quinta-feira, novembro 30, 2017

o sorriso interior


SORRISO INTERIOR
-Cruz e Sousa-

O ser que é ser e jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto.
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranquila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem mágoas e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio*.

O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio.

*eflúvio: perfume, aroma, emanação de energia

segunda-feira, novembro 27, 2017

o Nirvana de Bukowski





Era uma vez um jovem "sem grandes chances e completamente desprovido de propósitos" , em viagem de ônibus pela Carolina do Norte, rumo a "algum lugar" -ou, por uma ligeira mudança na ordem dos fatores, rumo a lugar algum. Em meio à nevasca, o ônibus para num café nas montanhas. Assim como os outros (poucos) passageiros, ele entra e se acomoda. Faz o pedido, e a refeição que chega estava particularmente boa. Assim como o café. E o surpreendente fluxo de bem-estar só se amplia quando sua atenção se volta à garçonete que o atendera: uma mulher diferente de todas as que ele já conhecera. Não sabemos se  a beleza física ou atratividade sexual estava em questão, o que o encanta, ao menos é o que nos diz, é a simplicidade, a autenticidade - ausência de "afetação"- e o "humor natural" que emanavam da moça. A frigideira falava, a pia gargalhava: a lógica não mais imperava. Contemplar a moça contemplando a neve na janela foi o auge de uma experiência que o jovem desejava que nunca mais acabasse. Era tudo maravilhoso, e igualmente maravilhoso seria permanecer ali para sempre. Mas o pra sempre sempre acaba, é decreto desta lógica que sempre dá o troco nas nossas felicidades insensatas. O motorista avisou que era hora de retomar a viagem. O jovem a princípio quis resistir. Pensou de si para si:"Vou apenas ficar aqui. Vou apenas ficar aqui". Mas então se levantou e seguiu os outros até o ônibus,.Constatou, pelos gestos e conversas dos outros, que ninguém havia percebido a mágica que acontecera no café que agora ele observava ficando para trás da janela embaçada pela neve. Ele se resignou a inclinar a cabeça sobre o vidro e fingiu dormir. Não havia nada mais a fazer. 
Essa iluminação, imagem mística reforçada pelo título do poema  de Bukowski, "Nirvana", também poderia ser considerada um maravilhoso testemunho do que estamos chamando, com Maslow e Colin Wilson de as "peak experiences". 
Epifanias de que abundam os testemunhos literários e místicos ao longo da história, e que podem nos surpreender até mesmo num simples café da manhã em que, subitamente, nos damos conta da maravilha que é aquele instante, aquela criança, aquele cachorro, aquela  mulher junto de nós. Um sopro da graça, a "boa nova absurda" (Chesterton) que recobre a vida, a despeito de tudo que possa ter de maçante e maligno, de uma aura de bênção, de perfeição, de plenitude tão ilógica quanto uma pia se por a gargalhar. 
Yeats nos dá da peak experience um exemplo similar, até pela ambiência, ao do jovem do poema de Bukowski:
"Meu quinquagésimo ano veio e se foi.
Eu, um homem solitário,
Sento-me em um bar lotado em Londres.
Um livro aberto e um copo vazio no tampo da mesa de mármore.
Enquanto olhava para o bar e para a rua.
Meu corpo subitamente ardeu em chamas,
e durante mais ou menos 20 minutos,
a minha alegria foi tão grande que parecia
que fui abençoado e podia abençoar".
Um problema com as euforias passageiras é serem, infelizmente, tão passageiras, mesmo quando as desfrutamos sem o auxílio de expedientes duvidosos e arriscados, como drogas pesadas ou sexo promíscuo.  A volta para a viagem solitária em nosso ônibus de janelas embaçadas, isto é, para a vida comezinha, tende a ser especialmente doloroso, como para a pessoa cuja cegueira não é de nascença, e sim um golpe, e uma derrota, e uma perda inestimável, em algum trecho do caminho. Essa dinâmica, segundo Wilson, explica a razão de tantos fins de vida desastrosos de poetas e pintores românticos, justamente eles que tinham tamanha sensibilidade para o que o mundo podia oferecer de excepcional, para trás das cortinas de um cotidiano amaldiçoado pelo tédio e pelo absurdo.

