Tuesday, September 20, 2005

o canário e a lagartixa

O sonho, assim que acordo, é tão evanescente quanto a vida do peixe atirado para a beira da praia sob o sol abrasador da manhã. Raramente eu retenho mais do que fragmentos de histórias, ou menos que isso: imagens isoladas, que não sei se são títulos, resumos ou meras notas de rodapé de um texto para sempre perdido. Mas nem isso me impede de ser um amante inveterado desses mistérios noturnos. Não por algum tipo de clichê romântico das "profundezas da alma" -já perdemos muito tempo com esse tipo de fetichismo da interioridade, como se no "inefável" da psique houvesse alívio possível para a morte dos deuses antes visíveis no céu e na História. Não, também o ser humano é, como mostra Sartre, um vazio, é sempre "para fora", habita casas alheias (as coisas e pessoas com que interagimos no mundo). É uma "casa vazia", como diz o título de um filme bizarro em cartaz em SP. Um filme, aliás, repleto de rico simbolismo a respeito da nossa agonia de viver vidas alheias, de encontrar alhures uma "identidade" que nos falta no nosso "dentro", se deixado a si próprio. Somos visceralmente um ser "unzuhause", fora de casa, somos desejo de casa e de "acasalamento". Tantos rodeios, eu eu já perco o fio inicial:o sonho. Meu propósito era tão-somente registrar qual sonho, qual "peixe" agonizante pulou para a praia de minha lembrança hoje de manhã. Como sempre, um trecho esparso, um significado solto, um resíduo em que, porém, reconheco de certo modo o Todo de um momento de vida cindido entre esperanças e angústias: canarinhos e lagartixas misturados, semelhantes em seu formato e em seu amarelo -cor tanto do ouro quanto da palidez . Eu queria mas não podia distingui-los, até que um canarinho voou.

Saturday, September 17, 2005

o som e a fúria

Em tempos -maus tempos, muito maus- de Katrinas, Ofélias, Tsunamis e outros surtos de revolta da natureza, soam ainda mais ruinosas declarações como a seguinte: "Precisamos conviver com a modernidade. Quem quiser ouvir barulho de passarinho precisa morar fora de São Paulo". O "decreto" é de autoria de um empresário do ramo dos helicópteros, falando, em reportagem recente, da queixa de paulistanos contra o ruído infernal com o qual essas máquinas (de uso cada vez mais banalizado) minam a paz psíquica dos moradores de edifícios em áreas como a da Avenida Paulista, Pinheiros etc. Nem mesmo os céus já são limite para a ignorância agressiva desta nossa "modernidade" tecnocrática. Pascal se dizia aterrorizado pelo silêncio dos espaços infinitos. Vivo estivesse, talvez o temor do grande gênio de Port Royal fosse outro, pois, em nossos maus tempos, o silêncio se extingue, bem como a Palavra, sob a enxurrada de ruídos autorítários da insanidade e da ganância.

Saturday, September 10, 2005

uma lenda indiana

Era uma vez uma tigresa grávida e faminta, que caminhava errante pela floresta à procura, desesperada, de algum alimento. Depara então com um grupo de cabras selvagens, e não tem outra alternativa senão atacar. As cabras correm em debandada. E a tigresa, com os movimentos atrapalhados pelo barriga enorme, não consegue persegui-las e, esgotada, cai na relva, contorcendo-se de dores. Dores de parto e dores de morte. Minutos depois, as cabras retornam, e vêem um filhotinho de tigre desprotegido, choramingando, diante do corpo da mãe. Apiedam-se e decidem que vão criá-lo. Os meses se sucedem, e o filhote de tigre vai cada vez mais ficando parecido com as cabras: apesar de seus dentes pontiagudos, se acostuma a comer das mesmas folhinhas de pasto. Aprende a linguagem das cabras. A dieta vegetariana, inclusive, lhe traz uma debilidade física que reforça a notável doçura de seu temperamento.Até que, um dia, um tigre velho e feroz, que passava na redondeza, vê o grupo e o ataca. De novo, o pânico, a fuga das cabras. Mas o jovem permance ali, sem medo ainda que surpreso. Tão surpreso quanto o invasor. "Que fazes aqui?", pergunta este último. A resposta vem na forma de um berrinho de cabra, que o irrita ainda mais: "Por que emites esse som estúpido?", exclamou, num rugido indignado. "Por que te iludes pensando ser um cabrito?" O tigrezinho continuava perplexo. O tigre velho então salta sobre ele e o arrasta consigo para seu covil, e lá o obriga a comer de uma carne crua e sangrenta. A princípio, o filhote lança um gritinho de protesto ou clemência, a fera porém não se comove, exige que ele coma. O filhote se debate com aquela carne, não consegue pô-la na boca, vai esboçar outro berro, até que, porém, começa a provar do sangue da carne. Subitamente excitado, mastiga com mais e mais avidez. A carne, o sangue, iam lhe dando uma euforia inexplicável. Ele comeu tudo, não deixou rastro, e soltou ao final um rugido intenso de satisfação, um tipo de som que ele que nunca antes imaginara poder sair de sua boca.O velho tigre, que o observara severo durante esse tempo, então lhe indaga: "Agora realmente sabes quem é?" E acrescentou: "Venha! Vamos caçar juntos!"

