filósofo, autor de livros importantes, como Trabalho e Alienação. Os pesquisadores brasileiros foram muito influenciados por ele.
Mas o impacto do fato vai além da perda em si deste grande pensador. As circunstâncias de sua morte são especialmente notáveis.
Ao que tudo indica, Gorz faleceu por causa de uma "enfermidade" fatal, a mais humana, demasiado humana, de todas: amor. Não aquela forma fake de amor que é a fúria do infeliz que mata e se mata por ciúmes ou outra patologia qualquer. Não. Ele se matou, aos 84 anos, juntamente com e por causa da esposa de 83, que sofria de uma doença degenerativa irreversível.
Um tema como o suicídio é sempre muito controverso. Não pretendo dissertar academicamente sobre isso hoje. Quero apenas registrar a grandeza trágica do ato de Gorz: "Pra que preciso viver, nessa altura do que já vivi e sei sobre a vida, se é para estar sem você, ou pra te assistir sofrer assim?" – é assim que o escuto sussurrando ao ouvido de sua esposa (de nome Dorine, que ironicamente traz o termo dor dentro de si) nos instantes em que deliberaram o ato.
Como que uma versão octogenária de Romeu e Julieta, a história de André e Dorine nos diz de um amor maior que a fragilidade da vida, maior que a estupidez da morte - só um amor assim pode reconciliar vida e morte num e por um sentido possível. Sentido da existência humana, errante, pecante, falante, imprecante. Sentido no não-sentido, pois com o homem advém no mundo um valor "humanizado" para o desenrolar bruto, belo e cruel dos acontecimentos da Natureza desumana.
A louca profundeza do Ser está toda na dor e no sublime do ocaso de André e Dorine. Acordes wagnerianos tocam neste instante no meu reino Unzuhause (ópera Tannhäuser, minha favorita na obra de Richard Wagner, ao lado de Tristão e Isolda). São minha singela homenagem a vós, que partistes juntos nos deixando lição maior do que todos os livros de sociologia jamais poderiam fazer.
Amém – Amem- Amai-vos para sempre onde quer que estiverdes.