domingo, novembro 26, 2017

da eternidade e dos figos


Pensar na minha buldoguinha octogenária (seus quase 12 anos caninos equivaleriam a algo assim na escala humana)é sempre um gatilho de sentimentos múltiplos. Alegria pela sua presença, tristeza pela perspectiva de sua ausência. Ambas as coisas, alegria e tristeza, como verso e reverso de uma mesma moeda áurea, a do amor. Afora idealizações religiosas, o "amor eterno" é uma expressão irônica em se tratando de seres não-eternos como nós. Nada é eterno, senão enquanto dura, diria um sábio. O que poderá persistir após o momento de uma separação é uma lembrança afetuosa e lancinante, uma nostalgia pungente aguçada pelos ícones da ausência do ente amado. No nosso caso, seus itinerários habituais entre os móveis de casa, a chaise em permanente disputa entre mim e ela, por exemplo, ou os passeios, as conversas, os carinhos. Fotografias, claro, e é estranho como elas sempre me trazem certa tristeza, independentemente de retratarem ou não pessoas ou situações já pulverizadas pelo tempo. Aliás, toda fotografia tem algo de mortuário, é o flagrante de um instante que jamais se repetirá.
Em luta contra a depressividade que me é natural, evoco a altivez filosófica que apregoa que a perspectiva da morte de quem ou do que mais amamos - bicho, gente ou situação no mundo-, não deveria nos afundar na tristeza antecipada, mas soar como amoroso alerta pra aproveitarmos ao máximo cada instante e nos prepararmos para a melhor resistência possível, a partir de já, ao baque da perda quando vier. 
A consciência da morte pode se transformar numa das melhores técnicas de honrar a vida. De desfrutar com cores mais intensas, assim destacadas da miopia embaçada do tédio, o milagre do instante que passa. Disse Epicteto, expoente de uma doutrina, o estoicismo , que sempre enfatizou que a felicidade depende de aceitarmos e pensarmos com coragem o lado escuro da vida: "Sempre que você se afeiçoar a alguma coisa, não aja como se fosse uma dessas coisas que não podem lhe tomar, mas pense nela como um jarro ou uma bola de cristal (...). Se você beijar seu filho, seu irmão, seu amigo (...) lembre-se de que você ama um mortal, algo que não lhe pertence, que lhe foi dado no momento presente, nem inseparavelmente nem para sempre, mas como um figo, ou um cacho de uvas, numa determinada estação do ano".

quarta-feira, novembro 22, 2017

o menino, a estátua e o céu


A cena de "Amélie Poulain" evocada na foto acima é interessante em mais de um sentido. Primeiro, por mostrar um menino que simboliza uma espécie de arauto, um mensageiro, portador, como nos contos de fada, de uma advertência decisiva para a "metanoia" (conversão, mudança de atitude, saída da zona do equívoco) do herói: era preciso ao par romântico de Amélie  olhar diretamente para o "céu", ou seja, para a realidade, para a amplidão da vida, do devir, deixando um pouco de lado a malha de signos e de fantasias que, se não inspiram o movimento eficaz, acabam por ser agentes de paralisação (o dedo apontado para o céu ser o de uma estátuaq). Esse é um dilema que está no âmago do filme como um todo, vide uma de suas frases mais "memetizadas" na internet, algo como "este não é um tempo favorável para sonhadores". 
Tal sentença é obviamente crítica a nossa cultura pragmática, imediatista, interesseira, pouco idealista. Mas o filme não se limita a um quixotismo ingênuo, mostrando o quanto, entre as formas como podemos exercer o "direito inalienável de estragar nossa vida", uma das piores e mais comuns é trocar a vida pela quimera. O céu pelo dedo que aponta para ele. 
É evidente a analogia com o alerta de Buda para seus discípulos, de que o dedo que aponta para a Lua não pode ser confundido com a Lua: as doutrinas, os símbolos, as palavras, as crenças, nada substitui a experiência direta. Entre nós, um haikai (forma poética típica dos mestres zen-budistas) de Millôr captou bem esse impasse:
Na poça da rua
o vira-lata
lambe a lua

segunda-feira, novembro 20, 2017

um descuido do não


Sei lá, a vida tem sempre razão
-Vinícius e Toquinho-
Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender:
A gente mal nasce, começa a morrer.

Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação.
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão.
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.
A gente nem sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe,
E o sol que desponta tem que anoitecer.
De nada adianta ficar-se de fora.
A hora do sim é um descuido do não.
Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão.
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.

quarta-feira, novembro 15, 2017