Tuesday, February 21, 2006

emocione-se

"O conflito gera o fogo dos afetos e das emoções e como todo o fogo, possui dois aspectos, o de queimar e o de produzir luz... A emoção é a fonte principal de realização da consciência. Sem emoção não há transformação da obscuridade em luz e da inércia em movimento".

CARL GUSTAV JUNG

Friday, February 17, 2006

O jovem poder da manhã

Poema enviado (em resposta a meu texto anterior, "o Sol no porão") por uma nova e já queridíssima amiga, Patrícia, terapeuta e xamã que sabe deixar seu profundo coração sair pela boca:

"Contempla o sol
Na hora da meia-noite
Com pedras edifica
No fundamento sem vida

Acha então na decadência
E na noite da morte
O reinício da criação,
O jovem poder da manhã

Deixa as alturas revelarem
O verbo eterno dos deuses;
As profundezas devem conservar
O tesouro repleto de paz.

Vivendo das trevas,
Cria um sol,
Tramando na matéria
Reconhece o gozo do espírito."

(R. Steiner)

Obrigadíssimo, Patrícia, e que o verbo eterno dos deuses continue tendo em você um vaso tão sensível para florescer . Beijos

Tuesday, February 14, 2006

o Sol no porão

Uma das mais belas poesias já inventadas pelo gênio religioso do homem se encerra pedindo que não caiamos em tentação e sejamos livres do mal. Enquanto apelo utópico por elevação espiritual e moral, por um ir além da miséria do pecado, é perfeitamente compreensível. Mas na experiência cotidiana estamos longe, santificados ou não, de qualquer imunidade ante os perigos da negatividade. A começar pela própria angústia radical do estar vivo. Do estar suspenso entre esses dois grandes Nadas do que vem antes e depois da efêmera existência. E do estar imerso no Nada da própria existência, este escoar implacável do tempo. O redemoinho das ilusões, ignorâncias e desejos torna difícil todo anseio por beatitude, mal podemos enxergar dentro e fora de nós em meio à tempestade de (pre)ocupações, que tanto obscurecem, atormentam, sobrecarregam. Não temos angústia, a "somos", enquanto criaturas eivadas de desejos e temores. E Cristo não ensina o pedido de que sejamos livres dela. Ao contrário, conviveu com estas sombras ao longo de sua luminosa trajetória, da tentação no deserto ao desespero da cruz. E sua ressurreição, após a descida aos infernos, tampouco propiciou a seus discípulos garantias contra as perseguições e frustrações. O inferno, assim como o céu, está entre nós no aqui-agora da Terra. É pois um dos recantos de nossa moradia existencial. Não pode ser deixado às traças e baratas, e só "descoberto" como uma horrenda habitação a que fôssemos precipitados por cruéis seqüestradores. Tratemos de abrir as portas e janelas deste porão, limpemos as teias de aranha, coloquemos ali um lindo vaso de flores, deixemos a luz do Sol entrar. Como as Erínias da lenda grega, que os monstros da dor sejam também reverenciados em nossas festas e possam assim abençoar a cidade, ou a multidão de "egos" ou forças que nos cindem e requerem nossa atenção e amorização. Se somos angústia, a vivamos plenamente, na "plenitude" falhada de nossa frágil condição humana e de sua iluminação possível. Não nos iludamos com pseudo-"libertações" ante o fundo sem fundo da voragem absurda de que emergem nossos cenários temporários de beleza e sentido. Ao contrário, sob este contraste tais cenários crescem em dignidade e profundidade.