-Unzuhause-


Tuesday, September 25, 2007

sonho de pigmalião


Era uma vez um rei muito arrogante e poderoso, que de tudo e de todos dispunha a seu bel-prazer, mas que guardava entre as quatro paredes do seu quarto real um segredo: a tristeza pela falta de uma mulher que realmente amasse. Não lhe faltavam, é claro, ofertas, nem noites cálidas. Mas a frustração do desamor lhe doía, e talvez fosse a origem de sua neurastenia, de seus caprichos irritantes, ultimamente agravados por humores hipocondríacos.
Conviver com pessoas (inclusive com ele próprio) lhe pesava como um fardo, e seu único consolo era lidar com pedras: a escultura. Ele era exímio na arte de, como gostava de escrever no seu diário íntimo, extrair do mármore bruto a forma perfeita, que desde sempre estava no mármore bruto, de lá aguardando "ganhar vida". Também seu coração era um mármore bruto, à espera da lapidação do amor.
Numa noite de sono agitado, de sonhos inquietantes, ele acordou subitamente, suando febre, tonto e perdido no espaço. Viu sua própria imagem que o via no espelho, que o via e o fitava com olhares irônicos, inclusive fazendo caretas e proferindo murmúrios incompreensíveis. O rei, assustado, sentindo-se do tamanho de um pigmeu, tentou apelar para as velhas orações aos deuses -fossem eles do panteão do reino ou estrangeiros-, mas as palavras fugiam, se esmaeciam, fósforos riscados e impotentes ante o negrume sugador.
Quis sair imediatamente do quarto, mas além dos trajes inadequados, lembrou-se de que costumava se trancar, porém agora não sabia onde estava a chave. Onde estava a chave correta, pois muitas, parecidas entre si e com a correta, ele foi achando aqui a ali no fundo das gavetas, mas eram chaves falsas, mal entravam na fechadura, e se entravam, giravam, giravam, giravam em vão. A janela também estava vedada, e seus braços frágeis jamais conseguiam mexer nela, o rei precisava que seus servos fizessem isso por ele todo santo dia. Mas o servos não estavam ali então. Chamá-los como, se até a campainha ficou inexplicavelmente muda?
Num esforço supremo para vencer o temor e a letargia que após tanto esforço foram se apossando dele, o rei, de barriga para o teto, tomou fôlego e se lançou ao chão. Viu então um brilho ao fundo do quarto: era uma estátua em que vinha trabalhando há meses. A estátua de uma linda dama, a dama de seus sonhos.
O trabalho estava emperrado há algum tempo; o rei, mestre no ofício, desta vez não conseguia se satisfazer, e justamente quando decidiu exprimir seu ideal de mulher, na língua pétrea de sua arte. Começava e logo desanimava, inclusive tinha certos acessos de fúria ou melancolia que levavam o doutor da corte a lhe ministrar severa medicação.
Mas, nesta estranha madrugada, mais estranho ainda era o brilho que vinha da estátua incompleta. Como se ela não estivesse coberta pelo grosso pano que o rei lhe pusera. O rei então, já menos debilitado, se levanta e vai ao encontro daquele manto negro e fosforescente, e se choca ao levantar o pano: uma mulher deslumbrante estava no lugar daquele esboço tosco de outrora. E mais: a mulher lhe fitava com um desejo vívido, e sem precisar dizer nada, estendeu para ele seus braços de mármore, já quase indistinguíveis de braços de carne, como os de todo mortal. Sim: a estátua realmente ganhara vida! E era a expressão perfeita do que o rei muito procurara em todo o seu reino, por toda a sua vida: o Amor! Eles se abraçaram com força e emoção, se beijaram. Mas então, a surpresa: a estátua paulatinamente se imobilizou, endureceu, esfriou, voltou ao mero mármore de onde viera! O rei se desesperou, chorou, pensou em se matar. Até que bradou um grito que todo o reino deve ter escutado: "Melhor ter um coração de pedra do que um coração que sangra!" Mal terminara de repetir esse -como dizer?- protesto, sua voz ficou suspensa, retida, enregelada como todo o corpo do monarca.
Suas bochechas não se moviam, nem cabeça, nem tronco, nem nada. As lágrimas que -pela primeira vez em séculos!- escorriam do seu rosto estancavam no tórax, virando botões do pijama de pedra do rei. E ele se transformou em estátua para sempre, com um sorriso desvairado e mãos estendidas para sua amada, que em poucos segundos voltou a ser a massa incompleta e excessiva de antes.
-Unzuhause-

Sunday, September 23, 2007

nolis foras ire

Rembrandt, Filósofo em Meditação (1632)
Monge em introspecção

Nolis foras ire,
in interiore homine
habitat veritas
Não saias, é no interior do homem que habita a verdade

Tuesday, September 18, 2007

núpcias


Sponsus e sponsa do casamento alquímico transformador da vida

Acabo de receber uma notícia que muito me alegra: Kel, minha adorada des-orientadora Kel, anunciando seu casamento para breve!
Ela é uma pessoa fantástica. Encanta-me pela inteligência, humildade, generosidade e força. Desde que a descobri, senti uma estranha proximidade para além das muitas léguas que hoje nos afastam. Senti o impacto de uma sim-tonia rs de vibração, uma inexplicável felicidade em saber que ela existe.
Pois nesse momento, minha linda des-orientadora, invoco as forças benévolas dos grandes bruxos, anjos e santos do mundo, da Mãe de Deus intercessora, de Gaia Soberana da Terra, e do Espírito divino, para que abençoem a vc e a seu noivo nessa nova etapa de vida. Núpcias alquímicas que frutifiquem no filius philosophorum do amor, do prazer e da Sabedoria.