Saturday, September 03, 2005

linguagem sensual

Acabo de ler uma inspiradora reflexão do místico Jacob Boehme, a respeito da "linguagem sensual". Uma linguagem sensual porque plenamente sintonizada com a natureza, com o mundo sensório, com o corpo. Uma linguagem que não mata a sensibilidade para atingir a "verdade" conceitual e abstrata. É a linguagem que as águias e serpentes, que os tubarões e tigres não falam, e sim atuam, a linguagem que o homem calou, no corpo e na alma, após a Queda do Paraíso. Ou, leitores pós-freudianos que somos, após a queda no "princípio da realidade" e o início da vida dita "civilizada", com suas múltiplas tecnologias da neurose e da repressão . Segundo Boehme, o homem precisa de uma transformação alquímica, um "segundo nascimento", para que volte a falar essa língua primordial. De novo, um conceito mítico vem, talvez, antecipar o que certas vertentes de psicanálise ensinariam séculos depois: pois não precisaríamos voltar à infância para reaver nossos instintos e "curar" a história da distorção desses instintos? Assim "renasceremos" com uma maturidade de adultos nutrida com o sentido de liberdade e de gozo "polimorficamente pervertido" -isto é, Gozo Absoluto- típicos da criança. Quiçá a "linguagem sensual" de Boehme pudesse nos libertar não só da pseudo-linguagem calculista e burocrática, boçal e violenta, mas também desse outro simulacro de expressão "sensual" que é a vulgaridade pornográfica, esse veneno alucinatório que não passa de um "alívio" e reprodução das castrações da sociedade moderna.

Wednesday, August 31, 2005

Evoé, Roberto Freire!

Foi bonita a palestra de Roberto Freire, o célebre autor de "Sem Tesão Não Há Solução" e criador da Somaterapia, ontem na PUC. Ele continua aquela figura carismática e enamorada da vida, que notamos em seus textos. Aliás, nada me alegra mais do que as pessoas para quem idéia e existência são duas facetas de um mesmo caso de amor pelos mistérios do mundo. Entre tantas reflexões profundas sobre a necessidade de o homem encontrar suas originalidade -o que passa pelo repúdio das engrenagens autoritárias de uma sociedade como a nossa-, algo me chamou a atenção, em especial. Já nos momentos finais da palestra, ele comentou que, após um grave acidente, tem passado momentos difíceis, por causa das insistentes dores físicas. Nada mais irônico, em se tratando de alguém que tanto nos fez (e faz) ver o corpo como fonte de prazer, de felicidade e de comunhão com os outros, com o mundo, com o espírito. Mas Roberto, aos tantos estudantes que nos apinhávamos, ávidos, na sala no quinto andar da universidade, deu mais uma lição preciosa de sua sabedoria tesuda: nada de chororô, e nada de uma pseudo "exultação" alienada e decadente. Lúcido e com ar sério, falou de sua dor como uma realidade, sim, mas que cabia enfrentar com uma "realidade" ainda maior: a do desejo e da arte. Contou de uma recente música que compôs com os filhos, e inclusive a pôs pra tocar. Na canção, de que fez a letra, diz : "Como demora a morrer a juventude em mim" e "Se recomeço a amar, então me afasto do fim". Evoé, Roberto. Em você, como em Zé Celso, vejo "velhos mestres" -um dos arquétipos do inconsciente coletivo, segundo Jung- tão mais jovens do que eu e minha geração... Autênticos avatares do deus Dionisio.

Tuesday, August 30, 2005

truco!

À espera da aula da academia, entro na lanchonete, peço um café, sento-me à mesa e abro meu livro. O ritual de sempre. Aliás, o livro, também ele, era sobre rituais das sociedades arcaicas. Mas eis que irrompe a surpresa. Três moças sentam-se ao lado. Bem jovens (vim depois a saber que vinham da aula do cursinho). A princípio, duas delas estavam discutindo. "Ih, já era a minha paz", pensei, vendo, do alto de minhas pomposas meditações, aquela ceninha infantil (uma delas se queixava da pouca atenção que a amiga lhe dispensara em alguma ocasião). Os ânimos serenam um pouco. Posso retomar a leitura. Mas logo viria nova perturbação lá da "planície": desta vez, um chamado dirigido a mim por uma das moças: "Ah, nosso amigo aí tá estudando, né?!". O que ela queria, em resumo, é me chamar pra compor com ela uma dupla para uma partida de truco contra as outras duas. Topei. O problema é que mal sei dizer o que é "cortar o baralho", tamanha minha "experiência" e destreza no jogos de cartas. A moça que me convidou se encarrega de explicações, rapidíssimas, como se se tratasse da coisa mais simples do mundo. Perdido no espaço, mas mantendo a pose, eu sigo todas as instruções da minha parceira e comandante, e encaro também os olhares maliciosos das adversárias, essas safadas que, várias e várias vezes, se aproveitaram de minha ingenuidade pra descobrir todas as minhas cartas e antecipar minhas jogadas! O jogo corria bem (bem mal pro meu lado), quando chega perto de nós um segurança pra lá de ranzinza, espreitando e por fim acabando com a brincadeira. Nos despedimos, eu indo pra academia, elas pensando na "balada" daquela sexta à noite, claro que no maior conflito porque no dia seguinte, sábado de manhã (!) teriam mais uma aula, ou melhor, uma sessão de adestramento, para o vestibular. Como as três fiandeiras gregas do destino, essas três jogadoras, porém, é que me deixaram uma aula , naquela tarde. Aula sobre o jogo, a malícia, a esperteza e a generosidade que fazem a vida valer a pena. Naqueles instantes mágicos que vivemos juntos, foram vocês a montanha, e eu a planície, fui eu a criança, e vocês as mestras. Obrigado.

Sunday, August 28, 2005

hã???

"Unzuhause"??? Que é isso? Colhi a expressão num livro sobre o filósofo Martin Heidegger. O termo, alemão, se traduziria mais ou menos como "fora de casa". É assim que Heidegger interpreta a condição do homem que descobre em si uma fome e sede de sentido, uma atração pelo "Ser", já não satisfeita pelos comportamentos e idéias enlatados, pelo imaginário domesticado, pelo conformismo do rebanho.
Além disso, é uma palavra bela.