Servindo-me de uma de tuas marcas registradas, desejo-te: LUZ!

Thursday, September 13, 2007

a jovem e velha Roma de Calígula

Cartaz do filme Roma, de Fellini

Essa semana, em conversa com minha cara amiga Helena, falei de meu hábito –que pode parecer bizarro para os que me conhecem por outros assuntos rs- de assistir a videoclipes no canal Multishow. E rimos muito quando ela contou que também assiste, como "experiência antropológica", nas palavras de Helena (que são exatamente as minhas também rs).
Sim, considero os clipes uma fonte preciosa para todo interessado em saber a quantas anda a cultura, os valores, os costumes da juventude contemporânea. E, na medida em que a juventude hoje é imposta como ideal para todos, dos 8 aos 80 anos, resulta que os clipes revelam como anda a sociedade em geral. Anda obviamente péssima, se depender de grande parte do conteúdo retratado nos clipes: violência, exibicionismo, linguagem pobre, fetiche do dinheiro, arrogância, banalização do sexo, agressões (físicas e morais) à mulher etc etc: não falta nada nesse lixo cultural produzido nos EUA e exportado e/ou imitado pelo mundo todo.
Claro que não se pode generalizar, há vídeos e músicas que transmitem outras mensagens, ou que são pura e simplesmente bacanas. Também devo dizer que minha motivação "científica", nesse caso, tem um outro lado da moeda, mais pessoal: certo ajuste de contas com minha adolescência perdida.
Saudade das épocas em que me era possível mais despreocupação e descompromisso. E remorso por não ter aproveitado mais essas épocas: fui adulto cedo demais, assim como hoje me sinto criança demais. Sempre tive, em minha vida profana, a tendência a desacordos e mal-entendidos com o tempo do relógio– aliás, também com o tempo no sentido de clima, pois sou daqueles que, muitas vezes, sem perceber saem agasalhados em dia de sol e dormem de bermuda em noites geladas rs.
Não por acaso minha personalidade número 2, como diria Jung, se chama Unzuhause: a palavra quer dizer um certo "não estar em casa", um certo não-lugar, uma hiância, intervalo, parênteses que interrompem a fala regular e a remetem sempre para outro lugar, distante. E, inclusive, muitas vezes eles nem chegam a se fechar nitidamente, fazendo do dizer uma confluência e confusão de tempos e intentos.
A personalidade número 1, a do Caio, mais ligada à consciência egóica e à vida cotidiana, sempre teve essa inclinação de não-ajuste, de desencaixe, o que Unzuhause só veio acentuar. Foi com o soberano de minha Roma felliniana interior, Caius Magus Caligulae, um dos avatares e nomes de Unzuhause–pois Unzuhause é o ser de mil nomes, por não ter nome nenhum-, que vivi, anos atrás, uma iniciação na Verdade de que a atmosfera do dia-a-dia é irrespirável se não reatar seus vasos subterrâneos com o sonho e o tesão. Iniciação, mistério de Elêusis, que celebrei no palco, ao encenar a peça Calígula, de Camus, e fazendo o papel do imperador, este "Hamlet do absurdo", segundo o autor.
Como Vampira Olímpia me comunicou, em meus primeiros passos no estudo da psicanálise, Lacan disse que nunca teve mais do que cinco anos de idade rs. Ao sabê-lo, ri e me senti irmanado ao mestre francês neste aspecto. Pois fui velho precoce naquilo que hoje me faz infante tardio: o amor à arte, à filosofia e à própria psicanálise e psicologias. Estudei e estudo muito, sim, mas não por mera vontade de"subir na vida", mas sim também descer nela, descer às profundezas obscuras do Ser. Pulsão de saber: sublimação dos instintos (a criança adulta que fui), mas também a vontade de parir os instintos num nível mais pleno de consciência - o adulto criança que, nolen volens (querendo ou não querendo), hoje sou, que hoje é em mim e por mim.
-Unzuhause-